A temática da morte e do morrer tem sido abordada a partir de diferentes referenciais, desde obras literárias que buscam representá-la sob diversos olhares e movimentos artísticos até a antropologia, a filosofia e a psicologia que visam compreender esse fenômeno tanto numa perspectiva social, quanto intrapessoal (Gomes, 2008; Robert & Tradii, 2017; Santos & Custódio, 2017). Do ponto de vista histórico, a percepção e o sentido da morte passaram por momentos distintos, como abordado por Ariés (1975). O autor fez um apanhado sobre a forma como a sociedade percebia e recepcionava a morte ao longo dos séculos. Nessa perspectiva, destaca-se que na Idade Média a morte era reconhecida como apenas mais uma etapa da vida e pouco era dito ou lamentado sobre aquele que partia. Com o passar do tempo, e muito em decorrência da influência religiosa, foi fortalecida a ideia do pós-morte e do julgamento sobre as ações do sujeito enquanto vivo, passando o morrer a ser algo temido. Com o avanço da ciência e da tecnologia, houve uma nova ressignificação sobre o tema, principalmente em função da criação de tratamentos para doenças até então fatais, sendo a morte entendida como algo a ser evitado (Ayres, 2017; Durães, 2007; Gomes, 2008; Robert & Tradii, 2017).
No campo psicológico, há teorias sobre a percepção, a representação e a aceitação da morte enquanto um fenômeno natural. Um dos primeiros trabalhos que se dedicaram à compreensão psicológica sobre o tema foram as considerações de Freud (1913/2006, 1930/1987), que desenvolveu pensamentos sobre o simbolismo desse fenômeno numa perspectiva psicanalítica. A temática passou a ser mais pesquisada na psicologia a partir das décadas de 1950/1960, tendo como um dos principais nomes Herman Feifel, que conduziu estudos em contexto multidisciplinar (Ayres, 2017; Durães, 2007; Santos & Custódio, 2017). Desde então, a percepção da morte tem sido estudada em sua complexidade sob diferentes referenciais, tentando compreender e avaliar o fenômeno em diversas perspectivas: as formas de aceitação da morte, o coping em relação à morte, o sentido de imortalidade simbólica e a ansiedade em relação à morte (Carneiro, 2013; Corr, 2018; Durães, 2007; Jong & Halberstadt, 2017; Silva, 2016; Souza, Sousa, Kuhn Lago, Borges & Guilhem, 2017).
A forma como o sujeito aceita a morte começou a ser desenvolvida enquanto teoria por Kubler-Roos na década de 1960, tendo como base a psicologia existencialista (Corr, 2018; Durães, 2007; Souza et al., 2017). Outros autores (por exemplo, Robert Lifton) fizeram contribuições a essa teoria, chegando a um modelo que identifica cinco tipos de aceitação da morte: neutra, religiosa, escape, medo e evitamento. A aceitação neutra aborda a compreensão da morte como uma parte integral da vida que não deve ser temida, tratando-a com indiferença. A aceitação religiosa, como o nome sugere, é associada à religiosidade/religião e à crença na vida pós-morte, em um estado de paz e felicidade. Aceitar a morte como uma via de escape implica num perfil que a compreende como carregada de sofrimentos e dor, sendo percebida como o momento em que o sujeito se livrará dessas circunstâncias. Os perfis medo e evitamento são bastante similares, sendo o primeiro caracterizado como o pavor desencadeado ao pensar/falar sobre o assunto e o segundo, como a repulsa por qualquer pensamento ou inferência sobre o tema, negando-o (Wong, Reker & Gesser, 1994). As duas estratégias são empregadas como uma tentativa de redução da ansiedade, porém, segundo os autores, também reduzem o sujeito a um estado em que não se pode pensar na vida, pois ela está diretamente ligada à morte. De forma geral, os três primeiros tipos (neutro, religioso e escape) são considerados mais positivos, enquanto os dois seguintes são formas mais negativas de perceber a morte (Santos & Pinto, 2009; Souza et al., 2017).
Há duas outras perspectivas mais positivas para a compreensão da morte e do morrer, indicadas anteriormente: a capacidade de coping e o sentido de imortalidade simbólica. A ideia de coping remete à habilidade de interpretar uma determinada situação e demandar um esforço no sentido de elaborar experiências desagradáveis/estressoras. No caso específico do coping em relação à morte, trata-se de estratégias para lidar com a morte do outro ou mesmo com a ideia da própria morte. Dessa forma, o sujeito faz uso de recursos diversos para elaborar a morte como, por exemplo, conversar sobre o tema com outras pessoas (Corr, 2018; Santana, 2010; Silva, 2016). Por sua vez, o conceito de imortalidade simbólica, desenvolvido por Lifton, remete à ideia de transcender simbólica e psicologicamente a própria morte. Dessa maneira, seria possível ao sujeito deixar sua marca e, assim, tornar-se “imortal”. Haveria quatro principais formas: por meio da religião, da procriação, da natureza e da produção artística. A imortalidade simbólica seria um meio mais saudável de reduzir o nível de ansiedade em relação ao pensamento sobre o tema (Carneiro, 2013; Durães, 2007; Santos & Pinto, 2009). Por fim, a ansiedade é atribuída à forma mais negativa de lidar com a morte. Trata-se do medo e de pensamentos negativos relacionados ao assunto, sendo ligada ao medo da ideia de finitude e irreversibilidade da morte. É considerada a forma menos adaptativa de perceber a morte, pois, em níveis mais intensos, pode levar o sujeito a se isolar ou a se restringir em seu ambiente, evitando a temática (Brito, 2003; Durães, 2007; Gomes, 2008; Santos & Pinto, 2009).
Como pode ser notado, a percepção da morte é um assunto complexo, e ainda há discordâncias na literatura sobre quais fatores seriam facilitadores para uma percepção mais positiva ou negativa, como idade, sexo, religiosidade e traços de personalidade (Custódio, 2010; Gomes, 2008). Alguns estudos indicam correlação negativa entre ansiedade, morte e idade, ou seja, pessoas mais velhas tenderiam a experienciar menores níveis de ansiedade em relação à morte do que as mais novas (Brito, 2003; Durães, 2007; Jong & Halberstadt, 2017; Loureiro, 2010; Santos & Pinto, 2009).
Há divergência na literatura referente à percepção de homens e mulheres sobre a temática. Estudos indicam que as mulheres tendem a perceber a morte e o morrer de forma mais positiva, pontuando mais alto em perfis de aceitação neutra e religiosa e pontuando mais baixo em escalas de ansiedade (Carneiro, 2013; Loureiro, 2010; Saeed & Bokharey, 2016; Santos & Pinto, 2009). Outros estudos, porém, caminham em direção oposta, indicando que homens tendem a apresentar perfil de atitude perante a morte mais positivo ou menores níveis de ansiedade (Brito, 2003; Klein, 2017; Souza et al., 2017). Há, ainda, pesquisas que relataram não haver diferenças entre homens e mulheres quanto à percepção da morte (Camarneiro & Gomes, 2015).
Ao lado disso, a religiosidade é um dos temas mais estudados como um fator que contribui positivamente para a percepção da morte, indicando haver correlação positiva entre religião e imortalidade simbólica (Carneiro, 2013; Santos & Pinto, 2009), coping (Camarneiro & Gomes, 2015; Corr, 2018; Santana, 2010; Silva, 2016) e atitudes mais positivas perante a morte (Ayres, 2017; Brito, 2003; Ellis & Wahab, 2013; Jafari, 2016; Jong & Halberstadt, 2017; Santana, 2010; Wong, Fung & Jiang, 2015). Por fim, há poucos estudos que relacionam características da personalidade ou comportamentais e atitudes em relação à morte. Klein (2017) relatou haver correlação alta entre neuroticismo e ansiedade em relação ao tema. Esnaashari e Kargar (2015) encontraram que comportamentos agressivos e sentimentos de raiva teriam correlação negativa com os perfis de aceitação neutra, religiosa e escape (Esnaashari & Kargar, 2015). Numa perspectiva que compreende a personalidade como um construto dimensional, haveria aspectos tanto adaptativos/saudáveis como patológicos da personalidade (Millon, 2011; Millon & Grossman, 2007; Millon, Grossman & Tringone, 2010). E, com base nos estudos apresentados, há evidências de que traços pouco adaptados da personalidade estariam associados à percepção negativa da morte.
A maioria dos estudos sobre a temática foca em estudantes e profissionais da área da saúde e em pacientes em condição terminal, ou seja, pessoas que vivenciam a morte do outro ou de si de forma bastante próxima (Brito, 2003; Custódio, 2010, 2010; Gomes, 2008; Santana, 2010; Silva, 2016; Souza et al., 2017). É importante compreender também como as pessoas de forma geral percebem essa temática, abrindo caminho para melhor prever variáveis influenciadoras e, assim, mais adequadamente intervir.
Nessa perspectiva, o presente estudo buscou entender quais fatores sociais e da personalidade influenciam nas atitudes perante a morte. A partir da literatura, foram formuladas quatro hipóteses norteadoras. Na primeira hipótese, espera-se que homens e mulheres apresentem algumas diferenças na forma como percebem a temática (Brito, 2003; Carneiro, 2013). A segunda hipótese engloba a ansiedade perante a morte e a sensação ou o desejo de imortalidade, esperando que ambos os construtos se correlacionem negativamente na presente amostra (Carneiro, 2013; Durães, 2007; Gomes, 2008; Santos & Pinto, 2009). Por sua vez, como terceira hipótese, é esperado que sujeitos que apresentem funcionamentos mais patológicos ou mais desadaptados da personalidade, segundo teoria de Theodore Millon (Millon, Grossman & Tringone, 2010), percebam a temática de maneira distinta daqueles que não apresentam esse funcionamento mais patológico (Brito, 2003; Esnaashari & Kargar, 2015). Por fim, a quarta hipótese estima que fatores como idade, escolaridade e prática religiosa possam interferir na percepção da morte (Carneiro, 2013; Jong & Halberstadt, 2017; Santos & Pinto, 2009; Souza et al., 2017).
Método
Participantes
Ao todo, participaram do estudo 327 adultos com idades entre 18 e 62 anos (M=26,93, DP=8,42), sendo a maioria mulheres (68,85%). Do total, 73,1% eram solteiros, 24,2% casados ou em união estável, 1,8% divorciados e 0,6% viúvo. Quanto à escolaridade, a maioria tinha ensino superior incompleto (66,7%), seguido de ensino superior completo (25,4%), ensino médio completo (7,6%) e ensino fundamental completo (0,3%). Ao todo, 74,5% dos sujeitos afirmaram possuir alguma religião, dos quais 46,9% se consideraram praticantes. O único critério de exclusão adotado foi idade inferior a 18 anos.
Instrumentos
Perfil de Atitudes Perante a Morte – Revisado (DAP-R)
Instrumento adaptado por Loureiro (2010) da Death Attitude Profile (DAP), é composto por 32 itens a serem respondidos em escala tipo Likert de 7 pontos (1=discordo plenamente a 7=concordo plenamente) sobre atitudes perante a morte. É dividido em cinco fatores: Medo da Morte (relacionado ao medo de morrer e da finitude), Evitamento da Morte (abstenção de qualquer assunto referente à morte ou ao morrer), Aceitação Religiosa (crença religiosa no pós-morte), Aceitação Neutra (percepção da morte como algo natural), Aceitação de Escape (compreensão da morte como uma escapatória ou alívio à vida). Em amostra brasileira, a consistência interna da escala foi de 0,82 (Machado, 2016), e na presente amostra os valores de precisão, avaliados pelo alfa de Cronbach, variaram de 0,84 (Aceitação de Escape) a 0,92 (Aceitação Religiosa).
Inventário Dimensional Clínico de Personalidade – Versão de triagem (IDCP-triagem)
Instrumento composto por 15 itens a serem respondidos em escala tipo Likert de 4 pontos (1=não tem nada a ver comigo a 4=tem tudo a ver comigo), visa realizar a triagem de pessoas com suspeita de potencial transtorno da personalidade, segundo proposto por Millon et al. (2010). A versão triagem foi desenvolvida a partir da versão completa do IDCP (Carvalho & Primi, 2015), cujas propriedades psicométricas demonstraram adequação na literatura prévia (Carvalho, Pianowski & Reis, 2017; Carvalho, Primi & Stone, 2012; Carvalho & Primi, 2018). No presente estudo, o valor de alpha foi de 0,83.
Coping Perante a Morte (Coping with Death Scale)
Composta por 30 itens, a medida é respondida em escala tipo Likert de 7 pontos (1=discordo totalmente e 7=concordo totalmente). É agrupada em dois fatores: coping com a morte dos outros e coping com a própria morte. A versão original foi traduzida e adaptada para o português por Camarneiro e Gomes (2015). Na presente amostra, os alfas dos fatores foram 0,86 (coping com a morte dos outros) e 0,84 (coping com a própria morte).
Escala de Ansiedade Perante a Morte (DAS)
Instrumento composto por 15 itens a serem respondidos em escala Likert (1=concordo plenamente a 5=discordo plenamente), avalia quanto a temática morte e morrer é disparadora de ansiedade no sujeito. Quanto mais alto o escore, mais ansioso o sujeito fica em relação ao assunto (Santos, 1999). Na presente amostra, o valor de alfa foi de 0,68.
Escala de Sentido de Imortalidade Simbólica (SSIS)
Composta por 26 itens respondidos em escala Likert (1=concordo plenamente a 5=discordo plenamente), avalia crenças e atitudes sobre a finitude humana em contraposição à ideia de imortalidade simbólica (Santos, 1999). O valor de alfa para a presente amostra foi de 0,86.
Procedimentos
A coleta foi realizada por meio da plataforma on-line Google Forms. Após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade São Francisco (CAEE: 65235717.2.0000.5514), os sujeitos foram convidados a participar por meio de redes sociais, como Facebook, e também por e-mail. Somente após anuência digital no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) tiveram acesso aos instrumentos. Todos os participantes responderam a um questionário sociodemográfico para caracterização da amostra e o Perfil de Atitudes Perante a Morte-Revisado. Os demais instrumentos foram respondidos apenas por parte da amostra de forma randomizada, para evitar fadiga e desistência dos participantes caso fossem apresentados todos os instrumentos. O tempo de aplicação dos instrumentos foi de aproximadamente 20 minutos.
Análises de dados
Inicialmente, foram feitas análises de precisão de todas as escalas utilizadas, por meio do alfa de Cronbach, conforme apresentado na descrição dos instrumentos. Atendendo aos objetivos e às hipóteses da pesquisa, foram feitas análises de comparação entre homens e mulheres para os instrumentos que avaliam o assunto morte (Coping Perante a Morte, Escala de Ansiedade Perante a Morte e Escala de Sentido de Imortalidade Simbólica), usando t-test para medidas independentes (H1). Foi feita correlação de Pearson com todos os instrumentos utilizados neste estudo (Coping Perante a Morte, Escala de Ansiedade Perante a Morte e Escala de Sentido de Imortalidade Simbólica, IDCP-Triagem) e as variáveis: idade, escolaridade e prática religiosa para verificar as hipóteses H2, H3 e H4. As análises foram feitas por meio do SPSS versão 21. Os seguintes valores foram considerados para análise, ambos estimando um poder estatístico de 0,80 e p≤0,05, sendo consideradas a partir de 0,25 e d≥0,30 (valores estimados pelo software G*Power).
Resultados
Foram analisadas as diferenças de percepção sobre a morte entre homens e mulheres (Tabela 1). Apenas o fator Aceitação neutra do DAP-R foi estatisticamente significativo, sendo que as mulheres apresentaram maiores médias. Entretanto, as diferenças foram expressivas também na Escala de Ansiedade perante a morte (DAS), na qual os homens obtiveram maiores escores.
Tabela 1. Diferença entre homens e mulheres na percepção da morte.
| Grupo (n) | Média | DP | p (d) | |
|---|---|---|---|---|
| SSIS | Fem. (n=58) | 63,43 | 13,36 | 0,14 (0,28) |
| Masc. (n=57) | 59,88 | 12,34 | ||
| Coping-Outro | Fem. (n=125) | 53,39 | 13,34 | 0,31 (0,19) |
| Masc. (n=37) | 50,83 | 13,76 | ||
| Coping-Próprio | Fem. (n=125) | 54,23 | 14,65 | 0,19 (0,24) |
| Masc. (n=37) | 57,70 | 12,92 | ||
| DAS | Fem. (n=59) | 42,94 | 8,35 | 0,07 (0,33) |
| Masc. (n=57) | 45,64 | 7,91 | ||
| IDCP-triagem | Fem. (n=159) | 35,94 | 4,33 | 0,62 (0,09) |
| Masc. (n=41) | 35,58 | 3,59 | ||
| Fatores DAP-R | ||||
| Fator Aceitação Religiosa | Fem. (n=221) | 35,06 | 12,89 | 0,13 (0,18) |
| Masc.(n=100) | 32,67 | 13,74 | ||
| Fator Medo da morte | Fem. (n=221) | 23,90 | 9,24 | 0,43 (0,09) |
| Masc. (n=100) | 24,71 | 7,47 | ||
| Fator Evitamento da morte | Fem. (n=221) | 16,78 | 7,34 | 0,93 (0,01) |
| Masc. (n=100) | 16,85 | 6,38 | ||
| Fator Aceitação de Escape | Fem. (n=221) | 16,38 | 6,85 | 0,96 (0,01) |
| Masc. (n=100) | 16,34 | 6,30 | ||
| Fator Aceitação Neutra | Fem. (n=221) | 21,61 | 8,61 | <0,01 (0,49) |
| Masc. (n=100) | 17,29 | 9,45 | ||
Nota: SSIS= Escala de Sentido de Imortalidade Simbólica, Coping-outro = fator Coping com a morte dos outros, Coping-próprio = fator Coping com a própria morte, DAS = Escala de Ansiedade Perante a Morte, IDCP-triagem = Inventário Dimensional Clínico de Personalidade – versão triagem, DAP-R= Perfil de Atitudes Perante a Morte – Revisado, Fem. = Feminino, Masc. = Masculino.
Posteriormente, foi feita correlação entre as escalas sobre a temática morte, o IDCP-triagem. Além disso, as escalas foram correlacionadas com as variáveis idade, escolaridade e prática religiosa, conforme apresentado na Tabela 2.
Tabela 2. Correlação entre escalas de percepção da morte, personalidade patológica e variáveis sociodemográficas.
| DAS | SSIS | IDCP | Idade | Esc. | Prat. Rel. | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Coping-Outro | ª | ª | -0,22** | 0,22** | 0,18* | 0,09 |
| Coping-Próprio | ª | ª | -0,18* | 0,17* | 0,25** | 0,04 |
| DAS | 1 | -0,13 | ª | 0,29** | ª | ª |
| IDCP-triagem | ª | ª | 1 | 0,02 | -0,10 | 0,02 |
| Fatores DAP-R | ||||||
| Fator Aceitação Religiosa | 0,25** | 0,16 | 0,03 | 0,28** | 0,05 | 0,50** |
| Fator Medo da morte | 0,64** | -0,25** | 0,18** | -0,05 | -0,18** | -0,07 |
| Fator Evitamento da morte | 0,47** | 0,03 | 0,20** | 0,00 | -0,13* | 0,13 |
| Fator Aceitação de Escape | 0,04 | -0,31** | 0,14* | 0,09 | -0,08 | 0,02 |
| Fator Aceitação Neutra | -0,12 | 0,09 | 0,05 | 0,33** | 0,27** | -0,01 |
Nota: Coping-próprio = fator Coping com a própria morte, Coping-outro = fator Coping com a morte dos outros, DAS = Escala de Ansiedade Perante a Morte, IDCP-triagem = Inventário Dimensional Clínico de Personalidade – versão triagem, DAP-R= Perfil de Atitudes Perante a Morte – Revisado, SSIS= Escala de Sentido de Imortalidade Simbólica, Esc. = Escolaridade, Prat. Rel. = praticante de alguma religião. **p≤0,01, * p≤0,05. ª Valores constantes não analisados.
Observa-se que DAS e SSIS se correlacionaram negativamente, embora com valor não estatisticamente significativo. Adicionalmente, observaram-se cinco correlações estatisticamente significativas entre IDCP-triagem e DAP-R e Coping. Por fim, as variáveis idade, escolaridade e prática religiosa se correlacionaram com as medidas de percepção da morte, sendo o maior número de correlações observadas com a variável idade e o menor número com prática religiosa.
Discussão
O presente estudo teve como objetivo verificar a relação da percepção sobre a morte na população geral sob diferentes perspectivas: perfil de atitudes sobre a morte, ansiedade, imortalidade simbólica e coping com a própria morte, indicadores patológicos da personalidade e variáveis como sexo, idade, escolaridade e prática religiosa. Com base na literatura, foram elencadas e testadas quatro hipóteses, a seguir discutidas.
No que diz respeito às comparações entre homens e mulheres nos aspectos relacionados à percepção da morte, houve apenas diferenças significativas para o fator Aceitação Neutra, indicando que as mulheres tendem a perceber a morte como algo natural e parte da vida, indo ao encontro de estudos anteriores (Carneiro, 2013; Loureiro, 2010; Santos & Pinto, 2009). Entretanto, outros estudos demonstraram o perfil mais positivo e a melhor aceitação da morte por parte dos homens (Brito, 2003; Klein, 2017; Souza et al., 2017) e outros ainda não encontraram diferenças entre os sexos (Camarneiro & Gomes, 2015).
Ainda sobre a diferença de percepção entre homens e mulheres, embora os resultados não tenham sido estatisticamente significativos, as diferenças entre os sexos na Escala de Ansiedade perante a morte foram expressivas, com magnitude fraca, indicando que os homens apresentam com maior frequência pensamentos ansiosos acerca dessa temática. Nessa amostra, nota-se que as mulheres tenderam a apresentar uma percepção mais positiva sobre a temática, enquanto que os homens foram na direção oposta, como encontrado em estudos prévios (Carneiro, 2013; Loureiro, 2010; Santos & Pinto, 2009). Dessa forma, a hipótese H1, de que haveria diferença entre homens e mulheres quanto à percepção da morte, foi parcialmente confirmada, seguindo a mesma direção da maioria dos estudos. Hipotetiza-se que outros fatores podem estar relacionados à percepção da morte, sendo o sexo uma variável moderadora, sendo que a investigação do efeito moderador poderia trazer mais esclarecimentos para a questão.
A segunda hipótese, ou seja, a ansiedade em relação à morte poderia ser minimizada quando o sujeito é capaz de transpor simbolicamente sua mortalidade, foi parcialmente confirmada. A associação entre ansiedade perante a morte e escala de imortalidade simbólica seguiu direção esperada (i.e., correlação negativa), porém sem valor significativo. Complementarmente, observou-se associação negativa entre imortalidade simbólica e percepção da morte como algo a ser temido (Fator Medo) ou como um escape da vida (Fator Escape). Isso indica que a capacidade do sujeito em transpor simbolicamente a própria mortalidade seria um recurso que o auxilia a adotar uma atitude perante a morte de forma mais positiva, conforme previsto na literatura (Carneiro, 2013; Durães, 2007; Gomes, 2008; Santos, 1999; Santos & Pinto, 2009). Em estudos futuros, seria importante analisar quais aspectos da imortalidade simbólica seriam relevantes para uma percepção mais positiva da morte (religiosidade, procriação, natureza, criatividade).
As relações observadas entre percepção da morte e tendência a apresentar funcionamentos mais patológicos da personalidade demonstraram que a capacidade de coping com a própria morte e com a morte do outro está negativamente associada a traços patológicos da personalidade. Esse achado chama a atenção para a necessidade de cuidados em relação a pacientes com tendências patológicas (e.g., com diagnóstico de transtornos da personalidade), que poderiam apresentar dificuldades em lidar de forma positiva com situações estressoras, havendo, potencialmente, menores recursos para coping perante a morte.
Na mesma linha de achados de Klein (2017) entre traços de Neuroticismo e percepção negativa da morte, aqui se verificou associação positiva entre funcionamentos mais patológicos da personalidade e os perfis Medo, Escape e Evitamento da morte. Pode-se entender que traços patológicos da personalidade interferem de maneira negativa na capacidade de o sujeito perceber a morte de forma saudável ou como uma parte natural da vida, confirmando a hipótese de que esses componentes estariam relacionados (H3). Essa dificuldade pode elevar sentimentos de ansiedade, como já demonstrado (Carneiro, 2013; Santos & Pinto, 2009). Sugere-se que estudos futuros analisem de forma aprofundada se determinados transtornos da personalidade são relacionados mais fortemente às dificuldades de percepção da morte de forma positiva, possibilitando melhores intervenções com essa população.
Por fim, foram investigadas relações entre as medidas utilizadas e as variáveis sociodemográficas idade, escolaridade e religiosidade. Melhor capacidade de coping e percepções mais positivas da morte se relacionaram positivamente com idade, conforme indicado em estudos anteriores, reforçando a ideia de que pessoas mais velhas tendem a atribuir diferentes significados para a morte, quando comparadas às jovens (Gomes, 2008; Loureiro, 2010; Santos & Pinto, 2009). Esse é um potencial indicador de que as vivências e a maturidade podem interferir na forma como as pessoas interpretam a vida e, consequentemente, a morte. Quanto maior a escolaridade dos sujeitos, maiores foram os valores de coping e atitude positiva em relação à morte (Fator Aceitação Neutra) e menores as atitudes negativas (fatores Medo e Evitamento). Até o momento, não foram encontrados estudos que comparassem essas variáveis, mas é possível hipotetizar que o acesso à educação poderia favorecer maior informação sobre diferentes conteúdos e, dessa forma, auxiliar as pessoas a melhor compreender a morte e, assim, a melhor aceitá-la.
Estudos futuros devem investigar a relação entre esses fatores, visando compreender o quanto a escolaridade pode auxiliar ou prejudicar a visão do tema. Ainda, estudos anteriores indicaram a religião como um dos mais fortes influenciadores da percepção da morte (Ayres, 2017; Ellis & Wahab, 2013; Jafari, 2016; Jong & Halberstadt, 2017; Klein, 2017; Silva, 2016; Wong et al., 2015). Na maioria das religiões, a morte é compreendida como uma etapa da vida, porém, haveria uma continuação depois dela. Essa ideia dá respaldo para uma nova simbolização da morte, como apenas um passo para algo a mais (paraíso, felicidade eterna, libertação). Na presente amostra, praticantes de religiões apresentaram correlações fortes com o perfil de aceitação religiosa, conforme previsto.
Em suma, entende-se que as variáveis sociodemográficas aqui investigadas auxiliaram na compreensão da percepção da morte, em suas diversas facetas. Pessoas mais velhas e com maior escolaridade tenderam a apresentar perfis mais positivos. A prática de uma religião também foi favorecedora da percepção mais saudável do tema. Nesse sentido, a hipótese de que haveria relação entre essas variáveis foi confirmada (H4).
Conclusão
O presente estudo se propôs a verificar a relação entre percepção da morte, traços patológicos da personalidade e variáveis sociodemográficas. Para isso, foram levantadas quatro hipóteses a partir do que se tem observado na literatura da área. Todas essas hipóteses foram confirmadas ou parcialmente confirmadas, indicando haver algumas características (por exemplo, funcionamento mais saudável da personalidade, idade avançada, melhor escolaridade e prática religiosa) que influenciam a maneira como o sujeito percebe a morte em suas diferentes formas. Esses achados permitem identificar as variáveis que podem contribuir para a percepção da morte e do morrer de um jeito mais positivo, colaborando para a compreensão mais integrada do fenômeno e possibilitando propostas de intervenção em contextos específicos (por exemplo, diferentes faixas etárias).
Este estudo apresentou algumas limitações que poderiam ser exploradas em novas pesquisas. Por exemplo, em relação à avaliação de traços patológicos da personalidade, foi usada apenas uma versão de triagem que, embora seja discriminativa de potencial psicopatologia da personalidade, não traz informações detalhadas sobre transtornos específicos. Dessa forma, considera-se que em estudos futuros uma avaliação mais aprofundada dessas características poderia favorecer a compreensão das relações aqui identificadas.
Nem todos os participantes responderam a todos os instrumentos, o que poderia se configurar como uma limitação, tendo em vista que, além de reduzir o tamanho amostral para comparações específicas, não permite a compreensão de forma mais complexa e integrada de todas as medidas com os mesmos sujeitos. Assim, em novas pesquisas, seria útil o desenvolvimento de protocolos a serem respondidos por todos os sujeitos, de modo uniformizado.













