1. Introdução: a que será que se destina?
Este artigo não segue os caminhos tradicionalmente trilhados pelo debate sobre a digitalização da vida. Aqui, embora reconheçamos sua relevância, não enfatizamos os males e os desvios da utilização das redes sociais por crianças e adolescentes e os possíveis prejuízos que essas práticas possam causar. Também não damos ênfase à crítica aos comportamentos exibicionistas, na necessidade de ver e ser visto nem no reforço de um tipo de narcisismo que superestima o valor da imagem pessoal e estimula o consumo no ambiente digital.
Ademais, sabemos que não há retorno ao passado, ou seja, não é possível imaginar a vida sem a mediação dos dispositivos eletrônicos e dos bancos de dados que acumulam cada vez mais informações sobre nossa intimidade. Não cairemos na tentação de supor regressar a um mundo isento de informática e internet com suas riquezas e mazelas. O crescimento exponencial da Big Data precisa ser entendido em seus impactos na subjetividade pessoal e coletiva para que possa ser não apenas socialmente regulado mas também suas consequências, suas compulsões suas repetições possam ser enfrentadas na prática terapêutica.
Não nos contentamos com a interpretação de que as redes sociais são simplesmente uma nova forma de manipulação. Admitimos que houve ruptura e que a qualidade na produção e/ou modulação dos afetos foi transformada. Se, na primeira metade do século XX, o cinema foi o instrumento privilegiado de difusão ideológica e, na segunda metade, a televisão se tornou importante aparelho ideológico de Estado, agora estamos diante de um novo tipo de endereçamento das mensagens que despertam afetos. Não se trata mais de um emissor único atingindo igualmente todas as pessoas de modo passivo com um mesmo formato, mas de uma multiplicidade de comunicações que, segmentando e agindo sobre fragmentos da sociedade, produzem ativamente mudanças na percepção, na identidade e na subjetividade com a participação dos próprios usuários.
Portanto, o objeto do nosso estudo diz respeito à modificação da forma de produção de subjetividades ou, como veremos a seguir, da sua modulação. A hipótese de trabalho é que as redes sociais exacerbam sobremaneira, no reforço ao sentimento ressentido, na ampliação do amargor. “Ressentir-se é atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer”, afirma Kehl (2015, p. 11). Culpar o outro pelo fracasso passado ou iminente. “A raiva, a cólera, a indignação, impedidas de se exceder na direção do objeto, transformam-se em raiva e indignação contra si mesmo” (p. 16). O desafio aqui assumido é compreender como a programação dos algoritmos que operam as redes sociais tem deliberadamente buscado estimular amargura e manifestações reativas dos seus usuários, com objetivo de fidelizá-los seja na ampliação do tempo que dispendem on-line, seja no alargamento de práticas de consumo, seja através de processos de identificação, interferindo em suas preferências políticas.
A psicanálise não pode se furtar a este debate. A relação entre psicanálise e cultura é constitutiva desse campo de conhecimento. Freud não deixou dúvidas quanto a esse aspecto ao longo de sua vasta produção. Desde a publicação de A moral sexual ‘cultural’ e doença nervosa moderna (Freud, 1908/2020) até O mal-estar na cultura (Freud, 1930/2020), encontramos o fundador da psicanálise definindo e expandindo esse conceito. Em O futuro de uma ilusão,Freud (1929/2014) afirma:
A cultura humana - refiro-me a tudo aquilo que a vida humana se ergueu acima de suas condições animais e em que se diferencia da vida animal - e eu me recuso a distinguir cultura de civilização - apresenta, notoriamente, dois aspectos àquele que a observa. Por um lado, abrange todos os conhecimentos e habilidades que os homens adquiriram para controlar as forças da natureza e dela extrair os bens para satisfação das necessidades humanas; e por outro lado todas as instituições necessárias para regulamentar as relações entre os indivíduos e, em especial a distribuição dos bens obteníveis (p. 233).
Assim, esse debate se insere na tradição e no compromisso de pensar as redes sociais a partir de conceitos e ferramentas também disponíveis no campo psicanalítico. A clave de leitura do afeto ressentido não é uma construção freudiana stricto sensu, mas muitos psicanalistas hoje em atividade, têm se debruçado sobre essa/a realidade que adentra os consultórios e têm respondido com sínteses e contribuições originais. Destacam-se neste estudo particularmente os trabalhos de Kehl (2015), Fleury (2023) e Hoggett (2018) que, por sua abrangência, profundidade e estilo, se tornaram essenciais.
2. O que se entende por modulação
A sociedade disciplinar foi caracterizada pela sujeição e coação através da docilidade dos corpos e da submissão ao poder. Michel Foucault (1977), em Vigiar e punir, examina as instituições prisionais como modelos dessas técnicas, em que a tecnologia de confinamento e a verificação contínua dos internos servem de paradigma para outras organizações surgidas ou reformadas a partir do século XVIII. Em tais instituições, a disciplina sistemática e a coerção física reorganizavam tanto a vida quanto a produção. Foucault (1977) destaca que:
Muitas coisas, entretanto, são novas nessas técnicas. A escala, em primeiro lugar, do controle. Não se trata de cuidar de corpos em massa, grosso modo... mas de trabalhá-lo detalhadamente, de exercer sobre ele coerção sem folga, de mantê-lo ao nível da mecânica: movimentos, gestos, atitudes, rapidez; poder infinitesimal sobre o corpo ativo (p. 126).
A sociedade disciplinar, portanto, se fundava na minuciosa regulação dos corpos e na inculcação de uma obediência quase automática aos mecanismos de poder. O poder era exercido através de um conjunto de técnicas e dispositivos que se infiltravam em todos os aspectos da vida cotidiana, regulando não apenas as ações, mas também os pensamentos e o comportamento dos indivíduos.
Além das prisões, Foucault (1977) identifica outras instituições que moldam a sociedade disciplinar, como os hospitais, as escolas, os quartéis e as fábricas. Cada uma delas utiliza técnicas de vigilância e constrangimento para criar indivíduos que são ao mesmo tempo úteis e dóceis. Desenvolvem técnicas que incluem a divisão do tempo em horários rigorosos, a organização dos espaços para maximizar a supervisão e a utilização de exames e testes para monitorar e avaliar o desempenho.
A introdução dessas técnicas marca uma transformação significativa na forma como o poder é exercido na sociedade. Em vez de se basear em espetáculos públicos de punição, como ocorria nas sociedades anteriores, o poder disciplinar se manifesta de maneira contínua, operando por meio de uma rede de dispositivos que se estende por toda a sociedade.
Gradativamente, o controle e a coesão da sociedade disciplinar, de formato analógico, físico, foi perdendo sua eficiência e sendo substituído por formas mais efetivas, sobretudo a partir da Segunda Grande Guerra. Com o desenvolvimento das atuais ferramentas tecnológicas - como computadores, internet e telefonia digital - tornou-se possível oferecer novas respostas à crise de legitimidade que afetava as instituições originadas na sociedade disciplinar ou por ela transformadas.
Novos mecanismos, agora digitais, em vez de utilizar métodos rígidos e estruturados para moldar subjetividades, empregam uma abordagem flexível e discreta, adaptando-se aos fluxos e modulando informações, desejos e afetos. Estamos falando da sociedade de controle. Nessa perspectiva, são realizados registros imediatos das ações pessoais, rastreando, armazenando e identificando padrões de linguagem e comportamento de diferentes grupos, ou individualizando deslocamentos e preferências.
Deleuze (2013) descreve essa transição: “O homem da disciplina era um produtor descontínuo de energia, mas o homem do controle é antes ondulatório, funcionando em órbita, num feixe contínuo. Por toda parte o surf já substituiu os antigos esportes” (p. 223).
Nesse novo cenário, não há mais um único emissor ou uma única mensagem. Em vez disso, há uma aparente dissonância de vozes que, submetidas a uma nova engenharia de comunicação e mensuração de informações, produzem ou despertam sentimentos. As redes sociais se consolidam como plataformas privilegiadas onde ocorrem a modulação de sentimentos, comportamentos e opiniões.
A modulação pode ser entendida como a condução de modos de pensar, gostos e tendências conforme os caminhos oferecidos pelos dispositivos algorítmicos que gerenciam os interesses de influenciadores e influenciados. Souza, Avelino e Silveira (2021) consideram que, “para modular opiniões, gostos e incentivar tendências, é preciso conhecer muito bem aquelas pessoas que serão moduladas. Mas não é possível compreender as técnicas de modulação com o simplismo das velhas teorias da manipulação” (pp. 9-10).
A modulação ocorre no atual contexto de escassez de atenção a que estamos submetidos. Com a multiplicação de canais e meios de informação, nossa capacidade de ouvir e ver se torna muito mais seletiva, devido ao cansaço provocado pelo excesso de mensagens e comentários. Esse ambiente de sobrecarga informacional força os indivíduos a filtrar constantemente o que consomem, tornando a atenção um recurso raro e valioso.
Segundo Cassino (2021), a manipulação tradicional busca enganar a massa ou o coletivo através da montagem e edição tendenciosa de uma suposta verdade ou interpretação que se deseja promover. Em contraste, a modulação opera de maneira mais sofisticada e segmentada. Em vez de enviar uma mensagem única para todos, a modulação cria amostras e emite mensagens em diferentes formatos, adaptadas para cada grupo específico. Essas mensagens podem até ser contraditórias, mas são cuidadosamente projetadas para atuar sobre as emoções dos indivíduos que as consomem.
Esse processo de modulação utiliza algoritmos e grandes volumes de dados para personalizar as comunicações, tornando-as mais eficazes em captar a atenção e influenciar o comportamento. As mensagens são direcionadas com base em perfis detalhados de usuários, incluindo seus interesses, seus hábitos e seus padrões de consumo. Isso permite que as empresas e outras organizações e instituições ajustem suas estratégias de comunicação para maximizar o impacto emocional e persuasivo.
A transição da manipulação para a modulação representa uma mudança fundamental na maneira como o poder é exercido na era digital. Enquanto a manipulação se baseia na distorção de informações para controlar a narrativa, a modulação se concentra em adaptar e personalizar a mensagem para cada receptor, explorando suas vulnerabilidades emocionais e cognitivas. Este método mais complexo e sutil de produção de subjetividades reflete a complexidade das tecnologias contemporâneas e a crescente sofisticação das estratégias de comunicação no mundo digital.
E o que exatamente faz a expressão matemática que designamos por algoritmo? Trata-se de uma sequência de instruções e comandos que, de forma sistemática, executa a tarefa de seleção e distribuição de conteúdo. Os algoritmos são projetados com precisão, sem espaço para compartilhamentos aleatórios, sendo intencionalmente desenvolvidos no campo da programação dos sistemas para alcançar um impacto mensurável e previsível em grupos ou segmentos preliminarmente identificados.
Nessa perspectiva, não são sequências de instruções neutras; trata-se de ferramentas deliberadamente criadas para influenciar e moldar comportamentos e percepções. Eles utilizam vastos conjuntos de dados, Big Data, para identificar padrões e tendências, ajustando a distribuição de conteúdo a fim de maximizar o engajamento e a resposta emocional dos usuários. Através de processos contínuos de análise e adaptação - learning machine, os algoritmos conseguem modular as experiências individuais de cada usuário, personalizando o conteúdo para que ressoe mais fortemente com suas preferências e emoções.
Estamos diante não de uma ferramenta operacional, e sim de um instrumento de poder que opera nas intersecções da tecnologia, da economia e da produção de subjetividades. Tais instrumentos moldam a maneira como vemos o mundo e interagimos com ele, influenciando decisões e comportamentos muitas vezes imperceptíveis, mas altamente eficazes.
Conforme aponta Silveira (2021),
... os discursos são controlados e vistos, principalmente, por e para quem está dentro dos critérios que constituem as políticas de interação desses espaços virtuais. Para engendrar o processo de modulação, não é preciso criar um discurso nem uma imagem ou uma fala, apenas é necessário encontrá-los e destiná-los a segmento da rede [social] ou a grupos específicos, conforme critérios de impacto e objetivos previamente definidos (p. 38).
Assim, essa nova forma de controle se adapta constantemente, utilizando vastos bancos de dados e algoritmos sofisticados para ajustar sua abordagem de acordo com as preferências e os comportamentos dos indivíduos. A sociedade de controle, portanto, não só monitora, mas também intervém de maneira sutil e eficaz, influenciando diretamente a formação das subjetividades e das ações individuais.
3. Sentimento ressentido e redes sociais
O ressentimento é uma reação emocional complexa, em que o desejo de vingança assume papel central. Esse sentimento não se caracteriza apenas por uma mágoa passageira, mas por um acúmulo persistente de rancor e agravo que o indivíduo não consegue ou não deseja superar. Há um elemento paradoxal no ressentimento: existe certo prazer, gozo perverso, em reviver e ruminar a injustiça sofrida. Esse processo repetitivo ocorre sem nenhuma intenção genuína de ultrapassar a experiência através do esquecimento ou do perdão. Tal dinâmica psíquica cria o que podemos chamar de uma dívida sem bordas, lacuna impossível de ser saldada pelo Outro. O ressentimento torna-se, assim, uma prisão autoimposta, onde o sujeito é tanto carcereiro quanto prisioneiro de suas próprias mágoas.
Como aponta Fleury (2023, p. 16), esse sentimento que rói por dentro, que cava e esmerilha, tem na ruminação seu termo-chave. A metáfora da ruminação é particularmente apropriada, evocando a imagem de algo que se mastiga repetidamente, com o amargor característico de alimento fatigado. A analogia captura a natureza cíclica e auto-destrutiva: o ressentido, incapaz de digerir emocionalmente o agravo sofrido, fica aprisionado em sequência compulsiva de reviver a ofensa. Com o tempo, esse processo tende a se expandir, fazendo com que o alvo da mágoa se amplie progressivamente, podendo chegar ao ponto em que ele passa a alvejar o mundo com sua amargura.
O termo “ressentimento” preserva o sentido original do latim re-sentire, que denota literalmente “sentir novamente” e diz respeito a mergulhar outra vez no sofrido. A origem linguística ressalta a natureza repetitiva e imobilizadora: o ressentido não apenas lembra o agravo, mas também o revive emocionalmente, mantendo a ferida sempre aberta e dolorosa.
Alguns filósofos são referência obrigatória nesse debate porque antecederam a psicanálise e foram seus contemporâneos. Para efeito desta reflexão, destacamos duas contribuições indispensáveis. A primeira é a perspectiva elaborada por Friedrich Nietzsche que, em seus escritos acerca dos valores morais, aponta o ressentimento como um processo de luta entre forças de um homem outrora liberto versus agora transformado em escravo quando da criação do Estado. Em sua Genealogia da moral, Nietzsche aponta que o homem civilizado é “um eterno culpado de todas as suas manifestações vitais em obediência aos valores morais que acredita. Quanto mais se submete e desvaloriza a força dos instintos, mais se enfraquece e se entrega à tutela moral dos sacerdotes e autoridades” (Kehl, p. 110).
Dessa autodesvalorização surgiria o sentimento ressentido, que é por ele associado à moral dos escravos, daqueles que não têm poder de ação e, por conseguinte, só dispõem de queixa e ruminação.
A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e apenas por uma vingança imaginária obtém reparação (Nietzsche, 2009, p. 26).
O filósofo vai além, argumentando que o ressentimento é não apenas uma reação individual, mas também uma força motriz na formação de sistemas morais inteiros. Conclui que está na base da moralidade judaico-cristã, que o autor critica por valorizar a fraqueza e demonizar a força e a autoafirmação.
A segunda contribuição vem de Max Scheler (1912), que analisou o tema em seu ensaio O ressentimento na construção das morais. Em sua abordagem, o ressentimento é um autoenvenenamento com causas e consequências bem definidas. Ele o vê como uma reação emocional reprimida, que surge quando certos sentimentos não são expressos e superados, particularmente os sentimentos de vingança, ódio, malícia, inveja, ciúme e rivalidade.
Diferentemente de Nietzsche, Scheler não entende o ressentimento como a base de toda moralidade cristã. Argumenta que o verdadeiro amor cristão e o perdão genuíno são antíteses desse sentimento. No entanto, concorda que certas interpretações distorcidas do cristianismo podem, de fato, alimentá-lo. Assim, segundo Scheler, a gênese do ressentimento está ligada à percepção de injustiça e à negação de direitos, seja por atores específicos, seja pela sociedade como um todo.1 Essa perspectiva amplia nossa compreensão, situando o ressentimento não apenas como uma resposta psíquica individual, mas também como um fenômeno profundamente enraizado nas estruturas sociais e nas dinâmicas de poder. Tal disparidade gera uma sensação de impotência e frustração, uma vez que se sente incapaz de reivindicar ou usufruir plenamente daquilo que acredita ser seu.2 O filósofo destaca que essa experiência de injustiça percebida não precisa ser necessariamente objetiva; a mera sensação subjetiva de estar sendo privado de algo devido é suficiente para semear o ressentimento: “A frustração se desenvolve num terreno adubado pelo direito. Eu me sinto frustrado, pois acredito naquilo que me é devido ou é meu por direito” (Fleury, 2023, p. 21).
A resposta a essa situação pode se manifestar de dois modos distintos. O primeiro lugar, de forma passiva, quando o sujeito internaliza sua frustração, cultivando um ódio silencioso e um profundo amargor pessoal. Esse processo interno de ruminação e autoenvenenamento leva a uma deterioração gradual da saúde mental e emocional. O segundo lugar, de forma ativa, quando busca canalizar sua ira através de manifestações coletivas, participando de movimentos ou ações que permitem uma descarga emocional compartilhada.
Assim, o sujeito do ressentimento carrega consigo uma atitude implacável, que se manifesta de diversas formas destrutivas. Há um desejo constante de ferir, uma tendência a duvidar das intenções, uma propensão a afrontar e um impulso de depreciar tanto os outros quanto a si próprio. Esta última característica é relevante, pois demonstra como o ressentido acaba por corroer não apenas as relações interpessoais, mas também a autoestima e seu bem-estar psíquico.
Ora, as redes sociais têm operado a transição de um sentimento de indignação a partir de uma injustiça global que é indiferenciada para o endereçamento pessoal, que remete ao trauma, de caráter individual. A partir daí, o sujeito assume postura agudamente ressentida e não consegue escapar do constrangimento ao qual é submetido pela dinâmica que os algoritmos lhe impõem, pela compulsão à repetição, o constante ruminar dos feeds (publicações) intermináveis.
Para o campo da psicanálise, há um duplo movimento: consciente e inconsciente. A partir da metapsicologia freudiana é possível compreender que uma excitação, enquanto traço mnêmico, foi recebida e guardada de forma inconsciente na memória. Em sequência, em nova excitação, o traço anterior, de caráter momentâneo, se fixa e se transforma em duradouro. Na ausência desse revigoramento, o ressentido não existiria e permaneceria somente a primeira excitação inconsciente. Entretanto, o homem ressentido, é aquele que não esquece e não deseja superar (Fleury, 2023, p. 41). Escapar da ofensa, suposta injustiça ou perdoá-la poderia ter função libertadora seja no sentido do dispêndio de energia que a memória ressentida demanda, seja como possibilidade de seguir adiante. Mas tal superação não ocorre. É esse o contexto em que acontecem as interações nas redes sociais: a ênfase constante do sentimento de injustiça, de perda, de se sentir lesado num turbilhão de likes, compartilhamentos e feeds intermináveis no perpétuo reforço do traço mnêmico. Amplia-se o tempo no gozo do rancor on-line - para muito além do princípio de prazer - e a autoescravidão se impõe.
A transição das plataformas de redes sociais do ambiente fixo dos computadores para os dispositivos móveis marcou um ponto de inflexão na interação digital. Iniciado notadamente em 2008 com o lançamento pioneiro do aplicativo do Facebook para iPhone e amplificado pela proliferação de aplicativos similares a partir de 2010, esse processo catalisou uma mudança paradigmática no engajamento do usuário. A onipresença proporcionada pelos smart-phones intensificou o nível de imersão nas redes sociais. Essa evolução tecnológica não apenas facilitou mas também incentivou um aumento exponencial no tempo dedicado às interações on-line, transformando padrões de uso ocasionais em hábitos contínuos e compulsivos. O resultado foi integração sem precedentes das redes sociais na vida cotidiana, borrando as fronteiras entre o mundo digital e o físico, e estabelecendo um novo paradigma de conectividade perpétua.
Nesta compulsão à repetição, o ressentido demonstra uma resistência à desfocalização, tornando-se dependente do scroll infinito de informações. Submetido a um fluxo constante de estímulos visuais e sonoros - as notificações -, engaja-se em práticas de curtir e comentar manifestando relutância em transcender o estado de amargura. Essa postura expressa uma aversão à possibilidade de reparação, percebida como insuficiente diante da magnitude do dano experimentado.
Concluindo, a reflexão acima nos permite perceber movimentos, modos de organizar a informação e a captura de subjetividades que ajudam a qualificar o que ocorre nas redes sociais. A produção social do ressentimento, sua manifestação como uma forma de gozo psíquico e a consequente elevação dos níveis de pulsão de morte podem ser atribuídas a uma série de fatores intrínsecos à dinâmica dessas plataformas e seus algoritmos:
a perpetuação de ciclos de ruminação e reiteração da experiência dolorosa;
a amplificação de narrativas de injustiça ou desrespeito percebidos como ataques pessoais;
o estabelecimento de padrões compulsivos de interação e imersão prolongada no ambiente digital;
a transição qualitativa do ressentimento de um estado passivo para manifestações ativas, evidenciada pelo engajamento dos usuários através de likes, compartilhamentos e comentários.
Esse conjunto de características sugere que a arquitetura das redes sociais e seus algoritmos operam como mecanismos de reforço e amplificação do ressentimento, através da dialética de uma experiência individual interna versus manifestações coletivas de indignação. Tais dimensões, mais que complementares, se retroalimentam. O ressentimento individual encontra eco e validação nas expressões coletivas de indignação, enquanto as manifestações coletivas são alimentadas e intensificadas pela soma das experiências individuais. Esse ciclo recursivo3 cria um ambiente propício para a escalada do ressentimento, em que o pessoal e o coletivo se fundem e se potencializam mutuamente no espaço digital.
4. Caso Brexit: novo paradigma na utilização de mídias digitais
Dois grupos antagônicos emergiram na Grã-Bretanha, com visões de mundo e compreensões divergentes sobre o futuro do país em relação à União Europeia. De um lado, os partidários da permanência no bloco europeu (conhecidos como Remain), defendendo a manutenção dos laços e da integração estabelecidos; do outro, os defensores da saída (chamados de Leave), propondo o rompimento com uma trajetória que, aos seus olhos, ao diluir fronteiras físicas e comerciais, ameaçavam a identidade britânica.
O Primeiro-Ministro conservador James Cameron, embora contrário à saída, pressionado por membros de seu próprio partido, cedeu à demanda de convocar um plebiscito para definir o futuro da participação britânica no bloco. O resultado desse referendo (Lopes, 2021), em junho de 2016, polemizado dentro e fora das fronteiras britânicas, foi surpreendente: 51,89% dos eleitores votaram pela saída da União Europeia, contra 48,11% que desejavam a permanência. Ainda mais notável foi o índice de participação, com cerca de 72% da população apta a votar comparecendo às urnas.4
Tal resultado, que trouxe consigo graves consequências econômicas e sociais, levou a uma ampla produção literária e acadêmica buscando compreender as razões dessa virada a favor do Leave sobre o Remain. Diversos estudos têm se debruçado sobre a estratégia de campanha adotada pelos dois grupos, com especial atenção para a utilização das redes sociais, a produção deliberada de falsas notícias e radicalização como ferramentas políticas. Nesse caso, fatores como a disseminação de informações sem verificação sobre imigração e custos relativos à participação britânica no bloco, a exploração de medos e ansiedades com relação a cidadãos estrangeiros e a polarização político-ideológica estão na base dos estudos exploratórios. O referendo não apenas decidiu o futuro das relações entre o Reino Unido e a União Europeia, mas também sinalizou uma mudança de paradigma na forma como as sociedades democráticas decidem questões complexas de identidade nacional, soberania e pertencimento - estamos de fato falando sobre produção e reconfiguração de subjetividades.
Os dois grupos concentraram a maior parte de seus recursos em ambientes digitais, reduzindo o orçamento destinado às mídias tradicionais. No entanto, a campanha do Leave destacou-se por sua abordagem qualitativamente superior, demonstrando maior eficiência na modulação dos afetos do eleitorado. Liderada pelo estrategista britânico Dominic Cummings, contratou duas empresas de tecnologia de ponta para executar ações determinantes de planejamento e estratégia: a canadense AggregateIQ e a americana Cambridge Analytica. A expertise dessas equipes permitiu a estruturação de processo em quatro fases distintas:
Aquisição de dados quantitativos: Focou no Facebook, rede social utilizada por seis em cada dez britânicos.
Segmentação sofisticada da população: Foram utilizados modelos avançados de análise de dados. Cientistas da área de física quântica foram recrutados de seus laboratórios teóricos para aplicar técnicas de análise de dispersão de dados e estabelecer critérios de modulação de grupos alvo. Os físicos mostraram-se mais valiosos que os estatísticos.
Micromarketing direcionado: Mensagens personalizadas eram entregues a cada eleitor de acordo com seus interesses e padrões de engajamento específicos. Foram disparados mais de cinquenta milhões de publicações customizadas diretamente no feed das plataformas dos usuários.
Mobilização para o dia da votação: Houve um investimento significativo em estratégias para aumentar a participação efetiva nas urnas no dia do referendo, “parte considerável do orçamento de sete milhões de libras para gastar na última quinzena numa guerra relâmpago cibernética” (Lopes, 2021, p. 142).
A campanha do Remain adotou uma estratégia denominada Project Fear, focando em alertar sobre possíveis perdas econômicas e impactos negativos no poder aquisitivo das famílias britânicas, caso o Reino Unido deixasse a União Europeia. Essa abordagem, que mesclava argumentos econômicos racionais com apelos emocionais baseados no medo, acabou se mostrando falha. Ao priorizar aspectos econômicos e racionais em detrimento de questões identitárias, a campanha não conseguiu atingir uma parcela significativa da população que se sentia marginalizada e ameaçada pela imigração, que percebia que as leis elaboradas pela União Europeia supostamente se tornavam mais determinantes que as aprovadas no seu próprio parlamento, que recursos vultuosos estariam sendo dispendidos com a burocracia de Bruxelas.
Em contraste, a campanha do Leave se demonstrou mais eficaz ao adotar uma abordagem que ressoava ressentimento, injustiça e perda de controle. O slogan Take Back Control evocava nostalgia por um passado glorioso do Império Britânico e apelava para o atual sentimento de impotência do cidadão comum frente às decisões políticas. Essa narrativa atribuía as dificuldades econômicas e sociais à União Europeia, apresentando a saída do bloco como uma forma de recuperar a soberania e corrigir injustiças contra o cidadão britânico.
O sucesso da campanha do Leave pode ser entendido à luz da observação de Da Empoli (2019): “sob a superfície da Web, agitam-se correntes invisíveis, mas muito poderosas, alimentadas pela frustração de milhões de indivíduos que se sentem à margem da sociedade e pela cólera inata e surda” (p. 104). Essa perspectiva destaca como a campanha do Leave conseguiu operar eficazmente sobre o sentimento de frustração e a marginalização presentes na sociedade britânica, fazer ressoar o ressentimento que lá estava atuando, embora nem sempre percebido e oferecendo uma narrativa mais atraente e emocionalmente envolvente do que a abordagem racional adotada pela campanha do Remain.
Assim, entendemos que o caso Brexit pode ser tomado como paradigma de novos tempos da política com a instrumentação e modulação do ressentimento para fins eleitorais, obedecendo, como demonstrando acima, a uma engenharia complexa na construção de modelos de abordagens que, via redes sociais, têm direcionado o eleitorado para posturas populistas com forte impacto na vida social e econômica das populações.
5. Desdobramentos clínicos para uma contemporaneidade ressentida
No contexto da metapsicologia freudiana, o ódio assume uma posição fundamental na constituição do psiquismo humano, transcendendo a noção de mera reação à agressão ou à situação adversa. Freud, ao elaborar o conceito de pulsão de morte, posiciona o ódio como uma força primordial e originária da psique. Essa visão sugere que, ontologicamente, ele precede o amor: “No princípio era o ódio”.
O ódio primordial é posteriormente transformado pela ação de Eros, pulsão de vida, que busca incessantemente domesticá-lo e integrá-lo às dinâmicas mais complexas do aparelho psíquico. Assim, o amor emerge como uma força a posteriori, mas não menos importante, que tenta colonizar e ressignificar o ódio original. Tal concepção teórica implica que, se o ódio é um componente intrínseco e universal do psiquismo humano, presente em todos os indivíduos em diferentes graus e manifestações, também a força agregadora de Eros é parte de nossa natureza e possibilidade de existência. Distanciamo-nos, assim, de uma posição determinista diante do ressentimento: há, pela ação de Eros, possibilidades clínicas de enfrentar o desafio de desarmar o amargor e a vitimização.
Até este ponto, este estudo buscou explorar as trajetórias pelas quais o ódio se transmuta em ressentimento, analisando os mecanismos psíquicos e sociais que favorecem essa transformação. No entanto, é importante expandir a compreensão. Uma abordagem simplista poderia contradizer o dualismo que Freud defendeu ao longo de sua obra. Reconhecemos a complexidade inerente à psique humana, onde o ódio e o amor, a destruição e a criação, coexistem em equilíbrio dinâmico.
Hoggett (2018) nos lembra que não é fácil, no cotidiano da clínica, lidar com o sentimento ressentido e buscar sua reconfiguração. O chamado para a mudança, na figura do psicoterapeuta, pode ser vetado de forma implacável:
. . . parte do paciente, às vezes a mais forte, prefere habitar essa infelicidade e continuar a desfrutar das consolações da vitimização. Fiquei impressionado com a quantidade de meus pacientes que parecem incapazes de desistir de seu sofrimento, mas se apegam a ele, repetindo infinitamente os pensamentos (p. 397).
É importante, portanto, que nos voltemos para as potencialidades do campo transferencial no manejo clínico do ódio e do ressentimento. A transferência, conceito caro à psicanálise, oferece um terreno onde é possível a elaboração e a ressignificação dessa dinâmica. O campo transferencial refere-se
. . . ao transporte realizado pelas representações, isto é, o fato da estrutura de linguagem dos processos psíquicos, normais ou patológicos, operar com deslocamentos de sentido e afeto. Esta condição de transporte está implicada na acepção da transferência como relação ao outro. As cadeias simbólicas formadas pelos deslocamentos não são as mesmas para dois sujeitos... As identificações de reciprocidade e semelhança, tão necessárias às funções sociais, encobrem a disparidade existente no registro simbólico inconsciente (Meirelles, 2012, p. 124).
É privilegiadamente no campo transferencial que alguma transformação pode ocorrer: o ressentimento não irá apaziguar fazendo apelos à razão. Ao examinar como o ódio e o ressentimento se manifestam na relação terapêutica, podemos vislumbrar três estratégias de manejo para seu enfrentamento que apresentamos a seguir:
Em primeiro lugar, há que cuidar da violência da linguagem. O sujeito do ressentimento é aquele que perdeu as amarras no distrato e na ofensa que direciona ao outro. É necessária a recuperação de afeto ou respeito ao se dirigir à terceira pessoa. Hoggett (2018) nos alerta que os analisandos praticam, muitas vezes, o que chama de “estado de reclamação” e descreve a comunicação no interior do setting analítico como algo manifesto tanto no tom da voz quanto no conteúdo da conversa. No âmbito do campo transferencial, trata-se de refletir sobre o tom do analista durante as devoluções ou interpretações. O desafio reside em evitar a construção de uma sobrerreclamação, priorizando, ao invés disso, a criação de um ambiente de holding. Essa abordagem visa oferecer um espaço de contenção que permita ao analisando explorar e ressignificar suas experiências de ressentimento, evitando padrões de comunicação destrutivos. A atenção do analista à qualidade de sua própria expressão verbal e não verbal - postura do corpo, olhar - pode servir como um modelo implícito para o analisando, potencialmente catalisando uma transformação gradual na forma como se relaciona com seus afetos e os expressa.
Em segundo lugar, cabe identificar e questionar, no âmbito do campo transferencial, as teorias conspiracionistas e o caráter persecutório que as redes sociais frequentemente fomentam e amplificam. O analista deve estar particularmente atento aos movimentos de autocomiseração do analisando, manifestos pela certeza psíquica de ser vítima de uma injustiça e de uma ordem que o desacredita. Esse padrão de pensamento, muitas vezes reforçado por câmeras de eco digitais, pode se cristalizar em uma identidade baseada na vitimização. Há que identificar e desarmar uma axiologia invertida em que o fracasso e a frustração funcionam como indicadores de mérito e razão de gozo ou ganho secundário. O insucesso e o sofrimento dele decorrentes não podem ser tomados como indicadores de valor moral ou pessoal. O ressentimento, como observa Fleury (2023, p. 196, 197), inverte valores: caso alguém seja rico e saudável neste universo iníquo é porque é cúmplice, racionaliza o analisando. Essa lógica distorcida serve para justificar o próprio sofrimento e eximir-se da responsabilidade pela própria vida. O trabalho terapêutico, nesse contexto, envolve um lento e cuidadoso processo de desconstrução da pulsão que alimenta essas crenças.
Em terceiro lugar, há que trabalhar na perspectiva de recuperação do riso, do sadio humor, como instrumento potente de ressignificação e nova simbolização para cuidar do afeto ressentido. O humor, nesse contexto terapêutico, assume uma função vital de suspensão dos ataques dirigidos ao Eu. Como observa Fleury (2023),
. . . o Eu só pode resistir às suas pulsões mortíferas, à sua angústia do vazio e da morte, se for capaz de praticar uma espécie de suspensão desses assaltos, opondo a eles uma energia vital criadora e uma força de sublimação (p. 201).
Essa abordagem reconhece o poder transformador do riso como uma forma de resistência psíquica às forças destrutivas do ressentimento. Nessa perspectiva, rir abre um espaço psíquico necessário para que o Eu respire ou se recomponha, desestabilizando estruturas rígidas que se encontram calcificadas pelo ressentimento crônico. O riso e o humor constituem importante experiência estética, capaz de transcender as limitações do pensamento linear e lógico que frequentemente aprisiona o sujeito ressentido.
Essa abordagem pode alavancar uma lógica antirresentimento, permitindo que o analisando observe suas experiências de uma nova perspectiva, mais flexível e menos carregada de amargura. Destaca-se que o humor terapêutico visa não minimizar ou ridicularizar o sofrimento do analisando, e sim oferecer uma via alternativa de processamento emocional. Através do riso compartilhado, cria-se um espaço intermediário onde as experiências dolorosas podem ser tratadas sem peso esmagador.













