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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.60 Belo Horizonte dez. 2023  Epub 07-Fev-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n60a05 

ARTIGOS APRESENTADOS NO XXV CONGRESSO DO CBP

"Maria, fora do ninho, a serviço do Outro": fragmentos de um caso clínico1

"Maria, out of the nest, at the service of Other": fragments of a clinical case

Kelvinn Modesto Carvalho Barbosa1 

1Bacharel em psicologia pela Universidade da Amazônia (UNAMA). Psicanalista pelo Círculo Psicanalítico de Minas Gerais (CPMG) e Círculo Psicanalítico do Pará (CPPA). Sócio efetivo do Círculo Psicanalítico do Pará (CPPA), filiado ao Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) e a International Federation of Psychoanalyic Societies (IFPS). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Especialista em psicanálise com crianças e adolescentes: teoria e clínica pelo Instituto de Pós-Graduação e Graduação IPOG, 2021. Coordenador do Grupo de Estudos Psicanálise e Sexualidades do CPPA. E-mail: psikelvinn@gmail.com


Resumo

Este trabalho é resultado de atendimentos que ocorreram na Clínica Social do Círculo Psicanalítico do Pará, durante o início da pandemia da covid-19. Maria, fora do ninho, na busca por ser aceita, se submete ao imperativo "que se faça em mim, conforme a tua vontade", recusando a si mesma e o próprio corpo. No excesso de demandas, o corpo grita, pede socorro. Diante da submissão ao desejo do Outro, se depara com o real. É a análise que permite a elaboração dos eventos traumáticos, pela via da palavra, na transferência.

Palavras-chave Maria; Outro; Desejo; Corpo; Psicanálise

Abstract

This work is the result of consultations that took place at the Clínica Social do Círculo Psicanalítico do Pará, at the beginning of the covid-19 pandemic. Maria, out of the nest, seeking acceptance, conformed herself to the imperative: "do to me as you will", refusing herself and her own body. Because of the excess of demands, her body screams, it asks for help. In the face of submission to the Others desire, one departs with reality. It is the analysis that allows, through talking, that traumatic events can be elaborated.

Keywords Mary; Other; Desire; Body; Psychoanalysis

Caso clínico

Maria, jovem de 24 anos de idade, primeira filha, mora com a mãe, o pai e suas irmãs, está concluindo o curso de fisioterapia. Em fevereiro de 2020, procura atendimento na Clínica Social do Círculo Psicanalítico do Pará. Nas primeiras entrevistas, fala que já passou por episódios de bulimia na adolescência, que comia e depois das refeições ia para o banheiro e provocava os vômitos colocando o dedo na garganta. Relata que os episódios de bulimia vinham acompanhados de uma profunda insatisfação com seu corpo. Maria diz: "A vontade que tenho é cortar minha barriga fora!"

Nasio (1999, p. 11-12) nos diz como deve ser o manejo no início do tratamento:

[...] no fim da primeira entrevista e na seguinte, introduzimos o paciente numa primeira localização da sua posição na realidade que ele nos apresenta. Ele pode falar da sua realidade, inscrita numa família, num casal, numa situação profissional. O que nos importa, principalmente, se refere à relação da pessoa que faz uma consulta mantém com os seus sintomas.

Maria não suporta se olhar no espelho. Quando está diante do espelho, parece que está ouvindo todas as críticas feitas ao seu corpo: "Você está gorda, precisa emagrecer! Essa roupa está horrível! Não tem noção do ridículo! Precisa fechar a boca!" Costumava alisar seu cabelo, até que o contato com a universidade a aproximou de grupos de estudos de gênero e étnico-raciais. Isso a fez perceber a relevância de manter seu cabelo natural. Desistindo de alisar seu cabelo, fala que gostaria de cortá-lo bem curto. Mas a última vez que o fez, foi questionada em casa se seria um corte decente.

Ambertín (2020, p.16) diz:

As fustigantes vozes dos imperativos do Supereu têm múltiplas consequências observáveis que vão de um extremo a outro da experiência clínica, sob diferentes nomes – fracasso, neurose de destino, reação terapêutica negativa, culpas infundadas, autopunição ou suicídio, pesadelos, "delírios de observação" na paranoia; delírio de insignificância na melancolia; hiperculpabilidade na obsessão, assujeitamento sacrificial na histeria...

De família tradicional, com o pai militar, Maria diz que o período das eleições de 2019 foi extremamente difícil para ela, pois toda a família apoiou o candidato à presidência que ganhou as eleições. Chegou a ser ameaçada pelo pai: "Se você for para essa manifestação, vai morar na rua! Se considere sem casa e sem família. Quero ver se esses vagabundos, manifestantes, vão te dar abrigo". Maria não tem uma boa relação familiar. Diz que, não importa o que faça para agradar sua família, sempre tem a sensação de que nunca será o suficiente.

Os atendimentos, que estavam sendo realizados de forma presencial, foram interrompidos no mês de março de 2020, por meio do decreto do governo, com as restrições da pandemia da covid-19. Para dar continuidade ao tratamento, sugeri a Maria que os atendimentos fossem feitos de maneira remota (on-line). Recomendei que buscasse um local com privacidade e utilizasse o fone de ouvido.

Os atendimentos seguiram, e o sofrimento psíquico de Maria cresceu com as imposições do lockdown. Maria agora se via confinada a conviver com a família sem a presença dos amigos. A modalidade de ensino remoto também trouxe dificuldades. Falava da falta de ânimo para realizar as tarefas da universidade, das interrupções dos atendimentos na clínica e do desânimo em relação à escrita do seu trabalho de conclusão de curso. Ainda se referindo ao convívio familiar e ao isolamento, Maria afirma: "Sinto-me como se fosse uma estranha no ninho".

A psicanálise nos revela que toda relação do sujeito com o mundo é mediada pela sua realidade psíquica. Em seu trabalho A interpretação dos sonhos,Freud (1900/1978, p. 613) afirma:

O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica [...] em sua natureza interior é tão desconhecido para nós quanto a realidade do mundo externo e se apresenta de modo tão incompleto pelos dados da consciência quanto o mundo externo pelas comunicações dos sentidos.

Ao término de seu trabalho de conclusão de curso na universidade, com méritos, Maria se vê diante de uma nova demanda do Outro: ser aprovada em concurso público.

Hoje tenho que lidar com minha mãe falando que eu preciso fazer concurso público. Na época do meu vestibular eu disse que ia fazer para fisioterapia e meus pais não queriam. Diziam que não ia dar futuro, que tinha que fazer direito ou medicina. Mas que se eu fosse fazer fisioterapia tinha que fazer concurso público. E eu disse que ia fazer, então aceitaram pagar a faculdade. Agora que terminei o curso, já estou sentindo a pressão para que eu faça concurso público. [...] Minha mãe fica falando: "Maria, você tem que fazer o concurso público!" Eu disse que esse sonho era um sonho dela e não meu. Isso vai de encontro com um monte de coisas que eu não gosto de fazer!

Na sessão que se segue, Maria fala sobre o seu nascimento. Relata que, quando criança, era muito doente e passara tanto tempo no hospital que possui um álbum de fotos com recordações desse período de sua infância. No final do atendimento, se questiona que não tinha sido uma criança como as outras, chegando até a passar alguns aniversários internada.

Depois de tanto pensar por que não tive um berço, fui perguntar para minha mãe, que respondeu: "Nós até chegamos a comprar um berço para você, mas pensávamos que você não ia vingar, porque você era tão fraca que acreditávamos que não fosse sobreviver. Então demos o seu berço para outra criança".

Pergunto a Maria como se sente ao saber que seus pais pensavam que ela não fosse vingar. Maria chora copiosamente e diz que agora está claro, que eles pensavam que ela não fosse sobreviver.

Ferenczi (1992, p. 49) argumenta:

Eu queria apenas indicar a probabilidade do fato de que crianças acolhidas com rudeza e sem carinho morrem facilmente e de bom grado. Ou utilizam um dos numerosos meios orgânicos para desaparecer rapidamente ou, se escapam a esse destino, conservarão um certo pessimismo e aversão à vida.

Implicada com sua dificuldade de dizer não, diz que, quando era criança fazendo a primeira comunhão, aprendera que precisava ser como Maria, mãe de Jesus, precisava dizer sim. Maria precisava ser sempre solícita atendendo as pessoas, como a própria Virgem Maria.

Eu fui ensinada a concordar com tudo, fazer tudo que os outros me mandavam fazer, dizendo sim, mesmo quando quisesse dizer não. É como se não tivesse esse direito. Hoje já questiono se o poder é realmente dizer sim.

Lindenmeyer (2015, p. 55) afirma:

É então na "constatação" da coisa, aqui a coisa repetida, que ela se torna visível. Ela, a compulsão à repetição, é, assim, a tentativa de ligação construída no momento da experiência traumáticas passadas ou atuais dos pacientes traumatizados. Um paradoxo aparece: o sujeito é presa de um retorno à situação dolorosa (traumática), ao passo que isso lhe confere um gozo inconfessável.

Em janeiro de 2021, realizando os exames de rotina marcados pela mãe, Maria descobre que está com câncer. Abalada com a notícia, fala de projetos e sonhos interrompidos pela pandemia, ameaçados pela notícia que havia recebido. Peço que fale sobre o que gostaria de fazer e Maria relata: "Eu gostaria de morar sozinha, ter meu próprio dinheiro e poder viver minha vida, e me arrependo de não ter dito a algumas pessoas como elas eram importantes em minha vida".

Maria fala da aflição que sentia ao saber que precisaria se submeter a uma nova cirurgia. Já havia sido submetida a dois procedimentos cirúrgicos ambos com erros médicos. A mais recente havia sido na gengiva em que o cirurgião cortou uma parte do freio da língua. E ao outro, entre 12 e 13 anos, quando precisou se submeter a uma cirurgia de desvio de septo. Nessa operação acordara no meio da cirurgia e, embora não conseguisse falar, ouviu o que estava sendo dito durante o procedimento. Após o período pós-operatório, veio a descoberta de que o cirurgião havia retirado um pedaço da cartilagem do nariz, o que foi constatado nas consultas posteriores sob investigação de outro médico.

Assombrada com as cenas traumáticas de antigos procedimentos cirúrgicos, Maria relata, na sessão que antecede a cirurgia, que está com medo de não resistir e vir a óbito. Pensa em tudo que ainda não fez, o que ainda não disse e que precisa dizer.

Na sessão pergunto a ela o que ainda gostaria de fazer. Disse que queria trabalhar, que gostaria de se filiar a um partido político, de morar sozinha, ter as coisas dela, fazer uma tatuagem e mudar o corte de cabelo. Digo que eu vou esperá-la para o próximo atendimento e deixamos a data marcada. A sessão é marcada para uma semana após a cirurgia, atendendo as recomendações médicas para sua recuperação.

Após a cirurgia, Maria retorna aos atendimentos. Nas sessões que se seguem, diz que está feliz. Pela primeira vez em sua vida, tomou uma decisão sua. Decidiu se filiar a um partido político, contrariando os pais, que haviam dito que isso sujaria sua ficha e não conseguiria trabalho por ser filiada a esse partido. Não permite mais que as consultas médicas sejam marcadas pela mãe, preferindo ir sozinha às consultas.

Maria relata:

Agora estou me sentindo bem melhor. Hoje acordei, retirei do meu guarda-roupas todas as roupas que eram da minha irmã e peguei todas as que estavam no quarto dela. Arrumei meu quarto e meu banheiro bem devagar, por conta da cirurgia. Olha que pensei que ia ficar dependente por duas semanas, precisando que alguém me levasse no banheiro para tomar banho. Não precisei nem de uma semana. Já estou me sentindo bem e estou fazendo tudo sozinha. Hoje acordei, olhei para o horizonte e pude perceber como a vista do meu quarto é linda. Agora tenho meu espaço, eu tenho meu lugar aqui, e as coisas podem ficar do meu jeito. É muito importante ter o meu lugar, onde eu posso conversar. Tenho minha privacidade e posso fazer a minha análise. É bom poder olhar para fora ver os pássaros cantarem e saber que estou viva e posso contemplar com os meus olhos toda essa vista.

Considerações finais

O sujeito, por definição, está determinado desde fora dele, e o Outro deve ser pensado como uma referência, como o que marca os parâmetros da vida desse sujeito, o que ele é. E antes de ser sujeito, o ser humano é objeto, objeto do desejo do Outro. Qual seria a origem da insatisfação de Maria?

De acordo com Palonsky (1997, p. 31), o movimento realizado pelo sujeito de modo a conseguir manter a ilusão acerca da existência de um Outro completo consiste em trazer para si a castração. E é nesse sentido que Lacan diz que o neurótico oferece a própria castração para sustentar um Outro não castrado. Como consequência, aquilo que é impossível por estrutura, o neurótico transforma em impotência de si próprio.

Sustento a hipótese de que a histérica tenta se manter numa estrutura perfeita, o que seria da ordem da impossibilidade e, portanto, que produz angústia, transformada em impotência e insatisfação. Como Maria se apresentou quando chega em análise? Fora do ninho, a serviço do Outro?

A psicanálise pode contribuir na escuta do sofrimento psíquico do sujeito e seus conflitos. Ao final, Maria parece ter dado o passo inicial de uma mudança de posição subjetiva. Uma passagem de objeto a sujeito de seus desejos. Não temos como garantir os arranjos que Maria poderá fazer para bancar suas escolhas. Mas, ao se escutar, parece dar um sentido aos traumas e revalorizar a vida.

1Trabalho apresentado no XXV CONGRESSO DO CÍRCULO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE e XLI JORNADA DO CÍRCULO PSICANALÍTICO DE MINAS GERAIS, Belo Horizonte (MG), 28, 29 e 30 set. 2023.

Referências

FERENCZI, S. Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992. (Obras completas de Sándor Ferenczi). [ Links ]

FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900). Direção da tradução: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 4). [ Links ]

GEREZ-AMBERTÍN, M. Vozes do supereu na clínica e o mal-estar contemporâneo (paradoxos e trevo do Supereu). Reverso, Belo Horizonte, v. 42, n. 79, p. 15-22, jun. 2020. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/reverso/v42n79/v42n79a02.pdf. Acesso em: 26 ago. 2021. [ Links ]

LINDENMEYER, C. A inadmissível pulsão de morte. Reverso, Belo Horizonte, v. 37, n. 69, p. 53-60, jun. 2015. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/reverso/v37n69/v37n69a06.pdf. Acesso em: 24 ago. 2021. [ Links ]

NASCIMENTO, M. Maria Maria e Último trem. Rio de Janeiro: Gravadora Nascimento, 2002. [ Links ]

NASIO, J.-D. Como trabalha um psicanalista? Rio de Janeiro: Zahar, 1999. [ Links ]

POLONSKY, C. M. Estruturas clínicas na clínica: a histeria. Belo Horizonte: PUC Minas, 1997. [ Links ]

Recebido: 15 de Novembro de 2023; Aceito: 28 de Dezembro de 2023

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