Viver é trazer, no mais profundo de si, a potencialidade de morrer.
Introdução
Meu interesse em retomar a discussão sobre um ponto tão controverso na teoria psicanalítica como o estatuto da pulsão de morte [Todestrieb] deveu-se à possibilidade de compreender esse conceito freudiano sobre outro ângulo: a pulsão de morte como o grande escultor da vida. Sem essa tendência [Trieb] presente em tudo que é vivo para voltar a um estado anterior à vida. O que chamamos de vida simplesmente não existiria. Esta contextualização ajudaria igualmente a problematizar a ideia segundo a qual a pulsão de morte, talvez pela sua compulsão à repetição, levaria à destruição, argumento utilizado por alguns psicanalistas. O recurso a outras posições teóricas, como as apresentadas no livro de Jean-Claude Ameisen (2007), é extremante necessário para avançar a discussão sobre a participação da pulsão de morte na escultura da vida.
Como escreve Freud (1926/1996, p. 278) em A questão da análise leiga, o contato com diferentes áreas do conhecimento é indispensável para a formação do analista:
A instrução analítica abrangeria ramos de conhecimento distantes da medicina e que o médico não encontra em sua clínica: a história da civilização, a mitologia, a psicologia da religião e a ciência da literatura. A menos que esteja bem familiarizado nessas matérias, um analista nada pode fazer de uma grande mas-sa de seu material.
No livro La Sculpture du vivant: le suicide cellulaire ou la mort créatrice [A escultura do vivo: o suicídio celular ou a morte criativa], que marcou data no início do século XXI,1 Jean-Claude Ameisen (2007) faz considerações inquietantes e, ao mesmo tempo, revolucionárias sobre a participação da morte no surgimento da vida. Embora o assunto não seja exatamente novo, o livro de Ameisen nos apresenta o universo da morte celular com uma força que produz uma experiência estética. À beleza do fenômeno descrito, há que acrescentar o primor da escrita, permeada de riquíssimas metáforas, passando por mitos gregos e textos clássicos, que mostram que a história dos corpos é, ao mesmo tempo, a história da nossa cultura. Nesse livro, que evoca áreasinsuspeitadasparaareflexãofilosófica,o biólogo e o artista se confundem (Chemillier-Gendreau; Silveira).
O livro de Ameisen nos conduz a uma viagem. Uma viagem dentro de nós mesmos, de nossas células, de nossos genes. Um mergulho ao início de nossa existência, ao suicídio celular e ao trabalho que esculpe nosso corpo em formação; e um mergulho em um passado muito distante, através de centenas de milhões de anos, em busca das origens do estranho e paradoxal poder da autodestruição que caracteriza a vida. Enfim, a leitura do livro nos transporta a uma das mais belas aventuras da biologia de nosso tempo.
Como qualquer exploração ao desconhecido, o livro desvela paisagens de intensa beleza, mostrando o quanto a ciência pode entrar em ressonância com nossas perguntas mais íntimas e mais antigas.
A fragilidade de nosso narcisismo, que se crê imortal, reluta em aceitar que a morte é inseparável da vida, e a ideia de uma autodestruição programada provoca questões complexas que abalam nossas crenças mais enraizadas. Como conceber, por exemplo, que a ocorrência de várias doenças, incluindo o câncer, está ligada a perturbações nos mecanismos que controlam o suicídio celular?2 O desencadeamento anormal, ou excessivo, do suicídio celular desempenha um papel essencial no desenvolvimento da maioria das patologias (Ameisen, 2003). A vida passa a ser pensada como um esforço constante de se afastar de algo inevitável (a morte), da qual não há como fugir.
O percurso de Ameisen (2007, p. 15) é de peso:
De uma forma perturbadora, contraintuitiva e paradoxal, um evento até então percebido como positivo – a vida – parece resultar da negação de um evento negativo – a autodestruição. E um evento até então percebido como individual, a vida, parece exigir a presença contínua de outros – só pode ser concebido como uma aventura coletiva.
As conclusões e as hipóteses que o autor avança sobre a morte celular programada ou suicídio celular (apoptose3) solidamente apoiadas em anos de pesquisa como professor de imunologia na Universidade de Paris-VII, Faculdade de Medicina Xavier-Bichat, são mundialmente reconhecidas e obrigaram a ciência, em particular, a biologia, a repensar a ideia naturalmente aceita de que a oposição entre vida e morte é evidente para exigir reflexões mais detidas (Ameisen, 2001, 2002, 2002b, 2007).
O livro de Ameisen nos remete de imediato a uma das bases centrais do pensamento de Freud: a pulsão de morte e a presença da herança filogenética que nos molda e nos constitui.
A existência do suicídio celular evoca um dos textos freudianos mais polêmicos e inquietantes, cujas ideias continuam a gerar controversas e ascetismo tanto na comunidade psicanalítica quanto em pesquisadores em geral: Além do princípio de prazer (Freud, 1920/2020).
Antes de avançar nossas reflexões sobre o livro de Ameisen, faremos breves considerações sobre o Além do princípio de prazer, assim como de nossa herança arcaica, que nos parecem pertinentes. Muitas delas já foram trabalhadas por outros autores (Campos, 2021; David-Ménard, 2015; Delouya, 2020; Winterstein, 2021; Cromberg, 2020).
Além do princípio de prazer
O Além do princípio de prazer (Freud, 1920/2020) é considerado um divisor de águas, que marca um antes e um depois na psicanálise. Ali são apresentados importantes aspectos do funcionamento e dos conflitos humanos, o que pode, sem dúvida, ser considerado como uma nova teoria sobre as paixões [páthos] que conduzem a alma. Ao mesmo tempo fascinante e desconcertante, o ensaio introduz conceitos que continuam a causar controvérsias e desacordos: a existência de dois impulsos [Trieb]4 fundamentais: o de vida (Eros) e o de morte (Tânatos). Eros é a força que busca a união, a conservação e a criação; Tânatos é a força que busca a separação, a destruição e o retorno ao estado inanimado.
O próprio Freud parece relutante em aceitar a concepção da pulsão de morte, como se lê na Carta 92, endereçada a Pfister:
A pulsão de morte não é uma exigência de meu coração, considero-a apenas como uma concepção inevitável, tanto em termos biológicos, como lógico-psicológicos. O resto é consequência disso (Freud, 1909-1939/1966, p. 191).
A grande novidade do texto de 1920 é constatar a existência de impulsos [Trieb] que levavam à estagnação: Freud os nomeou pulsões de morte [Todestrieb]. Tais pulsões buscariam a paz, isto é, uma tendência que eliminaria a estimulação do organismo. Seu trabalho teria como objetivo a falta do novo, a falta de vida, ou seja, a morte: o que Piera Aulagnier (2011), chama de “desejo e não desejo”.
A introdução da pulsão de morte evidencia o conflito presente em todo e qualquer organismo vivo: o anseio pelo retorno ao inorgânico, ao estado de não vida, aquele que existia antes da vida e, dialeticamente, indica a presença de uma força, a pulsão de vida, que busca prolongar a vida e garantir “que o organismo só quer morrer à sua maneira” (Freud, 1920/2020, p. 139). As pulsões de vida e de morte passam a ser princípios gerais que regem o funcionamento não só da vida psíquica, mas também de toda vida orgânica, presente nos animais, nas plantas e nos organismos unicelulares.
A argumentação vertiginosa de Freud sobre experiências aparentemente desconexas – sonhos traumáticos, neurose de guerra, brincadeiras infantis, a impressão de que repetimos um enredo e tantos outros – culmina na revisão de um dos fundamentos centrais da psicanálise: a primazia do princípio de prazer como regulador do funcionamento psíquico, o que leva Freud a repensar conceitos da psicanálise e, em particular, o binômio prazer/desprazer.
A compulsão à repetição abala a solidez da primazia do princípio de prazer, pois nos leva a repetir situações traumáticas ou dolorosas. Essa compulsão confere sentido trágico à existência: o sujeito não consegue deixar de vivenciar ciclicamente determinado tipo de situação, como bem ilustra a tragédia de Édipo. Embora a compulsão à repetição seja uma forma de tentar dominar o trauma, ela representa também uma expressão da pulsão de morte.
A clínica leva Freud a constatar que, em muitos sujeitos, o recalcado, em vez de perlaborado [Durcharbeiten: trabalhar através], retorna como uma experiência carregada de angústia. Premidos pela compulsão à repetição, repetem situações dolorosas de sua vida, de suas relações e seus comportamentos, provocando um profundo mal-estar. O prazer aí produzido não segue as diretrizes do princípio do prazer: “[...] encontramos a coragem para supor que realmente exista na vida anímica uma compulsão à repetição que sobrepuja o princípio de prazer” (Freud, 1920/2020, p. 97).
A pulsão de morte levaria igualmente à ausência de desejo de mudança, posto que o que é buscado é sempre um retorno a estados anteriores: desejo de não desejo (Aulagnier, 2011), como já postulado. Pressionado por forças perturbadoras externas, o organismo buscaria (repetiria) um objetivo antigo ainda que por caminhos novos, levando-o a fazer détour da função conservadora para lograr a meta final de conservação: “esses tortuosos caminhos para a morte, fielmente seguidos pelas pulsões de conservação, nos apresentariam hoje, portanto, o quadro dos fenômenos da vida” (Freud, 1920/2020, p. 49).
As lembranças (traumáticas) não rememoradas na análise são atuadas na transferência, transformando a neurose primitiva em neurose de transferência. A compulsão à repetição não é uma forma de resistência, pois o inconsciente não resiste. Se existe resistência, ela vem do Eu, ou mesmo do analista que, sob a domínio do princípio de prazer, tenta evitar o desprazer (Freud, 1914/2017).
O novo dualismo pulsional (pulsão de morte versus pulsão de vida) redefine, em termos metapsicológicos, a organização do aparelho psíquico, assim como o entendimento da primeira teoria das pulsões sem, contudo, anulá-la.5
A segunda parte do texto, organizada a partir da observação empírica de dois casos – neurose de guerra e brincadeira infantil –, mostra que o princípio de prazer não explica as ações em que se busca pelo desprazer e não pelo prazer. Ali também são acentuadas as relações entre o aparelho anímico e as influências do mundo exterior. Para Freud (1920/2020, p. 85), há “tendências que seriam mais primevas que ele (o princípio de prazer) e independentes dele”. Freud trabalha aspectos que se mantêm e se manifestam recorrentemente em vivências marcando, assim, uma passividade sobre o seu próprio destino.
É no capítulo V do texto que Freud sistematiza sua nova concepção de pulsão: “[...] uma pressão inerente ao orgânico animado para restabelecer um estado anterior” (Freud, 1920/2020, p. 131). A pergunta que se segue é de peso: qual é a natureza conservadora do ser vivo que toda pulsão busca restabelecer? Freud não deixa dúvidas: o retorno ao estado inorgânico, inanimado, ou seja, a morte.
O capítulo VI do texto requer fôlego e é de uma atualidade desconcertante. Ali Freud fundamenta sua análise em princípios biológicos: os estudos da biologia parecem indicar que todo organismo vivo caminha para a morte, e a biologia é “verdadeiramente, um reino de possibilidades ilimitadas; dela podemos esperar esclarecimentos os mais surpreendentes e não podemos adivinhar que respostas ela daria” (Freud, 1920/2020, p. 195). O texto de Ameisen corrobora admiravelmente pontos de vista de Freud postulados há mais de cem anos, resultantes de seus estudos, sobretudo na neurociência e na biologia de sua época.
Após esse percurso impressionante, Freud retoma a discussão sobre o princípio de prazer e conclui que não existe oposição entre os processos psíquicos apresentados. E embora o binômio prazer-desprazer não nos apresente uma explicação exaustiva do aparelho psíquico, ele não é, em absoluto, anulado.
Finalmente, o texto nos mostra, já o dissemos, que a vida é o resultado dialético entre um o impulso para retornar à não vida [Todestrieb], ao qual todo organismo inexoravelmente chegará, e a tendência [Lebenstrieb] a que o organismo morra à sua própria maneira (Freud, 1920/2020).
A herança arcaica
O interesse de Freud pela biologia e pela herança filogenética, que nos molda e nos constitui, está presente ao longo de toda a sua obra: “para o psiquismo, o biológico realmente tem o papel de fundo” (Freud, 1937/2017, p. 361).
O desenvolvimento bifásico da vida sexual do homem leva Freud a especular que “algo momentoso deve ter ocorrido nas vicissitudes da espécie humana” (Freud, 1926/1976, p. 179). Esse “precipitado histórico” representa a “herança do desenvolvimento cultural tornado necessário pela época glacial” (Freud, 1923/1976, p. 50).
No rascunho datado de 1915 e encontrado em 1983, Neuroses de transferência: uma síntese, Freud (1987, p. 10) escreve: “o quanto à disposição filogenética pode contribuir para a compreensão das neuroses, não podemos ainda estimar”. A partir dessa afirmação ele diz que “as neuroses devem também dar testemunho da história do desenvolvimento anímico do ser humano”:
[...] tem-se aqui a impressão de que a história do desenvolvimento da libido recapitula uma porção muito mais antiga do desenvolvimento filogenético do que aquela do eu; a primeira repete talvez as condições de vida da genealogia dos vertebrados, enquanto a última é dependente da história da espécie humana (Freud, 1987, p. 11-12).
Em Neuroses de transferência: uma síntese, Freud (1987) entende que os diferentes quadros neuróticos acompanham o surgimento na vida do indivíduo: à Angstneurose, a mais precoce, segue-se a histeria de conversão (que pode ser desencadeada a partir dos quatro anos de idade), a neurose obsessiva (por volta dos nove anos), da demência precoce, ou esquizofrenia, na puberdade). Esse quadro termina, na maturidade, com a paranoia e a melancolia-mania que, na atualidade, recebe o diagnóstico de transtorno bipolar.
A hipótese segundo a qual as neuroses testemunham a história do desenvolvimento da alma humana, faz do sofrimento psíquico um afeto geneticamente herdado, causado pelo excesso. Freud resgata a noção grega de pathos, colocando-a como ingrediente central da essência do humano: a particularidade da organização psíquica de cada um deve ser compreendida como uma criação singular e única para garantir a sobrevivência da espécie (Freud, 1987). Com recurso à filogênese, o inato é adquirido tanto pelo indivíduo quanto pela espécie.
Todos os elementos fundadores do desenvolvimento psicossexual – as ambivalências emocionais, a agressividade, a severidade do superego, os elementos constitutivos do complexo de Édipo, a angústia de castração, o acervo das fantasias primitivas, bem como outros tantos elementos fundadores e fundantes no desenvolvimento psicossexual – todos eles, sem exceção, são trabalhados a partir da herança da espécie (filogenética). E mesmo em seus textos mais tardios, como O mal-estar na cultura (Freud, 1930/2016), continua presente a importância atribuída ao ponto de vista filogenético.
Em um dos seus últimos escritos, O homem Moisés e a religião monoteísta, Freud (1939/2013, p. 142) apresenta pontos em comum entre herança filogenética e os instintos nos animais, o que permite diminuir o abismo aberto outrora pela arrogância do ser humano.
Se os chamados instintos dos animais, que lhes permitem se comportar desde o início, numa nova situação vital como se ela fosse uma situação antiga há muito conhecida, se essa vida instintiva dos animais admite mesmo uma explicação, só pode ser a de que trazem as experiências de sua espécie para a nova e própria existência, ou seja, que conservaram em si as lembranças daquilo que seus antepassados experimentaram. No animal humano as coisas não seriam no fundo diferentes. Sua própria herança arcaica cor-responde aos instintos dos animais, ainda que tenha outras proporções e outro conteúdo.
A morte criativa
Não é nada agradável admitir que nossas células têm o poder de se autodestruir em poucas horas. A sobrevivência delas, ou seja, nossa própria sobrevivência, assim como nosso envelhecimento, depende da capacidade de percebermos os sinais que o meio ambiente e a linguagem emitem: só assim, conseguimos conter o desencadeamento de nossa autodestruição.
A fragilidade e a interdependência que nos dá origem têm o poder formidável de levar nosso corpo a se reconstruir constantemente. A imagem antiga da morte, assim como um cortador brutal, transformou-se em uma imagem radicalmente nova: a de um escultor que, no coração do vivo, mostra sua forma e complexidade. Essa nova visão perturba a ideia que temos da vida, permite uma reinterpretação das causas da maioria de nossas doenças, dá luz às novas esperanças do nosso tratamento e transforma nossa compreensão do envelhecimento: cada um de nós é uma nebulosa viva, um povo heterogêneo de bilhões de células, cujas interações engendram nosso corpo e nosso espírito. “Viver, para cada célula que compõe nosso corpo, é, a cada momento, ter sido capaz de reprimir o disparo do suicídio” (Ameisen, 2007, p. 104).
A morte celular esculpe o nosso sistema imunológico, adaptando-o à nossa identidade, e selecionando sua diversidade inicial. O destino de cada célula está na sua capacidade de desencadear ou reprimir a autodestruição, apoiando-se em interações passadas e presentes com o ambiente.
A dialética freudiana entre a pulsão vida e a pulsão de morte é retomada magistral-mente por Ameisen (2003, p. 111):
Talvez o poder de autodestruição tenha sido, desde o início, uma consequência inevitável do poder de auto-organização que caracteriza a vida. Viver, se construir e reproduzir-se constantemente significa lançar mão de ferramentas capazes, ao mesmo tempo, de provocar a morte e de reprimi-la. E os instrumentos que levaram à vida podem, desde sua origem, provocar a morte.
A própria ideia de morte celular pode ser entendida como uma tendência de retornar ao inorgânico (pulsão de morte), enquanto os mecanismos que adiam a morte celular seriam uma expressão da pulsão de vida. O suicídio celular seria, então, uma forma de o organismo morrer por seus próprios meios, enquanto a interrupção desse suicídio leva-ria a uma morte antes do tempo, isto é, uma volta prematura ao inorgânico.
A sua maneira, Ameisen (2003, p. 110) atesta a presença da pulsão de vida e da pulsão de morte em tudo que é vivo: “Hoje, sabemos que o suicídio celular está em ação em todos os animais e plantas que puderam ser estudados, e cujos primeiros ancestrais apareceram, provavelmente, há milhares de anos”.
Aplicando os princípios da evolução biológica e da morte celular, Ameisen (2007) analisa a história humana considerando a sua origem, a diversificação e a dispersão pelo planeta, assim como as diferentes formas de interação com a natureza, sempre valorizando e respeitando a diversidade étnica e cultural humana. Constata igualmente o quanto somos transitórios, e a desmedida de nossa soberba ao atribuirmos uma importância descabida a nossa presença no cosmos.6
Cada uma de nossas células constituiu uma sociedade heterogênea e complexa: cada uma nasce, dá à luz a descendentes, envelhece e depois morre. Ameisen (2002) retoma a seu modo o conceito freudiano de série complementares.
A importância das filogêneses está amplamente presente no trabalho de Ameisen (2002, p. 111):
Cada célula – da mais simples à mais complexa – é uma mistura de seres vivos heterogêneos, de origens diversas; um cruzamento, uma coabitação das diferenças, cuja perpetuação provavelmente, na maioria das vezes, tenha como única alternativa a morte [...] somos um mosaico de órgãos e tecidos, alguns dos quais se autodestroem e se renovam continuamente enquanto outros persistem por um tempo dentro de nós.
Reflexões finais
Se, como argumenta Ameisen, a célula é perfeitamente equipada para desaparecer, teríamos aqui a prova biológica da existência da pulsão de morte, o que sustentaria a ideia desconcertante presente em Freud no texto de 1920. A pulsão de vida e a pulsão de morte, especula Freud (1920/2020), talvez sejam apenas o reflexo no reino do orgânico das forças de atração e repulsão presentes no mundo inorgânico. O que move a vida é a tensão constante (dialética) entre o impulso para o retorno ao estado anterior à vida [Todestrieb], e o impulso para a fusão narcísica inicial [Lebenstrieb].
O trabalho de Ameisen abre novas e desafiadoras perspectivas de pesquisa: como explicar o envelhecimento do vivo quando não existe nenhuma doença mortal? Os mecanismos que controlam a vida e a morte de nossas células estão também presentes nos processos de envelhecimento? Existem relações, e quais são elas, entre o suicídio celular e a senescência das células do nosso corpo? Talvez as antigas relações que a vida mantém com a autodestruição de nossas células – como morte prematura – atuem igualmente na escultura da nossa longevidade.
Somente encarando a morte, tentando compreender os mecanismos que a controlam, em vez de negá-los e resistir a eles é que podemos progredir nossa compreensão do vivo. E, quem sabe, um dia adquiramos o poder de nos reconstruir, nos perpetuar, estendendo a duração da nossa juventude e da nossa existência. Essa provavelmente será uma das grandes aventuras da biologia e medicina deste século.













