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Estilos da Clinica

versão impressa ISSN 1415-7128versão On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.29 no.3 São Paulo  2024  Epub 23-Jan-2026

https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v29i3p505-516 

Artigo

Função paterna em Lacan: análise de dois casos na ausência do genitor

Función paterna en Lacan: Análisis en dos casos con la ausencia del padre

Paternal function in Lacan: analysis from two cases in father’s absence

Fonction paternelle chez Lacan: analyse de deux cas en l’absence du géniteur

Evandro de Quadros Cherer*  2 

Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPsi) da Universidade Federal de Mato Grosso. Professor Adjunto do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Rondonópolis. Cuiabá, MT, Brasil.

evandro.cherer@ufr.edu.br

Andrea Gabriela Ferrari** 

Professora do Departamento de Psicanálise e Psicopatologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

ferrari.ag@hotmail.com

Cesar Augusto Piccinini*** 

Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

piccicesar@gmail.com

* Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPsi) da Universidade Federal de Mato Grosso. Cuiabá, MT, Brasil.

2 Curso de Psicologia da Universidade Federal de Rondonópolis. MT, Brasil.

** Departamento de Psicanálise e Psicopatologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

*** Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.


Resumo

O presente estudo investigou a função paterna nos casos de duas mães e seus filhos, os quais não moravam com seus genitores, quando o bebê estava no 3º e 8º mês de vida. Utilizou-se delineamento de estudo de caso coletivo, sendo que duas mães primíparas responderam a entrevistas acerca de diversos aspectos da maternidade e da relação com o bebê. Os relatos maternos foram analisados a partir da teoria psicanalítica lacaniana da função paterna. Os resultados revelaram que os bebês ocupavam um lugar privilegiado frente ao desejo materno. Apesar do genitor não estar presente, os relatos evidenciaram a demarcação da instauração de uma lei que indicava para um efeito de corte entre mãe e bebê, aspecto associado à função paterna.

Palavras-chave: complexo de Édipo; função paterna; psicanálise, relações mãe-criança

Resumen

Este trabajo investigó la función paterna a través del estudio de caso de dos madres y sus bebés, a los 3 y 8 meses de vida, que no cohabitaban con sus padres. Para este estudio se realizaron entrevistas sobre los diferentes aspectos de la maternidad y sobre la relación con el bebé. Los relatos maternos fueron analizados a partir de la concepción lacaniana de función paterna. Los análisis revelaron que los bebés ocuparon un lugar privilegiado en el deseo materno y, a pesar de la ausencia física del padre, fue posible la instauración de una ley que indicó un efecto de corte entre la madre y el bebé, aspecto asociado a la función paterna en los relatos maternos.

Palabras clave: complejo de Edipo; función paterna; psicoanálisis; relaciones madre-hijo

Abstract

The present study investigated the paternal function in the cases of two mothers and their children who did not live with their fathers during the third and eighth month of the babies’ lives. A multiple case study design was used. Two first-time mothers took part on the study who responded to interviews about various aspects of motherhood and the relationship with their babies. Maternal narratives were analyzed based on a Lacanian psychoanalytic theory of paternal function. Results revealed that babies occupied a privileged place on maternal desire. Although the father is not always physically present the narratives showed the emergence of a beyond, allowing the introduction of a law that pointed to a cutting effect between mother and baby.

Keywords: Oedipous complex; paternal function; psychoanalysis; mother-child relations

Résumé

Cette étude a examiné la fonction paternelle dans le cas de deux mères et leurs enfants qui ne vivaient pas avec leurs pères, lorsque le bébé était entre le 3ème et le 8ème mois de vie. Une étude de cas collective a été utilisée avec deux mères qui a répondu à des entretiens sur divers aspects de la maternité et de la relation avec leurs bébés. Les rapports maternels ont été analysés à partir de la théorie psychanalytique lacanienne de la fonction paternelle. Les résultats ont révélé que les bébés occupaient une place privilégiée en relation au désir maternel. Malgré l'absence du père, les rapports ont montré la démarcation de l'établissement d'une loi qui indiquait une séparation entre la mère et le bébé, un aspect associé à la fonction paternelle.

Mots-clés: complexe d’Œdipe; fonction paternelle; psychanalyse; relations mère-enfant

Pensar a respeito de uma criança em psicanálise, sobretudo quando se trata de um bebê, implica em considerar aspectos referentes à constituição subjetiva. Aqueles que se ocupam de uma criança podem participar de certas operações psíquicas fundamentais, dentre as quais se destacam a função materna e paterna. Essa última adquiriu, nas últimas décadas, grande notoriedade no meio psicanalítico, com diversas problematizações sobre como se estabelece a função desempenhada pelo pai na constituição de seu filho (Quintella, 2014).

Mudanças culturais e sociais ocorridas desde as primeiras formulações freudianas acerca deste tema suscitaram muitas indagações sobre como a função paterna pode ser considerada contemporaneamente, especialmente frente às diversas configurações familiares que coexistem em nossa sociedade (Lustoza, Cardoso, & Calazans, 2014). Certamente, o pai retratado por Freud não parece corresponder plenamente a todas as possibilidades encontradas hodiernamente nas famílias. Em verdade, são muitas as mães que, sem a presença paterna, criam seus filhos (De Neuter, 2015). Com isso, o interesse por aquilo que foi denominado “carência paterna” tornou-se objeto de preocupação de muitos analistas nas últimas décadas (Hurstel, 1999). Devido a isso, novas formulações teóricas revisaram a noção de pai, bem como sua função e implicações clínicas. Nesse contexto, algumas perspectivas teóricas alardeiam destinos catastróficos para a constituição subjetiva perante o declínio do modelo patriarcal, enquanto outras, menos alarmistas, ponderam repercussões subjetivas frente a um possível enfraquecimento da função paterna (Ferreira, 2013; Xavier, Ferreira, & Paravidini, 2011). Esse entendimento pode ser compreendido como pertencente a uma corrente evolucionista, isto é, de que a estrutura subjetiva é tributária da evolução sociológica, em particular no que diz respeito ao lugar do pai no seio familiar (Zafiropoulos, 2014). No entanto, cabe ponderar em que medida pode-se falar de um declínio e de qual pai se trata quando se aborda essa perspectiva (De Neuter, 2007).

Em seus primeiros escritos, Lacan (1938/2008) já assinalava para as possíveis implicações decorrentes do declínio do patriarcado, tendo inclusive associado a isso o surgimento da própria psicanálise. Certamente, são diversos os efeitos dessas mudanças do declínio do patriarcado. Todavia, foi afastando-se de uma abordagem ambientalista sobre a carência paterna que Lacan (1957-58/1999) procurou desenvolver sua versão do pai e de sua função no Complexo de Édipo. Com efeito, o ensino de Lacan, a partir de 1953, rompeu com uma lógica famialista centrada no pai de família, passando a reformular diversos entendimentos psicanalíticos. Dentre esses, a noção de pai adquiriu outro estatuto com a proposição do conceito de nome-do-pai e da metáfora paterna (Zafiropoulos, 2003). Segundo Lacan, o Complexo de Édipo pode ser pensando em três tempos lógicos. No primeiro tempo, o que está em questão para o infans (do latim, designando a criança que ainda não fala) é ser o que é desejado pela mãe. Portanto, não é concernente à mãe em si que a criança se situa, mas em relação ao desejo dela, a saber, o falo. Esse não corresponde ao pênis, mas apresenta-se pela sua falta enquanto significante do desejo. É referente à mãe, enquanto objeto primordial, que o desejo é posto em questão. Em outras palavras, o desejo materno é o que se é desejado. A criança procuraria ser aquilo que falta à mãe, identificando-se com o falo: “Para agradar à mãe (...) é necessário e suficiente ser o falo” (Lacan, 1957-58/1999, p.198). É nessa situação, do filho correspondendo ao falo desejado pela mãe, que o infans é mantido na posição de assujeito.

No segundo tempo, o pai surge como aquele que priva a criança da mãe, impedindo-a de tomar a criança como correspondente ao objeto de seu desejo. A mãe é privada de fazer do filho aquilo que lhe falta. O pai priva a mãe, possibilitando que a criança saia da lógica de ser o falo materno. Diante disso, no terceiro tempo, o pai torna-se aquele que possuiria o que a mãe deseja. Enquanto suposto detentor, ele poderia ou não conceder o falo. O Complexo de Édipo declina com a promessa de que a criança possuirá futuramente o falo. Nota-se que o pai se desvela como um ideal que guiará o ser falante, o qual, para obter a promessa, teve que se haver com sua condição de castrado. Cabe salientar que o termo “pai”, neste contexto, é empregado para se referir a uma operação enquanto suporte da lei, não implicando o genitor masculino, o qual, evidentemente, também é submetido à castração e tampouco é, efetivamente, detentor do falo.

Como visto, é a castração materna que possibilita à criança sair da condição de assujeito. Essa operação se faz por meio da metáfora paterna. Em outros termos, o significante Nome-do-Pai substitui o primeiro significante, a saber, o materno. O pai é uma metáfora na medida em que surge a fim de responder às alternâncias maternas. Se a mãe deseja algo para-além do bebê, é porque lá está o objeto de seu desejo. Logo, o pai nomeia isso, intervindo de modo substitutivo, ou seja, como metáfora, introduzindo a criança na cadeia simbólica. É na medida em que o infans não se mantém atrelado à voracidade do desejo materno que se operam esses três tempos lógicos do Complexo de Édipo na proposta de Lacan: “O que há de mais angustiante para a criança é (...) quando não há possibilidade de falta, quando a mãe está o tempo todo nas costas dela, especialmente a lhe limpar a bunda, modelo da demanda, da demanda que não pode falhar” (Lacan, 1962-63/2005, p.64). A propósito disso, ressalta-se a relevância para a criança de que a mãe venha faltar. A alternância da presença-ausência materna é o que assegura esses aspectos. Não se trata da nostalgia da mãe como angustiante. Ao contrário, o que angustia é a iminência materna e a possibilidade de ser reintegrado: “O que provoca a angústia é tudo aquilo que nos anuncia, que nos permite entrever que voltaremos ao colo” (Lacan, 1962-63/2005, p.64).

Desse estado de coisas, pode-se conceber que uma das grandes contribuições lacanianas para a psicanálise está em elevar a noção de pai ao conceito de metáfora paterna, produzindo uma distinção frente a demais noções como figura, papel ou ainda presença paterna. É por meio do emprego da noção lógico-matemática de função que Lacan formalizou a noção de função paterna enquanto operador fundamental do Complexo de Édipo. O pai, nesse sentido, corresponde a uma operação. Distinto é o seu lugar na família: “Ora, trata-se menos das relações pessoais entre o pai e a mãe, ou de saber se ambos estão ou não à altura, do que de um momento que tem que ser vivido como tal” (Lacan, 1957-1958/1999, p.197).

Como visto, é o significante Nome-do-Pai que possibilita pensar o pai no Complexo de Édipo. Radicalmente distinta é a presença paterna na criação dos filhos. É por esse motivo que crianças órfãs ou mesmo uma que não disponha de seu pai não terá necessariamente seu destino traçado para um impasse no tocante à conflitiva edípica (Demoulin, 2006). Trata-se, portanto, de uma função que independe da presença física do pai. Esses aspectos questionam concepções simplistas, nas quais “muita mãe e pouco pai” são associados a problemas no desenvolvimento infantil (Flesler, 2012). É ao encontro disso que se considera a relevância de estudos que abarquem participantes de pesquisa oriundos de diversas formações familiares, dentre essas, famílias sem a presença do genitor masculino.

Estudos que investigam elementos subjetivos da maternidade de mães solteiras têm sido realizados no contexto brasileiro nos últimos anos (Gomes, Marin, Piccinini, & Lopes, 2015). Ampliando o foco desses estudos, o presente estudo investiga a função paterna nos casos de duas mães e seus filhos, os quais não moravam com seus genitores, quando o bebê estava no 3º e 8º mês de vida. Como já destacado ao longo desta introdução, prioriza-se nesta investigação a teoria psicanalítica lacaniana acerca da função paterna (Lacan, 1957-1958/1999).

Método

Participaram deste estudo duas mães primíparas e seus bebês. Elas foram selecionadas de um estudo1 maior por oferecerem uma boa oportunidade de aprendizado (Stake, 2006) a respeito da função paterna na ausência do genitor e por terem participado das diversas fases de coleta de dados do referido projeto, em particular da fase do 3º e do 8º meses, priorizadas neste estudo. Uma das mães, denominada Gabriela, tinha 19 anos, ensino médio e residia com seus pais e seu filho Arthur. Da gestação até o segundo mês de vida do bebê, ela morou com o pai do seu filho e, posteriormente, passou a não residir mais com ele. A segunda participante, Sara, tinha 28 anos, ensino superior incompleto e residia com sua mãe, irmãs e seu filho Marcos.

Foi utilizado um estudo de caso coletivo (Stake, 2006), de caráter longitudinal, com o objetivo de investigar a função paterna nos casos de duas mães e seus filhos, quando o bebê estava no 3º e 8º mês de vida. Para o presente estudo, as mães responderam à Entrevista de dados demográficos, Entrevista sobre a experiência da maternidade - primeiro trimestre do bebê e Entrevista sobre a experiência da maternidade - oitavo mês do bebê. Essas entrevistas abordam amplamente diversos temas, tais como a gravidez, o dia a dia com o bebê, a experiência e os sentimentos em ser mãe, assim como aspectos relativos ao genitor. Ainda que não se constituíssem em entrevistas estritamente psicanalíticas, as participantes puderam dispor de uma escuta clínica cuidadosa, permitindo a elas discorrerem e associarem a respeito dos assuntos abordados. Cada mãe, ao longo de todo a investigação, foi acompanhada sempre pelo mesmo pesquisador, possibilitando uma maior vinculação, assim como facilitando fenômenos transferenciais (Freud, 1912/1996).

Resultados e discussão

A partir dos relatos maternos foi realizada uma cuidadosa escuta clínica a fim de analisá-los por meio da teoria psicanalítica acerca da função paterna (Lacan, 1957-1958/1999). Esse trabalho foi realizado em profundidade pelos autores em discussão clínica dos casos acompanhados. Particularmente, além de abranger os conteúdos explícitos, buscou-se contemplar os aspectos subjacentes presentes na fala, na medida em que é próprio ao campo psicanalítico compreender que o discurso se desenvolve no registro do erro e do desconhecimento, possibilitando a irrupção da verdade subjacente (Lacan, 1953-1954/2010). Cada caso será apresentado individualmente, sendo ilustrado por meio dos relatos maternos e discutido à luz da literatura. Por fim, serão examinadas eventuais semelhanças e particularidades entre os casos.

Caso Gabriela e Arthur

Na entrevista realizada aos três meses de vida de seu filho, Gabriela relatou que, em função da gravidez, ela e o pai do seu filho Arthur tinham feito uma tentativa de viver juntos com a família dela, mas que fazia um mês que tinham terminado o relacionamento. Desentendimentos entre o casal, particularmente associados aos pais de ambas as partes, foram relatados como sendo um dos principais motivos da separação. Outro aspecto associado por Gabriela ao término da relação concerne aos dois primeiros meses do bebê, período no qual ela se dedicou exaustivamente a ele. Em contrapartida, o pai da criança queixava-se do excesso de atenção concedido por ela ao filho: “Ele dizia: ‘tu só tá dando atenção para ele e não dá mais atenção para mim’”. O fato de a mãe dar muita atenção ao bebê pode estar associado com o infans identificado ao desejo materno (Lacan, 1957-1958/1999). É justamente por encontrar no filho um valor fálico que a mãe consegue investir exaustivamente nele. A mãe, neste caso, aparentou ter tomado seu filho, em certa medida, como o objeto de seu desejo, visto que o bebê foi investido por ela a ponto de conduzir o pai a um questionamento acerca de seu lugar no desejo de sua companheira.

Após a separação, estando sem o pai de seu filho, Gabriela contou que o cotidiano de cuidados com o bebê era desempenhado quase que exclusivamente por ela, excetuando-se por breves momentos nos quais necessitava se ocupar minimamente de si. Nessas ocasiões, Gabriela relatou que seu próprio pai a ajudava cuidando do filho. Ela também expôs querer permanecer com seu filho como prioridade até o sexto mês de vida dele, momento no qual ela gostaria de passar a trabalhar: “Eu vou ficar com ele até o sexto mês, depois eu acho que eu vou trabalhar!”. De qualquer modo, uma separação entre mãe e criança parecia já se estabelecer desde cedo, o que pôde inclusive ser constatado quando Gabriela relatou que, próximo à época da separação conjugal, o bebê teria passado a dormir no berço e não mais com ela em sua cama.

Além disso, Gabriela relatou sua preocupação com a falta de auxílio paterno na criação do filho, especialmente referente às despesas financeiras. Embora tenha procurado restringir, em alguns momentos da entrevista, que apenas precisava do auxílio financeiro de seu ex-companheiro, Gabriela relatou ter esperanças em mudar-se para uma nova casa com ele a fim de reatar a relação. Ao encontro disso, ela contou visitar a irmã do genitor do bebê e o encontrar ocasionalmente, indicando esperar achá-lo nessas ocasiões. Assim, Gabriela, por mais que acreditasse tratar-se de um retorno difícil, desejava retomar a relação com seu ex-companheiro: “Eu não queria que ele fosse embora! Porque eu gosto dele, mesmo ele sendo do jeito que ele é, eu gosto dele! E eu não queria que o meu filho fosse de pais separados!”. A partir disso, pode-se pensar que, ainda que não estivesse mais fisicamente presente, o pai de Arthur desempenhava uma função importante no desejo materno, demarcando existir um para-além da própria criança. É essencialmente enquanto ocupante dessa função que algo ou alguém pode ser nomeado enquanto pai (Lacan, 1957-1958/1999), e isso se manifestava no relato de Gabriela.

Ainda acerca do pai de seu filho, Gabriela disse que ele tratava Arthur de modo oposto aos sobrinhos, com os quais brincava e era atencioso: “Com o Arthur, ele não consegue! É bem diferente, fica longe! Não liga para saber (...) o filho dele, ele não quer nem saber! Enquanto para os sobrinhos ele dá tudo, para o Arthur ele não tá dando nada!”. Além de não atender à demanda materna a respeito de sua paternidade, pode-se supor a importância desse pai no processo de desassujeitamento de seu filho. Era enquanto outro de quem Gabriela esperava alguma coisa, isto é, como tendo algo correspondente ao desejo materno, que ele se fazia presente.

Na entrevista realizada no oitavo mês, Gabriela relatou que seu filho era “grudado” nela, agitando-se ou até mesmo chorando quando ela se ausentava por algum motivo: “Eu não posso ir nem no banheiro que ele começa a chorar”. Embora ainda não tivesse começado a trabalhar, como disse que gostaria na entrevista anterior, Gabriela estava preocupada com a dependência que seu filho tinha de si e como faria caso conseguisse um emprego. A essa dependência, Grabriela associou um único dia em que necessitou deixar Arthur com seu pai e com o fato de, às tardes, ela ter passado a cuidar de sua sobrinha. Para Grabriela, ao cuidar de outra criança, seu filho estaria com ciúmes, não tolerando existir algo para a mãe além de si. A partir disso, pode-se pensar em alguns aspectos que ameaçavam o lugar ocupado por Arthur no desejo materno, os quais evidenciavam para o bebê sua insuficiência em corresponder àquilo que a mãe desejava.

Apesar disso, Grabriela disse gostar desse modo de interação com seu filho, evitando inclusive que outras pessoas cuidassem do bebê: “Ele sempre junto, não deixo com ninguém”. É plausível compreender que essa dependência não era restrita ao filho, mas era também da parte de Gabriela. Da parte da mãe, pode-se considerar que, se ela procurava tomar a criança quase que exclusivamente para si, seria na medida em que Arthur era tomado por ela enquanto falo. A respeito do pai de seu filho, Gabriela contou que eles passaram a se encontrar com maior frequência, indicando uma reaproximação, apesar de permanecerem morando separados. Todavia, durante a entrevista dos 8 meses de Arthur, Gabriela falou pouco, não mencionando, como da última vez, seu desejo pelo pai do bebê. Concernente a isso, pode-se considerar a própria aproximação como expressão do desejo de Gabriela pelo pai de Arthur, ao encontro do que havia sido relatado na entrevista anterior.

Com isso, pode-se pensar que o caso de Gabriela e de seu filho Arthur ilustra o quanto a função paterna se faz operar por outras vias que não necessariamente as ambientais. A presença física de um pai na família não garante sua presença no Complexo de Édipo. Neste caso, por meio dos relatos maternos sobre o bebê, pôde-se constatar que o filho ocupava uma posição fálica no desejo materno, ao encontro do que se é esperado no Complexo de Édipo (Lacan, 1962-63/2005). Ao passo que Gabriela também evidenciou existir um para-além de seu próprio filho ao revelar a importância de seu ex-companheiro para si. Nesse sentido, pode-se compreender que o pai do bebê desempenhou uma função relevante na metáfora paterna.

Ao se distanciar da dupla mãe-filho, o pai aparentou obter maior presença no desejo materno, fazendo-se presente em sua ausência. Como detentor do que a mãe desejava e enquanto aquele que poderia conceder ou não esse objeto, esse homem se fez pai no Complexo de Édipo, possibilitando que seu filho saísse do assujeitamento materno, ainda que, nesse processo, a relação mãe-criança tenha oscilado entre uma reintegração e uma liberação do bebê.

Caso Sara e Marcos

Na entrevista realizada aos três meses de vida de seu filho Marcos, Sara relatou que teve um breve envolvimento afetivo, tendo engravidado nessa ocasião. Ela também expressou sua satisfação com o bebê, pelo seu bom-humor, tranquilidade e por ser sorridente. Antes do nascimento, Sara pensou que o bebê seria um pouco mais agitado e fisicamente parecido com o pai, aspecto que ela desejava que não sucedesse: “Tudo que eu queria era que ele nascesse perfeito de saúde e que fosse mais parecido comigo! Além de ele ter vindo parecido comigo, ele veio de olhos claros! Então veio bem melhorado!”. Não perceber em seu filho semelhanças com o genitor era um aspecto importante para Sara. Ela era a única responsável pela criança, tendo em vista que o pai não havia ainda conhecido seu filho: “O [pai] não conhece ainda, mas quando conhecer, ele vai dizer: ‘não é meu!’, porque não se parece com ele em absolutamente nada! Nada! O Marcos é totalmente a minha cara”.

Sara contou que fazia muito tempo que não via o pai do bebê e, mesmo durante a gestação não o via muito. Pouco antes do nascimento, ela tentou encontrá-lo, porém, segundo ela: “Ele enrolou, enrolou e a gente não se viu”. Diante disso, ela disse ter ficado intensamente irritada, não tendo incluído o nome do pai no vídeo do parto, tendo optado por sozinha criar seu filho. A ausência da referência paterna não foi restrita ao vídeo, mas se estendeu também à certidão de nascimento do bebê, onde o nome do pai não consta. No entanto, devido à pressão familiar, Sara cogitava entrar em acordo para que seu filho passasse também a contar com o reconhecimento da paternidade, bem como com um auxílio financeiro da parte do genitor. Apesar disso, o pai se mantinha distante, apenas fazendo ligações telefônicas quinzenalmente, sem, todavia, referir-se diretamente ao bebê até a última ligação ocorrida, na qual revelou possuir medo de conhecer seu filho. Apesar de ter dito uma vez que seria importante para o bebê a presença paterna, Sara, posteriormente, se opôs: “O Marcos não está perdendo nada com isso ainda, ele [pai] que está perdendo porque não está vendo o filho crescer (...) então, para mim, tanto faz!”.

Nos três primeiros meses, os contatos com o bebê foram relatados por Sara como sendo muito prazerosos, inclusive para as demais pessoas que interagiam com a criança: “Todo mundo que conhece o Marcos se apaixona por ele”. Sara ocupava-se quase que exclusivamente de seu filho, tendo se descrito como “uma mãe melosa”. Mesmo assim, ela compartilhava alguns momentos nos quais permitia que outras pessoas pudessem interagir com o bebê: “Deixo pegar o Marcos, não sou uma mãe tão ciumenta!”. No entanto, referente aos momentos que precisava se distanciar de seu filho, ela afirmou: “Eu já morro de saudades dele. Então agora voltando a trabalhar, não sei como é que vai ser”. Esses elementos relatados por Sara, aos três meses de Marcos, vão ao encontro da teorização do Complexo de Édipo (Lacan, 1957-1958/1999), no qual o bebê situa-se de modo a identificar-se com o desejo materno, sendo a criança investida falicamente.

Na entrevista realizada aos oito meses de vida de seu filho, Sara relatou que procurava fazer tudo que podia em relação ao bebê, que ele era mais importante do que ela mesma: “Tudo que está ao meu alcance, pelo menos, eu faço para o bem-estar dele”. Contou também que, desde seus treze anos de idade, ela já havia planejado o nome de seu filho, que representava para ela uma “personalidade forte” e que a maternidade era algo almejado há anos: “Eu sempre quis ter [um filho]. Eu escolhi o nome do Marcos, eu tinha treze anos de idade, então sempre foi um sonho ser mãe”. Por meio desses aspectos, pode-se vislumbrar o lugar cedido ao filho pela mãe, o qual, desde a adolescência de Sara, despontava como algo almejado. Se uma criança ocupa essa posição frente à mãe é porque, em certa medida, é visualizada como correspondendo ao desejo materno e, em última análise, como uma promessa daquilo que lhe falta (Lacan, 1957-1958/1999).

Entretanto, Sara havia retomado suas atividades profissionais, o que para ela foi dificilmente vivenciado: “Terrível! Morria de saudades!”. Ela contou que nos dias úteis passou a ficar com seu filho no período da manhã, antes de ir trabalhar e, novamente, após as 19 horas, quando retornava do trabalho. Foi com saudades que Sara descreveu a espera pelo fim da jornada de trabalho, sendo o momento da volta para casa e reencontro com o filho aguardado ansiosamente: “Fantástico! Normalmente ele já tá esperando na porta. Daí ele quer colo direto, eu não posso tomar banho, eu não posso jantar, não posso fazer nada, eu tenho que pegar ele primeiro”. Ainda que nessa ocasião o trabalho já indicava ter um efeito separador entre Sara e seu filho, pode-se também considerar o quanto Sara “não podia fazer nada” que fosse ao desencontro do filho quando o reencontrava. Possivelmente, esse aspecto também dizia algo do desejo materno, o que podia ser lido pela criança como expressando a sua relevância frente à mãe.

Durante o horário em que Sara trabalhava, o bebê ficava sob os cuidados da avó materna. A partir desse convívio, Sara compreendeu que seu filho havia se acostumado aos cuidados da avó, sentindo, inclusive falta dela quando essa se ausentava: “Eu posso estar lá, mas ele tá sentindo falta dela”. Marcos, como indicado, demonstrava não estar mais completamente assujeitado exclusivamente a ela. Já existiam outros aspectos que produziam efeito de corte entre os dois. Nesse contexto, Sara também confessou passar por situações que a deixavam enciumada: “Eu cheguei em casa, peguei ele no colo (...) ele se virou e atirou os bracinhos para ela [avó]. Eu: ‘ah, traidor! Passou o dia inteiro com ela e agora está querendo ir para o colo da vovó, em vez de ficar com a mamãe!’”.

Quanto ao pai do bebê, Sara informou que ele ainda não tinha conhecido o filho: “Não veio conhecer ainda (...) e a princípio não demonstrou interesse nenhum”. De qualquer modo, ela disse que o mantinha informado sobre alguns aspectos gerais do bebê. A despeito de sua vontade em ser a única responsável pelo filho, Sara relatou que estava conversando com seu advogado para que ela e o pai do bebê entrassem em um acordo financeiro: “Querendo ou não, eu gostaria muito de manter o Marcos sozinha, mas é muito gasto, não tem como”. Em seguida, distintamente da primeira entrevista, Sara acreditou ser importante também o reconhecimento judicial da paternidade: “É um direito que o Marcos tem, é filho único e eu acho que é um dever dele [do pai]. Eu não pensava assim antes, mas comecei a pensar pelo Marcos, porque não adianta só pensar em mim”. Ainda que de modo ambivalente, Sara passou a considerar que seu filho não era exclusivamente seu. Quando indagada como teria ocorrido essa mudança, ela não soube dizer, apenas conseguiu indicar que algo havia mudado: “Antigamente eu queria o Marcos só para mim”. Ela passou a discorrer sobre esse assunto, tendo cogitado que as limitações financeiras possivelmente teriam influenciado a sua mudança de perspectiva. Entretanto, em seguida, contrariando-se, Sara relatou querer manter seu filho somente sob seus cuidados: “Eu não tenho ideia de dividir o Marcos”.

Diferentemente de si, Sara relatou que o pai do bebê nunca quis ter filhos e que ela sabia que isso seria algo difícil de tratar com ele. Apesar disso, ela contou que, durante o breve envolvimento afetivo que teve com ele, manteve relação sexual sem preservativo ou qualquer outro método contraceptivo e que não esperava engravidar: “Ele nunca quis ter um filho, foi ter justamente comigo”. Diante disso, pode-se considerar a funcionalidade deste encontro contingencial. É plausível se pensar que esse parceiro efêmero foi ao encontro exatamente daquilo que Sara esperava encontrar, tornar-se mãe e ter um filho para si, não o dividindo com outrem. Não parece ter sido mero acaso o fato de Sara ter engravidado precisamente de quem não queria ter filhos.

Como visto nos relatos de Sara, um filho desde muito cedo se despontava como correspondendo ao que ela desejava. Os seus relatos indicam uma voracidade em ter um filho exclusivamente para si, fazendo desse correspondente daquilo que desejava, o que pode ser também ressaltado na escolha do nome do bebê e nos elementos que esse nome portaria na personificação da criança. Ademais, ser mãe possibilitava a Sara aceder a uma posição fálica (Lacan, 1957-58/1999), particularmente gozando da posição que ocupava frente a seu filho: “Eu nunca imaginei que eu fosse ser uma mãe tão boa que nem eu sou”.

Associado a esses aspectos, estava o posicionamento materno de querer apoderar-se exclusivamente do filho, evitando uma alteridade, um para-além dela e do bebê. Há, da parte de Sara, uma falta de reconhecimento da parte paterna na geração do bebê, como se Marcos fosse exclusivamente seu filho. Evidências desses aspectos também podem ser pensadas em sua recusa em inserir o nome do pai no vídeo do parto. Esses elementos permitem considerar o apossamento materno realizado em torno do filho, como quando Sara enfatizou que quanto mais parecido com ela ele fosse, melhor, e que seu filho não parecia nada com o pai, e que puxou tudo para ela mesma.

Ao encontro disso, pode-se pensar que o pai do bebê não ocupava um lugar de importância no desejo materno. Ao contrário, ela expressava seu desejo em sozinha criar seu filho. Fato esse que possui sua materialidade na certidão de nascimento da criança, na qual consta o nome de apenas um genitor, a saber, a mãe. O pai, desse modo, tanto da sua parte, como da mãe, parecia ser dispensado. Os relatos de Sara indicam um desprezo em relação ao pai de seu filho, como se esse, em seu desinteresse em ser pai, tivesse servido aos desejos maternos de ter um filho só para si. De qualquer modo, entende-se que ela, de forma ambivalente, passou a questionar sua posição ao considerar que para o filho também seria importante ter um pai.

Diante desses elementos, pode-se considerar que o caso de Sara ilustra o quanto é o desejo materno que está em questão na operação da função paterna (Lacan, 1957-58/1999). Neste caso, a mãe evidenciou inviabilizar que o pai ocupasse, em certa medida, um posicionamento paterno. A ausência de semelhança paterna com o filho, bem como a falta de reconhecimento da paternidade na certidão de nascimento atestam que o desejo materno não encontrava interdição pela via do pai da criança.

Mesmo que o desejo materno de apoderamento do filho seja intenso e que o pai não se faça presente, como discutido anteriormente (Lacan, 1957-58/1999), a função paterna no Complexo de Édipo refere-se à uma operação lógica na constituição subjetiva. Pode-se considerar que o assujeitamento que Sara produzia em seu filho seria fundamental para a própria constituição subjetiva desse ao ser tomado como correspondendo ao desejo materno (Lacan, 1957-58/1999). Por sua vez, as imposições do trabalho que cerceavam os momentos de interação de Sara com seu filho, bem como os cuidados da avó materna que passaram a permear os encontros mãe-filho podem ser pensados como produzindo efeitos de corte entre Sara e Marcos. Esses aspectos, assim como possivelmente outros, não respondiam aos caprichos maternos, demarcando existir uma lei que limita o desejo materno (Lacan, 1957-58/1999).

Da parte da criança, na entrevista realizada no oitavo mês do bebê, já era possível inclusive constatar indícios do reconhecimento de que a mãe era submetida a uma lei, que a seu contragosto ela precisava ausentar-se, inserindo a avó como uma terceira por excelência. É plausível pensar que é pelo fato de Sara ter nela inscrita a função paterna que ela inscrevia essa operação em seu filho, produzindo efeitos no bebê. Esses elementos possivelmente eram lidos por Sara em seu filho, como na situação em que esse preferiu ser pego pela avó. Entende-se que a castração materna, que impossibilita de tomar o filho como sendo o que lhe falta, permite considerar que o bebê se desassujeitará de se fazer objeto de desejo materno, visualizando a posse do falo alhures. É por meio dessa operação que o significante Nome-do-Pai vem substituir o significante materno, levando a criança a sair da pura onipotência materna ao nomear um para-além e ao instituir uma lei à qual tanto o bebê quanto a mãe estão submetidos (Lacan, 1957-1958/1999).

Considerações finais

Em consonância à teoria da função paterna lacaniana, os bebês deste estudo ocupavam um lugar privilegiado frente ao desejo de suas mães, o que teria possibilitado que essas se ocupassem deles em detrimento de outros interesses. Desse modo, pode-se considerar que, neste momento, esses bebês estavam identificados ao falo, procurando corresponder ao desejo materno. No primeiro caso analisado (Gabriela e Arthur), o pai, mesmo ausente fisicamente, foi invocado e instituído enquanto tal pela mãe. Essa transitava em assujeitar e desassujeitar seu filho, na medida em que esse ou outros elementos possuíam um valor fálico para ela. Por sua vez, no segundo caso investigado (Sara e Marcos), a mãe procurava apagar qualquer semelhança que seu filho possuísse com o pai, fazendo do bebê alguém que a satisfizesse. Esses achados são semelhantes aos encontrados por Ferrari, Piccinini e Lopes (2013) em seu estudo, no qual uma mãe primípara tentava apagar os traços de identificação com o pai da criança, tomando o filho para si de modo que ele servisse a tamponar sua falta.

Nos dois casos aqui apresentados, ainda que de modos distintos, o pai não morava com a mãe e o bebê, pouco ou nunca se fazia presente na vida desses casos. Mesmo assim, a função paterna, isto é, a operação de uma metáfora que nomeasse o desejo materno, pôde ser considerada. Em ambos os casos, pode-se pensar que algo demarcava ao infans que ele não era suficiente ao desejo materno, mesmo que ocasionalmente a mãe, de modo ambivalente, procurasse sucessivamente tomar o filho enquanto falo. Esses achados evidenciam que, mesmo diante da “carência paterna”, o pai pode estar presente no Complexo de Édipo enquanto função.

Salienta-se que, como mencionado anteriormente, os tempos do Complexo de Édipo se dão de maneira lógica e não cronológica. Ademais, como defendido neste estudo, entende-se que, mesmo que crianças cresçam sem seus pais, a operação da função paterna pode ser efetivada. No entanto, de modo algum isso desvaloriza o convívio paterno com a criança, mas apenas evidencia que outros elementos são centrais na constituição subjetiva. O pai, assim como a mãe, também pode posicionar-se a fim de investir o bebê e tomá-lo falicamente, o que não impossibilita também que o homem, por meio da mãe, se faça de terceiro para a criança (Cherer, Ferrari & Piccinini, 2016).

Desse estado de coisas, compreende-se que a contribuição lacaniana à função paterna por meio da noção do significante Nome-do-Pai e da metáfora paterna possibilitou que equívocos e mal-entendidos acerca da constituição subjetiva pudessem ser evitados (Flesler, 2012). Como visto, pode-se pensar que a constituição subjetiva é da ordem do particular e dependerá de inúmeros aspectos contingenciais. Não há, antecipadamente, uma uniformização ou normatização da função paterna no Complexo de Édipo: “Uma imensa amplitude, portanto, é deixada aos meios e modos como isso pode se realizar, razão por que é compatível com diversas configurações concretas” (Lacan, 1957-58/1999, p. 202). Dentre essas conformações está, evidentemente, famílias nas quais o pai biológico da criança não se faz presente, como pôde ser evidenciado nos casos investigados neste estudo.

Acredita-se que as elaborações desenvolvidas neste estudo, baseadas nas evidências trazidas pelos casos investigados, são de importância tanto teórica como para a prática do psicanalista. Por fim, como é próprio do campo psicanalítico, cabe salientar que as análises apresentadas neste estudo são passíveis de outras reelaborações e complementações que com certeza enriquecerão nossa compreensão sobre a função paterna. As análises realizadas não esgotam todas as possíveis compreensões e tampouco têm a pretensão de representar o que se passa em outros casos. Elas correspondem a possíveis entendimentos do que foi retratado e, certamente, são análises passíveis de serem reelaborada a partir de outras compreensões e perspectivas teóricas. Além disso, acredita-se que novos estudos possam continuar investigando esses aspectos, seja em contextos semelhantes ou diferentes.

Referências

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1 . O Estudo Longitudinal de Porto Alegre: Da Gestação à Escola - ELPA foi aprovado pelo Comitê de Ética da UFRGS e pelo Comitê de Ética dos hospitais envolvidos na indicação das participantes.

Revisão gramatical: Thiago Correia de Andrade. E-mail: thcorreia@gmail.com

Recebido: 01 de Outubro de 2023; Aceito: 01 de Novembro de 2024

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