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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.62 Belo Horizonte  2024  Epub 07-Nov-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n62a02 

AUTORA CONVIDADA

Relações interpessoais na contemporaneidade: O narcisismo em busca de aplauso virtual

Interpersonal relationships in contemporaneity: Narcissism in search of virtual applause

Relaciones interpersonales en la época contemporánea: El narcisismo en busca del aplauso virtual

Tânia Maria Cemin1 

Psicóloga clínica. Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Psicanalista pelo Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicanálise (IEPP). Doutora e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professora e pesquisadora e coordenadora na graduação em Psicologia da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Professora Adjunta II, carga horária: 40hs, dedicação exclusiva. Integrante do corpo permanente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia - Mestrado Profissional em Psicologia (UCS).


http://orcid.org/0000-0003-1778-0026

Anne Szalanski Ferreira2 

Psicóloga pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).

1Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). E-mail: tmcwagne@ucs.br

2Universidade de Caxias do Sul (UCS). E-mail: asferreira3@ucs.br


Resumo

A ascensão das mídias sociais digitais e a sua presença constante no cotidiano de muitos indivíduos revolucionou a maneira como as relações interpessoais podem ser formadas e mantidas na contemporaneidade. O objetivo deste trabalho é identificar possíveis articulações entre mídias sociais digitais e características narcísicas nas relações interpessoais da contemporaneidade. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter descritivo, exploratório e interpretativo, com análise de conteúdo. A fonte de análise refere-se ao episódio: Queda Livre de 2016 da série Black Mirror, elencando-se três categorias: Mídias Sociais Digitais: espaço de sonhos e reconhecimento; Comportamentos e Relações Regidas pelo Social; e Influência Social na Busca pela Satisfação Pessoal. Foi possível identificar que as mídias sociais digitais podem representar espaços para a promoção pessoal e a busca por validação, ao mesmo tempo em que tendem a influenciar ativamente as aspirações dos usuários a partir de conteúdos apresentados. Pode-se perceber que a interação proporcionada por plataformas digitais tende a reforçar comportamentos egocêntricos, os quais são alimentados por um aplauso virtual, interferindo na profundidade e autenticidade dos vínculos interpessoais. Dessa forma, considera-se que as mídias sociais digitais, ao funcionarem como mediadoras relacionais, não apenas refletem, mas também amplificam e perpetuam características de um funcionamento narcisista, em um processo de interação constante entre o contexto social e o ambiente digital. Salienta-se, portanto, a importância de uma reflexão acerca do uso dessas plataformas, que, embora ofereçam benefícios e facilidades, requerem cautela para evitar possíveis efeitos negativos na promoção e manutenção de relacionamentos saudáveis e genuínos.

Palavras-chave: narcisismo; relações interpessoais; mídias sociais digitais; psicanálise; contemporaneidade

Abstract

The rise of digital social media and its constant presence in the daily lives of many individuals has revolutionized the way in which interpersonal relationships can be formed and maintained in contemporary times. The objective of this study is to identify possible connections between digital social media and narcissistic characteristics in contemporary interpersonal relationships. This is a qualitative research of a descriptive, exploratory and interpretative nature, with content analysis. The source of analysis refers to the episode: Free Fall from 2016 of the series Black Mirror, listing three categories: Digital Social Media: space of dreams and recognition; Behaviors and Relationships Governed by Social; and Social Influence in the Search for Personal Satisfaction. It was possible to identify that digital social media can represent spaces for personal promotion and the search for validation, while at the same time tending to actively influence the aspirations of users based on the content presented. It can be seen that the interaction provided by such platforms tends to reinforce egocentric behaviors, which are fueled by virtual applause, interfering with the depth and authenticity of interpersonal bonds. Thus, it is considered that digital social media, by functioning as relational mediators, not only reflect, but also amplify and perpetuate characteristics of narcissistic functioning, in a process of constant interaction between the social context and the digital environment. It is therefore important to reflect on the use of these platforms, which, although they offer benefits and facilities, require caution to avoid possible negative effects on the promotion and maintenance of healthy and genuine relationships.

Keywords: narcisism; interpersonal relationships; digital social media; psychoanalysis; contemporaneity

Resumen

El auge de las redes sociales digitales y su constante presencia en la vida cotidiana de muchas personas ha revolucionado la forma en que se forman y mantienen las relaciones interpersonales en la actualidad. El objetivo de este estudio es identificar posibles conexiones entre las redes sociales digitales y las características narcisistas en las relaciones interpersonales contemporáneas. Se trata de un estudio cualitativo, descriptivo, exploratorio e interpretativo, con análisis de contenido. La fuente del análisis es el episodio “Free Fall” de 2016 de la serie Black Mirror, que enumera tres categorías: Redes sociales digitales: espacio para sueños y reconocimiento; Comportamientos y relaciones regidos por las redes sociales; e Influencia social en la búsqueda de satisfacción personal. Se pudo identificar que las redes sociales digitales pueden representar espacios para la autopromoción y la búsqueda de validación, a la vez que tienden a influir activamente en las aspiraciones de los usuarios con base en el contenido presentado. Se observa que la interacción que ofrecen las plataformas digitales tiende a reforzar comportamientos egocéntricos, alimentados por el aplauso virtual, lo que interfiere con la profundidad y autenticidad de los vínculos interpersonales. Por lo tanto, se considera que las redes sociales digitales, al funcionar como mediadoras relacionales, no solo reflejan, sino que también amplifican y perpetúan las características del funcionamiento narcisista, en un proceso de interacción constante entre el contexto social y el entorno digital. Por lo tanto, es importante reflexionar sobre el uso de estas plataformas, que, si bien ofrecen beneficios y ventajas, requieren precaución para evitar posibles efectos negativos en la promoción y el mantenimiento de relaciones sanas y genuinas.

Palabras clave: narcisismo; relaciones interpersonales; redes sociales digitales; psicoanálisis; época contemporánea

Introdução

Este estudo tem a proposição de explorar possíveis articulações entre as mídias sociais digitais e características narcísicas nas relações interpessoais da contemporaneidade. As mídias sociais digitais se tornaram uma parte fundamental da vida cotidiana de muitas pessoas, tanto que, conforme Oliveira, Silva e Figueira Filho (2022), as mídias digitais surgiram como um avanço tecnológico há mais de 15 anos, tornando-se parte essencial da vida contemporânea, especialmente para aqueles envolvidos na criação de conteúdo. Estas mídias incluem plataformas como YouTube, Instagram, TikTok e Facebook, acessíveis por uma ampla variedade de dispositivos digitais.

Carvalho, Magalhães e Samico (2019) também abordam sobre a disseminação dos dispositivos conectados à internet enquanto componente fundamental de interação virtual. Este estilo de vida tecnológico causou uma transformação nas relações entre as pessoas, uma vez que a comunicação com os outros é mediada pela internet. Isto faz com que a opinião de terceiros exerça uma influência significativa na formação da autoimagem e na maneira como as pessoas se relacionam. Os autores realizaram uma investigação quanto ao uso do Instagram como uma estratégia para enfrentar o desamparo e consideraram que, com o declínio de instituições simbólicas que costumavam influenciar a formação subjetiva, as mídias sociais digitais assumem o papel de preencher o vazio deixado por essas referências ausentes.

O aumento de traços narcisistas e psicóticos pode representar uma tendência contemporânea dos indivíduos em se desvincularem do convívio social, evitando o desconforto diante de situações desafiadoras, bem como o de buscarem pela gratificação instantânea de impulsos (Manno & Rosa, 2018). Neste cenário, de acordo com Moraes e Miranda (2018), identifica-se o surgimento de novas formas de manifestação do sofrimento psicológico na contemporaneidade, especialmente em função da interferência das mídias sociais digitais, uma vez que os indivíduos são constantemente expostos a anúncios publicitários. Os autores constataram, também, relações cada vez mais fluidas e uma insegurança predominante na sociedade atual, reverberando em um aumento nas defesas narcísicas como forma de lidar com as frequentes perdas e frustrações. Neste contexto, há um estímulo marcante ao consumo, acionando ideais narcísicos e promessas ilusórias de realização de desejos por meio da aquisição de produtos. A busca incessante pela felicidade duradoura, a valorização do sucesso individual e o impacto da publicidade estão intrinsecamente relacionados, influenciando a maneira como as pessoas percebem a si mesmas (Moraes & Miranda, 2018).

Consoante à perspectiva abordada, Rodrigues, Silveira e Correa (2020) ressaltam que a intensa interconexão entre pessoas e sistemas gerou transformações substanciais na sociedade em diversos aspectos. Esta conectividade teve efeitos profundos, não apenas na maneira como as comunidades vivem, mas também na forma como as pessoas se percebem enquanto indivíduos e como a subjetividade se desenvolve na contemporaneidade. Alinhado a este pensamento, Nobre, Umbelino e Alves (2021) destacam que a tecnologia está integrada à vida diária das sociedades urbanas e ao seu progresso, com o surgimento constante de novas ferramentas de interação, impactando significativamente as relações e compreensões interpessoais. Assim, dinâmicas de relacionamento interpessoal contemporâneo, tanto no ambiente presencial quanto virtual, estão significativamente permeadas por questões de cunho narcísico (Carvalho, Magalhães, & Samico, 2019; Manno & Rosa, 2018; Moraes & Miranda, 2018).

Dessa forma, com base nos interesses mencionados, este estudo visa refletir sobre essa temática.

Tecendo laços: relações interpessoais na contemporaneidade

A metáfora da “liquidez” de Bauman oferece uma visão aguçada sobre a essência da contemporaneidade, destacando o constante estado de mudança e a transitoriedade que caracteriza a sociedade. Diferentemente dos sólidos, que são estáveis no espaço e pouco afetados pelo tempo, os líquidos estão sempre em constante mutação e são profundamente moldados pelo tempo devido à sua natureza transitória. Líquidos adaptam-se e, por vezes, modificam os sólidos em seu percurso, evidenciando sua mobilidade e versatilidade. Apesar de alguns líquidos serem densos, a “liquidez” é frequentemente ligada à agilidade e à liberdade de movimento, aspectos fundamentais no cotidiano das relações contemporâneas (Bauman, 2001). Neste ambiente dinâmico, as vidas e ações dos indivíduos mudam tão rapidamente que ultrapassam a capacidade humana de se adaptar e criar rotinas consistentes, provocando uma fluidez contínua, tanto na sociedade quanto na vida individual. Consequências disso são percebidas nas conquistas pessoais, que se tornam efêmeras, e nas habilidades e bens que rapidamente se desvalorizam e se tornam obsoletos. Da mesma forma, o aprendizado a partir da experiência passada se torna arriscado, pois as táticas e métodos que funcionaram anteriormente rapidamente perdem sua validade (Bauman, 2007).

Esta realidade de mudança rápida e de busca constante por novas oportunidades tem um reflexo direto na vida e nas relações humanas. O dia a dia se desenrola em alta velocidade, dificultando que as pessoas se conheçam e entendam seus verdadeiros desejos. Contudo, a sociedade contemporânea exalta e, de certa maneira, mercantiliza a saúde mental e o autoconhecimento por meio de discursos e falácias motivadoras, pelas quais a ideia promovida é de que todos podem se tornar e alcançar o que desejam. No entanto, isto pode ser considerado um artifício que, em muitos casos, serve para camuflar tendências egoístas e narcisistas, características perceptíveis no contexto atual. Paralelamente, a aspiração ao bem-estar e à realização pessoal tem impulsionado indivíduos a explorarem diferentes maneiras de interagir e de se relacionar, nas quais conexões se formam ou se rompem conforme interesses dos participantes (Grochka, 2021).

Na contemporaneidade, a rapidez e a adaptabilidade são mais valorizadas, pois o que gera lucro é a rapidez de mudança, descarte e renovação. Dessa forma, em um mundo dominado por grandes poderes que buscam mobilidade e fluidez, as redes sociais e conexões humanas tornam-se, também, frágeis e transitórias (Bauman, 2001). Os vínculos afetivos podem acabar sendo geradores de sentimentos contraditórios e angústias - é essencial que existam conexões sólidas de lealdade e confiança mútua, no entanto, o contexto atual, que pressiona por agilidade, acaba tornando as responsabilidades duradouras um peso (Bauman, 2007). Neste cenário, o capitalismo apresenta o consumo como resposta aos anseios por estabilidade e às demandas por um senso de pertencimento; o padrão de consumo se infiltra em todas as demais esferas da vida, influenciando desde a moda e o saber, até as relações interpessoais e as conexões emocionais (Barbosa, Cruz & Rocha, 2020).

Na sociedade de consumo há uma inclinação para produtos e experiências que ofereçam gratificação imediata, prazer e resultados rápidos, sem a necessidade de esforço duradouro. Isto se estende à forma como percebe-se o amor, erroneamente esperando que este possa ser alcançado ou experimentado de maneira semelhante a uma mercadoria pronta para uso (Bauman, 2004). Grochka (2021); Santos, Gregório e Rosa (2021) destacam sobre a liberdade paradoxal do mundo pós-moderno. Embora ele ofereça uma ampla gama de opções, escolhas e possibilidades de vida, também parece desorientar as pessoas em relação a si mesmas e em seus relacionamentos com outros. Isto se dá devido à abundância de trajetórias e possibilidades ao alcance de todos, gerando desorientação e incerteza.

Desta forma, uma nova perspectiva cheia de oportunidades e em constante mudança pode parecer emocionante, mas também é repleta de incertezas e ansiedades. O desconforto vem da abundância de opções, não da escassez, sendo que com frequência nos questionamos se foi fizemos a melhor escolha possível, uma dúvida que nos perturba (Bauman, 2001). Como resultado, as relações interpessoais tendem a se enfraquecer, criando uma busca constante para preencher o vazio sentido. Birman (2016) enfatiza que o individualismo reflete uma cultura na qual a exibição de si mesmo e o foco no Eu são altamente valorizados, muitas vezes em detrimento das relações e da empatia com os outros. Como consequência, tem-se o enfraquecimento da solidariedade, uma superficialidade nas relações e uma competição desenfreada, em que os outros são vistos apenas como meios para o próprio prazer ou sucesso. Além disso, Barbosa, Campos e Neme (2021) relacionam o atual panorama e a veloz disseminação de notícias trágicas e ameaçadoras com a maneira de estabelecer relações na sociedade vigente. Assim, no contexto contemporâneo, a confiança nas relações humanas é minada, muitas vezes dando lugar a uma postura defensiva ou hostil em uma sociedade que, não raro, encara o outro como um rival.

Repercussões das tecnologias nas relações interpessoais

A partir da análise crítica sobre a influência dos dispositivos móveis nas relações interpessoais, conforme discutido por Bauman (2004), percebe-se que estes se tornaram ícones na quebra de barreiras geográficas. Os equipamentos eletrônicos possibilitam manter-se conectado mesmo em movimento e equalizam as diferenças entre distância e proximidade, propiciando a manipulação da presença e da atenção mesmo estando longe. Contudo, apesar da proximidade virtual tornar mais acessível as ligações interpessoais e a interação constante, ela pode igualmente resultar em relações mais superficiais e passageiras, o que pode ser um empecilho para o estabelecimento de laços mais profundos e perduráveis.

Essa dinâmica complexa e contraditória nas relações humanas encontra ressonância nas reflexões de Santos, Gregório e Rosa (2021) acerca da solidão como um sintoma social da contemporaneidade. Ao fornecer uma saída aparentemente fácil para os desafios da conexão humana, estas interações virtuais podem, inadvertidamente, contribuir para a fragilização dos vínculos e o aprofundamento da solidão. Manno e Rosa (2018) também consideram que as tecnologias contemporâneas redefinem tanto as interações pessoais quanto a constituição dos grupos sociais, priorizando a liberdade e a flexibilidade, ao mesmo tempo que tornam as relações mais frágeis e transitórias.

A proximidade virtual tornou-se preferível por parecer menos arriscada e mais segura do que a interação face a face, levando a um declínio nas habilidades sociais necessárias para a proximidade não-virtual. Estas habilidades podem ser esquecidas ou nunca aprendidas e, muitas vezes, são evitadas ou usadas relutantemente. Quando necessário, o desenvolvimento dessas habilidades pode ser percebido como um desafio difícil ou até mesmo insuperável. A preferência pela proximidade virtual se autoalimenta, criando um ciclo que acelera a sua adoção em detrimento das interações presenciais (Bauman, 2004). Desta forma, é essencial ponderar sobre o impacto que o uso excessivo das tecnologias pode causar nas interações sociais, especialmente considerando como as plataformas digitais podem simultaneamente aproximar pessoas distantes e distanciar aquelas que estão fisicamente perto (Barbosa, Cruz, & Rocha, 2020).

Destaca-se, ainda, a onipresença e a constante conectividade proporcionada pelos celulares. Pessoas que estão sempre em movimento mantém ligações que ali continuam imóveis, criando um espaço em que o usuário está sempre “dentro” e nunca “fora” ou “longe”. Há uma certa irrelevância em relação à localização e à presença física das pessoas que estão em volta, graças às conexões virtuais proporcionadas pelos dispositivos móveis. Mesmo que as pessoas se movam e as situações mudem, as conexões virtuais permanecem estáveis e confiáveis. Se uma chamada ou mensagem for ignorada, há sempre mais opções disponíveis, o que cria uma sensação de segurança e estabilidade em meio a relações transitórias (Bauman, 2004). No panorama contemporâneo, práticas como mensagens instantâneas e relacionamentos por aplicativos destacam-se pela rapidez e pelo anseio de gratificação imediata em um ambiente saturado de informações provenientes de diversos meios, mas que não permite espaço para reflexão ou consolidação de ideias. Existe uma vasta possibilidade de escolhas e qualquer uma pode ser facilmente justificada. Isto reflete um dilema no qual a busca por satisfazer uma ampla gama de indivíduos e necessidades, paradoxalmente, vem configurando uma sociedade que, mesmo imersa em possibilidades, é assombrada por um vazio relacional e emocional, sendo que não há um sentimento real de pertencimento (Nobre; Umbelino e Alves, 2021).

Em consonância, as mídias sociais digitais facilitam a busca por parceiros amorosos e ampliam as possibilidades de amizade, atuando como vitrines pessoais. Contudo, isso também significa que relações podem ser encerradas facilmente, sem a necessidade de tolerar discordâncias ou pessoas que desagradam. Essa facilidade de desconexão se estende à questão da autenticidade online, pois os perfis nas mídias sociais digitais são frequentemente criados para atrair a atenção, podendo levar à manipulação da própria imagem ou ao afastamento de pessoas, temendo não corresponder às expectativas alheias. Isso pode culminar em uma pressão por perfeição, relegando à margem aqueles que não conseguem atingir esse padrão ilusório (Barbosa, Cruz, & Rocha, 2020).

Paralelamente, em um mundo instável e cheio de incertezas, as pessoas sentem cada vez mais necessidade de aprenderem com as experiências dos outros. Estas, em vez de líderes, buscam exemplos a serem seguidos, projetando essa busca nas figuras públicas e celebridades. O interesse na vida privada das figuras públicas cresce, já que as pessoas buscam lições úteis para suas próprias vidas, mesmo que nem sempre encontrem respostas satisfatórias. Essa busca incessante por exemplos, conselhos e orientações pode se tornar uma dependência perigosa, criando um ciclo vicioso de necessidade e sofrimento quando essas “doses” não estão disponíveis. Este comportamento, fundamentalmente autodestrutivo, impede a realização pessoal e a satisfação genuína. Exemplos e fórmulas podem parecer promissores à primeira vista, mas raramente entregam os resultados prometidos, deixando expectativas não atendidas (Bauman, 2001).

Neste contexto, podemos citar a figura do influenciador digital. Profissionais que ganham seguidores e entusiastas em ritmo acelerado, mesmo frente a eventuais desaprovações direcionadas à fugacidade da vida contemporânea (Carvalho, Magalhães, & Samico, 2019). Diferentemente dos heróis e mártires, cuja fama era baseada em suas ações e realizações, as celebridades contemporâneas são famosas principalmente por sua visibilidade e presença constante na mídia. Em síntese, estas personalidades emergem como alvos principais do interesse e estima do público, refletindo e perpetuando a natureza fluida e instável da sociedade contemporânea (Bauman, 2007). Em concordância ao que está sendo discutido, Lasch (1979/2023) afirma que, na sociedade contemporânea, a noção de sucesso foi subjetivada, sendo avaliada mais pela visibilidade e comparação social do que por métricas objetivas próprias. O anseio por reconhecimento e aplauso público superou o valor tradicionalmente atribuído às realizações concretas, com um novo foco na admiração por características pessoais.

Narcisismo e escolhas afetivas

Para entender a influência do narcisismo nas relações objetais, é imprescindível considerar sua interconexão com o amor-próprio e a capacidade de amar e ser amado. O amor-próprio reflete a magnitude do Eu, sendo influenciado pela autoeficácia e por conquistas obtidas, além do remanescente sentimento inicial de onipotência, estando profundamente ligado à libido narcísica. Em termos de relacionamentos e afetos, ser amado eleva a autoestima, enquanto a rejeição diminui. Amar, no sentido de desejar e necessitar, diminui o amor-próprio, mas ser amado e possuir o objeto de amor o restaura. Se alguém sente que não pode amar, seja por razões físicas ou psíquicas, o amor-próprio é abalado gravemente. Também, destaca-se o fato de que na seleção narcísica de objeto, ser amado é o desejo e propósito principal (Freud, 1914/2010).

É importante compreender se os investimentos amorosos (objetos libidinais) estão alinhados com o próprio Eu ou se foram reprimidos. Quando alinhados, amar é como qualquer outra função do Eu, e se o desejo é reprimido, o amor é percebido como um enfraquecimento do Eu e a satisfação torna-se inalcançável, sendo que, ao retirar a libido dos objetos, o Eu irá novamente se fortalecer. Quando a libido retorna ao Eu, é como se o amor fosse reavivado, lembrando um amor genuíno e inicial, em que o amor por si mesmo e pelo outro eram indistintos (Freud, 1914/2010).

Assim, parte do amor-próprio vem diretamente do narcisismo da infância, enquanto outra parcela surge da realização do ideal do Eu. Há ainda uma terceira parte que advém da satisfação dos desejos amorosos direcionados a outros. O ideal do Eu, por vezes, dificulta a expressão completa dos desejos objetais, pois pode rejeitá-los por considerá-los inapropriados. Sem esse ideal restritivo, certas inclinações sexuais têm espaço para manifestar-se livremente, podendo ser consideradas como perversões. O que se busca aqui é retornar ao estado de ser o próprio modelo, especialmente em relação aos impulsos sexuais, assim como na infância, na qual o sujeito é inicialmente o próprio ideal (Freud, 1914/2010).

“Então a pessoa ama, em conformidade com o tipo da escolha narcísica de objeto, aquilo que já foi e que perdeu, ou o que possui os méritos que jamais teve” (Freud, 1914/2010, p. 34). O que se ama possui as características que faltam ao Eu para torná-lo ideal; isto é especialmente relevante no caso dos neuróticos, que frequentemente investem demais em outros, empobrecendo-se internamente e não atingindo seu ideal do Eu. Há uma tentativa de retorno ao narcisismo escolhendo um parceiro amoroso que detenha os atributos que sentem ausentes em si, os quais considera inalcançáveis. Isso é chamado de “cura pelo amor,” uma tentativa de sanar suas próprias deficiências através do relacionamento.

No contexto da terapia, alguns pacientes esperam que a relação com quem os atende preencha este vazio. Um grande complicador para o processo de tratamento é a dificuldade deste paciente em amar, resultado de suas profundas repressões. Se, durante o processo, as repressões do sujeito forem diminuindo, ele pode abandonar a terapia em busca de um relacionamento amoroso como forma de “cura”, embora isso possa ser arriscado e criar dependência pela figura escolhida (Freud, 1914/2010). Desta forma, pode-se considerar que a natureza dos relacionamentos, sob uma perspectiva narcísica, faz com que a pessoa tenda a buscar relacionamentos de acordo com quatro aspectos essenciais: “O que ela é”, pela ausência de um ideal e consequentemente da repressão, o indivíduo busca ser o seu próprio ideal. Ele ignora as imposições externas, perseguindo a satisfação plena de seus desejos, amando-se de acordo com sua essência intrínseca; “O que ela foi”, devido ao ideal e à repressão, o indivíduo reinveste sua libido no próprio Eu, distanciando-a dos objetos externos. Assim, assimilando-se ao narcisismo primário, pois o sujeito coloca-se como o centro das atenções, desejando ser amado, conforme no passado; “O que ela gostaria de ser”, o amor é direcionado para características que o sujeito sente que lhe faltam, características essas que o tornariam ideal. A partir disso, ama-se de acordo com seus ideais pessoais e; “A pessoa que foi parte dela”, ao enfrentar obstáculos reais o indivíduo passa a amar aquilo que já viveu, mas que, por razões diversas, não pode mais retomar. Aqui, ama-se alguém que já foi, uma extensão de si mesmo no passado (Freud, 1914/2010).

Narcisismo e desamparo nas relações interpessoais contemporâneas

Barbosa, Campos e Neme (2021) abordaram a temática do narcisismo na contemporaneidade e sua relação com o desamparo traumático. O desamparo é um elemento central na construção da subjetividade, pois traz consigo a influência do outro como uma figura de diferença, ao mesmo tempo que é essencial para a formação dos mecanismos defensivos e para a capacidade de transformar experiências não nomeadas em representações simbólicas. No entanto, uma vez que não é possível assegurar de que maneira o outro reagirá às demandas que lhe são requeridas, isto pode gerar incertezas e potenciais conflitos.

Diante desta realidade, uma postura narcísica e defensiva pode ser adotada, em que o outro é frequentemente percebido como ameaça e não como suporte ou referência, levando o indivíduo a centrar-se exclusivamente em si próprio. O panorama contemporâneo das relações humanas parece carecer de confiabilidade e de garantias sólidas de apoio, assim, o desafio reside em balancear a vulnerabilidade inerente com a habilidade de estabelecer conexões genuínas, evitando o recuo para comportamentos defensivos e narcisistas (Barbosa, Campos, & Neme, 2021).

Carvalho, Magalhães e Samico (2019) também investigaram acerca do desamparo, analisando o Instagram e sua relação com o narcisismo como meio de enfrentamento desta condição. Eles apontam para o declínio de instituições simbólicas tradicionais como a família, a escola e a Igreja, que antes influenciavam na formação da identidade e no fornecimento de sensação de segurança. Embora, na contemporaneidade, o sujeito encontre mais liberdade para tomar suas próprias decisões, estas vêm com o custo do desamparo, ou seja, há uma sensação de estar só na construção da própria vida e identidade, sem o suporte anteriormente oferecido por tais instituições. As plataformas sociais acabam tornando-se refúgios na busca por validação e defesa contra o desamparo, refletindo uma manifestação contemporânea do narcisismo. O narcisismo aparece, então, como uma defesa contra o desamparo, com o sujeito contemporâneo buscando apoio em plataformas digitais para se sentir validado e amparado, face à ausência de direção das instituições simbólicas de outrora.

Birman (2016) chama atenção para os obstáculos enfrentados pela sociedade em relação à vida em comunidade e ao aumento de características narcísicas, sendo que, a falta de ideais unificadores resulta em um reforço do narcisismo, em que os indivíduos e grupos sociais buscam prazeres isolados, sem a existência de mecanismos sociais para regular impulsos destrutivos. Isto leva a uma priorização do gozo individual, em que a violência emerge como expressão dessa dinâmica, caracterizada pela crença na própria superioridade e na exploração do outro para satisfação pessoal.

Lasch (1979/2023) aponta que, embora envolto na ilusão de poder, o narcisismo é marcado por uma intensa busca por validação externa. O sujeito narcisista é profundamente dependente dos outros para sentir-se valorizado; ele precisa de elogios alheios e de uma constante audiência que o admire para manter sua autoestima. A aparente independência que demonstra em relação aos vínculos familiares e sociais não o torna livre para seguir seu próprio caminho ou encontrar felicidade em sua singularidade. Essa falsa sensação de liberdade o deixa ainda mais inseguro, e ele só consegue aliviar tal insegurança quando vê seu próprio Eu exaltado refletido na admiração dos outros, ou quando se associa a pessoas famosas e poderosas.

Manno e Rosa (2018), por sua vez, evidenciam que há um desligamento das relações sociais complexas e autênticas em favor de uma conexão a imagens ou ideias estereotipadas, que são mais simples e previsíveis, mas também superficiais e recorrentemente distorcidas. Enfrentar a realidade está se tornando cada vez mais desafiador, levando a uma crescente procura por satisfação imediata como estratégia para lidar com as complexidades da vida real. Neste contexto, a busca por aprovação nas mídias sociais digitais, evidenciada pelo número de “curtidas” e “seguidores”, serve como um elemento que pode levar à dependência. Isto acontece porque esses indicadores fornecem uma maneira instantânea de experimentar sentimentos de afeto e admiração, permitindo um acesso direto e ágil ao prazer.

A constante exibição de si e a busca por validação nas mídias sociais digitais refletem um anseio narcísico de ser admirado, permitindo aos usuários apresentarem-se da forma que desejarem, independentemente da realidade. Isto pode gerar um ciclo de satisfação temporária e a necessidade contínua de produzir conteúdo para atrair mais atenção, refletindo o que Freud aborda sobre a necessidade de um retorno ao estado primitivo de ser o centro das atenções, mas também pode representar insatisfações e comparações. Além disso, a aparente liberdade de expressão esconde uma realidade de vigilância e controle, com a busca pelo prestígio online, paradoxalmente, levando à própria submissão do sujeito. (Carvalho, Magalhães, & Samico, 2019; Rodrigues, Silveira, & Correa, 2020).

Conforme Lasch (1979/2023), a sociedade manifesta tendências narcisistas de duas formas distintas. Em primeiro lugar, aqueles que exibem traços narcisistas frequentemente alcançam posições de visibilidade e influência, nutrindo-se da admiração do público. Tais personalidades influenciam tanto a esfera pública quanto a privada, visto que a celebridade não distingue entre as duas. Em segundo lugar, a sociedade capitalista contemporânea não apenas destaca indivíduos narcisistas, mas também incentiva e intensifica comportamentos narcísicos na população em geral, enquanto enfraquece a autoridade dos pais e figuras de poder. Isto interfere no amadurecimento dos jovens e promove uma dependência burocrática que impede as pessoas de superarem os medos da infância e de encontrarem satisfação na vida adulta.

Em consonância com esta perspectiva, Moraes e Miranda (2018) investigaram sobre a conexão entre publicidade e narcisismo na contemporaneidade. A partir da análise de slogans publicitários, revelou-se um direcionamento atual da publicidade para a promoção de ideais narcísicos como felicidade, liberdade e poder, relegando as características tangíveis do produto a um plano secundário. A constante promoção de padrões narcísicos inatingíveis pela publicidade, combinada com uma sociedade em que as pessoas recorrem a defesas narcísicas para lidar com a incerteza e a vulnerabilidade, leva a um menor investimento emocional em objetos e ao aumento do foco no próprio Eu, direcionando predominantemente a libido a este último. Segundo Lasch (1979/2023), a publicidade não visa a satisfação dos desejos existentes, mas a criação de novos, gerando ansiedade e insatisfação. Ela encoraja a aspiração por um estilo de vida de elite, causando o descontentamento das pessoas com suas próprias vidas.

Método

O presente estudo adotou uma abordagem de pesquisa qualitativa, de caráter descritivo, exploratório e interpretativo. Este tipo de delineamento auxilia na compreensão de um fenômeno - realizou-se, também, uma análise de conteúdo, segundo preceitos de Laville e Dionne (1999). Como fonte deste trabalho foi utilizado o episódio Queda Livre, de 2016, que faz parte da série Black Mirror. Este primeiro episódio da terceira temporada retrata uma sociedade em que a vida é totalmente influenciada pelas avaliações recebidas em um aplicativo, pelas postagens nestas mídias sociais digitais, pelo comportamento das pessoas e pela imagem que projetam. No contexto dado, as notas variam de 0 a 5 estrelas, e os personagens podem avaliar qualquer pessoa com quem interagem, o que impacta diretamente na pontuação geral de cada indivíduo. Uma pontuação elevada garante prestígio e acesso a privilégios, enquanto uma baixa restringe oportunidades. O escore pode determinar a qualidade do emprego, da moradia, o acesso a determinadas viagens, a possibilidade de alugar um bom carro, entre outros serviços.

Neste contexto, os cidadãos vivem sob pressão para manter as aparências, com relações superficiais e movidas por interesse. O que está em jogo é a aprovação social, levando muitos a sacrificar sua autenticidade. Tal como a protagonista “Lacie”, muitos aspiram alcançar uma pontuação alta e, consequentemente, prestígio social, como morar em um condomínio de elite, com descontos exclusivos para aqueles com nota acima de 4.5. Lacie possui a nota 4.2 e busca meios para elevá-la rapidamente. Uma oportunidade surge quando Naomi, uma velha “amiga” com alta pontuação, a convida para ser dama de honra em seu casamento. Lacie é alertada pelo irmão sobre os danos que Naomi já havia causado no passado, quando eram mais íntimas. Ignorando os alertas de seu irmão, Lacie se mostra extremamente entusiasmada com o convite, e determinada a aumentar sua pontuação prepara um discurso elogioso, conforme solicitado por Naomi. A jornada de Lacie para chegar até o casamento é tumultuada e após uma série de contratempos, sua pontuação cai drasticamente, levando Naomi a desfazer o convite por temer uma má reputação. Lacie, desesperada e revoltada, invade o casamento e, pela primeira vez, desabafa sinceramente. Este ato culmina em sua prisão, mas, paradoxalmente, é na cela que ela encontra a verdadeira liberdade, expressando-se genuinamente.

O episódio foi assistido repetidamente, permitindo a seleção de cenas específicas e seu agrupamento em categorias de análise. Além disso, foi empregada a estratégia de emparelhamento, a qual liga dados coletados a um modelo teórico para compará-los. Assim, foram selecionados recortes de cenas que, ao serem agrupados, resultaram em três categorias emergentes: Mídias Sociais Digitais: Espaço de Sonhos e Reconhecimento; Comportamentos e Relações Regidas pelo Social; e Influência Social na Busca pela Satisfação Pessoal.

Discussão

Realiza-se uma possível compreensão acerca da temática articulando-se aspectos teóricos e algumas cenas do artefato cultural. Ressalta-se que as cenas podem ser consideradas como metáforas da realidade contemporânea, ilustrando possíveis interferências das mídias sociais digitais na imagem que os indivíduos desejam projetar ao mundo, embora esta imagem, muitas vezes, não corresponda à realidade cotidiana.

Em relação à primeira categoria “Mídias Sociais Digitais: Espaço de Sonhos e Reconhecimento”, pode-se identificar em algumas cenas um contínuo esforço dos personagens na busca por uma aprovação alheia, bem como um intenso anseio por reconhecimento e status social no âmbito das mídias sociais digitais. Conforme Colnago (2015), estas plataformas podem ser entendidas como um espaço em que interações sociais acontecem, atuando como um meio de transmissão social, no qual, de acordo com Kemp (2024), mais de 66% da população mundial está presente. Na sociedade ilustrada pelo artefato, os indivíduos estão continuamente conectados a seus dispositivos eletrônicos, e por meio de uma plataforma de mídia social, eles são avaliados e, também, avaliam os outros. Esta representação se assemelha às dinâmicas observadas nas mídias sociais contemporâneas, nas quais as estrelas usadas para avaliação podem ser equiparadas aos “likes” e “curtidas”.

Neste contexto, é possível perceber nas cenas selecionadas, como indivíduos, motivados pela visibilidade e comparação social, adotam estratégias para moldar e exibir uma imagem de sucesso que ressoe ideais narcísicos presentes na contemporaneidade, os quais influenciam tanto na percepção de si mesmos quanto em suas aspirações. De acordo com Moraes e Miranda (2018), a publicidade frequentemente vincula produtos a ideais, como felicidade, liberdade e poder, atribuindo-lhes qualidades intangíveis. Isto pode ser exemplificado com a cena na qual Lacie é exposta a estratégias de marketing ao visitar um condomínio, sugerindo que morar neste local pode satisfazer ideais de beleza, amor e felicidade. Além disso, o condomínio oferece descontos para “influenciadores premium”, e Lacie, que já era preocupada com sua pontuação, passa a valorizá-la ainda mais. Em outra cena, pode-se perceber que Lacie está determinada a melhorar sua avaliação social e, para tanto, contrata os serviços de um consultor de reputação.

Conforme Lasch (1979/2023), a sociedade contemporânea não apenas confere visibilidade e influência aos indivíduos que demonstram características narcisistas como também promove e reforça comportamentos narcisistas. Segundo Bauman (2004), destaca-se também a crescente procura por especialistas que ofereçam orientações para a vida pessoal e social dos indivíduos, encorajando o sujeito a adotar estratégias de autocuidado e a avaliar criticamente seus relacionamentos e escolhas sociais. Há uma transformação nos conceitos de sucesso e fama na sociedade contemporânea, em que a visibilidade e a comparação social têm suplantado as métricas objetivas de realizações, destacando-se aqueles com determinado status social (Bauman, 2007; Lasch, 1979/2023).

As pessoas não apenas criam, mas também refinam suas experiências e imagem virtual, muitas vezes moldadas pelas expectativas externas. É possível exemplificar esta dinâmica na cena em que Lacie compartilha uma foto em sua mídia social, com uma descrição que não corresponde à sua verdadeira experiência. Mesmo assim, pode-se perceber a satisfação e alegria imediata dela ao receber as avaliações positivas, que logo substituem o desprazer de sua experiência real. Neste contexto, Manno e Rosa (2018) consideram que, na contemporaneidade, há uma tendência pela busca de gratificação imediata, que acaba sendo atendida com o uso de plataformas como o Instagram. A busca por validação em mídias sociais digitais, através do número de “curtidas” e “seguidores”, torna-se uma via rápida para se obter afeto e admiração, proporcionando um acesso imediato ao prazer. Carvalho, Magalhães e Samico (2019) enfatizam que o Instagram se transformou em um espaço no qual todos podem retratar uma versão idealizada de suas vidas diárias. Consoante à ideia, destacam-se as postagens de Naomi, as quais são claramente idealizadas, representando uma vida socialmente desejável e bem-sucedida, retratando uma vida aparentemente perfeita. Conforme Bauman (2007) e Lasch (1979/2023), na contemporaneidade, a visibilidade, a presença constante na mídia e as características pessoais emergem como os principais focos de atenção e admiração do público. Pode-se perceber que Naomi está envolvida em uma dinâmica de observar e ser observada, que promove uma contínua comparação com os outros. Isto não só influencia a maneira como os indivíduos se percebem e aspiram ser vistos, mas também pode intensificar sentimentos de inadequação ou insatisfação diante de representações idealizadas e “perfeitas” (Carvalho, Magalhães, &; Samico, 2019).

No que diz respeito à segunda categoria, “Comportamentos e Relações Regidas pelo Social”, aborda-se acerca de dinâmicas sociais contemporâneas marcadas por uma ênfase no egocentrismo, as quais podem conduzir a interações superficiais e relações baseadas em conveniência, para obtenção de benefícios pessoais, em detrimento de autenticidade e empatia genuínas. No entanto, é crucial destacar que, de acordo com Freud (1914/2010), o narcisismo é uma extensão libidinal essencial para a preservação individual, sendo, portanto, de grande importância. Porém, em adultos saudáveis, a megalomania tende a diminuir, assim como os vestígios de narcisismo infantil - o narcisismo desempenha um papel fundamental na estruturação do desenvolvimento humano, englobando o amor-próprio, que está intrinsecamente conectado à libido narcísica. Nesta conjuntura, como discutido por Birman (2016), o individualismo, fortemente presente na contemporaneidade, espelha uma sociedade que privilegia a autopromoção e a centralidade do “Eu”, em prol das interações sociais autênticas e da capacidade empática para com o outro. Esta dinâmica pode ser identificada no artefato cultural analisado, quando um grupo de colegas de trabalho de Lacie reagem negativamente, dando-lhe baixas avaliações, após ela se aproximar de um outro colega que precisa melhorar sua pontuação para manter o emprego. Apesar de não concordar com a exclusão do colega, ela e alia ao grupo para manter sua pontuação.

Conforme destacado por Grochka (2021), embora a promoção da diversidade de pensamentos e ações seja valorizada na contemporaneidade, frequentemente é deixada de lado quando há riscos aos interesses pessoais, prevalecendo o egoísmo. Desta forma, como sugerido por Bauman (2004), as interações refletem a modernidade líquida e uma fragilidade nas conexões humanas no mundo contemporâneo. Em relação a este panorama, destaca-se a cena em que Lacie conversa com seu irmão após receber uma chamada inesperada de Naomi, que a convida para ser sua dama de honra. Visivelmente feliz, Lacie prontamente aceita. Seu irmão questiona como elas podem parecer tão íntimas após várias desavenças que ocorreram no passado. A chamada de Naomi a Lacie pode mostrar que, apesar do tempo e da distância, a conexão virtual permanece através de postagens na mídia social. Esta conexão pode ser manipulada para criar uma falsa intimidade, refletindo a complexidade e a frivolidade das relações mediadas pelo digital. Importante ressaltar que a decisão de Naomi em convidar Lacie para ser sua dama de honra é revelada como uma estratégia para melhorar sua própria imagem social, mas, ao perceber que isso não surtiria o efeito desejado, ela decide cancelar o convite. Este utilitarismo das relações é destacado por Barbosa, Campos e Neme (2021), que consideram como o outro, muitas vezes, é encarado como um recurso a ser explorado, sendo que, quando deixa de servir ao propósito, pode ser prontamente dispensado e trocado. De igual maneira ocorre quanto à motivação de Lacie para participar do casamento, impulsionada pelo desejo de melhorar sua pontuação, sendo que ela prontamente entra em contato com a corretora do imóvel que deseja alugar.

Ademais, a preparação do discurso de Lacie para o casamento de Naomi e a subsequente desaprovação de seu irmão, que critica a falta de veracidade deste, salientam a contradição entre a busca por conexões genuínas e a realidade de interações superficiais e performáticas. Manno e Rosa (2018) refletem que, como consequência da prevalência de características narcisistas na sociedade, a adesão a estereótipos tende a se sobressair em relação às conexões profundas e autênticas.

Quanto à terceira categoria, “Influência Social na Busca pela Satisfação Pessoal”, pode-se identificar uma confrontação, não apenas com o desfecho da trama, mas também com reflexões sobre a natureza da satisfação pessoal e sua relação com as expectativas sociais. Nesta categoria final discute-se acerca da percepção e da busca pela felicidade/satisfação, podendo estas serem moldadas por influências externas e pressões sociais, assim como a forma de enfrentamento de desafios relacionados à aceitação, rejeição e frustração, diante do uso da tecnologia como um dos principais mediadores relacionais. Santos, Gregório e Rosa (2021) mencionam o paradoxo da “aproximação distante” em relações virtuais, nas quais as pessoas podem evitar enfrentar situações desconfortáveis, optando por interações controladas no online, esquivando-se das frustrações inerentes à vida humana. Este fenômeno pode resultar em uma carência no desenvolvimento de competências necessárias para gerenciar interações não-virtuais, especialmente no que se refere ao manejo da rejeição e da frustração.

No artefato, pode-se considerar que Lacie não consegue lidar eficazmente com a rejeição e a frustração, manifestando sua irritação de maneira impulsiva e ríspida com aqueles que lhe deram carona - logo após, recorre ao álcool, assim como a um comportamento insensato para atingir seu objetivo, que é chegar ao casamento; o qual invade, embriagada e desorientada, com comportamentos autodestrutivos e inadequados. Conforme Manno e Rosa (2018), pessoas que desenvolvem dependência da internet, frequentemente demonstram níveis reduzidos de autoestima, baixa capacidade em lidar com a frustração e dificuldades na interação social presencial. Para estes usuários, o ambiente virtual se torna um espaço que atende suas necessidades de autoestima e reconhecimento social.

É possível considerar que Lacie sempre buscou por uma aprovação externa, e pode-se pensar que a rejeição de Naomi abalou ainda mais sua autoestima. Já em relação à natureza do tipo de escolha afetiva de Lacie, pode-se pensar que ocorre sob uma perspectiva narcísica, na qual se ama de acordo com “O que gostaria de ser”. Em um momento, Lacie deixa claro que sempre quis ser como Naomi e, mesmo após todas as situações vivenciadas, diz que a ama. Neste caso, o amor édirecionado para características que o sujeito sente que lhe faltam, características essas que o tornariam ideal. Assim, ama-se de acordo com seus ideais pessoais (Freud, 1914/2010). Já no caso de Naomi, que se preocupa apenas com seu status social e aplauso público, pode-se identificar que se ama de acordo com “O que se foi”. Conforme Freud (1914/2010), neste caso, o indivíduo reinveste sua libido no próprio Eu, distanciando-se dos objetos externos. Assim, o sujeito coloca-se como o centro das atenções, desejando ser amado, conforme no passado, sendo que, em ambos os casos, é a validação do outro que dita o caminho para a satisfação.

Nesta conjuntura, conforme Bauman (2004), os indivíduos, particularmente aqueles que se sentem fracos ou amedrontados, podem ser atraídos para coletividades em busca de força e pertencimento. Aderir à coletividade é uma forma de compensar a falta de autoestima e poder individual. No entanto, essa busca por segurança é ilusória e problemática porque exige a suspensão, ou mesmo o abandono da individualidade. O coletivo que promete salvação e autoestima compensatória é o mesmo que condiciona a admissão à perda da individualidade do sujeito. Esse processo é uma troca perigosa, em que a individualidade é sacrificada por uma ilusão de segurança e pertencimento, oferecendo apenas um refúgio temporário. Essa dinâmica pode ser ilustrada a partir de uma cena em que a pessoa que deu carona para Lacie relata como mudou sua perspectiva sobre a importância excessiva dada à aprovação social, escolhendo a sinceridade e a autenticidade, independentemente das consequências para sua pontuação. Ela relata que só conseguiu reavaliar seu estilo de vida após experienciar um evento que a abalou profundamente, descrevendo que essa transformação foi como “tirar sapatos apertados”.

De maneira similar, pode-se considerar que Lacie também sacrifica sua individualidade e autenticidade em busca do que acredita ser o caminho para a felicidade, demonstrando conformismo. É ainda importante salientar que, embora preservar a individualidade seja essencial, a exaltação demasiada dessa pode ser prejudicial. De acordo com Birman (2016), esse comportamento de exagerada individualidade pode levar à falta de engajamento em projetos sociais coletivos e à predominância de uma busca isolada por gratificação imediata, em que a solidariedade é deixada de lado, dando espaço ao egocentrismo, como discutido anteriormente. Alinhado a isso, Lacie descarta o roteiro de seu discurso para o casamento e expressa suas verdadeiras emoções e pensamentos sobre sua relação tumultuada com Naomi, revelando as fissuras presentes em sua fachada construída socialmente. Desta forma, pode-se perceber que a decisão de Lacie em permanecer fiel a si mesma, apesar das consequências, uma vez que é levada à prisão, finalmente se liberta das expectativas sociais. Paradoxalmente, é na prisão que Lacie encontra uma liberdade para expressar-se verdadeiramente.

Considerações finais

Reportando ao objetivo do estudo, pode-se considerar que a discussão permitiu auxiliar na elucidação e reflexão acerca de possíveis articulações entre as mídias sociais digitais e as características narcísicas presentes nas relações interpessoais da contemporaneidade. Percebe-se que estes elementos não apenas interagem, mas também se influenciam mutuamente, moldando dinâmicas sociais. Neste cenário, de acordo com Barbosa, Cruz e Rocha (2020), a tecnologia desempenha um papel central como mediadora nas interações interpessoais, impulsionada pelo progresso do capitalismo e pela centralidade do ser humano. Alinhado à perspectiva, como abordado por Bauman (2001), na contemporaneidade, a ênfase recai sobre a fluidez, o descarte e a mobilidade, elementos que se manifestam nas conexões humanas, os quais se tornam igualmente fugazes e superficiais. Desta forma, consumidores habituados a produtos descartáveis e facilmente substituíveis podem achar inútil dedicar tempo e esforço à manutenção de um relacionamento (Bauman, 2007). Considerando as mídias sociais digitais como importantes mediadores de relacionamentos, a discussão se alinha à premissa de que estas podem não apenas refletir relações já marcadas por utilitarismo e superficialidade devido ao contexto social, mas também intensificar e perpetuar traços narcisistas, funcionando simultaneamente como espelho e motor destas características nas relações interpessoais contemporâneas, mediante a busca pelo aplauso virtual. Esta dinâmica pode fomentar relações em que a empatia e o interesse genuíno pelo outro são frequentemente secundarizados em favor do auto engrandecimento e da satisfação narcísica.

A análise das três categorias delineadas permite pensar sobre alguns aspectos do complexo entrelaçamento entre as mídias sociais digitais e as características narcísicas que permeiam as relações interpessoais na contemporaneidade. Essa interação recíproca, conforme abordado, pode moldar a autopercepção dos indivíduos, bem como seu comportamento e a busca por satisfação, em um contexto cada vez mais dominado pelo engajamento digital, no qual o narcisismo encontra respaldo no aplauso virtual.

Neste sentido, entende-se que as mídias sociais digitais desempenham um papel essencial no dia a dia de muitos de nós, portanto, seria hipocrisia demonizar algo tão integrado ao cotidiano de inúmeras pessoas. Contudo, considera-se fundamental refletir a partir de um pensamento crítico acerca da influência que determinados conteúdos podem exercer sobre as percepções individuais relacionadas a si e aos outros, uma vez que tais influências tendem a impactar também as relações interpessoais. Compreende-se, assim, que a temática escolhida está longe de ser esgotada e pode ser investigada sob diversas outras perspectivas teóricas. Por fim, destaca-se a importância de futuras investigações que possam explorar ainda mais a intrincada relação destes aspectos na contemporaneidade, bem como a realização de estudos que permitam elucidar possíveis intervenções, visando mitigar os potenciais efeitos adversos oriundos desta interação.

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Recebido: 28 de Outubro de 2024; Aceito: 10 de Novembro de 2024

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