A procrastinação não é o simples atraso ou adiamento de determinada tarefa, como é frequentemente interpretada. Atrasar o início ou a conclusão de uma tarefa pode ser algo comum e, muitas vezes, necessário. O atraso da atividade pode estar relacionado ao ganho de tempo e recurso para que ela possa ser concluída com êxito ou devido à priorização de determinada tarefa em relação a outras, por exemplo. No entanto, a procrastinação tem sido definida como um atraso voluntário de um pretendido curso de ação, apesar das consequências negativas desse adiamento (Steel, 2007). Trata-se de um problema comum de autorregulação, caracterizado pelo atraso desnecessário e intencional no início ou no término de tarefas importantes, mesmo quando o indivíduo reconhece os prejuízos que isso pode acarretar (Sirois et al., 2023). Quando a procrastinação se torna frequente e mais do que apenas um comportamento ocasional, sendo uma atividade habitual e difusa, ela é chamada de procrastinação crônica ou traço (Schouwenburg, 2004; Watson, 2001).
Estudos transculturais realizados na Espanha, no Peru, na Venezuela, no Reino Unido, na Austrália e nos Estados Unidos apontam que cerca de 20% da população pesquisada procrastina de forma crônica (Ferrari et al., 2005, 2007). Algumas formas circunscritas de procrastinação vêm sendo investigadas, incluindo: i) procrastinação acadêmica, a qual se refere a uma predisposição irracional de adiar o início e/ou a conclusão de uma tarefa acadêmica (p. ex., escrever trabalhos, estudar e fazer leituras) (Rahimi & Vallerand, 2021) - entre universitários, 80-95% se envolvem em comportamentos procrastinatórios, enquanto 50% procrastinam persistentemente (Steel, 2007); ii) procrastinação no local de trabalho, definida como o atraso na ação relacionada às atividades laborais ao se engajar intencionalmente (comportamental ou cognitivamente) em ações não relacionadas ao trabalho, sem a intenção de prejudicar o empregador, o empregado, o ambiente de trabalho ou o cliente (Metin et al., 2016); iii) procrastinação decisória, definida como um tipo específico de procrastinação crônica caracterizada por atrasos nas tomadas de decisão, particularmente em circunstâncias estressantes, ou como resposta a um problema específico (Goroshit & Hen, 2018); e iv) procrastinação na hora de dormir, que se refere ao adiamento do momento de ir para a cama, resultando em um horário de sono mais tardio do que o planejado, sem que haja circunstâncias externas que justifiquem esse atraso (Kroese et al., 2014).
As consequências da procrastinação crônica são amplas, incluindo piores desfechos de saúde física, como resultado de menor engajamento em exercício físico (Kelly & Walton, 2021), aumento do estresse, menor busca de cuidados médicos (Sirois et al., 2023) e problemas na qualidade do sono (Chung et al., 2020; Li et al., 2020); pior desfecho em saúde mental, estando associada à baixa procura por tratamento (Stead et al., 2010), menor satisfação com a vida (Beutel et al., 2016) e aumento no nível de ansiedade e humor deprimido (Jochmann et al., 2024; Johansson et al., 2023); prejuízos financeiros (Gamst-Klaussen et al., 2019); e baixo desempenho acadêmico (Alaya et al., 2021).
A procrastinação pode se apresentar como um problema muito comum, acarretando prejuízos significativos na vida do indivíduo. Portanto, a identificação de intervenções para a sua redução é fundamental. Diversos estudos buscaram identificar quais aspectos estão relacionados à procrastinação, tendo sido amplamente investigada como uma dificuldade na autorregulação (Sirois & Pychyl, 2013; Zhang et al., 2019). Além disso, pesquisas apontam para o grau de aversividade da tarefa (Steel, 2007; Zhang et al., 2019); ruminação, cognições relacionadas à procrastinação e avaliações cognitivas imprecisas (Feng et al., 2021; Flett et al., 2012; Knouse et al., 2024); e impulsividade (Steel, 2007; Zhang et al., 2019). Portanto, o manejo da procrastinação requer mais do que habilidades de organização e gestão do tempo, abrangendo também aspectos de regulação emocional e dimensões cognitivas, comportamentais e motivacionais. Ignorar essa complexidade significa desconsiderar a natureza multifacetada do fenômeno (Pychyl et al., 2000; Rothblum et al., 1986; Steel, 2007). Abordagens cognitivo-comportamentais são eficazes por promoverem mudanças nessas áreas de forma integrada, incluindo estratégias de regulação emocional.
Dessa forma, o presente trabalho teve como objetivo realizar uma revisão sistemática para avaliar a eficácia de intervenções cognitivo-comportamentais na redução da procrastinação, além de compreender os diferentes formatos e aspectos dessas intervenções voltadas para adultos.
MÉTODO
Foi conduzida uma revisão sistemática, de acordo com os critérios PRISMA, em outubro de 2024. As bases consultadas foram PubMed, PsycINFO, Web of Science e Scopus, usando os seguintes descritores: “procrastinat*” AND (“psychotherap*” OR “Cognitive Behavi* Therap*” OR “Cognitive Therap*” OR “Acceptance and Commitment Therapy” OR “dialectical behavior therapy*” OR “mindfulness” OR “Behavi* Therap*” OR “schema therapy” OR “metacognitive therapy” OR “Functional Analytic Psychotherapy” OR “behavi* activation”).
A busca e os critérios de inclusão foram organizados de acordo com a estratégia PICO. Participantes: adultos; intervenção: terapias cognitivo-comportamentais; comparação: presença de controle ativo ou passivo; desfecho (outcome): procrastinação. Os critérios de inclusão envolveram: i) ensaios clínicos controlados e randomizados (ECRs); ii) intervenções baseadas em terapia cognitivo-comportamental (TCC); iii) participantes acima de 18 anos; e iv) estudos em inglês. Foram excluídas pesquisas que não avaliaram a procrastinação como desfecho primário, ou seja, em que ela não fosse o foco principal da intervenção ou a medida primária de resultado.
O software de gerenciamento de referências Zotero foi utilizado para coordenar a revisão e auxiliar na checagem de duplicatas. Dois avaliadores independentes realizaram a busca nas bases de dados. Em caso de discordância, um terceiro avaliador seria chamado para decidir sobre o conflito. Foram avaliados independentemente os títulos e os resumos e, posteriormente, as versões completas de todos os artigos potencialmente relevantes.
A extração dos dados foi realizada por meio do Microsoft Office Excel. As características extraídas de cada estudo incluíram nome dos autores, ano de publicação, desenho de pesquisa, idade e sexo dos participantes, tamanho da amostra, tipo da procrastinação, gravidade, ferramentas de avaliação, desfechos clínicos e intervenção recebida.
O risco de viés de cada estudo foi avaliado utilizando a ferramenta revisada da Cochrane para avaliar o risco de viés em ensaios randomizados (RoB2) (Sterne et al., 2019). A avaliação dos resultados baseou-se em cinco domínios: i) processo de randomização; ii) desvios das intervenções pretendidas; iii) dados faltantes de desfecho; iv) mensuração do desfecho; e v) seleção do resultado relatado. O risco de viés pode ser avaliado como “baixo risco”, “algumas preocupações” e “alto risco”. O risco geral (overall) de cada estudo sempre será representado pelo maior risco entre os domínios avaliados.
RESULTADOS
A busca nas bases de dados gerou 710 resultados. Após a aplicação dos critérios de seleção, 10 estudos foram selecionados. A Figura 1 apresenta o fluxograma do processo de seleção dos trabalhos.
Dos 10 estudos selecionados, três avaliaram a procrastinação de forma geral (Eckert et al., 2016; Rozental et al., 2015, 2018), cinco avaliaram a procrastinação acadêmica (Mutter et al., 2023; Rad et al., 2023; Schuenemann et al., 2022; Ugwuanyi et al., 2020; Wang et al., 2017), um avaliou a procrastinação decisória e no local de trabalho (Moharram-Nejadifard et al., 2020) e, por fim, um avaliou a procrastinação na hora de dormir (Jeoung et al., 2023).
Sete estudos selecionaram participantes com alto nível de procrastinação (Jeoung et al., 2023; Moharram-Nejadifard et al., 2020; Mutter et al., 2023; Rad et al., 2023; Rozental et al., 2015, 2018; Wang et al., 2017). Destes, cinco excluíram participantes que apresentassem gravidade em transtornos mentais e/ou um transtorno que melhor explicasse a procrastinação (Jeoung et al., 2023; Moharram-Nejadifard et al., 2020; Rad et al., 2023; Rozental et al., 2015, 2018). Três estudos não informaram os critérios de seleção em relação à morbidade (Eckert et al., 2016; Schuenemann et al., 2022; Ugwuanyi et al., 2020). As características das pesquisas selecionadas estão descritas na Tabela 1.
Tabela 1 Detalhamento dos estudos selecionados
| Autoria (ano) | Objetivo | Amostra | Intervenção | Controle | Duração | Follow-up | Medidas de -desfecho primário | Resultados |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Eckert et al. (2016) | Avaliar um treinamento on-line com foco em estratégias de regulação emocional | N = 83 | N = 44 Programa em regulação emocional on-line |
N = 39 Lista de espera |
2 semanas | - | GPS | O grupo de intervenção apresentou redução da procrastinação quando comparado ao grupo-controle, bem como aumento nas habilidades de regulação emocional |
| Jeoung et al. (2023) | Avaliar uma intervenção comportamental na redução da procrastinação na hora de dormir em uma amostra não clínica | N = 60 | N = 32 TCC |
N = 28 Lista de Espera |
4 semanas 50 minutos |
1 mês | BPS diário de sono |
O grupo de tratamento apresentou redução da procrastinação quando comparado ao grupo-controle, mantida no follow-up |
| Moharram-Nejadifard et al. (2020) |
Avaliar os efeitos da TCCG na redução da procrastinação decisória e do local de trabalho em uma amostra de parteiras | N = 47 parteiras |
N = 24 TCCG |
N = 23 Lista de espera |
7 semanas 90 minutos |
2 meses | DPS PAWS |
O grupo TCCG apresentou diminuição da procrastinação decisória e do trabalho quando comparado ao grupo-controle, mantida no follow-up |
| Mutter et al. (2023) | Examinar a eficácia da iTCC na procrastinação e investigar se é importante que os participantes recebam autoajuda guiada ou não guiada | N = 233 estudantes |
N = 116 iTCC com guia virtual |
N = 117 iTCC com guia humano |
5 semanas | 3 meses | IPS | Ambos os grupos apresentaram diminuição da procrastinação, mantida no follow-up. Não houve diferença entre os grupos |
| Rad et al. (2023) | Avaliar a eficácia de um treino de mindfulness na redução da procrastinação entre estudantes | N = 30 estudantes |
Mindfulness em grupo | Lista de espera | 8 semanas 90 minutos |
- | MMAP | O grupo de mindfulness apresentou diminuição da procrastinação, além de aumento da autorregulação e mindfulness |
| Rozental et al. (2015) | Examinar a eficácia da iTCC para procrastinação e investigar se é importante que os participantes recebam suporte guiado ou não guiado em termos de resultado do tratamento | N = 150 estudantes |
N = 50 iTCC guiada |
N = 50 iTCC não guiada N = 50 Lista de espera |
10 semanas | - | PPS IPS |
Ambas as intervenções apresentaram diminuição nas medidas de procrastinação quando comparadas à lista de espera. Não houve diferença entre os grupos com ou sem suporte |
| Rozental et al. (2018) | Avaliar os resultados da TCC para procrastinação usando um programa de tratamento de iTCC comparando-o com a TCC realizada presencialmente em grupos | N = 92 estudantes |
N = 48 iTCC autoguiada |
N = 44 TCCG |
8 semanas | 6 meses | PPS PASS |
Ambos os grupos apresentam diminuição da procrastinação. O grupo de TCCG apresentou melhora no follow-up |
| Schuenemann et al. (2022) | Verificar se o desenvolvimento de habilidades gerais de regulação emocional reduz a procrastinação | N = 148 estudantes |
N = 73 Treinamento on-line em regulação emocional |
N = 75 Lista de espera |
9 semanas 90 minutos |
- | GPS-K | Aumento das habilidades de regulação emocional e diminuição da procrastinação no grupo de intervenção quando comparado ao grupo-controle |
| Ugwuanyi et al. (2020) | Avaliar a eficácia de um programa baseado em TCC na redução da procrastinação acadêmica | N = 64 estudantes |
N = 34 TCC |
N = 30 Aconselhamento |
6 semanas (2 vezes por semana por 90 minutos) |
2 meses | PASS APBS |
O grupo de intervenção apresentou redução da procrastinação após a intervenção, mantida no follow-up |
| Wang et al. (2017) | Avaliar a eficácia da ACT comparada à TCC na diminuição da procrastinação acadêmica em estudantes com alto nível de neuroticismo | N = 60 estudantes |
N = 20 ACT em grupo |
N = 19 TCC em grupo N = 21 Lista de espera |
8 semanas 180 minutos |
3 meses | APS | O grupo de TCC apresentou redução da procrastinação quando comparado à ACT e à lista de espera. Os ganhos foram mantidos no follow-up para o grupo de TCC. No follow-up, observou diminuição no grupo de ACT quando comparado ao pós |
Nota: ACT = terapia de aceitação e compromisso; APBS = Academic Procrastination Behavior Scale; APS = Academic Procrastination Scale; BPS = Bedtime Procrastination Scale; DPS = Decisional Procrastination Scale; GPS = General Procrastination Scale; GPS-K = Versão alemã reduzida da General Procrastination Scale; iTCC = terapia cognitivo-comportamental pela internet; IPS = Irrational Procrastination Scale; MMAP = The Multifaceted Measure of Academic Procrastination; PASS = Procrastination Assessment Scale for Students; PAWS = Procrastination at Work Scale; PPS = Pure Procrastination Scale; TCCG = terapia cognitivo-comportamental em grupo.
A maioria dos estudos utilizou apenas grupo-controle passivo (Eckert et al., 2016; Jeoung et al., 2023; Moharram-Nejadifard et al., 2020; Rad et al., 2023; Schuenemann et al., 2022; Ugwuanyi et al., 2020). Em todos aqueles em que a intervenção foi comparada ao controle passivo, ela apresentou melhora significativa na redução da procrastinação. Quanto ao formato das intervenções, metade realizou intervenções on-line (Eckert et al., 2016; Mutter et al., 2023; Rozental et al., 2015, 2018; Schuenemann et al., 2022), enquanto a outra metade realizou intervenções presenciais (Jeoung et al., 2023; Moharram-Nejadifard et al., 2020; Rad et al., 2023; Ugwuanyi et al., 2020; Wang et al., 2017).
INTERVENЗХES VIA INTERNET
Rozental et al. (2015, 2018) utilizaram a mesma intervenção de iTCC em ambos os estudos, consistindo em 10 módulos que abordavam psicoeducação sobre a procrastinação e a TCC, estabelecimento de metas, análise funcional, ativação comportamental, controle de estímulos, identificação de crenças e distorções cognitivas, esclarecimento de valores e prevenção de recaída. No primeiro estudo (Rozental et al., 2015), foi investigada a diferença entre a intervenção com o suporte de um terapeuta e a intervenção autoguiada. Cada módulo era entregue semanalmente durante 10 semanas. Os participantes que receberam o suporte enviaram seus exercícios concluídos e receberam um feedback por escrito sobre seu progresso em até 48 horas. Quando comparados com o grupo de lista de espera, tanto a iTCC guiada quanto a não guiada apresentaram reduções estatisticamente significativas na Pure Procrastination Scale (PPS) e na Irrational Procrastination Scale (IPS). Enquanto a iTCC guiada apresentou um tamanho de efeito moderado a grande (PPS: d = 0,70, IC 95% [0,29, 1,10]; IPS: d = 0,81, IC 95% [0,29, 1,22]), a iTCC não guiada apresentou um tamanho de efeito moderado (PPS: d = 0,50, IC 95% [0,10, 0,90]; IPS: d = 0,69, IC 95% [0,29, 1,09]). A diferença entre os dois grupos (com ou sem suporte) não foi estatisticamente significativa. No segundo estudo (Rozental et al., 2018), a mesma intervenção de iTCC foi comparada com TCC presencial em grupo (TCCG). Os 10 módulos foram adaptados para serem realizados em oito semanas, com ambos os grupos recebendo o mesmo conteúdo. No entanto, enquanto a intervenção em iTCC distribuía cada módulo semanalmente, o grupo TCCG se encontrava a cada duas semanas, abordando dois módulos por encontro. Os resultados mostraram que ambos os grupos apresentaram redução estatisticamente significativa da procrastinação, medida pela PPS, com efeitos grandes para o grupo iTCC (d = 1,29, IC 95% [0,81, 1,74]) e para o grupo TCCG (d = 1,24, IC 95% [0,76, 1,70]). Para a Procrastination Assessment Scale for Students (PASS), o grupo iTCC apresentou um efeito mais modesto (d = 0,46, IC 95% [0,02, 0,88]), enquanto o grupo TCCG não teve uma redução significativa (d = 0,42, IC 95% [-0,03, 0,85]). A diferença entre os dois grupos não foi estatisticamente significativa. No follow-up, o grupo TCCG continuou apresentando diminuição da procrastinação medida pela PPS, com uma odds ratio (OR) de 0,38 (IC 95% [0,16, 0,88]), indicando que esse grupo foi mais propenso a melhorar em longo prazo em comparação com o grupo iTCC.
De forma semelhante, Mutter et al. (2023) avaliaram o efeito de uma intervenção em iTCC com e sem suporte terapêutico na procrastinação acadêmica. A intervenção consistia em cinco módulos, entregues semanalmente, abordando psicoeducação sobre procrastinação, estratégias de gestão do tempo e criação de metas, motivação, autorregulação, mindfulness e prevenção de recaída. No grupo com suporte terapêutico, os participantes recebiam feedback dos exercícios, mensagens motivadoras e lembretes. Ambos os grupos apresentaram uma redução estatisticamente significativa nos escores de procrastinação, com um tamanho de efeito grande (d = -0,89, IC 95% [-1,08; -0,70]), que se manteve no follow-up. Isso sugere que a intervenção foi eficaz em reduzir a procrastinação tanto no grupo com suporte terapêutico quanto no grupo sem suporte. No entanto, quando comparados, não foi observada diferença significativa entre eles no follow-up (d = 0,08, IC 95% [-0,18; 0,34]; γ = -0,03, p = 0,84).
Dois estudos (Eckert et al., 2016; Schuenemann et al., 2022) avaliaram intervenções focadas em estratégias de regulação emocional na redução da procrastinação. No estudo de Eckert et al. (2016), os participantes escolheram uma de suas tarefas diárias em que eram mais propensos a procrastinar e avaliaram se as características da tarefa estavam associadas a emoções aversivas ou à falta de afeto positivo. As estratégias incluíam permitir intencionalmente que as emoções estivessem presentes, lembrar-se do compromisso afetivo com a tarefa, fazer um exercício de relaxamento, reavaliar a ameaça potencial e, por fim, decidir se executariam a tarefa. Após concluir a tarefa escolhida, avaliavam o quão bem lidaram com as emoções aversivas ou com a falta de afeto positivo. Esse procedimento durava cerca de 10 minutos e era repetido diariamente. O grupo de intervenção apresentou redução significativa da procrastinação quando comparado ao grupo-controle (d = 0,34), bem como aumento nas habilidades de regulação emocional, incluindo habilidade de modificar e tolerar emoções aversivas. No estudo de Schuenemann et al. (2022), a intervenção envolvia três módulos, cada um com três unidades de 90 minutos cada, compreendendo vídeos educacionais on-line e material escrito. Diferentes habilidades de regulação emocional foram abordadas, envolvendo mindfulness, relaxamento, aceitação, ativação comportamental e reestruturação cognitiva. Tanto o grupo de intervenção (d = 0,96) quanto o grupo-controle (d = 0,41) apresentaram redução significativa da procrastinação. No entanto, o grupo de intervenção apresentou uma redução significativa da procrastinação quando comparado ao grupo-controle (d = 0,45), além do aumento nas habilidades de regulação emocional.
INTERVENЗХES PRESENCIAIS
Quatro pesquisas avaliaram práticas em grupo (Moharram-Nejadifard et al., 2020; Rad et al., 2023; Ugwuanyi et al., 2020; Wang et al., 2017). O estudo de Ugwuanyi et al. (2020) avaliou a TCCG na redução da procrastinação acadêmica. A intervenção envolveu psicoeducação sobre as dimensões cognitiva, afetiva e comportamental da procrastinação acadêmica, definição de metas, resolução de problemas, reestruturação cognitiva e relaxamento. Comparado ao grupo-controle, o grupo de intervenção mostrou redução estatisticamente significativa da procrastinação, com tamanhos de efeito grandes (PASS: ηІ = 0,801; Academic Procrastination Behavior Scale [APBS]: ηІ = 0,798). Moharram-Nejadifard et al. (2020) avaliaram a TCCG na redução da procrastinação decisória e no local de trabalho. O programa envolvia psicoeducação sobre a procrastinação, identificação de suposições subjacentes, definição de metas, análise funcional, reestruturação cognitiva e tolerância a emoções aversivas. Os resultados mostraram redução significativa da procrastinação decisória (ηІ = 0,139) e no local de trabalho (ηІ = 0,226) em comparação ao grupo-controle, com tamanhos de efeito grandes. Já Wang et al. (2017) compararam uma intervenção em terapia de aceitação e compromisso (ACT) em grupo com TCCG na procrastinação acadêmica em estudantes com alto nível de neuroticismo. O grupo de ACT envolveu exercícios experienciais para a prática da aceitação, desfusão cognitiva e habilidades de atenção plena, esclarecimento de valores de vida, planejamento de objetivos alinhados aos valores e desenvolvimento de ações de compromisso. O grupo de TCCG envolveu práticas para reconhecer e desafiar distorções cognitivas, reestruturação cognitiva, classificação de emoções, treinamento de relaxamento, discussão em grupo, estimativa de tempo para realização das tarefas, habilidades de gerenciamento de tempo e definição de metas. O grupo de TCCG apresentou redução significativa da procrastinação em comparação com a ACT e a lista de espera, mantida no follow-up. Todavia, no follow-up, o grupo de ACT também mostrou diminuição da procrastinação em comparação com o pós-tratamento, apontando para uma melhora mesmo após a intervenção, embora essa diferença não tenha sido estatisticamente significativa quando comparada com o grupo de TCC.
O estudo de Rad et al. (2023) avaliou a eficácia de um programa de mindfulness na redução da procrastinação acadêmica, com oito encontros que abordaram temas como procrastinação e suas consequências, meditação focada na respiração e corpo, estresse, reações a situações difíceis, aceitação, pensamentos distorcidos e autocompaixão. Comparado ao grupo-controle, o grupo de mindfulness apresentou redução estatisticamente significativa da procrastinação acadêmica, com um tamanho de efeito muito grande (ηІ = 0,670).
Jeoung et al. (2023) avaliaram a eficácia de uma intervenção cognitivo-comportamental na redução da procrastinação na hora de dormir em uma amostra não clínica. Os participantes tiveram três sessões semanais presenciais e uma sessão de chamada de reforço (por telefone) com seu terapeuta. A intervenção consistia em psicoeducação sobre a intervenção e o modelo cognitivo-comportamental da procrastinação na hora de dormir, estabelecimento de metas, exploração de prós e contras, identificação de pensamentos e emoções, análise funcional, exploração de valores e treino imaginário. O grupo de tratamento apresentou redução significativa da procrastinação na hora de dormir em comparação com o grupo-controle e na duração da procrastinação. Os ganhos se mantiveram no follow-up.
RISCO DE VIÉS
As Figuras 2 e 3 foram geradas pela ferramenta robvis (McGuinness & Higgins, 2021) e apresentam uma representação gráfica do risco de viés dos estudos incluídos.

Figura 3 Gráfico de risco de viés: revisão do item de risco de viés apresentado como porcentagens em todos os estudos incluídos
Domínio 1: processo de randomização
Todos os estudos realizaram processo de randomização. Nenhum deles apresentou diferenças de linha de base entre os grupos de intervenção que sugiram algum problema com o processo de randomização. Entre os 10 estudos incluídos, cinco (Eckert et al., 2016; Jeoung et al., 2023; Moharram-Nejadifard et al., 2020; Rad et al., 2023; Wang et al., 2017) foram avaliados com “algumas preocupações” por não informar o processo de ocultação da alocação. Os demais foram avalias com “baixo risco”.
Domínio 2: desvios das intervenções pretendidas
Nenhum desvio da intervenção pretendida foi especificado. Seis estudos (Eckert et al., 2016; Moharram-Nejadifard et al., 2020; Rad et al., 2023; Schuenemann et al., 2022; Ugwuanyi et al., 2020; Wang et al., 2017) foram avaliados com “algumas preocupações” por não informarem análise por intenção de tratar.
Domínio 3: dados faltantes de desfecho
Foi levada em conta a orientação da RoB2 de considerar uma proporção de mais de 5% dos dados faltantes como potenciais implicações a maior risco de viés (Higgins et al., 2019). Ademais, ainda que tenham utilizado métodos adequados de imputação de dados, estes podem não ser suficientes na redução do viés quando os dados faltantes do desfecho dependem do seu valor verdadeiro (p. ex., este é o valor do desfecho que deveria ter sido medido, mas não foi) (Sterne et al., 2019). Por exemplo, o desfecho de interesse da presente revisão é o nível de procrastinação, sendo coerente inferir que os participantes mais procrastinadores são menos propensos a voltar para o follow-up. Nenhum estudo foi avaliado com “baixo risco” de viés. Investigações com alta taxa de abandono, mas que tenham relatado as razões do dropout dos participantes e cujos dados faltantes tenham sido proporcionais em ambos os grupos, foram avaliadas com “algumas preocupações” (Jeoung et al., 2023; Moharram-Nejadifard et al., 2020; Rozental et al., 2018). As demais foram avaliadas com “alto risco” de viés.
Domínio 4: mensuração do desfecho
Todos os estudos utilizaram instrumentos adequados para avaliação do desfecho pretendido. Nenhum deles apresentou discrepâncias em relação aos instrumentos e tempos de mensuração entre os grupos. Os instrumentos utilizados foram medidas de autorrelato, o que significa que o próprio participante atuou como avaliador. Apesar de ser adequado para o contexto do ensaio, obviamente não permite o cegamento do avaliador, tornando-os mais vulneráveis a vieses. Quando existem fortes níveis de crença nos efeitos benéficos ou prejudiciais da intervenção, é provável que o desfecho tenha sido influenciado pelo conhecimento da intervenção recebida (Higgins et al., 2019). Dessa forma, estudos com grupo-controle não ativo podem sinalizar um risco de viés ainda maior. Assim, foram avaliados com “algumas preocupações” os quatro estudos (Mutter et al., 2023; Rozental et al., 2015, 2018; Wang et al., 2017) que utilizaram grupos-controle ativos, enquanto os demais foram avaliados com “alto risco”.
Domínio 5: seleção do resultado relatado
Cinco estudos foram avaliados com “algumas preocupações” por não informarem sobre o registro de seus perspectivos ensaios (Eckert et al., 2016; Rad et al., 2023; Schuenemann et al., 2022; Ugwuanyi et al., 2020; Wang et al., 2017). Os demais foram avaliados com “baixo risco”, uma vez que os resultados foram analisados de acordo com um plano de análise pré-especificado no registro.
DISCUSSÃO
Todos os estudos apresentaram uma redução da procrastinação no pós-tratamento. Em comparação com o controle passivo, todas as intervenções avaliadas demonstraram diminuição da procrastinação. No estudo de Wang et al. (2017), a intervenção em TCCG foi superior no pós-tratamento em comparação com a intervenção em ACT. Porém, quando comparada ao follow-up, não houve diferença estatisticamente significativa. O grupo de ACT continuou apresentando redução da procrastinação em comparação ao pós-tratamento. Wang et al. (2017) também avaliaram se a intervenção diminuiria o neuroticismo, o que foi observado apenas no grupo de ACT. Pesquisas anteriores identificaram relação moderada entre procrastinação e alto nível de neuroticismo (Schouwenburg & Lay, 1995; Steel, 2007; Watson, 2001). No entanto, no estudo de Wang et al. (2017) o grupo de TCCG apresentou melhora nas habilidades de gestão do tempo no follow-up quando comparado aos outros grupos. Investigações anteriores demostraram alta relação entre procrastinação e baixo nível de conscienciosidade (Gao et al., 2021; Steel, 2007; Van Eerde, 2003; Watson, 2001). Apesar de Wang et al. (2017) terem avaliado apenas o neuroticismo, a melhora nas habilidades de gestão de tempo pode sugerir também uma mudança em relação às facetas de conscienciosidade, o que poderia indicar que ambos os tratamentos, ACT e TCC, são eficazes na diminuição da procrastinação, porém com outros mecanismos envolvidos.
Três pesquisas também avaliaram as habilidades de regulação emocional (Eckert et al., 2016; Rad et al., 2023; Schuenemann et al., 2022). No estudo de Eckert et al. (2016), observou-se aumento nas habilidades de regulação emocional, sobretudo habilidades de modificar e tolerar emoções desconfortáveis. Schuenemann et al. (2022) também encontraram um aumento nas habilidades gerais de regulação emocional. Além disso, realizaram uma análise de mediação e identificaram que a redução da procrastinação foi mediada pelo aumento das habilidades gerais de regulação emocional (β = -0,068, 95%-CI [-0,125, -0,023]). A intervenção do grupo de mindfulness no estudo de Rad et al. (2023) apresentou aumento na autorregulação, mindfulness e diminuição de emoções negativas. Esses achados estão alinhados com a perspectiva de que as pessoas procrastinam tarefas que provocam estados emocionais negativos como uma forma de regular seu humor imediato por meio da evitação de tarefas, sugerindo que o estresse pode ser um precursor, e não apenas uma consequência da procrastinação (Sirois, 2023). Nessa perspectiva, o estudo de Rad et al. (2023) parece ir ao encontro de uma recente pesquisa de mediação que indica que as emoções desconfortáveis medeiam de forma significativa e positiva a relação entre o estresse percebido e a procrastinação (Tran et al., 2024). Os resultados mostraram que mindfulness exerce um papel moderador na associação positiva entre o estresse percebido e as emoções negativas. Assim, à medida que os níveis de mindfulness aumentam, o efeito do estresse sobre as emoções negativas diminui (Tran et al., 2024).
Em relação às estratégias relacionadas ao reconhecimento de pensamentos associados a procrastinação e reestruturação cognitiva, presente em todas as intervenções com exceção do grupo de ACT (Wang et al., 2017), parecem convergir com dados encontrados no estudo de Flett et al. (2016), que apontam que estudantes que tendem a procrastinar têm uma tendência de focar em informações negativas sobre si. Os resultados mostraram que pensamentos automáticos relacionados à procrastinação estavam moderadamente correlacionados com a ruminação (Flett et al., 2016). Assim, algumas pessoas que procrastinam podem ser particularmente propensas ao sofrimento se ruminam sobre sua demora e fazem especulações sobre como isso reflete uma inadequação ou uma falha pessoal. Além disso, níveis mais altos de mindfulness e autocompaixão mostraram-se negativamente relacionados a pensamentos automáticos de procrastinação (Flett et al., 2016). Apesar de apenas um estudo ter deixado claro o trabalho com autocompaixão (Rad et al., 2023), pesquisas recentes indicam que ela está relacionada a uma menor tendência à procrastinação (Sirois et al., 2019; Yang et al., 2023). Um recente estudo encontrou um efeito mediador do “medo do fracasso” na relação entre autocrítica e procrastinação, além de um efeito moderador das crenças racionais e irracionais na relação entre autocrítica, medo do fracasso e procrastinação (Balkis & Duru, 2019). Observou-se que a relação entre autocrítica e medo do fracasso aumenta em casos de altos níveis de crenças disfuncionais, como autodepreciação, necessidade de aprovação e necessidade de sucesso. Por sua vez, as crenças racionais moderam o efeito preditivo do medo do fracasso sobre a procrastinação, sugerindo que, em situações de fracasso, se o indivíduo avaliar a situação de forma funcional, ele será capaz de lidar com ela mais facilmente, em vez de recorrer à evitação (Balkis & Duru, 2019).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar de os achados desta revisão contribuírem para o entendimento das intervenções voltadas à redução da procrastinação, algumas limitações precisam ser consideradas. Em primeiro lugar, a heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos foi um fator importante, uma vez que houve grande variação em termos de desenho metodológico, tipo de intervenção, duração, tamanho amostral, instrumentos de medida e critérios de inclusão. Além disso, variaram no tipo de procrastinação investigada e característica da população, sendo a acadêmica a mais amplamente avaliada. Essa diversidade dificulta a comparação direta entre os resultados e a identificação de padrões consistentes. A diversidade nas intervenções também é uma limitação, pois elas variaram amplamente em termos de formato (presencial ou on-line), conteúdo e intensidade, o que pode limitar a generalização dos achados e a identificação de componentes específicos que contribuíram para os resultados observados. No entanto, certos elementos se mostraram presentes na maioria dos estudos, como: psicoeducação, definição de objetivos, tolerância do desconforto emocional, reconhecimento de pensamentos e padrões de comportamento relacionados à procrastinação.
Recomenda-se que futuras pesquisas continuem abarcando populações para além da acadêmica e possam investigar mais amplamente outros tipos de procrastinação, além da acadêmica. Por fim, com o estabelecimento de intervenções que apresentem algum grau de eficácia na redução da procrastinação, futuros ensaios clínicos poderão se beneficiar com comparadores ativos, uma vez que a maioria dos estudos desta intervenção utilizou apenas comparador passivo em seus ensaios.
















