Introdução
Em 1892, o escritor português Eça de Queiroz (1845-1900) lançou, através de episódios, seu famoso conto “Civilização”, no jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. A prosa, como haveria de se averiguar posteriormente, seria diminuta, mas carregaria toda picardia e olhar crítico bem-humorado do famoso autor de “O Primo Basílio” e “Os Maias” sobre a decadência espiritual da burguesia portuguesa no fim do século XIX e a obsessão desse grupo social pelo acelerado progresso tecnológico que já se observava naquela época. O conto se mantém atual e oportuniza reflexões muito úteis sobre a sociedade do consumo, a modernidade líquida e a dicotomia entre a vida urbana e a rural, o que permite um diálogo com outros olhares sobre a sociedade e seu necessário processo civilizatório.
Em 1929, o médico neurologista Sigmund Freud publicou a obra “O mal-estar na civilização” com o propósito de demonstrar como se dá a busca do sujeito pela felicidade enquanto averigua a dicotomia entre as exigências pulsionais, que são internas, e as restrições da cultura, fator externo. Para Freud (1930/2010b), o eu é o resultado que se opera na relação com o outro mediado pela linguagem. O eu é resultante da falta do objeto de afeto primário (a mãe) revelado nas interlocuções com os demais objetos escolhidos pelo sujeito ao longo da vida. Logo, segundo Freud, a relação em sociedade se torna um mal necessário. Qualquer senso de unidade através das relações sociais, para o autor, se faz por motivos econômicos, e não por ideal, para a necessária condição de sobrevivência.Assim, o homem é forçado a considerar o Eros sob limites da pulsão de morte (Thanato) enquanto lida com o rescaldo de agressividade como resposta às severas imposições do superego quando combate as necessidades de satisfação imediata. A felicidade, portanto,é um valor individual que responde ao princípio do prazer. Resultado que se dá entre ausência de sofrimento (ou desprazer) e as experiências prazerosas; portanto, é vinculada a um contraste e, por isso, impossível de ser alcançada em sua plenitude.
Quase cinco décadas separam a publicação das duas obras. Ainda assim, hoje, no panorama geral da História, é possível observar que ambos os autores vivenciaram a filosofia positivista, foram testemunhas da Belle Èpoque na Europa e das transformações de mentalidade operadas no fim do século XIX. Desenhar uma relação proveitosa entre a literatura crítica de Eça de Queiroz e a teoria psicanalítica de Freud é um exercício intelectual e uma forma criativa e divertida de realizar um debate sobre o mundo contemporâneo e sobre a cultura, com o objetivo de tentar compreender a sociedade atual e sua busca por felicidade e por novas formas de representação e de compensação.
Esta pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada em uma revisão bibliográfica, que tem como propósito analisar, sob o ponto de vista psicanalítico e filosófico, o conto “Civilização” e os escritos teóricos sobre “O mal-estar na civilização”, com objetivo de apontar a distância epistemológica que existe entre os conceitos de civilização e de felicidade propostos pelos autores, suas convergências e divergências, além da possibilidade de relacionar tais conceitos com a sociedade contemporânea, marcada pelo consumismo e pela modernidade líquida.
Para tanto, no primeiro capítulo, serão expostos os argumentos de Queiroz (1892/2022) sobre civilização e felicidade com análise subjetiva de Tolomei (2018) e Tufano (1996). Ficará evidente que o autor português possui severas críticas ao consumismo e à construção de uma sociedade mediada e facilitada pelas máquinas, ao urbanismo, ao excesso que causa fastio e ao ideal burguês de conforto e de solução rápida para os conflitos.
No segundo capítulo, há um debate entre a obra de Queiroz e e a de Freud sobre civilização e felicidade, com esclarecimento sobre as convergências marcadas por críticas à modernidade artificial e ao excesso como forma de compensação. Também, será debatida a abominação que o sujeito urbano possui em relação ao seu passado primitivo. Por último, as divergências: enquanto Queiroz encontra uma felicidade possível no retorno a uma vida mais simples e natural, reservada ao ambiente campestre, Freud, através dos olhares de Lustoza, Cardoso e Calazans (2014) e de Falbo (2005),marca a felicidade como um evento pontual que poderá ser alcançado apenas através do deslocamento das pulsões e da sublimação.
No terceiro capítulo, haverá um debate sobre como os conceitos de felicidade e civilização, que podem ser compreendidos nos tempos contemporâneos marcados pelo neoliberalismo, pelo consumismo e pela modernidade líquida. Para tanto, são observadas as referências históricas e filosóficas de Harari (2018, 2020), Han (2022) e Bauman (2013).
As considerações finais deste artigo demonstrarão que, antes dos primórdios da Psicanálise e da Psicologia, as discussões sobre os humores humanos eram popularmente apresentadas pelos escritores e artistas baseados em histórias da ficção, da liturgia ou da mitologia. A partir de Freud e de Queiroz,serão apresentados os paradoxos e as contradições dos seres humanos que buscam felicidade e destaque social a partir do consumismo e a percepção de que o homem deseja ser um elemento à parte da natureza com a utilização da tecnologia como elemento compensatório ao desamparo e à angústia.
O excesso de civilização
Mediante uma sequência de episódios cômicos, Eça de Queiroz (1892/2022) revela, em seu conto “Civilização”, seu descontentamento com a vida materialista e expõe um olhar crítico sobre a busca da burguesia portuguesa por felicidade através do consumo das novas formas de tecnologia vigentes no final do século XIX.
O protagonista da história, Jacinto, é um homem rico envolto em regalias próprias da vida moderna. O personagem representa a insatisfação e a angústia vividas pela civilização industrial enquanto carrega consigo a influência da filosofia positivista de Augusto Comte (1798-1857), que o obriga a valorizar a ciência e o progresso como solução para o tédio (Tufano, 1996).
O autor de “Os Maias” e de “Primo Basílio” aponta, como soluções para o dilema de Jacinto, a fuga para o campo, o contato direto com a natureza e a simplicidade da vida rural. A crítica à civilização atinge seu ápice quando o narrador, ao visitar a antiga casa de Jacinto na cidade, encontra os aparelhos modernos em estado de decadência, o que simboliza a falência da civilização e sua desconexão com a verdadeira felicidade.
Primordial salientar que Eça de Queiroz possui grande importância para a Literatura brasileira, pois rompeu com a lógica romântica para apresentar um mundo materialista e cheio de defeitos que o caracterizam. A influência do Realismo no Brasil é sentida na literatura de Machado de Assis – principalmente em “Dom Casmurro” – e na figura de Aluísio Azevedo, autor de “A Mulata” e “O Cortiço”:
. . . os leitores brasileiros intensificaram a sua aproximação com a obra de Eça de Queiroz, dando início ao chamado culto ao escritor português no país. Esse processo de conhecimento da obra queirosiana dá ao Brasil lugar de destaque na divulgação e análise dos textos queirosianos, já que a recepção no país foi mais intensa do que em Portugal
(Tolomei, 2018, p. 2).
O advento do Realismo no Brasil oportuniza um olhar mais racional, realístico e crítico sobre o indivíduo e grupos sociais em uma época,na quala Psicologia e a Sociologia ainda eram restritas a pequenos círculos acadêmicos na Europa e nos Estados Unidos.
Em “Civilização”, o narrador – alter ego de Eça – se torna um demolidor irônico e transforma-se em um entusiasta do passado rural de Portugal para destacar a alienação e a burocratização das elites do país em relação ao fatídico progresso. A obra impõe oposição entre cidade e campo e antecipa questões recorrentes do século vindouro, como: a importância do resgate da vida natural, a necessária análise crítica ao consumismo e a crítica ao individualismo e à decadência da artificialidade urbana (Tufano, 1996).
Nessa perspectiva, Henry David Thoreau (1817-1862), em seu livro “A vida nos bosques”, que também se tornou um clássico e influenciou uma consciência ecológica, indicava o bosque, a mata, a floresta, o campo e a natureza para sentir o “calor vital”, a felicidade. Henry acreditava que, para bem viver, menos pode ser mais. Recomendava: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade” (Thoreau, 2019, p. 97).
O conto de Eça remonta ainda algumas características próprias da literatura do século XIX como a importância (exagerada) de se cantar a história de fidalgos e de aristocratas – mesmo que seja para desmerecê-los e remendá-los. Outra característica da obra consiste em certo deslumbre com a vida no campo e com a profecia de que as novas gerações fariam a chamada migração reversa – sairiam das cidades atopetadas para reencontrarem a riqueza do espírito e a paz nos campos.
Talvez, essa resolução para o conflito de “Civilização” seja motivada pelo ideal positivista que prenuncia o progresso através da chegada de novas gerações aparentemente dotadas de novas capacidades e, portanto, mais capazes de encontrar soluções inovadoras para problemas que desafiaram as gerações anteriores. É curioso observar que essa esperança nas futuras gerações ainda reside em tempos atuais, principalmente quando são abordadas resoluções de problemas estruturais antigos, como os complexos desafios do aquecimento global e as desigualdades históricas e estruturais.
Importante ressaltar que a profecia da migração reversa ditada por Queiroz não aconteceu nas décadas posteriores. No Brasil, a partir da terceira década do século XX, ocorreu o tardio processo de industrialização primária das grandes cidades, o que culminou em imenso deslocamento migratório de jovens sertanejos para os centros urbanos seduzidos pela promessa de bons salários e melhores perspectivas de vida (Prado Júnior, 1970).
Característica significativa de ser destacada no conto de Queiroz (1892/2022) é o fatalismo exposto na primeira parte da obra sobre aqueles que carregam consigo a dor e a tristeza de ostentar muitos conhecimentos sobre o mundo. Enfadonho, o pobre e rico Jacinto possui um livro para cada ideia, um fim-de-mundo para cada conversa. É com curiosa inventividade e capacidade estético-literária que o autor filosofa sobre a necessidade de se abraçar a ciência, sem, contudo, desmerecer outras formas de conhecimento, com o risco de tornar-se prolixo.
Queiroz (1892/2022) revela um olhar crítico sobre os intelectuais e filósofos burgueses que revelam ideias novas sobre o mundo moderno, vencedores que são da guerra contra as pestes que desafiaram a vida humana em tempos medievais, mas que, contraditoriamente, não gozam de felicidade, ao contrário, dedicam-se à burocracia e à manutenção de uma existência comezinha, sem conexão com as verdadeiras experiências que a vida pode oferecer.
Que faltava a este homem excelente? Ele tinha a sua inabalável saúde de pinheiro bravo
. . . . E todavia bocejava constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as rugas. Aos trinta anos, Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto e pela morosidade desconsolada de toda a sua ação parecia ligado, desde os dedos até a vontade, pelas malhas apertadas duma rede que se não via e que o travava.Era doloroso testemunhar o fastio . . . mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o brado constante que lhe ia na alma: – que maçada!Que maçada!Claramente a vida era para Jacinto um cansaço
(Queiroz,1892/2022, pp. 15-16).
Eça de Queiroz (1892/2022) provoca uma reflexão profunda sobre os valores da sociedade contemporânea e sobre a busca incessante por avanços que, afinal, podem levar à desilusão e ao afastamento da verdadeira essência da vida. A visão do narrador sobre a virada do século XIX para o século XX expõe, ao longo do conto, os efeitos colaterais da Revolução Industrial na Europa e ressalta a transitoriedade das inovações e a futilidade de uma busca desenfreada pelo progresso e pelo conforto demasiado.
A crítica à modernidade culmina na reflexão paradoxal do empregado de Jacinto, que dizia que “sua excelência sofria de fartura” (Queiroz, 1892/2022, p. 17). O narrador investe na ideia de que o conforto enfraquecia o espírito do protagonista e o torturava – haja vista que não era senhor das coisas, mas escravo delas.
Cada um desses utensílios de aço, de marfim, de prata, impunham o meu amigo, pela influência unipoderosa que as coisas exercem sobre o dono o dever de utilizar com aptidão e deferência. E assim as operações do alongamento de Jacinto apresentavam a prolixidade, referente e insuprimível, dos ritos de um sacrifício
(Queiroz, 1892/2022,p. 14).
Queiroz (1892/2022) propõe uma reflexão sobre os efeitos colaterais do progresso. São narrados diversos transtornos psicológicos sofridos pelo protagonista devido à sua dependência de tecnologia,ao seu comportamento individualista, soberbo e introspectivo, à procura pelo conforto absoluto, à busca pela alegria através do consumo, à necessidade de ser servido e à busca por uma praticidade maquinal que rouba dele a riqueza de espírito e a própria humanidade.
O autor português coloca em debate temas que se tornariam consagrados no campo da Psicologia, como transtornos mentais, crenças limitantes e atrasos cognitivos. Aborda ainda, de forma prematura, temas que hoje são caros à Psicologia Social, como a questão da ancoragem de novos temas em situações de paradigma social, alienação das elites, os fatalismos, os estados de exceção legitimados pelos poderes econômicos, a busca pela felicidade e as tendências sociais.
Além disso, aproxima-setambém de temas que seriam explorados pela Psicanálise ao longo de todo o século XX e neste começo de século XXI: o modelo econômico da mente, a busca incessante pelo prazer, a busca pelo estado de plenitude, a contrariedade com as castrações, as relações objetais, a supressão da falta pelo consumo e a legitimação do narcisismo primário que causa grande mal-estar à civilização.
A felicidade, para Queiroz (1892/2022), possui uma referência mais estética do que existencial, é um determinismo comum do homem e que deve estar atrelada à simplicidade e ao olhar sobre o belo e sobre os elementos naturais já dispostos pela natureza maternal e pela entidade patriarcal divina. Em um momento de inspiração, o narrador reflete:
Todos somos obras da mesma vontade . . . governada pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se somem as responsabilidades torturantes do individualismo. Que somosnós? Forma sem força, que uma Força impele. E há um descanso delicioso nesta certeza,mesmo fugitiva de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no grande vento o agora perdida na torrente
(p. 28).
É um olhar particularmente artístico, ideológico e litúrgico sobre a felicidade. Para alcançar o belo, Queiroz (1892/2022) propõe a autoanálise e a avaliação do estilo de vida, o aproveitamento das oportunidades dadas pelo destino e a conjugação dos instintos humanos com a inteligência para reconhecer a importância de viver com simplicidade e em comunhão com a natureza.
Convergências e divergências entre Queiroz e Freud
Os textos “Civilização”, de Eça de Queiroz, e “O mal-estar na civilização”, de Freud, embora pertencentes a diferentes gêneros literários, compartilham uma temática central: a crítica à sociedade e aos desafios enfrentados pela humanidade no contexto civilizatório.
As obras falam de certo horror do homem em relação ao seu passado primitivo e da fuga para um estilo de vida artificial legalizado pela cultura, além de explorarem a dicotomia entre avanços culturais e tecnológicos e as complexidades das relações humanas em época contemporânea.
Enquanto a obra de Queiroz (1892/2022) revela fatores sociais a partir do comportamento individual – ou seja, traz um olhar estruturalista sobre a sociedade –, a obra de Freud (1930/2010b) parte da sociedade para o indivíduo – e busca revelações sobre a qualidade do pensamento humano a partir dos interesses sociais.
Ao passo que Queiroz (1892/2022) propõe a fuga para o campo como solução para a pobreza de espírito do homem contemporâneo, Freud (1930/2010b) sugere a coexistência entre pulsões e normas sociais como um mal necessário para a preservação da humanidade. Em suma, os textos convergem ao abordarem a tensão entre o individual e o coletivo, a busca por felicidade em meio às exigências da civilização e os desafios éticos enfrentados pela humanidade. Assim, ambos,à sua maneira, provocam uma reflexão profunda sobre os fundamentos da sociedade e os compromissos necessários para sua preservação.
Em “Civilização”, Queiroz (1892/2022) satiriza a classe burguesa do século XIX, representada por Jacinto, e sua busca incessante por inovações científicas e tecnológicas. O conto reflete a insatisfação gerada pela vida materialista e ressalta a ironia do progresso que, ao invés de proporcionar felicidade, resulta em vazios existenciais. Essa crítica é simbolizada pela fartura decadente na casa de Jacinto e aponta para a desconexão entre a civilização e a verdadeira essência da vida.
Em “O mal-estar na civilização”, Freud (1930/2010b) aborda a tensão entre pulsões individuais e restrições culturais. Freud destaca os paradoxos da satisfação na busca pela felicidade em meio às exigências da civilização. Revela preocupação com a preservação da humanidade diante das tendências destrutivas e do conflito entre a natureza humana e as demandas civilizacionais. Para tanto, reconhece a necessidade de desviar impulsos agressivos para evitar a autodestruição da espécie e enfatiza que Eros, o amor, é um esforço econômico essencial para a preservação da humanidade. Contudo, além de alertar sobre os limites desse amor, destaca a presença de Thanatos e os riscos associados à intensificação da agressividade ante a censura do superego (Falbo, 2005).Assim, a tensão entre os rigores do superego e o ego ganha status de culpa e se manifesta como necessidade de punição. Nesse sentido, a agressividade é introjetada e o que impede que ela se manifeste de forma externa é um forte desejo de preservação, chamado de consciência moral (Freud, 1930/2010b).
A trilha argumentativa de Freud (1930/2010b) aborda a agressividade inerente ao ser humano e ressalta a complexidade das relações entre instintos primitivos e normas sociais, o que provoca uma análise crítica sobre a busca pela felicidade em meio aos paradoxos da satisfação. Oferece, portanto, um olhar profundo sobre a ética e os desafios inerentes à convivência humana e incentiva a reflexão sobre os fundamentos da civilização e os compromissos necessários para sua preservação (Lustoza et al., 2014).
Jacques Lacan (1975/2007), posteriormente, abordaria a importância da falta no sujeito do inconsciente, sem a qual não há possibilidade de desenvolvimento e de gozo. Afinal, é da falta que nascem os desejos. Lacan revelaria ainda que a nova sociedade padece quando tenta tamponar suas necessidades com o consumo exacerbado e ao tentar, em vão, disfarçar, legitimar e naturalizar seus sintomas.
Essa temática, hoje tão debatida na Academia, aparecia documentada de forma crepuscular no conto de Queiroz (1892/2022). A diferença entre o olhar de Queiroz e o de Freud (1930/2010b) está na forma como o sujeito deve encontrar-se com a felicidade. Enquanto o escritor português defende um retorno ao paraíso natural e belo para o reencontro com a felicidade, o criador da Psicanálise defende que a felicidade não pode ser alcançada pelo homem socializado e que este precisa conhecer os limites de seus desejos primitivos e aprender a se relacionar com a angústia resultante da castração.
Freud (1930/2010b) acreditava que a felicidade é um estado momentâneo, possível em situação de deslocamento das pulsões, isto é, após o alívio das tensões. Mas, a felicidade seria limitada pela própria estrutura psíquica e social do indivíduo, que busca continuamente reduzir a tensão e evitar o desprazer, um estado que o indivíduo não consegue sustentar continuamente. A consciência moral, um aspecto específico do superego composta pela internalização das normas e dos valores sociais, possui a função de reprimir as pulsões desagregadoras, o que gera tensão interna e culpa,como também conflitos e mal-estar. Importa salientar que o conceito de felicidade em Freud está associado à realização. Com isso, uma situação de mal-estar pode gerar no sujeito compromissos desiderativos que, uma vez sublimados, poderão produzir uma sensação pontual de felicidade.
O conto de Queiroz (1892/2022) aborda, com muita acuidade, este tema do bem-estar pontual causado pelo consumismo e pela utilização de tecnologia. Após a breve sensação de euforia, o protagonista de “Civilização” experimenta forte sensação de dependência, de alienação, de fastio e de depressão. Nesse sentido, é imperioso lembrar a máxima freudiana sobre o modelo econômico da mente que defende a teoria de que todo homem procura o prazer através do menor gasto de energia possível. Esse pragmatismo do aparelho executivo do homem responde às necessidades ancestrais de gastar energia apenas em situações necessárias, a fim de se garantir a preservação da vida (Freud, 1910/2010a).
Nessa perspectiva, cabe indagar: será que o suposto bem-estar alcançado pelo progresso e pela revolução tecnológica moderna oportuniza ao ser humano suprimir sua necessidade instintiva de poupar energia? Portanto, estaria o ser humano em uma dimensão completamente desconhecida onde sua construção não dependerá mais de suas necessidades mais primitivas? Até que ponto as pessoas estão preparadas para essa nova (e virtual) realidade, esse deslocamento sem condensação, essa promessa de gozo permanente sem a emergência desconfortável das construções?
Na época de Freud, a moral da sociedade repressiva promovia a interdição do gozo; já hoje, em que está proibido proibir, em que a barreira ao gozo parece ter sido removida, os sujeitos parecem concluir que tudo é permitido.
O filósofo Gilles Lipovetsky chama a sociedade de pós-moralista, na medida em que colocaria em jogo um crepúsculo do dever. Já Zizek sublinha não exatamente uma ausência de dever, mas uma nova qualidade de dever, em que o gozar torna-se uma obrigação moral
(Lustoza et al., 2014, p. 2).
Outro aspecto psicanalítico que encontra aderência com a proposta temática do conto de Queiroz (1892/2022) é o narcisismo objetal, ou seja, a projeção do eu nos objetos de afeto: até que ponto o homem deseja matar o estranho dentro de si e representar seu ideal de ego em seus objetos de desejo – no caso de Jacinto, os aparelhos tecnológicos? Até que ponto é possível para um homem rico como Jacinto explorar essa possibilidade no limite da excentricidade? Nesse contexto, segundo Eça, a tecnologia entregaria o sujeito a si mesmo em uma espécie de individualismo disfarçado de autenticidade e autossuficiência.
O mal-estar na civilização atual
Após a Pandemia do Coronavírus e seu necessário período de distanciamento social, observou-se uma propensão, principalmente entre os mais jovens, ao individualismo e à autoerotização intensificada pelo uso exacerbado dos meios tecnológicos (Roriz, 2023).
Como professado pelo filósofo Byung Chul Han (2022), a imersão nas redes sociais cria bolhas que traduzem o mundo de acordo com a demanda de cada sujeito: o usuário, portanto, exclui o outro da equação social, é envolvido pela “fita do eu” e acaba doutrinado por suas próprias ideias.
Diante da análise sobre a sociedade digital contemporânea, é possível identificar que a formação e a perpetuação das bolhas online representam um desafio significativo para a construção de uma sociabilidade genuína.
Se no conto de Eça de Queiroz, o protagonista se tornava escravo de seus fonógrafos e teatrophones, o que dizer da atual hiperconectividade e da espetacularização do “eu” das plataformas digitais? Elas criam um cenário em que a autopreservação ilusória, semelhante à narrativa mitológica de Narciso, se torna prevalente (Deslandes& Coutinho, 2020; Harari, 2020).
A conexão estabelecida entre a individualização promovida pelo liberalismo, conforme argumentado por Harari (2018) e Han (2022), e a criação das bolhas online destacam a natureza intrínseca do fenômeno do individualismo dentro da sociedade contemporânea.
Diante das desconcertantes características da vida líquida – moderna, Bauman (2013) alerta que muitos jovens tendem a se isolar no mundo online de relacionamentos virtuais, na depressão, no abuso do álcool ou de drogas. Outros se lançam a formas violentas de comportamentos, como gangues de rua e os grupos de protesto difuso – recursos usados pelos excluídos dos tempos de consumo, mas ávidos por participarem do mercado.
A tendência de legitimar ideias e perspectivas que reforçam os próprios valores dentro dessas bolhas tecnológicas evidencia não apenas a falta de coragem do sujeito diante da necessária prática do diálogo e da diversidade de opiniões, mas também sua propensão à reclusão em ambientes digitais que confirmem suas convicções individuais e o consumismo infértil.
A necessidade de reconhecimento midiático é hoje foco de ansiedades e de fantasias que colocam o sujeito contra a realidade. Nesse sentido, a construção de bolhas online representa um desafio para a autenticidade das interações sociais fora do mundo virtual e impõe a necessidade de debates sobre os rumos da sociabilidade em plena era digital (Roriz, 2023).
Nesse contexto, a busca incessante pelo reconhecimento midiático da persona resulta em formas exóticas de alienação cultural, o que alimenta o autoerotismo exacerbado. E esse tem sido um tema recorrente nos consultórios de Psicanálise e nas faculdades de Psicologia.
Portanto, vale indagar: as redes sociais e seus algoritmos buscam recriar uma espécie de paraíso particular? Seria esse o paraíso de Queiroz (1892/2022) ou o nirvana freudiano que promete um universo de evocação da própria voz em detrimento do desconforto das vozes multidimensionais que são encontrados no mundo real?
Nesse particular, há mais um ponto de debate entre Freud e Queiroz. O psicanalista defende que a mente deseja alcançar êxitos com o mínimo de esforço possível (Freud,1920/1976), isto é, reduzir e suprimir a tensão interna de estímulo, algo nomeado por Barbara Low (1920) de busca pelo nirvana. Já o escritor português defende que a felicidade está no trabalho rural, na relação familiar e no retorno aos ambientes naturais (Queiroz, 1892/2022).
Desde os tempos de Eça de Queiroz, o avanço tecnológico parece trazer inúmeras comodidades à vida cotidiana, mas também está associado a um aumento significativo nos problemas de saúde. O excesso de consumo de tecnologia, como o uso constante de dispositivos eletrônicos e a exposição prolongada às redes sociais, tem sido correlacionado com a ansiedade, a depressão e outros transtornos psicológicos (Deslandes& Coutinho, 2020).
O desejo pelo gozo imediato gera, principalmente nos mais jovens, um comprometimento com o ambiente virtual. Há ainda a constante pressão para estar conectado e atualizado, o que pode levar a um estilo de vida sedentário, levando a um impacto na saúde física e mental. Além disso, o vício em tecnologia pode resultar em distúrbios do sono, prejudicar o sistema imunológico e aumentar o risco de doenças crônicas (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura [UNESCO], 2023).
Dentre os malefícios constatados em pesquisas como as da UNESCO (2023), de Roriz (2023) e de Deslandes e Coutinho (2020), destaca-se a exposição excessiva a computadores e celulares, o que prejudica a postura, a visão ea audição e intensifica o isolamento dos mais jovens. Nesse sentido, há um movimento incansável de educadores para esclarecer que é no ambiente real de convívio – parques, escolas, comunidades – que ocorre o fortalecimento de laços sociais, particularmente crianças e adolescentes que são nativos da era digital. Nesse cenário, observa-se um notável aumento nos índices de problemas de saúde mental, como a depressão e o fenômeno do suicídio, especialmente entre os adolescentes e adultos jovens (Grabowski et al., 2020).
No ano de 2023, o relatório da UNESCO sobre o uso excessivo de tecnologias abordou o crescimento de disfunções comportamentais e possíveis distúrbios mentais, além dos atrasos no desenvolvimento decorrentes do amplo uso de celulares, computadores e internet. A dependência excessiva da tecnologia também está relacionada aos problemas físicos, como dores musculares, dores de cabeça e distúrbios oculares. O tempo prolongado diante de telas eletrônicas contribui para a chamada “síndrome da visão de computador”, que inclui sintomas como olhos secos, visão embaçada e fadiga ocular. Além disso, a postura inadequada ao utilizar dispositivos móveis e computadores pode resultar em dores nas costas e no pescoço.
O desequilíbrio entre o uso da tecnologia e a atenção à saúde mental e física tornou-se uma preocupação global, o que exige uma abordagem equilibrada para a preservação do bem-estar em um mundo cada vez mais digitalizado, competitivo e individualizado (Roriz, 2023).
A humanidade atual busca o prazer incansavelmente, mas contraditoriamente nunca esteve tão insatisfeita e infeliz. Diante da demanda de pessoas como Jacinto, protagonista de Queiroz (1892/2022), que padece desse “antigo-novo” mal-estar marcado pelos excessos e pela necessidade – quase obrigação – de um gozo permanente, há novos espaços para debates sobre o narciso, sobre as pulsões de vida e de morte, sobre a importância da castração e sobre os caminhos tomados pela sociedade em sua forma de representar seus sofrimentos – mesmo aqueles marcados pela fartura e pelo decorrente desencanto com a vida.
Considerações finais
As obras “Civilização”, de Eça de Queiroz, e “O mal-estar na civilização”, de Sigmund Freud, pertencem a gêneros literários distintos, mas convergem em uma crítica profunda à sociedade e aos desafios enfrentados pela humanidade no contexto civilizatório. Torna-se visível, através do conto de Queirós (1892/2022), que, antes do advento da Psicologia, cabia aos mitos, à liturgia e às artes a apresentação, a representação e a popularização de modelos e de retratos sobre os fenômenos psíquicos e desiderativos do ser humano.
Ambos os textos relacionam fenômenos sociais com as consequências emocionais e comportamentais para os indivíduos e exploram a busca pela felicidade em meio às exigências da civilização e em meio aos desafios éticos enfrentados pela humanidade. Os dois escritos remontam o desejo de superação do homem dentro do cenário natural – ser algo à parte da natureza, para fugir do desprazer, da sensação de desamparo e da angústia. Esse homem contemporâneo, que tenta ser imortal através das máquinas, é nomeado por Harari (2016) como “Homo-Deus”.
Em “Civilização”, a sátira de Queiroz (1892/2022) à classe burguesa do século XIX destaca a insatisfação gerada pela vida materialista e a ironia do progresso simbolizada pela fartura decadente na casa de Jacinto. Em “O mal-estar na civilização”, e em outras obras freudianas, Freud explora a tensão entre pulsões primitivas e restrições culturais, alerta sobre os limites do amor e destaca os paradoxos da busca pela felicidade (o que o sujeito deseja de si, ou seu ego ideal) em meio às exigências da civilização (o que o meio deseja do sujeito, ou seu ideal de ego).
Em “Civilização”, o protagonista Jacinto termina seus dias em um lugar feliz longe das enfadonhas parafernálias tecnológicas, no alto de uma montanha em Torges, de onde seu amigo e narrador da história espera que ele se reproduza e faça descer dali uma tribo de descendentes. No olhar feudal, romântico e religioso, esse seria o caminho adotado pelas próximas gerações de portugueses, cansadas da vida tecnológica oferecida pela cidade grande. O livro termina com um eco: “a sapiência está em recuar até o mínimo de civilização . . . em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso” (Queiroz, 1892/2022,p. 35). É nesse ponto que a obra de Queiroz e a obra de Freud divergem. Freud (1930/2010b) não acredita nesse regresso ao paraíso e sacramenta que a maldição do homem, em busca de nova terra prometida, migra por um deserto localizado entre seus instintos passionais e sua recém-constituída referência civilizatória.
Assim, a Psicanálise oportuniza, a partir da segunda tópica freudiana, uma visão teórica sobre o desejo humano e suas limitações. Qualquer formatação de paraíso estaria reservada à fantasia de plenitude perante a falta do objeto primário desde a infância – e por isso mesmo, é um reflexo do princípio econômico da mente.
Nesse sentido, esta pesquisa apontou um debate antes oculto entre as duas obras. Os argumentos se aproximam quando refletem a condição do homem civilizado disposto a compensar suas faltas e a sensação de desamparo através do consumo, do refreamento de seus instintos e do afastamento do mundo natural. Enquanto Queiroz (1892/2022) expõe um conto fictício com comentários que remetem o leitor a uma reflexão sobre os excessos tecnológicos e a necessidade de um retorno ao paraíso perdido, Freud (1930/2010b), através de seus estudos, ressalta que esse paraíso se constitui no útero perdido – objeto que jamais poderá ser reconquistado através dos atos neuróticos que permeiam a linguagem, a relação social e a dicotomia entre o desejo e a realidade objetiva.
Como proposição para a continuação desta pesquisa no campo psicanalítico, sugere-se que os próximos pesquisadores reacendam a discussão lançada por Lacan (1975/2007),em seu “O Sinthoma”, sobre a atual sociedade do consumo, que busca tamponar a falta com representações simbólicas, cada vez mais pobres em significados, para constituir uma espécie de distração que impede a análise edípica e que naturaliza os sintomas psíquicos. Esses sintomas serão um objeto de espetáculo e de referência cultural – legitimado pela mídia e pela cultura tal qual apontado por Debord (1997) em seu ótimo “Sociedade do espetáculo”.Nessa perspectiva, cabem ainda várias perguntas de cunho filosófico: será que a civilização recuará ou avançará no sentido civilizatório?Em movimento de refluxo, reencontrará seu paraíso original através de um reencontro com o mundo natural e primitivo? Ou a busca pelo Nirvana levará a humanidade à exploração do limite civilizatório marcado pela angústia e pelo hiperconsumo desenfreado por novas formas de gozar a existência através das novas tecnologias?
Nesse sentido, será que Harari (2016) tem razão quando insiste em dizer que o ser humano cansou de sua mortalidade e de suas necessidades primárias e agora deseja, através dos recursos tecnológicos cada vez mais incorporados a seus fisiologismos, fazer nascer das cinzas de sua própria extinção – a extinção do homo sapiens – uma nova espécie, um homo-deus?Esse homo-deus seria uma evocação do narciso complementado por objetos que o reverenciam?
O filósofo francês Gilles Lipovetsky (2007) adverte que a felicidade não é, evidentemente, uma “ideia nova”. Nova é a ideia de ter associado a conquista da felicidade às “facilidades da vida”, ao progresso, à melhoria perpétua da existência material.Na voz do poeta Carlos Drummond de Andrade (1990): “Ser feliz sem motivo é a forma mais autêntica de felicidade” (p. 61).Em muitos momentos, a felicidade residirá na simplicidade do ouvir as histórias, ora inventadas, ora vividas, na tentativa de ser amado.














