O emblemático número 60 da revista Estudos de Psicanálise nos aponta para celebrar um momento histórico, marcado por um encontro presencial especial pós-pandemia da covid-19. Dividida em três partes, a revista apresenta a autora convidada Sarug Dagir Ribeiro, que traduziu brilhantemente o livro de Marie Bonaparte Sexualidade feminina e suas contribuições para a psicanálise e nesta edição publica algo absolutamente interessante, cujo teor aponta para o ativismo de Bonaparte em prol da preservação ambiental, do respeito à natureza e da manifestação à sua maneira do amor aos animais.
Na segunda parte, são apresentados os artigos referentes ao XXV CONGRESSO DO CÍRCULO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE e à XLI JORNADA DO CÍRCULO PSICANALÍTICO DE MINAS GERAIS realizados em Belo Horizonte, em 28, 29 e 30 set. 2023. Por fim, os demais artigos sobre teoria e técnica psicanalítica.
Tivemos a imensa satisfação de participar, pela primeira vez presencialmente, do Congresso e da Jornada, que sedimentam a vitalidade dessas instituições psicanalíticas no Brasil. Ao abordar o instigante tema Clínica Psicanalítica, mais ainda, ratifica sua proposta de divulgar e transmitir a psicanálise, para além, privilegiando a singularidade do sujeito, na diversidade apresentada na cultura e seus desdobramentos.
Nas Minas Gerais tudo tem sabor e cor e, com isso, nesta edição, trouxemos o registro de trabalhos que nos convocam a refletir, sobre a experiência psicanalítica hoje, os desafios e impasses, as instituições, as políticas públicas, as tecnologias, e nas mais diversas formas de sofrimento psíquico. Os sintomas contemporâneos nos confrontam, nos questionam e nos desafiam à reflexão e teorização sobre eles.
Nós, do Círculo Psicanalítico do Pará (CPPA), temos uma relação muito importante e carinhosa com o Círculo Psicanalítico de Minas (CPMG), pois surgimos como a sexta filiada ao Círculo Brasileiro de Psicanálise, a partir desse encontro com o CPMG. Como nada é por acaso, fomos convidados a apresentar este Editorial que faz referência ao XXV Congresso do CBP e à XLI Jornada do CPMG em Minas. E o CPPA se fez presente em massa, tanto no evento quanto na escrita de artigos que perpassam pelas mais diversas produções.
É fato a contribuição da psicanálise hoje nas mais diversas camadas e, mais ainda, quando se trata de diversidade. Várias temáticas relevantes foram abordadas como a experiência da clínica psicanalítica hoje, seus desafios e impasses, os fracassos da fantasia na clínica, o corpo em psicanálise, a atualidade da metapsicologia freudiana, novas estruturas sintomáticas, a escrita em psicanálise, arte e literatura, racismo e outros temas instigantes.
Dos vários artigos apresentados no Congresso, destacamos um painel que fazia alusão ao inquietante desamparo e sua relação com as tecnologias, que atualmente fazem parte da vida de todos nós, uma espécie de “meu bem, meu mal”. Sua reverberação na clínica psicanalítica na atualidade, as consequências psíquicas do uso abusivo das redes sociais e demais tecnologias. A rapidez das informações e dos contatos imediatos, o acesso ao desejo a partir de uma tecla, nos colocam frente a algo que Freud chamou de pensamento mágico ou onipotência de pensamento. Uma das grandes dificuldades do sujeito contemporâneo, que pode ser responsável por processos depressivos e crises de angústia, é conciliar a temporalidade dos processos secundários com a atemporalidade do inconsciente. Sabemos que o mal-estar que nos assola nos confronta sempre com o desamparo constitutivo de cada um de nós, para além dos arranjos que possamos fazer para lidar com ele.
Vimos também no Congresso que a psicanálise contribui nos mais diversos enfoques em nossa cultura. Ao especificar a singularidade do sujeito, reconhece a diversidade ser expressa por diversos caminhos pulsionais frente às diferenças – étnicas, de gênero, religiosas e tudo mais que compõe o social, demarcado por Freud, quando ele afirma que “toda psicologia é social”.
Nesse sentido, tivemos trabalhos que versaram sobre as mais diversas formas de subjetivação, a clínica com sua riqueza e não pudemos deixar de enfocar a brasilidade, a realidade amazônica, que se reflete na saúde psíquica dos povos indígenas e no crescimento acentuado do sofrimento psíquico na atualidade, restos do colonialismo “civilizador” a que foram submetidos. Enfim, uma série de produções das mais variadas vertentes.
Temos que agradecer e parabenizar os organizadores e organizadoras deste congresso riquíssimo do CBP realizado pelo CPMG, na pessoa da Presidente Maria Auxiliadora Toledo Garcia Freire, nossa querida Dodora, e de sua Diretoria.
Foi muito prazeroso reencontrar colegas psicanalistas dos diversos Círculos do Brasil e de outras sociedades de psicanálise, pois a pandemia nos separou bastante fisicamente, mas neste encontro pudemos nos abraçar e ratificar o desejo pela psicanálise que nos uni sempre, conectados pela pulsão de vida!













