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Analytica: Revista de Psicanálise

versão On-line ISSN 2316-5197

Analytica vol.13 no.25 São João del Rei  2024  Epub 23-Maio-2025

https://doi.org/10.69751/arp.v13i25.5463 

ARTIGO

Os contos de fadas como recurso simbólico infantil: uma perspectiva psicanalítica

Children’s narratives as a symbolic resource: a psychoanalytical perspective

Les contes de fées comme ressource symbolique pour les enfants: une perspective psychanalytique

Las narrativas infantiles como recurso simbólico: una perspectiva psicoanalítica

Beatriz Leão de Carvalho1 

1

Pós-graduanda em Psicopatologia, Psicanálise e Clínica Contemporânea pelo Instituto de Ensino Superior em Psicologia e Educação (Espe). Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Metropolitano da Amazônia – Unifamaz (Belém, Pará, Brasil). Instagram: @psicanalisenaliteratura.


http://orcid.org/0000-0002-3787-5084

Josué Henrique Rodrigues Machado1 

2

Pós-graduado em Psicanálise e Clínica Contemporânea: sujeito, sofrimento e intervenções pelo Instituto de Pós-Graduação e Graduação (Ipog). Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (Unifamaz, Belém, Pará, Brasil).


http://orcid.org/0000-0003-0277-1709

Luan Sampaio Silva2 

3

Psicólogo. Psicanalista. Filiado à International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS). Doutor e mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Pará – UFPA (Belém, Pará, Amazônia, Brasil). Instagram: @psiluansampaio.


http://orcid.org/0000-0001-7189-7888

Silvia Dora de Souza Cerveira da Silva1 

4

Pós-graduanda em Psicanálise e Clínica Contemporânea: sujeito, sofrimento e intervenções pelo Instituto de Pós-Graduação e Graduação (Ipog). Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Metropolitano da Amazônia – Unifamaz (Belém, Pará, Brasil).


http://orcid.org/0009-0000-1837-8931

1Universitário Metropolitano da Amazônia – Unifamaz (Belém, Pará, Brasil)

2Universidade Federal do Pará – UFPA (Belém, Pará, Amazônia, Brasil)


Resumo

Este artigo consiste em uma revisão integrativa de literatura, de caráter qualitativo exploratório que objetiva compreender, sob a perspectiva psicanalítica, como os contos de fadas podem ser uma ferramenta terapêutica para o desenvolvimento emocional da criança. Os conteúdos são organizados em introdução, metodologia, resultados e discussão, que traz os artigos reunidos e a discussão teórica deles, primeiro abordando a concepção da infância e o surgimento dos contos de fadas por meio da história, seguido pela caracterização do psiquismo infantil na perspectiva psicanalítica e, então, aplicação dos contos de fadas no contexto clínico. Por fim, as considerações finais apontam os principais achados e considerações. Para a produção da pesquisa, utilizaram-se as recomendações PRISMA e artigos levantados nas bases SciELO e BVS, sendo o conteúdo dos artigos incluídos avaliado segundo os objetivos específicos da pesquisa. Nos resultados, observa-se uma relação histórica do surgimento dos contos de fadas como estilo literário e a concepção de infância ao longo dos tempos, a presença de fenômenos psíquicos de simbolização, continência e elaboração pela identificação, ou apenas contato, mediado por um narrador, com os contos de fadas. Ademais, que o uso das narrativas em contexto clínico com crianças possibilita a elaboração de conflitivas emocionais, principalmente relativas ao abandono. Conclui-se que os contos de fadas se mostraram efetivos como recurso para o desenvolvimento emocional das crianças, por serem uma via de simbolização das emoções, descontração de angústias e o fantasiar de sua própria versão das estórias.

Palavras-chave: Psicanálise; Infância; Contos de fadas; Clínica psicanalítica; Desenvolvimento emocional

Abstract

This article consists of an integrative literature review of an exploratory qualitative nature that aims to understand, from a psychoanalytic perspective, how fairy tales can be a therapeutic tool for children’s emotional development. The contents are organized into an introduction, methodology, results and discussion, which brings together the articles and their theoretical discussion, first addressing the conception of childhood and the emergence of fairy tales through history, followed by the characterization of the child psyche from a psychoanalytic perspective and then the application of fairy tales in the clinical context, finally, the conclusion points out the main findings and final considerations. For the production of the research, the PRISMA recommendations were used, and articles were collected from the SciELO and BVS databases, the content of the articles included was evaluated according to the specific objectives of the research. The results show a historical relationship between the emergence of fairy tales as a literary style and the concept of childhood throughout the ages, the presence of psychic phenomena of symbolization, continence and elaboration through identification, or just contact, mediated by a narrator, with fairy tales. Furthermore, the use of narratives in a clinical context with children makes it possible to work through emotional conflicts, especially those related to abandonment. The conclusion is that fairy tales have proved effective as a resource for children’s emotional development, as they are a way of symbolizing emotions, relieving anguish and fantasizing their own version of the stories.

Keywords: Psychoanalysis; Childhood; Fairy tales; Psychoanalytic clinic; Emotional development

Résumé

Cet article consiste en une revue de littérature intégrative de nature qualitative exploratoire qui vise à comprendre, d’un point de vue psychanalytique, comment les contes de fées peuvent être un outil thérapeutique pour le développement émotionnel des enfants. Le contenu est organisé en une introduction, une méthodologie, des résultats et une discussion, qui rassemble les articles et leur discussion théorique, abordant d’abord la conception de l’enfance et l’émergence des contes de fées à travers l’histoire, suivie par la caractérisation de la psyché de l’enfant d’une perspective psychanalytique et ensuite l’application des contes de fées dans le contexte clinique, et enfin, la conclusion indique les principaux résultats et les considérations finales. La recherche a été effectuée selon les recommandations PRISMA et les articles extraits des bases de données SciELO et BVS. Le contenu des articles inclus a été évalué en fonction des objectifs spécifiques de la recherche. Les résultats montrent une relation historique entre l’émergence des contes de fées en tant que style littéraire et la conception de l’enfance à travers les âges, la présence de phénomènes psychiques de symbolisation, de continence et d’élaboration par l’identification, ou simplement le contact, médiatisé par un narrateur, avec les contes de fées. De plus, l’utilisation des récits dans un contexte clinique avec les enfants permet de travailler sur les conflits émotionnels, notamment ceux liés à l’abandon. En conclusion, les contes de fées s’avèrent être une ressource efficace pour le développement émotionnel des enfants, car ils permettent de symboliser les émotions, de soulager les angoisses et de fantasmer leur propre version des histoires.

Mots-clés: Psychanalyse; Enfance; Contes de fées; Clinique psychanalytique; Développement affectif

Resumen

Este artículo consiste en una revisión bibliográfica integradora de carácter cualitativo exploratorio que pretende comprender, desde una perspectiva psicoanalítica, cómo los cuentos de hadas pueden ser una herramienta terapéutica para el desarrollo emocional infantil. El contenido se organiza en introducción, metodología, resultados y discusión, que reúne los artículos y su discusión teórica, abordando primero la concepción de infancia y el surgimiento de los cuentos de hadas a través de la historia, seguido de la caracterización del psiquismo infantil desde una perspectiva psicoanalítica y luego la aplicación de los cuentos de hadas en el contexto clínico, y finalmente, la conclusión señala los principales hallazgos y consideraciones finales. La investigación fue realizada siguiendo las recomendaciones PRISMA y los artículos recuperados de las bases de datos SciELO y BVS. El contenido de los artículos incluidos fue evaluado de acuerdo con los objetivos específicos de la investigación. Los resultados muestran una relación histórica entre el surgimiento de los cuentos de hadas como estilo literario y la concepción de la infancia a lo largo de los tiempos, la presencia de fenómenos psíquicos de simbolización, continencia y elaboración a través de la identificación, o apenas el contacto, mediado por un narrador, con los cuentos de hadas. Además, el uso de narraciones en un contexto clínico con niños permite trabajar conflictos emocionales, especialmente los relacionados con el abandono. La conclusión es que los cuentos de hadas han demostrado su eficacia como recurso para el desarrollo emocional de los niños, ya que son una forma de simbolizar emociones, aliviar angustias y fantasear su propia versión de las historias.

Palabras clave: Psicoanálisis; Infancia; Cuentos de hadas; Clínica psicoanalítica; Desarrollo emocional

Introdução

Freud (1923/2011) relatou que o método catártico, sumamente definido como uma cura pela fala, é um dos pontos mais importantes para a consolidação da Psicanálise, sendo parte do seu cerne teórico, visto que o recanto no qual o analista exerce seu ofício é o da linguagem, a qual é palco tanto das angústias do sujeito quanto de suas possibilidades de elaboração5 e cura. Portanto a literatura também se insere como um campo possível para o entendimento e a representação6 do psiquismo, mesmo o infantil (Gutfreind, 2020).

Contrariando o senso comum, a concepção de infância nem sempre esteve presente nas sociedades, sendo na verdade uma construção social consolidada entre os séculos XIX e XX. Antes disso, não havia nenhum resguardo ou distinção entre crianças e adultos, nenhum sentimento de infância que marcasse a relação entre os pequenos e seus progenitores – há registros que mostram pouco apego na criação e cuidado, que por vezes ficava sob encargo das amas de leite. Tal sentimento em torno do infantil refletia nas narrativas orais populares, que não eram direcionadas às crianças e traziam uma crueza e violência que mais pareciam servir de catarse ao descrever os perigos e medos universais do mundo real, não comportando nenhuma simbolização ou riqueza narrativa (Ariès, 1981; Corso & Corso, 2006).

Com o advento dos ideais iluministas e da Revolução Industrial, no século XVIII, as estruturas feudais e absolutistas foram abolidas, acarretando no surgimento de novas formas de compreender a sociedade, pautando-se na razão, na ciência e concretizando um novo ideal de ser humano, com o viés de liberdade e individualismo ao homem. Diante disso, as crianças também passaram a ser concebidas como sujeitos individuais e detentores de proteções, corroborando para que a singularidade infantil fosse reconhecida e apartada da vida adulta. Por isso, histórias tradicionais foram transformadas em contos de fadas infantis, como uma diligência de produzir um mundo próprio às crianças, para que a realidade vigente fosse compreendida por elas de maneira mais abrigada e segura, havendo suas subjetividades amparadas e consolidadas (Corso & Corso, 2006; Santos & Weinstein, 2019).

Considerando a subjetividade infantil, pontua-se sua relação com os contos de fadas, além da maneira que a criança assimila e compreende as narrativas ou histórias com as quais se depara, fazendo representações e ilustrações, delineando em seu imaginário recursos conscientes e inconscientes que refletem como ela percebe na sua realidade psíquica o que é indicado em seu mundo externo, possibilitando a criação de sua identidade e estimulando a imaginação e a fantasia7. Outrossim, a fantasia apresenta seus motores, como o medo, que deriva do mistério que os contos de fadas proporcionam, viabilizando que a criança sinta curiosidade e inquietação diante das partes assustadoras nas histórias para, assim, aprender a enfrentar seu temor (Caetano, 2022; Corso & Corso, 2006).

Ademais, outro ponto que aproxima o psiquismo infantil da organização dos contos de fadas é o aspecto maniqueísta de ambos, visto que a criança lida com diversos sentimentos ambivalentes que são responsáveis por uma considerável parcela de seus conflitos primordiais, que surgem inevitavelmente a partir do início de seu relacionamento com o mundo, já que os mesmos objetos que a aprazem, em algum momento, irão lhe desagradar, gerando uma ambiguidade afetiva, e consequente angústia, devido à incompreensão de sentimentos contrários entre si com um mesmo direcionamento, fruto da não integração dos sujeitos ao seu redor e do seu Eu8, que não são totais a partir de uma mentalidade infantil (Bettelheim, 1976/2015; Ogden, 2017; Gutfreind, 2020).

Os contos de fadas partem do mesmo raciocínio, abordando posturas contrárias na narrativa, levando em consideração ambas para o desenrolar da trama, tornando possível que a criança visualize uma representação de seus conflitos intrapsíquicos que são solucionados no conto, permitindo, se não uma elaboração, um alívio de sua angústia, sendo uma das motivações para a criança almejar a repetição do contar de determinada história com a qual tenha se identificado, pois é uma ferramenta que lhe assegura a possibilidade de resolver seus conflitos de forma funcional (Bettelheim, 1976/2015; Ogden, 2017; Gutfreind, 2020).

Logo, considerando o caráter representativo que os contos podem adquirir para os conflitos psíquicos infantis, eles podem também ser utilizados no contexto clínico, sendo uma das bases para o seu uso a identificação9, a qual permite que a criança se visualize na história e, portanto, consiga simbolizar uma possível solução para seu conflito a partir da sua representação no conto de fadas, sendo uma ferramenta geralmente utilizada para crianças com uma vida fantasmática10 empobrecida devido ao convívio conturbado, ou cessado, com as figuras paternas e maternas (Gutfreind, 2020; Corso & Corso, 2006).

Outro aspecto basilar da utilização do conto no contexto clínico é o próprio narrar, para além da interpretação psicanalítica, a verbalização de uma narrativa já se mostra terapêutica, pois estimula a linguagem, a inteligência e o pensamento da criança, sendo permeado pelo caráter de continência11, que oportuniza organizar os arcaísmos infantis, dando-lhes sentido. Ademais, como já mencionado, as narrativas são moldáveis à necessidade particular de cada criança, sendo essa uma qualidade enriquecedora no tratamento. Diz-se então que na clínica os contos têm uma função mediadora para o trabalho terapêutico, apresentando a dimensão simbólica e fantasiosa como facilitadores dos processos de simbolização12, verbalização e abstração por colocarem uma distância segura entre a criança e o conteúdo de suas angústias (Gutfreind, 2020).

Partindo do exposto, justifica-se a temática relevante pelo fato de os contos de fadas evocarem na criança maneiras identitárias de conduzir seu funcionamento psíquico, bem como auxiliar no seu processo de simbolização e na criatividade. Assim, demonstra-se a importância que o fantasiar pode ter, mesmo sendo visto de maneira corriqueira e banal, podendo integrar variadas modalidades terapêuticas na Psicologia, especialmente na Psicanálise, abordagem aqui escolhida por ter teoria e prática clínicas que englobam referenciais maciços que, por sua vez, se encarregam da compreensão de como os contos de fadas implicam na vida da criança, além de haver uma proximidade entre as estruturas do trabalho analítico e os contos (Bettelheim, 1976/2015; Corso & Corso, 2006; Gutfreind, 2020).

Assim, para compreender e se aprofundar na temática apresentada, parte-se da pergunta de pesquisa: como a Psicanálise compreende os contos de fadas como possível ferramenta para o desenvolvimento emocional infantil? Buscando responder a tal questão, define-se o objetivo geral de compreender, sob a perspectiva psicanalítica, como os contos de fadas podem ser uma ferramenta terapêutica para o desenvolvimento emocional da criança, de modo que os objetivos específicos consistem em relacionar a concepção do infantil e a origem dos contos de fadas; averiguar a possibilidade do uso de contos de fadas como instrumento da clínica psicanalítica com crianças; e investigar os mecanismos psíquicos que se apresentam nos contos de fadas.

Metodologia

Foi realizada uma Revisão Integrativa de Literatura (RIL), de caráter qualitativo exploratório, que consiste, segundo Souza, Silva e Carvalho (2010), em um apanhado de literaturas teóricas ou empíricas existente acerca de uma determinada temática, com o objetivo de analisar, identificar e sintetizar os achados para sua compreensão de forma ampla. Para a elaboração da RIL são seguidos seis passos: elaboração da pergunta norteadora, busca ou amostragem na Literatura, coleta de dados, análise crítica dos estudos incluídos, discussão dos resultados e apresentação da revisão integrativa.

Tal modalidade de pesquisa foi usada devido ao seu caráter abrangente, da visão ampla e integrada dos conhecimentos já disponíveis acerca de um tema, possibilitando a análise crítica das convergências, divergências e possíveis lacunas entre os achados, contemplando, por conseguinte, os objetivos definidos e auxiliando na resposta da pergunta-problema: como a Psicanálise compreende os contos de fadas como possível ferramenta para o universo infantil?

Bases de dados e descritores utilizados

Para a coleta de dados e busca dos artigos, combinaram-se os seguintes descritores, na língua portuguesa: “infância”; “Psicanálise” e “contos de fadas”, utilizando-se as bases de dados SciELO e BVS.

Critérios de inclusão e exclusão

A pesquisa incluiu artigos de língua portuguesa que abordam os contos de fadas e sua relação com a infância na perspectiva da Psicanálise, que discorrem sobre a origem dos contos de fadas, que falem da concepção de infância ao longo da história, além de obras presentes nas bases de dados selecionadas para a pesquisa, publicados entre 2017 e 2022, período que visou compreender o panorama mais recente de conhecimentos acerca da temática.

Foram excluídos artigos em língua estrangeira, outras publicações (cartas, teses, dissertações, monografias, resenhas, livros e capítulos, notícias, editoriais, obituário e pesquisas quantitativas), artigos publicados antes dos últimos cinco anos, artigos incompletos, artigos pagos, artigos que não comtemplam os objetivos específicos e pesquisas que não constaram nas bases de dados selecionadas.

Procedimento

O levantamento de artigos foi feito em agosto de 2022, de forma independente, por três pesquisadores, um ficou responsável pela busca na base SciELO e os outros dois na base BVS, sendo utilizadas combinações binárias dos descritores Psicanálise e infância; Psicanálise e “contos de fadas”; “contos de fadas” e infância.

Posteriormente, cada pesquisador fez a leitura do título e resumo dos resultados encontrados, excluindo aqueles que não atenderam aos critérios e objetivos estabelecidos. Depois dessa primeira filtragem, os resultados foram reunidos e verificados para descarte dos artigos repetidos. Seguidamente, fez-se a leitura na íntegra das produções mantidas e aplicaram-se novamente os critérios de inclusão e exclusão nessa remessa. Os artigos resultantes desse segundo processo de leitura foram recolhidos, analisados e fichados – o fichamento consistiu no grifo dos trechos textuais que compreendem e guardem relação com a temática e os objetivos desta RIL.

Análise de dados

A proposta consistiu no exame dos artigos, considerando o título, resumo, ano de publicação, objetivos, metodologia utilizada, introdução, resultados e discussão, bem como a verificação da presença de dados que contemplem os objetivos específicos e os critérios de inclusão e exclusão. Para fornecer um direcionamento à análise de dados, utilizaram-se as recomendações do sistema PRISMA, um checklist de 27 itens que acompanha o uso de fluxograma para ilustrar o processo de seleção dos dados obtidos, houve adaptações devido à natureza da pesquisa, que é qualitativa e exploratória (Costa & Lima, 2023; Costa, Cavalcante, & Reis, 2018; Page et al., 2021).

Em seguida, foram reunidos em tabela: o título, ano de publicação, autores e objetivos dos artigos, e o corpus do fichamento organizado no programa Word. Esses resultados serviram de base para a discussão, dividida entre as seguintes categorias temáticas: o conceito de infância e sua relação com os contos de fadas; o psiquismo da criança e os contos de fadas; a utilização dos contos de fadas na clínica psicanalítica com crianças. Destaca-se que os dados foram agrupados nessas categorias na tentativa de melhor responder à pergunta-problema.

Resultados e discussão

A partir da pesquisa realizada, foram encontrados 36 artigos na base de dados SciELO e 984 na BVS submetidos aos processos de filtragem, detalhados no tópico anterior. No final, houve a inclusão de sete artigos no total – o processo completo de seleção dos artigos é detalhado na Figura 1.

Fonte: Elaborada pelos autores.

Figura 1. Fluxograma de seleção de artigos para revisão integrativa de literatura 

Mediante os dados obtidos, algumas ponderações poderão ser feitas a partir do agrupamento no Quadro 1, elaborado para organizar e delinear as informações obtidas dos artigos utilizados nesta pesquisa.

Quadro 1. Artigos incluídos na pesquisa 

Ano Título Autores Objetivo
2017 Contos de fada da memória em Baú de Ossos , de Pedro Nava Gabriel, M. A. R. A partir da discussão envolvendo alusão aos contos de fadas na obra de Pedro Nava, abordar a relação da narrativa lúdica com tramas familiares e eventos marcantes para o sujeito.
2017 Da fantasia à realidade: os contos de fadas no contexto escolar Gomes, L. S., & Silva, C. G. Investigar qual o valor atribuído aos contos de fadas por professores da educação infantil e como os contos podem influenciar subjetivamente na infância.
2017 Os contos de fadas como método de projeções dos conflitos latentes em uma criança institucionalizada Kayser, T. D., & Lopez, V. B. Explorar a ocorrência de projeções de conflitos psíquicos da criança institucionalizada por intermédio dos contos de fadas.
2017 O pequeno príncipe e o pequeno executivo: considerações sobre a infância contemporânea Machado, A. P. A partir de uma revisão crítica da literatura, o artigo propõe uma reflexão sobre a vivência da infância na atualidade. Para tal, recorreu aos aportes da história e da Psicanálise, elegendo como disparador o filme O pequeno príncipe.
2018 Psicanálise com crianças: sobre identificações e escolhas de objetos transicionais durante a sessão analítica Cappellari, A., & Garcia, E. L. Discutir aspectos da psicoterapia infantil, suscitados por inquietações emergidas na prática de Estágio Integrado em Psicologia, usando reflexões acerca da invenção da infância e da inauguração do trabalho terapêutico com crianças por meio da Psicanálise.
2019 Mito e alteridade infantil Ottavi, D. Explorar a função pedagógica dos contos de fadas para além de seus aspectos cognitivos e maturacionais infantis. Resgata Wittgenstein e o conceito de “inquietante estranheza” de Freud, demonstrando a função do medo na infância.
2020 A Psicanálise e as transformações na concepção da infância nas crônicas e colunas de Clarice Lispector Josiowicz, A. Expor as transformações dos modos de conceber o infantil perpassados pela popularização da Psicanálise, realizando articulações literárias com a escritora Clarice Lispector.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Os sete artigos incluídos passaram pelo processo de fichamento, descrito em detalhes na metodologia, que auxiliou no enfoque de trechos relacionados à temática em questão, a seguir têm-se a discussão dessas produções.

O conceito de infância e sua relação com os contos de fadas

De acordo com Ariès (1981), a infância é uma construção social que se instaurou devido ao crescimento do individualismo e de maneira paralela à organização da família nuclear e à filiação afetiva entre seus membros. Considera-se que num período anterior aos desenvolvimentos históricos posteriormente apontados, havia pouca diferenciação sociocultural da criança em relação ao adulto. Ou seja, não havia resguardo nenhum com os mais novos, vistos como adultos em miniatura, tendo responsabilidades consideráveis, como trabalhar, cuidar de si e dos irmãos, portar-se com polidez e etiqueta. A prole, na verdade, era vista como posse, rotulada pelo nome familiar, disposta como mais um objeto que se distinguia apenas por certo apreço e “mimo”, comparável a um ser de estimação, o que denota baixa ligação emocional, atrelada ao cuidado, com a imagem da criança, considerando que a taxa de mortalidade e infanticídio eram bem altas antes do século XVIII.

Por isso, a relação existente com a infância atualmente foi desenvolvida gradualmente na história, sendo certos relances de cuidados da sociedade direcionados às crianças demonstrados a partir do fim da Idade Média. Contudo foi algo paulatinamente instaurado nas mais variadas culturas e classes sociais, demorando um tempo mais extenso para alcançar populações com menos acesso à renda e às escolas que foram criadas no fim do século XVII, visando à preparação das crianças para o ingresso na sociedade, abordando conteúdos pautados por um ponto de vista católico-cristão. Fato considerado um importante marco para a construção do ideal de infância, visto que as crianças passaram a ter um espaço direcionado a elas (Ariès, 1981).

Ademais, outros pontos centrais para a construção da infância foram a Revolução Industrial, a ascensão do modelo de produção capitalista e do Iluminismo no século XVIII, que influenciaram para a divisão entre o mundo adulto e infantil. Com isso, tornou-se necessária a especialização da mão de obra, ampliando os conteúdos e o uso das instituições escolares (Ariès, 1981).

Paralelamente à criação da infância, houve também transformações nos contos de fadas, que, de acordo com Gomes e Silva (2019), Kayser e Lopez (2017), foram modificados de acordo com a construção do infantil, considerando que antes eram direcionados ao público adulto, havendo uma relação mais direta entre a realidade e as mazelas do cotidiano, geralmente tendo uma ligação com o horror e a violência; isto é, havia pouca relação com a estrutura dos contos que atualmente é consolidada.

Outrossim, a palavra conto advém do latim e remete à narração e ficção, haja vista que os contos de fadas destoam em certos pontos da realidade, mantendo uma relação com a fantasia e símbolos13. Inicialmente, eram transmitidos oralmente, sendo um ponto que contribuiu para a socialização e o vínculo (Gomes & Silva, 2019; Kayser & Lopez, 2017; Gabriel, 2017).

A relação entre os contos de fadas e as crianças precede a destas com as escolas, pois a origem dos contos remete ainda à antiguidade. Entretanto, como dito anteriormente, somente a partir da construção da infância e do surgimento das escolas os contos foram adaptados para o público infantil e passaram a ter a roupagem mais característica, relacionando-se, atualmente, a esse público (Ariès, 1981).

A adaptação supracitada ocorreu devido à necessidade de criar conteúdos que fossem direcionados para a recém-criada população infantil, com o objetivo de auxiliar na sua instrução e em sua inserção na cultura e na sociedade de um modo geral. Assim, contribuiu também para a consolidação de vínculos, devido à narração por parte de seus cuidadores (Gomes & Silva, 2019; Kayser & Lopez, 2017; Gabriel, 2017).

A depender da conjuntura na qual o sujeito se inseria, a narração era feita pelas amas de leite, como Gabriel (2017) relata a respeito do contexto nacional, que apresenta uma cultura bastante multideterminada, o que repercute também na transmissão dos contos de fadas, que detêm características culturais africanas e europeias. O autor também declara o contador de histórias como uma figura arcaica, análoga ao nascimento do homem, tendo relevância diante da transmissão e preservação da cultura.

Ainda sobre o contexto nacional, Josiowicz (2020) relaciona a ascensão da Psicanálise no Brasil com o direcionamento de um olhar mais atento à subjetividade das crianças, a partir da década de 1960 e 1970, que aprofundou ainda mais os cuidados e a consolidação de um espaço para a infância, tendo como fundo a modernização e a necessidade de assegurar o bom desenvolvimento das gerações futuras. Entre as mudanças de tratamento dos cuidadores, verifica-se aumento de atitudes de compreensão e de estímulos que visassem explorar as potencialidades desses sujeitos em formação, aproximando, de certo modo, as questões infantis das questões adultas, na medida em que as crianças pouco eram levadas a sério em relação aos adultos, apesar de já terem seu espaço na sociedade, principalmente no quesito cuidado.

Todavia, de acordo com Gomes e Silva (2019) e Machado (2017), nota-se que tal retomada da aproximação entre o infantil e o adulto transformou novamente a relação da sociedade com a infância e, consequentemente, com os contos. A ascensão das tecnologias da informação, a globalização e a necessidade cada vez maiores de especializar os membros da sociedade, para serem inseridos no mercado, foram fatores que instrumentalizaram parte do infantil, prejudicando inclusive o contato com o outro e o narrar, que demonstra ser pouco utilizado atualmente, visto que há o uso precoce de eletrônicos.

Ademais, Josiowicz (2020) aponta a perspectiva, a partir da década de 1960 e 1970, de que dar voz ao infantil, sua subjetividade e potencialidades individuais contrasta diretamente com o caráter pragmático do modelo econômico vigente. Um resultado dessa tendência é o que Gomes e Silva (2019) trazem, o uso dos contos tem sido mais ligado a certo pragmatismo educacional, o que tolhe o caráter subjetivo e socializante da transmissão oral.

Diante do exposto, nota-se a presença de diversos paralelos entre a maneira como os contos se apresentam com a construção da infância, sendo algo em constante mudança e movimento. Além disso, demonstra-se mediante tal relação a aproximação entre o psiquismo presente na infância e os contos de fadas, a qual será abordada em sequência.

O psiquismo das crianças e os contos de fadas

Para esta seção, um ponto de partida interessante aborda a narrativa e seu potencial de rememoração. Consoante Gabriel (2017), existe um entrelaçamento entre a narrativa e a memória, da ordem imagética, que estrutura o pensamento e reclama o memorizar. No artigo em questão, o autor traz os contos de fadas em Baú de Ossos, obra de Pedro Nava baseada na própria infância, para ilustrar o entrelaçamento citado, afirmando que essas memórias são apresentadas de forma condizente com o imaginário infantil e sua linguagem, a partir de uma ótica lúdica, cheia de maravilhas e poesia, porém sem diluir as experiências desagradáveis existentes em sua infância, permitindo que haja a elaboração destas. Observa-se uma similaridade entre a afirmação anterior e o que ocorre nos sonhos, além da expressão da memória infantil sem qualquer interdito da consciência adulta, expresso nos contos de Nava, que traz o elemento fantasia, possível mediador de uma reestruturação do passado.

Fazendo um elo com a teoria psicanalítica, aponta-se a importância dos sonhos na teoria freudiana, exteriorizando conflitos inconscientes. Além disso, pode-se perceber a relação entre os contos de fadas e sua manifestação no psiquismo a partir do caso “O Homem dos Lobos” (Repciuc, 2019; Freud, 1918/2010).

No caso referenciado, o paciente de Freud se lembrava do pavor que tinha na infância da figura de um lobo que sua irmã lhe mostrava para aterrorizá-lo – em um livro de contos, no qual o lobo estava erguido e com as garras à mostra –, que ele acreditara advir do conto “Chapeuzinho Vermelho”. Em seus sonhos, os lobos apareciam nos galhos de uma árvore e ele associava ao seu pavor sentido na infância. Por isso, evidencia-se que as rememorações infantis se vinculam aos contos de fadas, sendo estes um símbolo livre para qualquer procedimento analítico (Repciuc, 2019; Corso & Corso, 2006; Freud, 1923/2011).

Por intermédio das rememorações infantis, discute-se também a importância da linguagem na infância, bem como a perspectiva da criança, o que é discutido no artigo de Josiowicz (2020) sobre a infância, tendo como referência o pensamento subversivo de Clarice Lispector acerca do tema, fortemente influenciada pelo referencial psicanalítico. A escritora enfatiza em seus textos como a dimensão emocional das crianças deve ser levada em consideração, em detrimento do autoritarismo dos pais e passividade dos filhos para com eles. À vista disso, ela defende a promoção de uma educação emancipatória, compreendendo o psiquismo infantil e fazendo os adultos se aproximarem da linguagem e visão das crianças, promovendo uma reflexão sobre a constituição do psiquismo e da personalidade por meio de histórias da infância.

Ilustrativo desse mergulho no psiquismo infantil, em “O menino bico de pena”, Clarice ilustra a fase pré-edípica, anterior ao desenvolvimento da linguagem, em que o bebê se comunica por gestos, choros, gritos e balbucios, suas percepções e sensações corporais em contato com o mundo. Tais expressões seriam reações ao sentimento de rejeição à mãe, emergente na fase pré-linguagem, quando esses sentimentos regridem a criança inicia o processo de simbolização e transita para o mundo das palavras, delimitando as bordas entre o infante e a mãe. Curiosamente a autora refere essa passagem como uma perda ou “traição” do sentimento puro infantil para um eu concebível ao externo, exposto a impressões outras que rompem com o estado original imaculado (Josiowicz, 2020; Lispector, 1969b).

Explorando a importância dos contos de fadas para o desenvolvimento emocional da criança, Gomes e Silva (2019), postulam, amparados nos construtos de Bettelheim (1976/2015), Radino (2003) e Corso e Corso (2006), a riqueza literária dos contos por comportarem conflitos e sentimentos que surgem na infância, mas não se restringem a ela, afirmando o caráter atemporal dessas narrativas. Desse modo, o estímulo à imaginação e o fantasiar é capaz de atravessar as vivências infantis norteando o seu desenvolvimento emocional e intelectual.

Ainda sobre a linguagem da criança, Gomes e Silva (2019) trazem as contribuições de Radino (2003) e Chauí (1984) sobre o fantasiar, dizendo que há projeção de conflitos psíquicos inconscientes nos contos de fadas, o que os torna representativos desses eventos para crianças, possibilitando a catarse de medos, anseios e desejos e dando uma representação metafórica a eles. Esse mecanismo próprio da linguagem dos contos favorece a elaboração de tais conflitivas de maneira mais digesta ao psiquismo infantil, não apenas durante o desenvolvimento nessa fase, como também na transição para o mundo adulto no futuro, ensejando recursos psíquicos que permitam as elaborações dos conteúdos psíquicos abarcados pelos contos.

Ademais, o ato de narrar também implica na forma como o ouvinte receberá o conto: a entonação de voz, interjeições, pausas, expressões faciais e gestos são elementos importantes para o acolhimento das emoções, assim como uma ambientação que favoreça a imersão na história, gerando reflexões sobre o que foi escutado; o narrar pressupõe emprestar a voz para a criança dar nome e representação às suas angústias, a fim de que ela enriqueça seu campo simbólico, imaginativo e fantasioso. Entretanto uma problemática é levantada sobre a escassez de bons narradores, em especial no mundo contemporâneo, tomado por dispositivos eletrônicos e ambientes virtuais que parecem ter furtado a habilidade individual de contar histórias orais, algo exercido com facilidade em épocas precedentes. Uma forma de contornar isso seria reforçar o uso dos contos de fadas nas escolas, para além de objetivos pedagógicos, como o desenvolvimento psíquico infantil (Caldin, 2002; Kehl, 2006; Gomes & Silva, 2019).

Machado (2017) também expõe preocupações acerca da infância inserida em uma sociedade altamente virtualizada, alerta para a perda da dimensão simbólica devido à desvalorização da materialidade dos objetos, que prioriza elementos lúdicos com quase nenhum valor simbólico. Ainda se observa grande exigência dos pais com atividades extracurriculares, sob a premissa de serem lazer para as crianças, mas no fim representando uma tarefa que impede o livre brincar (Meira, 2003).

O mesmo autor traz o filme “O Pequeno Príncipe”, que conta a história de uma menina de oito anos treinada meticulosamente pela mãe para uma carreira de sucesso no mundo adulto por meio da formação acadêmica excepcional, exigindo dela um desempenho à altura para garantir seu lugar em instituições de ensino renomadas. No entanto, em entrevista para uma dessas escolas, a menina não consegue responder de forma adequada a uma pergunta simples: o que você vai ser quando crescer? Dá uma resposta decorada que não satisfaz a pergunta, tal cena demonstra uma mecanização do pensamento e ausência de elementos mágico-criativos, esperados para sua idade (Machado, 2017).

Tudo muda depois que a menina encontra objetos através de um buraco acidental feito em sua parede, um deles é uma página do livro O Pequeno Príncipe, em formato de aviãozinho, o qual logo começa a ler. Desse ponto em diante, ela passa a vivenciar de fato sua infância, explorando a imaginação, suscitada pelo livro e a amizade com seu vizinho, com o qual se comunica através da brecha. Em seguida, a garota assume uma nova postura em relação à mãe e consegue expressar sua recusa e insatisfação com o plano de vida traçado para ela, bem como aponta a ausência materna, devido ao foco excessivo na carreira profissional. Assim, observa-se a função do brincar para a subjetividade, que, se ausente, prejudica o enfrentamento das intempéries da vida. O resgate dessa função por meio do livro achado pela menina promoveu a estruturação de recursos psíquicos criativos que permitiram a elaboração do conflito com a mãe dela e consigo mesma (Machado, 2017; Freud, 1908/2015b).

Tratando-se de um empobrecimento simbólico causado por interposição dos meios eletrônicos, Kayser e Lopez (2017) abordam falhas na simbolização e elaboração em crianças institucionalizadas, desencadeadas por experiências concretas de abandono, em que não houve amparo do ambiente que pudesse manejar as angústias vivenciadas pelo infante, para tal o uso dos contos de fadas comporta algumas modificações especiais, por exemplo, sempre usar figuras na narração das histórias, justamente por causa do empobrecimento do simbolizar dessas crianças. Além disso, deve haver atenção para os motivos de a criança escolher determinado conto, o que ela projeta e com o que se identificou no conto.

Outrossim, pode-se abordar certas interpretações simbólicas de cada personagem dos contos de fadas clássicos, como fez Bettelheim (1976/2015) ao teorizar que Chapeuzinho Vermelho seria indicativo da presença de conflitivas edípicas, o lobo representaria o masculino que a menina deseja seduzir, enquanto desobedece a mãe, figura feminina. Gutfreind (2020), em seu ateliê de contos, apresentou o conto dos três porquinhos aliado à encenação da história pelas crianças. No ponto em que os porquinhos se despedem da mãe, as crianças choraram, persistindo na interpretação da cena, o que o referido autor interpretou como a vivência primeira da experiência de se despedir dos pais, algo que não lhes foi concedido quando os deixaram na instituição (Kayser & Lopez, 2017).

Apesar das interpretações definidas dos contos de fadas, essencialmente eles são compostos pelo mágico, simbólico e fantasioso, esse último permite a projeção e identificação da criança com o conto de forma que, inconscientemente, sejam elaborados os seus sintomas, esses registros, com os contos, podem ser marcantes a ponto de perdurarem anos depois, reiterando a comparação que Lispector faz em seus contos acerca do psiquismo infantil e o adulto (Corso & Corso, 2006; Josiowicz, 2020).

Assim sendo, os contos de fadas, tanto em formato clássico como reformulado, servem ao contar de uma história, no caso a da criança, pois por meio da literatura busca-se fenômenos como a simbolização, projeção e elaboração de conteúdos inconscientes, ao quais aquele que narra provê acolhimento e contenção para aquilo que emergir do contato com a história (Kayser & Lopez, 2017).

Concluindo esta seção, o psiquismo infantil manifesta os fenômenos mencionados anteriormente mediante os mais variados settings. Apesar do uso dos contos de fadas se apresentarem como um recurso livre, existem especificidades na teoria e clínica psicanalítica que visam à manifestação do inconsciente por meio da utilização dos contos como instrumento com crianças em diversos contextos, que serão explicados na próxima seção.

A utilização dos contos de fadas na clínica psicanalítica com crianças

Sabe-se que os contos de fadas são comumente utilizados com crianças de maneira lúdica e pedagógica, entretendo-as e propiciando diversão; todavia Kayser e Lopez (2017) destacam a relevância dos contos em contexto clínico, pois são capazes de propiciar a elas a possibilidade de manifestarem seus conflitos e suas fantasias inconscientes.

Fenômenos como a identificação e a projeção podem ser facilitados utilizando os contos de fadas como recurso na clínica. Isso ocorre porque já existe o desejo inconsciente nas crianças de explorarem novas histórias e encontrarem uma maneira de vivenciar suas emoções, sendo externadas a partir de determinada narrativa (Kayser & Lopez, 2017; Corso & Corso 2006; Bettelheim, 1976/2015).

Acerca do desejo e emoções infantis, Freud (1909/2015b) compreende, a partir de seu caso clínico “pequeno Hans”, que a sexualidade infantil é perversa e polimorfa, entendimento essencial à perspectiva psicanalítica, ao conceber que as crianças têm a capacidade de sentir prazer em diferentes partes do corpo, não referente à função genital reprodutiva, mas a concepção mais ampla de sexualidade como experiência de prazeres e desprazeres vários que pedem uma via para serem elaborados e, assim, estruturar de forma satisfatória as bases da subjetividade infantil.

Posteriormente, a Psicanálise expande seus trabalhos na clínica infantil, com as contribuições de Klein (1981), ao buscar compreender a maneira que as crianças enfrentavam seus medos e angústias, buscando elo com as manifestações inconscientes advindas dessas emoções. A partir disso, estruturou uma técnica específica voltada para o infantil, dada a expressão verbal limitada das crianças, se comparada aos adultos, mas que não as impediam de livre associar (Kayser & Lopez, 2017).

Klein (1981) encontrou no brincar um subterfúgio para a criança manifestar suas emoções e externar suas fantasias inconscientes; por intermédio do lúdico, a criança realizava a associação livre ao projetar tais fantasias no ato de brincar, possibilitando a intervenção do analista pelo acesso ao seu mundo imaginário.

Concomitantemente a isso, abarca-se o conceito de objeto transicional, do psicanalista Donald Winnicott (2019), que não pertence ao corpo do bebê e nem representa algo totalmente externo, mas se trata de um espaço intermediário para ser realizada uma transição que delimita o interno e externo a ele. Desse modo, aborda-se a íntima relação entre o desenvolvimento emocional infantil e a sua capacidade de criatividade e simbolização. Ao usar o objeto, o bebê ou a criança gradualmente aprende a distinguir entre o que é interno e o que é externo.

Assim, pode-se aferir que a criança pode fazer uso de um instrumento (brinquedo, desenho) no setting terapêutico ou figura do analista (como a sua voz, por exemplo) como um objeto ou fenômeno transicional, facilitando na construção de elementos que compõem seu amadurecimento humano (Winnicott, 2000; Winnicott, 2019).

Abarcando a utilização dos contos de fadas, Gomes e Silva (2019) apontam uma válida ressalva de que os conflitos resultantes da infância devem ser externados de algum modo. Assim, reflete-se que os contos de fadas também funcionam como instrumento de auxílio, assemelhando-se ao objeto transicional citado anteriormente e possibilitando à criança o reconhecimento e a elaboração de seus conflitos, para um desenvolvimento emocional mais saudável (Winnicott, 2000).

Os contos podem funcionar dessa maneira justamente pelo fato de as estruturas das histórias serem associadas aos conflitos presentes no psiquismo infantil. Isso ocorre devido à presença de elementos como o problema central do enredo, capaz de despertar diversas emoções, personagens que podem representar figuras presentes na vida da criança, além de personagens nos quais ela pode se identificar, ou vilões assustadores que despertam medos primitivos e, por fim, a solução do conflito mencionado, comumente trazendo satisfação à criança e a elaboração supracitada (Gomes & Silva, 2019; Kayser & Lopes, 2017).

Sobre o setting psicanalítico, nota-se que diante da descontração do brincar e da narração de histórias, o trabalho terapêutico não se limita apenas a manejar os afetos emergentes, mas também a proporcionar suporte emocional em forma de cuidado e, desse modo, a criança sentir suas emoções percebidas e acolhidas pelo analista. Ademais, observou-se que os contos de fadas podem ser utilizados paralelamente a outras técnicas terapêuticas, combinados a brinquedos e desenhos no setting (Gomes & Silva, 2019; Kehl, 2006; Machado, 2017; Kayser & Lopez, 2017).

Essa possibilidade advém do caráter lúdico que os contos de fadas apresentam, bem como a função de continência, estimulando a linguagem, inteligência e o pensamento da criança e, assim, organiza os arcaísmos infantis, dando sentido a eles e sendo um atributo a mais no processo analítico (Kayser & Lopez, 2017; Gutfreind, 2020).

Kayser e Lopez (2017) também pontuam que a escolha de um conto por parte do terapeuta pela temática apresentada pode ser essencial após fazer uma observação prévia e obter uma noção básica do sofrimento psíquico da criança. No entanto, ela pode se ater a elementos imprevisíveis da história e surpreender o narrador, pois cada narrativa chegará de maneira diferente ao psiquismo infantil.

Exemplificando, foi feita a narração de um conto por uma das pesquisadoras a Lucas, uma criança institucionalizada de cinco anos. Ao contar a história dos “Três porquinhos”, percebeu-se que na primeira página, ao abordar o relato da despedida entre os porquinhos e sua mãe, Lucas interrompeu três vezes a pesquisadora, perguntando se já havia acabado para que ele virasse a página (Kayser & Lopez, 2017).

Quando a criança demonstrou ansiedade e tentou mudar o foco da história, as autoras perceberam que Lucas estava se defendendo para não precisar falar sobre a separação, porque já vivenciou e registrou esse abandono advindo do afastamento concreto por parte da mãe, ao ser encaminhado para o abrigo (Kayser & Lopez, 2017).

A ansiedade dele apenas diminuiu quando se deparou com o contexto em que os três porquinhos estavam unidos na mesma casa, enquanto o lobo permanecia do lado de fora batendo na porta, querendo entrar. Lucas interrompe a pesquisadora antes mesmo de ser narrado o acontecimento daquela página e pontua que o lobo procurava os porquinhos que estavam dentro da casa. Esse comentário remeteu às pesquisadoras a relação com a história de vida de Lucas e com as fantasias inconscientes dele, quando ele questionou o que aconteceria se o lobo tivesse pego os três porquinhos (Kayser & Lopez, 2017).

Kayser e Lopez (2017) apontam que poderiam ser fantasias relacionadas ao medo de ser atacado e ao perigo que sofre simbolicamente. Reflete-se que são partes específicas do conto que remetem à questão da separação da família e à coragem que os irmãos precisaram ter para juntos lidar com os desafios que a narrativa traz. Portanto destaca-se que, por mais que tenha sido uma história que gerou ansiedade e mobilizou os afetos de Lucas, os conteúdos desse conto de fadas será registrado por ele, permitindo que ele desenvolva um novo recurso psíquico para enfrentar a angústia que a narrativa elucidou (Gutfreind, 2020).

Corroborando o que foi supracitado relacionado às fantasias inconscientes, também se nota o funcionamento infantil primeiramente regido pelo princípio de prazer14, o qual pode ser representado pelo conto “Os três porquinhos”. Na história, os dois primeiros irmãos, conduzidos pelo princípio de prazer, decidem construir casas de material pouco resistente, sendo a do primeiro a mais frágil, para poderem ter mais tempo para brincar, diferentemente do terceiro, que despende mais tempo na construção, adiando seu prazer em prol de uma residência mais sólida e segura, guiado pelo princípio de realidade15 (Bettelheim, 1976/2015; Kayser & Lopez, 2017).

Tal conto representa para a criança um direcionamento do princípio de prazer para o de realidade, sendo um movimento essencial para a maturação psíquica da criança, que após ter seu Eu e os objetos integrados, pode vir a conciliar pressões opostas, dever e prazer, de modo funcional. Ou seja, exerce a função educativa paralela à separação da figura materna (Bettelheim, 1976/2015; Kayser & Lopez, 2017).

Machado (2017) também traz a importância de haver tolerância, cuidado e amparo com as crianças, consideradas sujeitos em constituição, para que elas possam desfrutar da infância e serem reconhecidas em sua singularidade. Associa-se o reconhecimento e a singularidade à crônica “Liberdade”, de Lispector (1969a), que faz a colocação de um questionamento da hierarquia existente entre mãe e filho, considerando que os dois são sujeitos detentores de direitos e da autorização para falar sobre o outro (Josiowicz, 2020).

Essa crônica tem um caráter emancipatório que se assemelha ao processo analítico infantil, que se utiliza da subjetividade da criança, bem como das manifestações do seu inconsciente para que ela postule suas necessidades. Além de ser um trabalho que busca elucidar um sujeito desejante, posto que seus medos são enfrentados e há a integração dos elementos identificativos e representativos de seu inconsciente a uma verbalização e interpretação, surgindo o fenômeno da elaboração psíquica (Josiowicz, 2020; Kayser & Lopez, 2017; Machado, 2017).

Por fim, retomando a utilização dos contos de fadas como recurso simbólico, obteve-se como resultado que ele se mostra eficaz para além do setting psicoterapêutico, sendo utilizado pedagogicamente em escolas e ateliês de contos, possibilitando vivenciar a experiência de escutar as narrativas em grupo. O que se encontra em comum entre os settings é que, independentemente da maneira que são apresentados, os contos fadas contam um drama, tornando indispensáveis a fantasia e o mundo imaginário. Esses são os elementos que fascinam a criança, encontrando no fantasiar a leveza de tratar emoções que lhe são intensas e se manifestam por meio do sintoma (Gomes & Silva, 2019; Kayser & Lopez, 2017).

Considerações finais

Como considerações finais, essa revisão integrativa de literatura objetivou compreender os contos de fadas como recurso para o desenvolvimento emocional das crianças, sendo possível perceber que sua utilização se mostra eficaz, ora como aparato teórico para melhor compreensão de como os contos influem na infância, ora como recurso prático, em que o narrador exerce um papel fundamental para que uma simples história se transforme numa experiência para as crianças, na medida em que os elementos da narração as perpassam e possibilitam a manifestação de suas emoções. Ademais, encontra-se a ludicidade nos contos, proporcionando a descontração das angústias que a criança venha a sentir, por intermédio da leveza que as narrativas trazem e de conseguir dar sua própria interpretação à história.

Portanto pode-se afirmar que houve a apreensão dos conhecimentos inicialmente almejados, contudo é necessário destacar como limitações desta pesquisa o enfoque acentuado na relação entre infância e os contos de fadas. Ainda que estes também contemplem o psiquismo em outras fases da vida, similarmente não houve a possibilidade de explorar diferentes perspectivas teóricas acerca das vantagens, e possíveis desvantagens, do uso dos contos de fadas em contextos diversos, por exemplo, o pedagógico. Tais aspectos podem ser conteúdos de pesquisas futuras que venham contribuir para o enriquecimento teórico-prático e no resgate, bem como a valorização, do narrar em tempos contemporâneos.

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5Reação espontânea e inconsciente do sujeito que busca remanejar seus afetos e dar uma interpretação a eles (Roudinesco & Plon, 1998).

6É um fenômeno para a formação do psiquismo que representa a maneira como a pulsão se encontra no aparelho psíquico (Socha, 2018).

7Denomina-se como a vida imaginária do sujeito e seus conteúdos, além de como ele representa para si a sua história, abarcando seus desejos, representações e crenças (Roudinesco & Plon, 1998).

8Instância psíquica, detentora de funções conscientes e inconscientes, que almeja estar de acordo com as normas sociais e se baseia no princípio de realidade, visando à negociação do prazer que está para além do que é aceito pela moralidade Roudinesco & Plon, 1998).

9Termo psicanalítico que diz respeito à constituição do sujeito a partir de suas relações, apropriando-se de traços de indivíduos ou imagens ao seu derredor (Roudinesco & Plon, 1998).

10Referente à fantasia (Roudinesco & Plon, 1998).

11Conceito referente a Continente-Contido preconizado por Wilfred R. Bion, que comparou a dupla analítica com o amparo da mãe com seu bebê na amamentação, sendo essa um receptáculo para a dor emocional do bebê, amparando-a e dissolvendo-a em uma imensão mais fácil de ser controlada. Nesse contexto, a continência seria uma forma de comunicação primitiva que propicia o desenvolvimento do pensamento, em que um estado mental da criança é recebido e “contido” por outrem, que o transforma e reintrojeta na criança (International Psychoanalytical Association [IPA], 2022).

12Sistema representativo baseado na linguagem, em signos e significações que dizem a respeito do sujeito, consciente e inconscientemente, em seu ato de simbolizar (Roudinesco & Plon, 1998).

13Sistema de representação que se baseia na linguagem (Roudinesco & Plon, 1998).

14Tem como objetivo evitar o desprazer para obter um prazer imediato e sem limites (Roudinesco & Plon, 1998).

15Adaptação do princípio de prazer para a realidade externa e as normas sociais (Roudinesco & Plon, 1998).

Recebido: 04 de Junho de 2024; Aceito: 06 de Outubro de 2024; Revisado: 05 de Outubro de 2024

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