O Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP), nascido no Rio Grande do Sul, vem construindo sua história ao longo de muitas décadas e está próximo dos setenta anos de existência. Tem maturidade com federadas e psicanalistas notáveis em diferentes cantos de nosso país. As contribuições do CBP aos ofícios de psicanalisar e às reflexões psicanalíticas são múltiplas no Brasil e em outras geografias.
Seguem alguns exemplos.
Em 1969, ocorreu a publicação do primeiro número de sua revista Estudos de Psicanálise e permanecemos aqui no novo milênio, no século XXI. A cada dois anos, acontece o Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise, um evento nacional fértil em intercâmbio de conhecimentos e experiências. O CBP é filiado à International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS) há muitas décadas.
A pluralidade e a singularidade se inscrevem no tecido institucional do CBP. A cada novo número da revista Estudos de Psicanálise, fica perceptível como o campo psicanalítico é amplo em termos epistemológicos, teóricos e metodológicos. As Psicanálises – em liberdade poética, no plural e em maiúscula – têm muitas potencialidades e possibilidades!
Outra marca significante de escuta e reflexão de membros do CBP – que não recuam diante dos desafios dos novos tempos – é pensar sobre os laços sociais e dimensões culturais na constituição dos sujeitos e das subjetividades. Freud verbaliza que praticamente toda forma de psicologia individual é também uma psicologia social.
Neste novo número da revista Estudos de Psicanálise, por meio de artigos diversos e singulares, será encontrada uma polifonia que interroga, inquieta, estranha, faz estranhar, questionar muitas vezes, deparar-se com o não saber, as incertezas e os tropeços do sujeito da linguagem.
As temáticas dos artigos são muito variadas. Tocam nos conceitos e ofícios psicanalíticos, mostram a amplitude das Psicanálises, revelam interfaces, as interdisciplinaridades e as especificidades dos pensamentos dos autores.
A clínica psicanalítica, a arte, a literatura, a história, a instituição psicanalítica, a falta, as configurações digitais, a identificação, o envelhecimento, o infantil, os ambientes transicionais, as encruzilhadas do eurocentrismo no Novo Mundo, as relações na contemporaneidade e muito mais abrem um debate interminável em que autores, leitores, textos e intertextos percorrem, de forma diferente, a construção de seus pontos de vista e costuras em torno de tantas faltas fundamentais.
Não existem verdades absolutas aos frágeis seres humanos. Quaisquer áreas do conhecimento têm hiâncias, pontos cegos e, portanto, o diálogo entre elas é basal. Psicanálises e psicanalistas, temos as marcas da história e não precisamos temer a morte. O universo, o mundo, o Brasil, a humanidade e os ofícios de psicanalisar não têm o passaporte para a imortalidade. Desejamos conversar muito, com humildade e força, sobre as problemáticas complexas que têm se apresentado nos primórdios do novo milênio e do século XXI.
As Psicanálises não são redutíveis a uma perspectiva simplista e unívoca de lidar com a humanidade – ou com as vidas que resistem! – em suas relações com as teorias, as técnicas, as análises pessoais, as clínicas, as supervisões, as pesquisas psicanalíticas, as formações de psicanalistas, as histórias das culturas no mundo.
Precisamos de resiliência e criatividade transformadoras na presença de tantos desafios contemporâneos: expressões bárbaras da violência no globo terrestre, acidentes climáticos, disparidades sociais, agressão à diversidade, entre muitos exemplos.
As leituras foucaultianas nos ajudam a pensar sobre as configurações de força, domínio, colonização e resistência em qualquer lugar, em quase toda parte!
Quando falamos de presente-passado-futuro das Psicanálises, podemos pensar e repensar nas histórias da humanidade e no que é chamado de “civilização”, bem como na inventividade humana em benefício das vidas.
O tempo não é apenas aquele da historiografia tradicional!
Quantos sóis a humanidade conta?
Quantos tempos de chuva e tempestade já existiram e ocorrerão?
Como fica “o infantil” com o tempo?
O inconsciente é atemporal?
O que significa para o Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) ser quase septuagenário?
Psicanálises mundial e brasileira, quantos anos têm mesmo?
O que nós, psicanalistas plurais e singulares, podemos fazer com os temporais de mal-estar que ameaçam a existência?
Quais são nossos limites e potencialidades?
O que seria maturidade na história mundial e brasileira da(s) Psicanálise(s) diante de problemáticas contemporâneas íngremes?
Não seria uma relação de enamoramento com imagens de si, do outro e do mundo em que se enxerga o mesmo e nada além!
O mito da caverna de Platão há muito indaga nossa posição existencial!
A mitologia também ensina às ciências mais sabidas!
A inconsciência nos reposiona em lugares modestos na relação com o saber e os futuros possíveis!
Em contato com o incognoscível e os efeitos do inconsciente, “eu” brinco – todavia com muita seriedade!!! – com a(s) Psicanálise(s) que resistem neste tempo.
Qual é a maturidade necessária para enfrentar tantos desafios?
Ao trocar as letras de assento, a maturidade transforma-se na rimatudade, condensando – na poética do dizer – maturidade, rima, ética, pó, esperança e outros elementos oníricos desconhecidos, no que pode ser inventado de futuros pessoais e coletivos no século XXI e neste milênio a favor da vida!
Este acervo de escritos não é a expressão do uníssono, do universal, mas do diverso, do plural.
Boa leitura a quem acompanha a revista Estudos de Psicanálise, publicação do Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) de muitas décadas.













