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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.60 Belo Horizonte dez. 2023  Epub 07-Fev-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n60a14 

CLINICA E TEORIA

A pulsão de morte na escultura da vida

Death Drive in the Sculpture of Life

Paulo Roberto Ceccarelli1 

1Psicólogo. Psicanalista. Sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais (CPMG) e sócio fundador do Círculo Psicanalítico do Pará (CPPA), ambos filiados ao Círculo Brasileiro de Psicanálise (IFPS) e à International Federation of Pscychoanalytical Societies (IFPS). Doutor em psicopatologia fundamental e psicanálise pela Université Paris 7 - Diderot. Pós-doutor pela Université Paris 7 - Diderot. Chercheur associé de l’université Paris 7 - Diderot. Membro da Société de Psychanalyse Freudienne (SPF) - Paris. Membro do corpo docente do contemporâneo do Instituto de Psicanálise e Transdisciplinaridade de Porto Alegre (RS). Professor das especializações do Instituto ESPE e coordenador de programas de formação livre. Professor na pós-graduação em psicanálise do Hospital Santa Catarina de Blumenau. Pesquisador Associado do LIPIS (PUC-RJ). Membro da Associação Universitária de pesquisa em psicopatologia fundamental. Professor e orientador de pesquisas na pósgraduação em psicologia da Universidade Federal do Pará. Professor e orientador de pesquisas do mestrado em promoção de saúde e prevenção da violência/MP da Faculdade de Medicina da UFMG. Coordenador e professor da pós-graduação em sexualidade humana da Faculdade Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Membro do Programa Antártico Brasileiro. Diretor científico da Clínica Ampliada de Saúde Mental (CASM Fundador e coordenador do Instituto Mineiro de Sexualidade (IMSEX). E-mail: paulorcbh@mac.com. Homepage: www.ceccarelli.psc.br Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_ Roberto_Ceccarelli


Resumo

O objetivo deste artigo é traçar um paralelo entre o livro de Jean-Claude Ameisen La Sculpture du vivant: le suicide cellulaire ou la mort créatrice e alguns conceitos freudianos tais como pulsão de morte e herança filogenética. Procurou-se apresentar as semelhanças entre aspectos da biologia atual e os conceitos freudianos de mais de 100 anos.

Palavras-chave Pulsão de morte; Suicídio celular; Pulsão de vida

Abstract

The objective of this article is to draw a parallel between Jean-Claude Ameisen’s book La Sculpture du vivant: le suicide cellulaire ou la mort créatrice [e sculpture of the living: cellular suicide or creative death] and some Freudian concepts such as such as the death drive and phylogenetic inheritance. We sought to present the similarities between aspects of current biology and Freudian concepts from over 100 years ago.

Keywords Death drive; Cellular suicide; Life drive

Viver é trazer, no mais profundo de si, a potencialidade de morrer.

Ameisen, 2007, p. 329.

Introdução

Meu interesse em retomar a discussão sobre um ponto tão controverso na teoria psicanalítica como o estatuto da pulsão de morte [Todestrieb] deveu-se à possibilidade de compreender esse conceito freudiano sobre outro ângulo: a pulsão de morte como o grande escultor da vida. Sem essa tendência [Trieb] presente em tudo que é vivo para voltar a um estado anterior à vida. O que chamamos de vida simplesmente não existiria. Esta contextualização ajudaria igualmente a problematizar a ideia segundo a qual a pulsão de morte, talvez pela sua compulsão à repetição, levaria à destruição, argumento utilizado por alguns psicanalistas. O recurso a outras posições teóricas, como as apresentadas no livro de Jean-Claude Ameisen (2007), é extremante necessário para avançar a discussão sobre a participação da pulsão de morte na escultura da vida.

Como escreve Freud (1926/1996, p. 278) em A questão da análise leiga, o contato com diferentes áreas do conhecimento é indispensável para a formação do analista:

A instrução analítica abrangeria ramos de conhecimento distantes da medicina e que o médico não encontra em sua clínica: a história da civilização, a mitologia, a psicologia da religião e a ciência da literatura. A menos que esteja bem familiarizado nessas matérias, um analista nada pode fazer de uma grande mas-sa de seu material.

No livro La Sculpture du vivant: le suicide cellulaire ou la mort créatrice [A escultura do vivo: o suicídio celular ou a morte criativa], que marcou data no início do século XXI,1 Jean-Claude Ameisen (2007) faz considerações inquietantes e, ao mesmo tempo, revolucionárias sobre a participação da morte no surgimento da vida. Embora o assunto não seja exatamente novo, o livro de Ameisen nos apresenta o universo da morte celular com uma força que produz uma experiência estética. À beleza do fenômeno descrito, há que acrescentar o primor da escrita, permeada de riquíssimas metáforas, passando por mitos gregos e textos clássicos, que mostram que a história dos corpos é, ao mesmo tempo, a história da nossa cultura. Nesse livro, que evoca áreasinsuspeitadasparaareflexãofilosófica,o biólogo e o artista se confundem (Chemillier-Gendreau; Silveira).

O livro de Ameisen nos conduz a uma viagem. Uma viagem dentro de nós mesmos, de nossas células, de nossos genes. Um mergulho ao início de nossa existência, ao suicídio celular e ao trabalho que esculpe nosso corpo em formação; e um mergulho em um passado muito distante, através de centenas de milhões de anos, em busca das origens do estranho e paradoxal poder da autodestruição que caracteriza a vida. Enfim, a leitura do livro nos transporta a uma das mais belas aventuras da biologia de nosso tempo.

Como qualquer exploração ao desconhecido, o livro desvela paisagens de intensa beleza, mostrando o quanto a ciência pode entrar em ressonância com nossas perguntas mais íntimas e mais antigas.

A fragilidade de nosso narcisismo, que se crê imortal, reluta em aceitar que a morte é inseparável da vida, e a ideia de uma autodestruição programada provoca questões complexas que abalam nossas crenças mais enraizadas. Como conceber, por exemplo, que a ocorrência de várias doenças, incluindo o câncer, está ligada a perturbações nos mecanismos que controlam o suicídio celular?2 O desencadeamento anormal, ou excessivo, do suicídio celular desempenha um papel essencial no desenvolvimento da maioria das patologias (Ameisen, 2003). A vida passa a ser pensada como um esforço constante de se afastar de algo inevitável (a morte), da qual não há como fugir.

O percurso de Ameisen (2007, p. 15) é de peso:

De uma forma perturbadora, contraintuitiva e paradoxal, um evento até então percebido como positivo – a vida – parece resultar da negação de um evento negativo – a autodestruição. E um evento até então percebido como individual, a vida, parece exigir a presença contínua de outros – só pode ser concebido como uma aventura coletiva.

As conclusões e as hipóteses que o autor avança sobre a morte celular programada ou suicídio celular (apoptose3) solidamente apoiadas em anos de pesquisa como professor de imunologia na Universidade de Paris-VII, Faculdade de Medicina Xavier-Bichat, são mundialmente reconhecidas e obrigaram a ciência, em particular, a biologia, a repensar a ideia naturalmente aceita de que a oposição entre vida e morte é evidente para exigir reflexões mais detidas (Ameisen, 2001, 2002, 2002b, 2007).

O livro de Ameisen nos remete de imediato a uma das bases centrais do pensamento de Freud: a pulsão de morte e a presença da herança filogenética que nos molda e nos constitui.

A existência do suicídio celular evoca um dos textos freudianos mais polêmicos e inquietantes, cujas ideias continuam a gerar controversas e ascetismo tanto na comunidade psicanalítica quanto em pesquisadores em geral: Além do princípio de prazer (Freud, 1920/2020).

Antes de avançar nossas reflexões sobre o livro de Ameisen, faremos breves considerações sobre o Além do princípio de prazer, assim como de nossa herança arcaica, que nos parecem pertinentes. Muitas delas já foram trabalhadas por outros autores (Campos, 2021; David-Ménard, 2015; Delouya, 2020; Winterstein, 2021; Cromberg, 2020).

Além do princípio de prazer

O Além do princípio de prazer (Freud, 1920/2020) é considerado um divisor de águas, que marca um antes e um depois na psicanálise. Ali são apresentados importantes aspectos do funcionamento e dos conflitos humanos, o que pode, sem dúvida, ser considerado como uma nova teoria sobre as paixões [páthos] que conduzem a alma. Ao mesmo tempo fascinante e desconcertante, o ensaio introduz conceitos que continuam a causar controvérsias e desacordos: a existência de dois impulsos [Trieb]4 fundamentais: o de vida (Eros) e o de morte (Tânatos). Eros é a força que busca a união, a conservação e a criação; Tânatos é a força que busca a separação, a destruição e o retorno ao estado inanimado.

O próprio Freud parece relutante em aceitar a concepção da pulsão de morte, como se lê na Carta 92, endereçada a Pfister:

A pulsão de morte não é uma exigência de meu coração, considero-a apenas como uma concepção inevitável, tanto em termos biológicos, como lógico-psicológicos. O resto é consequência disso (Freud, 1909-1939/1966, p. 191).

A grande novidade do texto de 1920 é constatar a existência de impulsos [Trieb] que levavam à estagnação: Freud os nomeou pulsões de morte [Todestrieb]. Tais pulsões buscariam a paz, isto é, uma tendência que eliminaria a estimulação do organismo. Seu trabalho teria como objetivo a falta do novo, a falta de vida, ou seja, a morte: o que Piera Aulagnier (2011), chama de “desejo e não desejo”.

A introdução da pulsão de morte evidencia o conflito presente em todo e qualquer organismo vivo: o anseio pelo retorno ao inorgânico, ao estado de não vida, aquele que existia antes da vida e, dialeticamente, indica a presença de uma força, a pulsão de vida, que busca prolongar a vida e garantir “que o organismo só quer morrer à sua maneira” (Freud, 1920/2020, p. 139). As pulsões de vida e de morte passam a ser princípios gerais que regem o funcionamento não só da vida psíquica, mas também de toda vida orgânica, presente nos animais, nas plantas e nos organismos unicelulares.

A argumentação vertiginosa de Freud sobre experiências aparentemente desconexas – sonhos traumáticos, neurose de guerra, brincadeiras infantis, a impressão de que repetimos um enredo e tantos outros – culmina na revisão de um dos fundamentos centrais da psicanálise: a primazia do princípio de prazer como regulador do funcionamento psíquico, o que leva Freud a repensar conceitos da psicanálise e, em particular, o binômio prazer/desprazer.

A compulsão à repetição abala a solidez da primazia do princípio de prazer, pois nos leva a repetir situações traumáticas ou dolorosas. Essa compulsão confere sentido trágico à existência: o sujeito não consegue deixar de vivenciar ciclicamente determinado tipo de situação, como bem ilustra a tragédia de Édipo. Embora a compulsão à repetição seja uma forma de tentar dominar o trauma, ela representa também uma expressão da pulsão de morte.

A clínica leva Freud a constatar que, em muitos sujeitos, o recalcado, em vez de perlaborado [Durcharbeiten: trabalhar através], retorna como uma experiência carregada de angústia. Premidos pela compulsão à repetição, repetem situações dolorosas de sua vida, de suas relações e seus comportamentos, provocando um profundo mal-estar. O prazer aí produzido não segue as diretrizes do princípio do prazer: “[...] encontramos a coragem para supor que realmente exista na vida anímica uma compulsão à repetição que sobrepuja o princípio de prazer” (Freud, 1920/2020, p. 97).

A pulsão de morte levaria igualmente à ausência de desejo de mudança, posto que o que é buscado é sempre um retorno a estados anteriores: desejo de não desejo (Aulagnier, 2011), como já postulado. Pressionado por forças perturbadoras externas, o organismo buscaria (repetiria) um objetivo antigo ainda que por caminhos novos, levando-o a fazer détour da função conservadora para lograr a meta final de conservação: “esses tortuosos caminhos para a morte, fielmente seguidos pelas pulsões de conservação, nos apresentariam hoje, portanto, o quadro dos fenômenos da vida” (Freud, 1920/2020, p. 49).

As lembranças (traumáticas) não rememoradas na análise são atuadas na transferência, transformando a neurose primitiva em neurose de transferência. A compulsão à repetição não é uma forma de resistência, pois o inconsciente não resiste. Se existe resistência, ela vem do Eu, ou mesmo do analista que, sob a domínio do princípio de prazer, tenta evitar o desprazer (Freud, 1914/2017).

O novo dualismo pulsional (pulsão de morte versus pulsão de vida) redefine, em termos metapsicológicos, a organização do aparelho psíquico, assim como o entendimento da primeira teoria das pulsões sem, contudo, anulá-la.5

A segunda parte do texto, organizada a partir da observação empírica de dois casos – neurose de guerra e brincadeira infantil –, mostra que o princípio de prazer não explica as ações em que se busca pelo desprazer e não pelo prazer. Ali também são acentuadas as relações entre o aparelho anímico e as influências do mundo exterior. Para Freud (1920/2020, p. 85), há “tendências que seriam mais primevas que ele (o princípio de prazer) e independentes dele”. Freud trabalha aspectos que se mantêm e se manifestam recorrentemente em vivências marcando, assim, uma passividade sobre o seu próprio destino.

É no capítulo V do texto que Freud sistematiza sua nova concepção de pulsão: “[...] uma pressão inerente ao orgânico animado para restabelecer um estado anterior” (Freud, 1920/2020, p. 131). A pergunta que se segue é de peso: qual é a natureza conservadora do ser vivo que toda pulsão busca restabelecer? Freud não deixa dúvidas: o retorno ao estado inorgânico, inanimado, ou seja, a morte.

O capítulo VI do texto requer fôlego e é de uma atualidade desconcertante. Ali Freud fundamenta sua análise em princípios biológicos: os estudos da biologia parecem indicar que todo organismo vivo caminha para a morte, e a biologia é “verdadeiramente, um reino de possibilidades ilimitadas; dela podemos esperar esclarecimentos os mais surpreendentes e não podemos adivinhar que respostas ela daria” (Freud, 1920/2020, p. 195). O texto de Ameisen corrobora admiravelmente pontos de vista de Freud postulados há mais de cem anos, resultantes de seus estudos, sobretudo na neurociência e na biologia de sua época.

Após esse percurso impressionante, Freud retoma a discussão sobre o princípio de prazer e conclui que não existe oposição entre os processos psíquicos apresentados. E embora o binômio prazer-desprazer não nos apresente uma explicação exaustiva do aparelho psíquico, ele não é, em absoluto, anulado.

Finalmente, o texto nos mostra, já o dissemos, que a vida é o resultado dialético entre um o impulso para retornar à não vida [Todestrieb], ao qual todo organismo inexoravelmente chegará, e a tendência [Lebenstrieb] a que o organismo morra à sua própria maneira (Freud, 1920/2020).

A herança arcaica

O interesse de Freud pela biologia e pela herança filogenética, que nos molda e nos constitui, está presente ao longo de toda a sua obra: “para o psiquismo, o biológico realmente tem o papel de fundo” (Freud, 1937/2017, p. 361).

O desenvolvimento bifásico da vida sexual do homem leva Freud a especular que “algo momentoso deve ter ocorrido nas vicissitudes da espécie humana” (Freud, 1926/1976, p. 179). Esse “precipitado histórico” representa a “herança do desenvolvimento cultural tornado necessário pela época glacial” (Freud, 1923/1976, p. 50).

No rascunho datado de 1915 e encontrado em 1983, Neuroses de transferência: uma síntese, Freud (1987, p. 10) escreve: “o quanto à disposição filogenética pode contribuir para a compreensão das neuroses, não podemos ainda estimar”. A partir dessa afirmação ele diz que “as neuroses devem também dar testemunho da história do desenvolvimento anímico do ser humano”:

[...] tem-se aqui a impressão de que a história do desenvolvimento da libido recapitula uma porção muito mais antiga do desenvolvimento filogenético do que aquela do eu; a primeira repete talvez as condições de vida da genealogia dos vertebrados, enquanto a última é dependente da história da espécie humana (Freud, 1987, p. 11-12).

Em Neuroses de transferência: uma síntese, Freud (1987) entende que os diferentes quadros neuróticos acompanham o surgimento na vida do indivíduo: à Angstneurose, a mais precoce, segue-se a histeria de conversão (que pode ser desencadeada a partir dos quatro anos de idade), a neurose obsessiva (por volta dos nove anos), da demência precoce, ou esquizofrenia, na puberdade). Esse quadro termina, na maturidade, com a paranoia e a melancolia-mania que, na atualidade, recebe o diagnóstico de transtorno bipolar.

A hipótese segundo a qual as neuroses testemunham a história do desenvolvimento da alma humana, faz do sofrimento psíquico um afeto geneticamente herdado, causado pelo excesso. Freud resgata a noção grega de pathos, colocando-a como ingrediente central da essência do humano: a particularidade da organização psíquica de cada um deve ser compreendida como uma criação singular e única para garantir a sobrevivência da espécie (Freud, 1987). Com recurso à filogênese, o inato é adquirido tanto pelo indivíduo quanto pela espécie.

Todos os elementos fundadores do desenvolvimento psicossexual – as ambivalências emocionais, a agressividade, a severidade do superego, os elementos constitutivos do complexo de Édipo, a angústia de castração, o acervo das fantasias primitivas, bem como outros tantos elementos fundadores e fundantes no desenvolvimento psicossexual – todos eles, sem exceção, são trabalhados a partir da herança da espécie (filogenética). E mesmo em seus textos mais tardios, como O mal-estar na cultura (Freud, 1930/2016), continua presente a importância atribuída ao ponto de vista filogenético.

Em um dos seus últimos escritos, O homem Moisés e a religião monoteísta, Freud (1939/2013, p. 142) apresenta pontos em comum entre herança filogenética e os instintos nos animais, o que permite diminuir o abismo aberto outrora pela arrogância do ser humano.

Se os chamados instintos dos animais, que lhes permitem se comportar desde o início, numa nova situação vital como se ela fosse uma situação antiga há muito conhecida, se essa vida instintiva dos animais admite mesmo uma explicação, só pode ser a de que trazem as experiências de sua espécie para a nova e própria existência, ou seja, que conservaram em si as lembranças daquilo que seus antepassados experimentaram. No animal humano as coisas não seriam no fundo diferentes. Sua própria herança arcaica cor-responde aos instintos dos animais, ainda que tenha outras proporções e outro conteúdo.

A morte criativa

Não é nada agradável admitir que nossas células têm o poder de se autodestruir em poucas horas. A sobrevivência delas, ou seja, nossa própria sobrevivência, assim como nosso envelhecimento, depende da capacidade de percebermos os sinais que o meio ambiente e a linguagem emitem: só assim, conseguimos conter o desencadeamento de nossa autodestruição.

A fragilidade e a interdependência que nos dá origem têm o poder formidável de levar nosso corpo a se reconstruir constantemente. A imagem antiga da morte, assim como um cortador brutal, transformou-se em uma imagem radicalmente nova: a de um escultor que, no coração do vivo, mostra sua forma e complexidade. Essa nova visão perturba a ideia que temos da vida, permite uma reinterpretação das causas da maioria de nossas doenças, dá luz às novas esperanças do nosso tratamento e transforma nossa compreensão do envelhecimento: cada um de nós é uma nebulosa viva, um povo heterogêneo de bilhões de células, cujas interações engendram nosso corpo e nosso espírito. “Viver, para cada célula que compõe nosso corpo, é, a cada momento, ter sido capaz de reprimir o disparo do suicídio” (Ameisen, 2007, p. 104).

A morte celular esculpe o nosso sistema imunológico, adaptando-o à nossa identidade, e selecionando sua diversidade inicial. O destino de cada célula está na sua capacidade de desencadear ou reprimir a autodestruição, apoiando-se em interações passadas e presentes com o ambiente.

A dialética freudiana entre a pulsão vida e a pulsão de morte é retomada magistral-mente por Ameisen (2003, p. 111):

Talvez o poder de autodestruição tenha sido, desde o início, uma consequência inevitável do poder de auto-organização que caracteriza a vida. Viver, se construir e reproduzir-se constantemente significa lançar mão de ferramentas capazes, ao mesmo tempo, de provocar a morte e de reprimi-la. E os instrumentos que levaram à vida podem, desde sua origem, provocar a morte.

A própria ideia de morte celular pode ser entendida como uma tendência de retornar ao inorgânico (pulsão de morte), enquanto os mecanismos que adiam a morte celular seriam uma expressão da pulsão de vida. O suicídio celular seria, então, uma forma de o organismo morrer por seus próprios meios, enquanto a interrupção desse suicídio leva-ria a uma morte antes do tempo, isto é, uma volta prematura ao inorgânico.

A sua maneira, Ameisen (2003, p. 110) atesta a presença da pulsão de vida e da pulsão de morte em tudo que é vivo: “Hoje, sabemos que o suicídio celular está em ação em todos os animais e plantas que puderam ser estudados, e cujos primeiros ancestrais apareceram, provavelmente, há milhares de anos”.

Aplicando os princípios da evolução biológica e da morte celular, Ameisen (2007) analisa a história humana considerando a sua origem, a diversificação e a dispersão pelo planeta, assim como as diferentes formas de interação com a natureza, sempre valorizando e respeitando a diversidade étnica e cultural humana. Constata igualmente o quanto somos transitórios, e a desmedida de nossa soberba ao atribuirmos uma importância descabida a nossa presença no cosmos.6

Cada uma de nossas células constituiu uma sociedade heterogênea e complexa: cada uma nasce, dá à luz a descendentes, envelhece e depois morre. Ameisen (2002) retoma a seu modo o conceito freudiano de série complementares.

A importância das filogêneses está amplamente presente no trabalho de Ameisen (2002, p. 111):

Cada célula – da mais simples à mais complexa – é uma mistura de seres vivos heterogêneos, de origens diversas; um cruzamento, uma coabitação das diferenças, cuja perpetuação provavelmente, na maioria das vezes, tenha como única alternativa a morte [...] somos um mosaico de órgãos e tecidos, alguns dos quais se autodestroem e se renovam continuamente enquanto outros persistem por um tempo dentro de nós.

Reflexões finais

Se, como argumenta Ameisen, a célula é perfeitamente equipada para desaparecer, teríamos aqui a prova biológica da existência da pulsão de morte, o que sustentaria a ideia desconcertante presente em Freud no texto de 1920. A pulsão de vida e a pulsão de morte, especula Freud (1920/2020), talvez sejam apenas o reflexo no reino do orgânico das forças de atração e repulsão presentes no mundo inorgânico. O que move a vida é a tensão constante (dialética) entre o impulso para o retorno ao estado anterior à vida [Todestrieb], e o impulso para a fusão narcísica inicial [Lebenstrieb].

O trabalho de Ameisen abre novas e desafiadoras perspectivas de pesquisa: como explicar o envelhecimento do vivo quando não existe nenhuma doença mortal? Os mecanismos que controlam a vida e a morte de nossas células estão também presentes nos processos de envelhecimento? Existem relações, e quais são elas, entre o suicídio celular e a senescência das células do nosso corpo? Talvez as antigas relações que a vida mantém com a autodestruição de nossas células – como morte prematura – atuem igualmente na escultura da nossa longevidade.

Somente encarando a morte, tentando compreender os mecanismos que a controlam, em vez de negá-los e resistir a eles é que podemos progredir nossa compreensão do vivo. E, quem sabe, um dia adquiramos o poder de nos reconstruir, nos perpetuar, estendendo a duração da nossa juventude e da nossa existência. Essa provavelmente será uma das grandes aventuras da biologia e medicina deste século.

1Jean-Claude Ameisen é membro da Comissão Francesa para a Unesco, do Conselho Científico da Cité des Sciences e do Conselho Científico do Internacional do Colégio de Filosofia.

2A noção de “suicídio celular é ambígua e se presta à confusão entre o próprio ato de matar (o qual a célula realmente realiza) e a “decisão” de se matar, que guarda enorme dependência entre as interações da célula e do meio-ambiente (Ameisen, 2003).

3Nome usado para designar, no grego antigo, a queda das folhas no outono, um fenômeno de morte natural e inevitável. Trata-se de uma das manifestações mais típicas e mais frequentes do suicídio celular, embora não seja a única.

4A tradução de Trieb por pulsão, sugerida por Lacan, não deixa de ser problemática e muitas vezes dificulta a compreensão da abrangência semântica do termo alemão. Uma das melhores discussões sobre a Trieb encontra-se em O mal-estar na cultura (Freud, 1930/2010, p. 59), da editora L&PM. Nessa edição, o tradutor Renato Zwick emprega o termo "impulso" que, sem dúvida, é bem mais perto do proposto por Freud. Manteremos, contudo, a pala¬vra "pulsão" por ser a mais conhecida do público brasileiro.

5Na primeira teoria das pulsões, o conceito de pulsão condensa o biológico e o psíquico. As pulsões traduzem a vida do corpo no psiquismo; são o motor da vida psíquica. No animal humano, os representantes ideativos dão voz às pulsões, transformando o sexual em psicossexual (Ceccarelli, 2017).

6Jean-Claude Ameisen mantém na Radio France Inter um podcast fascinante intitulado Sur les épaules de Darwin, no qual ele apresenta e debate suas ideias em profundidade: Disponível em: https://www.radiofrance.fr/franceinter/podcasts/sur-les-epaules-de-darwin.

Referências

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Recebido: 25 de Agosto de 2023; Aceito: 15 de Outubro de 2023

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