Introdução
A supervisão on-line, assim como a história, é um processo e baseia-se em um fundamento – o que conta é o ser humano vivo, real, ancorado em seu presente. O fluxo da história, com os agravantes sindêmicos da covid-19, foi um admitir e envolver-se com os processos de atendimento virtual. Muitos psicanalistas já prestavam esse serviço há quase uma década. De minha parte, sempre havia sido contrária ao atendimento digital, por primar pela dimensão essencialmente presencial com o corpo, o afeto, a linguagem. Diante da reclusão social, dei-me conta de que era urgente preservar a saúde, respeitar o isolamento social e não abandonar a psicanálise, a qual brota das rupturas, do inesperado. Imediatamente providenciei o meu Cadastro e-Psi na plataforma do Conselho Federal de Psicologia para iniciar o novo cenário de home office.
Uma nova construção de atendimento clínico e prestação de supervisão on-line rapidamente se erguia.
Foi preciso um começo mutilado e unilateral, um começo abstrato e imperfeito, para encontrar o caminho do concreto. Foi preciso começar por um conhecimento sem conteúdo, por má compreensão, para encontrar o caminho da compreensão do conteúdo (Bensaïd, 1999, p. 339).
As significativas inovações tecnológicas, como a internet, pertinentes à quarta ferida narcísica da humanidade – o ciberespaço – que estão favorecendo sobretudo a comunicação, a busca e a troca de conhecimentos, tornaram-se uma potente ferramenta de contato social, com interação on-line.
É essencial refletir sobre nossas atividades on-line: “entender a dimensão da virtualidade intrínseca ao dispositivo psicanalítico, isto é, intrínseca à mente do analista” (Figueiredo, 2021, p. 73). Antes de mais nada, há que convir com Freud ([1937] 1975, p. 294), no seu texto Construções em análise, que o analista interpreta e faz construções assim como um arqueólogo, porém “a construção constitui apenas um trabalho preliminar no sentido de que a totalidade dela deve ser completada antes que o trabalho seguinte possa começar”. O psicanalista constrói a partir de uma memória, de uma formação inconsciente. Psicanálise não se constitui só na subjetividade, na interioridade, mas está no aqui e agora, em contínua relação com o mundo, com o meio, com os movimentos da natureza e da caminhada histórica. “O caminho do concreto ao concreto nunca é o mais curto. Vai dar, não raro, num beco sem saída”, como afirma Bensaïd (1999, p. 163). Psicanálise é dialética e está em constante movimento.
Freud ([1926] 1976, p. 258), em A questão da análise leiga, trata da necessidade de os candidatos à psicanálise passarem pelo tripé de formação: submeter-se à análise pessoal; receber informação teórica mediante conferências e seminários “sobre todos os assuntos que são importantes para eles; e desfrutarem da supervisão de analistas mais velhos e mais experimentados quando lhes é permitido fazer suas primeiras experiências”. Ser psicanalista envolve uma caminhada árdua, e o trabalho, que é de intensa responsabilidade, requer troca de ideias, pesquisa nas sociedades psicanalíticas, e “o preparo para atividade analítica de modo algum é fácil e simples”, escreve Freud ([1926] 1976, p. 259). O valor da vida é supremo e não pode ser reificado. Freud tinha amor pelo conhecimento, pela literatura, pela arte e interesse pelos fatos mais simples da vida cotidiana. Assim, alastrou “os campos de conhecimento do mundo e revolucionou a ciência revelando novas verdades”, como relata Landmann (1993, p. 93).
[...] na psicanálise tem existido desde o início um laço inseparável entre a cura e a pesquisa. O conhecimento trouxe êxito terapêutico. Era impossível tratar um paciente sem aprender algo de novo; foi impossível conseguir nova percepção sem perceber seus resultados benéficos. Nosso método analítico é o único em que essa preciosa conjunção é assegurada (Freud, [1926] 1976, p. 291).
Freud estava convencido da necessidade da supervisão, tanto é que ele
[...] fundamentou a autorização na análise didática. Sem ela não há analista. O que autoriza, em Freud, é a relação com o inconsciente e a disposição a deixá-lo falar. Dirá depois que é condição necessária, mas não suficiente (Zuberman, 2008, p. 20).
Para Safouan, Julien e Hoffman (1996), o papel do supervisor é o de refrator do relato que chega até ele por meio do supervisionando, envolvendo o decifrar da mesma linguagem cifrada pelo inconsciente e sua reverberação, criando o laço analítico. A arte da psicanálise, em sua gênese, lembra Ogden (2010, p. 17), é “um processo de inventar a si mesma durante o caminho [...]. A psicanálise é uma experiência emocional vivida. Como tal, ela não pode ser traduzida em palavras. Ela é o que é”. Cava o desejo do saber – política do desejo.
Embarcamos nos tempos da supervisão on-line, a qual também suscita encontro humano. O encontro humano acontece criando laços, desatando os nós de seu real. Isso toda vez que, entre a dupla terapêutica, em seu campo clínico, houver a chave que possibilita acesso a um espaço permissivo e seguro, justamente para que a expressão emocional, a troca de experiências e a aprendizagem significativa levem ao desenvolvimento de sua potência de ser, ao encontro de suas ações. “Para cada época, o presente histórico representa o coroamento de uma história consumada e a força inaugural de uma aventura que (re)começa” afirma Bensaïd (1999, p. 109). Do passado vale a tradição dinâmica. O futuro não nos pertence. O presente é o aqui e agora. “O tempo só existe pelas metamorfoses desse presente pontual, cuja cambiante persistência desafia a lógica do mesmo e do outro” (Bensaïd, 1999, p. 111). Há, metaforicamente, que surfar essa onda, enfrentar a realidade. Cada um de nós se movimenta conforme suas necessidades e contingências.
Considero que o psicanalista tem eticamente o dever de estar do lado do sujeito e do seu mal-estar, assim como do mal-estar na civilização. O psicanalista tem um dever ético não apenas junto aos seus analisantes, como também à civilização, à polis e ao mal-estar na civilização. Cada um, dessa forma, vai agir como achar importante e necessário (Quinet, 2020, p. 15).
Todas as relações de vínculos guardam em si um teor simbólico tanto sobre o aparato psíquico, o sujeito psíquico, quanto sobre o ambiente e a transferência. Isso é válido tanto na clínica quanto nas sessões de supervisão on-line, sustentadas nas correlações fundamentais para que o enquadre, o manejo, a transferência, o inconsciente, a técnica e a escuta psicanalítica sejam identificados e validados pelo próprio supervisionando. Há um caráter necessário da supervisão on-line que se situa no processo de seu desenvolvimento, o contingente e o necessário intercambiados intimamente. O que transcorre?
Necessidade e contingência em relação à supervisão on-line
É importante pensar sobre a necessidade e a contingência da supervisão on-line, uma vez que implica a presença do analista supervisor e do analista supervisionando: – não uma presença física, mas de outra ordem. Nesse sentido, proponho não utilizarmos a dualidade entre sessões virtuais e presenciais, pois há uma presença do analista na sessão on-line. Não há antinomia. E sim virtual e física (Quinet, 2021, p. 24).
A priori, o virtual contém uma potência. O termo “virtual”, segundo Lévy (2010, p. 49), “é toda entidade ‘desterritorializada’ capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem, contudo, estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular”. Por outro lado, Freud ([1912] 2010, p. 154) recomenda aos psicanalistas que
[...] no tratamento psicanalítico tomem por modelo o cirurgião, que deixa de lado todos os seus afetos e até mesmo sua compaixão de ser humano, e concentra suas energias mentais num único objetivo: levar a termo a operação do modo mais competente possível.
Neste momento, faz-se necessário “nomadizar” o fenômeno da supervisão on-line. Nomadizar, sinalizam Lemos, Cardoso e Nascimento (2012, p. 160), está relacionado ao fato de que
[...] todo conceito é um movimento no plano do pensamento que encontra movimentos no contexto sócio-histórico. [...] O que objetiva [a pesquisa nômade] é a abertura de um campo de perguntas pela efetuação do pensar como experimentação.
Então, o desenvolvimento da supervisão on-line indica que há necessidade e contingência para existir essa materialização. Logo,
[...] todos os fenômenos observados no mundo não representam nada mais do que as diferentes manifestações de uma natureza única, as diferentes formas de sua existência, seus diferentes estados e propriedades (Cheptulin, 1982, p. 76).
Há uma substancialidade na matéria supervisão psicanalítica que independe de ser ela física/presencial ou remota, porque “consiste no fato de que ela jamais perde seus atributos e suas propriedades e de que cada uma de suas formações (fenômeno) encerra nela mesma potencialmente essas mesmas propriedades”, como conclui Cheptulin (1982, p. 77).
Metaforicamente, assim como a Wikipédia funciona como um oráculo, uma grande enciclopédia, no espaço de supervisão on-line, o analista não é o mestre (“psicanalistapédia”), muito menos um gadget, um aplicativo qualquer.
Ninguém pode conhecer seu próprio inconsciente sem a ajuda de alguma pessoa. A repressão mantém a resistência ao que foi afastado do conhecimento consciente; e, no entanto, emergem ainda indícios de conflitos inconscientes (Casement, 1987, p. 19).
O processo de supervisão é uma alavanca de aprendizagens com trocas significativas. Casement (1987) evidencia que qualquer psicanalista, supervisor ou supervisionando, independentemente da situação, comunica ao outro muito mais sobre si do que costuma perceber em geral. Há que escutar os pontos surdos e desvelar os pontos cegos, porque são inevitáveis o saber e o uso do não saber. Nesse ínterim, gera-se uma tensão criativa entre o saber e o não saber. Em decorrência disso, o laço da condição da existência do espaço envolve os processos analíticos, os quais, por meio da transferência e da experiência, reconhecem que, psicanaliticamente, para perdurar, necessitam do enquadramento. No enquadre analítico, Casement (1992, p. 220) destaca que a “eficácia do analista é melhor demonstrada quando ele aprende a seguir o processo analítico, e não tentando controlá -lo”. Esses aportes teóricos, em supervisão on -line ou não, são considerados possibilidade.
A possibilidade designa não o que pode surgir ou não, mas o que acontecerá em certas condições. O elo intermediário entre a possibilidade e a realidade não é a contingência [...], mas as condições concretas. Se elas são reunidas, a possibilidade não pode deixar de se transformar em realidade. Isso se produzirá em qualquer lugar e sempre, desde que haja possibilidade e as condições correspondentes (Cheptulin, 1982, p. 244).
O contingente é o não determinado. E “pode-se repetir. Além disso, um traço específico do contingente é o de ser condicionado pelas circunstâncias exteriores” (Cheptulin, 1982, p. 245). O psicanalista, antes de oferecer uma supervisão on-line, deve medir todas as chances capazes de assegurar seu êxito, uma vez que seu ofício “é muito solitário, e a supervisão se oferece também como forma de atenuar a solidão” (Gueller, 2020, p. 19). O que pensar a partir do aqui e agora quando a transformação das possibilidades, em realidade, está ligada à corrida para a supervisão on-line? Sugere Cheptulin (1982, p. 251):
[...] a contingência, sendo uma forma da necessidade, é, ao mesmo tempo, seu complemento, porque ela encerra não somente a natureza específica da formação material estudada, mas igualmente as particularidades de outras formações materiais com as quais ela entra em interação.
A supervisão on-line, dadas as contingências sindêmicas da covid-19, pode ser concebida como devir, porque, nesse processo de ter experimentado, desenvolvido a supervisão digital, para Cheptulin (1982, p. 252), “o contingente transforma-se em necessário e o necessário em contingente” e podemos recriar, transformar, conforme interesses operacionais. O devir sugerido por Fuganti (2012) é compreendido como potência de acontecer, mudar e implica, ao mesmo tempo e necessariamente, experimentá-lo de modo diverso. Nada persiste fora do devir, e este, por sua vez, desponta como horizonte movente de cada potência.
Devir é visitar e ser visitado por intensidades que brotam e se fabricam nos limiares ou nas zonas de passagem, por variações que se insinuam nos interstícios das formas, por insistência e pressão de um real apenas virtual, mas que por isso mesmo faz a própria natureza da diferença (Fuganti, 2012, p. 76-77).
Ao compreender as correlações do psiquismo, a psicanálise engendra força do devir, por ser “uma atividade de acumulação de conhecimento próprio da modernidade” (Kirschbaum, 2017, p. 493). Winnicott (2011), em Tudo começa em casa, especifica que a psicanálise é uma ciência aplicada, está vinculada ao desenvolvimento emocional do ser humano. O autor ratifica que Freud realmente iniciou uma ciência e sempre esteve atento à personalidade, ao caráter, à emoção e ao esforço. Desse modo, “a psicanálise se mantém ampliando território científico para incluir os fenômenos da personalidade, do sentimento e do conflito humano. [...] É possível examinar a natureza humana” (Winnicott, 2011, p. xiv). O questionamento não cessa.
Mas o que significa ciência? [...] quando surge um vazio no conhecimento, o cientista [...] assume sua ignorância, e se delineia um programa de pesquisa. [...] O cientista pode se permitir uma espera e se permitir ser ignorante. Isso significa que ele tem algum tipo de fé [...] uma capacidade.
[...]
Para o cientista, formular questões é quase tudo. As respostas, quando aprecem, apenas conduzem a outras questões (Winnicott, 2011, p. xiv).
Sob a perspectiva de Winnicott, refletir a respeito da supervisão on-line é ter uma postura ética, científica, em direção ao ambiente facilitador e a seus ajustes adaptativos progressivos, de acordo com as necessidades da dupla analista/supervisionando. Cheptulin (1982) destaca que a necessidade e a contingência não existem de forma separada, encontram-se uma ao lado da outra, interpenetrando-se, porque estão em ligação orgânica e em interdependência e pertencem aos mesmos fenômenos. O fenômeno supervisão on-line é, ao mesmo tempo, necessário e contingente. Em cada testemunho vivido de supervisão, remota ou não, há propriedades, e as ligações contingentes são, conforme denomina Cheptulin (1982, p. 251),
[...] uma forma de manifestação das propriedades e das ligações necessárias. A necessidade cria seu caminho [...] e uma grande quantidade de novos elementos que não decorrem da necessidade, mas que são condicionados por circunstâncias exteriores.
Nesse sentido, é possível o encontro humano em supervisão on-line,
[...] vivendo de modo criativo. Seja qual for a definição a que chegamos, ela deve incluir a ideia de que a vida vale a pena – ou não – ser vivida, a ponto de a criatividade ser – ou não – uma parte da experiência de vida de cada um (Winnicott, 2011, p. 23).
A imersão na modalidade digital levounos a absorver a força do integrar para nossa práxis on-line, alastrando-se para novos espaços, eliminando fronteiras.
Compreendendo a práxis on-line
A compreensão da práxis não é mera atividade da consciência – humana –, mas sim material do homem social a partir de seu ponto de vista histórico-filosófico. A práxis humana compreende dois aspectos:
[...] um intencional, na medida em que, através da mesma, o indivíduo persegue um fim determinado; e outro não intencional, quando sua atividade se integra com outras práxis no nível social, produzindo resultados globais que escapam a sua consciência e vontade. [...] A história é racional no sentido de que todos os desenvolvimentos das culturas humanas podem ser explicados por meio de legalidades (Vázquez, 2011, p. 19).
Historicamente, a práxis psicanalítica carrega em si uma herança oriunda do compartilhamento das experiências singulares de cada psicanalista. A prática analítica objetiva o “reconhecimento e o desenvolvimento das potencialidades criativas do inconsciente cujas modalidades de expressão são virtualmente inesgotáveis” (Bokanowski, 2002, p. 30). Nessa concepção, a prática da supervisão on-line, como a práxis psicanalítica, é irredutivelmente múltipla, porque resulta de uma metodologia, ao mesmo tempo clínica, técnica e teórica. A supervisão virtual não se basta por si mesma, está interligada, uma vez que evoca ligações consubstanciais com a “Feiticeira Metapsicologia”, através de sua aplicação clínica reportada pelo supervisionando. E a práxis do tratamento psicanalítico, desde o seu princípio, não parou de se modificar, lembra Bokanowski (2002). A supervisão on-line, como a própria psique e a análise, é transformação.
Como interpretar, denominar, no plano metapsicológico, a supervisão on-line? Por meio da nossa experiência, a supervisão digital, em sua natureza, suas ligações, apresenta uma flexibilidade maior ou menor em sua capacidade de exercer suas potencialidades. Hodiernamente, a práxis psicanalítica, reflete Figueiredo (2021), é muito mais complexa, rica e profunda do que nos tempos de Freud, sem mencionar que conhecemos, ou, pelo menos, buscamos conhecer, aprender e interagir com fenômenos que nem ele mesmo imaginava existirem. A possibilidade de supervisão on-line desperta e abre vastas perspectivas e guarda em si não apenas a correlação entre necessidade e contingência vivida a partir de 2020, com a invasão do mundo pandêmico, mas também o que Lacan ([1964], 2008 p. 225), no Seminário 11, trata sobre o lugar do analista a partir da compreensão da categoria de sujeito suposto saber, pivô da transferência: “A transferência é um fenômeno em que estão incluídos o sujeito e o psicanalista”. O analista sustenta esse lugar, cujo qual é objeto da transferência, mantendo-se na condição de “autoridade” apenas como uma estratégia inicial para que o paciente realize o trabalho analítico. O sujeito lacaniano coincide com o inconsciente estruturado como linguagem e, assim, ficamos cara a cara com a falta que nos move. Somos sempre analistas em formação.
Afirma Lacan (2020 [1964], p. 64):
O despertar nos mostra o acordar da consciência do sujeito na representação do que passou – o deplorável acidente da realidade, ao qual não se pode fazer mais nada do que acorrer!
Precisamos, como alega Ferenczi (2011a, p. 260), “harmonizar o saber recém-adquirido”.
O “recém-adquirido” em nossa vivência com a supervisão on-line nos fez lidar com novas percepções e representações. No princípio, ao usar a telinha, ver apenas o sujeito com os ombros e a cabeça enquadrados no monitor diante de nossos olhos, percebemos que, ali, olhar o outro, o ato de ver-se “olho no olho”, olho nu, as sinapses e as conexões estabelecidas ficam como:
[...] um olhar estrangeiro, desse modo, é condição para o pesquisador que, ao pesquisar/ intervir, analisa sua própria implicação no processo e os efeitos que daí advêm. É condição para as escolhas metodológicas [...] produzir conhecimentos éticos, estéticos e políticos, socialmente comprometidos com a diversidade da vida (Zanella, 2012, p. 172).
A vida libidinal precisa mais do estranho, e isso mexe com a fantasia, promovendo reverberações, movimentos que ganham relevo. Sem movimento, não ocorre vida. Eros precisa saltitar. Propor e assumir atendimento e/ou supervisão on-line foi desvendar uma nova visão para com a psicanálise. Estamos em processo de construção. Aprendemos, por exemplo, que o não uso do divã, que – simbolicamente – passou a ter representação de morada. O sujeito em análise, pela concepção winnicottiana, é um ser humano que, como tal, deseja continuar ser e quer ser de diversas formas no mundo. Apesar de utilizarmos os recursos tecnológicos, estamos vivendo a era digital: nanotecnologia, computação quântica. Para sustentar a supervisão/atendimento virtual, reconhecemos que o homem não é máquina de eletrodos. Mesmo que diante da banalização do trabalho, em alguns momentos, o ser humano para sobrevir, funcione como máquina de carne e osso, ele precisa de espaços que promovam a democracia.
Por exemplo, praticar a psicanálise requer conservar os objetivos do tratamento, e, conforme orienta Winnicott (1983, p. 152). Sendo psicanalista,
[...] tenho o propósito de: me manter viva; me manter bem; me manter desperta. O objetivo de ser eu mesma e me portar bem. Uma vez iniciada uma análise espero continuar com ela, sobreviver a ela e terminá-la. [...] Seria desumano não fazê-lo.
Há que nos adaptarmos às contingências, à realidade e construir possibilidades, já que “todos os analistas são iguais tanto quanto são analistas. Mas não são iguais” (Winnicott, 1983, p. 155). O que percebemos?
O que constatamos no período de um ano e oito meses oferecendo atendimento e supervisão on-line é a presença de um estranho cansaço ao atender de forma on-line, que pode ser identificado como uma superexigência de via dupla, que afeta o psicanalista para poder dar conta da sustentação do ambiente facilitador, nutrindo a aliança terapêutica (supervisor/supervisionando ou psicanalista/analisando). A primeira via sugere relação tanto com o tratamento quanto com a supervisão psicanalítica, as quais operam com trabalho de transformação a dois. Aí também há um encontro de dois inconscientes. Assim, os protagonistas, de acordo com a teoria do espelhamento, o pareamento identificatório e contraidentificatório, se cruzam a partir dos quatro pontos cardeais que organizam o trabalho analítico, como alerta Bokanowski (2002, p. 43): “a neurose (psiconeurose) de transferência, as resistências, a contratransferência e a interpretação”.
A segunda via dessa relação está no manejo do supervisor psicanalista ao proporcionar ambiente facilitador para que o supervisionando mantenha-se em contato com a narrativa de seu estudo de caso, ao mesmo tempo em que esteja em sintonia com seu íntimo, reverberando um ambiente conectado para obter seus insights. Ou seja, nesse engajamento virtual, seu verdadeiro self exige cuidados redobrados para não deixar vingar o espaço do olhar vazio no monitor, que, querendo ou não, nessa virtualidade do olhar, pode habitar o real. O preenchimento desse vazio requer experiência, tato, aprender a tópica, a dinâmica e a economia do funcionamento psíquico. Em Elasticidade da técnica psicanalítica, Ferenczi (2011b, p. 30) ensina que os esforços para tornar
[...] acessível a outros a técnica [...], a compreensão dos processos que se desenrolam na vida psíquica de outrem depende de aptidão particular [...] de colocá-los em situação de aprender, de seu semelhante [...] essa transformação da arte do conhecimento dos homens.
A referência ao vazio do olhar está relacionada ao fato de dois seres se olharem em seu display e entre eles haver toda uma engenharia, ondas, uma máquina que captura a imagem, o som e a internet, os quais surgem não como “olho no olho”. A subjetividade, assim, passa a se compor de outra maneira. A essa hiância sem nome hoje denomino de “vazio”, o qual dá a sensação de cansaço. Esse vazio é semelhante à morte, que não está inscrita no aparelho psíquico. Precisamos aprender a lidar com esse vazio, a simbolizá-lo e a minimizá-lo, porque tem exigido libidinalmen-te do psicanalista que atende remotamente. Convém conceber a supervisão on-line
[...] como um processo evolutivo que se desenrola sob nossos olhos, e não como um trabalho de um arquiteto que procura realizar um plano preconcebido. Que não nos deixemos levar, em circunstância nenhuma (Ferenczi, 2011b, p. 32).
Para tanto, há que se ter o que Ferenczi (2011b, p. 31) define como tato, “a faculdade de sentir com”. Outrossim, o corpo, muitas vezes, fala mais do que as palavras. Para manter o clima favorável no setting analítico, Ferenczi (2011b, p. 38) recomenda alimentar a confiança, a franqueza e a vigilância às diversas formas de reações afetivas, sendo “parcimonioso nas interpretações, em geral, nada dizer de supérfluo”.
Tecendo considerações finais
O cenário mundial pandêmico e, no Brasil, o declarado estado sindêmico por covid-19 alteraram drasticamente nosso modus operandi, e tais alterações ainda estão em curso. Assim que a população foi tomando consciência de que eram necessárias medidas urgentes, como a reclusão social, quem conseguiu se proteger em suas residências imediatamente transformou seu domicílio em outro espaço. A humanidade está imersa na realidade virtual: home office, encontros familiares, acadêmicos, compras no mercado, consultas médicas, atendimento psicanalítico e supervisão on-line analítica. Num click tudo muda.
Bastos e Silva (2002, p. 84) afirmam:
Tudo agora está por um click. A distopia agora é uma realidade, palpável. E invadiu a clínica psicanalítica. Os consultórios e as sessões em pouco tempo foram transferidos para o ambiente da internet, o online, com pacientes e analistas confinados em suas casas, junto com suas famílias. Muitas adaptações. [...] Muitos desafios, ao setting, ao enquadre, aos humanos...
O espaço virtual, os encontros remotos e a distância produziram outra realidade: viver intensamente a vida e o trabalho virtual.
Se, por um lado, então, convertemos nossos consultórios psicanalíticos em espaços virtuais, também temos trabalhado – exaustivamente – diante da angústia e do desamparo coletivo provenientes do momento histórico” (Gebrin, 2020, p. 48).
Freud sempre demonstrou desgosto por todo ato de desrespeito à vida e nunca teve uma palavra em desfavor de qualquer sofrimento humano; e sempre se reinventou, apesar dos infortúnios dos tempos, acolhendo a psicanálise como
[...] um sintoma do mal-estar na civilização. Enquanto houver mal-estar na civilização, deve existir a psicanálise como forma de tratamento do mal-estar do sujeito e da civilização (Quinet, 2020, p. 15).
Nossa relação com o sujeito na era digital não aboliu a arte de escutar. A supervisão on-line veio para mostrar que a psicanálise traz consigo uma subversão própria, uma vez que provoca, forja o analista a desenferrujar as engrenagens do seu sentir/pensar/agir diante do movimento de busca ao sim à vida, acreditando na verdade do sujeito psíquico. Ser ativo, criativo.
Os tempos de investimento psicanalítico, tanto de investigação e estudo quanto de transição para a clínica e a supervisão on-line, são tempos de aprendizagem, de transformações que necessitam do acompanhamento do psicanalista. E, para o espaço de supervisão clínica on-line, o compreender se faz necessário, porque, sem compreensão, as associações entre escuta do sujeito psíquico, teoria e técnica não são processadas, ficam desajustadas ou surge o que Kirschbaum (2017) denomina de “in-digestão mental” e, assim: para onde vamos?
Triviños (2001) expressa que a compreensão é um caminho sine qua non para uma investigação, porque:
Implica um confronto entre o sujeito e o objeto (o texto, a linguagem), o sentir e perceber a natureza das coisas.
Rejeita o distanciamento alienante entre o sujeito e o objeto, há um conjunto de multiplicidades infinitas que se tocam.
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É uma tentativa, de forma ampla, de superar a simples explicação de natureza causal.
A consciência é uma forma particular, superior, do reflexo do mundo exterior e é unicamente por isso que ela pode orientar o homem na realidade ambiente e transformá-la, modificá-la de forma criativa (Cheptulin, 1982, p. 123).
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Faz do diálogo sua ferramenta básica. A palavra, lembra Lacan (2009, p. 69),
[...] é mediação sem dúvida, mediação entre o sujeito e o outro, e ela implica a realização do outro na mediação mesma. Um elemento essencial da realização do outro é que a palavra possa nos unir a ele [...] Mas há outra face da palavra que é revelação”.
A compreensão se realiza através da linguagem, a psicanálise trabalha com o inconsciente que é tramado pela linguagem.
A compreensão se apoia na interpretação – o trabalho interpretativo é um precioso instrumento para a psicanálise e cria um espaço potencial – o brincar, espaço de jogo em que, segundo Winnicott (1975 p. 59), a psicoterapia “trata de duas pessoas que brincam”.
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A compreensão permite falar ao sujeito e ao objeto – por exemplo, o bebê deve ver-se em sua mãe. Isso é saudável. E essa mãe permite que a outra pessoa seja ela. Ainda, “com a compreensão, a experiência humana surge como fala. A compreensão aparece quando a linguagem do texto já não é nem do autor, nem do leitor” (Triviños, 2001, p. 106). A compreensão interliga, integra e faz links.
Tudo o que é observável na vida mental pode ser ocasionalmente descrito como fenômeno mental. A questão, nesse caso, é saber se o fenômeno mental específico teve origem imediata em influências somáticas, orgânicas e materiais (Freud, [1915] 1976, p. 80).
Para tudo há que haver maturação. Experimentar é preciso. Para experimentar, alega Lazzarotto (2012, p. 101), “não basta entregar-se à experiência, é preciso construir um modo de permanecer no processo em curso que solicita invenção”. Como construir esse percurso? O que estamos vivendo neste evento é uma das formas de construir e pensar a psicanálise contemporânea. O conteúdo da construção brota com a pesquisa, com as rodas de conversa, com os grupos de estudos e com a práxis clínica, realidade sendo vivida no mundo virtual.
Cheptulin (1982, p. 268) aponta que
[...] toda forma está organicamente ligada ao conteúdo, é uma forma dos processos que o constituem. A forma e o conteúdo estando em correlação orgânica dependem um do outro, e essa dependência não é equivalente”.
Por exemplo, antes da pandemia, para mim e muitos psicanalistas, o atendimento digital e a supervisão on-line eram impensáveis. Atualmente, o atendimento analítico virtual e a supervisão digital passaram pela negação da negação. “A negação é um momento necessário do desenvolvimento” (Cheptulin, 1982, p. 313). Seria a passagem do inferior para o superior, do menos perfeito para o mais perfeito, dada a realidade.
O enquadre da supervisão clínica on-line distingue-se do que é usado de forma física, face a face, presencial, e contém ligação com a práxis psicanalítica. É fundamental preservar as funções do enquadre de forma dinâmica e tópica, porque integram e delimitam o que pertence a um “dentro” e a um “fora” no setting on-line. Tanto o atendimento analítico quanto a supervisão digital não são impossíveis de acontecer, estão transcorrendo, e suas necessidades e contingências precisam ser consideradas, escutadas. A supervisão on -line tem suas vicissitudes, seus limites, leva à transferência, pulveriza funções,
[...] tem formações do inconsciente. E tem, também, nosso desejo, de todos aqui, de manter viva a psicanálise, manter nossos laços e nos mantermos vivos. É a nossa contingência do momento real (Brunetto, 2020, p. 100).
Em Novas conferências introdutórias sobre a Psicanálise e outros trabalhos, Freud (1969 [1932-1936]), deixa claro que a psicanálise está relacionada com o todo, não apenas com a subjetividade, a interioridade, mas com o cosmos, a natureza, a vida e o meio. Desde os primórdios, psicanálise é teoria da cultura. O projeto freudiano de fazer da psicanálise uma ciência natural continua em curso, até porque, como psicanalistas, figurativamente, somos, além de arqueólogos, parteiros; a psicanálise está em constante nascimento.













