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Estilos da Clinica

versão impressa ISSN 1415-7128versão On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.30 no.1 São Paulo  2025  Epub 23-Jan-2026

https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v30i1p114-129 

Artigos

A vivência do rompimento de vínculo familiar em crianças residentes em uma instituição de acolhimento

La experiencia de la ruptura de vínculos familiares en niños residentes en una institución de acolhimento

The experience of the breakdown of family bonds in children residing in a shelter institution.

L'expérience de la rupture des liens familiaux chez les enfants résidant dans une institution d'accueil.

Isabella Mascarenhas Melo* 

Psicóloga graduada pela Universidade de Gurupi (UnirG), Gurupi, TO, Brasil.

isabellammelo@unirg.edu.br

Dhênia Bezerra dos Santos** 

Psicóloga graduada pela Universidade de Gurupi (UnirG), Gurupi, TO, Brasil.

dheniabsantos@unirg.edu.br

Daniela Ponciano Oliveira*** 

Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Professora do curso de Psicologia da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Miracema do Tocantins, TO, Brasil.

daniela.ponciano@mail.uft.edu.br

Ellen Fernanda Klinger**** 

Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goias (PUC-GO). Professora do curso de Psicologia da Universidade de Gurupi (UnirG), Gurupi, TO, Brasil.

ellenklinger@unirg.edu.br

Jéssica Pingarilho Batista***** 

Psicanalista. Mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Professora no curso de Psicologia da Universidade da Amazônia (Unama), Belém, PA, Brasil.

jessicapingarilho@gmail.com

* Universidade de Gurupi (UnirG), Gurupi, TO, Brasil.

** Universidade de Gurupi (UnirG), Gurupi, TO, Brasil.

*** Curso de Psicologia da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Miracema do Tocantins, TO, Brasil.

**** Curso de Psicologia da Universidade de Gurupi (UnirG), Gurupi, TO, Brasil.

***** Curso de Psicologia da Universidade da Amazônia (Unama), Belém, PA, Brasil.


Resumo

Este estudo teve como objetivo investigar como crianças que residem numa instituição de acolhimento expressam a vivência do rompimento de vínculo com a família de origem. Ao nascer, o bebê é um ser vulnerável e incapaz de sobreviver por conta própria; tudo o que lhe falta deve ser suprido por um adulto cuidador. Além dos cuidados básicos de alimentação e higiene, é importante a vivência de um contato afetivo contínuo com uma figura constante, seja a mãe ou um cuidador substituto competente. Essa relação é fundamental para o estabelecimento de vínculos de apego, os quais são essenciais para promover e garantir seu desenvolvimento biopsicoafetivo. Metodologicamente, foram realizados estudos de caso com quatro crianças, na faixa etária dos seis a dez anos de idade, residentes na Instituição de Acolhimento de Gurupi-TO - Casa Cidadã. Como instrumentos de investigação, foram utilizadas entrevistas com a psicóloga da instituição, posteriormente entrevistas lúdicas com as crianças em conjunto à aplicação do procedimento de Desenhos-Estórias da Família. Como ressultado, as crianças expressaram a ruptura do vínculo familiar, desde a impossibilidade de escrever o nome e o empobrecimento da palavra (C1); da impossibilidade de falar da família (C2); da incapacidade de realizar um desenho sobre a temática família (C3); e da nomeação do desenho como “foto da família” (C4). Os casos discutidos apresentam histórias de vida diferenciadas que esboçam o abandono, o desamparo, a falta de cuidado e acolhimento que impactam no desenvolvimento dessas crianças. Assim, foram apontados sentimentos, comportamentos e sintomas apresentados pelas crianças como a agressividade, delinquência, privação afetiva, desamparo, dificuldades de aprendizagem na escola, sentimento de ambivalência pela família. Destaca por fim, a importância do serviço de acolhimento institucional diante de situações em que as famílias estão impossibilitadas de cumprir sua função de cuidado e proteção.

Palavras chave: lar adotivo; criança; família; infância; desamparo

Resumen

Este estudio tuvo como objetivo investigar cómo los niños que viven en una institución de acogida expresan la experiencia de romper lazos con su familia de origen. Al nacer, el bebé es un ser vulnerable e incapaz de sobrevivir por sí solo; Todo lo que falte deberá ser suministrado por un adulto responsable. Además de los cuidados dietéticos y de higiene básicos, es importante experimentar un contacto emocional continuo con una figura constante, ya sea la madre o un cuidador sustituto competente. Esta relación es fundamental para establecer vínculos de apego, esenciales para promover y garantizar el desarrollo biopsicoafectivo. Metodológicamente se realizaron estudios de caso con cuatro niños, con edad entre seis y diez años, residentes en la Institución de Acogida Gurupi-TO - Casa Cidadã. Como instrumentos de investigación se utilizaron entrevistas a la psicóloga de la institución, seguidas de entrevistas lúdicas a los niños junto a la aplicación del procedimiento Dibujos-Cuentos Familiares. Como resultado, los niños expresaron la ruptura del vínculo familiar, desde la imposibilidad de escribir su nombre y el empobrecimiento de la palabra (C1); la imposibilidad de hablar de la familia (C2); la incapacidad de hacer un dibujo sobre el tema de la familia (C3); y la denominación del dibujo como “foto familiar” (C4). Los casos presentados presentan diferentes historias de vida que perfilan abandono, desamparo, falta de cuidados y apoyo que impactan en el desarrollo de estos niños. Así, se destacaron sentimientos, comportamientos y síntomas que presentaban los niños, como agresividad, delincuencia, privación emocional, indefensión, dificultades de aprendizaje en la escuela y sentimientos de ambivalencia hacia la familia. Por último, se destaca la importancia de los servicios de atención institucional en situaciones en las que las familias no pueden cumplir su papel de cuidado y protección.

Palabras clave: hogar de acogida; niño; familia; infancia; impotencia

Abstract

This study aimed to investigate how children living in a foster care institution express the experience of breaking ties with their family of origin. At birth, babies are vulnerable beings and incapable of surviving on their own; everything they lack must be provided by an adult caregiver. In addition to basic care for food and hygiene, it is important to experience continuous emotional contact with a constant figure, whether the mother or a competent substitute caregiver. This relationship is fundamental for establishing attachment bonds, which are essential to promote and ensure their biopsychoaffective development. Methodologically, case studies were conducted with four children, aged six to ten years old, living in the Foster Care Institution of Gurupi-TO - Casa Cidadã. As research instruments, interviews with the institution's psychologist were used, followed by playful interviews with the children together with the application of the Family Drawing-Story procedure. As a result, the children expressed the rupture of family ties, from the inability to write their name and the impoverishment of the word (C1); the inability to talk about family (C2); the inability to draw a picture on the theme of family (C3); and the naming of the drawing as a “family photo” (C4). The cases discussed present different life stories that outline abandonment, helplessness, lack of care and support that impact the development of these children. Thus, feelings, behaviors and symptoms presented by the children were pointed out, such as aggressiveness, delinquency, emotional deprivation, helplessness, learning difficulties at school, and feelings of ambivalence towards the family. Finally, the importance of institutional care services in situations in which families are unable to fulfill their role of care and protection is highlighted.

Keywords: foster home; child; family; childhood; helplessness

Résumé

Cette étude visait à examiner comment les enfants vivant dans une institution d’accueil expriment l’expérience de la rupture des liens avec leur famille d’origine. À la naissance, le bébé est un être vulnérable et incapable de survivre seul ; tout ce qui manque doit être fourni par un adulte attentionné. En plus des soins diététiques et d'hygiène de base, il est important d'avoir un contact émotionnel continu avec une personne constante, qu'il s'agisse de la mère ou d'une personne compétente pour s'occuper de l'enfant. Cette relation est fondamentale pour établir des liens d’attachement, essentiels pour favoriser et garantir le développement biopsychaffectif. Méthodologiquement, des études de cas ont été menées auprès de quatre enfants, âgés de six à dix ans, résidant à l'institution d'accueil Gurupi-TO - Casa Cidadã. Comme instruments de recherche, des entretiens avec le psychologue de l'institution ont été utilisés, suivis d'entretiens ludiques avec les enfants ainsi que l'application de la procédure Dessins-Histoires de Famille. De ce fait, les enfants ont exprimé la rupture du lien familial, de l’impossibilité d’écrire leur nom et de l’appauvrissement de la parole (C1) ; l’impossibilité de parler de la famille (C2) ; l’incapacité à dessiner un tableau sur le thème de la famille (C3) ; et la dénomination du dessin comme « photo de famille » (C4). Les cas évoqués présentent différentes histoires de vie qui mettent en évidence l’abandon, l’impuissance, le manque de soins et de soutien qui ont un impact sur le développement de ces enfants. Ainsi, les sentiments, les comportements et les symptômes présentés par les enfants ont été mis en évidence, tels que l’agressivité, la délinquance, la privation affective, l’impuissance, les difficultés d’apprentissage à l’école et les sentiments d’ambivalence envers la famille. Enfin, il souligne l’importance des services de soins institutionnels dans les situations où les familles ne sont pas en mesure de remplir leur rôle de soins et de protection.

Mots clés: foyer d'accueil; enfant; famille; enfance; impuissance

As consequências da separação entre a criança e quem exerce (ou representa) a função de cuidado, independente de gênero ou grau de parentesco desse cuidador, pode repercutir no seu desenvolvimento, em especial para aquelas com mais vulnerabilidades, à medida em que esse distanciamento pode implicar em diversos cenários, tais como: a institucionalização da criança, evasão escolar, trabalho infantil e incidência de violência (Winnicott, 2012). Desse modo, inferimos que, quando uma criança é privada da relação do cuidado materno e passa pela institucionalização pode atravessar uma série de efeitos, a depender do grau de separação que vivencie (Crepaldi, 2004).

Nos casos de destituição familiar, é relevante pensar que o cuidado com a criança não se restringe ao núcleo familiar; na verdade, é dever de todos e deve ser garantido pelo Estado. De acordo com o artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei nº 8.069, de 1990, é “dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos” (Brasil, 1990, p.1). Dessa maneira, o cuidado e a responsabilidade com as crianças são coletivos e demandam uma série de exigências que envolvem distintos atores sociais: Estado, sociedade, famílias, homens e mulheres.

Alguns fatores aliados à separação da mãe são desencadeadores de estresse e impasses no desenvolvimento da criança, como a qualidade das relações anteriores com a família, a idade da criança, condições ambientais e qualidade do cuidado durante o período de separação. Estes fatores que podem gerar angústias (Bowlby, 2015), de modo que não se pode visualizar a separação apenas do ponto de vista da relação da mãe com a criança, mas é importante considerar a interação da criança com outros membros da família. Assim, a separação não é, em si, responsável por prejudicar o desenvolvimento da criança, mas a separação da mãe aliada à ausência de condições que favoreçam o seu desenvolvimento (Crepaldi, 2004).

Quando as famílias estão impossibilitadas de proporcionar essa base segura que favoreça o seu desenvolvimento e cumprir sua função de fornecer cuidado e proteção, as crianças sofrem com algum grau de privação emocional (Winnicott, 2012). Como ainda não possuem recursos psíquicos próprios para lidar com essas emoções desencadeadas pelos eventos estressantes, sua reação poderá resultar em dificuldades emocionais, manifestações inconscientes, como também o aparecimento de sintomas (Peiter, 2020).

Situações em que a criança está exposta a riscos, como por exemplo, violência sexual, física ou psicológica, trabalho infantil, abuso, uso de substâncias, o abrigamento institucional torna-se uma medida protetiva. O Conselho Tutelar ao verificar a vulnerabilidade da criança/adolescente, tomará a iniciativa do afastamento da criança do convívio familiar. Somente em último caso a criança terá seu vínculo com a família original rompidos, sendo direcionada ao Acolhimento Institucional (Careta & Motta, 2007).

Os cuidados substitutos entram com o objetivo de diminuir os danos causados pela privação emocional, viabilizando a formação do psiquismo da criança. Os funcionários das Instituições de Acolhimento terão o papel de oferecer à criança acolhimento diante do luto da separação da sua família de origem (Bowlby, 2015).

De acordo com Feijó (2016), a privação emocional pode levar a fantasias de morte, castigo, superação, possessividade e à busca por uma figura de cuidado substituta. A figura de cuidado primário é responsável pela estruturação psíquica da criança nos primeiros anos de vida. É através dessa relação que a criança estrutura o seu “eu”. Quando essa vinculação não ocorre adequadamente, a criança pode vivenciar um processo descrito por Winnicott (2012) como privação e deprivação.

A privação acontece entre zero e seis meses de idade, quando o bebê depende completamente da mãe; ele se vê como uma extensão dela. Se surgirem falhas nesse cuidado antes que a criança tenha capacidade para compreendê-las, isso pode resultar futuramente em quadros de psicose. Já a deprivação refere-se o que pode ocorrer na fase de dependência relativa, entre seis meses e dois anos; nesse período, a criança começa a diferenciar entre si mesma e sua figura cuidadora, entretanto se falhas contínuas ocorrerem nesse contexto, a criança pode direcionar sua angústia para o ambiente externo, manifestando comportamentos agressivos ou destrutivos em uma tentativa de recuperar o afeto perdido (Rayane & Sousa, 2018).

Portanto, crianças institucionalizadas que passaram pelo rompimento de vínculo com a mãe necessitam de uma figura substituta que dê anteparo a função materna. O holding, descrito por Winnicott (2021) como a maneira que a criança é sustentada no colo pela mãe, é uma experiência inicialmente física, carregada de significados simbólicos, pois significa a firmeza com o qual o bebê é amado e desejado como filho. O holding traz estabilidade ao bebê. Sem esta sensação de firmeza, o bebê tem a experiência de queda, sentindo uma agonia impensável (Winnicott, 2021). Ou seja, o holding refere-se ao cuidado. Independentemente de quem realize, é essencial para a saúde mental da criança a vivência de um vínculo afetivo caloroso nos primeiros anos de vida, contribuindo para o desenvolvimento emocional saudável (Bowlby, 2015).

No que se refere às vivencias traumáticas na infância, como em casos da institucionalização, é importante que a criança encontre no ambiente a possibilidade de expressar seus sentimentos. Na infância, a criança se comunica por meio do brincar, e aqui incluimos atividades lúdicas como o desenho e contar historias. Klinger et al. (2020) apontam que por meio do brincar, a criança expressa suas vivências conflituosas e torna capaz de experimentar tudo o que se encontra em sua íntima realidade psíquica.

Nesse sentido, o uso de métodos projetivos podem apreender aspectos latentes, significados, sentidos, padrões ou sentimentos encobertos por estarem inconscientes, e podem possibilitar a compreensão do funcionamento psíquico infantil, pois as crianças, debido ao seu próprio proceso de desenvolvimento, possuem dificuldades de verbalizar seus conteúdos.

As técnicas projetivas oferecem acesso ao mundo interno do sujeito e podem apreender aspectos latentes, significados, sentidos, padrões ou sentimentos encobertos por estarem inconscientes (Frank, 1939). Por meio dessas técnicas, a criança revela sentimentos inconscientes e expressa suas fantasias, possibilitando um espaço para que possa refletir sobre seu sofrimento, nomeá-lo e posteriormente ressignificar sua história de vida (Affonso, 2019; Amorim, 2020).

Materiais e métodos

Essa pesquisa visou investigar como as crianças residentes na Instituição de Acolhimento de Gurupi expressam a vivência do rompimento com a família de origem. A metodología utilizada se trata de abordagem qualitativa e exploratória, realizada por meio de um estudo de caso com enfoque psicanalítico. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Gurupi sob o parecer nº 6.079.190 e CAAE 69642923.5.0000.5518, realizado na instituição de acolhimento do município de Gurupi-TO - Criança Cidadã.

A cidade de Gurupi fica localizada no sul do estado do Tocantins, na região norte do Brasil. Assim, a instituição Criança Cidadã, é uma Unidade de Acolhimento que funciona como moradia provisória até que a criança e/ou adolescente acolhida possa retornar à família de origem ou, quando for o caso, encaminhada para família substituta. Essa unidade é a unica nessa região do estado, e de enorme importância para a garantia de direitos e proteção de crianças e adolescentes.

Por se tratar de um estudo de casos múltiplos com abordagem qualitativa, o tamanho da amostra foram quatro participantes. A coleta de dados foi realizada no 2º semestre do ano de 2023, tendo como público-alvo crianças, com idade entre seis e dez anos, que no momento estavam residindo na Casa de Acolhimento, ou seja, que tinham vivenciado situação de rompimento do vínculo com a família de origem.

Na primeira etapa, foi realizada uma entrevista semiestruturada com a psicóloga de referência da Casa de Acolhimento, para coletar informações a respeito da história de vida das crianças participantes. Logo após, foi agendado encontro com as crianças para a aplicação da técnica do Desenho da Família com Estória (Trinca, 2013) que aconteceu em dois encontros. Os métodos projetivos O Desenho de Família com Estória, introduzido em 1978 por Walter Trinca, constitui-se como uma via de comunicação das angústias, fantasias inconscientes, sentimentos, atitudes, desejos, etc., da criança.

No primeiro momento foi realizado o termo de assentimento verbal à criança explicando em uma linguagem lúdica o objetivo da pesquisa e os detalhes da aplicação do Desenho da Família, com o inquérito realizado após a contação da estória.

Foi solicitado à criança que fizesse desenhos, em quaiso tema era “Família”, num total de 4 (quatro) desenhos. Para a realização do primeiro desenho deu-se a instrução “Desenhe uma família qualquer”, posteriormente “Desenhe sua família”, após “Desenhe uma família que você gostaria de ter”, e por último “Desenhe uma família que alguém não está bem” (Trinca, 2013).

A análise dos dados ocorreu após a realização das entrevistas (entrevista semiestruturada com a psicóloga e entrevista com a criança) e organização dos dados obtidos através do recurso gráfico do Desenho da Família com Estória e analisados conforma seu manual (Trinca, 2013). A partir disto, para a organização e análise do material desta investigação, foi utilizado o método de pesquisa em psicanálise, através da construção do estudo de caso.

Resultados e discussão

Os resultados foram elaborados a partir dos dados colhidos na entrevista com a psicóloga e na aplicação da técnica projetiva com as crianças. Após a coleta dos dados, foi elaborado um quadro com as características dos participantes. Para manter o sigilo quanto a identidade dos participantes, estes serão denominados pela letra C (criança) e um identificador numérico.

Quadro 1 Apresentação dos participantes. 

APRESENTAÇÃO DOS PARTICIPANTES
C1: Menina, 6 anos, tem quatro irmãos. Encaminhada pelo Conselho Tutelar à Casa de Acolhimento desde fevereiro de 2023. A busca ocorreu pelo próprio pai, após um episódio em que ele, juntamente com a mãe e as crianças, foram expulsos da casa de parentes, situação que se repetiu por diversas vezes. A mãe, 23 anos, doméstica, apresenta problemas mentais, com hipótese diagnóstica de esquizofrenia e fobia social, atualmente realiza tratamento psiquiátrico no CAPS III de Gurupi, e na ocasião encontrava-se em surto psicótico e sem tratamento. O pai, 32 anos, trabalhador rural, alcóolatra e sem uma renda fixa. A criança passou a manifestar ansiedade incomum para a idade, comportamento erotizado precoce, impulsividade por doces. Suspeita de vivência de violência sexual.
C2: Menino, 8 anos, tem oito irmãos, sendo um deles C3. Encaminhado pelo Conselho Tutelar à Casa de Acolhimento desde março de 2023 por negligência emocional, física e educacional. A mãe apresenta traços de personalidade narcisista, comportamento de dissimulação, demonstra frieza e pouco interesse em estar com os filhos. A criança apresenta comportamento passivo, problemas de aprendizagem, falta de controle emocional.
C3: Menino, 10 anos, tem oito irmãos (C2 é um dos irmãos por parte de mãe). Encaminhado pelo Conselho Tutelar à Casa de Acolhimento desde março de 2023, junto com C2 e outras irmãs. O pai, já falecido, apresentava personalidade delinquente desde adolescência. A criança passou a apresentar mudança de comportamento por meio de comportamento erotizado incomum para a idade, falas agressivas, dificuldades para seguir ordens, comportamento de indisciplina, dificuldades escolares.
C4: Menino, 10 anos, tem 16 irmãos. Encaminhado pelo Conselho Tutelar à Casa de Acolhimento pela segunda vez, junto com a irmã pequena, há dois anos. Morou com o pai e a mãe apenas quando bebê, após alguns anos, vivia de casa em casa com os irmãos. O pai, 80 anos, vive em uma fazenda. Histórico de negligência, violência e suposto abuso sexual. Há suspeita de diagnóstico de TDAH e autismo. Apresenta dificuldade para seguir ordens, dificuldade para expressar emoções, alternância de humor entre episódios de explosões de raiva, autoagressividade, desordem de impulsos e falta de controle, dificuldades de regulação de comportamento. Queixa escolar de agressividade com colegas e professores, também apresenta dificuldades de aprendizagem e leitura.

É importante mencionar que todas as crianças que participaram da pesquisa eram negras (pretas e pardas). De acordo com o Cadastro Nacional de Adoção (CNA, 2020) no relatório sobre crianças disponíveis para adoção no Brasil, a maioria das crianças institucionalizadas era formada negras, e com a faixa etária superior a quatro anos de idade. Esse dado se relacionam aos indicativos de como o racismo, a discriminação racial e a desigualdade social interferem no desenvolvimento das crianças negras. Para Oliveira (2025) o ambiente social para uma criança negra frequentemente falha em ser suficientemente bom, já que o contexto histórico do racismo atua como um ambiente adverso que perpetua e reproduz as proposições ideológicas sobre a inferioridade da população negra. Até mesmo na relação inicial de cuidado, a criança negra pode começar a experimentar essas falhas, já que seus cuidadores também estão imersos em um contexto de racismo internalizado nas suas experiências cotidianas.

No que se refere a aplicação da técnica, foi possível observar a dificuldade das crianças na realização dos desenhos e na contação das histórias. Algumas crianças tiveram maior dificuldade em manter o foco e no entendimento do que estava sendo proposto, por conta da complexidade do tema, de assunto delicado, e por se tratar de um público vulnerável. É difícil falar/desenhar sobre família quando se está longe da sua, ou quando sua vivência familiar é permeada por violências e desamparo.

As crianças participantes vivenciaram situações de negligência e outros tipos de violência, portanto uma criança que foi vítima desse tipo de situação, manifesta dificuldade em encontrar referenciais de afeto ou de cuidado, tendo em vista que as relações que estabeleceram anteriormente giravam em torno da agressividade e violência, tornando-se dificultoso falar sobre esse tema. As atitudes de negligência funcionam, para quem as sofre, como agressões e dificultam uma boa comunicação. Como consequência, para a criança se torna mais difícil confiar no ambiente e no outro (Winnicott, 2021).

Como mencionado na parte introdutória do trabalho, em situações de afastamento da criança da família de origem, a instituição de acolhimento se torna temporariamente responsável pelo cuidado destes, proporcionando um ambiente seguro e estável, com condições favoráveis ao desenvolvimento. Sobre a expressão das crianças do rompimento de seus vínculos familiares foram destacadas algumas colocações das crianças, que serão apresentadas a seguir.

Na primeira etapa da realização da pesquisa, quando realizado contrato verbal, C1 escreve seu nome de maneira ilegível:

Imagem 1 Assinatura do contrato verbal 

De acordo com o relato da psicóloga, C1 apresentava dificuldades de aprendizagem. A experiência de perda pode afetar o contexto escolar, de forma a prejudicar o rendimento da criança, potencializando o rendimento baixo, causando dificuldades na aprendizagem (Winnicott, 2012). Além disso, a impossibilidade de escrever o próprio nome pode simbolizar a dificuldade de nomear a sua história.

Quando solicitado que falasse sobre o desenho, a criança o descreveu através das partes do corpo:

“É... pé, outro pé, braço, rosto. Esse é o menino, esse aqui é o braço, braço, a blusa, o cabelo. Esse aqui é a vovó, a cara, o vestido, o braço, outro braço, pé, a cara. Esse aqui é o papai, a cara dele, a mão, as costas”.

A forma com que a criança descreveu o desenho, enfatizou o empobrecimento pela via da palavra. Como a criança possui poucas referências para descrever a questão afetiva na relação com a família, visto que, vivenciou situações de negligência, o descreveu através de partes do corpo. Winnicott (2023) descreve a utilização do corpo como uma forma de comunicação, ainda que primitiva ou regredida, a criança pode se comunicar por meio de seu corpo, diante das dificuldades simbólicas de se expressar pela via da palavra. A dificuldade se encontra no campo da palavra, pois não há suporte para que a palavra seja instrumento e destino do sintoma. É possível perceber no relato da criança a desintegração do corpo da família, a fragmentação do corpo para descrever características da família, podendo ser comprendido como a dificuldade da criança na integração, já que a criança desenvolve a capacidade de unidade corporal por meio da e na presença do Outro, um outro que exerça cuidado suficiente.

Ao receber a instrução de contar uma história sobre o primeiro desenho, com o tema de uma família qualquer, C1 responde:

“É... a menina na casa, o irmão na casa, a vovó na casa fazendo comida e o papai trabalhando”.

Quando questionada como eles estão, C1 aponta:

“Um pouco bom [...] Eles estão tristes, porque ninguém queria comer. O papai precisa trabalhar, acordar, vestir a roupa, e essa é a vovó, ela fica em casa fazendo comida. O irmão, a irmã fica dormindo.”

A fala de C1 pode ser compreendida também por meio da regressão para a fase oral. Para Winnicott (1982), a alimentação associa-se a aspectos emocionais. Freud (1905/1974), em Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade, postula que, durante a fase oral, a boca é a porta de entrada para o bebê conhecer o mundo externo e ter sensações de prazer ou desprazer. Comer está ligado ao nutrir-se de afetos. A comida não nutre somente ao corpo, mas a alma. Alguns pratos causam boas emoções e o resgate de boas memórias, provocando sensação de prazer e bem-estar. O alimento traz consigo elementos que vão influenciar na forma que a criança estabelece relação com ela mesma e com o mundo externo.

Conforme relato da psicóloga na entrevista, C1 apresenta indícios de ter sido vítima de abuso sexual. Durante a realização dos desenhos, é possível notar um realce nas partes íntimas das pessoas do sexo masculino. Tendo em vista que os desenhos são formas de a criança expressar suas fantasias, o emprego desse recurso tem como objetivo a instrumentalização de suas possibilidades comunicacionais permitindo a aproximação com a linguagem da criança e com a compreensão seu funcionamento psíquico (Affonso, 2012). Desta forma, o desenho de C1, foi visto como uma denúncia.

Abaixo foi destacado o desenho com a instrução de desenhar a sua família:

Imagem 2 O desenho como denúncia. 

Uma criança que passa pelo rompimento de vínculo com a família, pode apresentar impasses para expressar abertamente impulsos relacionados ao rompimento e perda, característica comum a toda as crianças participantes, e que foi observado com maior intensidade em C2. Quando os sentimentos são reprimidos, eles continuam ativos no inconsciente, mas incapazes de encontrar uma via de expressão direta, passando a influenciar sentimentos e comportamentos de modo distorcido. A partir daí, surgem diversas formas pela via do síntoma (Bowlby, 2021).

C2 manteve postura retraída e desconfiança, além disso demonstrou o sentimento de impossibilidade de falar da família. Após a realização do primeiro desenho, quando questionado se as pessoas estão felizes ou tristes, C2 responde “Não sei”, resposta dada mais de uma vez durante o inquérito pós desenho. Além disso, a criança teve dificuldades em concluir os desenhos propostos, totalizando apenas dois desenhos. A impossibilidade de desenhar representa a dificuldade de dar contornos a sua história, visto que o brincar e a fantasia é uma maneira da criança falar de si.

Imagem 3 Desenho de C2 sobre uma família qualquer. 

Foi observado que as crianças que vivenciam o rompimento familiar podem manifestar comportamentos agressivos, como foi visto nas C3 e C4. Há uma existência de relação causal entre a perda dos cuidados maternos e o desenvolvimento da personalidade. Comportamento agressivos podem estar relacionados a vivência dessas experiências, desde a propenção à delinquência até uma personalidade propensa à ansiedade ou depressão (Winnicott, 2012).

Ainda na entrevista inicial com a psicóloga, foi destacada uma fala sobre C3:

“Semana passada, a irmã veio aqui falar sobre uma questão seríssima. Ele pegou um urso e simulou um estupro”.

Além disso, segundo a psicóloga, há relatos dos parentes próximos de um episódio onde a criança foi adotada por um membro da família, mas logo foi devolvida, por ter tentado atear fogo no carro do tio.

A agressividade está ligada à natureza humana. É natural aos seres humanos, e não tem uma única origem. O que a fará se desenvolver e se tornar parte do indivíduo, é a atitude do ambiente. Se o ambiente não fornece cuidados satisfatórios, o bebê dirige sua agressividade para fora, podendo resultar em comportamento antissocial, violência ou compulsão à destruição (Winnicott, 2021).

Winnicott (2012) propõe uma relação causal, entre efeitos da privação e o comportamento antissocial, onde a tendência antissocial se manifesta resultado de o bebê ainda muito pequeno vivenciar uma experiência marcante de privação. Como já consegue reconhecer a mãe, ao dirigir sua agressividade para fora pretende alcançá-la. Com o passar do tempo, caso o bebê não consiga seu objetivo, os alvos passam a ser os substitutos simbólicos da mãe. A manifestação da tendência antissocial em casa ou em outros contextos, incluem roubo, mentira, agressividade e desordem generalizada.

Nesse sentido, Winnicott (2012) observa que quando a criança percebe que a falta de suprimento provém do mundo externo, ou seja, do ambiente, ela desenvolverá esperança e tentativas de recuperar algo que foi perdido através do ambiente. Os principais danos da (de)privação afetiva estão relacionados à tendência antissocial, que representa uma tentativa inconsciente de buscar no ambiente externo familiar (como na escola ou na sociedade) as condições essenciais para sua integração.

O ato antissocial deve ser reconhecido como algo que contém um pedido de socorro, uma vez que funciona como uma mensagem de apelo dirigido ao outro, portanto, carrega consigo a expectativa de uma resposta. O roubo pode ser entendido como uma tentativa de recuperar algo que lhe é devido, como se o ambiente lhe devesse algo. A criança que rouba, não está procurando usar o objeto que subtrai para si, e sim está à procura de uma pessoa, a própria mãe e em recuperar algo (Winnicott, 2021).

Ainda sobre C3, destaca-se uma fala da psicóloga:

“Ele não tem o nome do pai no registro, estamos correndo atrás para incluir, tentando fazer o exame de DNA e o reconhecimento de paternidade, apesar de ele já ter falecido. Estabelecemos contato com a tia, que é irmã gêmea do pai.”

O não reconhecimento da paternidade pode trazer intenso sofrimento ao sujeito. A busca pelo nome do pai na certidão, acompanha a idealização de que com a aquisição do nome, o que foi perdido em relação ao pai, será recuperado, como por exemplo, o vínculo afetivo. O questionamento que a criança faz “Quem é o meu pai?” envolve questões relacionadas à sua própria origem e raízes. Mesmo que não fisicamente, o pai pode se fazer presente, pois a função paterna vai além da presença física, tem efeitos na constituição psíquica do sujeito (Nunes, 2021).

Na primeira etapa da realização dos desenhos, quando questionado sobre o primeiro desenho realizado, ele assinala que desenhou o pai, a mãe e o irmão. Ao ser questionado sobre o pai, C3 responde: “Meu pai já está morto.”

No início da aplicação da técnica, foi evidenciado a dificuldade de C3 em falar e realizar desenho sobre a temática “família”: “Eu não consigo... Eu não vou conseguir fazer”. Nesse momento, foi realizada uma pausa na realização da técnica, sendo retomado em outro momento. Adiante, após a retomada da técnica, a criança decide tentar. No desenho três, onde foi solicitado que C3 desenhasse a família de alguém que não está bem, ele esboça o desenho abaixo, uma familia representada por apenas uma pessoa.

Imagem 4 Desenho intitulado “Família triste” por C3. 

Sobre C4, foi destacada uma fala após finalizar o primeiro desenho:

“O nome dele pode ser foto... foto de família. A história é que eles estavam tirando foto para colocar em um quadro deles. Esse aqui sou eu, essa aqui é minha irmã, esse aqui meu irmão, meu outro irmão, minha irmã e meu pai.”

Imagem 5 Desenho de C4 intitulado “Foto de família”. 

A fotografia é um processo que permite registrar uma imagem. Seja um lugar, um objeto, um momento ou a imagem de pessoas. A fotografia foi um instrumento frequentemente utilizado para gravar momentos sobre a história da humanidade. O título “Foto de Família” pode remeter a uma lembrança que C4 carrega de sua família. A fala destacada traz consigo conteúdos de reparação à perda que sofreu. O luto vivenciado pela criança decorrente do rompimento com a família, provoca sentimentos dolorosos. Assim, vivenciar o processo do luto e os sentimentos decorrentes, exige um trabalho psíquico de reconstrução do mundo interior, reparando os fragmentos bons do que foi perdido (Freud, 1996).

Foi comum em todas as crianças participantes, reações como queda do rendimento escolar, dificuldade de concentração, carência e agressividade. Além disso, é possível encontrar outras reações, como tristeza, depressão, raiva, culpa, relutância em aceitar coisas novas, apatia, isolamento, hiperatividade, somatizações, problemas de sono e de alimentação. Tais reações expressam o enlutamento diante das perdas sofridas, e precisam ser acolhidas e entendidas como tal. Esses comportamentos são uma forma de reagir a tudo que a criança está vivendo, na tentativa de se adaptar à nova situação, entretanto podem ser confundidas como má-educação ou ingratidão pelo cuidado oferecido (Tinoco, 2001).

Todas as crianças participantes também vivenciaram situações de privação afetiva com a familia. Neste ponto, cabe mencionar que, a privação afetiva nesse período da infância pode resultar na perda de referências identificatórias, gerando possíveis conflitos internos e externos para a criança. Gomide (2009, p. 73) menciona que “a negligência impede o desenvolvimento da autoestima, que é o principal antídoto ao aparecimento do comportamento antissocial”.

A criança negligenciada torna-se insegura e sua expressão se torna opaca; sem o afeto necessário para nutrir seu ser, ela se torna vulnerável. As necessidades de atenção e amor por parte cuidadores são fundamentais, assim como os cuidados básicos, como alimentação, higiene e educação. A falta desses cuidados é desestabilizadora porque está intimamente relacionada ao afeto recebido nas interações com os cuidadores primários e é essencial para a sobrevivência da criança (Rayane & Sousa, 2018).

Assim sendo, a negligência parental resultante da privação pode ser caracterizada pela falta ou interrupção das relações estabelecidas entre a criança e seus cuidadores primários. Na ausência desses cuidadores primordiais (Rayane & Sousa, 2018) as instituições precisam garantir um ambiente acolhedor, seguro e saudável à criança.

Na entrevista inicial com a psicóloga, quando questionado sobre a adaptação das crianças na casa de acolhimento, ela verbaliza:

“Aqui é o lugar de acolhimento mesmo, de afago, de pensar que vai ter comida todos os dias, pessoas para cuidar, então é um alívio para eles estarem aqui, apesar do estranhamento. Só de saber que vai ter comida todos os dias, uma cama, pessoas sempre cuidando de você, já é um alívio [...] As crianças aprendem a serem crianças aqui dentro. Antes elas tinham que ser o que precisavam ser lá, aqui aprendem a serem crianças”

Essa fala evidencia a importância do serviço de acolhimento institucional diante de situações em que as famílias estão impossibilitadas de cumprir sua função de cuidado e proteção, colocando crianças e adolescentes em risco. O abrigamento institucional torna-se uma medida de proteção para que não haja crianças ou adolescentes moradores de rua, expostas ao consumo de drogas e exploradas por adultos. Assim, destaca a importância das instituições de proteção e cuidado com a infância, diante da ausência da família, que por motivos adversos não puderam cumprir essa função.

Diniz, Assis e Souza (2018) postulam que a figura da cuidadora do abrigo é importante e necessária, pois será o contata mais frequentes dentro da instituição, funcionando como uma mediadora da criança na relação com as outras e com o que está ao seu redor. A cuidadora será quem ofertará acolhimento humano diante do luto da separação da criança com sua família.

Conclusões

A presente pesquisa dedicou-se a investigar como as crianças que residem na Criança Cidadã, instituição de acolhimento do município de Gurupi-TO, expressam a vivência do rompimento de vínculo com a família de origem, por meio do uso da técnica projetiva do Desenho da Família com Estória, permitindo compreender o contexto da institucionalização.

A infância é uma etapa do desenvolvimento fundamental na vida do sujeito. As primeiras experiências vivenciadas durante essa fase podem produzir efeitos para o resto da vida. Deste modo, é importante frisar a formação de vínculos afetivos e a presença de uma figura que exerça o papel de cuidador para que a criança tenha um desenvolvimento saudável.

A partir desta pesquisa, destaca-se, nos casos de destituição familiar, a importância da instituição de acolhimento na vida da criança, que devido ao estado emocional fragilizado em que ela se encontra. Crianças que residem em abrigamento institucional, costumam vivenciar no seu cotidiano situações de negligência e violência, além de instabilidade no lar, como no caso das crianças que participaram da pesquisa. Portanto, essas instituições encarregam-se de oferecer proteção e cuidado necessário, além de promover estabilidade, através da formação de um vínculo estável.

O estudo realizado por meio da técnica projetiva do desenho-estória, contribuiu para a compreensão dos sentimentos das crianças institucionalizadas em relação ao afastamento da sua família de origem, como também a expressão de tais sentimentos. Portanto, com a aplicação da técnica, as crianças tiveram a oportunidade de expressar seus sentimentos referentes ao rompimento familiar por via do desenho e da estória.

Ressaltamos a importância de que mais estudos sejam feitos sobre essa temática, para trazer novas perspectivas e visibilidade referentes ao cenário da institucionalização, principalmente incluido aprofundamentos sobre como os fatores interseccionais, de raça, gênero e classe, se relacionam com a institucionalização de crianças negras.

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Revisão gramatical: Alberto Gomes de Freitas Filho. E-mail: gfreitas.alberto@gmail.com

Recebido: 01 de Dezembro de 2023; Aceito: 01 de Fevereiro de 2025

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