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Revista do NUFEN

versão On-line ISSN 2175-2591

Rev. NUFEN vol.17  Belém  2025  Epub 11-Abr-2025

https://doi.org/10.26823/rnufen.v17i1 

Editorial

Mundo territorial, existencial e científico em desassossego

1Profa. Titular na Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia Ciências Humanas, Programa de Pós-graduação em Psicologia, Belém-PA-Brasil, Doutora em Psicologia Clínica


Abrimos o ano de 2025 retomando algumas reflexões apresentadas no IV Congresso Brasileiro de Fenomenologia Existencial da ansiedade / IV Encontro Nacional de Pesquisa Qualitativa, (2024), temática central: Zelo em Tempos de Virtualidade, que a linha de pesquisa Fenomenologia: teoria e clínica, vinculada ao Programa de Pós-graduação em Psicologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFPA promoveu.

As ponderações elencam ocorrências mundiais, brasileiras e locais de extrema relevância, que afetam o âmbito do vivido. Alguns exemplos: no Brasil, o caso Guarulhos que consagrou, despudoramente, a luz do dia, a tomada de posse do espaço público pelo crime organizado; a recente publicitação de uma nuança do golpe de 2022, em que foi planejado e posto em movimento o assassinato dos chefes de estado/governo; em Israel e Gaza o genocídio se amplia, em meio a deslocamentos de migrações forçadas por inúmeras perdas. Em 05/11/2024 retornou à Casa Branca uma gestão ultra neoliberal, que idealiza um conceito de nação descolado das mudanças globais ambientais, sociais, econômicas que originam desigualdades que atingem o mundo; em Belém, uma intensa matança a policiais; aumento de feminicídios, de violências físicas e simbólicas, resultando a afetação desmesurada à saúde psíquica.

Importante ressaltar que neste editorial, o enfoque de território transcende a geografia, considerando proposições de Milton Santos que o compreende como prática social,

O território não é apenas o conjunto dos sistemas naturais e de coisas superpostas. O território tem que ser entendido como o território usado, não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida. (Santos, 1999, p 8)

As questões não são temáticas, mas acontecimentos vividos, já que estamos entre as vulnerabilidades socioeconômicas e a capilarização do enlace entre corrupção, estado e o crime organizado que geram sofrimento. No âmbito do conhecimento, apontamos a obra Século XXI: o Mundo em Convulsão, organizada pelo professor Rogerio Paulino (2019), pela UFRN. O livro indica algumas áreas em crise.

Em nossa tarefa editorial, entendemos que, é imprescindível questionar as proposições de políticas científicas institucionais que os conglomerados editoriais internacionais, a CAPES e as áreas do conhecimento, em nossa especificidade, a Psicologia, implementarão na próxima quadrienal que inicia em 2025. Entre as inúmeras modificações o uso de métricas de desempenho/performance e citações dos artigos. Continua a forte tentativa de cominação de um modo de fazer ciência, agravado no Século XXI pelos interesses parcimoniosos das grandes editoras, o que nos mantem atados ao epistemícidio colonial.

O oposto igualmente cogente é a colaboração entre nações, universidades, pesquisadoras e pesquisadores. De acordo com Mattedi & Spiess (2017),

A instituição da cultura da avaliação exprime a institucionalização do artigo e a incorporação das referências como parâmetro de avaliação da atividade científica. Portanto, a adoção de medidas de produtividade (contagem de publicações) ou indicadores de impacto (contagem de citações) indica a passagem da little science para a big science. Expressa também as relações de cooperação e competição. Reflete o suporte eletrônico. A internet associada à expansão das técnicas estatísticas possibilitou a manipulação de bases de dados enormes; as consequências foram a sofisticação das técnicas de medida, monitoramento de vários aspectos do processo de comunicação científica em geral e da avaliação científica em particular, em nível macro (países), meso (disciplinas) e micro (programas). (Mattedi & Spiess, 2017, p 630).

Acerca de ações éticas, solidárias e coletivas situamos que a epistemologia fenomenológica; a fenomenologia existencial e a decolonial; a hermenêutica da linguagem e do discurso, a psicologia clínica de bases humanistas e gestáltica podem contribuir para a efetivação do ZELO, ante o mundo belenense e a humanidade global que vivencia convulsões e encruzilhadas performadas em guerras diversas. Os textos publicados no volume contribuem para a compreensão de pessoas com lesão medular; de perdas gestacionais e do abandono infantil.

No bojo da compreensão crítica indicamos ler. Uma oportuna ferramenta é a obra Ecofenomenologia Decolonial de Alexandre Marques Cabral (2022), que aponta formas de “vidas em luta, contra a corrente do silenciamento, da invisibilidade, da iniquidade e das desalterizações” (Cabral, 2022, p 17).

Convidamos leitoras, autoras, e interessadas na resistência as cominações para abrir diálogos: a propósito de avanços do uso da IA e da robótica; das tecnologias de informação e comunicação, de equipamentos invasivos para obter imagens do corpo, da fotografia da íris, omitindo o uso posterior do banco de dados, e arbitrando um valor de isca aos brasileiros e brasileiras vulneráveis; de medicamentos para manter a juventude; do aprisionamento em casa temendo ser roubado; do isolamento; da era das especialidades médicas, que ampliam a fragmentação dos tratamentos, na medida em que, a protótipo, a ortopedia passa a estudar uma pequena parte do corpo, flutuando entre a particularidade no conhecimento das mãos, dos dedos; dos pés; do joelho, configurando a reiterada forma de reduzir a complexidade do todo em suas partes.

Ao mesmo tempo conversar sobre o domínio do planeta pelos conglomerados agrícolas, que infligem a diminuição do espaço as demais espécies animais não humanos, com exceção a uma linhagem de cães e gatos que vivem nas casas de algumas pessoas; acerca das queimadas que devastam a Amazônia, que perdeu o status de “pulmão do mundo”; o uso de pesticidas em larga escala pelos produtores de soja, milho e cana de açúcar; a esfera do consumo, o comércio de produtos supérfluos.

A sociedade humana global está em processo de degradação. Pelejas regionais, exércitos e arsenais nucleares são fantasmas rondando. Há ressurgimento público de ideologias fascistas e nazista decorrentes, entre outros fatores da frustração das populações com as promessas não cumpridas da democracia capitalista. (Paulino, 2019). Todos os indicadores citados decrescem o zelo pela humanidade. Necessitamos amplia-lo.

Na era da quarta revolução industrial, o trabalho em Psicologia inclui atividades na clínica virtual, o marketing digital para venda de serviços, implicando uma fronteira entre a realização de estudos contextualizados, e filosoficamente articulados; a pratica de “mentorias”, influências, geração de receitas, perda ou afastamento do cuidar e do compreender. O trabalho da psicologia fenomenológica pelas vias mencionadas toca na questão da “efetividade de carne e osso; pois o “oposto de ‘fenômeno’ é o conceito de encobrimento. Tanto o “deixar aparecer para ver” quanto o “fazer ver” assinalam uma quebra na desfenomenalização dos fenômenos. Essa quebra possui um sentido libertador”. (Cabral, 2022, p 40).

No âmbito da produção editorial há muito mais que o Instagram, e bases internacionais. A pergunta husserliana sobre como conhecemos restaurou com a epistemologia fenomenológica a possibilidade de agir humanos, pois, “Fenomenologia é ciência do vivido”. E ciência do vivido é atividade perceptiva que se exerce sobre “estados de coisas” e não sobre coisas. ” (Guimarães, 2013, p 4). Esta delimitação permite afirmar que podemos praticar também a desfenomenalização da escrita. “Tornar visível faz parte da arte de ver” e de ler, e de historiar. (Cabral, 2022, p. 53). Decorridos quase quatro séculos de criação dos periódicos científicos destacamos,

Desde o mesmo começo destes periódicos, havia um consenso entre os pesquisadores e sábios de que as descobertas deviam ser difundidas e apresentadas abertamente à avaliação por seus pares. O “peer review” é tão antigo como os periódicos científicos, e ademais, é interessante notar que, naquela época, a arbitragem não era um processo anônimo nem cego, e sim aberto a todos os colegas, uma espécie de peer review e Open Access. (Spinak & Packer (2015)

Lembramos que em 2025, entre 10 e 21 de novembro, será realizada a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém (PA); destarte, mais do que possível é cogente identificar e desconstruir a compreensão das ideologias que permeiam o modelo de economia; de saúde; de educação e de avaliação de textos (não mais de periódicos) porvir na quadrienal da pós-graduação brasileira que começou em 2025. Para estas dimensões indaga-se: quais são os sujeitos a quem a economia, a saúde e a educação são dirigidas? Quais epistemologias e os elementos teóricos privilegiados e os apagados? Quais os desdobramentos políticos, e o tipo de ciência a ser veiculada? São inúmeras as interrogações????????????????????????????????????

Referências

Cabral, Alexandre Marques. (2022). Ecofenomenologia decolonial: variações fenomenológicas sobre a alteridade. PUC, NAU. [ Links ]

Guimarães, A. C. (2013). Uma aproximação aos conceitos básicos da fenomenologia. Fenomenologia e Psicologia, 1(1), 138–148. https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/fenomenolpsicol/article/view/1353. [ Links ]

Mattedi, M. A., & Spiess, M. R.. (2017). A avaliação da produtividade científica. História, Ciências, Saúde-manguinhos, 24(3), 623–643. [ Links ]

Spinak, Ernesto & Packer, Abel L. (2015). 350 anos de publicação científica: desde o “Journal des Sçavans” e “Philosophical Transactions” até o SciELO. Disponível em https://blog.scielo.org/blog/2015/03/05/350-anos-de-publicacao-cientifica-desde-o-journal-des-scavans-e-philosophical-transactions-ate-o-scielo/Links ]

Santos, M. (2009). O Dinheiro e o Território. GEOgraphia, 1(1), 7-13. https://doi.org/10.22409/GEOgraphia1999.v1i1.a13360Links ]

CAPA: conceito:

Adelma Pimentel

Composição com uso de IA:

Kamilly Vale

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