SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número60Final de análise não é um aplicativoSaúde mental no contexto indígena, o que pode a psicanálise índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.60 Belo Horizonte dez. 2023  Epub 07-Fev-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n60a07 

ARTIGOS APRESENTADOS NO XXV CONGRESSO DO CBP

Pós-pandemia e formação do analista1

Post-pandemic and analyst training

Paola Giacomini Fachini1 

1Psicóloga. Psicanalista. Membro efetivo do Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul (CPRS), filiado ao Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) e a International Federation of Psychoanalitic Societies (IFPS). Professora do curso de formação e coordenadora de seminários de formação do CPRS. Especialista em psicologia clínica pelo CRP/07. Especialista em criminologia pela PUCRS. Especialista em saúde mental coletiva pela Secretaria Municipal de Saúde e Universitat de Roviri I Virgili. E-mail: paola.fachini@gmail.com


Resumo

Tendo em vista a abundância de palestras, seminários e cursos de formação ofertados predominantemente através da mídia eletrônica, na modalidade on-line, este trabalho propõe uma reflexão sobre os motivos de tal fenômeno pós-pandêmico, que inquieta a nós, psicanalistas, pelas suas consequências. Esse fenômeno suscita não apenas várias questões, como a possibilidade da crise vivenciada nos diferentes institutos de psicanálise nos últimos anos, mas também o propósito da disseminação de tantos cursos de formação psicanalítica on-line. Este trabalho pretende contribuir com o estudo e o entendimento desse fenômeno.

Palavras-chave Formação psicanalítica; Crise institucional; Oferta de cursos de formação psicanalítica on-line

Abstract

Considering the abundance of lectures, seminars, and training courses predominantly offered through electronic media in the online format, this paper proposes a reflection on the reasons behind such a post-pandemic phenomenon that has been concerning us (psychoanalysts) due to its consequences. This phenomenon raises several issues, such as the possibility of the crisis experienced in different psychoanalytic institutes in recent years, as well as the purpose of the dissemination of so many online psychoanalytic training courses. This paper aims to contribute to the study and understanding of this phenomenon.

Keywords Psychoanalytic formation; Institutional crisis; On-line psychoanalytic formation courses offerings

Ao abrir o celular, o tablet ou o computador, somos inundados por uma maciça oferta de cursos de formação em psicanálise, cursos de 20, 30, 36 meses de duração, com aulas teóricas on-line, seminários e discussões prêt-à-porter. Sem falar da quantidade de palestras – algumas de excelentes conteúdos e outras nem tanto – proferidas todos os dias em algum canto do mundo.

Qual o significado dessa profusão de cursos, palestras a respeito da psicanálise? Certamente há várias leituras possíveis: um sintoma do mal-estar psíquico contemporâneo, que compensa – com a ilusão de conhecimento – a angústia de não saber e não compreender a realidade em que vivemos? Necessidade do narcisismo dos sujeitos envolvidos nessa difusão desordenada?

Por um lado, em relação a essa vulgarização da psicanálise, além de tantas outras possíveis leituras, há certamente um transbordamento do mal-estar existente nas instituições psicanalíticas, onde há dificuldade de diálogo entre várias correntes de pensamento, ideologias variadas, crenças que exigem dos sujeitos ampla abertura à alteridade e às diferentes posições de cada singularidade. Sem falar da cultura do cancelamento de quem ousa ter opiniões e visões de mundo que não coincidam com aquelas prevalecentes no meio em que se está inserido.

Em contrapartida a essa banalização da psicanálise, nós, que fizemos a formação há décadas, lembramos a definição que repetia o Dr. Siegfried Kronfeld, um dos fundadores do Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul e do Círculo Brasileiro de Psicanálise, que dizia: "a psicanálise pode ser resumida em 4 D: difícil, demorada, dispendiosa e dolorosa experiência de vida". Neste trabalho, teço algumas reflexões a respeito da formação do analista no contexto contemporâneo.

A gama de autores a serem estudados é ampla, a começar por Freud, cada vez mais inspirador, e os maiores expoentes da psicanálise contemporânea: Ferenczi, Klein, Winnicott, Bion, Green, Lacan, Ogden, a escola psicanalítica de Pavia, cujos maiores representantes são Ferro e Civitarese.

Todos sabemos que a formação de um analista se estrutura entre a análise pessoal, a teoria e a supervisão. Ainda hoje a análise pessoal é a parte mais importante da formação, um processo que não pode ser explicado nem contado em palavras, uma profunda experiência que transforma o sujeito, propiciando mudanças no dispositivo continente-contido com a consequente expansão da mente na concepção de Bion (2004).

Os outros dois dispositivos – seminários teóricos e supervisão – são fundamentais na formação do analista. A teoria confronta a ignorância e a supervisão é um instrumento importante na construção de uma prática analítica singular. O analista em formação pode chegar ao fim de sua análise pessoal não tanto pelo grau de resolução dos conflitos inconscientes na transferência-contratransferência, mas pelo grau em que ele (o analisando) é capaz por si mesmo de sonhar sua experiência emocional vivida, segundo a tradição pós-bioniana de Meltzer, Ogden e outros.

Historicamente a formação vinha sendo realizada nos institutos de psicanálise; contudo, a multiplicação de cursos de formação, quase exclusivamente on-line, parece prenunciar o possível fim desses institutos.

Sabemos que as instituições psicanalíticas passam por grandes dificuldades como observamos no próprio Círculo Brasileiro de Psicanálise, onde vários grupos deixaram de existir: IEPSI, GREP em Minas Gerais, Círculo Psicanalítico de Pernambuco e Sociedade Psicanalítica da Paraíba, embora recentemente o Círculo Psicanalítico do Pará tenha se somado aos Círculos Psicanalíticos existentes. Que vírus é esse que ameaça a convivência da pluralidade e das expressões democráticas da existência? Como disse Carlos Pinto Corrêa, em conversa particular na ocasião dos 50 anos do Círculo Psicanalítico da Bahia, houve em alguns momentos a perda da humanidade, o que permitiu, de um lado, o parricídio dos pais e, do outro lado, sentimentos de filicídio dos pais fundadores com relação às novas gerações.

A palavra "instituição" vem do latim institutio, que, por sua vez, é a forma nominal do verbo instituere. Trata-se, portanto, de uma disposição, de uma arrumação, de uma instrução. O próprio termo "instituição" traz em si mesmo a noção de disparidade implícita dos lugares via a temporalidade que ele inclui.

Lebrun (2009, p. 14) escreve:

[...] se entendemos na instituição a coisa instituída, esta não pode se desvencilhar do processo instituinte que a instaurou [...] a instituição supõe levar em conta uma diferença de lugares e, então, a prevalência de um deles sobre os outros.

Segundo Lebrun (2009), foi Hegel o pensador da instituição, devido à importância decisiva para a vida coletiva. Hegel se contrapôs a Kant: o homem nasce homem porque sua consciência individual entra em relação dialética com as outras consciências individuais para produzir as instituições. É dentro das instituições que o homem inicialmente se perde, segundo a lei da alienação, mas é lá que ele se encontra por meio dessa renúncia. Se você entra no jogo social e em suas regras, isso lhe será restituído sob forma de uma consciência mais humana.

Merleau-Ponty (2003) realizou, durante um ano inteiro, no Collège de France, um curso sobre a instituição, enfatizando a não coincidência entre instituinte e instituído, afirmando que o tempo é o modelo da instituição, convocação para uma sequência, exigência de um futuro, reafirmando a eficácia do instituinte.

Sendo assim, no próprio cerne do conceito de instituição há necessidade de uma temporalidade, de uma 'terceiridade' e de uma dimensão coletiva, implicando de imediato uma disparidade de lugares. Mas como "o fio da tradição está rompido" (Arendt, 2013, p. 257), em poucas décadas, a paisagem da instituição se transformou. Não podendo mais contar com o passado para embasar a prevalência atribuída ao coletivo, deve-se buscar o que lhe daria hoje sua legitimidade.

Atualmente, em face dessa dificuldade, observamos a existência de grupos que tentam escapar do pacto institucional, tornar-se uma empresa, como resposta à crise da instituição, já que um ajuntamento coletivo, por si só, não é uma instituição. Sem serem sinônimos, os conceitos de lei e de instituição implicam um caráter oblíquo, consequência de nosso estatuto de sujeito falante que não poderá ficar satisfeito a não ser de maneira insatisfatória. A forma de transmitir a necessidade de um lugar diferente, de exceção, era uma maneira de garantir a existência do Outro. A modernidade chegou a nos livrar da existência substancial do outro, enquanto a pós-modernidade nos desembaraça da sua necessidade lógica.

Hoje vivemos numa sociedade que funciona horizontalmente, e a verticalidade parece ter perdido o crédito, dando a entender essa horizontalidade como desaparecimento do Outro: alguns falam da dissolução de qualquer transcendência, e outros falam da necessidade de restaurá-la. Isso implica não só ser capaz de mudanças e remanejamentos incessantes, mas poder se preocupar com a permanência e com a estabilidade, permitindo assegurar uma instância terceira.

A palavra "communitas" vem do latim munus, um conjunto de pessoas unidas por um dever ou por uma dívida; não por um mais, mas por um menos, por uma falta, por uma forma de carga, de modalidade defectiva para aquele que é afetado, diferente daquele que está isento.

A subjetividade individual e a vida coletiva se fundam sobre a perda que as constitui: hoje não é suficiente desconstruir, é preciso urgentemente pensar como construir, levando-se em conta o que nos precedeu.

Temos o desafio de reinventar a vida coletiva, temos de afrontar o caos – como dizia Deleuze (1991) -, obrigados a carregar cada um o peso do coletivo, logo, da divisão, aquela que sustenta o um e ao mesmo tempo o plural sem deixar o outro carregar o que não queremos reconhecer.

Hoje temos de trabalhar na instituição, como referência de legitimidade, não mais com a tradição, mas com a temporalidade do anseio de durar. A tarefa consiste em fazer desse real que escapa e do impossível que ela implica o lugar do transcendental. Em outros termos, temos o paradoxo de fazer do vazio que nos governa e que nos funda uma base confiável de convivência, sem, no entanto, poder dispor de qualquer fundamento e garantia de alcançá-lo.

As novas gerações desejam despontar como portadoras de um saber aprendido no contato com os mais velhos e anseiam ocupar seu próprio lugar – deve haver alguma relação com as dificuldades vividas no espaço da instituição!

Pontua Hannah Arendt (2013, p. 226):

Pertence à própria natureza da condição humana o fato de que cada geração se transforma em um mundo antigo, de tal modo que preparar uma nova geração para um mundo novo só pode significar o desejo de arrancar das mãos dos recém-chegados sua própria oportunidade face ao novo.

Na história da psicanálise, há sempre uma passagem do poder absoluto da figura paterna à sua queda, com o conflito entre irmãos que exercitam a conquista do lugar paterno, desfazendo as identificações estabelecidas ao longo de idealizações transferenciais persistentes.

Os estudos teóricos, a análise pessoal e a prática clínica criam as condições da possibilidade de exercer o ofício de psicanalista em constante diálogo com nossos pares, ampliando nossa mente para novos significados e novas visões de mundo, portadores de um saber inacabado, em constante evolução.

Repensando sobre o tempo de minha formação nos anos 1980 e 1990, a ênfase de nossos estudos era sobre o conteúdo do que constitui o mundo interno marcado pela ambivalência e pela coexistência de diversas etapas do circuito pulsional. Hoje estamos mais atentos ao modo de pensar, às vicissitudes do pensar, tentando auxiliar os analisandos a transformar seu aparelho de pensar e sonhar. Aumentaram muito a qualidade e quantidade de estudos sobre os autores contemporâneos: Ferenczi, Klein, Bion, Winnicott, Kohut, Ogden, Green, cada autor enfatizando algum aspecto do psiquismo, dos transtornos narcísico-identitários como nos fala Roussillon (2023) a respeito de pacientes com dificuldades de simbolização, no âmbito da não neurose.

Esses pacientes não neuróticos necessitam de sustentação, segundo os conceitos de Winnicott (1975) e de contenção, conforme Bion (2004): as falhas no ambiente produzem sofrimentos passivos, enquanto as falhas do objeto, incapazes de oferecer continência e reverie, geram angústia e defesas primitivas inomináveis.

Luis Claudio Figueiredo e Nelson Coelho (2018, p. 29) realçam a função vitalizadora do analista:

Trata-se, isso sim, de escutar e responder empaticamente às mais incipientes manifestações de vida psíquica, que ainda subsistem sepultadas debaixo das partes mortas ou entorpecidas da vida psíquica.

Frente às exigências tão complexas da clínica contemporânea, cabe a pergunta: como seria possível formar analistas de maneira rápida, on-line e indolor?

Cito Fátima Cesar (2023, p. 11):

O papel vitalizador do analista deve incluir tanto a recepção e o propiciar do vir à tona os aspectos vitalizados do paciente como o acolhimento do "morto" das áreas mais primitivas, do irrepresentável, dos afetos depressivos e das tendências a desistir da vida.

Roussillon (2023, p. 94) escreve:

Considero essa a via régia para todos os cuidados relativos a primeira infância: auxiliar e acompanhar os pais para uma compreensão melhor e mais adequada do que se passa com essas crianças. Grande parte dos maus-tratos impingidos às crianças está relacionado ao fato de que lhes são transferidos entraves ligados à história da mãe, ou dos pais, que os impedem de compreender a criança.

E continua Roussillon (2023, p. 99):

Encontramos em geral em todas as patologias narcísico-identitárias – déficits significativos nesse primeiro sistema de comunicação que se produz ao longo dos anos. Algo começou a descarrilhar na relação primária com o objeto maternante [...] não se trata de buscar culpados, mas de compreender os processos e até mesmo suas falhas. As manifestações das patologias narcísico-identitárias, os traços deixados pelos primeiros traumas, pelas primeiras experiências daquilo que os sujeitos não conseguiram integrar afetivamente, seus objetos bizarros, suas potencialidades não advindas – aguardam por serem reconhecidas e ter seus efeitos mensurados.

O trabalho cotidiano do analista é tentar reduzir a violência da pulsão de morte e a lógica da desesperança. Para cumprirmos a função analítica, precisamos estar vitalizados, esperançosos nos nossos espaços institucionais para que possamos funcionar como filtros diante da dor e tentar transformá-la em novas saídas criativas.

Mas será que nossas instituições propiciam tais vivências de trocas afetivas, políticas e científicas? Podemos sobreviver na pluralidade de vértices teóricos, políticos e culturais sem dar tanta importância ao brilho do curriculum e outros títulos? Precisamos de um espaço de afeto onde sejam possíveis trocas de experiências que nos mantenham vivos, testemunhas das transformações psíquicas que ocorrem constantemente.

1Trabalho apresentado no XXV CONGRESSO DO CÍRCULO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE e XLI JORNADA DO CÍRCULO PSICANALÍTICO DE MINAS GERAIS, Belo Horizonte (MG), 28, 29 e 30 set. 2023.

Referências

ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2013. [ Links ]

BION, W. R. Transformações. Do aprendizado ao crescimento. Tradução: Jayme Salomão. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 2004. [ Links ]

CESAR, F. F.; RIBEIRO, M. F. R.; FIGUEIREDO, L. C. Chuva n'alma. A função vitalizadora do analista. São Paulo: Blucher, 2023. [ Links ]

Deleuze, G.; Guattari, F. Qu'est-ce que la philosophie? Paris: Minuit, 1991. [ Links ]

FIGUEIREDO, L. C.; COELHO, N. E. Adoecimentos psíquicos e estratégias de cura. Matrizes e modelos em psicanálise. São Paulo: Blucher, 2018. [ Links ]

LEBRUN, J.-P. Clínica da instituição. O que a psicanálise contribui para a vida coletiva. Porto Alegre: CMC, 2009. [ Links ]

MERLEAU-PONTY, M. L'Institution, la passivité: notes de cours au Collège de France 1954-1955. Paris: Belin, 2003. [ Links ]

ROUSSILLON, R. O narcisismo e a análise do Eu. São Paulo: Blucher, 2023. [ Links ]

Winnicott, D. W. O brincar e a realidade. Tradução: José Octávio de Aguiar Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975. [ Links ]

Recebido: 30 de Novembro de 2023; Aceito: 10 de Dezembro de 2023

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.