Introdução
Ao longo de sua obra, Freud faz uma clara associação entre o sentimento de desamparo e o mal-estar na civilização. Ambos caminham juntos desde o princípio da vida, se convertendo em significativos sofrimentos que provêm das ameaças vindas das mais diferentes direções, causando aos sujeitos desconforto e infelicidade.
Em O mal-estar na civilização (1930/1996), Freud nos alerta sobre as três ameaças que recaem sobre nós: a primeira vinda do próprio corpo, constituída pela declinação e pelo perecimento gradual, o que nos causa medo e dor; a segunda se refere ao mundo externo, ameaçador e com forças destruidoras que nos tornam impotentes, e a terceira é a relação com o outro, que certamente se torna a maior das dificuldades, que sentimos como algo mais doloroso do que as anteriores.
Desde Freud, sabemos que a busca pela felicidade e pela satisfação plena faz parte dos anseios de todo ser vivente, mas inegavelmente nos deparamos com as restrições impostas pela cultura. Assim, seguimos buscando driblar as ameaças do mundo externo com as mais diversas formas de enfrentamento.
A relação entre as satisfações imediatas e as tecnologias tem sido debatida há algum tempo. Desde os meados da década de 1990, os aparatos tecnológicos vêm avançando, com a melhoria de computadores, games, softwares e sites dos mais diversos. A partir do ano 2000 a internet foi se apropriando de todos nós como um divisor de águas, de forma rápida e cada vez mais fascinante. A inteligência artificial (IA) põe em jogo e desafia o raciocínio de todos nós em sua potência altíssima e ainda nem imaginamos quais serão os desdobramentos. Porém, o fascínio e o delírio são próximos e parecem estar postos diante da demanda excessiva que frequenta as redes sociais e as tecnologias em geral. Mas será que tudo isso é tão novo?
Nesse sentido, o novo da atualidade nada mais é do que uma repetição posta em prática pela ideologia capitalista, que recria a ilusão de que os objetos (de consumo) são acessíveis a todos, fazendo com que objetos de desejo se transformem em objetos de necessidade, o que impede toda a atividade sublimatória. Sem a possibilidade de sublimação, a circulação pulsional não ocorre, e Eros perde sua força (Levy, Ceccarelli e Dias, 2017).
Freud (1930/1996, p. 108) afirma:
Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito difícil formar uma opinião sobre se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão. Pensamos que a atualidade nada faz além de produzir pela repetição do mesmo, sob formas variadas efeitos ilusórios, que mascaram através do imaginário cultural em que o sujeito se encontra imerso, em um dado momento sócio-histórico, o mal-estar [Unbehagen] inerente à cultura.
O sujeito contemporâneo se depara com um leque de possibilidades diante das facilidades apresentadas pelas novas tecnologias. Nos smartphones há um programa que obedece e realiza nossos desejos: “Siri o que é isso ou aquilo?”, o programa responde imediatamente. Se você falar que quer comprar algo, logo chegam em seu celular inúmeras propagandas do produto que você pesquisou. Às vezes parece que advinham o seu pensamento. Parece mágica?
Mais recentemente o chat GPT, que apresenta a inteligência artificial, tem um alcance que parece substituir o pensamento e o raciocínio humano. O chat apresenta conhecimentos sobre todos os assuntos, cria testes, cria desenhos, basta que alguém forneça o tema. A inteligência artificial pode também recriar alguém em imagens que parecem reais, mesmo uma espécie de ressuscitação até mesmo de quem já morreu.
Kallas (2016) pontua que a possibilidade de acessar instantaneamente qualquer coisa e obter gratificações para impulsos sexuais, jogos, curiosidades intelectuais, de comunicação ou de consumo torna a internet irresistível.
Podemos retornar a Freud (1905/1996) e fazer uma analogia com o que ele chamou de “onipotência de pensamento”, “Eu quero, eu posso!” Isso parece o discurso de uma criança que tem a fantasia egocêntrica de que ela e o mundo fazem um. Como num passe de mágica (Levy, Ceccarelli e Dias, 2017).
A questão da relação entre o homem e a internet, que interessa a nós, psicanalistas, refere-se ao valor que cada um atribui do uso que o sujeito faz dos inúmeros gadgets, computadores, smartphones, tablets, que oferecem acesso à internet de qualquer lugar e de forma anônima, e das novas relações estabelecidas com o mundo e com as pessoas através dela. Seu perfil pode ser verdadeiro ou falso [fake], ou seja, sua identidade é transitória (Levy, Ceccarelli e Dias, 2017).
Kallas (2016) ressalta que existe também um estado de imersão e dissociação de consciência, que envolve sensações variadas como a perda da noção de tempo, esquecimento de frações de tempo, estar num estado de consciência alterado semelhante a um transe, encarnar, ou melhor, vivenciar uma outra persona diferente do seu Eu, sentir uma linha tênue que separa uma realidade virtual de uma real.
Estamos diante de jogos imersivos, os chamados de Second Life, como o Bit Life, em que a pessoa escolhe como quer nascer, a cor da pele, a classe social, etc. O aplicativo vai criando situações inclusive de conflitos e o usuário deve escolher como quer viver. Seria possível viver somente o que se deseja? Sem falta? Sem castração? É frequente ouvirmos na clínica, crianças falando de tédio. O que podemos pensar sobre isso? O tédio seria a falta da falta?
Uma das grandes dificuldades do sujeito contemporâneo, que pode ser responsável por processos depressivos e crises de angústia ou de ansiedade, como se chama mais comumente, é conciliar a temporalidade dos processos secundários com a atemporalidade do inconsciente. Não raras, tais situações transformam a normalidade em patologia (Ceccarelli e Levy, 2012).
É importante pontuar que na atualidade as pessoas parecem encontrar formas diferentes de lidar com sua angústia e, na maioria das vezes, partem para o excesso pulsional, representado pelo consumismo desenfreado, aceleração da vida, compulsões e repetições de atitudes, uso abusivo das redes sociais e da internet em si, pressa em obter respostas e dar respostas, necessidade de ser amado, de ser reconhecido por meio de likes, de encontrar sentido no que faz e em tudo que possa lhes trazer conforto, ou seja, tudo que possa completá-las.
Ceccarelli (2005) ressalta que o sujeito acometido por esse excesso pulsional, pelas paixões, pelo pathos é aquele que padece de algo que desconhece e reage de forma imprevista diante de seu surgimento, e essas paixões comprovam a permanente dependência do Outro primordial.
E diante da busca pelo apaziguamento das frustrações e angústias, o sujeito corre o risco de se tornar presa fácil de vendedores de ilusões, os quais oferecem estratégias disponíveis para responder à ideia do equilíbrio da libido, do excesso, como diz Maurano (2010, p. 14). Vê-se, muitas vezes, um sujeito retirado de sua singularidade e sua subjetividade, sendo diagnosticado e classificado por um manual de distúrbios psíquicos, inserido em um lugar de silêncio, pois a não tolerância da expressão das emoções ilusoriamente o posiciona a suportar a dor, já que vivemos numa sociedade fragilizada e remediada, com discursos polêmicos, violentos e muitas vezes alienantes.
Clínica psicanalítica, tecnologias e o desamparo
Em nossa prática clínica, é comum encontrar sujeitos em diversas formas de dinâmica de seus conflitos psíquicos, mas têm sido frequentes pacientes acometidos por sintomas no corpo, que sofrem por não conseguir nomear, simbolizar, colocar em palavras, apagados da consciência sem o acesso a simbolização dos pensamentos, mais precisamente numa economia psíquica, que resulta numa explosão de sintomas corporais.
Sabemos o quanto Freud ressaltava as manifestações conversivas – do “salto misterioso” do psiquismo sobre o corporal. No caso das manifestações psicossomáticas, enfrentamos o problema oposto: a conversão em psíquico, em representações e em palavras daquilo que se exprime sob forma de perturbações as mais diversas, como insônia, taquicardias, dor de estômago, algo estranho, conforme relatam alguns.
McDougall (1991/2013) afirma que a incidência das experiências afetivas nos indivíduos tem papel definitivo nas vicissitudes das manifestações psicossomáticas e adictas, incidindo na economia dos afetos de maneira que tais indivíduos em circunstâncias particulares chegam a pulverizar qualquer sinal de sentimento profundo, diante de uma experiência que esteve na origem de uma emoção dolorosa, que não foi reconhecida tampouco elaborada, levando à somatização. O uso abusivo de tecnologias pode ser uma nova psicopatologia, adicção, compulsão, somatização?
Fernandes (2003) destaca a oposição entre os fenômenos de conversão e somatização, bem como a distinção entre as neuroses atuais e as psiconeuroses, e sua relação com a libido, apontando para a retomada da ideia de que as histéricas transitam em um terreno que revela, além da inexistência de uma anatomia descritiva, uma anatomia fantasmática. Esses são pilares que conduzem a escuta psicanalítica até hoje. Sintomas corporais de doenças somáticas ocupam um lugar importante na economia fantasmática do sujeito. Sintomas histéricos e somáticos se distanciam e se aproximam por meio da dimensão subjetiva. Nesse sentido, a conversão sugere um corpo da representação e a somatização um corpo do transbordamento, com o sintoma corporal funcionando como descarga da pulsão de morte, pulsão sem representação.
Vivemos hoje uma demanda de urgência na clínica psicanalítica, similar à tecla ENTER, em que tudo precisa ser breve e imediato, em que o tempo é o maior e o pior aliado. As pessoas querem resultados rápidos. Hoje nas redes sociais há oferta de terapeutas, coachings, cursos rápidos, atendimentos das mais variadas abordagens, autoajuda em podcast, uma infinidade de opções de aplicativos e acessos rápidos, que impressionam e sugestionam os sujeitos em sofrimento na tão desejada busca pela felicidade.
Freud (1930/1996) afirma que a busca pela felicidade e satisfação plenas constitui um problema de economia libidinal no indivíduo e alerta que não há um conselho válido para todos, pois cada um deve descobrir sua maneira de ser feliz, levando em consideração os variados fatores que atuarão influenciando suas escolhas. Ressalta que nesse ponto a constituição psíquica do ser será decisiva na busca pela satisfação ou no enfrentamento das frustrações que irão surgir.
E completa afirmando que:
Aquele predominantemente erótico dará prioridade às relações afetivas com outras pessoas; o narcisista, inclinado à autossuficiência, buscará as satisfações principais em seus eventos psíquicos internos; o homem de ação não largará o mundo externo, no qual pode testar sua força. Para o segundo desses tipos, a natureza de seus dons e a medida de sublimação pulsional que lhe é possível determinarão onde colocará seus interesses (Freud, 1930/1996, p. 41).
Assim, continua Freud (1930), quem possuir uma constituição psíquica desfavorável e não tiver passado pelas transformações e reordenações de suas pulsões libidinais, de fundamental importância para as realizações posteriores, terá dificuldade em obter satisfações diante do mundo externo, principalmente ao ser confrontado com tarefas mais difíceis. Diante disso, a dificuldade de tolerar frustrações, posiciona o sujeito rumo às doenças neuróticas ou sucumbe na direção da psicose, saindo da realidade que lhe é insuportável ou buscando através do delírio uma tentativa de cura.
O sujeito contemporâneo tenta se defender de todas as demandas de sofrimento psíquico, prosseguindo na busca da tão sonhada felicidade. No entanto, como nos adverte Ceccarelli (2006, p. 474),
[...] somos por definição insocorríveis. [...] as representações e os dispositivos que criamos na tentativa de suportar a angústia inerente ao desamparo [Hilflosigkeit] psíquico, desde que fomos marcados pelo estado de cultura, são fadados ao fracasso.
Retomando Freud (1930), ressaltamos que a dinâmica pulsional que configura o desamparo aponta para novas necessidades como o amor, o afeto, o reconhecimento, a palavra, a linguagem, ocasionando dependência psíquica, buscando seus destinos na religião, nas ligações cegas aos mestres, nas ideologias, nas teorias inquestionáveis, na adicção, nas relações interpessoais.
Apontamos para o sujeito emaranhado nas invasões tecnológicas, que envolvido com seus perfis e avatares, cada vez mais se distanciam de si e dos laços sociais. É necessário dar voz ao sujeito para que ele viva sua subjetividade e compreenda suas reações diante do mal-estar vinculado ao desamparo, que o acompanhará por toda a sua existência. Frente ao desamparo nos resta investir nossa libido em objetos que possamos formar novos laços, que nos forneçam o sentimento de proteção e um lugar no desejo do Outro. (Ceccarelli, 2012).
Nesse sentido, Freud (1930/1996, p. 75) afirma:
O valor quantitativo do desamparo, sua intensidade, está diretamente ligado à maneira como a total dependência (de uma ajuda externa) no início da vida foi elaborada. Ou seja: a maneira como cada sujeito vivenciará uma (nova) situação de perda, assim como a capacidade de ressignificá-la, de recuperar-se dela, dependerá de como ele lidou, que recursos teve, para enfrentar a situação de desamparo inerente ao humano: jamais nos tornamos tão desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou o seu amor.
O mundo tecnológico traz consigo uma lógica própria, um funcionamento que inexoravelmente atravessa crianças, adolescentes, adultos e idosos, ou seja, todos e todas em alguma medida se relacionam com a virtualidade. Sabemos que não tem mais volta e que nos depararemos sempre com os efeitos positivos e negativos da utilização da internet.
Na pandemia nós, psicanalistas, nos reinventamos e utilizamos também recursos on-line que foram fundamentais no enfrentamento de situações inusitadas, tivemos ganhos importantes na clínica, na transmissão da psicanálise, reuniões etc. Mas, como afirma Lindenmeyer (2020, p. 2), ao atender on-line,
[...] é fundamental compreender que não se trata apenas de conectar o sujeito a uma resposta, mas de conectá-lo a uma pessoa, ao analista, que irá promover e garantir o movimento transferencial que transforma em algo criativo a excitação insuportável, ligada ao desamparo. O sujeito fala de onde puder quando tem um analista que possa escutá-lo.
Considerações finais
A psicanálise não tem como responder às inúmeras questões colocadas diante deste tema tão emblemático e fascinante, como o universo tecnológico, a internet, mas nos convoca a pensar a posição do sujeito contemporâneo frente às consequências psíquicas do excesso. Não temos como prever quais seriam os arranjos pulsionais utilizados pelo sujeito diante da castração, isto é, diante do limite, da alteridade. Acreditamos que a psicanálise tenha muito a contribuir na escuta do sofrimento psíquico que a própria cultura nos impõe. Temos mais perguntas do que respostas. E sabemos que, por mais que tentemos buscar formas de burlar o sofrimento e ou evitar o desprazer, estamos fadados a nos haver com nossa incompletude e com o inquietante desamparo que nos acompanham desde nossa origem como seres viventes. Seria inumano não nos havermos com a dor da falta, com a reação de cada um às experiências da vida, às frustrações.
Enfim, com a impossibilidade de sermos felizes para sempre, como nas redes sociais ou nos jogos imersivos, querendo ou não, nenhum de nós escapa de viver e ou (re)viver o sentimento de desamparo nessa trajetória que nos remete às restrições pulsionais, ligadas à castração e ao medo de perder o amor do outro, ligado ao Édipo.













