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IGT na Rede

versão On-line ISSN 1807-2526

IGT rede vol.19 no.36 Rio de Janeiro  2022  Epub 16-Jun-2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.15149524 

ARTIGO

Gestalt-Terapia nas políticas públicas: Revisão Sistemática de Literatura

Gestalt-therapy in public policies: systematic literature review

Romano Deluque Júnior 

Cesar Augusto Marton 

Márcio Luís Costa 


RESUMO

Objetivou-se conduzir uma análise de literatura científica, na forma de uma revisão sistemática, sobre as possibilidades da aplicação da Gestalt-terapia, no que tange as suas teorias e técnicas, no campo da atenção psicossocial brasileira. Puderam ser identificados artigos publicados, e devidamente indexados nas seguintes bases de dados: SciELO; Medline; Lilacs; e PubMed. Seguiu-se os critérios do Preferred reportingitems for systematic reviews and meta-analyses (Prisma) . Foram selecionados 9 artigos que compuseram o corpus do presente trabalho. Os estudos corroboram com o fato de que a Gestalt-Terapia pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas dentro do contexto do cuidado em saúde mental. Por apresentar-se como uma abordagem humanística, possui em seus pressupostos semelhanças com o atual paradigma de cuidado em saúde mental, principalmente no ponto em que visa perceber a pessoa ao invés da doença, bem como os seus processos de ajustamento ao invés de seu diagnóstico.

Palavras-chave Gestalt-terapia; Saúde Pública; Comunidade; Atenção Psicossocial

ABSTRACT

The objective was to conduct an analysis of the scientific literature, in the form of a systematic review, on the possibilities of applying Gestalt therapy, regarding its theories and techniques, in the field of Brazilian psychosocial care. Published articles could be identified, and duly indexed in the following databases: SciELO; Medline; Lilacs; and PubMed. The criteria of Preferred reporting items for systematic reviews and meta-analyses (Prisma) were followed. Nine articles were selected that made up the corpus of this work. Studies corroborate the fact that Gestalt Therapy can contribute to the development of therapeutic strategies within the context of mental health care. As it presents itself as a humanistic approach, its presuppositions are similar to the current paradigm of mental health care, mainly to the point where it aims to perceive the person instead of the disease, as well as their adjustment processes instead of their diagnosis.

Keywords Gestalt therapy; Public health; Community; Psychosocial Care

Introdução

Percebe-se nos últimos anos um crescimento de projetos voltados, tanto à atenção primaria em comunidades quanto na atenção em saúde no SUS, focados na prevenção e promoção da saúde e na qualidade de vida (CAMPOS; DALTRO, 2016). Tais trabalhos são desenvolvidos através da atuação de equipe multidisciplinar e multiprofissional, onde cada vez mais tem-se percebido a inclusão do psicólogo. Trata-se de um campo de atuação com demandas complexas que pedem por formas de compreensão cada vez mais adequadas e capazes de fornecer solidez teórica para esses profissionais.

O espaço público de atendimento em saúde é, por vezes, um espaço de subalternidades onde aquele em situação de vulnerabilidade social demanda por cuidado frente a profissionais que precisam estar preparados, não apenas com o perfil de competências técnicas e tecnológicas de suas profissões, mas ainda com um olhar humanizado que possa perceber o outro como o outro (PIMENTEL; CASTRO, 2019). É nessa esteira que a Gestalt-terapia (GT) pode ser apresentada. Tal como uma abordagem que promove o contato genuíno entre seres humanos, “na possibilidade de desenvolver o diálogo através de condições como presença, inclusão, confirmação, consideração positiva incondicional” (CAMPOS; DALTRO, 2016 p.5).

A Gestalt-Terapia surge no início da década de 50 (PERLS; HEFFELINE; GOODMAN, 1997) como uma teoria e método aplicável à clínica psicoterápica, que possuía o intuito de ir além da perspectiva clínica tradicional. Fez-se surgir a partir daí, o termo ‘’aborda gem gestáltica’' que designa o uso de todo o seu arcabouço teórico e prático (SPINDOLA; MAES; TESSARO, 2021). A abordagem traz consigo uma visão de ser humano como biopsico-sócio-espiritual, sendo esta fundamentada na teoria de campo (RIBEIRO, 1999). Nesse sentido o adoecimento pode ser compreendido a partir da dimensão coletiva, que por sua vez envolve a dificuldade de lidar com fatores sociais como a presença de forte violência em comunidades, com a falta de recursos financeiros, precariedade habitacional, e até mesmo a ausência de vínculos afetivos. (BITTENCOURT; BÖING, 2017).

Trata-se de uma abordagem que investe na capacidade pessoal no que tange a autorregulação e no poder restaurador do humano (CAMPOS; DALTRO, 2016). Assim, instiga a autossustentação em vez de posturas e atitudes paternalistas, de modo que compele os envolvidos a perceberem o ser humano como um ser de possibilidades, pressões, e autorresponsabilidades, ou seja, um ser ‘’no’’ e ‘’para’’ o mundo. Então, o sujeito gestáltico é alguém que habita e interage com o seu entorno a todo o momento de sua existência.

Diante do exposto, com o presente trabalho objetiva-se, através de uma revisão sistemática de literatura, a detalhar o panorama de pesquisas em solo nacional, no que tange às possibilidades de utilização da Gestalt-Terapia enquanto corrente teórica e prática, no contexto da atenção em saúde mental. Como pergunta que norteia o escopo do presente estudo têm-se: Quais aspectos e delineamentos os estudos que tratam dos atravessa-mentos entre Gestalt-Terapia e saúde coletiva, no cenário nacional, tem feito emergir, e como esses achados podem contribuir para a compreensão de uma estratégia terapêutica em saúde mental, embasada em GT e aplicável aos contextos grupais e sociais na perspectiva da saúde coletiva?

Métodos

Trata-se aqui, de um estudo de revisão sistemática de literatura. Para isso, identificou-se artigos publicados por revistas cientificas devidamente indexados nas seguintes bases de dados em formato digital: SciELO; Medline; Lilacs; e PubMed. Foram utilizados os critérios do Preferredreportingitems for systematic reviews and meta-analyses (Prisma)1. Considerou-se estudos publicados entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de Abril de 2021, a fim de detalhar um recorte aproximado dos últimos 5 anos de pesquisas na área.

Os descritores utilizados foram: ‘’GESTALT’’ AND ‘’POLÍTICAS PÚBLICAS'' OR ‘’SAUDE MENTAL'' OR ‘’COMUNIDADE’’ OR ´´GRUPOS´´. A pesquisa compreendeu artigos publicados em inglês, espanhol e português. Porém, a utilização dos descritores em português é proposital, pois procura-se aqui obter, justamente o panorama nacional. A pesquisa devolveu, inicialmente 362 resultados, que uma vez refinados cronologicamente, reduziram-se a 168 artigos que tiveram seus resumos lidos e analisados.

Uma vez lidos e analisados os respectivos resumos, obteve-se as seguintes exclusões: 17 estudos duplicados; 99 estudos fora de escopo; 21 estudos dentro de escopo, mas fora das delimitações geográficas (Brasil); 18 artigos de opinião, carta ao editor, ou assinados por editorial; 4 artigos que não estavam disponíveis para consulta pública. Por fim, 9 artigos foram lidos na integralidade e selecionados para compor o corpus da presente revisão.

O processo de seleção, identificação e catalogação dos resultados obtidos, bem como os critérios de inclusão e exclusão utilizados, estão exemplificados na Tabela 1; Figura 1.

Tabela 1 Critérios de inclusão e exclusão. 

Critérios
Inclusão Exclusão

Estudos Publicados entre 1º de Janeiro de 2015 e 31 de Abril de 2021.

Estudos que apresentaram objetivos, métodos e resultados claramente definidos.

Estudos que se enquadraram no escopo pretendido, e o fizeram abordando o contexto geográfico pré-estabelecido (Brasil).

Estudos em inglês, espanhol e português. Estudos publicados que contemplassem discussões sobre a prática da Gestalt-terapia no contexto da RAPS (Rede de Atenção Psicos-social), na figura de seus diversos serviços e equipamentos, tais como: CAPS; SRTs; UAs; e os leitos de atenção integral (em Hospitais Gerais e nos CAPS III)

Estudos publicados fora dos limites temporais estabelecidos.

Estudos fora do escopo pretendido, e que embora tratassem do tema da Gestalt-terapia e o serviço público de saúde, o faziam a partir de um viés que não contemplasse o tema da saúde mental.

Estudos que trataram da temática a partir do viés pretendido, mas que o fizeram fora das delimitações geográficas pré-estabelecidas (Brasil).

Teses, dissertações.

Estudos assinados por editorial, cartas ao editor, de opinião e materiais educativos/informativos.

Figura 1 Fluxograma - Processo de seleção dos estudos pesquisados. 

Os artigos selecionados foram analisados de modo a se recolher e compilar as informações sobre: o tipo de estudo, tamanho e característica das amostras, metodologia, objetivos do estudo, principais resultados e conclusões, e limitações e direcionamentos futuros. Um resumo dessas categorias está exposto na Tabela 2.

Tabela 2 Tipo de estudo, tamanho e característica das amostras, metodologia, objetivos do estudo, principais resultados e conclusões. 

Autoria e ano de publicação Tamanho e característica das amostras Metodologia do estudo Objetivos do estudo Principais resultados e conclusões
1 Lima, 2020 - Ensaio reflexivo de discussão teórica. Propor e discutir uma reflexão sobre a visão de cuidado em Gestalt-terapia, bem como acerca das implicações da abordagem na atuação do gestalt-terapeuta.

Cuidar gestalticamente é incentivar a autonomia, respeitar todo e qualquer ser humano, no seu modo de ser e estar diante do outro humildemente pois para a GT somos todos seres-no-mundo, atravessados pela existência mundana onde somos cuidados e cuidadores.

Na GT nao existe uma “receita” de cuidado. Aprendemos com o outro e em cada momento o modo próprio e singular de estar com, em cada situação, contexto e ambiente.

2 Pimentel; Castro, 2019 Textos produzidos nos anos 90 até 2018 que possuiam afinidade teóricas junto ao tema proposto. Ensaio reflexivo de discussão teórica. Discutir o conceito gestáltico de ajustamento criativo e a subalternidade que afeta a autoestima de mulheres negras e lésbicas.

Mesmo ante a Política Nacional de Humanização, o tratamento desrespeitoso, preconceituoso e humilhante, em especial no que tange à saúde sexual e reprodutiva, atinge em cheio as mulheres negras e lésbica que fazem uso dos serviços de saúde na atenção básica.

O uso de jargões como: mulheres lésbicas não engravidam; ou não precisam ir ao serviço de ginecologia, sugerem a falta de acolhimento para essa população.

O ajustamento criativo beneficia a identificação com seu corpo, sua cor, sua sexualidade; amar-se, e apreciar cognitivamente seu valor pessoal. Pertencer a um grupo familiar constitui a primeira fronteira da aprendizagem social do autorreconhecimento; seguida pela vinculação ao grupo de pares, de trabalho, de lazer, etc. Deste modo a afirmação da identidade e da saúde mental da mulher negra e lésbica requer estratégias criativas, pessoais e coletivas de superação da subalternidade.

3 Almeida, 2020 - Revisão de literatura sem caráter de revisão sistemática ou metanálise. Discutir sobre a interlocução entre a gestalt-terapia e o cuidado em saúde mental, com ênfase na atuação do psicólogo (a) no núcleo ampliado de saúde da família e atenção básica (NASF-AB). Percebe-se que o aporte teórico e prático da abordagem gestáltica pode atuar como ferramenta valiosa para as práxis dentro de novos dispositivos de cuidado em Saúde Mental, principalmente no que diz respeito à atuação do profissional de psicologia, respectivamente na AB, através NASF-AB, que ampara por uma abordagem humanista de cunho fenomenológico-existencial, possibilita novos olhares sobre o homem e suas diversas manifestações saudáveis e não saudáveis, repercutindo no modos de atenção e cuidado.
4 Bittencourt; Böing, 2017 - Ensaio reflexivo de discussão teórica Refletir com base no Pensamento Sistêmico e da Gestalt-terapia, sobre atuações especificas da Psicologia e ações interdisciplinares a partir da experiencia de estágio curricular em um CAPSi.

O pensamento sistêmico, a Gestalt-terapia e práticas da Psicologia podem contribuir não só para as práticas especificadas da profissão, como a psicoterapia e a avaliação psicológica, mas também para a qualidade das ações interdisciplinares e intersetoriais. À medida que se reconhece, valorize e qualifica o trabalho do outro, mesmo discordando e percebendo as diferenças, relações saudáveis entre a equipe podem ser criadas e fortalecidas.

O saber e a prática do psicólogo, com a sua escuta e olhar focados nos contextos das relações e significados atribuídos pelos sujeitos às suas experiências com ferramentas teóricas e metodológicas específicas para compreensão de aspectos intrapsíquicos e interrelacionais, contribuem para o desenvolvimento de uma relação empática que se propõe a perceber o mundo do sujeito a partir da perspectiva dele e de seu contexto, potencializando o processo de intervenção específica e interdisciplinar.

5 Campo; Daltro, 2016 - Relato de experiência em supervisão de estágio Discutir a utilização de metodologias para o estágio, tais como a Gestalt-terapia de curta duração e a ação terapêutica nos moldes gestálticos no contexto de plantão psicológico.

No contexto do estágio, o diálogo mostrou-se uma peça importantíssima no trabalho psicoterapêutico: estar atento ao humano, e às relações que se estabelecem entre todos os participantes, para o aluno, terapeuta-aprendiz, foi importante desenvolver a capacidade de estar verdadeiramente presente, para fazer contato com a essência de cada um, e poder ver a humanidade em cada pessoa.

Outro ponto importante foi compre-ender e incluir a dimensão social, a vivência da carência como crise, a necessidade de atuação para melhorias sociais.

6 Diógenes; Pontes, 2016 Foram entrevistados 12 psicólogos, gestalt-terapeutas ou não, que trabalham na ESF do Estado do Ceará. Trata-se de uma pesquisa qualitativa em saúde, cuja vertente é fenomenológica-hermenêutica, em uma perspectiva crítico-dialética, de narrativas orais. Utilizouse, como instrumento de coleta de dados, entrevistas abertas. Investigar na atuação de psicólogos na Estratégia Saúde da Família quanto a possibilidade de articulações teóricas e práticas a partir do olhar Gestáltico. A Gestalt-terapia tem aceitação dos psicólogos que trabalham na ESF; e a principal contribuição da abordagem para esse cenário é a visão de totalidade do ser humano, já que é exigência da ESF e da CA trabalhar com visão integrada de um sujeito singular, compreendido num contexto amplo. Conclui-se que, quando a abordagem psicológica possui visão de homem que se aproxima das diretrizes da ESF e o psicólogo consegue unir ambas as formações na sua prática, uma garantia de atuação qualificada neste contexto é facilitada.
7 Santos et Al., 2017 - Ensaio reflexivo de discussão teórica. Promover um diálogo entre a Terapia Comunitária Integrativa, a partir de verbalizações de participantes de rodas de TCIs. Conclui-se que ambas as teorias apresentam uma profunda ligação em suas práticas, mesmo sendo utilizadas de formas diferentes, onde ambas proporcionam ao indivíduo bem-estar, autoconhecimento, responsabilização e consciência, promovendo através de suas práticas a capacidade do indivíduo desenvolver a resiliência, levando o mesmo a um empoderamento social e individual.
8 Couto; Macedo, 2020. 8 mulheres participantes do grupo terapêutico “mulheres em foco.” Estudo de caso sobre um trabalho realizado entre março e dezembro de 2019 em estágio integrado de Psicologia. Relatar a experiência de estágio de um grupo terapêutico de mulheres a partir de um olhar gestáltico.

Em grupos terapêuticos, o tempo em que os participantes frequentam importa. Quanto maior o tempo, maior a afinidade e a fluidez das conversas, transformando o grupo em um espaço de convivência, levando o grupo a um estágio de interdependência e intimidade.

A proposta do grupo terapêutico é, ressaltar as potencialidades presentes no processo grupal, valorizando a individualidade do sujeito e a capacidade de criar novas formas de estar no mundo, numa perspectiva de saúde e satisfação com a vida.

9 Parente; Belmiro, 2015. - Revisão de literatura sem caráter de revisão sistemática ou metanálise. Repensar a contribuição da gestalt-terapia para a prática do acompanhante terapêutico. A Gestalt-terapia pode servir de embasamento teórico para a prática do acompanhante terapêutico, pois possuem condições de dar suporte teórico para a abordagem, tendo em vista que ambas são compreensivas, e deslocam o foco dos seus trabalhos da doença do sujeito, para compreender como um todo, influenciado pelo seu ambiente e altivo em seu processo de acompanhamento.

Análise dos Resultados e Discussão

A partir dos critérios de inclusão e exclusão (Tabela 1), foram incluídos 9 artigos (N=9) que tiveram suas informações compiladas e sistematizadas. Dos 9 estudos selecionados, apenas 2 utilizaram-se de pesquisa de campo: em um deles foram entrevistados 12 psicólogos, gestalt-terapeutas ou não, que trabalham na ESF do Estado do Ceará, com o objetivo de investigar, dentro do contexto de atuação desses profissionais – a Estratégia Saúde da Família – quanto a possibilidade de articulações teóricas e práticas a partir de um olhar Gestáltico (DIÓGENES; PONTES, 2016). O outro estudo que executou coleta de dados com ida a campo, ouviu 8 mulheres participantes de um grupo terapêutico chamado “mulheres em foco’’, cujos objetivos são ressaltar as potencialidades presentes no processo grupal, valorizando a individualidade do sujeito e a capacidade de criar novas formas de estar no mundo, numa perspectiva de saúde e satisfação com a vida (COUTO; MACEDO, 2020).

Os demais estudos selecionados trataram do tema proposto a partir de estudos estritamente teóricos. Foram 4 ensaios reflexivos de discussão teórica (LIMA, 2020; PIMENTEL; CASTRO, 2019; BITTENCOURT; BÖING, 2017), 2 estudos no formato de revisões de literatura sem caráter de revisão sistemática ou metanálise (PARENTE; BELMIRO, 2015; ALMEIDA, 2020), e por fim um estudo em formato de relato de experiência em supervisão de estágio (CAMPO; DALTRO, 2016). De modo geral, os estudos selecionados corroboram entre si, que a GT possui aplicabilidade no cenário de atenção psicossocial em saúde mental. Os autores dos estudos selecionados trazem, cada um a seu modo, contribuições distintas no que tange a esse ponto.

Lima (2020) constrói uma discussão acerca do ato de cuidar em GT, não no sentido de se apontar modos corretos ou incorretos de se cuidar em Gestalt-Terapia, mas para possibilitar uma abertura de horizontes que permitam um maior entendimento a respeito da tarefa do cuidado, e se tais entendimentos são compatíveis com uma visão gestáltica a respeito do mesmo. A autora ressalta que o cuidado é uma tarefa inerente a todo ser humano, pois se hoje alguém existe, é porque em sua vida fora cuidado.

Desde o nascimento, somos carentes de cuidado e sem alguém que nos cuide, de fato pereceremos. O estado de fragilidade em que nascemos não diz respeito apenas a uma necessidade de cuidados físicos, mas também nascemos emocionalmente dependentes e, desde o início de nossas vidas, necessitamos receber alimentação e outros cuidados essenciais à nossa subsistência, como também atenção, proteção e afeto (LIMA, 2020 p. 1052).

Segundo a autora, para uma conceitualização de cuidado em Gestalt-Terapia, há de se retornar a Heidegger (1889 – 1976) quando este utilizava o seu equivalente em língua alemã – sorge (cuidado) – num sentido de preocupações referentes ao futuro. Já em formato de verbo – sorgen (preocupar-se) – o autor atribuía-lhe duplo sentido: sobre estar preocupado com algo, ou em relação a tomar conta de algo ou alguém (LIMA, 2020). Heidegger enfatizava que o cuidado é inerente ao próprio ser (Dasein), um modo próprio da existência humana. Essa posição dual frente ao conceito de cuidado – o voltar-se para si, e também para o outro – caminha em concordância com a conceituação de cuidado a partir do ponto de vista holístico, organísmico, e da teoria de campo que, juntos, perfazem o conceito gestáltico de cuidado (LIMA, 2020).

Então, em Gestalt-Terapia, pode-se pensar o cuidado como uma composição entre afeto, pensamento, ação, e contextualização. Ou seja, vai para além do ato de prestar atenção ou ter condutas em relação ao outro, mas é ousar perceber esse outro dentro de um mosaico onde estão presentes aspectos afetivos, físicos, sociais, e culturais que compõem a sua realidade. Característica bastante interessante do processo de cuidado em Gestalt-Terapia, é que durante o processo de desenvolvimento do ser humano, este vai deixando de ser dependente de cuidados alheios para, aos poucos construir-se a partir de uma noção de autocuidado e auto apoio (LIMA, 2020). Segundo a autora:

[...] podemos considerar que, do ponto de vista da Gestalt-terapia, o processo de ser cuidado evolui para um aprendizado do autocuidado. Quanto mais se amadurece, menos a pessoa depende do cuidado alheio, pois cada vez mais é capaz de cuidar de si mesma e de construir referenciais próprios de suporte. Visto assim, o processo de amadurecimento é um processo de construção de autonomia e de libertação de relações de extrema dependência (LIMA, 2020 p. 1055).

Embora a Gestalt-Terapia tenha nascido como uma proposta psicoterápica de atendimento individual, a mesma fora adotada no trabalho com grupos em diversos contextos, tanto é que Perls (1983-1970), seu reconhecido fundador, cria, no final de sua vida uma comunidade baseada em princípios gestálticos, onde viria a defender que a GT não se restringia à psicoterapia, mas que se tratava de uma forma de vida, aplicável aos mais variados cenários e contextos (LIMA, 2020). Tal expansão de possibilidades da abordagem gestáltica não é por acaso, e pode ser bastante exitosa para o trabalho da clínica ampliada onde, inclusive, pode-se fazer uso de seus diversos recursos, como a música, o teatro, a argila, entre outros (LIMA, 2020).

Pimentel e Castro (2019) discorrem sobre o conceito gestáltico de ajustamento criativo, e a subalternidade que afeta a autoestima de mulheres negras e lésbicas. Além disso, os autores apresentam o uso da criatividade como estratégia para enfrentar impasses culturais que infelizmente, ainda hoje afetam essas populações.

A criatividade é uma estratégia de enfrentamento existencial que as clientes adquirem, na medida em que, as intervenções clínicas gestálticas favorecem a atualização da autocompreensão e o desvelamento dos jogos de poder presentes na cultura em que as clientes estão inseridas; portanto o delineamento do objeto de estudo se insere no escopo da clínica ampliada, já que Gestalt-terapeutas, atualmente trabalham nos serviços básicos e de alta complexidade em saúde, bem como na Rede de Assistência Psicossocial (RAPS) voltada para a saúde mental. (PIMENTEL; CASTRO, 2019 p.2).

A escolha pelo tema, deve-se à percepção, por parte dos autores, da alta incidência da população negra e de mulheres na Região Norte, muitos dos quais, segundo os autores, manifestam reduzido capital cultural para a superação de vivências de subalternidade. De acordo com o IBGE, entre 2012 e 2016 na região Norte, 72,3% da população se declarou parda, 19,5% branca e 7,0% preta (PIMENTEL; CASTRO, 2019). Então, a partir de um diálogo crítico com textos das áreas da saúde, em especial os sobre a clínica gestáltica, e sua relação com a experiência da diversidade sexual, se é apresentado um ensaio reflexivo de discussão teórica, cujo objetivo é discutir os modos como a técnica e o conceito gestáltico de ajustamento criativo pode auxiliar no enfrentamento da subalternidade, e da fragilidade que afeta mulheres negras e lésbicas.

Mesmo em face da Política Nacional de Humanização, tem-se emergido episódios de desrespeito, preconceito, e de humilhações, em especial no que tange ao tema da saúde sexual e reprodutiva, que afetam diretamente as mulheres negras e lésbicas que utilizam dos serviços de saúde na atenção básica (PIMENTEL; CASTRO, 2019). Eis que sobrevêm uma série de jargões e apelidos pejorativos como: “lésbicas não engravidam” e “essas daí não precisam passar por ginecologista, e sim por urologista”. Segundo os autores:

O ajustamento criativo, enquanto processo, é fundamento para o desenvolvimento da função do self, uma vez que autorregula e tem como meta o atendimento de demandas e necessidades da pessoa, potencialidades transformadas na relação plena entre organismo e meio, sendo “o self é um ‘eu’ relacional, processual e consciente” (PIMENTEL; CASTRO, 2019 p.8).

Ao passo que a mulher negra e lésbica assume a responsabilidade pela criação e condição do seu bem-estar, estará justamente vivendo o ajustamento criativo. A partir do momento que tem a consciência de si mesma, ficará pronta para resolver situações adversas, mostra-se, assim que o autorreconhecimento irá restaurar e equilibrar sua saúde mental. Logo, pode-se concluir que ao experimentar a pluridimensionalidade de ser quem ela é, as portas para identificar sua sexualidade, seu corpo e sua cor irão se abrir, possibilitando enfrentar o preconceito e o seu crescimento enquanto pessoa/cidadã, tal como é proposto pela abordagem gestáltica.

Almeida (2020) argumenta pela possibilidade de articulação entre a literatura de base gestáltica no cuidado em saúde mental, em particular, devido às noções teóricas de potencialidade, singularidade, liberdade e responsabilidade na relação homem/mundo. A autora elabora uma discussão que visa refletir sobre a atuação do psicólogo gestáltico no Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB)2, no contexto da saúde mental.

Sabendo que a OMS (1948) conceitua o significado de saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença, há de se perceber que tal concepção está relacionada ao cenário sociocultural, econômico e psíquico de cada pessoa, emergindo daí, uma dinâmica altamente atravessada por novos determinantes no que tange aos processos de adoecimento. Para Almeida (2020), o homem gestáltico é um ser-no-mundo, que vive e convive com seu meio, e, ao mesmo tempo transforma-o, e é-se transformado por ele.

Diante disso, Perls (2002) condiciona o homem ao seu potencial criativo e reconstrutivo que, de maneira crescente e criativa, tende ao equilíbrio, que por sua vez só pode ser alcançado por meio da ‘’awareness’' – uma figura singular de comunicação e conhecimento. A partir desse pressuposto, o psicólogo orientado pela Gestalt-Terapia deve acompanhar o sujeito em seu inevitável encontro com a dor, enquanto este demanda por cuidado e amparo, ‘'pois fugir configura-se enquanto um estado de não-ser, já que a mudança e o crescimento se dão a partir do encontro com aquilo que é, ao invés de tentar se o que não é’' (ALMEIDA, 2020 p. 174).

A experiência no NASF-AB traz consigo desafios à prática dos profissionais da saúde, em especial aos psicólogos, pois, ao adentrar no universo da coletividade e do trabalho inte-grado – característica da clínica ampliada – se está diante de um trabalho que transcende o modelo assistencial de se promover saúde, para um outro com o olhar para a territorialidade. Algo que demanda por um entendimento de homem muito mais histórico e holístico, pois aqui a ideia central não é prover um atendimento clínico mediante uma queixa ou um sintoma, mas a partir de um histórico de vida pré-conhecido pelos profissionais da rede. Nesse sentido:

[...] o aporte teórico e prático da abordagem gestáltica pode atuar como ferramenta valiosa para as práxis dentro dos novos dispositivos de cuidado em Saúde Mental, principalmente no que diz respeito à atuação do profissional de psicologia, respectivamente na AB, através NASF-AB, que amparada por uma abordagem humanista de cunho fenomenológico-existencial, possibilita novos olhares sobre o homem e suas diversas manifestações saudáveis e não saudáveis, repercutindo nos modos de atenção e cuidado (ALMEIDA, 2020 p. 179).

O estudo apresentado por Almeida (2020) possui a característica de lançar bases para novas pesquisas no campo da atenção pública em saúde, sobretudo com a utilização de referenciais teóricos ligados ao métodos fenomenológicos, fomentando assim, a compre-ensão de pesquisadores e psicólogos atuantes no referido campo, e apresentando uma abordagem focada no ser-no-mundo e no ser com os outros, abordagens tais que instiguem uma postura empática e criativa, por parte desses profissionais, na relação com o outro – paciente ou não.

Bittencourt e Böing (2017) apresentam um ensaio reflexivo de discussão teórica, a respeito de uma experiência de estágio curricular obrigatório, cujo objetivo é construir uma reflexão com base no pensamento sistêmico e na gestalt-terapia, sobre atuações especificas da Psicologia e ações interdisciplinares a partir da experiência de estágio curricular em um CAPSi. Para as autoras, o pensamento sistêmico, a Gestalt-terapia e práticas da Psicologia podem contribuir para além das práticas inerentes à profissão de psicólogo, como a psicoterapia e a avaliação psicológica, mas ainda, para o aumento da qualidade das ações interdisciplinares e intersetoriais. Segundo as autoras:

A experiência no CAPSi teve, como base epistemológica, o Pensamento Sistêmico e como suporte teórico e metodológico, teorias sistêmicas e da gestalt-terapia. Ambas as abordagens teóricas relacionam-se aos preceitos do SUS e se propõem a compreender o sujeito em um contexto, que envolve questões pessoais, relacionais, históricas, políticas, econômicas e sociais ao longo do tempo (BITTENCOURT; BÖING, 2017 p. 58).

Neste mesmo contexto, o saber e a prática comum ao psicólogo, que utilizando de sua escuta e olhar, com foco nas relações e significados atribuídos pelos sujeitos demandantes de cuidado às suas próprias experiências, podem contribuir para o desenvolvimento de uma relação profissional/paciente empática que se proponha a perceber o mundo do sujeito a partir da perspectiva dele e de seu contexto, potencializando o processo de inter-venção específica e interdisciplinar (BITTENCOURT; BÖING, 2017).

Nessa esteira, propõe-se a colocar a ‘'doença'' entre parênteses, com o objetivo de perceber o sujeito e seu sistema de necessidades. O olhar então, deixaria de ser exclusivamente técnico – o que não é o mesmo que renegar a doença – mas sim ter de reconhecer os aspectos genéricos dos processos de adoecendo juntamente do ato de aprender com a variação, ouvindo o paciente e investigando o caso em particular.

Nesse sentido, o objeto de investigação e intervenção é o conjunto de condições concretas de existência da população, seus determinantes nos processos saúde-doença, suas expressões em experiências de sofrimento de sujeitos singulares (BITTENCOURT; BÖING, 2017 p. 58).

Por fim, embasando-se pelo pensamento sistêmico e pela Gestalt-Terapia, reitera-se a importância de um diagnóstico situacional e contextualizado, a fim de sobrepor a doença pelo sujeito, esse último com as suas vivências, histórias e contextos. Trata-se, pois, de referenciais epistemológicos que consideram um trabalho que vise o paciente de modo integral – de acordo com os princípios do SUS – em especial com o conjunto de propostas de condutas terapêuticas articuladas denominado Projeto Terapêutico Singular (PTS).

Campos e Daltro (2015) também apresentaram um estudo em formato de relato de experiência em supervisão de estágio cujo objetivo é o de discutir a utilização de metodologias para modalidades de estágio em Psicologia, com base em Gestalt-terapia de curta duração, e a ação terapêutica nos moldes gestálticos no contexto de plantão psicológico. Segundo as autoras, a Gestalt-Terapia traz consigo uma visão de homem bio-psico-sócio-espiritual, fundamentada na Teoria de Campo, e nesse sentido, o adoecimento é compre-endido ressaltando-se a dimensão coletiva, que também precisa ser considerada e tratada.

Muitas vezes, o papel do psicólogo atuante nas Unidades de Saúde da Família (USF) consiste em, na forma de psicoterapia de curta duração, auxiliar o cliente a ‘'encontrar soluções para lidar com fatores sociais, como a presença da violência em uma comunidade, a escassez de recursos financeiros, a precariedade de habitação etc’’, de modo que [...] ‘’o contexto social é sempre considerado como um fator de doença e cura (CAMPOS; DALTRO, 2015 p.62). Sendo assim, o suporte teórico trazido pela Gestalt, para esses profissionais, parece ser bastante pertinente, ‘'pois este investe na capacidade da pessoa em se autorregular e no poder restaurador do humano, e enfatiza a autossustentação e não o paternalismo’' (CAMPOS; DALTRO, 2015 p.62). Segundo Ribeiro (1999):

Gestalt-Terapia individual de curta duração é um processo no qual cliente e psicoterapeuta se envolvem em soluções imediatas de situações de qualquer ordem, vividas pelo cliente como problemáticas, utilizando todos os recursos disponíveis, de tal modo que no mais curto espaço de tempo o cliente possa se sentir confortável para conduzir sozinho sua própria vida (p. 76).

No contexto do estágio, dizem as autoras, foi o diálogo que se mostrou como a peça mais importe no trabalho psicoterapêutico, daí, estar atento ao humano, e às relações que se estabelecem entre todos os participantes, é a principal tarefa que se impõe para o terapeuta aprendiz. Nesse sentido, é demasiadamente importante desenvolver a capacidade de estar verdadeiramente presente, para fazer contato com a essência de cada um, e poder ver a humanidade em cada pessoa (CAMPOS; DALTRO, 2015). Outro ponto relevante parece se assentar sobre a dimensão social, as vivências de cada um, as crises e as mazelas sociais atuantes no entorno.

Diógenes e Pontes (2016) apresentaram uma pesquisa qualitativa em saúde, cuja vertente é hermenêutico-fenomenológica, em uma perspectiva crítico-dialética, de narrativas orais. Para a coleta de dados, utilizou-se de entrevistas abertas. Com o estudo, os autores expuseram como objetivo, investigar, na atuação de psicólogos atuantes na Estratégia Saúde da Família (ESF) quanto a possibilidade de articulações teóricas e práticas a partir de um olhar Gestáltico. Foram entrevistados 12 psicólogos, gestalt-terapeutas ou não, que trabalham na ESF do Estado do Ceará.

Nas entrevistas realizadas foi percebido que a maior parte dos psicólogos utiliza-se de abordagens psicológicas de cunho humanista, onde a Gestalt-terapia está inserida, inclusive, mais da metade deles citaram nominalmente a abordagem como sendo a de sua escolha para atendimento psicológico. Ademais, segundo os autores:

Pensando nas contribuições conceituais, filosóficas e metodológicas da GT, é possível estender tais contribuições para os outros profissionais de saúde, caso se identifiquem com uma visão de homem que é um todo unificado e integrado, responsável pelas escolhas de sua vida, capaz de se transformar e se reinventar em busca da sua saúde (DIÓGENES; PONDES, 2016 p. 169).

De modo geral, a Gestalt-Terapia parece ter aceitação dos psicólogos entrevistados que trabalham na ESF, sendo a principal contribuição da abordagem para tal cenário de atendimento, a visão de totalidade do ser humano, uma vez que é exigência da ESF trabalhar com visão integrada de um sujeito singular, compreendido num contexto amplo que leva em consideração o seu entorno social (DIÓGENES; PONTES, 2016). Ainda há de se dizer que, quando uma abordagem psicológica parte do princípio de uma visão de homem que se aproxima das diretrizes do SUS e da ESF, e o psicólogo consegue, através de técnicas e de capacitação, unir tais formações na sua prática cotidiana, uma atuação qualificada neste contexto é bastante facilitada.

Santos et Al. (2017) publicaram um ensaio reflexivo de discussão teórica cujo objetivo é o de promover um diálogo entre a Terapia Comunitária Integrativa (TCI), a partir de verbalizações de participantes de rodas de TCIs. Para os autores, a Gestalt-Terapia é uma abordagem de psicoterapia que crê em um ser holístico, sempre integrado ao meio. A mesma reúne em seu arcabouço teórico técnicas, e estratégias terapêuticas baseadas em um modelo fenomenológico (SANTOS et Al., 2017). Ainda segundo os autores:

O Gestalt-terapeuta acredita que toda pessoa tem em si potencialidades que permitem que elas façam a melhor escolha possível para elas, naquele momento. Quem sabe o que é melhor para a pessoa é ela própria e não o terapeuta. Ele é somente um facilitador para que o cliente se conheça e se perceba. Deste modo é possível que ele encontre a forma mais adequada de fechar suas “gestaltens” abertas. Assim, se auxilia o cliente a uma atitude dentro da psicoterapia, que implica em acreditar no desenvol-vimento, no crescimento humano e na construção de uma relação (p. 203-204).

Já a Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é uma metodologia criada pelo psiquiatra e antropólogo Prof. Dr. Adalberto Barreto, da Universidade Federal do Ceará, que teve seu início no ano de 1987 como uma técnica que visava responder às demandas do Centro de Direitos Humanos da Comunidade do Pirambú, a maior favela do Estado do Ceará (SANTOS et Al., 2017). Hoje, a TCI é aplicada em diversas áreas, como no enfoque social, de saúde, ou na educação. Rodas de TCI consistem em um espaço de acolhimento e compartilhamento de sentimentos e experiências de vida. Observou-se, no estudo proposto por Santos et Al. (2017), que as técnicas e procedimentos gestálticos podem contribuir para com aprimoramentos no decorrer de grupos de TCI. Os autores discorrem:

No transcorrer das rodas de TCI nota-se que sua rigidez estrutural poderia permitir uma maleabilidade, como há na GT, possibilitando um maior contato com as demandas explicitadas, para tal indica-se a inserção de vivências e experimentos, propiciando uma experimentação dos fenômenos. Desta maneira, se acredita que os efeitos das discussões seriam mais eficazes. Visto que vivenciar produz maior consciência do que o discurso (p. 211).

Em resumo, para os autores, a interdisciplinaridade entre as duas abordagens colabora para a adaptação do sujeito em seu ambiente através da invocação de soluções criativas para o seu dia a dia. Esse processo de ajustamento criativo empedra o ser humano e o relega mais autonomia, instigando-o a se expressar livremente e sem amarras, e a aceitar-se como de fato é. Além disso, as abordagens permitem a ressignificação de sua própria história de vida, bem como um crescimento pessoal amplo e contínuo ao longo de sua trajetória.

Couto e Macedo (2020) apresentam um estudo de caso sobre um trabalho realizado entre março e dezembro de 2019 em estágio integrado de Psicologia, num serviço-escola de uma universidade comunitária do sul do Brasil. O estudo tem como objetivo relatar a experiencia de estágio de um grupo terapêutico de mulheres a partir de uma análise mediante o olhar gestáltico. Trata-se de um grupo terapêutico aberto, com possibilidade de ingresso de novos participantes. Essas são geralmente mulheres, a partir de 40 anos, com demanda para terapia de grupo.

As autoras relembram que a abordagem gestáltica fundamenta-se em uma perspectiva fenomenológica-existencial, e possui uma visão de sujeito que é único e singular, em constante interação com o seu meio e entorno. A partir da perspectiva das políticas públicas, o grupo terapêutico, enquanto modalidade de intervenção, mostra-se como um recurso bastante importante, e que pode servir c como um espaço de promoção e produção de saúde (COUTO; MACEDO, 2020).

A proposta do trabalho com grupo visa ressaltar as potencialidades presentes no processo grupal, valorizando os sujeitos em sua individualidade e capacidade de criar novas formas de estar no mundo, numa perspectiva de saúde e satisfação com a vida [...] a intervenção em grupo baseada na Gestalt-terapia pode ser uma estratégia terapêutica bastante eficiente ao considerar os fenômenos que aparecem no encontro, valorizando o que acontece entre as pessoas, por meio do acolhimento e da escuta, reconhecendo o outro em sua forma genuína e singular de ser (COUTO; MACEDO, 2020 p. 63-64).

Ainda há de ressaltar que, em grupos terapêuticos, o tempo em que os participantes frequentam importa. Quanto maior o tempo, maior a afinidade e a fluidez das conversas, transformando o grupo em um espaço de convivência, levando o grupo a um estágio de interdependência e intimidade. Sendo assim, a proposta do grupo terapêutico é, ressaltar as potencialidades presentes no processo grupal, valorizando a individualidade do sujeito e a capacidade de criar novas formas de estar no mundo, numa perspectiva de saúde e satisfação com a vida.

Por fim, as autoras reiteram que embora haja referenciais teóricos que trabalhem o tema dos grupos terapêuticos, muito ainda há de ser feito no que tange às aproximações do método com a Gestalt-Terapia. Ademais estudos com os chamados ‘’grupos gestálticos’'3 já vem sendo amplamente publicados.

Por último, Parente e Belmiro (2015), através de uma revisão de literatura sem caráter de revisão sistemática ou metanálise, provocam uma discussão sobre como a Gestalt-terapia pode contribuir para o papel do acompanhante terapêutico, e apresentam diversos pontos relevantes, em especial aqueles que dizem respeito ao entorno de onde o paciente está inserido.

As autoras concluem que a Gestalt-terapia pode servir de embasamento teórico para a prática do acompanhante terapêutico, e possui condições de dar suporte teórico para a abordagem, tendo em vista que ambas são compreensivas, e deslocam o foco dos seus trabalhos da doença do sujeito, para compreendê-lo como um todo, paralelamente influenciado pelo seu ambiente, e altivo em seu processo de acompanhamento.

Há de se considerar ainda, a visão holística de homem que trata a Gestalt-Terapia, de modo a considerar a interação entre organismo e ambiente para compreender suas próprias ações e emoções. Sendo assim, reitere-se: o ser humano deve ser visto como um todo, não sendo priorizadas partes em detrimento de sua integralidade

A Gestalt-Terapia e as Contribuições para o Tema da Atenção em Saúde Mental

Ao ponto em que a Gestalt-Terapia parece se tratar de uma abordagem compreensiva, que desloca o conteúdo manifesto para a forma como este interage no campo organismo/ambiente, tem-se a partir disso uma perspectiva não patologicista sobre o tema da saúde mental. Deixa-se assim, de perceber o paciente como objeto foco da intervenção, para tê-lo então como pessoa que, inserida e em constante interação com seu meio, procura-se ajustar-se de maneira criativa para evoluir e superar as suas dificuldades. De acordo com a perspectiva gestáltica, ao confrontar-se com os desafios que lhes são impostos, o ser-no-mundo, nesse momento tido como um portador de adoecimento mental, não se trata de um incapaz, mas de alguém cujo adoecimento fora a melhor forma encontrada para o enfrentamento de suas vivências (MÜLLER-GRANZOTTO; MÜLLER-GRAN-ZOTTO, 2012).

Nessa esteira, parte-se do pressuposto que todo contato é algo dinâmico, inventivo e ativo, pois se está a todo o momento lidando com o novo e, por vezes inesperado, tentando assimilá-lo (PARENTE; BELMIRO, 2015). Então, segundo Perls, Hefferline e Goodman (1997), todo contato é ajustamento criativo do organismo e ambiente, porém o processo não é executado de maneira passiva, sendo a subjetividade humana a responsável por eleger aquilo que deve ou não ser assimilados, experimentados ou constatados. E é nesse ponto onde os fatos percebidos como nocivos ou maléficos não serão assimilados, mas tentar-se-á defender-se deles através de mecanismos como introjeção, projeção, confluência e retroflexão.

Sendo assim, episódios de surto e adoecimento mental não ocorrem de forma aleatória ou eventual, mas se tratam de uma manifestação em resposta para algo – ou uma demanda – que o sujeito não possui, naquele momento, a resposta. Eis que a emerge-se talvez o mais relevante papel ético da clínica gestáltica: o de não exigir do sujeito aquilo que o mesmo não tem condição de ‘’ser’’, mas acolhê-lo em sua singularidade, tendo como tarefa ética acolher os ajustamentos de busca e estabelecer o manejo das demandas para as quais aqueles ajustamentos são respostas (MÜLLER-GRANZOTTO; MÜLLER-GRANZOTTO, 2012; PARENTE; BELMIRO, 2015).

Nesse sentido, a Gestalt-terapia acredita que o crescimento e a mudança ocorrem a partir do momento em que se torna cada vez mais o que é e não, quando tenta ser o que não é. Para isso, é necessário que na relação terapêutica sejam explicitados e aceitos todos os pensamento e desejos, mesmo desagradáveis e dolorosos, pois só assim a pessoa pode se experienciar e a mudança ocorrer. Assim, faz parte do papel do Gestalt-terapeuta possibilitar subsídios para que a pessoa possa ser o que é, e a partir daí construir uma base sólida para que possa caminhar sozinha. No entanto, para que isso aconteça é preciso que a mudança seja vista como ligada ao risco, o risco de experimentar novas situações e papéis, para que ela possa chegar ao que é (SILVA, 2012 p.219)

Segundo Ribeiro (2006), um trabalho cuidadoso do Gestalt-Terapeuta consiste em colocar o cliente diante de suas reais possibilidades para que, ao vivenciar suas contradições internas, possa descobrir que a palavra fácil não pertence ao mundo dos adultos, mas sim ao das crianças. Eis que a forma gestáltica de vislumbrar o sujeito em adoecimento mental torna-se, diante do exposto, semelhante ao do novo paradigma de cuidado em saúde mental, pois ambos visam perceber esse indivíduo de forma contextualizada, e habitando um ecossistema biopsicossocial, ao tempo em que se prioriza uma visão compreensiva e multifatorial da doença, enquanto processo dinâmico de autoconstrução (SILVA, 2012).

Tendo em mente que o novo paradigma de cuidado em saúde mental, proveniente da Reforma Psiquiátrica possui, como uma de suas premissas básicas a percepção do indivíduo – portador ou não de adoecimento mental – como um ser que detém potencialidades naturais que lhe possibilitam ir em busca de sua autorregulação e de seu equilíbrio organísmico como um todo, e percebido a partir de seu entorno, pode-se dizer que a perspectiva gestáltica muito tem a contribuir para o tema, ao passo em que reconhece o homem enquanto senhor de sua história e possibilidades, e capaz de trilhar o seu caminho em busca de escolhas mais saudáveis.

Contribuições da Gestalt-Terapia para a discussão de Políticas Públicas de atenção em Saúde Mental

  1. As relações de vulnerabilidade pelas quais passou o ser humano, no decorrer de suas vivências, poderão influenciar potenciais estados de fragilidade e subalternidade futuros.

  2. Para um afinamento do conceito gestáltico de atenção em saúde mental, há de se reconhecer o ponto de vista holístico, organísmico e a teoria de campo.

  3. Um dos objetivos do profissional terapeuta, numa abordagem grupal ou social, e embasado pela Gestalt-Terapia, deve ser ajudar a construir e reforçar uma noção de autocuidado e de auto apoio para com seus pacientes.

  4. Os processos de adoecimento e de sofrimento mental podem ser percebidos através do prisma do ajustamento criativo, que é dinâmico, ou seja, uma reação organísmica com o intuito de superar as dificuldades envoltas às vivências individuais.

  5. O homem gestáltico é um ser-no-mundo, que vive, transforma e é transformado constantemente por seu meio. Não é, pois, um objeto de análise, de pesquisa, ou um número de prontuário.

  6. Há de se possuir um olhar para a territorialidade quando a se trabalhar com saúde mental, o histórico pessoal passado importa e repercute no aqui-e-agora do paciente.

  7. Tanto grupal, como individualmente, deve-se colocar o diagnóstico de lado para se perceber o sujeito e seu sistema de necessidades, ouvindo-o e investigando as suas relações de cuidado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todos os estudos corroboram com o fato de que a Gestalt-Terapia pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas dentro do contexto da atenção em saúde mental. Por apresentar-se como uma abordagem humanística, possui em seus pressupostos semelhanças com o atual paradigma de cuidado em saúde mental, principalmente ao ponto em que visa perceber a pessoa ao invés da doença, bem como os seus processos de ajustamento ao invés de seu diagnóstico.

Um desafio bastante grande, para os profissionais que atuam no serviço público de atenção à saúde mental, parece ser o de perceber o potencial criativo e reconstrutivo do ser humano, que por vezes encontra-se em situação de grave adoecimento e de sofrimento mental. Trata-se aí de identificar aspectos em suas vivências que lhes trazem desajustamento, e nesse sentido o profissional terapeuta deve, aos poucos, amparar o paciente em seu encontro com a dor e com o estado de não-ser, pois o auto crescimento somente se dá quando a partir do encontro com aquilo que se é.

Para tal, o entendimento de homem histórico e holístico de faz necessário, pois as marcas do passado se fazem presentes em comportamentos e escolhas. As vivências de cuidado - e da falta dele – manifestam-se no modo de ser-no-mundo do sujeito, em seu aqui-e-agora, ou seja, em sua relação com o meio. Cuida-se, pois, um dia se foi cuidado, e nesse sentido, o cuidado e figura sine qua non para a existência humana. Pode aprender muito sobre a história de vida de uma pessoa, e sobre seus processos de adaptação e ajustamento criativo, a partir da perspectiva do cuidado.

1PRISMA Transparent Reporting of Systematic Reviews and Meta-Analyses. Otawa: The PRISMA Statement; 2014. Disponível em: http://www.prisma-statement.org/. Sugere-se ainda a leitura de Moher D, Liberati A, Tetzlaff J, Altman DG, The PRISMA Group. Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses: The PRISMA Statement. Disponível em: www.prisma-statement.org.

2O Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB) foi criado pelo Ministério da Saúde em 2008 com o objetivo de apoiar a consolidação da Atenção Básica no Brasil, ampliando as ofertas de saúde na rede de serviços, assim como a resolutividade, a abrangência e o alvo das ações. Atualmente regulamentados pela Portaria de Consolidação nº 2, os núcleos configuram-se como equipes multiprofissionais que atuam de forma integrada com as equipes de Saúde da Família (eSF), as equipes de Atenção Básica para populações específicas (consultórios na rua, equipes ribeirinhas e fluviais) e com o Programa Academia da Saúde.Esta atuação integrada permite realizar discussões de casos clínicos; o atendimento compartilhado entre profissionais, tanto na Unidade de Saúde como nas visitas domiciliares e possibilita a construção conjunta de projetos terapêuticos de forma a ampliar e qualificar as intervenções no território e na saúde de grupos populacionais. Essas ações de saúde também podem ser intersetoriais, com foco prioritário nas ações de prevenção e promoção da saúde. Para saber mais, sugere-se visitar https://aps.saude.gov.br/ape/nasf.

3Para saber mais, sugere-se a leitura de: BORIS, G. D. J. B. Grupos gestálticos: uma proposta fenomenológica de facilitação da cooperação. Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro, v. 13, n. 3, p. 1124-1158, 2013.

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Recebido: 09 de Abril de 2022; Aceito: 31 de Dezembro de 2022

Endereço para correspondência Romano Deluque Júnior E-mail: romanodeluque@gmail.com, Cesar Augusto Marton E-mail: cmarton23@gmail.com, Márcio Luís Costa E-mail: marcius1964@gmail.com

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