Introdução
Angústia e fantasia são conceitos centrais para a compreensão da especificidade da clínica psicanalítica em relação ao mal-estar na cultura. Questões relacionadas à temática estão no escopo das preocupações de Freud desde o começo de sua teorização, mesmo antes de o termo Psychoanalyse ser criado. As mudanças no entendimento desses conceitos são balizadores importantes para atualizar o ensino psicanalítico, desde Freud até Lacan e mais além. Diante da relevância desses elementos para a nossa prática clínica, buscamos perscrutar suas formulações por meio de uma revisão bibliográfica aprofundada, indispensável para uma melhor compreensão do corpus teórico psicanalítico, podendo nos servir de tais conceitos para compreendermos mal-estar no mundo atual.
Partimos do pressuposto de que com a ascensão do objeto a ao zênite social, em sua vertente de gozo, e a queda do Outro, como alteridade, há uma queda no uso sexual da fantasia e das possibilidades de significantização, de modo que a angústia se presentifica sem fazer apelo à fantasia e sem a circunscrição do sintoma, gerando efeitos diretos no corpo (Trobas, 2005; Laurent, 2007). Iniciaremos nossos esforços circunscrevendo angústia e fantasia na teoria psicanalítica, articulando-os nos escritos de Freud e no ensino de Jacques Lacan, a fim de entender sobre quais bases estão fundados, qual a relação entre os conceitos, quais as alterações sofridas ao longo do tempo e qual o seu lugar e função na clínica. Esperamos, assim, apreender parte do que aparece veementemente na ordem simbólica atual, que não conta com a regulação do Outro simbólico (Miller, 1997).
A angústia: de Freud a Lacan
Segundo Besset (2001), a angústia tem três momentos teóricos distintos na obra freudiana, que acompanham a progressão da teoria psicanalítica: uma concepção pré-psicanalítica; uma concepção em aproximação com as fobias, especialmente no Caso Hans; e um terceiro momento, no artigo “Inibição, sintoma e angústia”. Antes de ser ratificado em Lacan (1962-1963/2005, p. 88) como “o afeto que não engana”, o conceito de angústia aparece na gênese da teoria psicanalítica como uma resposta somática eliciada como uma perturbação no equilíbrio da energia sexual em um organismo (Freud, 1894/1996b).
A primeira teoria da angústia foi elaborada por Freud antes mesmo do início da Psicanálise. Em suas investigações, Freud (1894-1985/1996c) se depara com determinados quadros de adoecimento que se diferenciavam do funcionamento das psiconeuroses de defesa, pois não pareciam provocadas pela ativação dos mecanismos defensivos do inconsciente. Essas neuroses atuais, que abrangem as neurastenias e as neuroses de angústia, estavam relacionadas a uma dificuldade na elaboração psíquica do acúmulo de energia sexual circunscrita no corpo. Uma vez que esse acúmulo não faz apelo à representação inconsciente, perturbações corporais eram manifestadas como efeitos da insuficiência de descarga dessa cota de afetos acumulados que resultaram diretamente em angústia (Freud, 1894-1895/1996c). A angústia é entendida, naquele momento, como uma descarga motora do afeto desligado da representação.
A segunda teoria da angústia surge relacionada principalmente às teorizações acerca dos quadros fóbicos. No caso Hans, Freud aproxima a angústia das neuroses de defesa, localizando-a em um objeto externo, mais especificamente nos cavalos, conteúdo ideativo ligado ao agente da castração (Freud, 1909/2015). Aqui, a angústia se estabelece como uma transformação da libido resultante do recalcamento, já em vinculação com os mecanismos de defesa inconscientes. Embora naquele momento Freud ainda considere a angústia como resultado da descarga sexual dos afetos no próprio corpo, existe uma atualização conceitual importante na proposição da angústia como consequência do recalque. Na fobia de Hans, essa angústia se liga a uma representação que substitui um representante do agente da castração que ameaça a perda do pequeno pipi (pai) pelos cavalos: é isso que a fobia presentifica. As atualizações conceituais em seus escritos transformam a angústia em uma ferramenta conceitual que aponta para o sedimento inconsciente formado por desejos incestuosos e destrutivos recalcados, ou seja, para a existência do inconsciente, ao mesmo tempo que preserva a dimensão de angústia como um escoamento dos afetos das pulsões sexuais (Freud, 1915/2010a).
A partir do estabelecimento da segunda tópica, a angústia sofre novamente uma mudança conceitual na teoria freudiana, aparecendo como o representante da pulsão que aponta diretamente para o recalque. No artigo “Inibição, sintoma e angústia”, Freud (1926/2014a) elenca a angústia como o motor que possibilita a operação de recalcamento, na medida em que a angústia de castração é sentida como um sinal de perigo. Assim, a angústia não mais é entendida como resultante do recalque; pelo contrário, ela é que dispara o recalque como modo de dar tratamento à pulsão. Diante do surgimento da angústia, que se presentifica como um sinal da proximidade do objeto (Freud, 1926/2014a; Lacan, 1962-1963/2005), inibição e sintoma são modos de barrá-lo (Barros, 2018). As inibições aparecem como um rebaixamento da função do Eu, “tributária da impotência psíquica” (Barros, 2018, p. 86) diante do sinal de angústia. O sintoma, por sua vez, é um modo de obter uma parcela da satisfação interditada pela castração, da qual a angústia é sinal (Freud, 1926/2014a; Barros, 2018).
É a partir da noção freudiana de angústia como sinal que Lacan inaugura o seu décimo seminário, tomando o Complexo de Édipo como referência para explicar a gênese desse afeto. Antes da instalação da metáfora paterna, mãe e bebê se confundem em uma relação simbiótica, gozando de uma completude tipicamente imaginária (Lacan, 1957-1958/1999). Aqui, a criança está assujeitada ao desejo do Outro materno, existindo como a extensão do corpo da mãe, mais precisamente como um objeto, um falo imaginário (Lacan, 1962-1963/2005). No Édipo, o Nome-do-Pai substitui o Desejo da Mãe, metaforizando-o, numa operação que barra o gozo materno, abrindo espaço para a falta ao retirar a criança desse lugar de objeto do Desejo do Outro. Lacan (1962-1963/2005, p. 196) qualifica essa operação como “o assassinato original da Coisa”, que funda o sujeito para a Psicanálise a partir da instauração da falta ao inseri-lo no mundo dos significantes (Lacan, 1959-1960/2005). O objeto a é o resto condensado do gozo perdido nessa operação, que atua como causa de desejo, restituindo o que lhe foi barrado ao se tornar um ser de linguagem.
Se o sujeito é o quociente dessa operação, a angústia está diretamente relacionada ao seu resto, manifestando-se diante do perigo em ser reduzido a um objeto, uma vez que o sujeito não sabe qual lugar ocupa diante do Desejo do Outro (Lacan, 1962-1963/2005). Desse modo, a angústia não é considerada uma ameaça de ausência do objeto interditado na castração, conforme versa Freud (1926/2014a), mas sim um sinal da proximidade desse objeto causa de desejo que ex-siste à rede dos significantes, situando-se no corpo (Lacan, 1962-1963/2005). Esse “afeto que não engana” (p. 88) passa a ser considerado um sinal de real, daquilo que escapa ao sentido e às representações. No esforço de ilustrar a relação entre angústia e Desejo do Outro, Lacan (1962-1963/2005) utiliza a metáfora do louva-a-deus. Aqui ele faz referência ao fato de a fêmea do louva-a-deus devorar o louva-a-deus macho, na busca dos recursos nutritivos necessários para prosseguir a gestação. Apesar de ser um comportamento comum, observado em várias outras espécies do reino animal, no caso da fêmea do louva-a-deus há uma especificidade, ela devora apenas a cabeça do macho. Assim, ele imagina a seguinte situação: um homem adulto com uma máscara de louva-a-deus se encontra com um louva-a-deus de dimensões humanas, mais especificamente de 1,75 metros. Ele não sabe se está de frente a um louva-a-deus macho ou fêmea, nem sabe se está representado como macho ou fêmea diante dele. Segundo Lacan (1962-1963/2005),
Como eu não sabia qual era a máscara que estava usando, é fácil vocês imaginarem que tinha certa razão para não estar tranquilo, dada a possibilidade de que essa máscara porventura não fosse imprópria para induzir minha parceira a algum erro sobre minha identidade.
(p. 14)
Nessa descrição, a angústia é suscitada a partir do momento em que o sujeito não sabe qual lugar ocupa ante o Desejo do Outro. Tal como sintetiza Laurent (2007, p. 113), “angustia-se quando não se sabe o que o Outro quer, sendo precisamente esse o sentido de que a angústia não é sem objeto”. Caso soubesse que a máscara o distinguia como um macho, existiria a possibilidade de resignação na expectativa de uma decapitação imediata pela fêmea louva-a-deus. A presença do desejo do Outro, do qual não se sabe muita coisa, suscita no sujeito uma questão “che vuoi?que queres?” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 14), assinalando a possibilidade de retorno à posição de assujeitamento ao Outro materno, em um momento em que falta a falta.
A angústia é o retorno do sujeito a essa posição originária de objeto do Outro, à mercê do gozo do Outro que pode destruí-lo (Lacan, 1962-1963/2005). A angústia se faz presente ao não saber qual posição ocupa em relação ao desejo do Outro, como é visto pelo Outro. Observando por essa ótica, a alusão ao louva-a-deus não parece mais tão aleatória. No seminário sobre a angústia, Lacan analisa tanto o Caso Hans quanto o caso O homem dos lobos, cujos sintomas fóbicos relatam o medo de mordidas ou devorações, por parte dos cavalos para um, e dos lobos para o outro, que são representantes que revelam a presença do desejo da Mãe. A angústia, que tem a ver com o apagamento nas barreiras que delimitam o sujeito e o objeto, evoca nos dois casos os sintomas fóbicos a fim de pôr barreiras simbólicas no movimento em direção ao objeto, circunscrevendo algo da angústia, fazendo-a recuar (Laurent, 2007). Essa é uma maneira possível produzida pelo sujeito para dar conta do insuportável da presença do objeto a, a fim de garantir um alívio diante da angústia. A fantasia cumpre justamente essa função: presentifica um sujeito em sua relação com o objeto.
Uma moldura para a angústia
A temática da fantasia está presente como uma noção entremeada à construção da realidade psíquica desde o Projeto para uma psicologia científica (Freud, 1895/1996a) e aparece na teoria psicanalítica como um dos primeiros impasses conceituais encontrados na clínica da histeria. Essa noção foi alçada ao status de conceito fundamental na teoria psicanalítica a partir do abandono da teoria da sedução, elaborada diante dos relatos de introduções sexuais de crianças forçadas por um adulto, levando Freud a considerar o abuso sexual e o trauma psíquico decorrente deste como determinante para a eclosão das psiconeuroses de defesa (Freud, 1894/1990; Gay, 1988/2012). Ao ponderar que nem todo abuso resulta em consequências patológicas e considerando que o número de doentes dos nervos deveria ser proporcional ao número de abusadores, a hipótese da sedução foi abandonada pelo pai da Psicanálise. Diante disso é que Freud, em sua correspondência pessoal com o seu futuro desafeto, Wilhelm Fliess, faz a sua confissão axiomática: “Eu não acredito mais em minha neurótica.” (Freud & Masson, 1986, p. 265).
Em seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905/2016) postula que, em sua atividade clínica, o trauma psíquico aparecia em todos os casos de histeria investigados por ele até então. A recorrência das fantasias de sedução o levou a investigar as relações entre as fantasias e o trauma psíquico, que na época se configurava como uma impossibilidade orgânica ou psíquica de descarga dos afetos sexuais. Neste momento da teoria, a fantasia é descrita como uma produção ficcional derivada de elaborações posteriores acerca de experiência traumática infantil, cuja lembrança é evocada na incidência de um acontecimento posterior que se liga à cota dos afetos traumáticos que figuravam sem representação (Besset, 2001). Sua atuação é descrita como uma barreira que impede o acesso direto dos sujeitos às “cenas originárias” (Freud & Masson, 1986, p. 243), visando à proteção das lembranças traumáticas. Nas palavras do próprio Freud,
As fantasias servem, simultaneamente, à tendência a aperfeiçoar as lembranças e à tendência a sublimá-las. São fabricadas por meio de coisas ouvidas e das usadas posteriormente, assim combinando coisas experimentadas e ouvidas, acontecimentos passados (da história dos pais e antepassados) e coisas que foram vistas pela própria pessoa.
(p. 241)
É a partir da aproximação entre trauma e fantasia que Freud (1909/2015) implica as neuroses de defesa, ao considerar que as fantasias atuam em todo o sintoma neurótico, instaurando o mito do Édipo como uma fantasia universal. O Complexo de Édipo seria vivenciado por todos os sujeitos nas suas próprias constituições subjetivas a partir da assimilação da lei paterna e de seu interdito, uma vez que é o atravessamento do Édipo que instaura a castração e a impossibilidade de satisfação total das pulsões (Lacan, 1953-1954/1985b). Uma vez que o sujeito vivencia o encontro com a diferença entre os sexos e a própria sexualidade como um trauma psíquico, a fantasia se constitui então como encobridora dessas cenas originárias (Freud, 1909/2015), atuando como representante dos conteúdos das pulsões a fim de afastar a realidade da castração e das renúncias pulsionais a partir de elaborações que permitam a substituição da satisfação irrestrita por satisfações parciais. Desse modo, a fantasia permite ao neurótico um alívio ante a angústia de castração.
A fantasia é uma produção do sujeito, fruto do retorno do recalcado, constituindo uma nova realidade, diferente da realidade material, posto que atua disjunta ao princípio de realidade, inibindo as ideias desprazerosas para que estas não alcancem a consciência, atuando em consonância ao princípio do prazer (Freud, 1916-1917/2014a). Segundo Freud, perante a dificuldade em abrir mão da satisfação absoluta, o ser humano reservou para si uma atividade psíquica na qual concede a todas as fontes e vias abandonadas da obtenção de prazer uma nova vida, uma forma de existência na qual se veem livres das demandas da realidade e daquilo a que chamamos “prova de realidade” [...] Na atividade fantasiosa, portanto, o homem segue gozando da liberdade frente a toda pressão exterior, liberdade a que, na realidade, renunciou há muito tempo. Ele consegue ser, alternadamente, um animal de prazer e, de novo, uma criatura sensata (Freud, 1916-1917/2014a, pp. 394-395).
Portanto tais experiências de satisfação não são um produto da realidade material, nem mentiras inventadas pelos sujeitos, mas fantasias com status de verdade na realidade psíquica (Freud, 1916-1917/2014a). Por intermédio da fantasia, a libido regride a determinados objetos e atividades sexuais infantis enjeitados na primeira infância, no período anterior à castração, gerando para os sujeitos uma satisfação substitutiva para as pulsões. O conflito psíquico eclode à medida que há um desequilíbrio no investimento libidinal nesses objetos e fantasias infantis, gerando uma série de exigências ilusórias para a satisfação. Nesse cenário, o Eu atua na via de recalcar tais fantasias, fazendo consistir em um sintoma como modos deturpados e parciais de satisfação de desejo.
No artigo “Batem numa criança”, Freud (1919/2010c) expõe a lógica da fantasia fundamental a partir da análise das fantasias de espancamento, evidenciando as relações entre a fantasia e o complexo de Édipo em três tempos. No primeiro, “Meu pai bate em uma criança que odeio” (p. 226), está explícita a satisfação sádica que antecede a incidência do recalque, uma vez que a criança que apanha é tomada como um rival. Nessa fantasia, o espancamento dessa criança marca a posição anterior à castração, visto que “meu pai não ama esse outro, ama somente a mim” (p. 229). No segundo, “sou castigada por meu pai” (p. 227), é considerada por Freud como completamente inconsciente. Aqui há uma importante virada da posição sádica para um componente masoquista, relacionada à culpa, evocando a necessidade de punição pela escolha incestuosa de objeto. No terceiro tempo, há uma mudança fundamental na posição do sujeito em relação ao objeto, em que a fórmula “batem em uma criança” (p. 226) denota uma indeterminação em relação à identidade da criança espancada e de quem a surra, apenas o observador fora de cena pode ser identificado.
A partir da exigência das pulsões, a fantasia fundamental atravessa a barreira do recalcamento, evidenciando os resíduos derivados de fantasias imaginárias anteriores, eivadas de conteúdos incestuosos presentes nos primeiros anos de vida da criança (Freud, 1919/2010b), conforme nos ilustra o caso Hans (1909/2017). Com a entrada na linguagem, dimensão das trocas simbólicas, a realidade material se entremeia à realidade psíquica a partir da subordinação à representação pela palavra. Nesse cenário, algo daquilo que se apreende na realidade externa (wirklichkeit) se perde, uma vez que a queda do objeto pequeno a instaura o regulamento desejante apresentando o campo do Outro como alteridade simbólica (Lacan, 1957-1958/1999).
Lacan (1957-1958/1999) se utiliza do proposto em “Batem numa criança” para estabelecer o efeito da incidência da metáfora paterna na constituição subjetiva. A castração aparece ali simbolizada na figura do chicote, e o espancamento ressalta a inscrição na lógica dos significantes, no processo de separação de sua alienação ao Desejo da Mãe e ao gozo sem limites. Lacan (2007) capta a essência da radicalidade freudiana ao perceber que, na lacuna operada pelo recalque, o sujeito constrói para si um mito que significantiza o que seria para ele indizível, de modo que a “necessidade estrutural que é carreada por toda expressão da verdade é justamente uma estrutura que é a mesma da ficção. A verdade tem uma estrutura, se podemos dizer, de ficção” (Lacan, 1956-1957/1985b, p. 259).
Segundo Lacan (1962-1963/2005), a organização da fantasia se dá a partir da identificação do sujeito com o objeto. A fantasia, representada pelo matema “$◊a” (p. 59), demonstra a articulação entre o sujeito barrado e o objeto a, estabelecendo “na estrutura desse campo enigmático, um belo-não-toque-nisso” (Lacan, 1959-1960/1997, p. 291). Diante da presença do objeto desnudo, a fantasia emoldura a realidade, conferindo uma função simbólica à falta, tornando-a suportável, dando contornos ao objeto perdido, mediando sua relação com o gozo e salvaguardando-o do encontro traumático com o Desejo do Outro, um sinal do real do qual a angústia é sinal. Tal como nos diz Lacan (1962-1963/2005, p. 60), “essa fantasia de que o neurótico se serve, que ele organiza no momento em que se serve dela, o impressionante é que ela é justamente o que melhor lhe serve para se defender da angústia, para encobri-la”.
Descrevemos até então a gênese e demonstramos a articulação dos conceitos de angústia e fantasia na obra de Freud e no ensino de Lacan, trazendo suas implicações na constituição da subjetividade e na formação dos sintomas. Entretanto, tal como nos relembra Lo Bianco (2003), a clínica tem a primazia como meio de investigação e de construção das questões de análise, de onde são extraídos os elementos que fundamentam a práxis psicanalítica. Na contemporaneidade, é possível perceber que os novos sintomas se caracterizam por uma invasão de um gozo deslocalizado que se manifesta diretamente no corpo, graças aos afrouxamentos dos laços sintomáticos (Santos, 2001). Interrogamos se por trás desses sintomas-mudos (Miller, 1997), que não fazem apelo ao inconsciente como instância de decifração, há uma nova angústia ou uma angústia de sempre (Trobas, 2005), não circunscrita pela fantasia.
A nova ordem simbólica: angústia, fantasia e mal-estar
Segundo Freud (1926/2014a; 1930-1936/2009), o mal-estar é uma condição existencial inerente à entrada na instância civilizatória, diretamente relacionada com a condição faltosa do indivíduo. Tal como disposto anteriormente, a falta é resultado da metaforização do Desejo da Mãe pelo significante Nome-do-Pai, relacionando-se com o objeto a, causa de desejo e de angústia (Lacan, 1962-1963/2005). A metáfora paterna é o que possibilita a entrada na cultura, atuando como sustentáculo do regulamento social que busca regular as pulsões que emanam do corpo próprio, mediando a convivência entre os indivíduos (Lacan 1957-1958/1999; Freud, 1930-1936/2009). A lei e os regulamentos sociais marcam a dimensão da castração no liame social, evidenciando a condição faltante dos sujeitos, na medida em que instauram a proibição e a privação como condições para a manutenção da cultura (Freud, 1930-1936/2009).
O mal-estar se situa no choque entre as pulsões, que tem a satisfação como meta, e os regulamentos sociais, que impedem o acesso aos objetos (Freud, 1930-1936/2009). Para integrar-se na cultura, o sujeito abre mão da completude da satisfação, obtendo-a apenas de modo parcial, não sem que uma certa angústia seja suscitada dessa renúncia pulsional (Freud, 1926/2014a). A fim de dar contornos para a angústia e preservar a integridade do Eu, a fantasia, ligada ao princípio do prazer, atua mascarando o conflito latente entre as pulsões e o regulamento social (Freud, 1916-1917/2014a). Nesse contexto, sintoma e inibição surgem como defesas à angústia (Lacan, 1962-1963/2005): a inibição como uma captura narcísica da imagem especular que barra o advento do desejo, e o sintoma como uma formação de compromisso, como um arranjo possível dos sujeitos com o seu gozo, articulando as pulsões e os objetos substitutos disponibilizados pela cultura (Barros, 2018). Lacan (1964/1985a) ratifica que os sintomas são uma formação de compromisso, modo pelo qual o sujeito neurótico busca se arranjar com o seu gozo.
São essas as manifestações responsáveis por comunicar a tônica do mal-estar na época freudiana. Em sua articulação com o sintoma, a fantasia possibilita o advento do desejo sob a forma de uma questão que apela à decifração inconsciente, por onde o neurótico obtém uma parcela de sua satisfação perdida. Numa clínica em que o eixo é o Nome-do-Pai, o fundamento está na dimensão simbólica do sintoma, na medida em que este é uma mensagem cifrada em significantes, cujo significado recalcado está à espera de ser decifrado pelo Outro. Entretanto, em seu último ensino, Lacan (1969-1970/1992) parte dos impossíveis freudianos, elencados em Análise terminável e interminável (Freud, 1937/2018), para introduzir a noção de laço social, fornecendo uma nova perspectiva de análise do mal-estar.
A partir da teoria dos discursos, Lacan (1969-1970/1992) consegue marcar uma diferença fundamental da contemporaneidade em relação à época vitoriana, palco dos escritos de Freud: a deposição do Pai do lugar de mestre discursivo, que evoca a dimensão do patriarcado ocidental, em que a imago paterna servia como pedra angular das tradições e ideais sociais, pautados principalmente na regulação das pulsões sexuais como barreiras para o gozo. Na contemporaneidade, o Nome-do-Pai apresenta caráter de semblante, entre muitos outros capazes de tecer arranjos do sujeito com o seu gozo (Lacan, 1975-1976/2007). Isso significa dizer que não há um significante que sirva a todos como outrora fez o Pai (Lacan, 1966/1998). Esse período inaugura uma nova ordem simbólica, caracterizada pela ascensão do objeto a ao zênite social, conforme demonstrado por Jacques Alain Miller (2005b) em El Otro que no existe y sus comités de ética.
Em lugar do Pai, agora fraco e sob suspeita, ascende um novo mestre discursivo, capitalista, puxado pela hegemonia do neoliberalismo como modelo hegemônico de produção, introduzindo a lógica de mercado que empuxa ao consumo dos objetos produzidos pela ciência, inserindo os sujeitos em uma dimensão do mais-de-gozo. A égide do mestre capitalista se caracteriza pela primazia do objeto a sobre os ideais civilizatórios que fundamentaram a modernidade, restringindo as possibilidades de fazer laço social, instaurando assim o “império do Um do real do gozo” (Portillo,2005, p. 6). Há muitos nomes para descrever esse período: hipermodernidade (Lipovetsky, 2004), sociedade do cansaço (Han, 2017) ou modernidade líquida (Bauman,2001). Independentemente do rótulo, há aqui uma constante: o apagamento das barreiras culturais a partir do fenômeno da globalização (Bauman, 1999); um incremento individualista nos modos de satisfação; a queda dos semblantes e das tradições que serviam de bússolas para orientação dos sujeitos; o aumento exponencial dos diagnósticos e de sua incidência, assim como o recorde no número de psicofármacos vendidos nas últimas décadas.
A verdade é uma dimensão subjetiva que se caracteriza na dimensão do impossível de se dizer, posto que o seu lugar é justamente o do recalque originário (Lacan, 1966/1998). Nesse sentido é que é impossível dizer A Verdade é impossível, uma vez que a linguagem opera uma falta, a partir da qual cada sujeito constrói um saber sobre a própria experiência (Lacan, 1971/2009). Freud estava atento a essa questão, pois buscou ouvir as fantasias das histéricas, desconsideradas pelo saber psiquiátrico de sua época. Entretanto o saber científico oferece verdades absolutas e inquestionáveis sobre o mundo, excluindo as possibilidades de significantização da experiência de cada sujeito, haja vista que busca servir para todos de maneira universal (Lacan, 1966/1998; Marcon, 2017; Rebollo, 2010). Qualquer dúvida pode ser respondida com uma simples busca no Google ou um prompt no Chat-GPT, foracluindo a relação de saber entre o sujeito e a verdade, resultando em um saber que se articula de forma delirante (Barros, 2024).
Esses objetos produzidos pela conjunção entre ciência e capitalismo não se resumem apenas às novas tecnologias da informação, mas abrange de igual modo as nomeações prêt-à-porter3 para o sofrimento, produzidas massivamente pela Medicina e Psiquiatria para serem imediatamente consumidas (Leite & Barros, 2019). Consoante Miller (2005a),
Disso resulta a pulverização do sintoma, da qual as sucessivas edições do DSM – depois da primeira que era psicodinâmica – dão testemunho. O que mantinha o sintoma coeso era o dizer. O sintoma tinha algo a dizer. Era definitivamente a intencionalidade inconsciente que fazia consistir o sintoma. Pois bem, na palavra sintoma, o “sin sin” se foi e só restou o “toma”. Doravante, o sintoma foi reduzido a distúrbio. Os ingleses dizem isso de um modo melhor: disorder, palavra cuja referência é da ordem do real (n.p).
Nesse sentido, o sintoma não pode consistir, porquanto o objeto está sempre ao alcance; sem a distância necessária para evidenciar a falta-a-ser, não há a possibilidade de utilização da fantasia para aparelhamento do gozo. Tudo sobre o sofrimento está dado no exterior do sujeito, nos manuais descritivos de psicopatologias, e a cura para o sofrimento pode ser encontrada na farmácia mais próxima, uma vez que as antigas referências éticas estão em franca dissolução e em seu lugar figura a presença exacerbada do objeto – a angústia como um sinal de puro real, visto que prescinde da fantasia para emoldurá-la. Sem a circunscrição do sintoma e sem a moldura da fantasia, resta a angústia por todos os lados, gerando efeitos de desbussolamento nos sujeitos contemporâneos (Miller, 1997; 2005a). As manifestações clínicas, que acompanham a nova ordem simbólica, não fazem apelo à decifração inconsciente, mas estão localizadas como uma marca de um gozo aditivo (Miller, 1997; Recalcati, 2004; Trobas, 2005). Nesses moldes, não há necessidade de recorrer à alteridade para dar conta do mal-estar: na medida em que sujeito e objeto são indissociáveis, goza-se na autofagia, consumindo os objetos em uma escala infinita.
A angústia está relacionada à presença do Outro, resguardando uma relação com o desejo (Laurent, 2007). Na contemporaneidade, não há espaço para que o desejo se manifeste, posto que o espaço para a falta está tamponado. Diante disso, Recalcati (2004) destaca a necessidade de prescindir das novas nomeações e escutar aquilo que o sujeito fala, para além da convulsão da demanda, a fim de fazer advir o sujeito do inconsciente. O livro A sociedade do sintoma (Laurent, 2007), no capítulo “desangustiar”, apresenta três casos clínicos que demonstram essa perspectiva: no primeiro, a angústia pôde ser deslocada pelo sintoma, que realiza a sua circunscrição; no segundo, durante o trabalho de transferência, a elaboração da fantasia emoldura a angústia; no último, estabelece os manejos realizados pelo analista, como parceiro, para dar conta de uma angústia não-circunscrita.
Nos três casos, cada um de acordo com o seu manejo, fica claro que para desangustiar é preciso inserir uma questão sobre o desejo, fazendo-o circular (Laurent, 2007). A primeira saída apontada demonstra que é necessário fazer consistir o sintoma como um enigma. Esse movimento de sistematização do sintoma evidencia a lacuna no saber e a dimensão da falta-a-ser, possibilitando a circulação do desejo que tem o recrudescimento da angústia como efeito. No caso de psicose, o analista atua como um parceiro-sintoma, auxiliando a paciente a elaborar, a partir de seu narcisismo, uma imagem capaz de conter as fissuras na imagem especular, promovendo uma estabilização perante o acúmulo da angústia (Boa Morte & Barros, 2023; Laurent, 2007, p. 124). Entretanto nosso interesse reside no seguinte caso, sobre o qual trataremos com mais detalhes.
No caso exposto por Laurent (2007), o paciente apresentava um aspecto principal: seu interesse por mulheres comprometidas, despertando a inimizade de seus companheiros ao elegê-las como objeto de amor. Esse fato desperta impulsos de agredir com armas brancas os companheiros das mulheres com quem se envolve, e seu hábito de se masturbar sob uma capa de chuva que sua mãe insistia que usasse. Ao longo de sua análise, relata duas situações: uma lembrança da infância, em que era abusado por um educador amigo em um ambiente que continha um machado; uma segunda situação em que flagra sua mãe/irmã pelada no banheiro, cuja cortina era do mesmo material da capa de chuva em que se masturbava. Em um momento em que deixa de efetuar o pagamento das sessões, tilintam moedas em seu bolso e relembra uma canção de um marinheiro devedor, lembrando que a canção terminava com uma facada. O analista percebe aí a instalação da transferência em sua vertente negativa.
Duas semanas depois desse episódio, diz que está sendo afetado por evacuações suspeitas e que vê algo branco, semelhante a sêmen, misturado às suas fezes. Laurent interpreta que as fezes representam aquilo que constitui o seu esforço de dar consistência ao Outro feminino: a mulher que ele convoca a isso, tal como a capa de chuva sob a qual ele se masturba. Durante o trabalho de transferência, a cena traumática em que confronta a diferença sexual é atualizada na construção da fantasia, uma faca aparece como elemento extra ali acrescentado naquele banheiro. A faca é o machado da cena de sedução abusiva deslocado para a fantasia, significantes que evocam a dimensão de negativação do falo, o horror à castração, que se torna evidente na agressividade aos rivais. Posteriormente, em um sonho, compartilha a casa com sua mãe, irmã e tia, que estão em outro cômodo, e ao abrir uma mala que estava em seu cômodo vê que ela contém roupas íntimas banhadas em sangue. A partir daí, percebemos o papel fundamental da construção da fantasia, que aparece na transferência para enquadrar a angústia, possibilitando que o sintoma possa consistir. A fantasia, que encenada pela masturbação sob a capa de chuva, mediante o horror à castração, desvela o seu objeto e a sua forma de satisfação deformada do sintoma, que, sob transferência, pode ser aparelhada ao simbólico, ganhando um tratamento pela fala.
Considerações finais
Segundo o entendimento corrente da Associação Mundial de Psicanálise, linha à qual este trabalho adere, entendemos que com a ascensão do objeto a ao zênite social, que enfatiza a fundo de angústia sob o qual se desenrola a nova ordem simbólica, pode-se chegar ao gozo prescindindo da fantasia (Miller, 2005b). A confluência entre os discursos do capitalista e da ciência atuam na produção massificada de objetos, desfazendo a fantasia como possibilidade. Com a queda do uso sexual da fantasia, o que falta aos sujeitos é justamente a fala, de modo que a nova ordem simbólica se desenrola estampada sob um fundo de angústia (Miller, 2005b). Seguindo a linha estabelecida por Trobas (2005), entendemos que não se trata de uma nova modalidade de angústia, mas da angústia de sempre, visto que os sujeitos prescindem da fantasia para medir a sua distância com o objeto, que aparece para tamponar a falta-a-ser. Com o objeto sempre à mão, não é preciso recorrer ao Outro da linguagem para explicar o seu sofrimento, de modo que os novos sintomas, tributários da época do Outro que não existe, não comunicam mais algo da falta, aparecendo na vertente do mais de gozar (Sinatra, 2009).
Podemos tomar como exemplo a Ansiedade Paroxística ou Transtorno de Pânico, diagnóstico presente no capítulo V da décima revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), caracterizado “pela presença de ataques de pânico recorrentes que consistem em uma sensação de medo ou mal-estar intenso acompanhada de sintomas físicos e cognitivos e que se iniciam de forma brusca, alcançando intensidade máxima em até 10 minutos” (Salum, Blaya, & Manfro, 2009, p. 87). Sem a fantasia para fazer moldura para a angústia, as antigas fobias, tais como nos clássicos casos clínicos tratados por Freud em sua época, como o Caso Hans e o caso Homem dos Lobos, são transformadas em desordens que se manifestam como efeitos repentinos sentidos no corpo: uma angústia deslocalizada, que vem de tudo e de lugar nenhum (Fingerman, 2016). Esses sintomas mudos guardam uma particularidade com as neuroses atuais descritas por Freud, caracterizadas por um aditivo de angústia, cujos efeitos se manifestam direto no corpo (Trobas, 2005; Laurent, 2007).
Se por um lado essas nomeações fornecidas pelo avanço da ciência esvaziam os sujeitos do saber sobre o seu próprio sofrimento, por outro, servem como signos que doam aos sujeitos um quinhão de identidade, favorecendo um reconhecimento entre os que apresentam o mesmo CID, reunidos em bolhas de gozo, pequenos comitês de ética que pululam com a ascensão das redes sociais características do mundo globalizado (Miller, 2005b).
Este trabalho é fruto de uma pesquisa continuada, que não pretende esgotar as possibilidades de investigação sobre o tema, mas compõe uma frente mais ampla de pesquisa acerca do mal-estar e seus efeitos na estrutura dos sujeitos. Dito isso, salientamos que Miller define a Psicanálise enquadrada sob o signo de clínica sob transferência (Motta, 1998). Tomando como referência o caso de Laurent (2007), apresentado anteriormente, é possível perceber que a Psicanálise pode contribuir para amainar algo desse mal-estar na contemporaneidade. Ao introduzir a associação livre como regra fundamental, abre a possibilidade de deslizamento da cadeia significante, paralisada pelo gozo, permitindo aos sujeitos que, diante de um objeto, possam se dar conta de que não é isso, percebendo que objeto causa está perdido, vislumbrando a falta-a-ser.
No trabalho de transferência, o analista se constitui como um parceiro, auxiliando o analisando a construir a sua fantasia, cuja atuação vela o insuportável da angústia, enquadrando o objeto a, isso é: desangustiar, fazendo surgir o desejo como questão (Laurent, 2007), e, assim, amainando algo do sofrimento característico do mal-estar contemporâneo. Desse modo, a fantasia pode enquadrar a angústia e o gozo excessivo, tônicas da contemporaneidade (Lacan, 1962-1963/2005).














