Mas isso eu não quero, porque gosto de evitar concessões à covardia. Não se pode saber aonde se chega por esse caminho; primeiro cedemos nas palavras, e depois pouco a pouco também na própria coisa.
A causa da psicanálise avançou por toda impõe, repete e sobrevive aos tempos ainda parte, declarou certa vez um amigo a Freud. no século XXI? Sabemos que a psicanálise Porém, Freud não estava despreocupado não recusa o impossível nem os elementos diante dessa aceitação, pois os conceitos, as desprezados. Como desordenar neste século ideias – às vezes escandalosas e desagradá-as evasivas contra o Real? As proposições da veis – a metapsicologia, a sexualidade e as psicanálisepareciamchocantes,improváveis teorias já haviam sido rejeitadas de forma e absurdas. Freud deflagrou o golpe em que obtusa e categórica. Que pedaço de Real é o Eu está submetido ao inconsciente, esse esse na psicanálise, que não cessa de perma-traumatismo na subjetividade dos sujeitos, necer, impossível de se transformar, que se assim constatado, que são dessemelhantes a si mesmos. O futuro indeterminado da psicanálise não surpreendeu Freud, que afirmou, com certa ironia e satisfação, o propósito de “perturbar o sono da humanidade”. A tarefa da psicanálise, escreveu Freud a Stefan Zweig, é “lutar contra o demônio de maneira equilibrada”. Mas o que é o demônio? O demônio era a irracionalidade. No entanto, o equilíbrio que reduz o demônio a um objeto científico inteligível, fazia com que os conceitos fossem ainda mais inaceitáveis. Dizer sobre a verdade era o ofício de Freud.
A psicanálise foi amplamente discutida nas mídias impressas, por exemplo, nos jornais disponíveis nos cafés frequentados por poetas como Rilke e escritores como Karl Kraus. Nota-se que eram inegáveis os efeitos da psicanálise na cultura e na subjetividade dos sujeitos. Não se podia mais ser o mesmo no mundo. O Café Vienense Riedl era um dos favoritos de Freud. Ali psicanalistas e não psicanalistas se reuniam após os seminários e debatiam a teoria amplamente em discussões acaloradas. Em Viena, raramente acontecia uma conversa na qual não ocorresse o nome de Freud. Segundo Peter Gay (2012, p. 453-454), a entrada da psicanálise nos cafés, nos coquetéis, nos palcos, dificilmente seria capaz de promover a compreensão dos pensamentos de Freud. A imprensa popular, como jornais, revistas e livros, contribuiu naquele tempo, e ainda contribui, para juízos fáceis e incompletos sobre Freud e a psicanálise. É o caso do livro de Pasternak e Orsi (2023), que repete acusações rasas, já levantadas outrora. A paixão com que foram acolhidas as ideias de Freud, muitas vezes no campo extremamente subjetivo, formou centelhas para interpretações arbitrárias, improdutivas, errôneas e longos debates ordinários.
Com efeito, intrigas sobre aspectos do caráter e da vida pessoal de Freud eram mais disseminadas do que os próprios fundamentos da teoria. Pode-se verificar prejuízos às pesquisas quando esse tipo de falácia ocorre: ataca-se o argumentador e não o argumento, produzindo falácias baseadas na “demonização do autor”.1
Não por acaso, em 10 de maio de 1933, nazistas, acompanhados de estudantes e professores, queimaram em praça pública livros de Sigmund Freud, omas Mann, Franz Kaa, Karl Marx, Albert Einstein, entre outros. Eram “tempos loucos”, escreveu Freud, tal como um presságio: “que progresso, na Idade Média, teriam queimado a mim, hoje se contentam em queimar meus livros” (Gay, 2012, p. 593).
Era tempo de guerra quando Freud decidiu publicar importantes escritos no intuito de tratar o que nomeou como “resistência aos resultados da psicanálise” (Freud, 1918/2022, p. 633). Em 1914, ano de início da Primeira Guerra, veio à luz Contribuição à história do movimento psicanalítico (Freud, 1914/2012), artigo no qual tratava das “guerras intestinas” da psicanálise, em especial, as divergências apresentadas por Carl Gustav Jung e Adler. No texto, assim como em outros ensaios publicados no período, Freud estabelece os postulados e as hipóteses fundamentais da psicanálise para delimitar a especificidade de sua prática, sustentada pelos preceitos éticos e clínicos da metapsicologia. Seu argumento prevaleceu e impediu opositores de se alojar sob o nome da psicanálise, levando Jung a fundar sua psicologia analítica, e Adler, a sua psicologia individual. A dimensão pulsional, o recalque e o inconsciente configuram pontos normais da disputa.
Já no fim da guerra, ao escrever seu ensaio Da história de uma neurose infantil, Freud (1918/2022) destacou duas formas de disputa pela psicanálise: num primeiro momento, os opositores se contentavam em contestar os fatos estabelecidos pela análise ao evitar sua verificação; depois, surgia uma nova forma de resistência, ou seja, reconhecia-se os fatos, eliminava-se as conclusões deles decorrentes pela via da reinterpretação [Umdeutung] para, enfim, evitar o encontro com o que há de chocante na psicanálise. Trata-se do que Freud (1918/2022, p. 634) chamou de “tentativas superficiais ou forçadas de reinterpretação”.
A questão da reinterpretação também pode ser encontrada na conferência Aspectos arcaicos e infantilismo dos sonhos, proferida em 1916, durante a guerra. Na ocasião, a sexualidade infantil, parte do fundamento que distinguiria a psicanálise da prática de opositores, foi apresentada por Freud (1916/1996) como uma descoberta que provocou “a mais violenta oposição entre adultos”. Se, num primeiro momento, houve quem não tomasse parte no repúdio às elaborações freudianas em torno do relacionamento “proscrito e tabu” do incesto, como Adler e Jung, estes “compensaram seu débito mais tarde”, ao propor “reinterpretações tortuosas”. A operação de reinterpretação [Umdeutung] aparece ainda do lado dos adultos que se esforçam para, em parte, não ver as manifestações sexuais infantis e “disfarçar uma outra parte interpretando erroneamente [durch Umdeutungen] a natureza sexual, conseguindo, assim, negá-la em sua totalidade” (Freud, 1916/1996, p. 210).
Neste artigo parte-se de questões e problemas para a psicanálise: em que medida, podemos localizar, ainda hoje, formas de resistência à psicanálise? Seria possível encontrá-las conjugadas na contestação dos fatos apresentados pela psicanálise por parte de quem evita a verificação e reinterpreta os achados considerados chocantes, distorcidos, para responder à moral da época? Interessa identificar num breve percurso por aspectos históricos, metapsicológicos, éticos e clínicos, e apresentar nesta leitura o pedaço que resiste aos tempos de Freud e ao tempo de agora. Isto é, a sexualidade.
Em Contribuição à história do movimento psicanalítico, Freud (1914/2012) nos mostra que a importância da sexualidade infantil só é obtida pela via da análise, retrocedendo dos sintomas às suas fontes, para esclarecer o que pode ser esclarecido e modificar o que talvez possa ser modificado. O psicanalista afirma compreender como alguém, a exemplo de Carl Gustav Jung, chega a resultados distantes da prática analítica: forma-se primeiro uma concepção teórica da natureza das pulsões sexuais para, a partir daí, buscar entender a vida infantil. Segundo Freud, essa seria uma concepção eleita de forma arbitrária ou que atende a considerações “de fora”, arriscando ceder ao “perigo de se tornar inadequada para o âmbito em que se deseja aplicá-la”. Freud demonstrou que o “caminho analítico” leva a dificuldades e obscuridades no tocante à sexualidade, mas “essas não podem ser eliminadas com especulações, têm de persistir até acharem solução através de outras observações ou de observações de outros âmbitos” (Freud, 1914/2012, p. 188-189).
Freud aponta contribuições da escola de Zurique, como a teoria dos complexos, ainda que não dê “tanto valor como fazem outros, menos próximos da questão”, por não poder ser “inserida no conjunto das teorias psicanalíticas”. Freud reconhece que a palavra “complexo” se tornou “popular”, mas de aplicação “abusiva”, em detrimento de “formações conceituais mais precisas”. Falava-se na época sobre “retorno de complexo”, quando se queria dizer “retorno do recalcado”, ou mesmo “tenho um complexo em relação a ele”, quando se queria dizer “uma resistência”, adverte. Freud pontuou como a teoria negligenciou a vida pulsional, permanecendo “tão confusa, opaca e obscura que fica difícil tomar posição a seu respeito” uma espécie de “novo evangelho” que inicia uma “nova era” para a psicanálise e uma “nova visão de mundo” para todos. Contra a fundação da ética e da religião sobre o campo das pulsões sexuais, postulava-se aí algo “elevado” desde sempre: os “complexos” não significam o que parecem dizer, mas possuem um elevado sentido anagógico, empregado nos raciocínios abstratos da ética e da mística religiosa.
Freud afirmou que Jung buscou eliminar exatamente a parte chocante dos complexos familiares, ao substituir a libido sexual por um conceito abstrato “misterioso e inapreensível para os sábios e os tolos igualmente”. Assim, prescinde do conceito de “complexo de Édipo” para atribuir-lhe um sentido apenas “simbólico”, isto é, a mãe significa o intangível e ao qual se deve renunciar no interesse da cultura; o pai, assassinado no mito de Édipo, é tomado como o “pai interior”, símbolo do qual é necessário se libertar para alcançar a independência. O conflito entre moções pulsionais eróticas, perturbação para o Eu, é substituído pelo conflito entre “tarefa da vida” e a “inércia psíquica”. Além disso, é estabelecida a equivalência entre “consciência de culpa” e a repreensão pelo não cumprimento da “tarefa de vida”.
Em linhas gerais, tratava-se de desvincular libido e sexualidade: negligenciar as pulsões e privilegiar a noção de uma indiferenciada “energia psíquica”. Estava em jogo o rompimento teórico entre Freud e Jung, pois foi atribuído um significado diferente ao conceito de libido, cuja origem não era sexual. Não era possível a Freud seguir esse movimento. Ele considerou a libido como o desequilíbrio original e irredutível da natureza humana, pois satisfações de necessidades implicam também a possibilidade de uma satisfação suplementar, que se desvia do objeto e da finalidade da demanda. O desvio é precisamente o que retira a sexualidade do lugar natural ou preestabelecido.
Por sua vez, Adler, que desconsiderava em sua psicologia individual o caráter pulsional da sexualidade e o próprio inconsciente, aparece em Contribuição à história do movimento psicanalítico (Freud, 1914/2012) festejado pelos seguidores como o Messias. Autor do que Freud nomeou como “pedagogia médica”, Adler desenvolveu um “sistema” que nega as moções libidinais para favorecer os componentes pulsionais do Eu, recorrendo a uma “racionalização” para “o motivo inconsciente”. Na teoria do “protesto masculino” configura o que distingue em definitivo a “psicologia individual” da psicanálise. Nas palavras de Freud, Adler se situa tão completamente na ciumenta “estreiteza do Eu”, que considera apenas as moções pulsionais agradáveis ao Eu e por ele promovidas. Precisamente o elemento perturbador da pulsão sexual não foi considerado.
Para Freud, nas elaborações tanto de Jung quanto de Adler, trata-se da criação de um “novo sistema ético-religioso” destinado a “reinterpretar, desfigurar ou remover os resultados da análise”. Ambos decidiram ignorar a “melodia primordial” das pulsões, ao preço de se afastarem da ética psicanalítica. A investigação do singular foi para o segundo plano e em seu lugar foram colocados “julgamentos cujos pontos de referência são oriundos da investigação antropológica”, resultando numa espécie de recusa na investigação do passado para enfatizar o presente. Uma metafísica do presente, para a qual “o essencial não é absolutamente o casual e pessoal, mas o geral – justamente a não realização da tarefa da vida”.
Se, para Freud, o conflito presente é abordado em referência à “pré-história”, pela via do caminho que a libido percorreu no adoecimento, a “nova terapia zuriquense” negligenciava o passado e a transferência, como atesta um testemunho apresentado por Freud (1914/2012, p. 230):
Dessa vez não houve atenção ao passado e à transferência. Sempre que acreditei perceber essa última, ela foi considerada apenas um símbolo libidinal. O ensinamento moral era bonito e eu o segui fielmente, mas não avancei nada. Para mim, a coisa era ainda mais desagradável do que para ele, mas que podia eu fazer? [...] Em vez de liberar analiticamente, cada sessão trazia novas grandes exigências, que tinham de ser cumpridas para se superar a neurose; por exemplo, concentração interior por meio de introversão, aprofundamento religioso, nova vida em comum com minha mulher em amorosa dedicação etc. Isso estava além de minhas forças, implicava uma radical transformação interior. Deixei a análise na condição de pobre pecador, com fortes sentimentos de contrição e excelentes propósitos, mas, ao mesmo tempo, profundamente desencorajado. O que ele me recomendava, qualquer pastor me teria aconselhado; mas de onde tirar a força para aquilo?
Nesse sentido, as pulsões, o inconsciente e o recalque foram alguns dos fundamentos escolhidos por Freud para distinguir a prática da psicanálise daquela apresentada pelos opositores que adotaram a via da reinterpretação como operação de disfarce do que há de chocante em suas descobertas. A metáfora utilizada por Freud é a da faca de Lichtenberg: mudam o cabo e colocam aí uma nova lâmina; uma vez que nela está gravada a mesma marca, esperam que acreditem que temos o mesmo utensílio. A situação é complexa. Por um lado, Freud é demonizado ao tratar da sexualidade infantil “perverso polimorfa”, das pulsões sexuais, do recalque e do inconsciente. Contesta-se a realidade dos fatos estabelecidos pela análise e, ao mesmo tempo, é evitada sua verificação sob acusações de cunho pessoal. Sua teoria das pulsões, as elaborações em torno da força “daimoníaca” pulsional na determinação da repetição e do destino, formulações obscuras exigidas pelo próprio objeto do qual se ocupa a psicanálise, tocavam em pontos que os adultos preferem disfarçar ou reinterpretar. Assim, a própria psicanálise assume um aspecto infamiliar (unheimlich) e demoníaco (daimonisch) ao abordar o que a moral cristã procurava rejeitar por considerar “desejos maus”. Para Freud (1923/2019, p. 217), os demônios eram “derivados de moções pulsionais rechaçadas, recalcadas”.
Por outro lado, encontramos a segunda forma de resistência, talvez mais eficaz: reconhece-se os resultados da psicanálise para disfarçá-los por meio de reinterpretações que tornem menos intragável sua recepção, evitando o choque com o qual pode nos surpreender. As estratégias de Jung e de Adler abriram esse caminho, cada um a seu modo, negligenciando dimensão perturbadora das pulsões sexuais e com ela conceitos como transferência, recalque e inconsciente. Atualmente, encontramos tentativas de reinterpretação que recorrem ao campo das neurociências, da matemática, da linguística, além do velho recurso a certa antropologia, já destacado por Freud em sua época. São tentativas que se apresentam, tal como antes, como uma exigência que tornaria mais palatável a recepção por parte do público.
Retornamos à epígrafe deste artigo, com um trecho do texto Psicologia das massas e análise do Eu (Freud, 1921/2020, p. 165). A abordagem freudiana insiste no ponto em que se deve evitar concessões à covardia, ao argumento de que primeiro cede-se nas palavras e, por fim, cede-se na própria coisa. A que Freud se refere? Precisamente à sexualidade. Freud respondeu com firme rigor e oposição aos comentadores que propunham atenuar as ressonâncias dos fundamentos das “pulsões sexuais”, substituindo-as pela ideia mais nobre da palavra grega “Eros”, ao mesmo tempo em que faziam à psicanálise acusações de pansexualismo. Para Freud, não se deve ceder da palavra “sexualidade”.
É no primeiro parágrafo do texto sobre a técnica da psicanálise Construções na análise, que Freud (1937/2017, p. 365-372) responde ao autor da crítica de que o analista tem sempre razão. Note-se, antes de mais nada, que “construções na análise” é uma escrita sobre a técnica, que poderíamos arriscar, e inferir que coincide com o método científico. Mas, de fato, a causa de uma psicanálise não é tão somente de técnica; é também sobre ética e sobre política. “Cara eu ganho, coroa você perde”, trata-se de uma expressão, e aposta para ver quem será o vencedor do jogo. Isso significa que, se o analisante concorda, estamos com a razão, mas se discorda, é um sinal de resistência. Nesse sentido, estamos com a razão. No entanto, pode-se jogar cara ou coroa, mas para o inconsciente não se trata de um jogo ao acaso. Freud (1901/2023, p. 331) demonstrou exatamente que não há nada de arbitrário ou indeterminado no inconsciente. Além disso, não foi suficiente para refutá-la o aforismo muito citado de Kraus (1919 apudGay, 2012, p. 454): “a psicanálise é a doença cuja cura a própria pretende ser”.
Freud demonstrou que o analista não atribui ao ou ao um valor nominal ou critérios de validade. O , pode ter muitos significados; pode indicar reconhecimento, por outro lado, pode ser desprovido de significados e até mesmo ser falso. O é ainda mais polissêmico; pode ser a expressão de uma rejeição, resistência ou se originar de outro fator da situação analítica. É nesse sentido que não prova nada diretamente em relação à construção. O importante se apresenta indiretamente por meio de associações, ideias ou pensamentos que ocorrem na associação livre [Einfall].
Nesse ponto, podemos observar que o analisante participa da construção, pois a única regra do tratamento psicanalítico é falar tudo, qualquer coisa que ocorra, mesmo que seja imprópria. A construção é sempre incompleta, traz à tona contradições e abarca apenas um fragmento. Trata-se apenas de um pedaço do acontecimento esquecido. Isso significa que é uma suposição a ser esclarecida, o que o analista faz é inferir. Mas o que se reconstrói? Os anos de vida esquecidos, o passado, uma partícula da história, sob efeitos de ocorrências na análise.
Qual a resposta dos sujeitos às construções que lhes ocorrem na análise? Um detalhe que surpreende é que a construção opera entre os efeitos nos sujeitos, que são as respostas do inconsciente, operam no rastro de um material em queda, de palavras mesmo, pedaços de significantes. A palavra “construção” poderia ainda causar a falsa ideia de totalidade, mas trata-se de uma construção que se faz por pedaços, sinalizando a evidência de que há um resto sintomático irredutível ao sentido. A construção ocorre em um processo temporal. Verifica-se que Freud (1937/2017, p. 375) constatou que apenas o movimento de “continuidade”, no processo de análise, poderá trazer a decisão sobre a correção ou a inutilidade de uma construção, pois a técnica é passível de verificação, comprovação ou descarte. Além disso, afirmou Freud, não se trata de exigir concordância, autoridade ou debater, pois, ao longo dos acontecimentos, as coisas podem se esclarecer. A construção é um método que se passa entre teoria, clínica, ética e política. Porém, certamente o autor da crítica não verificou tais fundamentos científicos. Para uma construção na análise, espera-se o seguinte do analista, vejamos em Freud (1937/2017, p. 375):
Mas essas reações do paciente geralmente têm múltiplos significados e não permitem uma decisão definitiva. Apenas a continuidade da análise poderá trazer a decisão sobre a correção ou a inutilidade da nossa construção. Entendemos a construção individual como nada mais que uma suposição, que aguarda a verificação, a comprovação ou o descarte. Não pleiteamos autoridade para ela, não exigimos do paciente nenhuma concordância imediata, não debatemos com ele quando ele inicialmente rebate. Em suma: comportamo-nos segundo o modelo de Nestroy, o criado da casa, que tem uma única resposta pronta para todas as perguntas e intervenções: “ao longo dos acontecimentos, tudo será esclarecido”.
Ao responder de forma detalhada e séria a crítica de que a psicanálise tem sempre razão, ao final da terceira parte do texto Construções na análise, Freud (1937/2017, p. 379) afirma que “construções na análise são equivalentes aos delírios”. É importante o leitor notar o refinamento intelectual, a elegância final de Freud, na perspectiva de que para além do debate com os opositores, a fim de defender a psicanálise, escreve Jacques-Alain Miller (1996, p. 93), Freud insere na teoria as respectivas complexidades. É preciso observar que, no início da escrita do texto, Freud (1937/2017, p. 369) mostrou que o trabalho de reconstrução apresentou certa coincidência com o trabalho do arqueólogo, seja nas escavações, seja ao trabalhar com os restos. Porém, sabemos que o analista, diferentemente do arqueólogo, dispõe de material vivo e isso significa que o material psíquico ficou preservado, não é suscetível de destruição total. O objeto psíquico é incomparavelmente singular e complicado, a metáfora arqueológica que Freud propôs falha. No entanto, ao fim do texto, Freud afirma a equivalência entre formações delirantes e as construções na análise.
O que é uma construção na análise equivalente ao delírio? Para reforçar a passagem de construções como delírios, recorro à proposição de Lacan (1966/2003, p. 211), em que diz que, se compreendermos2 os efeitos de uma interpretação, não é uma interpretação psicanalítica, basta ter sido analisado, ou ser analista para saber disso. O delírio prescinde da compreensão de sentidos.
A psicanálise não recusa o impossível de escrever; a experiência de uma análise ocorre próxima à experiência da pulsão. O que é a evidência para a psicanálise? Para inferir em relação à pergunta colocada, não encontramos o Real como evidência, mas como pedaço. Em vez de completar a consistência imaginária de uma construção do que poderia ser evidente, a faz furar. O Real não é um mundo, nem uma ordem, é um pedaço, um fragmento separado do saber ficcional, afirma Miller (2014, p. 30).
O sexual é o lugar do conflito. Freud demonstrou que a psicanálise tensiona dificuldades e obscuridades sobre a sexualidade, ponto em que foi demonizado. Com efeito, a psicanálise nunca se resignou a propósitos terapêuticos de adaptação social, pois o Real não corresponde a nenhuma normatização. O que interroga sobretudo os sujeitos, em sua singularidade irredutível? O que a sexualidade interroga os sujeitos? Uma análise procede levando o sujeito a construir e falar em “palavras” o que ocorre no corpo. O corpo é superfície em que acontecem3 coisas, no qual advêm os efeitos do impacto dos significantes. Pois não é a imagem, não é a anatomia que permitem fundar a relação do sujeito com o sexual. Mas é o dizer de cada um, na dimensão pulsional. Sabemos que o campo do Real na psicanálise, é o campo da sexualidade, o impossível de ser escrito, mas a psicanálise insiste exatamente escrevendo-o. Para Alenka Zupančič (2022, p. 29), o lugar central da sexualidade na psicanálise foi, e permanece sendo, um problema. E não desistir do lugar da sexualidade constitui a condição sine qua non de qualquer posição psicanalítica.
Mas o que é o sexual? O que ainda se faz perturbador na descoberta freudiana, escreve Zupančič (2023, p. 18), não é a sexualidade em si, essa resistência indignada com psicanálise, logo marginalizada pelo liberalismo moralmente progressista. Muito mais perturbador em Freud é a tese sobre o aspecto sempre problemático e incerto da própria sexualidade, um fator de desorientação radical. Para os vitorianos que diziam “o sexo é sujo”, Freud não respondeu: “Não, não é sujo, é natural”. Mas perguntou: “O que é esse sexo do qual vocês estão falando?” Nesse sentido, a resistência mais poderosa é tratar a sexualidade como “atividade natural”. O sexual é precisamente o operador do inumano, o operador da desumanização. Freud mostrou que o sexual, não é, portanto, o que nos torna humanos; é antes o que nos torna sujeitos.
Para Zupančič (2023, p. 39), quando se fala de psicanálise hoje, há uma redução sistemática em relação ao tema da sexualidade. Essa preocupação que já ocorria para Freud, no ponto em que não se deve ceder da palavra “sexualidade” e da própria coisa mesmo, isto é, as “pulsões sexuais”. Até que ponto se trata de uma defesa contra a sexualidade na teoria freudiana? Na perspectiva de que a sexualidade é descartada, ocorre mais ainda na produção e na proliferação de sentido sexual, é colocada às margens e se busca outros conceitos, por exemplo, mais-de-gozar. Ocorre que a sexualidade está intrinsecamente ligada ao inconsciente. Note-se que Freud demonstrou sua teoria do sexual ao verificar os fracassos terapêuticos. Em outras palavras, os sentidos da sexualidade produzidos pelo inconsciente foram revelados, conexões foram restabelecidas e reconstruídas, porém os sintomas persistiram. Observa-se, que, tal como nas primeiras descobertas de Freud sobre a sexualidade infantil, no que faz a criança ao chupar o próprio dedo, “as crianças são seres sexuais”, agora encontramos dificuldades, censuras, incômodos e desvios para dizer de sexualidades. A causa da psicanálise avançou com resistência, e críticas por toda parte, mas será exatamente a sexualidade o pedaço de Real, entre o tempo de Freud e este tempo de agora? Por que psicanálise?













