SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número61“Bate-se numa criança”: a fantasia de surra como cenário discursivo do sujeito do inconscienteOs algoritmos do ressentimento: modulação de afetos na contemporaneidade índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.61 Belo Horizonte jun. 2024  Epub 09-Jun-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n61a06 

Artigos

Tecnologias digitais e os possíveis impactos para a privacidade, a segurança e a subjetividade de crianças e adolescentes

Digital technologies and possible impacts on the privacy, security and subjectivity of children and adolescents

Lia Pereira Nóbrega1 

Psicanalista

1Membro efetivo do Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro (CBP-RJ), filiado ao Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) e à International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS). Graduada em engenharia de alimentos pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Mestre em ciência de alimentos pela UFRJ. E-mail: lianobrega16@gmail.com


Resumo

O texto traz informações sobre as tecnologias digitais e as redes sociais, incluindo alguns riscos e crimes presentes no ambiente digital. Traz reflexões sobre o uso dessa tecnologia por crianças e adolescentes, tendo em vista fatores como privacidade, segurança e desenvolvimento psíquico-emocional. O trabalho aponta, com base no livro Geração do quarto, de Hugo Monteiro Ferreira, a perigosa combinação de ausência de vínculo e diálogo entre pais e filhos, e do uso excessivo de telas/redes socais, e sua relação no adoecimento de nossas crianças e adolescentes. Apesar de a tecnologia digital não ser um problema por si só, é preciso pensar em como equilibrar o mundo virtual e o real, de modo a garantir outras experiências, conversas e vínculos que não apenas os virtuais, pois, afinal, precisamos de vínculo, de afeto e de adesão para ser.

Palavras-chave: Tecnologias digitais; Riscos na internet; Isolamento doméstico; Solidão em crianças e adolescentes; Adoecimento emocional de crianças e adolescentes

Abstract

The text provides information on digital technologies and social networks, including some risks and crimes present in the digital environment. It brings reflections on the use of this technology by children and adolescents, considering factors such as privacy, security and psychological-emotional development. The work points out, based on the book ‘Geração do Quarto, by Hugo Monteiro Ferreira, the dangerous combination of the lack of bonding and dialogue between parents and children and the excessive use of screens/social networks, and their relationship in the illness of our children and adolescents. Although digital technology is not itself a problem, it is necessary to think about how to balance the virtual and real worlds, to guarantee other experiences, conversations and bonds than just the virtual ones because, after all, we need bonds, affection and adherence to be.

Keywords: Digital technologies; Risks on the internet; Domestic isolation; Loneliness in children and adolescents; Emotional illness in children and adolescents

Introdução

A tecnologia digital trouxe grandes avanços e mudanças aos nossos tempos. Ela possibilita a comunicação rápida, imediata, independentemente da distância. Possibilita o reencontro de pessoas afastadas pelas circunstâncias da vida e aproxima pessoas que de outra forma não se conheceriam. Possibilita que notícias e acontecimentos sejam compartilhados em tempo real; que multidões se mobilizem em prol de uma causa, em tempo recorde.

A tecnologia digital democratizou a produção e o compartilhamento de conteúdo. A comunicação em massa não é mais apenas privilégio dos meios de comunicação “oficiais” (governos, TV, rádio), mas hoje qualquer pessoa pode produzir e compartilhar conteúdos e fatos, em tempo real, de forma independente e com um alcance gigantesco. A tecnologia digital nos possibilita acessar livros, documentos, filmes, músicas, enfim, os mais variados tipos de conteúdo que de outra forma seria muito difícil ou demorado acessar. A tecnologia digital nos salvou de um isolamento ainda maior nos tempos de covid-19.

A tecnologia digital, por si só, não é um problema. A questão é o uso que se faz dela. Bullying, fake news, crimes como abuso sexual e pedofilia fazem parte da história da humanidade, talvez com outros nomes, mas desde sempre. E tais problemas ganharam outra dimensão com o avanço das tecnologias digitais.

Como então pensar esse uso por crianças e adolescentes? Ainda que se defina uma idade mínima para introduzi-las nesse mundo, o uso da tecnologia digital será uma questão de tempo. Por isso, precisamos pensar como tornar esse contato mais seguro, mais proveitoso e menos nocivo ao desenvolvimento intelectual, social e emocional das crianças e adolescentes.

Mas como pensar as possíveis consequências em crianças e adolescentes, sem pensar como os próprios adultos lidam com ela? Quantas horas por dia os adultos têm estado conectados? Quantas vezes não são os próprios adultos a usar as tecnologias digitais como estratégia para entreter a criança para que possam se concentrar em outra atividade ou aproveitar de um momento de tranquilidade? Quantas vezes os próprios pais postam fotos ou vídeos de seus filhos, expondo-os sem seu consentimento e sem avaliar as possíveis consequências e riscos? E quanto às crianças e adolescentes, qual o limite saudável de uso? Quais conteúdos podem ser acessados? O que pode ser postado? Como protegê-los dos excessos e perigos?

Tecnologias digitais: redes sociais e crimes mais comuns

Trago alguns números sobre as redes sociais e sobre os perigos/crimes mais comuns no mundo digital. De acordo com o relatório produzido em 2023 pela We Are Social em parceria com a Meltwater, em janeiro de 2023 a população brasileira estava estimada em 215.8 milhões de pessoas, e o número de usuários de internet era de 181.8 milhões. Ou seja, 84% do total da população.

Segundo o mesmo relatório, as 7 redes sociais mais usadas no Brasil são:

  • WhatsApp: 169 milhões de usuários;

  • YouTube: 142 milhões de usuários;

  • Instagram: 113 milhões de usuários;

  • Facebook: 109 milhões de usuários;

  • TikTok: 82 milhões de usuários;

  • Facebook Messenger: 62 milhões de usuários;

  • LinkedIn: 59 milhões de usuários.

Dados de 2022 revelam que os brasileiros passam, em média, 3 horas e 46 minutos por dia, conectados às redes sociais. Crianças e adolescentes usam principalmente o TikTok, Instagram e YouTube. As dancinhas compartilhadas no TikTok são com muita frequência, altamente erotizadas, prato cheio para abusadores e pedófilos.

E qual é uma das grandes questões da internet? Segundo Andreia Stanger (2023), perita criminal aposentada da Polícia Federal e especialista na investigação de crimes cibernéticos (2023, Curso Proteção digital de crianças e adolescentes: Ferramentas e estratégias contra os riscos na internet), é muito difícil controlar o acesso a conteúdo inapropriado, assim como evitar riscos e perigos. Pois, por trás de um perfil falso e de um suposto anonimato, muitas pessoas acham que podem falar e fazer o que quiserem, sem que sejam punidas por isso. A internet funciona 24/7, principalmente quando é utilizada para o mal e para os mais diferentes tipos de crimes. Além disso, não podemos esquecer que há muito interesse econômico em jogo, o que dificulta que leis e medidas de proteção sejam criadas e implementadas.

E são vários os tipos de crimes que acontecem no mundo digital. A maioria não é exclusiva da era digital, mas com certeza ganhou sofisticação e maior alcance através das tecnologias digitais. Segundo Andreia Stanger (2023), os principais crimes são:

  • Calúnia: inventar algo sobre alguém;

  • Danos: por exemplo, o envio de vírus;

  • Desinformação ou fake news;

  • Difamação: associar a pessoa a um fato que ofende a sua reputação;

  • Divulgação de segredos/informações confidenciais: muitas vezes como vingança;

  • Estelionato, golpe romântico, golpe do “você ganhou um prêmio”, entre outros;

  • Fraudes: lojas que não existem etc.;

  • Injúria: falar mal ou insultar alguém;

  • Invasão de privacidade: roubo de contas e de dados;

  • Racismo: o ambiente digital e o suposto anonimato facilitam este tipo de crime;

  • Sequestro de dados: roubo de conta do Instagram para golpes ou extorsão;

  • Tráfico de drogas e armas;

  • Violação de direitos autorais: uso de software pirata, compartilhamento de material; de autoria de outra pessoa sem autorização ou sem mencionar a fonte etc.

Stanger (2023) afirma que é importante lembrar nossa corresponsabilidade ao compartilhar qualquer tipo de informação sem ter a certeza de sua veracidade e fonte, pois isso pode nos tornar cúmplices de crimes como calúnia, difamação, fake news etc.

Além desses, os crimes que mais afetam crianças e adolescentes são:

  • Abuso sexual, pedofilia, pornografia infantil;

  • Cyberbullying: difamação, cancelamento, ameaças;

  • Incitação ao crime;

  • Jogos de azar: muito comuns apesar de proibidos no Brasil;

  • Sextortion: extorsão por meio de fotos ou vídeos de cunho sexual que a pessoa fez com ou sem consentimento (há casos de suicídio de adolescentes relacionados a este crime);

  • Tráfico de pessoas: procura de pessoas vulneráveis para posterior tráfico.

Uma observação importante sobre abusos sexuais por meio da internet é que o abuso pode acontecer mesmo à distância, mesmo sem o toque físico do abusador. O abusador induz a criança a mostrar o seu corpo, a fazer nudes, a introduzir algum objeto em seus órgãos genitais. Ele induz uma criança mais velha/adolescente a fazê-lo com outra criança mais nova (normalmente o irmão/ irmã menor). Muitas dessas cenas são filmadas para venda em redes de pedofilia e/ou para chantagear a criança posteriormente, seja para perpetuar o abuso, seja para extorqui-la financeiramente.

O abusador se faz próximo da criança antes de começar a abusar. Na maioria das vezes a criança é assediada de uma forma tranquila, com elogios, com atenção. E a criança começa a gostar disso. Se sente bem com os elogios, se sente olhada, se sente especial. Apenas após ganhar a confiança da criança, é que o abuso de fato começa. Portanto, ao contrário do que se pensa, o abusador não é um completo estranho à criança. Muitas vezes a comunicação entre eles se iniciou meses ou anos antes do abuso de fato acontecer. Com frequência, a criança obedece ao abusador seja por ele ser uma figura de autoridade, de amor, seja por ameaças a ela própria ou a familiares.

Além desses crimes, crianças e adolescentes estão sujeitos aos seguintes riscos na internet:

  • Acesso a conteúdo não indicado para a idade (pornografia, cenas violentas);

  • Aliciamento em desafios como baleia azul, grupos de incentivo à automutilação ou ao suicídio;

  • Aliciamento em grupos pró-anorexia e pró-bulimia;

  • Comparação social: suposta vida perfeita do outro (influencers principalmente);

  • Vícios em jogos.

Muitos desses crimes/perigos podem levar a criança/adolescente a desenvolver ansiedade, depressão ou até mesmo a cometer suicídio.

Sobre segurança

Considerando os riscos mencionados, como garantir a proteção de crianças e adolescentes? Ainda que se limite à idade inicial de uso das tecnologias digitais e, principalmente, das redes sociais, em algum momento isso irá acontecer.

Existem aplicativos de controle de conteúdo e de tempo de acesso que ajudam nesse sentido. No entanto, penso que não há como fugir de uma “educação digital”, tanto dentro da própria família, bem como na escola.

Antes de inserir a criança no mundo digital, seria importante conversar sobre regras, limites, riscos, ética e responsabilidade no acesso e uso dessas tecnologias. Pais precisam confiar e respeitar a privacidade de seus filhos, porém sem renunciar a um acompanhamento próximo e ao diálogo constante.

Não podemos delegar aos outros os cuidados com nossas crianças e adolescentes nem cair na falsa ideia de que a criança terá maturidade para avaliar os riscos sozinha, ou decidir sempre pelo que é certo. Uma criança sem acompanhamento pode tanto sofrer quanto praticar bullying! Não podemos esquecer que nenhum dispositivo digital pode substituir o relacionamento humano, nem nos iludirmos de que em casa a criança está totalmente protegida de perigos e de criminosos.

Sobre privacidade

A principal questão aqui é que, uma vez que uma informação (texto, foto ou vídeo) é postada, dificilmente conseguimos retirá-la de circulação tampouco temos controle do impacto e repercussão que aquilo pode ter, nem do uso que será feito por terceiros. Portanto, se já é difícil para um adulto analisar esses possíveis desdobramentos e impactos, como delegar a decisão às crianças e adolescentes?

Quais são as possíveis consequências para a criança (emocionais, sociais, psíquicas) de uma postagem com grande repercussão positiva, por exemplo? Teria a criança maturidade para lidar com o excesso de excitação gerada? E se a repercussão for negativa? Comentários depreciativos, violentos ou mesmo de cunho sexual? Como lidar com tal exposição? Quais os possíveis efeitos para essa criança?

Como pensar a privacidade e a segurança no mundo digital, sem antes pensar em conceitos como o que é público e privado, e sobre consentimento? E quando falamos sobre respeito e consentimento, muitas vezes esquecemos que as crianças deveriam ser tratadas com a mesma consideração e respeito que teríamos por um adulto.

Quantas vezes não são os próprios adultos a postar fotos e vídeos de seus filhos, às vezes ainda bebês, em situações a princípio ingênuas, mas que podem ser usadas no futuro para fins criminosos (pedofilia, extorsão etc.). Ou mesmo resultar em algum tipo de bullying e/ou constrangimento futuro para essa criança? Sem contar com a postagem de vídeos de crianças sendo submetidas a humilhação pelos próprios pais ou por terceiros, apenas com intuito de ser um vídeo engraçado para viralizar. Aqueles que deveriam proteger a criança, que deveriam ser seu porto seguro, abusam de sua posição de responsável (ou seria irresponsável?) para sua própria satisfação.

Como pensar o público, o privado, a intimidade, o consentimento em tempos de exposição imagética do cotidiano? Em tempo de geração de likes a qualquer preço? Em um vídeo postado por Fernanda Lee (@filosofiapositivaoficial) em 25 de junho de 2024,1 uma jovem conta sobre o quanto foi exposta nas redes sociais por sua mãe, ao longo de toda a sua infância e adolescência. Todas as doenças, a data de sua primeira menstruação, momentos embaraçosos, nada escapou às postagens da mãe! Do quanto ela, quando criança, estranhava comentários de pessoas aleatórias que sabiam de detalhes muito pessoais sobre a sua vida. O vídeo mostra uma cena, dela pequena, talvez com uns 5 anos, falando “uma moça disse que me viu no Instagram, mas eu nunca fui ao Instagram! Eu já á fui a Austrália, Filipinas, América mas eu nunca estive no Instagram! Onde fica o Instagram?”. A jovem cita ainda que fotos e vídeos dela criança foram diversas vezes usados em redes de pedofilia.

E quanto à construção da subjetividade de nossas crianças e adolescentes?

Em seu livro A descoberta de si mesmo, a psicanalista Ivanise Fontes (2017) nos traz reflexões sobre a importância do corpo na constituição do psiquismo. Segundo a Fontes (2017, p. 22), se, por um lado, o nascimento biológico tem uma data bem definida, o mesmo não se pode afirmar sobre o nascimento psicológico. Este último é um processo intrapsíquico de lento desdobrar, que irá se formar a partir da passagem do bebê por uma série de experiências com seu próprio corpo. Essas experiências são necessárias para a construção do ego corporal e, posteriormente, do ego psíquico. É necessária uma gestação psíquica, portanto, para que haja um nascimento psíquico.

Fontes (2017, p. 23) menciona o que seria a lista dos elementos corporais cruciais para a integração, que resultam num nascimento psíquico. Eles seriam: o ritmo de vaivém do olho no olho e do bico do peito na boca, o suporte costas-nuca-cabeça, o envelope verbal suave, a dobra do som, as junções intracorporais (unir as duas metades do corpo em torno da coluna vertical), a noção de esqueleto interno, as articulações corporais e a experiencia tátil.

O bebê humano precisa, portanto, construir um ego corporal que garanta a sua existência psíquica. Fontes (2017) menciona que psicopatologias como as personalidades aditivas, as psicossomatoses e os casos-limite possuem, como denominador comum, uma precariedade nessa organização egóica (p. 21). A autora fala também das três angústias primordiais – liquefação, queda sem fim, explosão – e do quanto o corpo da mãe-ambiente é fundamental para ajudar a conter tais angústias, dando ao bebê, aos poucos, a possibilidade de entender que possui também um corpo continente (p. 23).

Trago esse conceito sobre gestação psíquica, sobre a importância do ambiente na contenção e nomeação das angústias corporais do bebê, para pensarmos para além dessa fase bem inicial da vida. Não seriam as interações com a mãe, o pai, o ambiente durante as fases da infância e da adolescência também importantes para a constituição desse sujeito em desenvolvimento? Me pergunto o quanto temos olhado de fato, o quanto temos estado de corpo e atenção presentes para ajudar nossas crianças e adolescentes a conterem suas angústias, ainda que não as três primordiais, mas todas as outras que vão surgindo em cada fase do desenvolvimento infantil, até que a criança se torne adulto.

Quanto tempo os pais têm se dedicado a uma interação de qualidade com seus filhos? Ao brincar junto? Ao diálogo? A uma escuta ativa de suas questões e necessidades? Essa criança tem tido a oportunidade de brincar, de se entediar, de criar? De passear ao ar livre? Existe o hábito familiar de leitura de livros com a criança?

Quais os vazios que as tecnologias digitais tentam preencher? Que ausências e negligências há por trás do tempo excessivo gastos em jogos e redes socais? E quais as possíveis consequências para nossas crianças e adolescentes?

No livro A geração do quarto, o autor Hugo Monteiro Ferreira (2022), denuncia uma realidade cada vez mais comum. Hugo entrevistou, ao longo de dois anos, mais de três mil meninos e meninas entre 11 e 18 anos. Nas entrevistas, constatou uma séria fragilidade emocional, sérios problemas de convivência entre seus pares e os adultos com os quais convivem. Essas crianças passam mais de 6 horas por dia isoladas em no quarto, com quase nenhuma interlocução com as pessoas que vivem na mesma casa. Elas têm muita dificuldade de dizer o que sentem e apresentam um forte potencial de violência contra si ou contra o outro. E demostram um profundo sofrimento psíquico (p. 16).

Essas crianças passam muito tempo dentro do quarto e, apesar da pouca idade, têm uma larga experiência de relações humanas via mundo digital. O livro traz a reflexão de como a condição de fragilidade das crianças e dos adolescentes põe em xeque o modus vivendi dos adultos (p. 18). Segundo Ferreira, talvez seja o isolamento da família uma das principais características dessa geração que não se sente confortável senão dentro do quarto (p. 20).

O isolamento social, a angústia, a sensação de vazio e a ausência de sentido estão no dia a dia dessas crianças. A geração do quarto pede ajuda, e seu corpo tem sido usado das mais diversas formas como tentativa de denunciar essa dor (p. 22). Eles se tatuam, se mutilam, alargam orelhas, perfuram a boca e os órgãos genitais. Pintam os cabelos de várias cores, ficam e deixam de ficar, não se vinculam afetivamente.

Não se trata, no entanto, de uma geração de fracassados, mas de uma geração que exige dos adultos novas posturas diante da vida, na medida em que deflagra outro sério problema: a geração do quarto se sente sozinha, descuidada, negligenciada e rejeitada. Incapaz de enfrentar os mais variados momentos da vida cotidiana (p. 24). A solidão da geração do quarto é uma espécie de abandono, uma negligência em nome do poder econômico e da sobrevivência social. Muitas das crianças entrevistadas se ressentem da ausência dos pais dentro de casa, da ausência de conversas espontâneas e da realização de atividades em conjunto.

Os pais da geração do quarto, passam de 8 a 12 horas trabalhando. São pais e mães que, em nome da ascensão profissional, em nome do sustento da família, da aquisição de bens e da possibilidade de consumo, se ausentam e não percebem que seus filhos se sentem abandonados, isolados e não conseguem contar com seus pais nos momentos decisivos da vida (p. 24). Deixar a criança com terceiros em nome da vida profissional é, de certo modo, não compreender a relevância do cuidado parental para com ela.

Segundo Libório e Koller (2009 apudFerreira, 2022, p. 25), esse abandono certamente gerará fatores que podem colocar em risco a vida dessa criança quando estiver na adolescência. “Terceirizar uma criança é possibilitar a emergência de desvinculações emocionais” (Ferreira, 2018 apudFerreira, 2022, p. 25).

As crianças e os adolescentes que passam horas dentro do quarto, de modo geral conectados às redes sociais digitais, não têm relações dialógicas com seus pais. Há pouco espaço e tempo para diálogo, para trocas, para uma vinculação emocional, além da sensação de que não se pode contar com os pais. Portanto, se a criança/adolescente não tem, dentro de casa, com quem tratar seus sonhos, seus medos, então por meio das redes sociais digitais, com respostas rápidas, eles irão contar e receber orientações de pessoas que estão do outro lado, mas que, apesar da distância física, se tornam próximas e presentes no cotidiano (p. 26). A terceirização também é um desastre para os pais que, sabendo de sua ausência, se sentem culpados! E esta culpa pode levá-los a tentar compensar a ausência com permissividade, e acabam por ser desatentos sobre orientações, e indecisos nos momentos que exigem um limite mais firme (p. 26).

A consciência de que as coisas vão mal com nossas crianças é, em alguns casos, um alerta de que a família como um todo deve ser revisada. Há algo que não está funcionando. O sofrimento, o adoecimento, o isolamento, a sensação de solidão de crianças e adolescentes nos advertem para uma questão importantíssima: nós, adultos, também estamos adoecidos (p. 27)!

A solidão dessa geração tem sido percebida no comportamento perigoso e violento que desenvolve. A violência pode ser contra si mesma – autolesões, ideações suicidas, tentativas de suicídio, uso abusivo de álcool, uso de drogas, relações sexuais sem uso de proteção, desleixo com o estudo escolar – ou contra os outros, como no caso de bullying, cyberbullying, vandalismo, violência contra minorias, disputa de “rachas” etc. (p. 28).

Trata-se de uma geração conectada com o mundo, mas sem diálogo em casa. Segundo Ferreira (2022, p. 29), podemos até tentar adiar o acesso às tecnologias digitais. No entanto, o problema não está na conexão em si. Na verdade, essas crianças e adolescentes passam muitas horas exclusivamente na cibercultura, sem experimentar alternativas dentro da própria casa. O problema não é a existência das redes sociais, mas o fato de que elas escancaram a ausência de espaço e de tempo para ficarmos juntos presencialmente, trocar ideias, brincar, para nos conhecer. As redes sociais são como lupas que mostram o silenciamento dentro das casas.

Uma cultura digital, um exilio virtual! Um mundo que está dentro de aparelhinhos e traz à tona a existência de um fosso enorme que as casas já possuíam e, ao mesmo tempo, amplia a profunda esse fosso (p. 30). O problema não são as tecnologias digitais, nem as redes sociais. O adoecimento vem quando há necessidade de sobreposição, de exclusão, de não viver o físico e o real, para viver a vida no plano virtual (p. 31).

O diálogo é o que possibilita as adesões! Adesão, segundo o autor (p. 31), seria “a capacidade de eu ouvir quem me fala, ainda que eu discorde do que me é dito, ainda que seja diferente do que eu penso, do que sinto. Mas eu respeito quem fala, me pondo a disposição de ouvir, eu tenho adesão e não excluo a interlocução”. Seria uma espécie de empatia, algo como tentar compreender como pensa e como sente o outro. E, se dentro de uma casa, não existe diálogo, não existe adesão, consequentemente os habitantes daquela casa vão tentar encontrar “conversas” em outros espaços. Mas isso não garante que não se ressintam, nem tampouco que os problemas estejam resolvidos.

A pediatra e educadora parental Juliana Franco, em seu curso Atuação consciente na adolescência (2023, Certificação Master ESEPAS), diz que no tratamento de adolescentes em situação de risco (abuso de álcool, drogas, compulsões etc.), é a conexão efetiva e afetiva dos pais com seus filhos, além do apoio de profissionais específicos, o que realmente faz diferença e é fundamental para o sucesso do tratamento. É a construção de um relacionamento real e próximo, muitas vezes, pela primeira vez desde o nascimento do filho, que pode fazer a diferença. Segundo Franco, os pais precisam olhar de fato para aquele adolescente, se conectar com ele, querer conhecer aquele filho como ele realmente é, sem rótulos nem idealizações, e que possam demonstrar seu amor com gestos, com presença, com acolhimento, com escuta.

Conclusão

Como tornar as tecnologias digitais e as redes sociais mais seguras para crianças e adolescentes? Podemos pensar em aspectos mais práticos como estabelecer um limite de idade e de tempo, o tipo de conteúdo que pode ser acessado etc. Mas provavelmente nada disso garanta uma segurança. Talvez a maior segurança esteja na conexão real, na rede afetiva construída entre pais e seus filhos. O tempo de conexão mais importante é a dos pais com seus filhos. O conteúdo mais relevante são as brincadeiras, as conversas, o tempo desfrutado juntos. Para além do quarto, existe toda a casa, um mundo a ser experimentado, uma vida a ser vivida, de preferência junto à família.

Não há visualizações, likes, curtidas suficientes que possam substituir o olhar e a atenção efetivos e afetivos daqueles que amamos e de quem dependemos. Não há “sucesso” no mundo virtual que possa ser comparado com a sensação de pertencimento e segurança, quando nos sentimos olhados, amados e aceitos por nossos pais.

E termino este texto com um post da psicanalista Rosa Maria Marini, no Instagram:

O MINISTÉRIO DO ESTRAGA PRAZER ADVERTE:

A criança que não se desconecta dos pais, não se conecta com o mundo.

A criança que não se conecta aos pais, não se desconecta das telas.

REDES FRÁGEIS?

  1. Uma criança que prefere as telas ao ser humano é preocupante.

  2. Uma criança só usa as telas porque alguém deu.

  3. Uma criança que usa as telas sem perder seu lugar criante, brincante e falante é Mara!

  4. Telas são meios e não fins, tirar as crianças de frente delas e não oferecer nada em troca não vai funcionar.

  5. Educar um filho na era das telas é difícil.

  6. Educar um filho é difícil.

  7. Vamos tentar localizar com precisão os problemas de conexão, para podermos fazer novas redes...

(Instagram, @rosa.maria.marini, 26 jun. 2024)

Referências

Brasil. (2023). Relatório sobre tecnologias digitais. Recuperado de:https://datareportal.com/reports/digital-2023-brazil. [ Links ]

Ferreira, H. M. (2023). A geração do quarto: quando crianças e adolescentes nos ensinam a amar. 5. ed. Rio de Janeiro: Record. [ Links ]

Fontes, I. (2017). A descoberta de si mesmo na visão da psicanálise do sensível. São Paulo: Ideias & Letras. [ Links ]

Stanger, A. (2023). Proteção digital de crianças e adolescentes: ferramentas e estratégias contra os riscos na internet. [ Links ]

Recebido: 10 de Março de 2024; Aceito: 26 de Abril de 2024

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado