Introdução
Termo de língua inglesa, “Tomboy” hoje nomeia uma garota que age e se veste como um menino e gosta de atividades físicas barulhentas. Também é o título de um filme francês de 2011, escrito e dirigido por Céline Sciamma e divulgado no Brasil com o mesmo nome.
No primeiro semestre de 2015, por demanda de candidatos à formação psicanalítica, foi criado o Grupo de Trabalho de Neo e Transexualidades (GNTrans) do CBPRJ. A partir de 2016, cinco a seis dos participantes passaram a frequentar semanalmente uma instituição de acolhimento para pessoas LGBTIA+ em situação de vulnerabilidade social, com prioridade para transgêneros, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Durante dois anos, os candidatos acompanharam transexuais na instituição para pessoas em situação de risco.
De acordo com as normas do CBP-RJ, os grupos de trabalhos têm de ser coordenados por um membro efetivo. As supervisões foram semanais, no mesmo dia, após as idas à instituição. Contudo, ao final de 2018, a instituição de acolhimento teve de mudar de endereço e se transferiu para um lugares mais distantes. A partir de então, cessou a participação direta do CBP-RJ. Mas o grupo de trabalho teve continuidade.
Desde o início, o grupo iniciou um extenso levantamento da bibliografia sobre transexualidades, preferencialmente de origem psicanalítica, além de outros materiais, entre os quais vários filmes com o tema de transexualidades. Sem dúvida, Tomboy foi o que mais cativou, sendo revisitado por todos, inclusive com a participação de outros círculos. E até hoje continua conduzindo a muitos debates.
Definições
Nas transexualidades, a identidade de gênero diverge do gênero ligado ao sexo físicobiológico atribuído ao nascimento. Não ocorrem irregularidades físicas. As estatísticas são muito divergentes. O termo “transgênero” é frequentemente utilizado como sinônimo de transexualidade. Muitas vezes estatísticas giram em torno de 1% da população. Mas há muitas dúvidas sobre a fidedignidade dos números.
Para definir a sexualidade como um todo, foi dividida em quatro itens:
Expressão de gênero: O que é social e culturalmente tido como características masculinas ou femininas.
Orientação sexual (escolha objetal): Hetero, homo ou bissexual. Nas últimas três décadas, vários outros termos foram sendo incluídos: assexuais, queer, pansexuais e outros.
Identidade de gênero: Considerar-se homem ou mulher, geralmente desde quando se lembre da infância.
Sexo genital: Masculino ou feminino.
Os quatro itens se combinam de todos os modos possíveis. Descreveu Ana Maria Sigal (2017), decana do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapietiae: “Em relação à sexualidade, termo que nos ocupa neste momento, podemos pensar em um mundo de diversidades, no qual os traços identificatórios vão formando conjuntos, ensembles, que permitem tantas combinações quantas singularidades existirem” (p. 37).
Merece ressalva à parte a definição do rótulo de intersexuais, pessoas nascidas com características biológicas (genitais, hormonais, cromossomiais etc.) que não se enquadram nas definições típicas de sexo masculino ou feminino. Nesse caso, surgem alterações biológicas no nascimento ou próximo a ele, em oposição às transexualidades, em que até o presente nenhuma alteração biológica foi encontrada ao nascimento. Mas pessoas com condições intersexuais também são frequentemente sujeitas à discriminação e ao abuso se for conhecida sua condição.
Tomboy – o enredo e alguns comentários
Um menino, do qual só vemos o torso, recebe o vento. Primeiro de costas, depois em seu rosto, então com sua mão aberta, mas com os dedos um pouco dobrados. Agarrar o vento. Rápida mudança de câmera, e vemos agora por dentro de um carro dirigido por um homem na faixa dos trinta anos. Com a mão esquerda segura o menino pela perna. Momentaneamente essas cenas dão lugar ao título: Tomboy.1
Retorna a imagem, agora de dentro do carro. Ao dialogarem, descobrimos que estão indo para uma nova moradia. Na cena seguinte o pai deixou o filho se sentar em seu colo e segurar o volante. O pai mantém o controle do volante, mas permite que o menino vire o volante, dando a sensação de que ele é quem está dirigindo o carro. Em ambas as cenas, tanto o espectador quanto o menino sabem que não há perigo. O pai está orientando e protegendo. O filme se inicia pelo amor e cumplicidade entre pai e filho.
As cenas seguintes já ocorrem na nova moradia, onde a mãe e sua irmã já habitam desde o dia anterior. O motivo da mudança é o novo emprego do pai. A mãe está nos dias finais de uma gravidez. Pelos diálogos do original em francês, mesmo sem ter sido dito o nome, teríamos certeza, por uns quatorze ou quinze minutos, que o protagonista principal é um menino. Sempre veste calças curtas, camisetas de manga curta, cabelos curtos. A mãe informa ao filho que seu quarto foi pintado de azul, tal como pedira.
Além da cena inicial no carro, pode-se nomear como marcadores de gênero as escolhas de vestuário e pintura do quarto. O gênero se produz e se materializa por meio desses marcadores, que se reiteram e se repetem afirmando uma normatização.
Essa normatização, configura e agência regimes de verdade. No caso de Mikhael, mesmo que em casa ele seja identificado como Laure, sua performance de gênero não se altera, seu gênero se expressa de mesma forma entre amigos e entre sua família. Seu comportamento e seus trejeitos são os mesmos. Não há marcadores femininos em Mikhäel, nem mesmo no espaço íntimo e privativo do lar (Silva & Silva, 2017, p. 142).
A autora/diretora, acima de tudo, também mostra um casal com papéis de gênero bem definidos. O marido trabalha fora. A esposa nos últimos dez anos gerou o primeiro bebê, depois teve Jeanne, hoje com seis anos e agora está a poucos dias de parir outro bebê. Mostra uma família de classe média baixa, harmoniosa, na qual em momento algum há desavença entre os pais ou entre filhos. Lugar-comum de um comentário sobre o filme: a autora/diretora nos coloca diante de uma família que não é disfuncional, o que descarta qualquer crítica de que questões de gênero ou escolha objetal são fruto de lares problemáticos, desfeitos ou sem figura paterna.
Jeanne, a irmã de seis anos, tem cabelos compridos encaracolados. Sempre de saia. Jeito e roupas sempre muito femininos. Conversa e brinca muito com seu irmão. Ao contrário dele, pelo menos na atual moradia, passa todo o tempo em casa.
Na cena seguinte, vemos o menino através de uma janela com grades, olhando outros garotos no jardim em frente ao prédio. E em seguida sair em busca deles. Mas quem encontra é uma menina, um pouco mais velha, com sinais de início da adolescência, sentada numa escada, que se apresenta como Lisa. E após alguns instantes de silêncio, pergunta ao menino como se chama. Ele responde: “Mikäel”.
Lisa o conduz ao grupo de meninos dos condomínios vizinhos, que aproveitam as férias para brincar e jogar bola no bosque; é exatamente “um grupo de meninos”. Na primeira cena, em que Lisa e Mikäel se encontram com o grupo; além de Lisa, há duas outras meninas, uma um pouco maior e mais velha que Lisa. Mas sua aparição é breve e se restringe a essa única cena. A outra é uma menina entre uns seis e sete anos e aparecerá em outra cena, bem mais adiante dialogando com Jeanne. Mas a participação do feminino é sempre passiva, secundária. Participam de brincadeiras competitivas. Mas em relação àquela que logo será a principal de todas – o futebol – são meras espectadoras. O espectador deduz que jogar futebol é privilégio dos meninos.
A brincadeira das crianças no primeiro encontro de Mikäel é bastante infantil. Dois grupos em igual número disputam a posse de uma camisa vermelha. O chão é de terra, e a área descampada é pequena. A cena é até um pouco longa e tediosa. Nessa brincadeira as três meninas participam. Mas todo o contexto ressalta que se trata de uma disputa. Alguns lances da disputa e Lisa deliberadamente deixa Mikäel vencer: “Vou deixar você pegar para eles ficarem gostando de você”.
Num segundo encontro de Lisa e Mikäel com o grupo é que ocorre o jogo de futebol. E nessa competição só meninos participam. A partida ocorre num verdadeiro campo de futebol pequeno, mas cimentado, com marcas no chão e com traves. As crianças agora competem num local para adolescentes ou para adultos. No início Lisa e Mikäel apenas assistem. Ela dá a desculpa de que não a aceitam porque joga mal. Mikäel inicialmente demonstra um semblante triste. Lisa e ele estão numa situação passiva, o estereótipo do feminino.
Apenas em um, ou mais, dias depois e Lisa está ausente, Mikäel se convida para jogar. É aceito. Num segundo momento tira sua camisa. Nada o distingue em sexo ou gênero dos demais meninos. Lisa então aparece. Num intervalo o elogia e oferece água de uma grande garrafa de plástico, que é aceita. Ela o elogia, “você joga bem”. Rapidamente a cena trouxe duas informações: Lisa oferece algo e novamente joga seus olhares leve e decididamente sedutores para Mikäel. E Mikäel também demonstrou ser sua prática futebolística boa e de longa data. Pode-se questionar que as motivações do até então nomeado Mikäel. não são inteiramente conscientes. Mas que o espectador automaticamente as associa ao esporte como um dos estereótipos de gênero masculino mais comuns. E Lisa com outro dos estereótipos: o papel subalterno e passivo do sexo feminino no esporte masculino.
Os jogos de futebol contrastam com brincadeiras que parecem bem infantis, mas não o são. Tal o mesmo grupo desafiar Mikäel se conseguiria mascar o chiclete que um garoto lhe oferece, já mascado e tirado diretamente de sua boca. Completa-se a tríade dos testes que demonstrem o “masculino” e o “normal”, em uma concepção bastante reducionista, mas eficaz. O desafio através de algo desviante das normas de higiene dos adultos. Atividade, competitividade e coragem, com algo de transgressão. Qualidades por si mesmas positivas. Apenas sua hipertrofia pode ser considerada patológica. E Mikäel tem bons motivos para procurá-las. As cenas no carro simbolizaram a fonte de todas as associações possíveis entre proteção, companheirismo e liberdade. Mas sempre com um toque de transgressivo. O pai fornece o símbolo fálico de dirigir o carro. E a brincadeira de trocar um chiclete já mascado transgressivamente burla que as normas higiênicas podem ser deixadas de lado.
Também chamou a atenção do espectador que muitas das crianças são de origens étnicas não caucasianas. Filhos(as) ou netos(as) de emigrantes não europeus. Fica implícito para quem assiste o filme, que as crianças vêm de famílias em que muitos referenciais religiosos e de gênero diferem dos que descendem apenas de europeus.
Um pouco depois, vemos pai e filho jogando cartas. Jogo desconhecido no Brasil, que na França é chamado de “sete famílias”. Quarenta e duas cartas diferentes do baralho mais usual, podendo ser jogado por até seis pessoas. As cartas representam: avô. avó, pai, mãe, filho e filha. Cada família tem um nome. E cada jogador solicita aos demais a carta que lhe falta para completar uma das famílias. É permitido solicitar um cartão que o jogador já possui. Se o solicitante obtiver a carta que deseja, poderá jogar novamente. Se não obtiver a carta solicitada, ele pega uma carta da pilha de compra. O vencedor é o jogador que colocar à sua frente as famílias mais completas. No caso de empate, o vencedor é aquele que formou a primeira família (Wikipedia, 7 familles).
Ao início da cena, vemos o pai solicitando a carta que representa o filho em uma das famílias. Em seguida o menino solicita outra carta, a que representa uma filha em outra família. Cada qual com seu objeto de desejo? Não sem antes oferecer ao menino que supomos ser seu filho, um gole da cerveja, que é bebido no gargalo. Seguido pelo comentário do pai de quando o garoto crescer será bom no pôquer. Ao final a cena é surpreendente. O pai ganha o jogo de cartas. Sentado muito próximo ao pai, Mikäel se deita ao lado do pai, com a cabeça em uma almofada, e passa a chupar o polegar. O pai acaricia seus cabelos e confessa que, quando tinha a mesma idade, também fazia o mesmo.
Sciamma não poderia ser mais didática para simbolizar mais um, do que devem ter sido muitos e muitos episódios semelhantes de identificação entre pai e filho. Seguido de uma regressão do menino. O pai complementa dizendo que “é difícil ficar mudando o tempo todo, mas ficaremos bastante tempo aqui”. Referia-se às frequentes mudanças de residência por causa de empregos. Ou teria seu inconsciente dado a resposta certa para o protagonista, abarcando uma mudança de gênero?
A cumplicidade com o grupo continua. Quando convidado para nadar, Mickaël corta um maiô inteiro em um calção masculino. E molda com massa de modelar usada por crianças um pênis para ostentar dentro do calção. Falo que guarda dentro de um potinho onde estão seus dentes de leite.
Segue uma cena em que Mikäel e sua irmã tomam banho juntos em uma banheira. E improvisam várias brincadeiras. Até que acaba a hora do banho. Jeanne sai primeiro. Em segundos vemos Mikäel se levantar da banheira e começar a se enxugar. Por um breve relance, temos o impacto que seus genitais são femininos. E breve escutaremos o nome verdadeiro – Laure – ser pronunciado em família. Até então já se passaram uns quinze minutos do filme.
Mas o mundo idílico do bosque permanece. Até que Mickaël/Laure briga com um dos meninos por empurrar Jeanne. O menino e sua mãe vão até a porta da moradia de Mickaël/Laure para contar à sua mãe sobre o mau comportamento de seu filho. Falam dele como um menino. No primeiro momento, a mãe de Laure não entende o que ocorreu. Mas o menino identifica Mikäel. A mãe de Laure/Mikäel então entende o que aconteceu, mas na hora nada revela à outra família. Quando a porta se fecha, a mãe indaga a Laure por que teria feito aquilo e por que teria envolvido sua irmã na história. Ao mesmo tempo, chora e esbofeteia Laure. Jeanne entende a situação difícil de Laure e faz o possível para apoiar emocionalmente a irmã.
Na cena seguinte, o pai e Laure estão sentados na cama dela. Ele pede que ela não fique zangada com sua mãe: “agora tudo acabou”. Laure pede que a família vá embora dali, o que fica sem resposta. Mas o pai a acaricia. É difícil deixar de ver o quanto está paralisado, sem nada compreender e incapaz de falar qualquer coisa.
No dia seguinte, a mãe obriga Laure, aliás Mickaël, a colocar um vestido azul e a leva para revelar seu segredo ao menino e sua mãe. Laure implora que não o faça. Mas aulas estão para começar. Mas sua mãe se ajoelha diante da filha indaga se haveria outra solução:
Não estou fazendo isso por maldade nem para lhe dar uma lição. Sou obrigada, entende? Não me incomoda que você brinque de ser um menino. Eu não ligo para isso. Mas isso não pode continuar. Se tem uma solução, me fale, porque eu não tenho.
A mãe se levanta, acaricia e abraça a filha. Laure é também levada à casa de Lisa, onde são recebidas por ela e sua mãe. Mas Laure fica sozinha em outro aposento, até que Lisa vem vê-la. Mas a pré-adolescente nada fala e vai embora. Laure foge se embrenhando pelo parque/floresta em que ocorrera todo o convívio com as outras crianças e Lisa. Senta-se ao pé de uma árvore. Após algum tempo tira o vestido azul que sua mãe a obrigara vestir e o abandona pendurado num galho alto de uma árvore. Na verdade, o vestido apenas cobria a roupa de baixo, que sempre usara no parque com o grupo de meninos e meninas: bermuda e uma camiseta sem mangas.
Laure/Mickaël ouve, e escondido, observa as outras crianças na floresta. Mickaël vê as outras crianças ao longe. Laure/Mickaël pode ouvi-los conversando, especulando se Mickaël é uma menina ou não. O grupo o vê. Laure/Mickael tenta fugir, mas é alcançado. Capturam Laure/Mickaël e dizem que vão ver se é realmente uma menina. Lisa os enfrenta-os e diz para deixarem Laure/Mickaël em paz. Mas um deles diz a Lisa: “Você o beijou. Se for uma menina, isso é nojento, não é?” Lisa concorda e relutantemente aceita olhar para dentro do short de Laure/Mickaël, que está chorando, mas completamente coagido. E Lisa constata que o sexo de Laure/Mikäel é feminino. Os meninos e Lisa vão embora enquanto Laure/Mickaël permanece na floresta, arrasado. Na última cena desta sequência, Laure/Mikäel está sozinho, sentado ao pé de uma árvore, com a cabeça escondida entre os joelhos.
Há um salto maior do tempo. Na sequência seguinte, o irmãozinho já nascera. É um menino. E Laure não mais saiu de casa. O bebê é segurado por sua mãe semideitada.
Suas irmãs estão presentes. A mãe o acalma o bebê quando começa a chorar. A mãe indaga Laure por que não dá uma saída. Obtém uma resposta negativa. E após alguns instantes Laure/Mikäel se afasta. Vai à cozinha e pega um bolinho. Se dirige a uma janela, começa a mastigá-lo. Ao olhar pelo vidro, vê Lisa sozinha no pátio abaixo, ao pé de uma árvore, no jardim em frente ao prédio, perto do local onde as duas crianças se conheceram pela primeira vez, Laure/Mickaël desce e se junta a ela. E quando Lisa lhe pergunta novamente o seu primeiro nome, Laure/Mickaël responde que seu nome é Laure e esboça um sorriso. O seguimento da cena é rápido, mas bem marcante. Laure levanta um pouco o rosto e esboça o início de um olhar mais direto e um sorriso maroto. Termina o filme.
Há uma cena que passa despercebida pelos comentadores do filme aos quais tivemos acesso. Ainda antes da descoberta do sexo de Laure/Mikäel e após freneticamente dançarem ao som de canções modernas. Na cena seguinte, Lisa se propõe a maquiar Mikäel, que se mostra um pouco contrariado, mas não nega o favor. Propõe Lisa inicia pelas suas sobrancelhas, depois a face e, por fim, lhe passa batom. Na cena seguinte, vemos Mikäel retornando para casa, com o capuz de seu casaco levantado para esconder o rosto. Quando chega em casa, sua mãe o chama. Mostra-se muito satisfeita com a maquiagem da filha. Aos espectadores choca um pouco a dissonia entre mãe e filha.
Em relação ao filme todo, os comentadores a que tivemos acesso nada interpretam sobre Lisa. Poderíamos indagar, que um pouco mais velha e fisicamente amadurecida que Mikäel, Lisa deveria ter se interessado por um menino mais velho e sexualmente definido. Embora a atitude de preferir um menino mais novo e imberbe e colocá-lo sobre sua tutela também ocorra bastante na vida real. Mas ao maquiar Mikäel e comentar que a maquiagem lhe ficava bem, pode-se interpretar mais da atitude de Lisa. Uma possível preferência inconsciente por um andrógino? Apenas a bissexualidade ainda bastante acentuada, uma característica de pré-adolescência ou adolescência. Ou uma bi ou homossexualidade mais fortes e desconhecidas em Lisa? Há mais de uma questão de gênero no filme?
Freud: sexo e gênero
Em Sobre a sexualidade feminina, artigo publicado em 1931 na Internationale Zeitschrift für Psychoanalyse, Freud (1931/2018) escreve:
Mesmo na química sexual, as coisas devem ser um pouco mais complicadas. Mas para a psicologia é indiferente se no corpo houver apenas uma substância que produza excitação sexual ou duas delas, ou um número incontável delas. A psicanálise nos ensina a conceber uma única libido que, por sua vez concebe metas, portanto modos de satisfação, ativos ou passivos (p. 304).
Essa tese foi reforçada dois anos depois na Conferência XXXIII – A feminilidade, publicada em 1933 na Internationale Psychoanalitischer Verlag.
... aquilo que constitui a masculinidade ou a feminilidade é uma característica desconhecida, que a anatomia não consegue apreender ... Só existe uma libido, que está a serviço tanto da função sexual masculina quanto da feminina. A ela própria não podemos atribuir nenhum sexo; mesmo se quisermos chamá-la de masculina, seguindo a equiparação convencional de atividade e masculinidade, não podemos esquecer que ela também representa anseios e metas passivas. Seja como for, a expressão “libido feminina” não se justifica (pp. 336, 337).
Trabalhemos mais sobre a definição de libido segundo estes textos. Ao que tudo indica, a última de Freud sobre um de seus conceitos básicos. Que não mais temia a postulação de uma única libido (Freud, 1933/2018, p. 317).
A força da pulsão sexual pode se manifestar ativa ou passivamente. Ainda mais que tais conceitos apenas denotam o comportamento manifesto, superficial, e não suas origens inconscientes. E mesmo sobre o comportamento manifesto, escreve Freud (1933/2018): “As mulheres podem desenvolver em diversas direções: os homens não podem conviver com seus iguais se não desenvolverem um alto grau de docilidade passiva” (p. 317) Quanto a dualidade pulsional, não há problema. É mantida com a libido e as pulsões de autoconservação compondo a pulsão de vida e opondo-se à pulsão de morte.
O corpo do qual a libido organicamente se origina pode ser genética e fenotipicamente masculino ou feminino. Mas, considerando a contumaz defesa de Freud sobre a bissexualidade, podemos também acrescentar que, além de características psíquicas dos dois sexos, sempre misturadas em graus variáveis, a libido também move a gama de comportamentos e rótulos de corpos, descritos nas últimas décadas. A libido única também impulsiona psiques e corpos: lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer, intersexuais, assexuais, pansexuais e outros.
Críticos de Freud e a psicanálise podem argumentar que assexuais tendem em sua maioria a apresentar pouco ou nenhum interesse nas atividades sexuais humanas, opinião que desconhece ou nega as mais que centenárias descobertas da psicanálise. Ausência de práticas sexuais explicitas não comprometem que assexuais tenham libido. Dirigida não a estímulos genitais ou de outros orifícios do corpo, mas a outras atividades, desde graves sintomas neuróticos ou psicóticos até a atividades úteis e rentáveis, como lazer, trabalho, arte, esportes ou mesmo ocupações religiosas que exijam o celibato. Sairia do escopo do presente texto dissertar longamente sobre a construção de sintomas. Mas, segundo Freud, o principal dos sintomas, não é patológico e fundamenta toda a cultura e progresso humanos: a sublimação.
Implícito em ambos os textos freudiano de 1931e 1933, que tenha vindo a fundamentar uma leitura mais recente: sexo é binário; gênero é um contínuo. Macho e fêmea são simples dualidade. Já a interminável e cada vez mais ampla sopa de letrinhas, que modestamente iniciou-se há mais de cinco décadas com três letras – LGB – e hoje se tornou infinita, por isso termina por um símbolo matemático: LGBTQIAPN+.
Morin: desde as sinapses até o eu consciente
O termo “libido” é utilizado por Freud desde os anos 1890. Teve sua conceituação e detalhamento a partir dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade em 1905. Uma ponte entre o que os neurônios produzem, metamorfoseando-se de algo corpóreo em psíquico. Desde as profundezas do isso, passando pelo eu e pelo supereu inconscientes e, algumas vezes, emergindo em nossa consciência. Passando por todas as vicissitudes das células cerebrais, desde as áreas filogeneticamente mais antigas, até as mais sofisticadas arvores sinápticas. Desde áreas cerebrais muito antigas e comuns a outros mamíferos, até neurônios onde cria a tríade freudiana que nos torna realmente humanos: isso/eu/supereu. Até hoje um desconhecido campo, no qual o biológico passa por várias transformações, até se tornar consciência.
Desconhecemos como o corpo se torna mente, mas a continuidade de ambos é criada pelo conceito de pulsão, movida principalmente pela libido. Deixemos à parte outra pulsão possível – a de morte – ou localizações específicas da libido: do eu, objetal, narcísica.
Em síntese, o corpo é sexuado, os comportamentos humanos predominam por uma gama infinita gêneros, mas a libido orginalmente é neutra e única. E Freud desde os Três ensaios, passou décadas descrevendo todas as colagens e vicissitudes da libido. Em média, cada neurônio forma entre mil e dez mil sinapses. E a gigantesca quantidade e complexidade das sinapses, estimando-se que o número no cérebro humano seja próximo a um quatrilhão, ou seja, o número um seguido de 15 zeros, faz que de muito passe além dos demais sistemas biológicos.
O conceito de máquinas simples e sistemas que obedecem à entropia (tendência ao aumento do erro) e uma causalidade linear foi complementado pelo de máquinas e sistemas hipercomplexos. Foram definidos como hipercomplexos os sistemas que possuem um número de componentes mensurável apenas por ordens de grandeza, ou cujo número de componentes estabelece um número de relações que simplesmente não pode ser medido. Dois exemplos são dissecados por Edgar Morin: o cérebro humano e a sociedade humana.
Outros sistemas biológicos são muitas vezes extremamente complexos, mas ainda assim são sistemas simples perto do incomensurável número de sinapses do cérebro humano. Como deende Morin, mais que centenário autor de dezenas de livros, pesquisador emérito do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), o maior órgão público de pesquisa científica da França e uma das mais importantes instituições de pesquisa do mundo.
Para o sistema hipercomplexo, o erro deixou de significar apenas mau funcionamento e eventual incapacidade para produzir trabalho. O sistema teve que aprender a conviver com o erro e eventualmente em seu desenvolvimento crescer a partir do reaproveitamento do erro. Isso significa afirmar que, tanto o sistema hipercomplexo deve tolerar uma considerável taxa de entropia, de ruído de fundo, quanto de algum modo só pode tornar-se hipercomplexo na medida em que o próprio erro deixou de significar apenas algo deletério, para se tornar a fonte a partir da qual o próprio sistema pode se reordenar e se redirecionar. A partir da checagem do erro em relação ao sistema original, embora a maior parte do erro seja realmente nociva, isso é uma pequena fração do erro que pode ser aproveitada para modificar o sistema, produzindo sua reordenação.
Há quase meio século Morin defende que os demais sistemas orgânicos constituem sistema simples. Mas os sistemas formados por neurônios sendo de mensuração quase impossível, possuem outro modo de funcionamento, são sistemas hipercomplexos. É impossível que funcionem linearmente, mas por probabilidade. E o número astronômico de sinapses matematicamente deve produzir muitos erros. A maioria é lixo, mas uma parte deve ser utilizada para autorreprogramar o próprio sistema (Morin, 1979).
Os estudos de gênero só foram possíveis a partir da obra de Freud. Sem dúvida facilitados nas décadas seguintes ao falecimento de Freud pelo surgimento dos hormônios sintéticos, que aos poucos modificaram muito do que se tinha como inexorável destino biológico: a gravidez. E, em pouco tempo, outras variantes hormonais também foram usadas para o aumento ou a inibição de características sexuais secundárias. Para alguns, o início de uma série de abominações contra a natureza. Mas a luta contra sequelas de acidentes ou danos provocados por forças da natureza começara muito antes.
Foi a antropóloga cultural Margareth Mead quem relatou ter sido a primeira evidência de civilização um fêmur, o osso mais longo do corpo, ligando o quadril ao joelho, fraturado e cicatrizado, de 15.000 anos, encontrado em um sítio arqueológico. A evidência de que alguém cuidou da pessoa que caiu, usou um conhecimento bastante sofisticado, usou uma espécie de tala, tratou a ferida e a levou à segurança.
Podemos contestar Mead. Provavelmente o fêmur encontrado foi resultado de séculos, ou milênios, de tentativa e erro. Evidências mais recentes já demonstram o uso de símbolos e rituais milhares de décadas muito antes do fêmur descrito por Mead. Contudo, mesmo um fêmur cicatrizado já comprova que, ao menos há quinze séculos, não se pode falar de ser humano em natureza. Sempre há alguma prótese ou outras criações humanas e não são mais apenas criações da natureza.
Algumas décadas posteriores à descoberta de Mead, o achado e reconstrução descoberta o homem-leão, de Hohlenstein Stadel, uma pequena escultura totêmica datada de 40.000 anos, até o momento é o objeto artístico mais antigo da humanidade. A estatueta de uma criatura que jamais existiu na natureza. Parte da revolução do paleolítico superior, era que, de acordo com os arqueólogos especialistas, nasceram linguagem falada, música, arte, religião e uma sociedade maior e mais complexa. De acordo com esses especialistas, não influenciados pela psicanálise, o surgimento da metáfora teria sido fundamental para a sofisticação da linguagem. A portadora dessa revolução. Utilizando conceitos psicanalíticos pode-se ver o início do inconsciente dinâmico, recalque e angústia. A arte das cavernas como forma de aplacar a percepção da morte pela religião (Lopes, 2016). Ou, usando termos de Morin, a transição de sistemas simples ou complexos para hipercomplexos.
Rippon: neurociência contra neurolixo
A neurobiologista e neurocientista britânica, Gina Rippon, profesora emérita de neuroimagem cognitiva do Aston Brain Center da Universidade de Aston, Birmingham, critica o que ela vê como deturpação e sequestro da neurociência, que ela chama de “neurolixo” (Rippon 2010). Esse termo se refere à lógica do argumento defendido pelos neurocientistas adeptos da origem biológica das diferenças de gênero, defendendo que, como são biologicamente diferentes, homens e mulheres têm comportamentos diferentes. Portanto, suas diferenças psíquicas seriam inatas. E não devem ser desafiadas ou alteradas. Rippon (2016) criou um guia para detectar esse neuroabsurdo.
Os neurolixeiros extrapolam descontroladamente a partir de seus dados e acreditam que sua ciência pode ser usada para “engenharia social” para reforçar os papéis e status masculinos e femininos percebidos. Ela diz que defensores do neurolixo perpetuam a ideia de “que a biologia é o destino”. Se você é biologicamente diferente, é isso e se você lutar contra isso de uma maneira específica, isso será prejudicial (Rippon, 2010).
Em seu livro mais recente, publicado também no Brasil – Gênero e os nossos cérebros: como a neurociência acabou com o mito de um cérebro feminino ou masculino, Rippon (2021) disserta sobre os bebês de modo que, mais do que Freud, deixaria Winnicott muito feliz. Escreve a neurocientista:
A desvantagem é o desamparo físico da recém-chegada, mas um dos alegados pontos positivos de ser altricial2 é que (bem literalmente) há espaço para desenvolvimento cerebral pós-natal.... os bebês humanos chegam ao mundo com cérebros inacabados. Entender como e por que estes cérebros inacabados mudam pelo caminho que percorrem, fará parte de qualquer tentativa de compreender quaisquer diferenças entre cérebros e o comportamento e as personalidades que eles alicerçam (p. 190).
Selecionamos algumas das conclusões de Rippon (2021), que dedica três capítulos de seu livro aos bebês.
Com relação às habilidades cognitivas, como conceitos de linguagem e conhecimento do meio ambiente por observação e dedução, ainda no primeiro semestre, “os bebês são surpreendentemente sofisticados desde uma idade muito tenra” (p. 210). Citando a colega neurocientista Elizabeth Spike, chefe do laboratório de Estudos do Desenvolvimento na Universidade de Harvard, ao fazer uma extensa revisão de trabalhos sobre o tema, que é da firme opinião de que não existem evidências de diferenças sexuais nesta fase: “Milhares de estudos de bebês humanos, realizados por três décadas, não mostraram evidências de uma vantagem masculina na per A estereotipia pelo rosa seria inofensiva, se não viesse associada, cada vez mais intensamente nas últimas décadas, a brinquedos com características incentivadoras do estereótipo de: dependência, passividade, atividades domésticas, cuidar de bonecas ou de filhotinhos fofos, “a rosificação é frequentemente ligada a uma corrente paternalista, de que não se pode conseguir que as mulheres se envolvam com as fortes emoções da engenharia, ou da ciência” (pp. 247-248).
cepção, no aprendizado ou no raciocínio em torno de objetos, seus movimentos e suas interações mecânicas” (p. 210).
Quanto à distinção entre sexo e gênero, experimentos indicam que bebês ainda nos primeiros meses de vida, pelo rosto e pela voz dos cuidadores, distingue o sexo de seus cuidadores. Mas quanto a questão do gênero, “até mais ou menos dois anos, nem meninos nem meninas tinham alguma preferência pelo rosa” (p. 245). Quando então são bombardeados por brinquedos de preferencialmente de duas cores: azul e rosa. Evidentemente, uma associação socialmente criada com estereótipos de masculinidade e feminilidade artificialmente associada às cores, mas nos anos 1940 era o contrário. Como cita a autora no New York Times de 1893: “Elegância para Bebês: Ah! rosa para um menino, e azul para uma menina” (p. 246). O resultado de uma extensa pesquisa foi claro: até mais ou menos os dois anos, nem meninos nem meninas tinham alguma preferência pelo rosa.
Freud, Morin e Rippon: a hipercomplexidade do setting
Com Freud, vimos o início da distinção de sexo como binário e gênero como um contínuo. Com Morin, que os sistemas biológicos usuais são sistemas simples, enquanto as redes neuronais, desde estruturas mais antigas até o córtex, são sistemas hipercomplexos. E com Rippon, o quanto explicações para diferenças físicas são inatas e surgem do binarismo XX e XY. Mas as variações de comportamentos de gênero dependem de anos de programação cerebral, que se iniciam nos primeiros meses de vida dos bebês e seguem ao longo de toda a primeira infância, a latência e a adolescência.
Freud, Morin e Rippon concordam ou conduzem seus leitores a fazê-lo: fundamentar a superioridade de um sexo sobre o outro não consiste em ciência, mas em pura ideologia sexista. No presente, herdeira direta das religiões monoteístas, mas que também pertenceu a politeísmos, como o greco-romano.
É compreensível que os alarmantes dilemas de Laure/Mikäel e seus pais estão muito além do que sua educação permite compreender. Freud não ficaria muito atrás. Estabelece o monismo da libido. Mas ao longo dos textos Amor, sexualidade e feminilidade (1931) e A feminilidade (1933), além da nova conceituação da libido, há um caleidoscópio de interpretações sobre o comportamento feminino. Cada qual merece desenvolvimento clínico e teórico. Mas entre elas é difícil estabelecer nexos dentro e entre os textos freudianos. Todos são válidos, mas a explicação pode ser apropriada para uma pessoa e não para outra. E a partir de Freud e várias gerações de psicanalistas mulheres que se seguiram (e vários homens), surgidas já em vida de Freud e continuam até hoje, em muito aprofundaram os temas do feminino.
A prática psicanalítica também é em si mesma manifestação de hipercomplexidade, dando ainda mais forma à escuta de cada paciente como absolutamente individual.
Sem que caiba a prática de uma droga com a substância X ou Y, supostamente tendo efeito sobre os neurônios A ou B, que apenas é uma visão muito empobrecedora dos riquíssimos sistemas hipercomplexos que constroem a mente e a linguagem humanas.
Tomboy e Lisa, a invocadora
O cirurgião e psiquiatra David Caudwell usou palavra “transexual” pela primeira vez em um artigo de 1949. Para ser mais exato, usou a expressão em latim psicopathia transexualis, tomando por modelo o título do famoso livro de 1896 publicado por Krafft-Ebing, Psicopathia Sexualis. Nas décadas de 1950 e 1960 o termo “transexual” foi difundido por Harry Benjamin, sexólogo de origem alemã radicado nos Estados Unidos. Benjamin conduziu diretamente ou orientou com colegas tratamentos hormonais e cirurgias de redesignação sexual. Assim como Hirschfeld e Caudwell, Benjamin acreditava nas origens genéticas, endócrinas e hormonais. Desaconselhava veementemente tratamentos psicológicos. O que faz sentido se pensarmos nas crenças patologizantes da psiquiatria e da psicanálise americana e europeia.
Como já propusera Freud (1905/2016) nos Três ensaios, a compreensão psicanalítica da psicopatologia era a porta de entrada para uma nova psicologia e um entendimento muito mais abrangente da sexualidade humana. Coube ao psiquiatra e psicanalista americano Robert Stoller reconduzir os fenômenos transexuais de volta à trilha dos Três ensaios.
Robert Stoller (1924-1991), psicanalista da Sociedade Psicanalítica de Los Angeles. professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e pesquisador na sua Clínica de Identidade de Gênero, é considerado o introdutor do termo “identidade de gênero” , em um congresso de psicanálise realizado em Estocolmo, em 1963. Também postulou a existência do “núcleo de identidade de gênero”. Autor de nove livros e mais de 115 artigos, iniciou participando de tratamentos normativos para induzir uma escolha objetal “normal” e a identidade de gênero conforme o sexo biológico, indo até polo oposto, sintetizado na frase que serve de epígrafe do presente artigo, priorizando a identidade de gênero, mesmo que oposta ao sexo biológico.
Com sua vasta experiência e empatia clínicas, Stoller retornou a um dos termos mais universais de toda linguagem verbal e de múltiplos usos: gênero. Já em 1955 o controverso sexólogo John Money mostrara em muitos seres humanos o descolamento entre o sexo biológico e gênero, da distinção entre diferença sexual e diferença de gênero. Coube a Robert Stoller em um artigo de 1964, publicado num livro de 1968, criar a expressão “núcleo de identidade de gênero” [core gender identity] (Stoller, 1984, p. 29).
Para Stoller, além de em seu percurso clínico terminar colocando o biológico em segundo plano, ameaças ao núcleo de identidade de gênero constituem ameaças ao self e podem causar defesas conhecidas como perversões. Mas Stoller defendia que as transexualidades em si mesmas não seriam neuroses, psicoses nem perversões. Apenas seres humanos que se desenvolvem sua identidade de gênero a partir de um núcleo diferente ao do sexo biológico.
O filme Tomboy narra a crescente conduta de uma menina de dez anos sem nenhuma anomalia genital ou nenhum transtorno biológico, que apresenta cada vez mais características de expressão de gênero masculinas. E agora, com a nova demanda de uma outra menina, um pouco mais velha, com interesses um pouco maiores, quer ter uma nova amizade, após alguma hesitação, pela qual é invocada em seu ser, o que conduz o Tomboy a se apresentar também por um nome masculino.
Tudo indica que, após longo tempo, ocorreu uma demanda libidinal maior, que a fez invocar uma nova identidade de gênero. Com tanta eficiência e cuidado, que para todas as crianças de sua idade e para sua nova e um pouco mais amadurecida amiga e assim os espectadores nos primeiros quinze minutos do filme, não há nenhuma dúvida de que o protagonista do filme seja um menino.
No bosque, todo o tempo há ameaça de que em breve as férias irão acabar e todos os que se congregam no parque/bosque retornarão às aulas. O bosque parece simbolizar um local místico e mítico, que também possui seus perigos e vicissitudes e induz a metamorfoses. Bosque no qual identidades podem mudar, até fisicamente. Ecos de Sonho de uma noite de verão, peça arquetípica de William Shakespeare.
Após a identidade feminina de Mikäel ter sido revelada, e Lisa ter confirmado em público o gênero dos genitais de seu ex-novo amigo e, finalmente, também tendo nascido o novo irmãozinho, a protagonista do filme não quer mais sair do apartamento onde ela e sua família estão residindo.
Até que, ao ir à cozinha e olhar pela janela, vê Lisa, ao pé de uma árvore em frente. Reflete um pouco e decide descer e encontrar Lisa, que lhe faz apenas uma pergunta: “Qual é o seu nome?”. Uma segunda invocação de Lisa. A protagonista de Tomboy, por um rápido momento olha meio de soslaio, depois meio sorrindo e com olhar muito maroto, responde: “Laure”.
Pulsão invocante e gênero
À voz materna e de outros ao redor, que podem complementar ou substituí-la, podemos designar de pulsão invocante, “a experiência mais próxima do inconsciente” (Lacan, 1964/1998, p. 105). Mesmo nesse caso, que também significa investimento afetivo, consiste numa convocação à vida.
Mas a pulsão invocante vai além da voz. Nunca se cuida passivamente de um bebê, principalmente em primeiros seis meses de vida. Sempre que possível: falamos, emitimos sons, cantamos. Mas além de sons: beijamos, sacudimos, cutucamos, jogamos para cima, mexemos com seus pés, pernas, braços e mãos. Quando não colocamos em nossa boca seus pés e mãos. Além de todos os cuidados de limpeza e alimentação (Lopes, 2013).
Freud e seus seguidores mais próximos, que tomavam o masculino como primário e só depois a passagem, no caso da menina, por decepção e castração, a identificação com o feminino. O desafio de Stoller ao primado freudiano do masculino torna-se mais grave, na medida em que acabou por afirmar o seu oposto: um imprinting feminino primário. Não muito longe de outro colega seu, um bem mais antigo, Winnicott, cuja obra observava de perto, também defendera o feminino primário. Para Winnicott (2019), no primeiro ano do bebê, o bebê e o objeto são um só. “O estudo do elemento feminino puro destilado, não contaminado nos leva ao SER, formando a única base para a autodescoberta e para um sentimento de existência. ... ser capaz de levar o elemento masculino de alguma pessoa a fazer algo (p. 136, grifo do autor).
Podemos associar a pulsão invocante, em todas suas manobras acima descritas e muitas outras, indo do fragmentado ao uno, enquanto base para este constituir o SER a partir do qual torna-se possível o FAZER. Pode-se complementar com a descrição de Stoller (1976), no capítulo Identidade de gênero, escrito para o Comprehensive Textbook of Psychiatry, vol. 2:
A terceira pista para a hipótese da protofeminilidade vem de um grupo raro, o das mulheres transexuais. Se a regra é que a feminilidade é a primeira fase no desenvolvimento da identidade de género tanto para homens como para mulheres e a conquista da masculinidade exige um esforço adicional por parte dos homens - romper com a simbiose entre a mãe e a família. feminilidade e feminilidade da mãe – também deveria ser verdade que as mulheres cuja relação de simbiose com a mãe é rompida correm perigo de masculinidade. Esse parece ser o caso do transexualismo feminino. Verificou-se nessas meninas que suas mães não conseguiram estabelecer uma verdadeira relação simbiótica, devido à depressão grave ou outra patologia que afastou essas mães dos cuidados maternos dessas filhas infantis. Além disso, estas meninas são encorajadas pelos seus pais a serem independentes, duras, agressivas e enérgicas – isto é, a serem o que o pai pensa que é masculino. E, como prevê esta hipótese, estas meninas tornam-se as mais masculinas das mulheres (pp. 1401-1402, tradução nossa).
As estatísticas tanto mais antigas e quanto mais recentes sempre colocam as transexualidades da passagem do masculino ao feminino como mais frequentes do que as do feminino ao masculino. Há muitas críticas quanto à fidedignidade das estatísticas sobre transexualidades em geral. Mas tivemos relatos diretos, tanto do psiquiatra que acompanhava e autorizava as redesignações sexuais em hospital universitário3, quanto da experiência prática dos participantes do Grupo de trabalho de neo e transexualidades (GNTrans) do CBP-RJ.
Confirmando que as transexualidades em direção do feminino ao masculino, como no caso do Tomboy, podem confirmar sobre feminino primário, tanto é a concordância em todas as estatísticas em uma incidência sempre maior que a do masculino ao feminino em comparação com os dados sobre a passagem do feminino ao masculino.
Conclusão
Em Tomboy não há dados sobre os primeiros anos de vida da protagonista. Apesar de não ser uma família disfuncional e de passar em um país do primeiro mundo, onde não ocorre a submissão do estado à religião, as condições da mulher ficam abaixo daquelas dos homens. Seja de inserção social, profissional, seja nos esportes.
Em Tomboy é muito nítido que Mikäel deseja a liberdade muito maior que os meninos têm. E através de Lisa, para quem o futebol também foi negado, consegue participar do esporte, que é simbolicamente um falo.
É nítida a comparação com Jeanne e Lisa. A irmã mais nova não sai de casa. Criou todo um mundo interior e de atividades físicas e intelectuais, exceto por seu irmão(ã), que a acompanha e incentiva seu brincar, que de fato é muito rico e criativo, Lisa é uma criança sozinha, que uma única vez desafia e ameaça trair Mikäel. Revelará seu segredo da dupla identidade masculina se não a levar junto para o bosque. Diante da ameaça, Mikäel cede. E em seguida vemos Jeanne no parque interagindo com outra garotinha: menina brinca com menina. O filme completa a simbolização do masculino tido como melhor, superior e possui direito inato sobre o feminino. Fato biológico que ocorre em muitos seres vivos. Embora também ocorra com igual ou mais frequência o contrário. Mas aqui estamos mencionando sistemas simples, não hipercomplexos.
Mas criticar que a mulher desempenhando um papel de subalternidade em relação ao homem, servindo e obedecendo, seja uma construção social e psíquica, produz reações. Criticar milênios de sujeição feminina, inconscientemente mobiliza o papel de muitas das religiões. Embora o filme tivesse sido muito bem avaliado e assistido, ocorreram manifestações de entidades religiosas contra sua divulgação dentro e fora da França.
Alguns protestos contra a transmissão do filme Tomboy:
Por ocasião de sua transmissão televisiva no canal franco-alemão Arte, a associação católica Civitas lançou uma petição para impedi-lo. Reunindo quase 40.000 assinaturas online, a petição não surtiu efeito: o filme foi transmitido na quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014, às 20h50 e atraiu 1,25 milhão de espectadores (4,9% de participação de mercado), uma das melhores audiências da história do canal. Uma exibição planejada pelo colégio episcopal de Walbourg em 5 de maio de 2023 foi cancelada após protestos de pais de alunos após uma publicação no site Riposte Catholique. Em 28 de junho de 2023, o Animus Fortis, um grupo de extrema-direita, tentou ter sua exibição proibida pela associação LGBTQIA+ Berry em um cinema em Saint-Amand-Montrond, levando a uma mudança no local da exibição após suspeitas de vazamento de cartas internas dos organizadores (Wikipedia, 2023).
Em relação à psicanálise, ainda são muitos os psicanalistas e sociedades que se firmam no Seminário, 18: de um discurso que não fosse do semblante, em que Lacan (1970-1971/2009, p. 30), para justificar as transexualidades como psicose, utiliza o conceito de foraclusão, o que também pode fundamentar que muitos psiquiatras considerem as transexualidades como psicose.
Contudo, a fala de Lacan em um de seus seminários, pode ter sido apenas um momento infeliz, sem a reflexão maior que um texto escrito provoca. Mas, sem dúvida, reforçou propostas tanto para a patologização médica, quanto para reforçar ideologias de que o sexo masculino é superior ao feminino.
A favor da psicanálise, apesar de algumas falas e escritos preconceituosos, predominam os frutos de continuidade associada ao longo de mais de um século, originando a imensa diversidade de autores, correntes, instituições e psicanalistas. Se há tantos autores e leituras, o que a constitui a única teoria e prática clínica que também em si mesma é hipercomplexa.
Na conceituação final de Freud, de que só existe uma libido, que está a serviço da função sexual tanto masculina quanto feminina. Mas rubricando que, se o sexo é binário, o gênero se compõe de um número desconhecido de formas e manifestações. O que constitui a masculinidade ou a feminilidade pertence a um gradiente infinito e desconhecido manifestações, que reducionismos biologizantes não conseguem apreender. Principalmente porque esse reducionismo se subordina a ideologias e crenças religiosas que visam para proveito próprio a subjugação da maioria.
Por esse motivo, para dialogar com um filme tão singelo e curto como Tomboy, foi necessário discorrer sobre a hipercomplexidade em vários níveis. Para isso, selecionamos Freud, Morin e Rippon, Winnicott e Stoller. Porque a psicanálise, a linguagem, a cultura, a sociedade e a relação cérebro/ mente humana constituem sistemas hipercomplexos. E tendo Freud fundamentado a noção de sublimação, o gênero não fica por menos, sendo direta e indiretamente, o construtor de todos esses sistemas e saberes.
O que foi invocado na última cena de Tomboy? A aceitação da identidade de gênero feminina? Pouco crível. A cumplicidade na aceitação de um nome feminino, uma máscara social necessária? É possível. Mas só o tempo poderá dizer.













