Introdução
A temática da dinâmica transferencial está presente nos escritos psicanalíticos desde os primórdios. Como um fenômeno que se manifesta desde os Estudos sobre a histeria (1893-1895/1996) com Breuer, sua formalização enquanto um conceito remete aos relatos do caso Dora, quando Freud (1905/1996) indica ter se deparado com a transferência, apontando-a como um mecanismo de defesa da paciente. No que diz respeito à contratransferência, este é um termo que raramente aparece na obra freudiana. Em seu texto Cinco lições de psicanálise (1910/1996), Freud afirma que o analista deve reconhecer e dominar a sua contratransferência. E em Observações sobre o amor transferencial,Freud (1915/1996) se refere ao termo como uma reação do analista diante da transferência do paciente, uma reação que se opõe ao desdobramento da transferência quando ela não é suficientemente elaborada pelo analista.
Ferenczi, por sua vez, é um psicanalista que fornece outro contorno para a dimensão contratransferencial na experiência analítica. Quando profere sua conferência sobre a Elasticidade da técnica psicanalítica (1927-1928), por exemplo, pondera sobre o tato psicológico como a faculdade de “sentir com” [Einfühlung], suscitando discussões sobre uma eventual metapsicologia dos processos psíquicos do analista durante a análise. O convite ferencziano ressoa no que Green (2002) chama de psicanálise contemporânea, na medida em que um de seus eixos consiste no aprofundamento de discussões sobre os processos psíquicos do analista no decorrer de uma análise. Nesse contexto, a contratransferência deixa de ser pensada como algo que precisa ser dominado ou mesmo como sinônimo de uma reação do analista. A dimensão contratransferencial aponta para a indissociabilidade entre analista e analisando e aponta para uma experiência analítica compartilhada entre ao menos dois.
É interessante destacar que, pensada por essa perspectiva, a experiência analítica desloca-se do discurso do analisando para envolver outras dimensões daquilo que se passa entre analista e analisando (Klein, 2023). Trata-se de um campo que transcende a linguagem verbal e se presentifica de forma muito mais ampla do que esta pode metaforizar ou simbolizar. Isso equivale a dizer que as realidades experienciadas no setting analítico abarcam processos ligados à dimensão sensória e afetiva que não podem ser encerrados pela linguagem propriamente dita.
Entre os autores contemporâneos que levaram às últimas consequências a problemática contratransferencial, temos em Ogden (1994) um importante pensador. Ao ampliar a compreensão sobre o conceito de identificação projetiva, Ogden (1986; 1994) propõe que devemos considerá-la como uma dimensão que abrange toda a intersubjetividade como uma qualidade da experiência.
Coelho Junior (2012) aponta que o ponto central da obra de Ogden é a sua detalhada reflexão sobre as formas de comunicação -tanto verbais, quanto não verbais - que integram a prática psicanalítica. Nesse sentido, vale destacar a proposição de Ogden (1989) acerca da posição autista-contígua, indicando-a como o modo primário, pré-simbólico e sensorial de atribuir sentido à experiência. Ogden sugere que na posição autista contígua a experiência da sensação, em especial na superfície da pele, é o principal meio para criação de sentido psíquico na experiência rudimentar do self.
Os conceitos de posição autista-contígua e de terceiro analítico presentes na obra de Ogden nos oferecem uma interessante perspectiva das diversas formas de comunicação (verbais e não verbais) que se estabelecem entre paciente e analista. Ora, a clínica com crianças, desde a experiência de Melanie Klein, deixa entrever a importância de processos que não se reduzem à linguagem, tal qual são delineados no próprio conceito de identificação projetiva. Winnicott, por sua vez, foi um psicanalista que destacou a importância da presença de um corpo vivo do analista para a criação de um espaço do brincar e da criatividade. Como, então, conceber a dimensão do corpo, do analista e do analisando, na clínica com crianças? Seria o conceito de terceiro analítico um operador interessante para pensar os processos contratransferências nesse contexto? Partindo desses questionamentos, o presente trabalho visa refletir sobre a clínica psicanalítica com crianças a partir do conceito de terceiro analítico, destacando sobretudo a dimensão da corporeidade, mais especificamente do que Coelho Junior (2010) denominou como “co-corporeidade”.
O corpo como setting
Utilizando-se dos conceitos de Melanie Klein (1946) sobre a identificação projetiva e de Winnicott (1968, 1971) sobre o espaço potencial, Ogden (1986, 1994) propõe que o processo analítico reflete a inter-relação da subjetividade do analista, do analisando e de um terceiro analítico. Concebido como um terceiro sujeito, o terceiro analítico é paradoxalmente criado pelo analista e pelo analisando e os cria em uma dialética sem síntese, compondo o campo de forças dos processos inconscientes. Para o autor, não se trata de conceber o analisando apenas como sujeito da investigação, ou o analista como um mero observador dos esforços do paciente. Ambos atuam no processo analítico e é dessa inter-relação entre as subjetividades que se produz o terceiro analítico.
Nesse contexto, para além de conteúdos ideacionais, Coelho Junior (2000, 2010) pondera que a psicanálise precisa cada vez mais tomar o corpo como setting, defendendo que precisamos pensar a noção de identificação projetiva não apenas como um ato ou mecanismo mental. É com o corpo que apreendemos afetos, somos penetrados por introjeções e realizamos projeções. A partir dessas considerações, o autor propõe que pensemos a situação analítica - e a postulação freudiana de uma comunicação entre inconscientes - não apenas como um campo intersubjetivo, mas também como um campo de intercorporeidade.
A noção de corporeidade, em articulação com o pensamento de Merleau-Ponty, é proposta por Coelho Junior (2010) como uma alternativa à clássica oposição corpo/mente, entendendo que a corporeidade é uma potência geradora de elementos psíquicos. A corporeidade, nos diz ele, é ao mesmo tempo interna e externa. É a presença irrecusável das pulsões e a abertura permanente para o mundo, para os outros. O autor entende que precisamos insistir nas concepções freudianas, recuperando o lugar da corporeidade, em especial na recuperação da relação entre a corporeidade e a constituição do eu, presentes na obra de Freud. Trata-se de dar relevo ao que Freud indicou como a formação do eu, ou seja, uma diferenciação com relação ao Id.
Argumentando que o ego em última análise deriva das sensações corporais, Freud nos diz que “O ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal; não é somente uma entidade de superfície, mas é ele próprio, a projeção de uma superfície” (1923/1996, p. 39-40). As proposições de Freud no referido texto amplificam a compreensão das determinações da corporeidade, abrindo as possibilidades para a apreensão da concomitância das dimensões interna e externa, ou seja, da simultaneidade entre as pulsões e a realidade, o outro. Esse momento inicial é também o momento em que se inicia um processo de criação de contornos do corpo em relação ao mundo externo, um processo que estabelece a experiência de um corpo próprio que, por sua vez, permanece em constante tensão com o mundo. Trata-se da dimensão da corporeidade, que em seus primórdios é marcada por elementos constitutivos que não são nem imagens nem representações, são marcas no corpo, cicatrizes dos processos identificató-rios primários. São memórias corporais.
Com base nesses pressupostos, Coelho Junior (2010) afirma que não é possível opor a dimensão intrapsíquica (pulsões, Id) da intersubjetiva (o ambiente, o outro). No âmbito da corporeidade há sempre uma simultaneidade dessas duas dimensões -seguindo as trilhas das considerações levantadas por Green (2002) no que concerne à psicanálise contemporânea. Coelho Junior defende que a corporeidade é um tecido simultaneamente material e energético, móvel e estável, marcado por interferências tanto internas (pulsionais) quanto externas (relações objetais).
Coelho Junior (2010) pondera que, se pensarmos a partir das considerações de Ogden sobre o terceiro analítico e sobre a posição autista-contígua, teremos a corporeidade do setting como uma possibilidade simultânea das percepções internas e externas de cada uma das corporeidades da situação analítica, em que a corporeidade do analista responde à corporeidade do analisando. A isso o autor denominou de co-corporeidade, designando um campo que abarca a dimensão sensorial da experiência analítica. Para o autor, ao pensarmos no campo analítico sob a ótica de uma co-corporeidade, não podemos expulsar a dimensão pulsional da corporeidade assim como não é possível negar sua dimensão relacional.
Em suma, ao propor a ideia de uma co-corporeidade, Coelho Junior (2010) destaca a existência de duas corporeidades em que os processos transferenciais e contratransferenciais são vividos e sentidos. Na tentativa de encontrar um vocábulo que simultaneamente reconheça as dimensões intrapsíquica e intersubjetiva, o autor revela que a ênfase deve se situar não no “entre” corporeidades, mas na ideia da copresença de duas corporeidades, que já trazem em si o eu e o outro, um certo nível de diferenciação e indiferenciação.
Nesse contexto, propor a ideia de que o corpo é o setting significa entender a situação analítica não somente como um campo intersubjetivo, mas também como um campo de intercorporeidade. Isso não significa tomar o corpo como objeto, tampouco significa retornar a psicanálise para a neurologia. Trata-se muito mais de ressaltar o lugar do corpo na análise e de pensar a prática analítica a partir de um setting móvel e sensível, poroso ao outro e ao mundo, pois é com o corpo, através de sua porosidade, que projetamos e introjetamos (Coelho Junior, 2000). Ora, se tomarmos como premissa que a aproximação entre o eu e o outro se dá, a priori, através da corporeidade, podemos considerar o corpo como setting a partir da concepção do sujeito não apenas marcado e constituído pelo psiquismo, mas de um sujeito que também é corpo.
Sensorialidade e corporeidade na clínica com crianças
O caminho percorrido até aqui tem como pano de fundo questões suscitadas pela experiência analítica com crianças. Muito embora as problemáticas atravessem diferentes contextos clínicos, nos parece ilustrativo apresentar brevemente alguns recortes do atendimento de uma criança com um histórico familiar marcado por significativas vivências de abandono.
Chamaremos o analisando de Davi, com 8 anos quando iniciou o processo analítico. Davi se machucava muito, ora porque caía em meio à agitação de suas brincadeiras, ora porque se coçava até que uma pequena ferida abrisse em sua pele. Os episódios de agressividade na escola foram uma das manifestações que o levaram até um psicanalista. Ele já havia passado por outras duas terapias, mas as atividades propostas nessas experiências foram sentidas por Davi como imposições. Como então conquistar a confiança de Davi? Como ajudá-lo a confiar nos vínculos afetivos e a dar continência aos transbordamen-tos expressos em seu corpo?
A agressividade de Davi era experimentada pela analista de forma intensa - eventualmente sentia em seu próprio corpo uma inquietude que parecia querer endereçar os transbordamentos que Davi ainda não conseguia abrandar por conta própria. Era um “furacãozinho”, que chegava e desorganizava todos os brinquedos simultaneamente, dando sinais de sua incipiente organização interna. Conquistar sua confiança passou inicialmente por proporcionar que ele vivenciasse a sensação de criar a dinâmica dos encontros - constituiu-se em uma aposta para talvez assim, além do caos transposto para o mundo externo, Davi pudesse experimentar a ilusão de criação do mundo com a analista. Aos poucos, a onipotência foi dando lugar a um mundo criado por ele e pela analista, uma construção mútua, uma cocriação.
Não à toa, Davi passou a gostar muito de brincar do jogo do rabisco, quando a analista efetuava um rabisco no papel e ele continuava o desenho a partir desse primeiro rabisco. Era muito curioso como, já a partir do primeiro rabisco da analista, Davi dizia: “Como você sabia o rabisco que eu precisava?”. E assim o jogo do rabisco ia ganhando corpo e resultava em um vasto número de personagens. Esses personagens, por sua vez, estrelavam longas histórias, tornando quase impossível desembaraçar o que eram verdadeiras reproduções dos vividos por Davi ou de quem tinha sido a ideia (dele ou da analista) nas narrativas que se estabeleciam. Pensamos que separar aquilo que é do analista e do analisando em uma sessão analítica é uma tarefa difícil e, talvez, sem sentido (Ogden, 2005). Se houve um autor para as narrativas criadas a partir dos jogos de rabisco com Davi, foi o terceiro analítico, que era tanto a analista, quanto ele próprio.
A forma como as sessões transcorriam dava sinais do quanto os transbordamentos de Davi encontravam no corpo uma importante via de expressão, fosse através da agitação em que ele chagava, fosse através de seus desenhos sempre corporificados. Em um dado momento, a analista lhe propõe uma nova brincadeira: iriam desenhar um contorno de seu corpo em papel pardo, em tamanho real, que depois seria preenchido por ambos. O desenrolar dessa sessão avançou por várias semanas. A analista e o analisando iam preenchendo o contorno do desenho do corpo de Davi de várias formas, através de pinturas ou de colagens de papel. A dinâmica que se estabeleceu foi bastante ilustrativa: Davi sempre pedia à analista para cobrir bem os contornos do desenho, dizia que a moldura reforçada pela analista era o escudo protetor do “Davizinho”. Ao longo dos dois anos em que esteve em análise, ele nunca aceitara montar quebra-cabeças. Mas, em sua última sessão, já com suas contenções e contornos corporais e egoicos mais estabelecidos, escolhe como brincadeira de despedida montar o maior quebra-cabeças disponível no consultório e diz: “acho que já estou pronto para montar um quebra-cabeças, já sei que é só começar pelo contorno”.
O extrato clínico que acabamos de apresentar ilustra que tomar o corpo como setting na clínica com crianças significa evidenciar as dimensões da sensorialidade e da corporeidade, em que a noção de terceiridade em Ogden pode ser apontada como um interessante caminho de reflexão acerca da co-corporeidade nesse tipo de clínica. Os estudos contemporâneos destacados por Ogden (1994) apontam que, desde os primeiros momentos da vida extrauterina, o bebê já está equipado para entrar numa espécie de comunicação recíproca com a mãe. Entretanto, para o autor, não é necessário entrarmos no debate se o bebê está--em-um [at one] com a mãe - ou seja, se está consciente da sua existência separada dela - ou se o bebê é capaz de reconhecer a diferença entre ele mesmo e o outro. Ele defende a ideia de que em vez de nos vermos forçados a decidir sobre uma hipótese ou outra, devemos considerar a experiência infantil como resultado de um processo dialético envolvendo múltiplas formas de consciência, que, apesar de terem um início cronológico, passam a coexistir umas com as outras.
Tal pressuposto faz Ogden (1994) propor a ideia de que, seja na relação mãe-bebê, seja na relação analista-analisando, não precisamos desembaraçar os elementos que constituem a relação. Em vez de determinar quais qualidades pertencem a cada um dos atores da relação - mãe-bebê e/ou analista-anali-sando -, devemos compreender a interdependência entre sujeito e objeto, numa tentativa de descrever o interjogo da subjetividade individual e da intersubjetividade.
Há que destacar a importância da obra de Winnicott sobre o pensamento de Ogden. Em suas leituras criativas de expoentes da psicanálise, Ogden (2012) fornece ênfase às ponderações winnicottianas acerca do “desenvolvimento emocional primitivo”. Para Ogden, o referido artigo (publicado por Winnicott em 1945) contém as sementes das principais contribuições que o autor detalha ao longo dos anos que se seguem. Em seu comentário sobre o texto, Ogden lista importantes considerações winnicottianas entre as quais nos interessam aqui, sobretudo, os pressupostos sobre a experiência de ilusão do bebê, que mais tarde Winnicott vai chamar de fenômenos transicionais (1959, 1971).
O objeto transicional, tal qual formulado por Winnicott (1959, 1971), não está sob controle mágico (como o objeto interno), tampouco está fora de controle (como a mãe real). A partir dessa perspectiva, Winnicott sugere que os fenômenos transicionais são os reflexos da base do simbolismo e se referem aos primeiros estágios do uso da ilusão, possíveis a partir de uma área intermediária concedida ao bebê, que se situa entre a criatividade primária e a percepção objetiva adquirida pelo teste de realidade.
Winnicott (1971) afirma que, através do brincar, o bebê pode ser criativo e pode encontrar o seu self. Para que isso aconteça, ele precisa vivenciar a experiência de ser visto, de se sentir existindo. Assim, ao traçar sua compreensão sobre o papel de espelho da mãe, o autor nos diz que “o precursor do espelho é o rosto da mãe” (p. 153). Em sua concepção, ao olhar a mãe, o bebê vê a si mesmo, como se o olhar da mãe indicasse o reconhecimento de sua subjetividade. É importante sinalizar que, em Winnicott, a função do espelhamento materno não se restringe apenas ao olhar. Apesar de outras possibilidades terem sido deixadas em aberto pelo autor, seria possível fazer uma articulação desse conceito com as noções de handling e holding, abrangendo todos os aspectos do tocar e do manusear na descrição dos cuidados maternos. Entretanto, esse manuseio não deve ser concebido apenas da perspectiva materna, e sim através de uma sintonia que pode ser considerada mútua, porém assimétrica (Klein, 2023).
A abordagem winnicottiana privilegia o aspecto sensorial, valorizando as impressões sensíveis e a corporeidade no processo do desenvolvimento emocional primitivo. A esse respeito, vale destacar o processo de elaboração imaginativa das funções do corpo como um potente elemento para a integração entre psique e soma. Da perspectiva de Winnicott (1988), a elaboração imaginativa das funções corporais é o processo psíquico originário que desencadeia todos os demais processos do desenvolvimento emocional primitivo. Conforme sintetizado por Mendes (2021), a elaboração imaginativa está no cerne da constituição da experiência de ser si-mesmo, enunciando o “eu sou”, pondo em cena a criatividade do bebê e dando sentido às sensações e aos movimentos corporais oriundos de seus contatos com um mundo intersubjetivo.
Nesse contexto, vale apontar o destaque que Roussillon (2011) dá às pesquisas recentes sobre o funcionamento da mãe como um espelho primário dos estados internos do bebê. Nos diz o autor:
. . . essa função “espelho” é necessária para que o bebê possa entrar em contato com seu próprio mundo afetivo, ou seja, seu próprio mundo representativo. O caminho de si para si mesmo não é imediato, antes de qualquer coisa, ele passa pelo outro e pelo reflexo de si no outro de quem ele depende intimamente para se constituir, o narcisismo primário não pode mais ser pensado sem o objeto (p. 159).
Podemos pensar na função especular como um importante pilar no atendimento de crianças, ousando sugerir que, para a construção de um setting passível de acolher o gesto espontâneo da criança, é necessário o olhar do analista, um olhar que sirva de espelho para o reconhecimento da criança e quiçá do próprio analista nesse processo, conforme desenvolveremos melhor com Ogden.
Segundo Winnicott (1963a), enquanto o objeto ainda é subjetivo para o lactente, é desnecessário que a comunicação com ele seja explícita. Mas quando o objeto é objetivamente percebido, o lactente desenvolve dois tipos de relacionamento ao mesmo tempo: a mãe como ambiente e a mãe que passa a se tornar objeto. A confiabilidade na mãe como ambiente a torna invisível como objeto por um tempo. É a partir da experiência de estar em um processo complexo no qual sua própria existência é correlata à da mãe suficientemente boa, que o bebê vai se tornar capaz de se apropriar de uma existência própria, construindo, então, o que Winnicott chamou de “continuidade do ser”. A experiência de “ser” torna possível o desenvolvimento da capacidade de “viver criativamente” e de “brincar”, aspectos fundamentais para a integração. Conforme aponta Zornig (2008), o autor enfatiza a corporeidade na clínica, onde o sensível e o vivido são as unidades de base.
Winnicott prioriza a qualidade das relações afetivas estabelecidas entre a criança e seu entorno, ressaltando que a dimensão pulsional da experiência só pode ser enriquecedora para o bebê se for vivenciada através do “filtro” do holding materno. Ou seja, não se trata de empobrecer a leitura da obra winnicottiana definindo-a como não pulsional, mas de acompanhar seu percurso de valorizar a qualidade, a intensidade e a dimensão de mutualidade da relação mãe/bebê como referência e base da estruturação do self da criança (pp. 331-332).
Se, por um lado, temos em Winnicott um importante autor para pensarmos acerca da corporeidade no desenvolvimento emocional primitivo, por outro lado, temos em Ogden uma potente referência para desenvolvermos essas questões em relação aos aspectos cocorporais da experiência analítica. Na proposição formulada por Ogden (1994), a noção de terceiridade articula aspectos que não são restritos ao simbolismo, comportando, sobretudo, dimensões ligadas à sensorialidade. Nesse contexto, consideramos que o conceito de terceiro analítico é particularmente interessante para refletirmos sobre a clínica com crianças. Se pensarmos no terceiro analítico como um caminho para compreendermos a comunicação em um nível prioritariamente pré-verbal, sensorial e afetivo, podemos considerar que tais premissas também são relevantes no que tange à experiência clínica com crianças, englobando tanto as experiências não articuladas do analisando, quanto os sonhos acordados do analista.
O brincar e a experiência cultural como aspectos do terceiro analítico
Em nossa perspectiva, o brincar na clínica com crianças é um dos aspectos do terceiro analítico, em que o papel da corporeidade se articula de forma a comportar todas as dimensões da experiência. Ao sustentar diferentes proposições teórico-clínicas, Ogden (1997) sugere que o senso de vitalidade e desvitalização da experiência humana numa sessão analítica representa um importante desafio para a psicanálise. Na perspectiva do autor, o grau de sucesso que determina se a análise está viva - de forma a viabilizar que o paciente possa vivenciar aspectos não vivenciados de sua experiência - está diretamente ligado à ideia de que o analista precisa (re)criar a psicanálise para cada paciente. Consideramos que isso, sem dúvida, também se aplica ao brincar na clínica com crianças. Nesse contexto, a vivacidade do setting implica oferecer condições favoráveis para o desenvolvimento (ou a retomada) da constituição subjetiva do paciente, na qual o terceiro analítico evidencia a interação inconsciente das subjetividades do analista e da criança através das brincadeiras praticadas no setting.
Conforme sinalizado na seção anterior, para Winnicott (1971, 1988), os fenômenos transicionais se articulam aos estágios iniciais do uso da ilusão, evidenciando as raízes da criatividade. Num primeiro momento, o bebê experimenta a sensação de criação do seio e, a partir dessas experiências de ilusão (de criar o seio e obter tudo o que necessita), ele passa a ficar equipado para acessar a área intermediária localizada entre a criatividade primária e a percepção oriunda do teste de realidade. Isto porque - uma vez que o ambiente se apresenta como suficientemente bom - a capacidade demonstrada pela mãe em oferecer uma resposta ao gesto espontâneo da onipotência do bebê vai possibilitar que ele seja gradativamente capaz de experimentar a frustração. Logo, a desilusão só é alcançada se o bebê tiver vivenciado anteriormente a ilusão de ter criado o mundo. Nessa conjuntura, para auxiliá-lo na passagem da ilusão para a desilusão (em outras palavras, na transição de experienciar a mãe como um objeto a ser percebido, em vez de ser concebido) o bebê faz uso de um objeto transicional, que traz em si uma compreensão tácita de ser tanto uma parte do mundo como algo criado por ele. Na concepção winnicottiana, o objeto transicional é, portanto, o primeiro uso que a criança faz de um símbolo e a primeira experiência de brincar.
Ao nos dizer que o brinquedo e o brincar, bem como os fenômenos transicionais, formam a base para a experiência cultural, Winnicott (1971) afirma que somente no brincar o indivíduo pode ser criativo para, então, encontrar o seu self. Para o autor, o brincar está localizado entre a realidade interna e a realidade externa, tal qual outros fenômenos transicionais. Assim, partindo da hipótese de que a experiência cultural é uma continuidade direta do brincar, Winnicott a localiza no espaço potencial entre o indivíduo e o seu ambiente - ou seja, entre a realidade interna e a realidade externa. A capacidade de usar o espaço potencial representa algo definitivo no desenvolvimento humano e está relacionada à habilidade de viver com criatividade e sentir-se real. E para que isso ocorra, o ambiente precisa acolher o gesto espontâneo da criança, precisa ser suficientemente bom.
Roussillon (2015) aponta que o conceito de ambiente suficientemente bom está articulado a duas faces que considera indissociáveis na função simbolizante do objeto: objetos “a simbolizar” - em sua diferença e sua falta - e objetos “para simbolizar”. Se, por um lado, a articulação dos objetos “a simbolizar” se relaciona ao que Winnicott denominou de relação de objeto, por outro, os objetos “para simbolizar” estariam ligados ao uso do objeto. Então, se estabelece uma dialética entre o que a criança pode continuar a extrair diretamente na relação com o objeto e o que ela vai ter que obter com a ajuda da simbolização.
Considerando a função simbolizante do analista, pensamos que vale fazer uma referência à proposição winnicottiana acerca da mãe-ambiente e da mãe-objeto. Enquanto a mãe-ambiente recebe toda a carga pulsional do bebê, a mãe-objeto pode ser amada como uma pessoa a quem se pode fazer reparações. Em circunstâncias favoráveis, a mãe, por se manter continuamente vivaz e disponível, é tanto a mãe-ambiente quanto a mãe-objeto (Winnicott, 1963b). No contexto clínico, consideramos que muitas vezes o analista precisa se disponibilizar a ocupar transferencialmente o lugar de analista-ambiente, para então se tornar analista-objeto. Ampliando tal analogia para o brincar com as crianças no enquadre analítico, pensamos que tal proposição se torna possível a partir de um setting suficientemente bom, no qual a confiança da criança no analista se dá quando o analista permite a ilusão de sua onipotência, propiciando que ela a princípio conduza as brincadeiras a seu jeito.
Considerações finais
Ao longo deste estudo, partimos dos questionamentos sobre o lugar do corpo e da contratransferência no atendimento psicanalítico de crianças, de forma a pensarmos esse tipo de clínica sob a ótica do conceito de terceiro analítico. Nesse contexto, apresentamos um extrato clínico que simultaneamente constitui um aspecto que provocou e ilustra o nosso pensamento. Essa experiência analítica ressoa nas proposições winnicottianas acerca do desenvolvimento emocional primitivo, elencando a potencialidade de um ambiente suficientemente bom como uma via de acesso à experiência cultural.
Na esteira da abordagem winnicottiana acerca do ambiente suficientemente bom, pensamos que um setting suficientemente bom se dá quando o analista permite a ilusão da onipotência da criança. Em nossa perspectiva, esses fatores, aliados à capacidade de devaneio do analista, constituem as bases para o estabelecimento do terceiro analítico na clínica com crianças. Um terceiro sujeito que se apresenta a partir da co-corporeidade do analista e da criança e só se estabelece se a experiência de ilusão for vivenciada pelo enfant, através do acolhimento do seu gesto espontâneo e da possibilidade de vivenciar o setting como um lugar que lhe proporcione a experiência de continuidade.
A esse respeito, pensamos na função especular como um potente elemento para o atendimento de crianças, considerando que, na construção de um setting passível de acolher o gesto espontâneo da criança, é necessário um olhar do analista que sirva de espelho, comportando uma extensa gama de aspectos que se articulam à dimensão sensorial . É com o corpo, poroso ao outro e ao mundo, que somos penetrados por intro-jeções e realizamos projeções. Assim, podemos considerar que o corpo é setting a partir da concepção do sujeito não apenas marcado e constituído pelo psiquismo, mas de um sujeito que também é corpo. Pensando acerca das articulações de Ogden sobre o terceiro analítico e sobre a posição autista--contígua, consideramos a corporeidade do setting como uma possibilidade simultânea de percepções internas e externas de cada uma das corporeidades da situação analítica, ou seja, da co-corporeidade da dinâmica analítica.
Para finalizar, vale destacar as considerações de Ogden (1986) sobre o espaço onírico e o espaço analítico, como duas formas de espaço potencial. Para ele, uma apresentação onírica é gerada por um aspecto do self (inconsciente: o sonhador-que-sonha-o-sonho) e compreendida por outro aspecto do self (consciente: o sonhador-que-entende-o--sonho). Nesse processo dialético do sonhar, o sonhador-que-sonha-o-sonho cria a representação (apresentação onírica) no processo primário; e o sonhador-que-entende-o-sonho é o intérprete, criador de significados simbólicos. Produz-se, então, a experiência do sonho, na qual os símbolos podem ser compreendidos por um self que interpreta.
No que tange ao espaço analítico da clínica com crianças, sugerimos que o processo dialético do brincar ocorre quando o analista tem a possibilidade de se colocar como o ego auxiliar da criança. Parafraseando Ogden, pensamos que a expressão do terceiro analítico na clínica com crianças demanda que o analista funcione como o brincante-que-entende-a-brincadeira, de forma a acolher em si os significados simbólicos ainda não acessíveis à criança-que-brinca-a-brincadeira.
Assim, tal qual Ogden (2005) propõe que o analista deve possuir a capacidade de devaneio em sua proposta de ajudar o paciente a sonhar seus sonhos não sonhados ou interrompidos (ou seja, suas experiências emocionais não sonháveis), pensamos que o mesmo precisa ocorrer na clínica com crianças: o analista precisa manter acesa a sua capacidade de devanear, de forma a ajudar os pequenos pacientes a brincar suas brincadeiras ainda não brincadas ou interrompidas. Essa talvez seja uma premissa para que a cooperação inconsciente (Winnicott, 1962) ocorra na clínica com crianças, na qual o corpo pode - e deve - ser considerado como setting, evidenciando a possibilidade do analista de oferecer seu corpo para o outro, dispondo-se ao contato e à co-corporeidade do encontro analítico. Quem sabe, assim como com Davi, possamos continuar montando juntos as peças de um quebra-cabeça que comporta necessariamente os nossos corpos.













