Introdução
Percebendo tantas modificações proporcionadas não apenas pela pandemia de covid-19, mas principalmente por um movimento socioemocional que supervaloriza a produtividade profissional e o rendimento físico (excesso de atividades físicas em prol de performance), este trabalho apresenta algumas das diversas problemáticas referentes à utilização de medicações, em específico, os psicofármacos.
As reflexões aqui realizadas são relativas à observação de uma profissional psicóloga e psicanalista que, desde 2014, atende as mais diversas demandas em seu consultório particular. Acredita-se que, além da observação da evolução teórica e prática da autora, este trabalho fomenta a necessidade de os profissionais da saúde mental estarem atentos às mudanças histórico-so-ciais e demais interferências que venham a acometer a saúde de seus pacientes e da sociedade de forma geral. Ressalta-se que este artigo consiste no relato de experiência baseado em nossas vivências singulares, considerando-se apenas informações de ordem objetiva sem que haja nenhum tipo de compartilhamento de dados que possam
pôr em questão a ordem de sigilo praticada na profissão.
Momento histórico e teorias
O desenvolvimento tecnológico, o acesso à informação física e digital, o processo de comunicação e o crescimento de tantas áreas permitiram que, independentemente do recorte cultural, houvesse um significativo avanço global nas mais diversas áreas entre os séculos XIX, XX e XXI. Todo esse ganho gera repercussões, o que leva a observar e refletir o quanto tantos estímulos, mudanças, evoluções e involuções podem impactar na saúde mental da população, especialmente, daqueles que buscam autoconhecimento e acolhimento através da psicoterapia psicanalítica.
A prática do profissional psi (psicanalista, psicólogo e psiquiatra) tem sido cada dia mais desafiadora, já que se percebe um aumento significativo de demanda de escuta e acolhimento, associado, muitas vezes, a uma intensa carga sintomatológica. Podemos pensar, então, a importância desses sintomas como ferramenta para a compreensão dos conflitos do sujeito relembrando o que disse Freud (1917/2014) em O sentido dos sintomas: “os sintomas neuróticos têm seu sentido, tal como os atos falhos e os sonhos, e, como estes, guardam também a relação com a vida das pessoas que os exibem” (p. 344).
Porém, é valido questionar a linha tênue que separa a importância do sofrimento enquanto ferramenta para o desenvolvimento do paciente como fator limitador de sua funcionalidade. Nesse sentido, Pimentel (2008) compartilha a seguinte preocupação: “Ninguém, nos dias atuais, pode chorar, fazer luto, ficar triste, sofrer por amor ou desamor. Todo o mal-estar e angústias próprias do desamparo estrutural são tratados à base de pílulas” (p. 13). Outra excelente reflexão sobre farmacologia, desta feita promovida por Roudinesco (2000): “Receitados tanto por clínicos gerais como pelos especialistas em psicopatologia, os psicotrópicos têm o efeito de normalizar comportamentos e eliminar os sintomas mais dolorosos do sofrimento psíquico, sem lhes buscar significação” (p. 21).
Sendo assim, questionamos: como proceder frente a tantas informações, questionamentos e até protocolos formais impressos por conselhos de classe?
No ensaio Psicanálise e psiquiatria,Freud (1917/2014) pensa na amplitude de um tratamento através da psicanálise, pois enquanto o médico (psiquiatra) estaria mais voltado e até limitado ao diagnóstico, medicalização e “cura”, o psicanalista estaria atento a aspectos mais profundos do inconsciente. O texto propõe uma reflexão sobre a importância da psicanálise e da escuta clínica para adicionar o “fundamento psicológico faltante” para a compreensão da relação entre o físico e o psíquico. Analisando, então, o contexto atual, é possível pensar na medicação e na medicalização como características presentes no sofrimento global, levando em conta a dificuldade da população em compreender e pensar suas emoções, tendo nesse recurso um respiro para que seja possível mergulhar em aspectos mais complexos e significativos, lugares em que se escondem atrás da dor.
Retomando as produções de Freud (1917/2014), merece destaque um trecho do texto Os caminhos da formação dos sintomas:
Os sintomas - e referimo-nos aqui, naturalmente, aos sintomas psíquicos (ou psicogênicos) e à doença psíquica - são atos prejudiciais à vida como um todo, ou pelo menos inúteis, dos quais frequentemente a pessoa se queixa como algo indesejado que traz sofrimento ou desprazer (pp. 475-476).
Freud ainda destaca em sequência os “custos de energia” necessários para combater esse mal que atinge o sujeito, algo que, na nossa opinião, é sem sombra de dúvida uma grande preocupação no tratamento psicanalítico. Pensando sob essa perspectiva, atualmente, o encaminhamento do paciente em fase aguda de sofrimento se torna inevitável. Como trabalhar psicanaliticamente com um paciente que está imerso nas queixas referentes à sintomatologia e, por isso, apresenta dificuldade em mergulhar nas questões psíquicas inconscientes que precisam ser desvendadas?
Frente a tantas mudanças percebidas pela pandemia de covid-19 e suas consequências, adotamos o seguinte procedimento: continuar realizando o acolhimento das manifestações emocionais e sintomáticas relatadas pelos pacientes, sempre que percebida a interferência dos sintomas na sua evolução, indicar que busque um suporte médico com o intuito de ajustar as queixas físicas e permitir que o indivíduo retome o processo de aprofundamento interno e análise pessoal. Apesar do aumento significativo do número de pacientes sob o uso de medicações, foi observado que eles apresentaram diminuição de sintomatologia, o que lhes permitiu a possibilidade de trabalhar adequadamente as demandas emocionais internas e inconscientes. Vale destacar o seguinte trecho trazido por Pimentel e Resende (2022), no texto Psicofarmacoterapia e equipe multidisciplinar:
A medicação psiquiátrica possibilitou ao paciente uma diminuição de seus sintomas e sofrimento e ofereceu o reconhecimento do enfermo como um sujeito que necessita de cuidados em lugar da censura, do preconceito e do estigma a eles reservados (Rodrigues, 2003; Pimentel, 2008; Roudinesco, 2013).
A atual proposta é que haja, dentro das limitações de cada área, um respeito e diálogo permanente entre a psicanálise e a psiquiatria. Essa união promove maior adesão por parte do paciente, que responde positivamente a ambos os tratamentos (Pimentel, 2008).
Destaca-se, então, a importância da escuta psicanalítica e do acolhimento do paciente para a percepção do seu estado geral de saúde, levando em conta as interferências que os sintomas físicos podem gerar nas demandas psíquicas. Havendo impacto na funcionalidade do sujeito e interferência na evolução psicoterápica, é importante encaminhar o paciente para avaliação médico-psiquiátrica com o objetivo de aliviar os sintomas manifestados e permitir que retome o processo analítico.
Perfil e análise
Levando em consideração os aspectos abordados anteriormente, é possível nos concentrarmos no que diz respeito aos dados materiais observados em janeiro de 2023, que tiveram por objetivo refletir sobre a singularidade dos pacientes, destacando seu perfil neste recorte e pensando sobre a presença e a interferência do uso de medicações psicotrópicas sob a ótica da clínica psicanalítica. É importante ressaltar que os dados analisados são de ordem objetiva e revelam apenas a realidade por nós vivenciada sem comprometer a ordem de sigilo que deve ser praticada profissionalmente.
A fim de possibilitar o entendimento e a análise, foram disponibilizados gráficos que permitem a visualização daquilo que está sendo explicitado.
A FIG. 1 mostra a predominância de pacientes do gênero feminino, que compõem o percentual de 64% do público presente no recorte realizado.
Em termos de modalidades de atendimento, após a pandemia de covid-19, a busca pela forma online cresceu significativamente, refletindo mudanças que podem ser percebidas até hoje. No momento da coleta dos dados, havia praticamente um equilíbrio entre as formas,, gerando números de 58% de atendimentos em formato presencial e 42% em formato online (FIG. 2).
Quanto à faixa etária, apesar de certa diversidade, há uma concentração de 41% de pacientes entre 25 e 34 anos (FIG. 3).
Acerca da profissão e atuação profissional, a FIG. 4 mostra a predominância de 41,93% dos pacientes que atuam como servidores públicos e, em sua maioria, estão centrados nas áreas da educação e saúde. É possível ver os seguintes dados: (1) 22,58% são estudantes, 85% estão implicados na área da saúde; (2) 29,04% são profissionais liberais e, entre eles, 37,5% são da área da saúde e 12,5% da área da educação; (3) 41,93% atuam como servidores públicos - 7,14% na área da saúde e 71% da área da educação.
A FIG. 5, destaca os dados observados com relação ao uso de psicofármacos, foco deste trabalho. Observam-se números significativos, ou seja, 52% dos pacientes fazem uso de psicofármacos e 20% já o fizeram em algum momento anterior. Apenas 28% dos pacientes atendidos até esta data nunca haviam feito uso dessas medicações, apesar de alguns já terem sido encaminhados ou, por iniciativa própria, terem pensado em buscar um profissional médico que avaliasse a necessidade.
Como complemento, adicionamos a FIG. 6, que mostra a evolução do uso e (ab)uso de psicotrópicos entre jan. 2020 e out. 2022. Pode-se perceber os índices de uso dessas medicações antes da pandemia de covid-19 e atualmente. Vale destacar que em jan. 2020 apenas 34% dos pacientes faziam uso de psicotrópicos, mas atualmente este número representa 54%.
Os dados apresentados podem levar a incontáveis questionamentos e hipóteses sobre os motivos sociais, econômicos e culturais que levaram aos números coletados. Porém, neste momento, a intenção é nos voltarmos para as questões relativas ao uso e abuso da psicofarmacoterapia. Assim, peço licença a você, leitor, para, a partir deste momento, me colocar diretamente, como uma forma de apresentar minha própria visão e poder, então, conversar sobre tantas questões.
A análise desses dados, de certa forma, foi simples de ser realizada. Consegui apresentar números diretos e, de certa forma, frios, sobre a minha vivência em consultório. Apesar disso, não consigo olhar para os gráficos sem escutar as vozes desses que aqui estão descritos em números. Independentemente de sexo, faixa etária e profissão, são pessoas como eu e você. Sujeitos que sofrem da falta ou do excesso de afetos e que trazem para o seu corpo todos os sinais de suas manifestações inconscientes. Para mim, no atual cenário, o uso dos psicofármacos trouxe ao consultório o retorno do nosso principal material de trabalho: a palavra do inconsciente. Ouvi, por muito, queixas, dores, situações concretas e rasas, fruto do excesso da dor que não permitia que o meu paciente se percebesse, pois sua dor era tão grande que apenas ela existia, inclusive, anulava a vida daquele que estava ali na minha frente. Sim, o abuso de medicações é e deve ser uma grande preocupação e, mesmo não acreditando que a medicalização seja o melhor ou o único caminho, entendo a importância dessa ferramenta, pois, através dela, boa parte dos meus pacientes se voltaram para si, ouvindo-se e permitindo a evolução do processo de análise. Claro que houve aqueles que se utilizaram do psicofármaco, em especial dos benzodiazepínicos, como forma de fuga, e a evasão foi inevitável, pois não tinham como objetivo olhar e “curar” as dores do seu inconsciente. Porém, entendo o quanto todos esses processos de reinvenção e aceitação da terapia medicamentosa foram importantes para o meu processo enquanto analista e para o desenvolvimento da análise dos pacientes que estão sob o meu olhar.
Considerações finais
Este trabalho teve por objetivo trazer à sociedade o relato da vivência de uma profissional psicóloga e psicanalista que percebeu uma problemática muito importante em sua prática: a importância da medicalização. São diversas as questões que interferem na manutenção da saúde mental do sujeito/ paciente e não há como separar a interferência da dinâmica sociocultural em algumas das manifestações físicas e/ou emocionais relatadas nos consultórios psi (psicanálise, psicologia e psiquiatria).
Encontramos nas ferramentas medicamentosas, um suporte para que o sujeito/ paciente consiga apresentar melhora e, assim, trabalhar suas questões de modo que o sofrimento seja adequado - nem insuportável, impedindo que o paciente não enxergue nada além da sua dor, nem ausente, a ponto de limitar ou até dopar o paciente.
Sendo assim, finalizamos o presente trabalho afirmando a importância da prática multi e interdisciplinar de maneira equilibrada para que o sujeito seja cuidado, mas permaneça autônomo para se desenvolver e lidar com as próprias demandas.



















