Nas últimas décadas nos defrontamos com novas formas de manifestações de sofrimento psíquico que, de certo modo, geraram desafios no campo da psicanálise. Observamos um cenário notadamente marcado tanto pela falta, quanto pelo excesso, o que remete não somente ao recalcado mas, sobretudo, a outros modos de organização psíquica, cujos processos de simbolização foram severamente prejudicados.
Estamos aqui no campo das configurações não neuróticas, denominadas como psicoses, casos-limites, borderlines, patologias do vazio, etc, casos desafiadores na clínica psicanalítica que se tornaram pertinentes na psicanálise contemporânea, de modo a promover novas reflexões, debates, releituras e modificações do ponto de vista teórico e clínico.
Laplanche foi um dos expoentes que se propôs retornar às fontes e fazer trabalhar com afinco a teoria psicanalítica, apresentando-nos algumas reformulações e novos entendimentos (Alonso, 2016). Podemos considerar que a originalidade de Laplanche repousa sobre a expansão conceitual acerca da teoria da sedução freudiana, ampliando-a para a sua teoria da sedução generalizada, além da engenhosidade de elaborar um modelo tópico unificado do aparelho psíquico (Tarelho 2016), diverso dos moldes freudianos, capaz de aproximá-lo para além dos casos neuróticos, incluindo outras configurações como as psicoses (Laplanche, 2003).
Partindo das reflexões de Laplanche (1992, 2003) acerca da importância da alteridade na constituição do aparelho psíquico, de sua compreensão sobre as mensagens enigmáticas, das possibilidades de tradução e dos efeitos sobre o psiquismo, o objetivo deste estudo consiste em apresentar uma análise do filme Precisamos falar sobre Kevin. Este filme nos convoca a refletir sobre o trauma vivido não somente pelo personagem Kevin, mas também por sua mãe Eva, focalizando principalmente a relação mãe e filho. Estamos aqui não somente no campo da infância de Kevin e das vicissitudes deste tempo no jovem Kevin, mas também, nos avatares inevitáveis que repercutem nos vínculos afetivos, sejam eles constituídos pelos laços familiares, ou sobre as demais relações intersubjetivas. É pertinente retomar a temática precisamente quando um novo massacre, desta vez numa creche na cidade Saudades (SC), comoveu o Brasil. Três crianças, de menos de dois anos, e duas professoras foram barbaramente assassinadas por um jovem de 18 anos de idade.
Um pouco sobre Laplanche: a teoria da sedução generalizada e a situação antropológica fundamental
A notoriedade de Jean Laplanche é amplamente vinculada ao Vocabulário de Psicanálise, importante obra em co-autoria com Jean B. Pontalis, resultante de uma extensa pesquisa sobre os conceitos freudianos (Alonso, 2016). Expoente da psicanálise francesa e um dos discípulos de Lacan, após o rompimento com este, Laplanche, de certo modo, inaugura uma forma diversa de fazer a psicanálise trabalhar (Alonso, 2016). Cuidadosamente o autor faz um retorno aos textos freudianos, isto é, regressa às fontes, revisita conceitos, retomando-os sob perspectivas diferentes, deixando claro que não se trata de uma nova psicanálise, mas de “retornar aos fundamentos para renová-los” (Laplanche, 1992, p. 3).
É o que acontece com a teoria da sedução de Freud. Denominando-a como teoria da sedução restrita, Laplanche (1992) aponta as defasagens da leitura freudiana sobre este tema, compreendido sob a perspectiva da “factualidade da sedução” (p.113), no qual haveria um abuso concretamente cometido por um adulto perverso (supostamente o pai), além de ressaltar outro ponto frágil e até mesmo simplista na teoria da sedução, subordinada ao nível da psicopatologia (Laplanche, 1992; Tarelho, 2012).
De acordo com Tarelho (2012), o abandono desta teoria por Freud foi decisivo para a formulação de suas investigações acerca das fantasias inconscientes e dos desdobramentos teóricos subsequentes, relativos à sexualidade infantil. Questionando o reducionismo imaginário e o rumo biologizante pelo qual o pai da psicanálise se apoia para desenvolver suas ideias sobre as fantasias, Laplanche (1992), de certo modo, retira a teoria da sedução de seu estado de congelamento (Tarelho, 2012) e preenche algumas lacunas apresentando-nos a teoria da sedução generalizada.
Laplanche (1992) se inspira no pensamento ferencziano, ao mencionar que no encontro inevitável entre o adulto e a criança há uma relação assimétrica, uma vez que temos um adulto com seu inconsciente e sua sexualidade infantil recalcada e uma criança que “entregue a si mesma, é incapaz de ajudar-se por conta própria” (Laplanche, 1992, p. 104), mas cujo processo de constituição do aparelho psíquico está em andamento (Ferreira & Mello Neto, 2017). Esta situação, denominada situação antropológica fundamental - SAF - é universal, isto é, em todas as sociedades as crianças são cuidadas por adultos, independentemente dos graus de parentesco (Laplanche, 1992, 2003).
Considerando a sedução como uma premissa inquestionável, Laplanche (1992) oportunamente ressitua a sedução precoce da mãe/adulto, “veiculada pelos cuidados corporais dispensados ao filho” (p. 128), em um lugar de destaque. Mas, de acordo com o autor, não se trata apenas de cuidados corporais. Circulam significantes comportamentais, verbais ou não, sensoriais, definidos por Laplanche (1992), como mensagens enigmáticas. Estas mensagens transmitidas pelos pais à criança, por meio de palavras, mas também de gestos, olhares, toques, tom da voz etc., são enigmáticas para a criança, que se encontra em uma posição passiva, diante de um adulto cujo psiquismo é mais rico do que o seu.
A grande questão, para Laplanche (1992, 2003), não se refere ao confronto entre diferentes linguagens mas, sobretudo, ao sentido ignorado nestas mensagens: elas são mensagens pré-conscientes/conscientes transmitidas pelo adulto, porém comprometidas pelo inconsciente, pela sexualidade infantil dos pais, contendo aspectos da sexualidade perversa polimorfa que foram recalcados e, portanto, são obscuras/enigmáticas para eles próprios.
Sob este vértice, Bleichmar (2009) - importante expoente das ideias de Laplanche e que, de certo modo, desdobra-as, revelando novas formas de pensamento - igualmente se refere aos efeitos deste encontro no adulto, decorrente do intercâmbio com a criança. Para a autora, o adulto não se abstém das vicissitudes deste encontro/desencontro com a criança. Inexoravelmente esta relação é sobredeterminada pela “inquietante estranheza do alheio-próprio reencontrado” (Bleichmar, 2009, p. 12, tradução nossa), isto é, haveria um sentido ignorado em si mesmo, denominado pela autora como “mensagens desqualificadas” (p.38).
Demarcando a importância da função materna (sem excluir a possibilidade do pai exercer tal função), Bleichmar (2009) enfatiza a dupla comutação existente no exercício desta função: ao mesmo tempo que a mãe alivia as tensões biológicas, circunscritas ao nível autoconservativo, introduz outras tensões, um “plus de prazer” (p. 12), cujas inscrições deixam marcas que podem permanecer ou não como signos de percepção no psiquismo infantil.
Em continuidade ao pensamento laplancheano e, considerando a perspectiva da criança, na condição inicial de passividade ela não é capaz de processar as mensagens comprometidas, provenientes do outro (Ferreira & Mello Neto, 2017). Ela se “vê invadida por um excesso que não tem condições de conter” (p. 181), adquirindo um caráter traumático, “impondo uma exigência de trabalho ao psiquismo” (Lattanzio, 2018, p. 112).
Para Laplanche (1997), estas mensagens chegam à criança por meio de dois processos: pela implantação e intromissão. Na implantação, os significantes enigmáticos transmitidos pelo adulto fixam-se na derme psicofisiológica da criança, uma vez que ela ainda não tem seu ego constituído como instância. Trata-se neste momento do ego-corpo, onde as mensagens implantadas não geram grandes irrupções no invólucro pois fixam-se nas zonas erógenas. Já na intromissão, as mensagens invadem a criança de forma violenta e abrupta, e agem como um corpo estranho impossível de ser metabolizado, uma mensagem que se assemelha à mensagem original (Laplanche, 2003). De acordo com Cardoso (2017), são mensagens que não foram metabolizadas pelo próprio outro (adulto), sendo disruptivas também para o mesmo.
As mensagens enigmáticas, comprometidas pela sexualidade do adulto, criam “uma quantidade de excitação que passa a exigir uma ação do incipiente aparelho psíquico, uma tradução” (Lattanzio, 2018, p. 124). Será mediante um trabalho de tradução ou simbolização que tais mensagens serão dominadas e compreendidas pela criança, independentemente da natureza (implantadas ou intrometidas) das mensagens enigmáticas (Laplanche, 2003).
De acordo com Laplanche (2003), esta tentativa de traduzir as mensagens ocorre em dois tempos: no primeiro tempo a mensagem enigmática é implantada, inscrita, isto é, em um primeiro momento a criança recebe passivamente a mensagem sem compreendê-la. Os significantes enigmáticos transmitidos pelo adulto, instalam-se no corpo da criança, “sob a pele” (p. 407), viabilizando um Eu-corporal, onde as mensagens enigmáticas ficam em estado de espera, no inconsciente encravado. No segundo tempo, “a mensagem é revivificada do interior. Ela age como um corpo estranho interno que é preciso a todo preço integrar, controlar” (Laplanche, 2003, p. 407). É neste segundo momento da tradução propriamente dita, onde pode se considerar a natureza da mensagem, visto que se elas forem mensagens intrometidas serão rebeldes ao processo tradutivo ou, em casos extremos, impossíveis de tradução.
Diante da prematuração psíquica da criança, onde seus “códigos inatos ou adquiridos” (Laplanche, 2003, p. 407) são insuficientes para compreender as mensagens, ela poderá recorrer a esquemas, ou novos códigos, improvisados por ela e também fornecidos pelo seu ambiente, denominados por Martens (2007) de assistentes de tradução, como por exemplo: os modos como a diferença entre os sexos é codificada, o mito da cegonha utilizado enquanto recurso para a explicação do nascimento dos bebês, o mito de Édipo (Carvalho, 2016), assim como outros esquemas narrativos pré-formados, que fazem parte do universo mito-simbólico, que se modificam de acordo com cada sociedade, cada cultura, ao longo dos tempos.
É oportuno fazer um parêntese para apresentar algumas contribuições de Bleichmar (2009) a respeito do processo tradutivo. Segundo a autora, como o aparelho psíquico da criança ainda não têm as vias de ligação e escoamento constituídas, é o outro adulto que introduz tais vias colaterais de descarga e ligação das excitações. Observamos que Bleichmar diverge do pensamento de Laplanche, ao considerar que não é a criança que inicia o processo tradutivo, mas sim o adulto.
Inicialmente, estas vias de ligação relacionam-se aos afetos e cuidados dispensados ao bebê, como, por exemplo, a forma de sustentar delicadamente a cabeça, as carícias nas mãozinhas, as formas acolhedoras de envolver o bebê em contato com o corpo materno. Tais movimentos geram vias de ligação que possibilitam a instalação da alucinação primitiva, a inscrição de marcas, assim como proporcionam as primeiras vias de descarga dos movimentos pulsionais fundantes. Para tanto, é necessário que a mãe/adulto seja capaz de sonhar seu filho, de vê-lo como um todo. Este sonhar, obviamente, é atravessado pelo narcisismo da mãe e, por isso, a autora nomeia este movimento como “narcisismo transvazante da mãe” (Bleichmar, 2009, p.12, grifo e tradução nossa). Contudo, e, recordando a universalidade da situação antropológica fundamental, isso vai além do paradigma mãe-bebê, visto que o narcisismo parental independe de relações de parentesco.
Bleichmar (2009), de certo modo, avança nas formulações teóricas de Laplanche ao enfatizar que a habilidade de traduzir não corresponde a um atributo inato do bebê. Outros autores como Ribeiro, Dejours, Tarelho, Cardoso e Martens (citado por Lattanzio, 2018) igualmente formularam novas hipóteses e ampliações sob a perspectiva laplancheana.
Mas voltemos a Laplanche (2001, 2003) ressaltando que as traduções não serão meras reproduções ou cópias das traduções do adulto, aliás, será somente no après-coup que teremos maior clareza sobre a natureza da mensagem e, por consequência, das possibilidades de tradução.
O après-coup - termo utilizado por Laplanche (2001) e elevado à categoria de um conceito, cujo significado é proveniente de um amplo estudo acerca do termo Nachträglichkeit, utilizado por Freud - relaciona-se à temporalização, não linear, mas dialética, da temporalidade, no sentido progressivo e regressivo (Gerbasi & da Costa, 2015). A noção de après-coup, para Laplanche (2001), abrange a realidade da mensagem (verbal ou não-verbal), emitida pelo adulto nos cuidados com a criança que, a seu modo, tentará decifrar/traduzir o enigmático. Este movimento, cuja temporalidade dialética direciona-se de forma retrógrada e progressiva, implica um processo de tradução-destradução-retradução no qual o après-coup trabalha.
As traduções ou tentativas de traduções têm “por função fundar no aparelho psíquico um nível pré-consciente” (Laplanche, 2003, p. 407, grifo do autor), que corresponde essencialmente ao Ego/Eu e, como tal, representa a historicidade do sujeito de um modo coerente para ele. Porém, a tradução da mensagem é um processo que nunca será realizado plenamente, visto que está comprometida pelo inconsciente (sexual) desconhecido pelo próprio emissor (adulto), sofrendo também uma deformação na criança (receptora), ainda sem seu inconsciente constituído, de modo que a tradução será sempre imperfeita, havendo um fracasso parcial das traduções. Os restos não traduzidos levarão a uma cisão e, decorrente do recalcamento originário, constituirão a tópica freudiana, o inconsciente neurótico-normal. Por outro lado, os restos recalcados, continua o autor, originarão os objetos fontes da pulsão, impulsionando o ser humano a um constante trabalho de tradução ao longo da sua vida.
Por outro lado, quando nada é traduzido, configura-se um fracasso radical das traduções, é como se houvesse um corpo estranho impossível de metabolizar, como se a mensagem original se conservasse “tal qual no aparelho psíquico, implantada ou intrometida” (Laplanche, 2003, p. 408). Destaca-se aqui o caráter intrusivo, imutável e não simbolizável destas mensagens, elas, simplesmente, não são metaforizáveis e a principal modalidade defensiva neste caso é a recusa/negação (Laplanche, 1992, 2003). Estes elementos serão constituintes do que Laplanche denomina como inconsciente encravado, cujo conceito, características e causas serão explanados no tópico a seguir.
O modelo tópico do aparelho psíquico unificado de Laplanche
Podemos considerar que a originalidade de Laplanche repousa sobre a expansão conceitual da teoria da sedução restrita freudiana, que resulta na sua teoria da sedução generalizada. Obviamente, sem desconsiderar toda a sua produção e articulações advindas sobre o retorno aos escritos de Freud e, consequentemente, suas contribuições do ponto de vista epistemológico e metapsicológico, atribuímos à Laplanche a originalidade de elaborar, segundo Tarelho (2016) “um modelo tópico unificado do aparelho psíquico”, diverso dos moldes freudianos, capaz de pensá-lo para além dos casos neuróticos, incluindo outras psicopatologias como as psicoses (Laplanche, 2003).
Segundo Lattanzio (2018), a teoria da sedução generalizada permite alcançar esta visão integrada do aparelho psíquico, pois parte da Situação Antropológica Fundamental - a situação originária - e considera os destinos das mensagens enigmáticas em termos de tradução-não tradução (hipótese tradutiva), com a formulação de uma “tópica para além do recalque”, do que nasce a sua própria “teoria unificada da alma” ( p. 154 )
As constribuições de Dejours, continua Lattanzio (2018), são importantes sobretudo em torno da tópica da clivagem e o inconsciente amencial, que Laplanche incorpora na sua teoria modificando o termo inconsciente amencial, para inconsciente encravado (Laplanche, 2003;).
A noção de inconsciente, para Laplanche, não se restringe ao inconsciente recalcado postulado por Freud. Na formulação de sua tópica, Laplanche (2003) admite a existência de outro inconsciente, o inconsciente encravado. Conforme mencionamos, o inconsciente encravado relaciona-se com o fracasso radical da tradução. As mensagens presentes no inconsciente encravado são caracterizadas por sua natureza violenta, são mensagens intrusivas, intrometidas, que foram inscritas por vias mais traumáticas, particularmente de natureza superegóicas, cuja qualidade imperativa categórica torna-as por si mesmas, intraduzíveis (Laplanche, 1992, 2003). De acordo com Tarelho (2019), os significantes parentais foram inscritos/intrometidos de forma tão violenta no eu-corpo da criança, que não lhe foi possível dar sentido, simbolizar.
Mas é preciso recordar que não se trata somente desta categoria de mensagens (intrometidas), visto que no processo tradutivo produzido em dois tempos, há no primeiro tempo um momento de latência, no qual as mensagens encontram-se em “espera provisória de tradução” no inconsciente encravado (Laplanche, 2003, p. 410). Para Laplanche (1992, 1997) as mensagens implantadas poderão ser traduzidas ou recalcadas. Por outro lado, em Três acepções da palavra inconsciente, Laplanche (2003) considera que a tradução, tanto da mensagem implantada ou intrometida, pode sofrer um fracasso radical e, neste caso, estaríamos falando sobre o inconsciente encravado. Ou seja, se refere à possibilidade do fracasso radical também de mensagens implantadas.
Em desacordo com a concepção de Laplanche sobre este duplo aspecto presente nas teorizações sobre o inconsciente encravado, Lattanzio (2018) aponta o seguinte:
Qualquer concepção de reservatório a traduzir, portanto, se coloca necessariamente no âmbito da implantação, e esse elemento se tornaria encravado (quando for o caso) a posteriori - não podemos chamar de encravada uma mensagem que ainda não se mostrou impossibilitada de tradução. Dessa forma, preferimos utilizar a nomenclatura amencial/encravado para nos referir às mensagens cuja tradução já se mostrou radicalmente falha, seja logo de início (intromissão) quanto no ato radicalmente falho de sua retomada após a implantação (que não deixa de ser uma intromissão après-coup). Essa é, pois, a especificidade do conceito. (Lattanzio, 2018, p. 167, grifos do autor)
Divergências à parte, o fato é que ao propor seu modelo de aparelho unificado, Laplanche (2003) apresenta um modelo de psiquismo que pode ser generalizado a todos os indivíduos. Referendando-se pelo conceito de clivagem proposto por Freud em 1938, no artigo intitulado A clivagem do ego, Laplanche (2003) elabora em sua tópica a presença dos dois mecanismos defensivos, tanto do recalcamento (campo neurótico), quanto da recusa (campo psicótico ou perverso) presentes em todo indivíduo, de modo diverso ao modelo freudiano, aplicado somente em certos indivíduos.
Este modelo tópico unificado compreende duas partes: o inconsciente recalcado/pré-consciente e o inconsciente encravado. Ainda que as duas partes sejam desconhecidas/ignorantes uma da outra, há passagens entre elas, isto é, o limite é flutuante, de acordo com cada pessoa, considerando as particularidades da vida de cada uma. Há o limite da clivagem, que separa os processos de defesa ou melhor, as possibilidades “de tradução/não tradução” (Tarelho, 2016). Este limite pode ser transpassado quando há um novo processo de tradução, como por exemplo no processo psicoterapêutico de casos psicóticos, assim como também sinaliza a possibilidade de uma “descompensação delirante em qualquer ser humano” (Laplanche, 2003, p. 412).
No caso de um neurótico normal, o espaço reservado ao inconsciente recalcado é maior que o destinado ao inconsciente encravado. Tal configuração se inverteria no caso das psicoses, o que não impede mudanças nesta conformação, pois a linha que demarca a clivagem é apenas temporária, uma vez que a tradução/simbolização ocorre no après-coup (Tarelho, 2016).
Concluindo, podemos falar de três tipos de mensagens que constituem o inconsciente encravado: mensagens que sofreram um fracasso da tradução; mensagens ainda não traduzidas, à espera de tradução e mensagens destraduzidas, à espera de uma nova tradução (Laplanche, 2003). Observamos então que as diferentes modalidades das mensagens (implantadas, intrometidas) assumem arranjos diversos na tópica formulada por Laplanche. Arranjos nem sempre compartilhados pelos teóricos que fizeram avançar as reflexões do autor, conforme já mencionado neste estudo.
É oportuno refletir sobre quais seriam as possíveis causas do fracasso radical na tradução. Apesar de admitir a possibilidade de uma multiplicidade de fatores, Laplanche (2003) discorre sobre alguns elementos relacionados à transmissão intergeracional e menciona algumas perspectivas a serem consideradas, tais como: o ponto de vista da qualidade da própria comunicação, a perspectiva da estrutura da mensagem e o ponto de vista da criança, isto é, do receptor(a) da mensagem. É exatamente sobre estas questões, não exploradas por Laplanche, que Tarelho (2019) irá refletir, dando-nos mais subsídios para compreender sobre certas especificidades das mensagens, e para pensar nas possíveis falhas na tradução.
Sob a perspectiva da situação antropológica fundamental, as mensagens provenientes do adulto para a criança sofrem distorções em seu percurso, de modo que esta última está exposta às mensagens que Tarelho (2019) chama de paradoxais. Tais mensagens estão presentes em modos específicos de comunicação, denominadas pela expressão de duplo-vínculo, ou como melhor sugere o autor, duplo-entrave. Cabe ressaltar que o uso dos termos paradoxos e duplo vínculo/entrave são provenientes dos estudos de pesquisadores da Califórnia, da Escola de Palo Alto, que influenciaram as investigações de Tarelho acerca das particularidades das mensagens enigmáticas.
E quais seriam os atributos das mensagens paradoxais? De acordo com Tarelho (2019) elas caracterizam-se por serem mensagens paralisantes, injunções, que impedem possibilidades de saída na perspectiva de tradução/recalque. Podemos compreendê-las enquanto comunicações, tanto explícitas quanto implícitas, que ocorrem em relações onde ao menos um dos integrantes encontra-se numa situação de dependência, de modo que ao destinatário das mensagens paradoxais não resta saída, visto que as próprias mensagens o aprisionam, impossibilitando qualquer possibilidade de escolha (Tarelho, 2019). Alguns exemplos de paradoxos seriam as frases: “seja espontâneo”; “não leia este texto”; “esta afirmação é falsa”. Observamos nestes casos uma armadilha, a própria mensagem impossibilita uma saída, ou seja, “é a falência da própria escolha” (Said, Lima & Alves, 2017, p. 77). Além disso, outra característica interessante acerca da comunicação paradoxal é a desqualificação da autopercepção, sobretudo no que diz respeito ao afeto, à sensação e ao pensamento (Tarelho, 2019).
Se pensarmos, então, na situação antropológica fundamental, a criança, invadida pelo excesso paradoxal do outro, poderá vivenciar um estado de confusão de sensações, sentimentos e pensamentos, podendo ocasionar um efeito aniquilador sobre o ego ainda em constituição. Trata-se, neste caso, da lógica do paradoxo, muito diferente de algo da ordem da formação de compromisso, visto que o dilema é intransponível, indecidível. Isto inevitavelmente reverberará no próprio circuito pulsional, implicará em prejuízos no fechamento narcísico, na constituição do eu e do supereu (Tarelho, 2019).
Com as investigações relativas ao duplo-entrave, expressão esta estritamente vinculada às mensagens paradoxais, o que Tarelho (2019) amplia, no que se refere à teoria da sedução generalizada, é de que no âmbito das psicoses as falhas no processo tradutivo não estariam ligadas somente aos processos de intromissão (recordando que as mensagens implantadas podem também, em estado de espera, sofrer um fracasso radical na tradução). Para o autor, a intromissão não abarca a discussão acerca dos paradoxos, pois “a ideia de intromissão deixa escapar algo essencial dos duplos entraves, que é o fato de que a sexualidade é introduzida na exata medida de sua negação” (Tarelho, 2019, p. 66). Neste ponto, no que diz respeito à inoculação da sexualidade pela lógica das mensagens paradoxais, Tarelho amplia as reflexões laplancheanas, pois não haveria, neste caso, enigma cuja inscrição exigiria do psiquismo um trabalho de tradução, tampouco estaríamos no campo da atuação, no âmbito de uma recusa da sexualidade. O termo “contraimplantação-intromissão” é utilizado pelo autor para descrever este processo, esta lógica paradoxal, que “ocorre na contramão da implantação e vai além da intromissão” (Tarelho, 2019, p. 66).
Observamos que Tarelho (2019) nos mostra outras vias de compreensão sobre as mensagens intrometidas em consonância com a mudança paradigmática proposta por Laplanche, a qual inclui a importância da alteridade na constituição do psiquismo. De certo modo, pelas investigações de alguns autores aqui citados como Tarelho, Bleichmar, Cardoso e de tantos outros, contemplamos a fertilidade de uma linha de pensamento que, independentemente das aproximações e afastamentos, nos possibilitam novas traduções e retraduções, efeitos estes que certamente seriam apreciados por Laplanche.
Cinema e psicanálise
Em continuidade às possibilidades de elaboração, este estudo parte de uma produção cinematográfica, o filme Precisamos falar sobre Kevin, que se constitui como o nosso objeto de estudo e o analisamos de acordo com o referencial teórico laplancheano. Este filme se inspira nos trágicos acontecimentos de Columbine, em 1999, onde dois estudantes assassinaram 12 estudantes e um professor, além de deixarem muitos feridos. E continua inspirando outros ataques...
Enquanto manifestação cultural, o cinema emerge como potencialidade para possíveis significações. Considera-se, então, que uma pessoa, diante de uma obra artística, seja ela um pesquisador ou espectador, irá interpretá-la de acordo com seus próprios referenciais. Assim, um filme que apresenta toda uma linguagem cinematográfica, um enredo manifesto, revelando as idiossincrasias dos personagens, pode ser interpretado de múltiplas formas e ganham um sentido diverso sob a perspectiva psicanalítica.
Estamos, portanto, no campo da pesquisa psicanalítica circunscrita a outros espaços, não necessariamente pertencentes ao âmbito da clínica e neste ponto podemos remontar às próprias incursões freudianas em outros contextos além da clínica, presentes desde sua obra seminal A Interpretação dos sonhos - no qual por meio da tragédia de Sófocles intitulada Édipo Rei, o Complexo de Édipo foi teorizado - até outros textos, como o caso Schreber e Leonardo, Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, Moisés de Michelangelo (Laplanche, 1992). Estes estudos são representantes do que poderíamos denominar como “psicanálise aplicada” - termo este não conceitualizado por Freud, porém implícito no uso de método psicanalítico em outros campos (da Costa & Condé, 2019).
Ainda que o apreço pelas artes clássicas esteja presente em alguns momentos das teorizações de Freud, seja pela escultura, teatro, pintura ou obras literárias, ele sequer menciona o cinema em seus escritos (Mano & Weinmann, 2019; Weinmann, 2017). Fato este intrigante, pelo motivo de ter vislumbrado a interlocução entre psicanálise e outros campos, como a filosofia, biologia, sociologia ou educação e, principalmente, pelo curioso fato de que as intersecções entre psicanálise e cinema remontam a um ano específico - 1895 - considerado como um marco na história da psicanálise. No contexto psicanalítico, 1985 foi um ano memorável pela publicação de Estudos sobre a histeria, por Freud e Breuer, mas também foi considerado um ano inaugural na história do cinema, pois pelas mãos dos irmãos Lumière foi apresentado ao mundo a primeira película cinematográfica (Conte & Benini, 2019; Mano & Weinmann, 2019).
De qualquer modo, compreendendo a impermeabilidade de Freud à sétima arte, cuja mudez dos personagens desprivilegiava a via da palavra - tão estimada na psicanálise (Weinmann, 2017) -, podemos nos questionar se realmente Freud se absteve totalmente diante da linguagem pictórica, atuada e sensual do cinema mudo. A elaboração do texto freudiano O estranho, de 1919, inspirado pela publicação de O duplo, por Otto Rank - que assistira ao filme O estudante de Praga (Mano & Weinmann, 2019) -, poderia ser considerada um indício de uma possível proximidade com o cinema? Ou talvez a extraterritorialidade freudiana pelas artes tivesse percorrido caminhos mais próximos às questões identificatórias?
Questionamentos à parte, observamos que, apesar da intransigência de Freud, alguns de seus discípulos, como Abraham e Sachs, posicionaram-se de forma diversa, visto que, ao auxiliarem na construção do roteiro de um filme sobre psicanálise (Segredos de uma alma), contemplaram na linguagem pictórica possibilidades de ilustrar os acontecimentos do psiquismo (Mano & Weinmann, 2019; Weinmann, 2017).
Longe de compreender a ampliação da psicanálise em outros contextos de forma reducionista e equivocada, isto é, como se a psicanálise fosse um conhecimento pronto, acabado meramente aplicado a outras áreas do conhecimento, foi Laplanche (1992), o responsável por cunhar o termo psicanálise extramuros. A psicanálise extramuros ocupa o segundo lugar, entre os quatro lugares denominados pelo autor, que dizem respeito à experiência psicanalítica. O primeiro diz respeito à clínica, o terceiro e quarto, correspondendo, respectivamente, à teoria e à história (Laplanche, 1992). Reconhecendo sua fecundidade presente na obra freudiana, Laplanche chama a atenção para sua função, papel e importância no próprio movimento psicanalítico. Nas palavras do autor: “A psicanálise é um imenso movimento cultural e, neste sentido, é o conjunto da psicanálise que se dirige para fora-dos-muros” (p.12).
Decorridos mais de 100 anos, desde a exibição ao mundo da primeira película cinematográfica, o fato é que o próprio cinema incorporou as descobertas psicanalíticas, o que condiz com os argumentos de Laplanche (1992), ao dizer que o homem, a cultura, é também marcado(a) pelas contribuições que a psicanálise desenvolveu, assim como ela também sofre interferências dos fenômenos culturais.
Ao se realizar a análise de um filme pela perspectiva psicanalítica o pesquisador, munido de sua atenção flutuante, busca trazer uma compreensão sobre a obra, compreensão que necessariamente revela os efeitos que esta provocou em seu próprio inconsciente (Green, 1994). Assim, o pesquisador apresenta uma leitura particular, interpretada juntamente com um aporte teórico, que pode ser caracterizada como um processo tradutivo. Concluindo, o que se almeja neste estudo não é alcançar uma verdade absoluta, o que seria adverso à própria ética da psicanálise, mas sim sensibilizar ou instigar o leitor a outras possibilidades de decifrações dos enigmas, isto é, a novas traduções, destraduções, retraduções.
Um pouco sobre o filme
O filme Precisamos falar sobre Kevin é baseado na obra da escritora americana Lionel Shriver (2011) e nos convoca a refletir sobre os traumas, ao apresentar a história de um adolescente homicida, tendo como pano de fundo os inquietantes conflitos vivenciados pela sua mãe, Eva. Publicado em 2003 e transposto para as telas do cinema em 2011, o filme apresenta a história de Kevin - autor de uma chacina na escola onde estudava, além de ser responsável pela morte do pai e da irmã caçula.
Tanto no início como próximos às cenas finais do filme nos deparamos com uma narrativa visual: cortinas balançando pela ação do vento, parecendo anunciar algo incerto, desconcertante. É neste descompasso que a história é contada, onde passado e presente se mesclam em uma narrativa fragmentária, mostrando cenas da vida de Eva antes do nascimento de Kevin; imagens da vida atual na qual a raiva das pessoas, pelos crimes cometidos por Kevin, é expressada com desprezo; imagens do dia do massacre na escola, entrecortadas com cenas conflitantes do confuso relacionamento de Eva com seu filho.
Curiosamente, em alguns momentos do filme aparece a cor vermelha, estrategicamente alocada em determinadas situações, surgindo como pano de fundo em algumas cenas, como por exemplo, no mercado, onde Eva se esconde na sessão de molho de tomate. Porém, em outras cenas, o vermelho aparece como um excesso, como retratado nos corpos da multidão cheios de tomates, na pichação na casa e no carro de Eva e na cena em que está lavando suas mãos cheias de sangue. A cor contrastada nas diferentes ambientações da película, talvez com o propósito de nos lançar a uma experiência estética (Anchieta, 2019), de certa forma nos aproxima da intensa experiência sensorial de Eva.
Observamos aqui alguns códigos interessantes: culturalmente a cor vermelha simboliza o amor, o desejo, a paixão, mas também o pecado, a violência, o perigo. No filme, somos curiosamente seduzidos pelo impacto da cor, que enigmaticamente nos remete a tentar produzir alguns significados, de acordo com o contexto em que emerge. O mesmo acontece com o nome da mãe, Eva, que nos reporta ao mito da criação, ao pecado original, à culpa. Podemos pensar nestes aspectos como assistentes de tradução (Martens, 2007), que fazem parte do universo mito-simbólico (Laplanche, 2003), estando a serviço de possíveis traduções de algumas das mensagens enigmáticas que emergem no filme.
A história transcorre dentro de uma lógica contraditória e por vezes ambivalente, nos dando a sensação de adentrarmos no sonho ou no pesadelo de Eva. Imagens de uma mulher feliz entre corpos encharcados de tomates esmagados contrastam com frases acerca da índole maldosa do filho; cenas de uma casa depredada e pichada com tinta vermelha, provavelmente feito por antipatizantes, contrapõem-se com lembranças do marido e filha dançando na casa nova. Multidão e solidão. Felicidade de uma relação a dois e tristeza com o nascimento do filho. Choro de um bebê que angustia e alívio com o som de uma britadeira que parece acalmar mais a mãe do que a criança. Assistimos a uma série de imagens que nos rementem a sensações de prazer e desprazer, capturando-nos nos paradoxos de nossa própria pulsionalidade.
Como a análise de um filme está ligado a um processo secundário, é necessário seguir uma lógica de pensamento organizada, a fim de mostrar possíveis reflexões deste filme à luz das contribuições teóricas de Laplanche, principalmente no que diz respeito à teoria da sedução generalizada. Para tentar compreender sua história, Eva escreve cartas para o marido morto (fato este que só aparece no livro), o que pode ser considerado uma possível tentativa de tradução da vivência traumática (Laplanche, 2003) ou até mesmo uma destradução, pois o caminho que Eva busca para dar sentido à sua história remonta em direção ao passado, para possivelmente encontrar novas retraduções.
O filme retrata Eva em vários momentos de sua vida, destacando um antes e depois de Kevin nascer. A vida independente, compartilhada somente com o marido, baseada em ligações construídas em torno da sexualidade (inconsciente) infantil do casal, desmorona com a descoberta da gestação, não desejada por Eva, que parece sentir-se desconfortável consigo mesma, destoando quando está junto a um grupo de gestantes. Poderíamos pensar que, mesmo antes do nascimento de Kevin, Eva desqualifica seu próprio corpo. O filho em seu ventre, este enigma, parece não lhe trazer sensações prazerosas, pelo contrário, lhe trazem um desconcertante estranhamento no qual a gestação tem um sentido tradutivo mortífero.
É neste contexto afetivo que assistimos ao parto de Kevin. Um parto acompanhado de intensa dor. Eva não quer que tirem o filho dela, dando-nos a impressão de que o nascimento do filho representaria a morte, um desligamento. Pensemos em Eva, na sua relação com a maternidade e nos efeitos desta experiência. Podemos atribuir ao nascimento de Kevin um caráter traumático também para a mãe, como se a criança despertasse o infantil de sua própria história, seus próprios fantasmas, aspectos recalcados de sua própria sexualidade (Laplanche, 1992). A falta de desejo de Eva em ter um filho, assim como a ausência de desejo em investir, libidinizar este bebê nos remete a problemas ligados à sua feminilidade, assim como a dificuldades vinculadas aos processos de estruturação narcísica da própria mãe. Podemos supor que as vias colaterais de ligação possam ter sido comprometidas para além do princípio do prazer, adquirindo um caráter disruptivo, de desligamento, no qual podemos inferir que o narcisismo transvazante da mãe estaria obstaculizado (Bleichmar, 2009).
Neste estado de “desligamento afetivo” observamos na relação da mãe com o filho uma série de desencontros: não há carícias, trocas de olhares, não há envolvimento corpo a corpo, Eva tampouco consegue aproximar o bebê de si nos momentos em que ele chora em seus braços. Ela parece não se identificar com seu filho, vê-lo como um todo, como uma criança frágil que precisa de cuidados. Apenas o pai, que tinha o desejo da paternidade, demonstra afetividade com o bebê, conversa com a criança e a afaga em seus braços.
Quais seriam as repercussões do desligamento afetivo da mãe ou das vicissitudes deste encontro inevitável para a constituição do psiquismo do bebê? Pela perspectiva de Laplanche (1992,2003) e, considerando-se a situação antropológica fundamental, os significantes que circulam neste encontro podem ser tanto mensagens implantadas, em estado de espera, quanto mensagens intrometidas, pelo caráter intrusivo e violento, ambas com possibilidade de sofrerem um fracasso radical na tradução. Pelo ponto de vista de Bleichmar (2005), tendo em vista a interrelação existente entre o inconsciente materno e o psiquismo infantil incipiente, podemos afirmar que nestes intercâmbios ocorrem as primeiras inscrições que ficarão marcadas no psiquismo do bebê. Para a autora, estas inscrições, nomeadas como signos de percepção (e não mensagens enigmáticas), correspondem às primeiras marcas ou vestígios pulsionais que podem permanecer à deriva no psiquismo se não forem transcritas (Bleichmar, 2005). De forma diversa ao pensamento laplancheano, Bleichmar acredita que os signos de percepção não integram o inconsciente recalcado, não há recalque, somente registros mnêmicos sem recordações justamente pela falha no recalcamento originário (Bleichmar, 2015). São inscrições que ficam soltas no psiquismo arcaico, sem ligação (simbolização), que retornam sob modos compulsivos pelo fato de não terem sido metabolizáveis (Bleichmar, 2009, 2015). Podemos supor que, enquanto bebê, Kevin estivesse exposto a traumatismos constantes, justamente pelas primeiras inscrições psíquicas advindas do contato com a mãe terem sido vivências traumáticas. Observamos que Eva não consegue acolher o seu bebê, não o acaricia, não sabe segurá-lo, parece nem perceber as necessidades do filho. Não há investimento narcísico - o transvasamento do narcisismo de Eva em seu bebê - é como se Kevin fosse destituído de valor. Mesmo assim, é com esta mãe desvitalizada, desligada, desta mãe que não afaga e nem acolhe, que o bebê Kevin irá se “agarrar” pois é ela quem minimamente resolve suas necessidades autoconservativas. As repercussões destes investimentos maternos certamente recaem na própria constituição do psiquismo de Kevin. Observamos que os afetos despertados na relação de Eva com seu filho são desprazerosos e serão estes registros que ficarão inscritos no psiquismo da criança. Um psiquismo cujas primeiras inscrições pulsionais serão marcadas por um excedente pulsional desprazeroso (das representações inconscientes maternas), marcas que estão no aquém do princípio de prazer, relacionando-se muito mais à pulsão de morte do que de vida (Bleichmar, 2009).
E o que podemos falar sobre Kevin, o outro protagonista da situação originária? O bebê Kevin não foi sonhado pela mãe, é uma criança cujo choro desperta inquietações nela. Em uma das cenas do filme em que a criança chora incessantemente Eva, em meio ao barulho estridente de britadeiras, demonstra alívio em ver cessar o choro do filho. Vemos aqui uma comunicação entre mãe e filho baseada em elementos não verbais, mas auditivos, sensoriais, que podem estar relacionados às mensagens paradoxais (Tarelho, 2019). Tais mensagens aparecem ao longo do filme em outras situações. Quando Eva agride o filho ao tentar ensiná-lo a usar o banheiro, ele quebra o braço, mas quando o pai pergunta sobre o ocorrido ele simplesmente diz que se machucou sozinho, de modo que Eva passa a ser manipulada pelo filho. Poderíamos pensar que Kevin utiliza este recurso na tentativa de produzir uma ligação com a mãe? Ou, pelo contrário, cogitaríamos nesta atitude manipuladora uma reação perversa diante da intrusão materna?
Não podemos deixar de refletir também sobre o que transparece na relação do casal: a desqualificação da autopercepção (Tarelho, 2019) parece fazer parte do arranjo da dupla. É pertinente fazer um parêntese para refletir sobre a relação entre o casal. Em uma cena Eva alerta o marido sobre suas suspeitas de que o filho seria o responsável pelo acidente em que a irmã perde o olho (expressão esta muito próxima da perversão) mas o marido discorda, desmente o pensamento de Eva e vê tudo de forma inofensiva, sem questionamentos, sem interdições.
Com a idade aproximada de 5 anos, Kevin, ainda com fraldas, recusa-se a usar o banheiro e, em uma das cenas, ele adentra no quarto dos pais avisando-os que havia defecado na fralda, surpreendendo-os durante o ato sexual, cena que parece ignorar. O que poderíamos pensar acerca da enurese e encoprese de Kevin? No filme não há referência a qualquer incômodo da criança por defecar ou urinar nas fraldas, Kevin não demonstra vergonha ou nojo, não deixa de fazer suas atividades porque usa fraldas, tampouco o garoto demonstra qualquer conflito. É como se suas pulsões sexuais não tivessem sido reprimidas, como se Kevin não tivesse renunciado ao autoerotismo (Bleichmar, citado por Ferreira, 2015). Embora diversas correntes da psicanálise teorizem sobre a enurese e encoprese sob a perspectiva do sintoma, Bleichmar aponta para outra direção. No caso de Kevin e, de acordo com o aporte da autora, falaríamos em termos de transtorno e não de sintoma. Transtorno porque diz respeito a representantes pulsionais que não foram recalcados (não houve o recalque originário), portanto não estamos no campo de um aparelho psíquico organizado, com um inconsciente já constituído, clivado, tampouco de um ego constituído (Bleichmar, 2009). Por outro lado, poderíamos pensar que os transbordamentos pulsionais de Kevin denunciariam a falta de vias colaterais de ligação ou até supor uma tolerância perversa dos pais, diante das fissuras de suas próprias feridas narcísicas na relação com Kevin, que os dificultariam a realizar interdições para as renúncias pulsionais do filho.
Em outro contexto Kevin diz à mãe: “não se gosta de alguma coisa porque se está acostumado”, “você está acostumada comigo”. Podemos supor que na sedução maternal algumas mensagens enigmáticas comprometidas pelo inconsciente materno e vinculadas à elementos agressivos, possam ter sido inscritas no psiquismo de Kevin de forma intrusiva, violenta, as quais corresponderiam às mensagens intrometidas e ao inconsciente encravado denominado por Laplanche (2003).
Kevin é uma criança que não satisfaz a mãe: não a chama de mamãe, não quer brincar de bola com ela, comunica-se, às vezes, por meio de palavras sem sentido e em vários momentos tem atitudes que a irritam: chama a mãe de gorda, quando na verdade ela está grávida; manipula os alimentos de forma que a deixa irritada. A comunicação entre eles apresenta algumas características sádico-eróticas que, pelo referencial da criança, poderia estar a serviço como recurso defensivo diante do excesso pulsional. No entanto, quando Kevin está na fase de adolescência outras atitudes chamam a atenção: ele utiliza as mesmas camisetas de quando era pequeno e, em outro momento do filme, quando Eva abre a porta do banheiro, defrontando-se com ele se masturbando, Kevin não se abstém de continuar se masturbando e a encara. Seu olhar fulminante e seu sarcasmo transbordam em outras cenas.
Assim como Eva não se identificava com seu filho, ele tampouco a tem como figura de identificação, não há, portanto, laços afetivos suficientes que sustentem quaisquer interdições de modo que Kevin, enquanto criança ou adolescente, parece não temer perder o amor que não existiu. Por outro lado, Franklin, o pai, que inclui Kevin em seu sonho de vida, parece ter sido a única figura de identificação para o jovem. Embora Franklin demonstrasse afetividade com o filho, em vários momentos ele se ausenta da responsabilidade paterna, dos limites e responsabilidades que esta função implica ao longo da vida de um indivíduo.
Podemos pensar na possibilidade da existência de problemas na estruturação egóica de Kevin, cujas pulsões perversas polimórficas encontram saída pela via do ato. Pelo assassinato de nove pessoas na escola, além do pai e da irmã, Kevin parece ter dado um destino ao disruptivo dentro de si, aos excessos pulsionais inerentes ao trauma, cujos efeitos são particulares em cada pessoa. Ainda que o filme nos traga outros elementos interessantes para esta discussão (por que Kevin, cujo ódio é evidente pela mãe, não a mata?) é preciso finalizar, esclarecendo que esta é apenas uma das possíveis interpretações, com certeza aberta a questionamentos, discordâncias e sentidos outros. Buscando priorizar a realidade da mensagem, o caminho traçado neste estudo pretendeu também chamar a atenção para os efeitos das vicissitudes da sedução sobre o outro (outro criança e outro adulto), sobre a constituição do psiquismo, considerando uma tópica não restrita às neuroses. Assim, concluindo, embora o título de filme seja Precisamos falar sobre Kevin, reiteramos: não é somente sobre Kevin que precisamos falar.














