Introdução
O Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS) celebrou 35 anos de sua fundação, uma trajetória que remonta à década de 1980 e está entrelaçada com a história pessoal de sua atual presidente, Déborah Pimentel. Este trabalho visa consolidar e compartilhar as memórias institucionais, reconhecendo o passado e o presente da instituição, bem como refletir sobre os desafios e as oportunidades para o futuro da psicanálise em Sergipe.
A história do Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS) está intrinsecamente ligada à jornada de Déborah Pimentel, que, desde 1982, já se conectava ao Círculo Psicanalítico da Bahia (CPB), inicialmente fazendo sua análise com Adilson Peixoto Sampaio. Algum tempo após o início da sua análise pessoal, Déborah foi convidada a participar de uma seleção de candidatos para formação em psicanálise pelo CPB e conheceu, em uma entrevista institucional, o psicanalista Carlos Pinto Corrêa, fundador do CPB em 1971. Ali surgiu o sonho da fundação do CPS.
Em 1988, Déborah já era psicanalista, membro da diretoria do CPB, na ocasião presidido por Celso Vilas Boas. Naquele momento, ela decidiu retornar à Aracaju com o objetivo de estabelecer-se profissionalmente e estar mais próxima de sua família e, em 18 de março deste ano, inaugurou o seu consultório particular e a sede embrionária do CPS.
Um ano após este marco, a psicanalista Edméa Oliva Costa teve o seu lugar de psicanalista reconhecido pelo CPB e decidiu também retornar à Aracaju. O encontro entre Déborah e Edméa mudou a história da Psicanálise no estado de Sergipe (Pimentel, 2004).
Com o apoio do CPB, em especial dos psicanalistas Carlos Pinto Corrêa, Adilson Peixoto Sampaio, Celso Vilas Boas, Marli Piva Monteiro e Eny Iglesias, nasceu, em 27 de julho de 1989, o Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS), ainda de forma embrionária, como um grupo de estudos. A ata de fundação foi datada posteriormente, 06 de outubro de 1989, e marcou o início da formação de três candidatas: Claire Pezzi, Magali Lima e Selma Araújo.
No ano de 1990, o 11° presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) era Johannes Hubertus Dousi, um holandês, mais conhecido pelos colegas e amigos como Renato, do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais (CPMG). Deborah Pimentel fazia parte daquela diretoria nacional, por indicação de Carlos Pinto Corrêa, ao lado de Marco Baggio (CPMG), Clóvis Bicalho (CPMG), Luiz Viegas (CBP-RJ) e Eliana Mendes (CPMG). Na ocasião, em Assembleia Geral, durante o VIII Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise e I Fórum Brasileiro de Psicanálise, o CPS foi reconhecido como a mais nova unidade do Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) e membro da International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS). Era a consolidação do sonho e do trabalho das duas jovens médicas e psicanalistas, Déborah Pimentel e Edméa Oliva Costa, em nome da Psicanálise no estado de Sergipe (Pimentel, 2004).
Sobre o Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP), Mendes e Ribeiro (2018) falam de sua fundação – inicialmente, adotou-se o nome de Círculo Brasileiro de Psicologia Profunda –na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, ano de 1956, por meio de Malomar Lund Edelweiss, dentre outros nomes, e com a ajuda de Igor Caruso, fundador do Círculo Vienense de Psicologia Profunda. Com o tempo, passou-se a uma federação de sociedades psicanalíticas em vários estados brasileiros. A mudança de nome, para Círculo Brasileiro de Psicanálise, ocorreu em 1971 (Mendes & Ribeiro, 2018).
De acordo com informações disponibilizadas nos sites do Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS, 2024), do Círculo Brasileiro de Psicanálise – Seção Rio de Janeiro (CBP/ RJ, 2024), e do Círculo Psicanalítico da Bahia (CPB, 2024), em 1970, o Círculo Brasileiro passou a fazer parte da International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS). Esta foi fundada em Amsterdã, em 1962, de modo a congregar muitas sociedades psicanalíticas em vários países do mundo, sendo que a IFPS está vinculada ao conceito de pluralismo na psicanálise. Desenvolve várias ações neste sentido, como os eventos internacionais de psicanálise e as publicações de sua revista, intitulada International Forum of Psychoanalysis.
Djalma Teixeira de Oliveira (1969) nos fala, no editorial do primeiro número da revista Estudos de Psicanálise da federação nacional Círculo Brasileiro, que Igor Caruso está ligado à formação de inúmeros “Círculos”, além do Círculo Vienense. Ele também destaca a importância da revista do Círculo Brasileiro, com seus trabalhos ligados à psicanálise.
Mendes e Ribeiro (2018), por sua vez, expressam que a pluralidade é a marca do Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP), por acolher e articular posições distintas no que tange ao estudo da psicanálise, respeitando as escolhas. Salientam que o CBP tem posição participativa junto à sociedade, importante presença nas reuniões do Movimento de Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, e citam o livro Ofício do psicanalista: formação vs regulamentação(2009), com capítulo de Anchyses Jobim Lopes e Maria Mazzarello Cotta Ribeiro.
O CPS amadureceu e, ao longo da sua história, formou diversos psicanalistas: fundou a Clínica Social da instituição como meio de cumprir as atividades da formação de candidatos, mas, principalmente, de oferecer à sociedade atendimento psicanalítico de qualidade com valores acessíveis; e promoveu os mais diversos eventos de caráter local e nacional, recebendo os mais renomados psicanalistas, a exemplo de Joel Birman, Oscar Cesarotto, Maria Rita Kehl, Renato Mezan, Garcia Roza, Zeferino Rocha, e tantos outros.
Entre muitos eventos promovidos pelo CPS, é relevante citar o XVII Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise, que aconteceu em 2008, em Aracaju, com mais de 400 inscritos e 60 palestrantes - um evento de caráter nacional que mostrou a força institucional do CPS no menor estado da Federação. Neste evento, o CPS inovou, bem como, com o apoio das Professoras Doutoras Maria Jésia Vieira, Déborah Pimentel e Maria das Graças Araújo, publicou os Anais, intitulados Interfaces entre a Psicanálise e a Psiquiatria.
O sucesso do evento deveu-se ao esforço do CPS e teve grande repercussão graças à parceria com a Associação Sergipana de Psiquiatria, liderada pelo psiquiatra José Hamilton Maciel Silva Filho, ao apoio da Academia Sergipana de Medicina, que também era presidida por Déborah Pimentel, e da Sociedade Médica de Sergipe, que sempre foi sensível aos eventos e publicações da categoria, sob a presidência do neurologista Petrônio Gomes à época. Na ocasião do evento, Déborah assumiu a presidência do Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP), ao lado de Cleo Mallmann, psicanalista do Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul (CPRS), como vice-presidente (2008-2010). Naquela gestão, tornaram-se editores da Revista Estudos de Psicanálise, publicação do CBP, Déborah Pimentel e Ricardo Azevedo Barreto, também membro da Comissão do XVII Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise.
Com o passar dos anos, o CBP alcançou, em 2009, com o número 32 da revista, marca histórica de lutas e conquistas. Naquele volume comemorativo dos 40 anos do periódico, produzido pelo CPS, procurou-se estabelecer um recorte da pluralidade fecunda do pensamento psicanalítico, com contribuições de importantes membros do CBP, CPS e de expoentes de diferentes instituições de nosso país. Foi feito pelos editores Déborah Pimentel e Ricardo Azevedo Barreto um trabalho para conquistar, com sucesso, uma maior periodicidade da revista que passou a ser bianual daquele período em diante.
Novamente, de 2014 a 2017, em duas gestões subsequentes, o CPS, com o psicólogo e psicanalista Ricardo Azevedo Barreto, presidiu o CBP e teve Déborah Pimentel, como vice-presidente, e Claire Pezzi, como tesoureira.
Na atual gestão, presidida por Anna Lúcia Lopez (CBP-RJ), assim como aconteceu em muitas gestões passadas, Déborah Pimentel permanece na comissão científica do CBP, e Ricardo Azevedo Barreto mantém-se como um dos editores da Revista Estudos de Psicanálise. Renata Franco Leite participa, na gestão atual, da comissão de divulgação do CBP e é representante do CPS junto à comissão de Clínicas Sociais do CBP.
A participação do CPS também ocorre na International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS), por meio dos trabalhos sergipanos de Déborah Pimentel (CPS) e Ricardo Azevedo Barreto (CPS), apresentados nos eventos internacionais. Junto à IFPS, atualmente, Ricardo Azevedo Barreto (CPS) e Anchyses Jobim Lopes (CBP/RJ) são do grupo de editores regionais da revista International Forum of Psychoanalysis. Eliana Mendes (CPMG) foi do grupo de editores regionais por um longo período da International Forum of Psychoanalysis, e é delegada da IFPS há muitos anos, atualmente junto com Anchyses Jobim Lopes (CBP/RJ).
Vale salientar que o biênio 2023-2025 do CPS, instituição psicanalítica filiada ao CBP e à IFPS, tem como membros da diretoria: Déborah Pimentel – presidente; Cecília Nascimento Rodrigues – vice-presidente; Renata Franco Leite – tesoureira; Fernanda Nunes Macedo – secretária; Ricardo Azevedo Barreto, Petruska Menezes Passos e Sara Bezerra Costa Andrade – comissão científica; Géssica Silva – secretária e apoio do CPS; coordenação do grupo de formação em psicanálise: Déborah Pimentel, Fernanda Nunes Macedo, Petruska Menezes Passos, Renata Franco Leite, Ricardo Azevedo Barreto e Sara Bezerra Costa Andrade.
O presente
O atual momento do Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS) passa longe de ser tímido. As atividades da instituição estão sempre em movimento e nossa turma de formação (turma G) conta com psicólogos e médicos comprometidos com o futuro da instituição e da Psicanálise, não apenas em nosso estado, mas no Brasil e no mundo. Nossa clínica social acolhe os mais diversos pacientes e proporciona aos mesmos a possibilidade de um atendimento psicanalítico sério e comprometido com valores acessíveis. A nossa diretoria tem trabalhado ativamente para a preservação da memória institucional, digitalizando documentos, fotos de congressos, cursos e palestras que foram fundamentais ao desenvolvimento de nossa instituição e que contam com discursos de grandes nomes da psicanálise do nosso país.
Em 2025, o CPS continuará se desenvolvendo e teremos a honra de sediar o próximo congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise. Não mediremos esforços para acolher a sociedade sergipana, instituições de Psicanálise, médicos, psicólogos, psicanalistas e os nossos amigos do Círculo Brasileiro de Psicanálise e de suas outras filiadas: Círculo Psicanalítico da Bahia (CPB), Círculo Psicanalítico do Pará (CPPA), Círculo Psicanalítico de Minas Gerais (CPMG), Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul (CPRS) e Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro (CBP-RJ).
A psicanálise em Sergipe
O Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS) é de suma importância para o desenvolvimento da psicanálise em terras sergipanas, mas outras instituições se fizeram presentes e também contribuem de forma sem igual, sendo fundamental citá-las, sem que adentremos suas especificidades históricas, além de agradecer a cada uma pela parceria e pelo respeito que têm caráter de reciprocidade.
O Projeto Freudiano foi fundado em 10 de outubro de 1988 por Alba Abreu, psicanalista lacaniana, e outras psicólogas vinculadas àquele momento ao Campo Freudiano, tendo, assim como o Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS), uma função pioneira na Psicanálise no estado de Sergipe (Pimentel, 2018).
Em 1997, formou-se um grupo de médicos e psicólogos para estudos psicanalíticos em Sergipe, liderados pelo psicanalista Adalberto Goulart. Em 2003, surgiu a instituição nomeada Núcleo Psicanalítico de Aracaju (NPA), vinculada à Sociedade Psicanalítica do Recife e à International Psychoanalytical Association – IPA (Pimentel, 2018).
Em 2001, nasceu a Associação Psicanalítica de Aracaju (APA), promovendo atividades de formação teórica e clínica. A sua origem, contudo, remonta a 1981, por iniciativa de Antônio Cardoso Filho, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), psicanalista com formação pela Escola Francesa de Psicanálise, convidado pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UFS, naquele ano, para ministrar um curso sobre Literatura e Psicanálise. Em 1990, sob a coordenação de Antônio Cardoso, foi iniciada, pela Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, uma série de cursos semestrais em Psicanálise que perduraram até 1996, quando, ainda sob a coordenação do mesmo psicanalista, iniciou-se o curso de extensão em Teoria Psicanalítica, que durou até 1999 (Pimentel, 2018). Nestes últimos 15 anos do CPS, Antônio Cardoso colaborou com a formação do CPS, trazendo principais conceitos da teoria lacaniana. Em 2023, a APA descontinuou suas atividades.
A psicanalista Maria Stela Menezes Santana, especialista em crianças e adolescentes, atuante presidente entre 2012 a 2014 do Núcleo Psicanalítico de Aracaju (NPA), fundou, em 05 de fevereiro de 2015, um novo grupo de psicanálise, Reverie, trazendo bons ventos e renovando o movimento freudiano em Sergipe (Pimentel, 2018).
É necessária pontuar que, nestes 35 anos, surgiram outros estudiosos e grupos que são de muita relevância para o movimento psicanalítico de Sergipe, a exemplo de Suely Sobral, Tiago Santana, Antônio Eduardo Mendonça de Jesus, Maria José Camargo de Carvalho, mais conhecida como Majô, que por ser professora de psicanálise influenciou positivamente uma legião de jovens psicólogos, entre outros importantes nomes, alguns também docentes destacados de cursos universitários do estado.
O Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS) reitera o agradecimento a cada um destes estudiosos e instituições, seus representantes e seus participantes que, junto a nós, são fiéis aos princípios da transmissão da Psicanálise, honrando o eixo ético de sustentação da formação de candidatos e o seu caráter permanente: análise pessoal, teoria-técnica da Psicanálise e supervisão clínica.
É só o começo
São 35 anos de história e o Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS) consolidou o seu papel na sociedade, contando sempre com grandes amigos e sociedades parceiras. Só assim foi possível inovar, trazendo e firmando a importância da Psicanálise no contexto social e individual.
O nosso compromisso se reitera abrindo sempre espaços para debates e acolhendo as diferenças. A nossa responsabilidade com a formação de novos psicanalistas sérios, dedicados e conscientes do tripé teoria/técnica– análise– supervisão se mantém e a chegada de novos membros é sempre um desafio estimulante nesta missão que, uma vez inacabada, permanente sempre será.
Na comemoração do aniversário de 35 anos de nossa instituição, conseguimos um novo feito: realizamos um evento comemorativo, celebrado em 11 de outubro de 2024, que contou com a presença ilustre dos seguintes fundadores do CPS: Carlos Pinto Corrêa, com 91anos, Marli Piva Monteiro, Celso Vilas-Bôas e Déborah Pimentel. O evento foi realizado na SOMESE (Sociedade Médica de Sergipe), com a presença dos membros e candidatos do CPS, os médicos Raimundo Sotero (Presidente da SOMESE) e os membros da diretoria Sérvulo Nunes, Anselmo Mariano e Antônio Cláudio, Paulo Amado (representante da SOBRAMES – Sociedade Brasileira dos Médicos Escritores), Henrique Batista e Silva (Presidente da Academia Sergipana de Medicina), representantes das instituições de ensino de graduação dos cursos de psicologia, Jamerson Silva (Vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia), os ligantes da Psiq – Liga de Saúde Mental, e os amigos de instituições psicanalíticas do estado, Roseli Rodella (Projeto Freudiano) e Antônio Cardoso (APA).
Na supramencionada cerimônia comemorativa dos 35 anos do Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS), transmitida ao vivo por live no canal do youtube do CPS, houve a apresentação de um vídeo institucional e uma mesa-redonda com a temática “Os 35 anos da Psicanálise em Sergipe: passado, presente e futuro”. Esta mesa-redonda contou com a participação dos psicanalistas Carlos Pinto Corrêa, Celso Vilas Boas, Déborah Pimentel, Marli Piva Monteiro e Ricardo Azevedo Barreto. Também ocorreram, neste evento, homenagens à Fundadora e Presidente do Círculo Psicanalítico de Sergipe, Déborah Pimentel, e a todos que contribuíram para a história do CPS, assim como um coquetel para brindarmos nossa festividade.
O futuro
O futuro da psicanálise em Sergipe se desenha promissor. Com um cenário global de crescente demanda por saúde mental, a Psicanálise, tanto como prática clínica quanto como “lente” de compreensão do ser humano, encontrará um campo fértil para se expandir. O CPS, com seu compromisso ético e formativo, está preparado para contribuir de forma significativa a esta expansão.
A formação de novos psicanalistas, o aprofundamento da pesquisa psicanalítica e o fortalecimento de parcerias interinstitucionais são pilares essenciais para garantir a longevidade e a relevância da psicanálise no estado. Além disso, os debates contemporâneos sobre saúde mental, assim como o impacto das novas tecnologias, abrem possibilidades inéditas para a prática da Psicanálise.













