SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.17 número especial 1Cuidado e saúde mental no trabalho em HIV/AIDS em um hospital de referência na AmazôniaSolidão em tempos de multidão: reflexões contemporâneas índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Revista do NUFEN

versão On-line ISSN 2175-2591

Rev. NUFEN vol.17 no.spe1 Belém  2025  Epub 19-Dez-2025

https://doi.org/10.26823/rnufen.v17i1.26112 

Ensaio/Teórico

Gestalt-terapia na Amazônia: reconhecendo as raízes através dos Grupos de Estudos no Norte do Brasil

Gestalt therapy in the Amazon: recognizing roots through Study Groups in Northern Brazil

Terapia Gestalt en la Amazonia: reconociendo raíces a través de Grupos de Estudio en el Norte de Brasil

Wellen Karen Lobo Pinheiro1 
http://orcid.org/0009-0000-6175-5181

Kamilly Souza do Vale2 
http://orcid.org/0000-0002-7031-2240

1Psicóloga,atua em consultório clínico com abordagem em Gestalt-terapia. Mestranda no Programa de Pós Graduação da UFPA

2Universidade Federal do Pará Psicóloga, Dra em Psicologia Clínica pela Universidade Federal do Pará, professora efetiva no curso de Psicologia e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFPA, Linha de pesquisa em Fenomenologia: Teoria e Prática; Coordenadora do Grupo de Estudos em Gestalt-Terapia (GEGT-Belém) e do Núcleo de Pesquisa em Gestalt-Terapia.


Resumo

O artigo investiga o desenvolvimento da Gestalt-terapia na região Norte do Brasil, com foco na atuação de grupos de estudo, especialmente no estado do Pará. A questão norteadora refere-se a como tais grupos e instituições acadêmicas contribuíram para a consolidação da abordagem em contextos amazônicos. Com base em revisão bibliográfica, levantamento em mídias sociais e relatos de profissionais, o estudo traça um panorama histórico e político da expansão da Gestalt-terapia na Amazônia. Os resultados evidenciam que os grupos operam como espaços de formação continuada, resistência epistemológica e afirmação identitária. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o parecer nº CAEE 84574724.6.0000.0018. Conclui-se que esses coletivos e espaços institucionais enquanto programas de pós-graduação Strictu sensu fortalecem a produção científica e a legitimidade acadêmica da abordagem sendo fundamentais para a construção de uma clínica gestáltica enraizada, ética, decolonial e sensível às realidades culturais da região.

Palavras-chave: Gestalt-terapia; Amazônia; Pós-graduação; Grupos de estudo; Psicologia decolonial.

Abstract

This article investigates the development of Gestalt therapy in the Northern region of Brazil, with an emphasis on the activities of study groups, particularly in the state of Pará. The guiding question focuses on how these groups and academic institutions have contributed to consolidating the Gestalt approach in Amazonian contexts. Using bibliographic review, social media research, and testimonials from professionals, the study outlines a historical and political panorama of the expansion of Gestalt therapy in the Amazon. The results indicate that these groups operate as spaces for continuing education, epistemological resistance, and identity affirmation. The research was approved by the Research Ethics Committee under opinion number CAEE 84574724.6.0000.0018. It is concluded that such collectives and institutional environments- especially Stricto sensu postgraduate programs-play a fundamental role in strengthening scientific output and academic legitimacy, contributing to the development of a rooted, ethical, decolonial Gestalt clinic that is sensitive to the cultural realities of the region.

Keywords: Gestalt therapy; Amazon; postgraduate studies; study groups; decolonial psychology.

Resumen

El presente artículo investiga el desarrollo de la terapia Gestalt en la región Norte de Brasil, con énfasis en la actuación de grupos de estudio, especialmente en el estado de Pará. La pregunta orientadora se refiere a cómo estos grupos e instituciones académicas han contribuido a la consolidación del enfoque gestáltico en contextos amazónicos. A partir de revisión bibliográfica, análisis de redes sociales y relatos de profesionales, el estudio traza un panorama histórico y político de la expansión de la terapia Gestalt en la Amazonía. Los resultados muestran que los grupos funcionan como espacios de formación continua, resistencia epistemológica y afirmación identitaria. La investigación fue aprobada por el Comité de Ética en Investigación bajo el dictamen nº CAEE 84574724.6.0000.0018. Se concluye que estos colectivos y espacios institucionales -especialmente los programas de posgrado Stricto sensu- son fundamentales para fortalecer la producción científica y la legitimidad académica del enfoque, aportando a la construcción de una clínica gestáltica enraizada, ética, decolonial y sensible a las realidades culturales de la región.

Palabras clave: Terapia Gestalt; Amazonía; posgrado; grupos de estudio; psicología decolonial.

Introdução

A formação em Psicologia na Amazônia assume uma relevância singular diante da pluralidade que caracteriza essa região. A Amazônia Legal, conforme definida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), é uma unidade político-administrativa composta por nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Essa delimitação, além de geográfica, tem implicações políticas e econômicas, sendo estratégica para o planejamento e o desenvolvimento sustentável do país.

No estado do Pará, a história da graduação em Psicologia remonta à década de 1980, com a criação do curso na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém. Desde então, houve uma ampliação do curso no conjunto da Região Norte, são 84 cursos de Psicologia, com predominância no setor privado: 75 em instituições privadas e apenas 09 públicas. Dados de junho do sistema e-MEC (Ministério da Educação, 2025), indicam que o estado do Pará conta atualmente com 26 cursos de graduação em Psicologia, sendo 02 ofertados por instituições públicas e 24 por instituições privadas. Na capital, Belém, há 10 cursos, dos quais 01 é público e 09 privados, demonstrando um crescimento contínuo da oferta formativa.

A expansão da formação exige qualificação sensível às demandas de populações diversas, afastandose de modelos universalistas e promovendo práticas comprometidas com as especificidades culturais e territoriais da região. Nesse contexto, os cursos contribuem para a valorização dos saberes locais e para o desenvolvimento de práticas em múltiplos campos de atuação do psicólogo como saúde, educação, esporte, justiça e clínica em diálogo com essas realidades. Além disso, a formação acadêmica incentiva a produção científica regional, fortalecendo a inserção dos profissionais amazônicos no cenário nacional e internacional e promovendo o reconhecimento da pluralidade de experiências que compõem o território.

Sabemos que a Amazônia enfrenta desigualdades históricas, apagamentos epistemológicos e desafios estruturais, como o acesso limitado a serviços de saúde mental e a escassez de profissionais especializados. Nesse contexto, o curso de Psicologia desempenha um papel crucial ao formar psicólogos que possam atuar de maneira ética, sendo, portanto, um dos maiores desafios: a reprodução de modelos acadêmicos e clínicos que desconsideram particularidades, carregando consigo uma perspectiva universalista de compreensão da experiência subjetiva do sujeito situado na Amazônia.

Outro aspecto relevante é a importância da psicologia na promoção da saúde mental em uma região que desempenha um papel fundamental na regulação do clima global e na preservação da biodiversidade, mas que também enfrenta impactos do colonialismo, exploração econômica e exclusão social.

Nossas reflexões partem de inquietações referentes a questões decoloniais na inserção da Gestaltterapia (GT) no Norte do Brasil, objetivando um resgate da história desta abordagem psicológica e que envolve a importância de suscitar debates acerca da presença dos profissionais situados na Amazônia. Compreendemos que das diversas frentes de possibilidades de articulação para a construção deste artigo, optou-se por mapear a chegada da GT nesta região através da formação de grupos de estudos, reconhecendo a importância desses coletivos para configuração da abordagem em terras amazônicas.

A Gestalt-terapia desenvolvida por Fritz Perls, Laura Perls, Paul Goodman e o grupo conhecido como grupo dos 7, nos anos 1950, cresceu rapidamente pelo mundo e, no Brasil, se consolidou na década de 1970, inicialmente nos grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro. Quando a Gestalt-terapia chegou em solo brasileiro, ela trouxe consigo a marca de uma tradição eurocêntrica e norte-americana, carregando questões que envolviam a articulação entre a teoria e prática, a vivência intuitiva e a busca por sistematizações.

No Norte (ou “Por aqui”), essas dinâmicas ganharam novos contornos ao se confrontarem com uma realidade marcada por uma diversidade cultural imensa e por desafios sociais estruturais. Na década de 1980, essa abordagem se expandiu para outras regiões do país, incluindo o Norte. Segundo Frazão e Cury (2012), a introdução da Gestalt-terapia na região envolveu dificuldades relacionadas à escassez de profissionais formados na perspectiva, acesso limitado a materiais e formações especializadas e ao não reconhecimento da realidade sociocultural amazônica.

A chegada da Gestalt-terapia ao Norte se deu por meio da articulação de profissionais interessados na abordagem, que formaram grupos de estudo. Inicialmente, esses coletivos contaram com o apoio de formadores de outras regiões, especialmente do Sudeste. No estado do Pará, esse movimento coincidiu com a consolidação da formação em Psicologia, tanto pública quanto privada. Em 1980, o Decreto nº 84.858 autorizou o funcionamento do curso de Psicologia da Sociedade Civil Colégio Moderno, configurando a primeira graduação privada na área no estado (Brasil, 1980).

Cientificamente, os grupos de estudos são cruciais para a produção e disseminação de conhecimento sobre a Gestalt-terapia. Eles incentivam a pesquisa, a publicação de artigos e a realização de eventos que abordam as demandas locais, fortalecendo a identidade profissional dos Gestalt-terapeutas nortistas. Além disso, esses coletivos possibilitam o intercâmbio de saberes entre diferentes regiões do Brasil, conectando o Norte ao eixo Sul-Sudeste, onde a oferta de formação e eventos na área é mais ampla. Essa troca de experiências enriquece a prática gestáltica, permitindo que ela se adapte às realidades amazônicas e se torne mais representativa.

Os grupos também desempenham um papel político e ético, ao resistirem às narrativas que marginalizam a produção teórica e clínica do Norte. Atualmente, eles criam espaços de afirmação identitária e de valorização dos saberes locais, contribuindo para a construção de uma Gestalt-terapia enraizada na experiência amazônica. Assim, esses coletivos não apenas disseminam a abordagem, mas também transformam o campo em um espaço de reinvenção, escuta e afirmação de subjetividades plurais, promovendo uma psicologia comprometida com a diversidade e o cuidado ético.

Nesse panorama, a retomada histórica de um modelo teórico-metodológico é de extrema importância para delinear a trajetória e as afetações geradas no cenário existente e de como a forma que tal abordagem é ensinada, vivenciada e parte da prática psicoterapêutica é realizada. Assim, compreender o desenvolvimento da Gestalt-terapia na Amazônia é também um movimento de reconhecimento de opressão e resistência, o que não significa apenas descrever sua chegada e propagação, mas perceber como essa atuação pode ser um espaço de afirmação identitária e decolonial.

A proposta apresentada neste artigo é um recorte do projeto de pesquisa realizado no programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Pará (PPGP/UFPA) intitulado “Contribuições Da Filosofia Buberiana Sobre A Gestalt-terapia na Amazônia: Uma Compreensão Dialógica” e aprovado sobre o CAEE 84574724.60000.0018. Objetivou-se, aqui, apresentar a trajetória da Gestalt-terapia na Região Norte do Brasil através da criação dos grupos de estudo na região, em especial no estado do Pará, visto que as autoras são duas mulheres paraenses e Gestalt-terapeutas.

Para tal realizou-se uma revisão de literatura e uma pesquisa em mídias sociais e sites que informam acerca da existência dos grupos. Compõe também este escrito a memória de narrativas dos primeiros Gestalt-terapeutas em Belém do Pará, realizada de maneira informal, no entanto, identificamos como um marcador necessário a inclusão destas em virtude da importância de um registro teórico que sirva como base para buscas futuras referentes a essa temática.

A seguir, apresentamos um panorama histórico e político da inserção da Gestalt-terapia no Norte do Brasil, com foco na atuação de grupos de estudo, especialmente no estado do Pará. O texto está organizado em três eixos: a chegada e expansão da abordagem na Amazônia; o papel formativo, político e epistemológico dos grupos de estudo; e a constituição de uma clínica gestáltica enraizada, ética e decolonial na região.

Travessias Gestálticas: Percursos no Norte

Nesta seção, abordaremos a trajetória dos grupos de estudo em Gestalt-terapia no Norte do Brasil, destacando experiências nos estados do Pará, Acre, Roraima, Amapá e Rondônia. Aponta-se sua relevância como espaços de formação contínua, articulação teórico-vivencial e resistência epistemológica em contextos marcados por desigualdades regionais. Destaca-se a importância de uma prática clínica situada, atenta às especificidades da Amazônia.

Os grupos de estudos desempenham um papel fundamental no desenvolvimento da Gestalt-terapia, constituindo-se como espaços de formação contínua, partilha experiencial e elaboração teórica e vivencial. Os encontros promovem um campo coletivo de reflexão, com possibilidade de diálogos desde os fundamentos epistemológicos a revisar práticas clínicas, como relembra Belmino (2021,p.36), em contextos periféricos e psicossociais como o Norte e o Nordeste do Brasil os grupos de estudo gestálticos têm se constituído como redes de fortalecimento coletivo, que integram teoria, prática e compromisso social. São espaços que atualmente descolonizam a formação e ampliam o olhar clínico para os atravessamentos sociais, culturais e políticos do sujeito em sofrimento.

Segundo Juliano (2007), os grupos de estudo em Gestalt-terapia são, muitas vezes, “o primeiro espaço em que o profissional ou estudante entra em contato com a alma da abordagem: a experimentação, o diálogo, a sensibilidade estética e o compromisso ético com o sofrimento do outro” (p. 45). No que tange a GT brasileira, muito se vem discutindo acerca da potencialidade existente na diversidade experienciada no país, seja de regiões ou de fazeres, demandando, cada vez mais, o esforço criativo desses profissionais, em consonância com o que Belmino (2020) aponta que a Gestalt-terapia possui uma pluralidade de formas e perspectivas que a coloca em destaque internacionalmente, constituindo uma prática que colabora criticamente com reflexões acerca de temas contemporâneos necessários para nosso País. No entanto, o referido autor lamenta que ainda não há uma forma de pensar nossa brasilidade e “miscigenação em termos de uma política gestáltica” (p.281). Para ele, “precisamos entender a nossa formação política e cultural, a ditadura, a escravidão, a nossa herança indígena, mas também, o extermínio dessa população.” (Belmino (2020, p. 281)

Nascimento (2019) aponta que a difusão da Gestalt-terapia no Norte do Brasil apresentou desafios específicos, como a vastidão territorial, o acesso limitado à formação contínua e as particularidades socioculturais da região. Ainda que a abordagem tenha crescido na região ao longo dos anos, algumas lacunas ainda persistem, por exemplo terapeutas que se formavam inicialmente no Norte, mas precisavam buscar aprofundamento e atualizações no eixo Sul-Sudeste, onde a oferta de formação e eventos na área era, e ainda é, mais ampla.

Lika Queiroz em 2025 revela que no II Encontro Nacional de Gestalt-terapia que aconteceu, em Caxambu (MG) em 1989, percebeu que não havia, na programação, nenhum trabalho apresentado por Gestalt-terapeutas do Nordeste e a partir desta constatação sugeriu a criação de um encontro Norte- Nordeste: “Resolvemos, então, fazer um Encontro Norte-Nordeste, embora não soubéssemos se existia algum Gestalt-terapeuta no Norte.” (Andrade, 2025, p. 127). Tal afirmativa confirma a percepção de que a Gestalt-terapia no Norte ainda estava em seu momento inicial na época e não tinha visibilidade nacional.

Juliano (2007) discutiu o impacto da Gestalt-terapia no panorama da psicoterapia brasileira e enfatizou a necessidade de adaptações regionais. No entanto, a abordagem dessas adaptações tende a ser genérica, sem um olhar aprofundado para o que significa a sua prática em contextos em que as relações humanas são atravessadas por aspectos históricos, sociais, ambientais e políticos singulares, como ocorrem na Amazônia. Da mesma forma, Holanda (2009) tratou da diversificação da Psicologia Humanista e da Gestalt-terapia no

Brasil, abordando as diferenças culturais e geográficas que moldam a prática em regiões como o Norte e o Nordeste. Entretanto, sua análise, assim como a de outros autores, muitas vezes permanece na superfície, registrando as dificuldades estruturais, mas sem mergulhar nas experiências concretas de quem vive e exerce a mentalidade gestáltica nesses territórios.

O risco dessa superficialidade é a perpetuação de uma narrativa que marginaliza a vasta e importante produção teórica e clínica do Norte, reforçando a dependência de referenciais externos. Para que uma

Gestalt-terapia, de fato, siga se consolidando na região, é fundamental que a produção científica local seja valorizada e que os desafios enfrentados pelos profissionais amazônicos não sejam apenas referenciados e indicados, mas incluídos e compreendidos em sua profundidade. A GT segue dialogando com a realidade que a sustenta, reconhecendo a riqueza e a complexidade das relações humanas que se dão nesse contexto.

Nascimento (2019) sugere que o desenvolvimento da identidade profissional dos Gestalt-terapeutas no Norte do Brasil é influenciado por essas condições locais e pelo esforço de ajustamentos da sua teoria às demandas regionais, incluindo a diversidade cultural e os contextos socioeconômicos específicos da região amazônica. Ao tratar da relação entre Gestalt-terapia e sociedade, “o sofrimento psicológico não pode ser compreendido sem o enraizamento nas condições concretas de vida das pessoas e de suas comunidades”, como afirma (Boccardi, 2021, p. 19). Na Amazônia, essas condições concretas incluem desigualdades históricas, apagamentos epistemológicos e formas resilientes de resistência cotidiana.

Um campo de resistência

A Gestalt-terapia, ao se estabelecer na Amazônia, tornou-se também um campo de resistência e reconstrução frente aos impactos do colonialismo. O conceito de contracolonização, abordado por autores como Nego Bispo (2019) e Geni Nunes (2021), apontou a necessidade de investir em saberes-fazeres que permitam a reconstrução de territórios existenciais historicamente invadidos. A colonização não se limitou à exploração territorial, mas impôs modos de ser e de existir, capturando desejos, corporalidades, imaginários e memórias para implantar submissão, culpa e sofrimento. Esses elementos foram historicamente utilizados para definir o que é certo e errado, silenciando formas de vida e conhecimento não hegemônicos. Laura Perls (1992) já apontava que o foco da Gestalt-terapia não é apenas um indivíduo, mas na relação deste com o mundo ao seu redor.

Nego Bispo (2019) argumenta que a contracolonização não se trata apenas de resistir ao modelo imposto, mas de resgatar e afirmar epistemologias que já existiam antes da colonização. Na Psicologia e na prática psicoterapêutica, isso implica reconhecer e valorizar formas de subjetivação que não seguem uma lógica ocidental, individualista e fragmentada. Geni Nunes (2021) complementou essa perspectiva ao destacar a importância de compreender a Amazônia não apenas como um território físico, mas como um campo simbólico e existencial onde se desenrolam histórias de resistência e reinvenção. A Gestalt-terapia, ao enfatizar a relação entre organismo e ambiente, torna-se um instrumento potente para essa reconstrução, pois permite que subjetividades amazônicas sejam narradas e reconhecidas em sua pluralidade.

A contracolonização, nesse sentido, é um processo contínuo, que exige que a prática gestáltica no Norte dialogue ativamente com os contextos ancestrais e contemporâneos que constituem a realidade amazônica. A reflexão surgiu com o propósito de inquietar e fazer emergir a importância desse reconhecimento de uma ética do pertencimento, como afirma Maria Mione (Mione et al., 2010, pp. 32-33):

A assimilação da abordagem psicoterapêutica permite (e envolve) o desenvolvimento de uma ‘rede de lealdades’ genuína: ao referencial teórico, aos formadores e ao curso de formação, à própria história e escolhas existenciais, à sua singularidade e aos seus próprios limites. O percurso que torna estas várias lealdades compatíveis e gradualmente consistentes (...) apoia a definição e o amadurecimento da identidade pessoal e profissional do aluno. O suporte à assimilação da abordagem deve, finalmente, levar em conta essas lealdades com as filiações mais amplas nas quais o aluno passa a viver: o âmbito mais amplo da polis em que está inserido. Ele deve, de fato, poder ser colocado em horizonte “político” de pertencimentos, entre os quais estão o local de sua formação, a comunidade de psicoterapeutas, as diversas possibilidades profissionais e os demais trabalhadores do contexto, os desafios intelectuais e pragmáticos do seu tempo.

A noção de lealdade, nesse contexto, pode ser compreendida como um compromisso éticoexistencial com o referencial que sustenta a prática do terapeuta. No entanto, como lembra Santos (2010),

“não há conhecimento que não seja situado”. Portanto, toda lealdade também é uma filiação a um lugar de enunciação. Isso nos leva à reflexão sobre a quem estamos sendo leais quando seguimos, sem reflexão crítica, o que é reproduzido.

Para Buber, os grupos são fundamentais não apenas como estruturas sociais, mas como lugares onde o ser humano pode realizar sua base relacional, desenvolvendo-se através do encontro genuíno com o outro. Em seu livro Sobre comunidade (1987), ele aponta a visão de uma “comunidade orgânica”, uma “comunidade de comunidades” construída por pequenas comunidades. Assim, a formação do Gestaltterapeuta não está dissociada da relação: ela se produz e se transforma no campo do contato, entre as singularidades que se encontram. Para que isso ocorra, porém, é preciso que essa presença se dê com radical abertura ao outro, que não anule as diferenças, mas que as acolha como constitutivas do próprio ser. Logo, na filosofia dialógica de Martin Buber, a lealdade não precisa ser entendida como rigidez identitária, mas como um vínculo que se atualiza na relação. Ser leal a uma abordagem é, portanto, um ato vivo, que pode incluir rupturas, revisões e expansões.

Vivemos na generalidade e não na singularidade. Todos nós somos feitos dos materiais que nos foram oferecidos, porém o reconhecimento desse lugar deve proporcionar uma avaliação crítica dessa repetição, numa investigação do mundo em que eu existo, qual a relação com esse mundo e nossos microssistemas no intuito de mobilizar a variação de um novo discurso. A esse movimento de presença e escuta, soma-se a crítica de Hannah Arendt (2007), para quem a identidade se constitui no espaço público, na ação e na fala diante dos outros. Arendt afirma que “a pluralidade é a condição básica tanto da ação quanto do discurso”

(Arendt, 2007, p. 15), o que implica que a visibilidade dos sujeitos e, neste caso, dos Gestalt-terapeutas nortistas não pode ser conquistada em isolamento, mas exige espaços coletivos de enunciação e presença.

Contudo, essa visibilidade só se sustenta se enraizada em epistemologias que se recusem à domesticação do diverso. É nesse ponto que as contribuições de Geni Nunes (2021) e Nego Bispo (2019) se tornam imprescindíveis para o presente estudo. Nunes nos provocou ao dizer que a colonização capturou não apenas terras, mas modos de existência e de produção de saber. Para ela, “a psicologia precisa se perguntar se está disposta a ouvir corpos e territórios que falam línguas outras” (NUNES, 2021, p. 27). E Bispo nos convoca a refletir sobre como os modos de conhecimento são legitimados, como o cuidado é praticado e como as subjetividades são enquadradas.

Compreender a mentalidade profissional gestáltica na Amazônia é, portanto, um gesto político, epistemológico e clínico. Político, porque implica resistir a uma psicologia colonizada e às formas de apagamento de nossos saberes. Epistemológico, porque tensiona os modos dominantes de produzir ciência e conhecimento clínico, exigindo o reconhecimento da legitimidade dos saberes-fazeres de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e urbanos periféricos. Clínico, porque transforma o próprio campo terapêutico em espaço de reinvenção, escuta e afirmação de subjetividades plurais, como destacam (Boccardi & Fernandes 2021, p. 44), ao afirmarem que a clínica precisa ser repensada “como prática ético-política que se dá em campo social historicamente situado”.

Isso implica valorizar as dimensões relacionais, comunitárias, territoriais e políticas que atravessam o fazer gestáltico nessa região, além de fortalecer os debates sobre uma clínica comprometida com a escuta do diverso, do diferente e do singular em consonância com uma ética do cuidado, do pertencimento e do reconhecimento de territórios e saberes historicamente silenciados.

Método

Este artigo adota a revisão bibliográfica como método principal e justifica-se pela necessidade de consolidar as informações já existentes sobre a prática da Gestalt-terapia na Amazônia, além de proporcionar uma visão abrangente das contribuições teóricas e práticas na área. Como afirma Severino (2007), “a revisão bibliográfica é fundamental para a compreensão do estado da arte de um determinado campo de estudo, fornecendo subsídios teóricos para a análise crítica dos fenômenos em questão”. Foram utilizados artigos científicos, relatos de experiência que demonstram a expansão da abordagem na região e busca de informações de grupos de estudo nas redes sociais. Embora a literatura acadêmica forneça um arcabouço robusto para a compreensão das bases teóricas da Gestalt-terapia, muitas informações sobre a prática cotidiana e o desenvolvimento de eventos regionais em áreas como o Norte e o Nordeste do Brasil são veiculadas principalmente por meio de plataformas digitais informais. Esse fenômeno tem sido identificado em diversos estudos que destacam o valor das fontes alternativas na pesquisa acadêmica, especialmente em contextos culturais específicos e sub-representados (Marshall & Rossman, 2016).

A pesquisa bibliográfica foi realizada em fontes acadêmicas de acesso público e institucional, incluindo bases de dados como Scielo, Pepsi e BVS, além de bibliotecas digitais de universidades brasileiras e, com intuito de ampliar os resultados, também foi feita uma busca nas revistas Phenomenological Studies, IGT na Rede, Revista do Nufen, blogs e sites de eventos. As palavras-chave utilizadas nas buscas foram: “Gestaltterapia” “Gestalt-terapia na Amazônia”, “Grupos de estudos em Gestalt-terapia”, “Gestalt-terapia no Norte”

A busca focou em publicações relevantes entre os anos 2000 e 2024. A seleção do material seguiu as recomendações de Gil (2002), que destaca a importância de “definir claramente os critérios de seleção e organização do material a ser revisado” (p. 44) e a inclusão dessas fontes como blogs segue os princípios metodológicos da pesquisa qualitativa, que valorizam a diversidade de vozes e experiências, especialmente em áreas de estudo emergentes ou em contextos culturais e regionais específicos (Flick, 2013).

Resultados e Discussão

Os dados coletados foram analisados por meio de uma leitura crítica, na qual os textos foram organizados e categorizados tematicamente para identificar padrões e lacunas na literatura existente sobre a chegada da Gestalt-terapia na Amazônia. Neste recorte de pesquisa apresentamos os dados referentes a (tabela 1) os grupos de estudo em Gestalt-terapia e na (tabela 2) Núcleos de Pesquisas vinculados ao CNPq identificados no levantamento.

Tabela 2 Grupos de pesquisa no diretório do CNPq 

Ano Grupo/Nome Coordenação Local
2002 Núcleo de Pesquisas Fenomenológicas - Nufen Prof. Dra. Adelma Pimentel Belém/PA
2016 GEGT UFAC Grupo de estudos em Gestaltterapia Profa. Dra. Patrícia Yano. Rio Branco/AC
2022 NPGT - Núcleo de Pesquisas em Gestalt-terapia Profa. Dra. Kamilly Vale e Prof. Dra. Adelma Pimentel Belém/PA

Tabela1: Grupos de estudos da Abordagem Gestálticas.

Ano Grupo/Nome Coordenação Local
1987 Grupo Açaí Altair Dias. Belém/PA
1990 Grupo de estudos Gestalt-terapia Maria Oneide. Belém/PA
1995 Grupo de Estudos em Gestalt-terapia Elizabeth Carvalho, Edilza Lobato, Julia Barbalho, Graça Batista, Mário Saul, Marta Santos, Elizabeth Carvalho, João Maria do Amaral Torres, Menezes e Wanderléa Ferreira. Belém/PA
2012 GEGT-Belém (atualizado posteriormente para GEGT (RE)Existir) Profa. Dra. Kamilly Vale. Belém/PA
2013 GEEGT Grupo de estudos e experimentos em Gestalt-terapia, Profa. Dra. Patrícia Yano. Rio Branco/AC
2017 GEGT Florescer Profª. Keila Santos. Macapá/AP
2017 GEGT_rr Prof. Paulo Barros, Carla Fernanda e Rosimar Arakaki. Boa Vista/RO
2017 GEGT O Figura Viva Esp. Lilian Gusmão e Maria Helena. Ji-Paraná/RO
2019 CorpOralidades Pesquisas e Gestalt-terapia Profa. Dra. Lorena Schalken. Belém/PA
2020 Gegt Acolher Profa. Dra. Patrícia Yano. Rio Branco/AC
2024 GEGT Experimenta_ações de Cuidado Profa. Dra. Roberta Flores. Belém/PA
2024 Identidades GEGT Profa. Ms. Lia Silva Botega. Belém/PA
2024 Banzeiro - Grupo de Estudos Gestálticos Profa. Ms. Eloísa Barros. Santarém/PA

Os resultados indicam que a disseminação da Gestalt-terapia no Norte do Brasil começou no final da década de 80, inicialmente, em cidades maiores como Belém/PA. A prática foi trazida por profissionais formados em outras regiões do país, que migraram para o Norte e se dedicaram na introdução dessa abordagem na região. Gradualmente, a Gestalt-terapia se expandiu para cidades menores e áreas não pertencentes ao que se compreendia como os “grandes centros de referências”, até então situados no eixo sul/sudeste. A falta de oferta de cursos e formações continuadas, aliada às barreiras geográficas, são mencionadas como os desafios para os terapeutas na região. Contudo, os gestaltistas encontraram estratégias criativas para driblar essas limitações como formações de grupos de estudos, desenvolvimento de eventos presenciais, híbridos, cursos, palestras e conexões virtuais com profissionais em formação e com interesse na abordagem.

Gestalt-terapia Nortista: a história contada através dos grupos de Estudo em Gestalt-terapia

Com foco em experiências localizadas em cidades estratégicas esta subseção se dedica a resgatar historicamente a formação e atuação dos grupos de estudos gestálticos na região. Trata-se de um esforço de valorização das trajetórias locais que contribuíram para o desenvolvimento da abordagem na região.

O primeiro contato significativo da Gestalt-terapia com a região amazônica ocorreu a partir da atuação de profissionais pioneiros como João Maria do Amaral Torres. Menezes (2014). Formado em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1972, Torres participou de workshops e cursos realizados no Centro-Oeste, trazendo em sua bagagem a possibilidade de os psicólogos paraenses conhecerem, vivenciarem e praticarem a abordagem gestáltica, desenvolvendo cursos em Belém do Pará. Esse momento histórico aconteceu 24 anos após o lançamento do marco teórico da Gestalt-terapia, com o livro de Perls, Hefferline e Goodman, em 1951 (Pimentel, 2003). Sua iniciativa foi fundamental para a criação de espaços de estudo e prática gestáltica em instituições que desempenharam um papel essencial na difusão da GT na região.

A mobilização da Gestalt-terapia na região Norte do Brasil deve-se, em grande parte, à articulação de profissionais que estabeleceram grupos e institutos dedicados à essa expansão. Entre as iniciativas pioneiras, destaca-se o Grupo Açaí, ativo entre 1987 e 1990, no qual psicólogos de diversas áreas possibilitaram o contato e vivências com diversas abordagens, o que pôde proporcionar um espaço inicial para estudos e práticas em Gestalt-terapia. Posteriormente, em 1994, foi criado o Grupo de Estudos em Gestalt-terapia, ampliando as discussões e aprofundando o conhecimento na área. Em paralelo, em 1990/1991, de forma breve, um grupo foi formado pela Prof. Maria Oneide, com intuito de mobilizar estudos sobre GT.

No período de 1999 a 2002, um coletivo de Gestalt-terapeutas, incluindo João Maria do Amaral Torres,

Edilza Lobato, Júlia Barbalho, Graça Batista, Mário Saul, Marta Santos, Elizabeth Carvalho e Wanderléa Ferreira, fundou o Instituto Amazônico da Abordagem Gestáltica (IAAG). Essa instituição desempenhou um papel significativo na promoção do saber, além de promover eventos científicos que fortaleceram a comunidade gestáltica na região.

No que tange à expansão, em 2004, Cíntia Mara Lavratti fundou o Centro de Capacitação em Gestaltterapia (CCGT), ministrando cursos, workshops especializados e formação em Gestalt-terapia. Coordenado pela Profª Dra. Adelma Pimentel, desde 2005, o Núcleo de Pesquisas Fenomenológicas (NUFEN) da UFPA tem sido um importante espaço para pesquisas e debates relacionados, registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa (DGP/CNPq) investiga práticas clínicas e psicoterapêuticas sob enfoque fenomenológico, atua de forma interdisciplinar, articulando a Gestalt-terapia a pesquisas sobre processos virtuais de subjetivação; fundamentos para o uso de inteligência artificial na psicoterapia; manifestações da ansiedade não adaptativa na vivência de mulheres, integrou o GT 22 da ANPEPP e mantém parcerias acadêmicas nacionais e internacionais.

Em 2012, a Profª Dra. Kamilly Vale iniciou o Grupo de Estudos em Gestalt-terapia de Belém (GEGT-Belém), buscando aprofundar e atualizar a Gestalt-terapia na Universidade Federal do Pará (UFPA), a partir de estudos e desenvolvendo pesquisas na região amazônica paraense, evidenciando as relações entre a teoria gestáltica e o seu fazer prático nesse contexto. Posteriormente, o grupo evoluiu para o Núcleo de Pesquisa em Gestalt-terapia (NPGT) em 2022, pesquisando temáticas que incluem feminismos, interseccionalidades, maternidades, principalmente a saúde mental de mães-universitárias e grupos reflexivos existenciais fenomenológicos.

Ainda na capital paraense, a professora Dra. Lorena Schalken fundou em 2019 o grupo de pesquisas CorpOralidades na Universidade Federal do Pará (UFPA), desenvolvendo estudos que dialogam com a experimentação e debatem a relação corpo/corporeidade. Em 2024, a Profª Drª. Roberta Flores formou GEGT Experimenta_ações de Cuidado, que surgiu como um grupo de extensão e de estudos em GT na UNIFAMAZ, possibilitando um espaço de experimentações e diálogos. A professora Msc. Lia Botega construiu em 2024, também em Belém do Pará, na Faculdade Estácio Belém, o grupo de estudos Identidades GEGT, que busca o aprofundamento em diversas formas e compreensões no que diz respeito à atuação e pesquisa em Gestaltterapia. O grupo de estudos Banzeiro - Grupo de Estudos Gestálticos, originado em 2024, se deu a partir de inquietações produzidas acerca das necessidades acadêmicas e das possibilidades de acesso à formação na região do Baixo Amazonas/PA, tendo como intuito construir uma comunidade de Gestalt-terapeutas preocupados com uma ética nortista decolonial e sendo conduzido pela professora Msc. Eloísa Barros, pelo professor Paulo Pargas e pela professora Taynara Campos em Santarém/PA.

Essas iniciativas não apenas desenvolveram para a formação e capacitação de Gestalt-terapeutas, mas também ajudaram a inserir a Gestalt-terapia no debate acadêmico e profissional do Norte do Brasil, garantindo sua expansão e reconhecimento como uma abordagem relevante para a compreensão dos processos psicológicos na região amazônica.

Lima (2012) argumenta que esses grupos não apenas promovem a formação contínua dos participantes, mas também fortalecem a comunidade gestáltica, criando redes de apoio e colaboração. Além disso, eles desempenham um papel vital na atualização dos profissionais em relação às novas tendências e pesquisas na área, garantindo que a prática da Gestalt-terapia permaneça dinâmica e relevante, prática fundamental do processo.

A expansão da Gestalt-terapia na Amazônia revela um movimento de integração e adaptação, onde as particularidades são consideradas em cada contexto. A atuação de profissionais pioneiros e a criação de espaços colaborativos são fundamentais para a consolidação e desenvolvimento da abordagem, permitindo que ela cresça em meio a nossa alteridade. Esse processo não apenas amplia o alcance da Gestalt-terapia, mas destaca a importância de um diálogo constante entre teoria e prática, entre o global e o local, no desenvolvimento da psicologia gestáltica amazônica.

No Acre, a Gestalt-terapia encontrou espaço a partir do dia 10 de setembro de 2009, quando o primeiro grupo de estagiários dessa abordagem foi iniciado na Faculdade da Amazônia Ocidental (FAAO). Composto por 19 alunos da graduação, este grupo lançou as bases para o desenvolvimento da abordagem gestáltica no estado. Entre 2009 e 2016, a supervisão e orientação do estágio em Gestalt-terapia foram lideradas pela professora Drª Patrícia Yano, sendo os números de estagiários variáveis a cada ano. Em 2013, ex-alunos formados na abordagem passaram a atuar como orientadores, demonstrando a consolidação local da abordagem gestáltica.

O primeiro Grupo de Estudos e Experimentos em Gestalt-terapia (GEEGT) surgiu em 2011, criado por psicólogos recém-formados e coordenado pelo serviço de Psicologia da FAAO. Desde então, o grupo realiza atividades regulares e promove intercâmbios com profissionais de outros estados. Em 2016, a Universidade Federal do Acre (UFAC) iniciou seu próprio grupo de estudos, consolidando a abordagem no meio acadêmico. Em 2017, o estado sediou o VII Encontro Norte-Nordeste de Gestalt-terapia, um marco histórico para a Gestalt-terapia no Norte já que até então nunca havia acontecido um evento deste porte na área da psicologia no estado. Essas atividades reforçam a integração do Acre ao cenário gestáltico nacional e internacional.

Em Roraima, em 2017, o psicólogo Paulo Barros criou um grupo de estudos juntamente com outra colega de profissão, a psicóloga Carla Fernanda, e através destes encontros de grupo que conheceram Rosimar Arakaki, a partir daí fundaram o Instituto de Gestalt-terapia de Roraima (IGTRR) que desempenhou um papel fundamental na promoção e expansão da Gestalt-terapia no estado de Roraima, chegando a tornar-se referência Nacional com os cursos e formações oferecidos. Outro fato marcante na trajetória da Gestalt-terapia em Roraima foi sediar o IX Encontro NORTE-NORDESTE de Gestalt-terapia (IN)visibilidades (ENONEGT22), nas fronteiras, em 2022, contribuindo para a ampliação de olhares, diálogos e vivências aos Gestalt-terapeutas em Boa Vista e fortalecendo a comunidade Gestáltica local.

A chegada da GT no Amapá, foi marcada pela atuação de psicólogos que, após se formarem em outros estados, trouxeram consigo o interesse por essa abordagem. Destacam-se figuras como Nazir Rachid Filho, que começou a atuar em 1994 como psicólogo clínico e professor, e Cláudia Moura, que contribuiu como psicóloga clínica e docente em diversas instituições locais. Outros profissionais, como Ana Clébia Duarte, também desempenharam papeis significativos, sobretudo na supervisão acadêmica e na orientação clínica.

A expansão da abordagem na região foi impulsionada por iniciativas acadêmicas e eventos como a criação do Grupo de Estudos em Gestalt-terapia (GEGT-FloreSer), em 2017, coordenado por Keila Santos, e o 1º Simpósio de Gestalt-terapia do Amapá em 2018, com ampla participação e atividades marcantes, como a plantação de um “ipê gestáltico” simbolizando o enraizamento da abordagem no estado. Cursos de aprimoramento clínico e estudos colaborativos entre grupos locais e regionais, em parceria com GEGT- Belém, coordenado por Kamilly Vale, também consolidaram a prática, mesmo enfrentando desafios, como a ausência de especializações formais no estado. A continuidade desses esforços, adaptados para o ambiente virtual durante a pandemia, demonstra o compromisso com o desenvolvimento e a disseminação da Gestaltterapia em Macapá, fortalecendo sua relevância prática e acadêmica.

Em Rondônia, na cidade de Ji-Paraná, em 2017, as psicólogas Lilian Gusmão e Maria Helena criaram um Grupo de Estudos em Gestalt-terapia, o Figura-Viva, na Faculdade Panamericana de Ji-Paraná (Unijipa). Através do grupo desenvolveram possibilidades de acesso a grupos de estudos e a criação de um curso de especialização ofertado pela referida universidade. No ano de 2022, Lilian Gusmão e a Sônia Nóbrega fundaram o Instituto de Gestalt Figura-Viva com formações, cursos e workshops, sendo referência nesta região ao acesso e expansão da GT e reconhecido nacionalmente. Em dezembro de 2023, Lilian tornou-se a única responsável pela coordenação dele.

A pós-graduação

No cenário acadêmico, a consolidação da abordagem contribuiu para ampliar o diálogo entre a prática e teoria especialmente por meio da inserção da fenomenologia e da Gestalt-terapia em programas Strictu sensu de pós-graduação. Na universidade Federal do Pará (UFPA) a partir da criação da linha de Pesquisa: Fenomenologia, Teoria e Clínica, que desde 2005 orienta dissertações e teses com enfoque e compreensão Gestálticas.

Sobre este aspecto Pimentel debate criticamente a importância destes espaços para a consolidação da Gestalt-terapia nortista no cenário da Pesquisa Nacional e internacional: “Em 2005, o Programa de Pós-graduação em Psicologia em mestrado e doutorado foi instituído na região norte, colaborando para a circulação do saber; assim, como na Região Nordeste, temos vários pesquisadores e pesquisadoras igualmente contribuindo para a resistência científica aos limites geográficos de uma visão circunscrita a regiões que mantém a hegemonia saber-poder viva.” (Pimentel, 2025, p. 16).

Produções que integram esses elementos destacam-se pela capacidade de construir conhecimento através de pesquisas e práticas psicoterapêuticas mais sensíveis às realidades amazônicas. Elas não apenas promovem um cuidado psicológico adaptado às especificidades da região, mas também contribuem para o fortalecimento da identidade cultural e a preservação das tradições locais.

Um Olhar Gestáltico para o Futuro

A trajetória da inserção e desenvolvimento da Gestalt-terapia no Norte é, antes de tudo, um ato de resistência. Resistência aos padrões que nos moldam, aos sistemas que nos silenciam e às violências que nos atravessam. Nossos corpos históricos, políticos e simbólicos carregam marcas profundas dessas opressões. Como mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ e tantas outras identidades marginalizadas, enfrentamos diariamente a exclusão, a discriminação e o apagamento de nossas histórias. Estar nesse campo é insistir em existir plenamente, apesar de tudo.

Nesse contexto, estudos que conectam a Gestalt-terapia e a Amazônia não apenas revelam os desafios e potencialidades desse diálogo, mas também iluminam caminhos para uma psicologia inclusiva e comprometida com nossa alteridade, já que sendo a Gestalt-terapia ético-política, nela encontramos um espaço onde resistimos de outras formas: questionando práticas tradicionais que ignoram essas complexidades e desafiando abordagens normativas que desconsideram as vivências amazônidas. Resistimos ao oferecer uma presença terapêutica que acolhe, valida e cocria, buscando construir caminhos que respeitem a totalidade da pessoa e suas intersecções.

A Gestalt-terapia, com sua ênfase no “aqui e agora” e na experiência vivida, encontra ressonância nas cosmovisões de comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas, que valorizam a vivência imediata, a harmonia com a natureza e a transmissão ancestral do saber. Ao reconhecer o indivíduo em constante interação com o todo, a prática gestáltica no contexto amazônico não apenas fortalece a autoconsciência, mas também confirma o pertencimento cultural e a continuidade das tradições.

Por fim, a prática da Gestalt-terapia na Amazônia vem sendo desenvolvida há bastante tempo no âmbito acadêmico contribuindo com as redes colaborativas entre pesquisadores de diferentes regiões do Brasil e, internacionalmente. Acreditamos que incentivar profissionais e estudantes da região a publicar suas experiências e pesquisas proporciona a construção de conhecimentos e a consolidação de um corpo teórico que reflete nossas realidades e serve de referência para futuros estudos na área.

Referências

Alvim, M. B., Boris, G. D. J. B., Melo, A. D. S. & Pimentel, A. S. (2018). Gestalt-terapia. Psicologia Clínica: da Graduação à Pós-graduação. [ Links ]

Andrade, C. C. (Org.). (2025). Pioneiros da Gestalt-terapia no Brasil: histórias e memórias. Summus Editorial. [ Links ]

Arendt, H. (2007). A condição humana (10a ed.). Forense Universitária. [ Links ]

Belmino, M. C. (2021). Revisitando Paul Goodman: Desdobramentos Políticos da Gestalt-terapia.Links ]

Belmino, M. C. de B. (2020). Gestalt-terapia e experiência de campo: dos fundamentos à prática clínica. Paco Editorial. [ Links ]

Bispo, N. (2019) Colonização, Quilombos: modos e significações. Editora Nós. [ Links ]

Boccardi, D. (2021). Gestalt-terapia e sociedade: uma perspectiva crítica da clínica contemporânea. Summus Editorial. [ Links ]

Boccardi, D. & Fernandes, P. (2021). A ética da relação e o compromisso social da clínica gestáltica. Revista Gestalt, 24(1), 35-50. [ Links ]

Buber, M. (1987). Sobre comunidade. Editora Perspectiva. Coleção Debates, v. 203. [ Links ]

Branco, P. C. C., & Carpes, C. O. (2017). Produção gestáltica nas bases de dados SciELO e PePSIC: Revisão sistemática. Revista IGT na Rede, 14(26), 72-86. [ Links ]

Brasil. (1980). Decreto nº 84.858, de 1º de julho de 1980. Autoriza o funcionamento do curso de Psicologia da Sociedade Civil Colégio Moderno, no Estado do Pará. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/Antigos/D84858.htmLinks ]

Campos, G. (2007). Entrevista: histórias da psicologia no Ceará. Psicologia em Estudo, 12(2), 433-437. [ Links ]

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. (n.d.). Diretório de Grupos de Pesquisa no Brasil. CNPq. https://dgp.cnpq.br/dgp/Links ]

Ferreira, W. N. B. Carta-convite do VI Encontro Norte-Nordeste de Gestalt-terapia, Belém do Pará. Recuperado em 25 de setembro de 2014, de: http://www.viencontronortenordestegt.com.br/p/apresentacao.html. [ Links ]

Frazão, L. A. & Cury, E. P. (2012) Gestalt-terapia no Brasil: História e perspectivas. Summus Editorial. [ Links ]

Gil, A. C. (2019) Como elaborar projetos de pesquisa. (6a ed.). Atlas. [ Links ]

Holanda, A. F. (2009). Gestalt-terapia e Abordagem Gestáltica no Brasil: Análise de Mestrados e Doutorados (1982-2008). [ Links ]

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2022). Amazônia Legal. https://www.ibge.gov.br/geociencias/organizacao-do-territorio/estrutura-territorial/15819-amazonia-legal.htmlLinks ]

Juliano, J. C. (2007). Gestalt-terapia: Revisitando as Nossas Histórias. [ Links ]

Lakatos, E. M. & Marconi, M. A. (2003). Fundamentos de metodologia científica. (5a ed.). Atlas. [ Links ]

Leite, A. P. M. (2016). Revisão Integrativa da Produção Científica Gestáltica no Brasil entre 2004 e 2014. [ Links ]

Lima, P. V. de A. (2012). A Gestalt Terapia contemporânea e sua inserção no ambiente acadêmico. In A. Pimentel, & J. Santos (Org.). GESTALTENS: Pesquisas em Educação, Saúde e Violências (22a ed, pp. 35-50). Amazônia Edições. [ Links ]

Marshall, C. & Rossman, G. B. (2016). Designing qualitative research (6th ed.). SAGE Publications. [ Links ]

Menezes, S. M. M. de. (2014). De Fritz Perls ao VI Encontro Norte-Nordeste de Gestalt-terapia em Belém do Pará. [ Links ]

Ministério da Educação. (2025). Cadastro Nacional de Cursos e Instituições de Educação Superior - e-MEC. http://emec.mec.gov.br/Links ]

Mione, M., Spagnuolo Lobb, M., Francesetti, G. (2010) A assimilação da abordagem gestáltica: entre identidade e pertencimento. Em Spagnuolo Lobb, M., Mione, M., & FRANCESETTI, G. (Orgs.). Gestalt-terapia: a arte do contato (pp. 23-40). Summus Editorial. [ Links ]

Nascimento, L. C. S. (2019). Gestalt-terapeutas do Brasil: Formação e Identidade. [ Links ]

Nunes, G. (2021). Saberes-fazeres decoloniais: Perspectivas para a educação e a psicologia. Editora Fi. [ Links ]

Nunes, G. (2021). Corpos que falam línguas outras: por uma psicologia decolonial. In G. Nunes & A. Bispo (Eds.), Pensamento contracolonial: epistemologias insurgentes do Sul (pp. 25-38). Editora Consequência. [ Links ]

Pimentel, A. (2025). Evidências do pensamento decolonial na literatura científica gestáltica brasileira. Revista Cocar, 34, 1-20. [ Links ]

Pimentel, A. (2003). Psicodiagnóstico em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus Editorial. [ Links ]

Prestrelo, E. T. (2001). A história da Gestalt-Terapia no Brasil: “peles-vermelhas” ou “caras pálidas”? In H. de B. C. Rodrigues, A. M. Jacó-Vilela, & A. C. Cerezzo (Orgs.), Clio-Psyché hoje: fazeres e dizeres psi na história do Brasil (1º ed, Vol. 1, pp. 87-94). Relume Dumará. [ Links ]

Santos, A. B. (2021). A terra dá, a terra quer (p. 37). Editora Nós. [ Links ]

Santos, B. de S. (2010). Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Em B. de S. Santos & M. P. Meneses (Orgs.), Epistemologias do Sul (pp. 31-83). Cortez Editora. [ Links ]

Severino, A. J. (2007). Metodologia do trabalho científico. (23a ed.) Cortez Editora. [ Links ]

Spagnuolo Lobb, M., & Lins, C. (2023). Do agora para o que está por vir na psicoterapia: A Gestalt-terapia recontada na contemporaneidade (1ª ed.). Artesã Editora. [ Links ]

Suassuna, D. (2008). História da Gestalt-terapia no Brasil contada por seus primeiros autores: um estudo historiográfico no eixo São Paulo-Brasília. [Dissertação de Mestrado em Psicologia]. Universidade Católica de Goiás. [ Links ]

Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Disponível em: https://www.unir.br. [ Links ]

Universidade Federal do Pará (UFPA). (2023). Curso de Psicologia. Disponível em: https://www.ufpa.br. [ Links ]

Universidade Federal de Roraima (UFRR). Disponível em: https://www.ufrr.br. [ Links ]

Recebido: 02 de Junho de 2025; Aceito: 30 de Julho de 2025

Endereço para correspondência:Wellen Karen Lobo Pinheiro • E-mail: psiwellenkaren@gmail.com

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.