Introdução: o ser, a criança e sua entrada no mundo
“Viver é um incômodo”, enuncia Clarice Lispector na última frase da epígrafe deste artigo. O trecho retirado do seu livro Água viva, publicado originalmente em 1973, aqui me serve como ponto de partida para pensar como, baseado numa leitura psicanalítica, a criança enfrenta a sua entrada no mundo e o seu existir diante dos atravessamentos afetivos e culturais que a vida lhe impõe como processos de adaptação e desenvolvimento. A escritora provoca ao dizer que “viver é desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não para”, revelando que há, desde primórdios da existência, uma relação entre corpo e a psique - relação essa que, apesar de ser descrita como experiência de uma pessoa adulta (a escritora), é sem dúvida inerente a toda a vida do ser humano (queira ou não).
Somos forçados a experenciar o desconforto e a angústia do nascer, do crescer e do padecer, considerando que, desde o nascimento, para se constituir, o ser humano passa por afetações múltiplas, experiências traumáticas e amorosas que tanto integram quanto fragmentam. Trata-se de experiências que são da ordem do suportável ou das que são intoleráveis e de difícil aceitação.
Freud (1917/2021, p. 524) apontava que, desde o ato do nascimento, “um agrupamento de sensações de desprazer, impulsos de descarga e sensações corporais” invadiria o ser vivente. E assim, o pequeno indivíduo seria tomado por inúmeras afecções da ordem do psicossomático, pois tanto o corpo quanto a psique, ainda que primitivos ou arcaicos, sofreriam os primeiros sentimentos de medo, frio, contrações e insegurança. Freud (1917/2021), acrescenta que, “desde então, repetimos sob forma de estado de angústia” (p. 524) essas primeiras afecções e sensações experenciadas pelo bebê ao nascer e em seus primeiros momentos fora da proteção do ventre materno.
Na linha de Freud, Sándor Ferenczi (1913/1921) traz, no texto O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios, uma contribuição fecunda a respeito do processo de desenvolvimento da criança em contato com a realidade. Ferenczi argumenta que a criança, já ao nascer, apresenta um processo alucinatório e agressivo para situações desejantes - negligenciando ou recalcando - a realidade que é da ordem do insatisfatório. Ferenczi (1913/2021) argumentava que, para o recém-nascido ou o bebê, o mundo externo era praticamente inexistente e seria a partir dessa sensação que se instalaria a origem do sentimento de onipotência:
No começo do desenvolvimento, a criança recém-nascida tenta chegar ao estado de satisfação somente através da violência do desejo (representação), negligenciando (recalcando) simplesmente a realidade insatisfatória para supor presente a satisfação desejada, mas ausente; pretende, pois, cobrir todas as suas necessidades sem esforço, mediante alucinações positivas e negativas. . . . Para o ser nascente mal existe “um mundo externo”; todos os seus desejos de proteção, de calor de alimento estão assegurados pela mãe. Ele não precisa sequer fazer nenhum esforço para apoderar-se dos nutrientes e do oxigênio. . . . ele deve ter, pela própria circunstância de existir, a impressão de que é realmente onipotência (pp. 45-48, grifo nosso).
Assim sendo, a experiência do nascimento e o conjunto de afetos que essa experiência produz como a primeira experiência traumática sentida pelo ser humano serão repetidos, sentidos e reencenados ao longo da vida de cada um de nós, conforme argumentado por Freud e corroborado, em alguma medida, por Ferenczi na citação acima. Neste percurso, porém, esses afetos tomarão outros significados, sentidos e contornos emocionais a partir do contato com o ambiente familiar, social e cultural no qual cada sujeito estará inserido. É a partir da entrada no mundo do “outro” ou dos “outros” que o novo ser desenvolverá suas aptidões e condições de existência psíquica e corporal. Portanto, somos, inevitavelmente, seres sociais. E o social (cultural-moral) atravessa e constitui o ser psicologicamente. No entanto, como se verá mais adiante, há uma diferença conceptual em relação à traumatogênise em Freud e Ferenczi. Este último toma como ponto inicial do trauma infantil não necessariamente o nascimento, mas a relação intersubjetiva, ou seja, a entrada da criança na cultura (Kupermann, 2022).
Feita a advertência e voltando à questão do indivíduo como um ser social, em um texto sobre a doença nervosa na sociedade do final do século XIX e início do século XX, Freud (1908/2021a) identifica a repressão sexual e os valores da cultura burguesa como móveis mobilizadores e causadores das doenças nervosas:
De modo bem geral, nossa cultura é construída sobre a repressão de pulsões. Cada indivíduo cedeu uma parte de seu patrimônio, de seu poderio absoluto, das inclinações agressivas ou vingativas de sua personalidade; dessas contribuições nasceu o patrimônio cultural comum de bens materiais e ideias. Além da necessidade vital, foram certamente os sentimentos familiares derivados do erotismo que levaram cada um dos indivíduos a essa renúncia (p. 386).
Nesse texto, Freud estabelece uma relação entre as forças instituais, ou melhor, pulsionais, com os fenômenos externos ao sujeito, o mundo ao seu redor (família, leis, sociedade, religião etc.). Busco também, neste ensaio, trazer, ainda que incipientemente do ponto de vista contextual, teórico e analítico, algumas contribuições ao debate sobre a psicanálise de criança, tendo em perspectiva a pertinência da cultura, em especial a moral familiar no processo de integração do eu-criança e suas eventualidades. Para tanto, em linhas gerais, parto de duas indagações: se a criança tem como exigência incomensurável a adaptação à vida familiar e ao ambiente cultural desde a sua tenra idade, quais os custos emocionais e afetivos para formação da subjetividade e da personalidade do indivíduo em decorrência do processo de entrada no mundo? Qual o papel e a responsabilidade que têm aqueles que antecedem e desejam a chegada de um outro ser? Para tais questões, este ensaio se ancora no artigo de Sándor Ferenczi (1927/2021)Adaptação da família à criança, no qual o psicanalista húngaro traz uma importante reflexão para o entendimento do mundo da criança a partir da perspectiva dela própria e trata da questão da adaptação, que partiria, segundo o autor, do adulto à criança, e não no sentido contrário.
Vale ressaltar que aqui será trabalhada a concepção de “adaptação” proposta por Ferenczi, considerando-se que, para o autor, o adaptar designa um processo de compreensão do mundo da criança pelos adultos, que estão atrelados e atravessados pelos ditames culturais (Ferenczi, 1927/2021). Ademais, a fim de dar corpo teórico analítico e contextual a este ensaio, trago como enredo as observações descritas em dois casos clássicos da literatura psicanalítica: o caso “Pequeno Hans” (1909), de Sigmund Freud; e o caso “Dick” (1930), retratado por Melanie Klein. Os dois, apesar das duas décadas que os separam, são casos que tinham a psicanálise com criança ainda em processo de amadurecimento tanto teórico quanto clínico.
Assim, importa afirmar que, tratando-se mais de um ensaio do que de um artigo propriamente dito, renuncio, de certa forma, ao rigor metodológico e conceitual necessários à discussão etiológica de cada psiconeurose. Optei por vasculhar e investigar interstícios deixados nos dois textos clássicos, buscando pontuar e entender o lugar e o papel que os pais e o ambiente familiar ocuparam e tiveram na formação das psiconeuroses discutidas por Freud e Klein respectivamente. Contudo, para tanto, além de Freud, Ferenczi e Klein, busco, evidentemente, trazer outros autores como suporte tanto à proposta ferencziana da “adaptação” quanto aos casos clínicos supracitados.
Do romance familiar dos neuróticos a um caso de fobia infantil: o “pequeno Hans”
Freud, 1909/2021.
Em 1908, Sigmund Freud publicou A moral sexual 'cultural' e o nervosismo moderno, mencionado parágrafos acima, como forma de alertar sobre as reverberações e as relações entre a repressão sexual, a educação e a moral burguesa com o advento das doenças nervosas, ou melhor, das psiconeuroses. Já em 1909, um ano depois, o criador da psicanálise publicaria dois outros trabalhos: um ensaio curto, mais profundo e complexo, O romance familiar dos neuróticos; e um caso clínico, denso e detalhado, Análise da fobia de um garoto de cinco anos (conhecido como o caso do “pequeno Hans”). Ambos acompanham a tônica da moral sexual, das formas de repressão em torno da sexualidade e do papel da família como processos integrantes e mobilizadores do desenvolvimento - normal ou patológico - do sujeito. Há que destacar que, no transcurso dos anos 1905 até 1910, Freud empreendeu um conjunto de estudos e pesquisas clínicas, resultando em publicações que, de uma forma ou de outra, traziam a temática da criança e a psicanálise.
Além dos dois textos já citados sobre o tema, temos os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, passando por textos, como O esclarecimento sexual das crianças (Carta aberta ao dr. Fürst), de 1907; O escritor e a fantasia, de 1908; Sobre as teorias sexuais infantis, também de 1908; e por fim, de 1910, Uma recordação de infância de Leonardo Da Vinci. Em certa medida, mais em determinados textos do que em outros, Freud buscou trazer para a psicanálise a psique infantil, sua relação com a sexualidade e a repressão sexual como reverberações etiológicas nas estruturas psiconeuróticas (Gutfreind, 2008, p. 30).
Especificamente nos trabalhos de 1909 (Romance familiar e “Pequeno Hans”), há em comum o olhar do psicanalista voltado para a criança e sua relação familiar. Se, no primeiro texto (o ensaio), Freud enfatiza a necessidade que a criança tem, em um primeiro momento, de se identificar com os pais - como ressaltado na epígrafe -, em um segundo período, ela desfaz essa identificação a partir de fantasias, resguardando os afetos sobre os pais na medida em que percebe que eles não são como imaginava: “Pequenos acontecimentos na vida da criança, que nela provocam insatisfação, fornecem-lhe o ensejo para iniciar a crítica aos pais” (Freud, 1909/2021, p. 420). No segundo trabalho (o caso clínico), Freud emprega um amplo estudo sobre o surgimento de um sintoma fóbico, do seu desenvolvimento até o seu desaparecimento. Parafraseando o psicanalista, o caso do “pequeno Hans” poderia ser lido como um “romance familiar”, tendo como pano de fundo um caso de fobia em uma criança de cinco anos de idade e as implicações que os afetos e as descobertas sexuais infantis vão desenrolando nas relações parentais.
Tratava-se, então, da primeira análise de uma criança, como destaca Celso Gutfreind (2008). Além disso, cabe destacar que Freud não era somente médico e psicanalista, mas um escritor e cientista social, mergulhado nos fenômenos sociais e psíquicos de sua época, que, desde então, sinalizava questões para além dela.
Freud não era um homem para superfícies. Não era para vinhetas. Vinha de uma tradição filosófica e científica que também não era; de uma época em que conviviam boa dose de repressão sexual e de expansão do humanismo, conhecimento. Nesse contexto paradoxal, a psicanálise pôde nascer, da mesma forma que uma criança precisa de um ambiente favorável, manso não perfeito, para se desenvolver. Há nesse aspecto algo de cultural ou relativo ao tempo em que Freud viveu (p. 23).
A escritura do caso clínico do “pequeno Hans” é longa, densa, bem detalhada e com inúmeras nuances psicanalítica e romanesca, típicos da verve literária dos textos freudianos, o que faz deste texto, retornando a Gutfreind (2008), uma leitura necessária e atual. Afinal, o autor nos coloca na contramão à rapidez das experiências contemporâneas: “Ler Freud nos amplia, ainda hoje. Sobretudo hoje, para deter essa tendência de sermos ligeiros nas avaliações” (p. 23). Apesar da sua importância como um trabalho que apresenta o percurso da primeira análise realizada com uma criança, atrelado à riqueza de detalhes e à forma metodológica apresentadas1, estes pontos, no entanto, não serão explorados na discussão que aqui se pretende, pois, como já dito, irei focar e sublinhar as relações interpessoais e intersubjetivas transcorridas a partir dos diálogos da tríade “Hans, mãe e pai”. Busca-se, assim, perceber o papel que a família e o entorno social tiveram no processo de desenvolvimento da psiconeurose que, neste primeiro caso, tratava-se de uma fobia infantil2. Feito o alerta, sigo o “pequeno Hans”. no caso do “pequeno Hans”, o desejo vem antes do desejado.
Se há de existir um começo, pode-se dizer que, nesse caso, se deu antes do relato do caso clínico em si. O início aconteceu quando Freud (1909/2022) orientou seus alunos, seus amigos e seus seguidores interessados no aprofundamento da psicanálise a empreender observações de cunho analítico ao desenvolvimento das crianças: “há anos venho incentivando meus alunos e amigos a coletar observações sobre a vida sexual das crianças, que costuma ser habilmente ignorada” (p. 174). Destarte, pode-se dizer que,
É digno de nota, a fim de justificar a sentença “o desejo vem antes do desejado”, destacamos a observação que Freud (1909/2022) faz sobre os pais de Hans, como pessoas próximas a ele3. Esses pais, decidem, após o nascimento do primeiro filho, enviar informações sobre o desenvolvimento sexual que observaram. Assim também, se comprometem a “não educar seu filho com mais coerção [Zwang] do que a estritamente necessária à manutenção dos bons costumes” (p. 174).
Além disso, a desenvoltura e a disposição assumidas quanto à forma de educação pelos pais de Hans faz crer que ambos, mãe e pai, antecipam e sintonizam-se, praticamente por uma década, com a discussão trazida por Sándor Ferenczi (1927/2021) em seu texto A adaptação da família à criança, quando afirma que: “A adaptação da família à criança só pode iniciar-se se os pais começam a compreender-se melhor eles próprios” (p. 2). É possível dizer, em princípio, diferentemente dos sistemas educacionais cultivados e empreendidos pelas famílias de classe média alta, aristocratas e burguesas do século XIX e início do século XX, que o “pequeno Hans” receberia uma educação “menos coerciva”. Pode-se argumentar que há, por parte dos pais de Hans, um grande esforço e um grande avanço no entendimento sobre o processo de criação e educação de um filho, pois percebe-se que, ao longo dos relatos do caso, há uma relação amistosa, amorosa e repleta de incentivo ao desenvolvimento da curiosidade da criança.
Há também um incentivo à liberdade de expressão, deixando que o pequeno filho verbalizasse seus desejos e sentimentos. Isso pode ser percebido logo no primeiro relato trazido pelo pai de Hans para Freud (1909/2022). A criança ainda tinha três anos de idade e expressava uma curiosidade em relação ao seu pênis “xixizador”, assim também ao da mãe de Hans ao perguntar: “'Mamãe, você tem? [xixizador]', e sua mãe responde: 'É claro que tenho. Por quê?' Hans: 'Apenas 'tava' pensando'” (p. 175).
Como já apontado, Hans estava inserido em uma família que prometia ouvir, sem censuras e questionamentos, as curiosidades e dúvidas em relação aos órgãos sexuais e aos desejos atrelados ao desenvolvimento da sexualidade da criança. Por isso, em um outro relato, compreende-se, a princípio, a forma natural com a qual a mãe de Hans lhe responde e incentiva a sua curiosidade: “A mamãe pergunta a ele: Por que você não está dormindo? Será que está pensando na menina?” (Freud, 1909/2022, p. 187). Isso ocorre também em relação pai de Hans. Este fica encarregado de fazer inúmeras indagações e perguntas, incentivando sempre a livre associação do “pequeno Hans”. Em certa ocasião, quando estava com três anos e nove meses, Hans se volta para o pai e diz: “Papai, você também tem um xixizador? Pai: Claro que tenho. Hans: Mas eu nunca vi o seu quando você tirou a roupa” (Freud, 1909/2022, p. 178). Tais curiosidades sexuais, especificamente em relação aos órgãos sexuais dos pais, e a “ânsia de saber” são “inseparáveis uma da outra”, argumenta Freud (1909/2022, p. 177).
Não obstante, à medida que Hans vai crescendo - assim como sua curiosidade um tanto quanto “obsessiva” em relação às questões sexuais, principalmente aos órgãos sexuais (o “xixizador”) -, o que se percebe, a partir dos relatos do pai de Hans, é o submergir por conta da força dos costumes culturais, situações de reprimendas e censuras; primeiro por parte da mãe e, depois, por parte do pai. No entanto, vale destacar que nunca houve um ambiente severo e rígido de convívio entre os pais e a criança. Houve, evidentemente, um encontro, ou melhor, um confronto do superego dos pais com a curiosidade do desejo narcísico cada vez mais crescente em Hans. Afinal, como argumenta Freud (1908/2021b), “Quem conhece a vida psíquica do ser humano, porém, sabe que nada é tão difícil para ele quanto renunciar a um prazer que já experimentou” (p. 328). E Hans, em grande parte do caso analisado por Freud, luta para tentar manter e satisfazer a sua libido, o seu desejo, mesmo com as admoestações de seus pais, principalmente de sua mãe.
Tais restrições são impostas e foi a partir de uma delas que Freud identificou o início da fobia do “pequeno Hans”. Para Freud, o começo do processo de fobia se dá pela ansiedade, e não pelo medo. Segundo Gutfreind (2008, p. 45), Freud formulou a sua hipótese na ligação afetiva excessiva entre Hans e sua mãe. Um verdadeiro desafio se estabeleceu no amadurecimento psíquico da criança. Um excesso de carinho e afeto fora investido, elevando, assim, a sua “ânsia erótica” em plena ebulição. Porém, o processo de castração também se fez presente:
. . . o interesse do menino pelo xixizador não é meramente teórico; como era de se supor, também o estimula a apalpações do membro. Quando contava 3 anos e meio, sua mãe o encontrou com a mão no pênis. Ela ameaça: “se você fizer isso, vou chamar o Dr. A., e ele vai cortar fora o seu xixizador. E aí, como é que você vai fazer xixi?” Hans: “com o popo” (Freud, 1909/2022, p. 176).
E ainda:
Hans, 4 anos e 3 meses. Hoje cedo, como acontece todos os dias, sua mãe banha-o e, após o banho, enxuga-o e passa-lhe talco no corpo. Quando a mamãe está passando talco perto do seu pênis, fazendo isso com cuidado para não tocar, Hans diz: “Por que é que você não põe o dedo lá?” “Mamãe: Porque isso é uma safadeza.”
“Hans: O que é isso? Uma safadeza? Mas por quê?”
“Mamãe: Porque é impróprio.”
“Hans (rindo): Mas é divertido.” (Freud, 1909/2022, p. 187).
Nos dois exemplos acima, percebe-se a ameaça de castração ao desejo erótico empreendido pelo “pequeno Hans” em sua aventura na busca pela descoberta da sexualidade. O que chama atenção, além do fragrante incômodo que a mãe de Hans demonstra em relação à sua curiosidade e à insistência erótica, deixando, inevitavelmente, transparecer o peso da moral cultural, é também o encontro, ou melhor, o desencontro entre formas diferentes de linguagem atreladas tanto no sentido dado aos afetos quanto nas pulsões sexuais.
Ferenczi (1932/2021), em um dos seus últimos trabalhos, um de seus mais importantes, trabalhou a expressão que dá título à obra Confusão de línguas entre os adultos e a criança, mas que também expressa muito bem a situação trazida com o segundo diálogo entre Hans e sua mãe. Nesse ensaio, Ferenczi aponta para uma incongruência semântico-afetiva, por assim dizer, na forma como os adultos se expressam e dão significado às falas e às manifestações afetivas das crianças. Certas sensações, afetos, curiosidades e moções eróticas operam numa língua denominada por Ferenczi como “língua da ternura”, que é lúdica e fantasiosa - diferentemente, da linguagem dos adultos, que empreendem um entendimento entorno da vida sexual adulta, ou seja, em uma “língua da paixão”.
. . . um adulto e uma criança amam-se; a criança tem fantasias lúdicas, como desempenhar um papel materno em relação ao adulto. O jogo pode assumir uma forma erótica, mas conserva-se, porém, sempre no nível da ternura. . . . Confundem as brincadeiras infantis com os desejos de uma pessoa que atingiu a maturidade sexual (Ferenczi, 1932/2021, p. 116).
Por um lado, excitado com as carícias de sua mãe ao passar talco pelo seu corpo, Hans denomina isso como “divertido”, sua mãe, por outro lado, o adverte com uma palavra desconhecida para ele - “safadeza” - uma expressão carregada de moralidade e censura. Ou seja, enquanto Hans, com sua linguagem da ternura, experencia os carinhos como algo similar a uma brincadeira (evidentemente erotizada), sua mãe, em outra perspectiva, vê no pedido de seu filho algo similar ao desejo sexual de um adulto. Por isso, ela replica: “é impróprio”. Nessa mesma linha de argumentação, como bem avalia Gutfreind (2008), havia, por parte do pai do “pequeno Hans”, um incômodo com a sexualidade do filho e com os atos de masturbação, que logo foram atrelados à fobia de Hans.
O que mais chama atenção nesses relatos é o incômodo que a sexualidade de Hans gerava no pai. Associando a fobia à masturbação, chagava a cogitar a possibilidade de o filho dormir imobilizado em um saco de dormir. De fato, eram tempos sexualmente mais repressores que o nosso (Gutfreind, 2008, p. 50).
No entanto, e como bem sinalizado por Ferenczi (1927/2021), “tornar-se pai é mais fácil do que sê-lo. Assim, o primeiro erro dos pais é o esquecimento de sua própria infância” (p. 2). Evidentemente, o desfecho do caso Hans, dado como um conflito edipiano pelo desejo incestuoso de dormir com a mãe e desejar a morte do pai - que o impedia ou castrava inconscientemente do acesso à mãe e, ao mesmo tempo e de forma ambivalente, do amor pelo pai e o desejo de matá-lo - fez com que o “pequeno Hans” deslocasse essas pulsões para o medo de cavalos, que Freud identificaria como a figura condensada do pai (Quinodoz, 2007, p. 99). Com essa interpretação, seguida de uma explicação sobre a relação entre o medo que Hans tinha dos cavalos e a relação com o seu pai, Hans volta a ser um menino saudável e sem medo de cavalos, passando a ter “uma relação muito mais descontraída com seu pai” (Freud, 1909/2022, p. 322), ao que Freud acrescenta: “Mas o que o pai perde em respeito ele recupera em confiança” (p. 322).
Da neurose fóbica à psicose infantil: Melanie Klein e o caso “Dick”
... os ataques sádicos da criança têm como objeto tanto o pai quanto a mãe; que são mordidos, despedaçados, cortados ou esmagados na fantasia.
Duas décadas, praticamente, separam as publicações do caso do “pequeno Hans”, analisado por Freud (1909/2022) e o texto A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego, publicado em 1930 por Melaine Klein. À época, a metapsicologia freudiana já se encontrava navegando em sua segunda tópica, quando a pulsão de vida - Eros - e a pulsão de morte - Tânatos -dividiam opiniões entre os psicanalistas fiéis ao fundador e principal expoente da psicanálise, Sigmund Freud, e aqueles atrelados às novas correntes, que surgiam principalmente na Inglaterra. Entre esses psicanalistas, Melaine Klein foi uma figura de destaque, principalmente pela sua visão, clínica e teórica, para a psicanálise com criança e pelo advento da clínica do brincar. Analisada de Sándor Ferenczi e depois de Karl Abraham, Klein se destacou e chamou atenção desde a apresentação do seu primeiro artigo, O desenvolvimento de uma criança, em 1919, na Sociedade Húngara de Psicanálise (Plon & Roudinesco, 1998, p. 431).
Melaine Klein, pode-se dizer, era uma outsider da psicanálise, pois, diferentemente de quase a maioria dos psicanalistas de sua época, não era oriunda da medicina e da psiquiatria. No entanto, empreendera, desde o início, uma obra “revolucionária” na teoria e na prática psicanalítica, como confere Hanna Segal (2023), ao realizar a introdução à edição de 1985 do conjunto de artigos de Klein reunidos em Amor, culpa e reparação e outros estudos (1921-1945).Segal (2023) prossegue dizendo que Klein se insere na psicanálise trabalhando com crianças e, por isso, foi uma pioneira na análise de criança ao desenvolver métodos e concepções originais sem, no entanto, “se afastar dos princípios básicos da técnica da psicanálise” (p. 15). Anteriormente, na introdução de 1975, Moneu-Kule (2023) já havia comentado algo do gênero: “Naquele tempo, com a exceção da obra de Freud sobre o 'Pequeno Hans' e de alguns trabalhos preliminares da Dra. Hermine Hug-Hellmuth” (p. 13), seriam as obras de Anna Freud e Melaine Klein, a partir de perspectivas diferentes, as responsáveis por forjar o campo teórico, técnico e clínico da psicanálise com crianças.
Não há espaço e não cabe aos objetivos propostos neste ensaio adentrar nas nuances, controvérsias e diferenças nem nos meandros conceptuais entre Anna Freud, Melaine Klein e a Escola de Psicanálise Inglesa. Como já exposto a priori, o que este trabalho propõe pensar a partir do artigo de 1930 de Melaine Klein, no qual foi apresentado o caso Dick - primeiro caso de uma criança psicótica - é o modo como se deu o ambiente familiar e como os personagens parentais e cuidadores participaram do processo de adaptação da criança à família nos termos ferenczianos. Qual a relação dessa adaptação para com a psiconeurose apresentada e tratada por Klein? Não se trata, nesse caso, diferentemente do caso do “pequeno Hans”, de um romance familiar do neurótico, mas sim de uma tragédia familiar que desencadearia uma psicose infantil.
Recorre-se, assim, de forma similar ao que foi empreendido no caso do pequeno Hans, a destacar alguns detalhes a partir do texto A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego, de 1930, de Melaine Klein, bem como a partir de outros autores que comentaram e analisaram o caso de Dick e o papel ocupado pela família e cuidadores. Antes, porém, cabem certas advertências em relação aos dois materiais trazidos para discussão. Primeiro: diferentemente do caso apresentado por Freud (1909/2022) com riqueza de detalhes e com um farto material clínico e empírico ofertados pelos pais de Hans, que lhe permitiram acompanhar, quase sistematicamente, o princípio, o desenvolvimento e o desfecho da neurose fóbica que acometeu o “pequeno Hans”, no que foi apresentado por Klein (1930/2023), ao contrário, trata-se de um caso clínico atrelado às elaborações teóricas e clínicas em um formato de artigo.
Por causa disso, a estrutura estética dos dois casos se diferencia muito. Em Hans Freud (1909/2022) apresenta um formato romanesco, rico em detalhes, com idas e vindas, com aproximadamente 152 páginas mais as notas. Já o trabalho de Klein (1930/2023), em formato de um artigo, com 16 páginas apenas, pretendeu ser, ao seu jeito próprio de escrever, objetivo e conciso. Foi nesse trabalho que a autora exibiu, de forma mais estrutural, a psicose infantil, sua técnica e o manejo interpretativo no setting4, quando se deparou com um menino de quatro anos de idade praticamente sem fala, com ausência de emoções e com um recurso simbólico bem rudimentar (p. 278).
O segundo ponto a ser considerado, mas não menos importante, é que, em Hans, Freud (1909/2022) foi um analista indireto, quase um supervisor da análise empreendida pelo pai de Hans, mais do que um analista no setting propriamente dito. No caso Dick, diametralmente oposto, Klein esteve ali sozinha em seu consultório e diante de um menino, como já dito, com uma imensa dificuldade de se expressar, interagir e com baixo recurso simbólico na sua forma de falar, que também não olhava para a analista e não manifestava as suas aflições. Porém, como já havia um acúmulo de experiências em casos com crianças anteriores (Petot, 2019, p. 155-156), Klein apontou para possiblidade da condução analítica com esse menino, sustentando o setting, apesar e por isso mesmo, do alto grau de inibição apresentado por Dick. Klein levou adiante o tratamento que foi depois entendido por alguns comentadores como um caso de autismo (Roudinesco; Plon, 1998, p. 433), mas que Klein (1930/2023) tratou como um caso de psicose infantil (p. 278).
Klein (1930/2023) informa que grande parte de suas conclusões teóricas só foram possíveis após sua experiência com outras crianças, mas foi com o caso Dick que pôde empreender sua técnica interpretativa a partir da interação simbólica da criança com os objetos disponíveis na sala de atendimento (os trens de brinquedos) apesar da sua condição de “extraordinária inibição do desenvolvimento do ego” (p. 282). Através desse caso, Klein pôde confirmar um conjunto de suposições teóricas, por exemplo, que “há um estágio inicial do desenvolvimento mental em que o sadismo se torna ativo em todas as fontes de prazer libidinal” (p. 279), assim como das fases sádicas - oral, uretral e anal - e superego primitivo, além de verificar a importância do simbolismo para o processo sublimatório e da produção do conteúdo das fantasias libidinais. Por fim, e muito importante, Klein (1930/2023) pôde averiguar a questão da ansiedade, ou seja, a capacidade do indivíduo de lidar com o quantum de ansiedade no seu processo de formação do ego e do seu contato com o mundo externo, e de ser capaz de suportar ou não esse contato (p. 281).
Tudo indicava, de início, pela forma como Dick chegou ao consultório de Melaine Klein em janeiro de 1929, que se tratava de um caso de sintomas com os quais, até então, a psicanalista não havia se deparado. Para Dick, era insuportável a relação com o ambiente externo e, por isso, uma economia emocional, quase no nível zero, impedia-o de qualquer tipo de interação intersubjetiva, física e afetivamente.
. . . um menino de quatro anos que, levando em conta a pobreza de seu vocabulário de suas realizações intelectuais, estava no mesmo nível de uma criança de quinze ou dezoito meses. Ele praticamente não apresentava nenhum sinal de adaptação com adaptação à realidade nem de ter estabelecido relações emocionais com seu ambiente.
. . . não demonstrava muitos afetos e era indiferente à presença ou à ausência da babá. (Klein, 1930/2023, p. 282).
Klein identificou, pelo comportamento de Dick no setting, se tratar de uma neurose grave, pois, além da indiferença total ao ambiente e da falta de interesse pela babá em deixá-lo aos cuidados da psicanalista, Dick corria de um lado para outro, mas sem demostrar o menor interesse ou objetivo. Desviava de Klein como se ela fizesse parte da mobília da sala. A partir disso, Klein (1930/2023) resumidamente conclui: “Em todos esses tipos de comportamento, não há como deixar de perceber a presença de grande ansiedade latente” (p. 283).
Antes de abordar propriamente as questões sobre a família do menino Dick, cabe destacar, até mesmo para salientar a diferenciação entre caso Dick e o caso do “pequeno Hans”, que, na primeira sessão com Melaine Klein, Dick foi conduzido por sua babá, não por sua mãe ou pelo seu pai. Ou seja, nesse primeiro momento de um possível início de tratamento, os pais de Dick não se fizeram presentes. Essa circunstância já aponta para uma grande questão, pois, ao retornarmos a Ferenczi (1927/2021), temos: “O curioso de tudo isso é que o que escapa precisamente aos pais é o que para as crianças é o obvio” (p. 8-9). Dick, desde sua tenra infância, experimentou essa ausência de seu pai, da babá e de sua mãe, “desamparada diante desse filho que ela pressentia ser anormal desde o nascimento” (Gacia-Fons & Veney-Perez, 2021, p. 71).
Klein (1930/2023) relata desde o nascimento, o pequeno e ainda bebê Dick foi submetido a momentos desesperadores. Sua mãe não conseguia amamentá-lo, deixando-o “quase morrer de fome”. Essa primeira experiência, de fundamental importância para a constituição física e psíquica do ser humano, foi, para Dick, traumática e dolorida. Sua mãe recorreu a alimentos artificiais (mamadeira), segundo Klein, mas sem muito efeito. Ou seja, se o nascimento, como vimos em Freud, institui o trauma original, ao nascer, Dick estende esse trauma por muito mais tempo, para além do ato de separação do bebê do ventre da mãe. Como já comentado alhures neste ensaio, Diferentemente de Freud, para Ferenczi, o trauma não se dá pela experiência do nascimento, pois se trata de um processo muito rápido, no qual todas as angústias criadas pelo processo de saída do ventre para o mundo externo são, para Ferenczi (1927/2021), rapidamente contornadas pelos pais.
. . . cumpre adicionar o instinto dos pais, que os impede de tornar a situação do recém-nascido tão agradável quanto possível; o bebê é deitado no quente, protegido ao máximo das excitações ópticas e acústicas incômodas; eles fazem a criança esquecer efetivamente o que se passou, como se nada tivesse acontecido. É duvidoso que um transtorno, eliminado de forma tão rápida e radical, pudesse ter o valor de um “trauma” (p. 5).
Françoise Dolto (2001) adota, em certa medida, a posição de Ferenczi ao chamar este caso não de “trauma do nascimento”, mas de “drama do nascimento” - a separação do recém-nascido do ambiente interno e uterino e da profunda sensação de onipotência, em que a criança se separa da mãe apenas “na aparência”. Para Dolto, há uma separação de uma parte da própria criança, que fica dentro da mãe. Seria, assim, uma “partição, mais que uma separação” (Dolto, 2001, p. 1-2), que logo levaria a um reencontro de uma mãe, agora exterior, com a mãe interior:
Sedento, o recém-nascido enxerga temporariamente a boca no seio da mãe, se isso for possível, ou num sucedâneo; mãe - sentindo que ele precisa daquilo - propõe-lhe teta ou chupeta. De novo, o corpo do recém-nascido é perfundido pela mãe exterior em direção ao interior de si mesma, e, de novo, ou melhor, juntos ao seio, e não no seio, ele unifica com um outro ser, do qual depende sua sobrevivência (p. 2).
Infelizmente, para Dick, não foi possível no seu momento inicial de vida não mais uterina o perfundir. O que se deu foi uma experiência dramática (Dolto, 2001), ou a falta do apaziguamento do trauma do nascimento (Ferenczi, 1927/2021), prolongando na criança o sentimento de angústia do nascimento. Ainda em Ferenczi (1927/2021): “Outros traumatismos reais têm efeitos mais difíceis de eliminar: não são de ordem fisiológica, mas dizem respeito ao ingresso da criança na sociedade e no contato com os seus semelhantes” (p. 5). Acrescenta-se a isso que, somente quando tinha seis meses de idade, os pais encontraram e contrataram uma ama de leite para Dick. Entretanto, como argumentou Klein (1930/2023), na época, a amamentação no seio já não surtia muito efeito para ele. Começou a sofrer de problemas digestivos, prolapso retal e mais tarde de hemorroida”(p. 283). Além disso, Klein é categórica: “É possível que seu desenvolvimento tenha sido afetado pelo fato de, embora tenha sido alvo de todo tipo de atenção, o menino nunca recebeu amor verdadeiro” (p. 283).
Em outras palavras, para Dick, embora sua família tivesse demonstrado certa preocupação com o pequeno ser vivente na tentativa de alimentá-lo, de ampará-lo, de buscar ajuda externa com a contratação de uma babá ou ama-de-leite, “desde o início, a atitude da mãe em relação a ele era de extrema ansiedade” (Klein, 1930/2023, p. 283). E Klein ainda conclui: “Além disso, como nem o pai, nem a babá lhe demonstravam grande afeição, Dick cresceu num ambiente escasso de amor” (p. 283) - ou seja, um ambiente precário, ou, como sugere D. W. Winnicott (1966/2021, p. 18), entregue “aos efeitos do fracasso da mãe dedicada comum”. Esses primeiros meses da vida do menino Dick transcritos no artigo de Melaine Klein trazem em cena novamente a reflexão de Ferenczi (1927/2021) sobre a questão apresentada em Adaptação da família à criança e sobre o sentido que buscou atribuir, do ponto de vista psicanalítico, à expressão “adaptação”. Para ele, a natureza é descuidada quanto ao cuidado com o ser, mas nós, seres humanos, lutamos pela preservação da espécie, buscando poupar os novos membros de sofrimentos desnecessários, mantendo-nos sempre atentos.
A natureza é muito descuidada, ocupa-se pouco do indivíduo, mas nós, os homens, pensamos de modo diferente, queremos conservar vivo todos os descendentes e poupa-lhes sofrimentos inúteis. Sejamos, pois, particularmente atentos aos estágios do desenvolvimento no decurso dos quais a criança deve enfrentar dificuldades, e não haverá poucas” (Ferenczi, 1927/2021, p. 4).
Se adaptação depende da família buscar poupar a criança de sofrimentos de todos as formas, principalmente uma recém-nascida, observa-se que em Dick houve, de modo muito primitivo, um desprovimento desse tipo de atenção, ou seja, foi preterido e visto como um menino “anormal”, desprovido de afetos que, no sentido kleiniano, seriam a ausência de amor por parte de sua mãe -ansiosa -, de seu pai e de seus cuidadores. O amor faltou ao ambiente, dificultando a adaptação por parte dos pais a essa criança. É possível, hipoteticamente, dizer que Dick frustrou, em boa medida, o investimento narcísico dos pais, que, ao projetar os seus ideais em um filho, não sustentaram as dificuldades de uma criança tomada como “anormal” e, assim, se angustiaram, principalmente, a mãe.
Faltou a Dick a atenção necessária, o cuidado e o carinho para lhe transmitir segurança - tais processos foram ausentes nos primeiros anos de sua vida. Dessa forma, similarmente ao sentido de “adaptação” proposto por Ferenczi (1927/2021), Winnicott (1968/2021), posteriormente, propôs o conceito de “ambiente facilitador” como um processo importante para o desenvolvimento psíquico e emocional do indivíduo: “Do meu ponto de vista, a saúde mental do indivíduo começa a se estabelecer desde o início pela mãe, que fornece o que chamei de ambiente facilitador” (p. 38). Esse “ambiente facilitador” só veio a se constituir com a chegada de uma nova babá e com a entrega de Dick aos cuidados “por um tempo considerável com a avó” (Klein, 1930/2023, p. 284). Houve, assim, segundo Klein (1930/2023), uma mudança no ambiente proporcionada pela presença de uma babá afetuosa e experiente, juntamente com o amor da avó. Essa nova situação possibilitou uma melhora no desenvolvimento de Dick.
A influência exercida por essas mudanças pôde ser observada em seu desenvolvimento. O menino aprendera a andar na idade normal, mas houve certa dificuldade em ensiná-lo a controlar suas funções excretórias. Sobre a influência da nova babá, ele adquiriu hábitos de higiene com uma facilidade bem maior. Com cerca de três anos já dominava por completo e nesse ponto chegou a demonstrar certo grau de ambição e receio. No quarto ano de vida, também se mostrou sensível à culpa em outro aspecto. . . . durante o seu quarto ano de vida, Dick fez maiores esforços de adaptação, sobretudo no que dizia respeito às coisas externas . . . principalmente no aprendizado mecânico de novas palavras (p. 284).
No entanto, voltando à descrição do caso Klein, apesar da melhora do menino com a constituição de um “ambiente facilitador”, atencioso e afetivo, Dick teve, desde o seu nascimento, problemas sérios com a alimentação. Começando com a dificuldade da mãe em amamentá-lo, passando pela recusa da ama-de-leite e da mamadeira com a primeira babá, chegando ao período dos alimentos sólidos, que Dick recusava insistentemente em mastigar, exigindo sempre a “consistência de papa; mesmo assim, era quase preciso obrigá-lo a comer” (Klein, 1930/2023, p. 284). Klein finaliza essa parte da descrição da adaptação da família ao pequeno Dick, informando que, mesmo com o grande avanço que o menino teve com a nova babá “bondosa”, nas palavras de Klein, mesmo assim, “as principais dificuldades continuaram presentes: “os defeitos fundamentais permaneceram intocados. Dick não conseguia estabelecer contato emocional com ela, assim como não conseguia com as outras pessoas” (Klein, 1930/2023, p. 284). Além disso, juntou-se a essa situação um episódio de castração, muito similar ao caso do “pequeno Hans”, quando o peso da moral sexual cai sobre o prazer da criança. Aos quatro aos anos de idade, quando Dick se masturbava, sua “bondosa” babá lhe disse “que ele estava 'aprontando' e que nunca mais deveria repetir aquilo” (Klein, 1930/2023, p. 284). Klein é categórica em seu diagnóstico:
Descobri na análise de Dick que o motivo para a excepcional inibição em seu desenvolvimento foi o fracasso das etapas iniciais que mencionei no início deste artigo. No caso Dick, havia uma total incapacidade do ego para suportar ansiedade, de ordem aparentemente constitucional. A zona genital entrou em cena muito cedo; isso causou uma identificação prematura e exagerada com o objeto atacado e contribuiu para a defesa igualmente prematura contra o sadismo. O ego parou de desenvolver a vida de fantasia e de estabelecer uma relação com a realidade (p. 284-285).
À guisa de conclusão
. .. a psicanálise só interdita a autoridade quando esta é injustificada.
A autoridade a que se refere Ferenczi na epígrafe é natural em toda criança em sua fantasia de onipotência; de poder fantasiar a onipotência em relação ao corpo da mãe, do pai, do seu próprio corpo e nos objetos externos. A onipotência permite o fantasiar e o desenrolar de uma vida psíquica saudável. Isso não significa que, em algum momento, não há ou não deve haver a interdição. A questão que Ferenczi (1927/2021) muito bem aponta é saber quando se faz necessário; quando o interdito se faz justificado. Por isso, cabe ao adulto (pais e cuidadores) se adaptar e compreender o universo fantasioso, mítico, fervilhante de desejos e pulsões incompreendidas pelas crianças desde o seu nascimento - fantasias carregadas de angústia e medo, bem como de satisfação e prazer no (e pelo) outro.
Klein (1930/2023) entra em contato com Dick através de dois brinquedos, dois trenzinhos colocados lado a lado, designando o maior como o pai de Dick (o “trem papai”), o menor como o próprio Dick (o “trem Dick”), e a janela como a “estação”. Assim, Klein diz: “a estação é a mamãe, o Dick está entrando na mamãe” (p. 286). Lacan (1954-1955/2020) afirma no Seminário 1: Os escritos técnicos de Freud: “Melaine Klein enfia o simbolismo, com a maior brutalidade, no pequeno Dick” (p. 95).
Todavia, apesar de todas as controvérsias e a revisão ao caso, ficou claro, a partir dessa interpretação - diga-se, bruta - que a questão edipiana e a precária capacidade de simbolização do menino se fizeram presentes e, por isso, o processo analítico teve início. Dick continuou a análise com Melaine Klein até 1946, parando apenas no período da Segunda Grande Guerra. Dick se tornou um homem desinibido e “francamente tagarela” (Roudinesco & Plon, 1997, p. 433).
Já o “pequeno Hans”, cujo nome verdadeiro era Herbet Graf, se tornou um produtor musical de sucesso, conhecido internacionalmente. A interpretação de Freud sobre os óculos e o bigode do pai em aparente semelhança com os cavalos que lhe causavam fobia foi também retomada por Lacan (19561957/2021) na segunda parte do Seminário 4: A relação de objeto. Nessa obra, Lacan vai dizer que a fobia de Hans só foi possível de ser superada a partir da presença do pai real (Max Graf) que, até então, “havia intervindo tão pouco” (Lacan, 1956-1957/2021, p. 235) e que também só foi possível com a presença da ajuda do pai simbólico (Freud) como forma de separar o “pequeno Hans” da relação incestuosa com a sua adorada mãe, ou nas palavras de Lacan (1956-1957/2021): “a solução da fobia está ligada à constelação dessa tríade: orgia imaginária, intervenção do pai real, castração simbólica” (p. 235).
O desafio proposto neste ensaio não se direcionou à discussão nos moldes lacanianos ou winnicottianos sobre as duas psiconeuroses apresentadas: a fobia de Hans e a psicose infantil de Dick. Não tive esta pretensão, longe disso. Minha contribuição foi tomar de empréstimo as lentes de Sándor Ferenczi para poder enxergar como a questão da adaptação, ou seja, como o ambiente que acolhe a vinda do novo ser ao mundo se relaciona com os processos e o desenvolvimento psíquico de cada sujeito. Também busquei/procurei entender qual ou quais dos custos emocionais e afetivos são prementes à criança em sua entrada na cultura.
Ao fim, como vimos, tanto em Hans como em Dick, o papel desempenhado pela família e o ambiente familiar foram capitais na formação de cada uma das psiconeuroses apresentadas. Por um lado, uma criança era amada e desejada, às vezes em demasia, excitando a curiosidade erótica e, após a interdição, se instaurando um deslocamento e uma defesa por fobia, por outro lado, o outro menino, experenciou um alongamento do trauma do nascimento em um verdadeiro drama (Dolto, 2001), instaurando-se um processo de angústia profunda em virtude da demora no amparo e da ausência de amor. Essa situação trouxe ao pequeno Dick, precocemente, uma identificação sádica com o objeto de amor, que Klein diagnostica como uma psicose infantil. Diferentemente de Hans, o menino Dick teve como defesa psíquica um desenvolvimento introspectivo, uma pobreza no simbolizar, com extrema dificuldade de interação com o mundo externo, bem como com o fantasiar. Pode-se pensar e especular, evidentemente, que Dick, ao tentar ser amamentado por uma mãe angustiada, sentia também a angústia daquela mãe, seu sofrimento e sua dor, como no fragmento do poema de Adélia Prado, “Minha mãe me dava o peito e eu escutava/o ouvido colado à fome dos seus suspiros” (Prado, 2022, p. 39).













