Seja o que for que digam a meu respeito os mortais – pois não ignoro quão mal falam da Loucura até mesmo os mais loucos –, eis aqui a prova decisiva de que eu, só eu, tenho o poder de alegrar aos deuses e aos homens.
(Elogio da Loucura, Erasmo de Rotterdam)
Introdução
Os primeiros atendimentos em psicanálise podem ser muito desafiadores, sobretudo quando a pessoa à frente do analista se apresenta de forma diferente do que comumente é reconhecido como “normal”, colocando à prova todo conhecimento que foi acumulado ao longo do tempo de estudo. Por mais que se saiba que cada sujeito é único, a necessidade de reconhecimento da estrutura psíquica subjacente durante as entrevistas iniciais, principalmente no contexto de uma clínica-escola, impõe um desafio a quem está começando na arte que é a Psicanálise.
O presente trabalho traz reflexões sobre o reconhecimento da psicose como estrutura psíquica, a partir dos atendimentos realizados com um rapaz de 18 anos numa clínica-escola em Salvador, Bahia, de janeiro a dezembro de 2024. A necessidade de conhecer mais a psicose como estrutura psíquica se deu no momento em que o paciente interrompeu a própria fala no meio para perguntar sobre escritórios dentro da água. Sem entender direito o que ele queria saber, a analista pediu que explicasse melhor: ele queria saber como era possível construir escritórios de vidro dentro do mar, como se vê em alguns filmes: Como se constrói? Como alguém entra? Você já entrou em um? Foram perguntas despejadas sem nenhuma relação com o que ele dizia anteriormente. Impossível não pensar na analogia lacaniana com a mãe, a homofonia francesa entre mer e mère, em que o escritório poderia ser a representação da imersão na mãe. Haveria ali uma necessidade de se proteger da imensidão do mar-mãe com paredes de vidro?
Com o tempo, foi observado que essas “fugas,” que interrompiam a fala no meio, eram constantes e associadas a um fervor religioso forte, que interrogava à analista sobre a vontade de Deus que o impedia de entrar para o tráfico para se vingar de todos que o chamaram de louco um dia. Por fim, com um interesse imenso acerca da vida pessoal de quem o atendia, não entendeu como ela poderia não saber se já havia “levado chifres”, haja visto que eles, segundo sua lógica concreta, poderiam ser sentidos na sua testa. Isto levou à reflexão sobre a possibilidade de uma estrutura psicótica.
Psicose na psicanálise
A loucura sempre foi um tema que intrigou a Humanidade, relegada à marginalidade. Considerada divina ou maldita, sempre marcou uma cisão entre aqueles que poderiam estar em sociedade e aqueles que deveriam se afastar dela, como o “trem de Barbacena” bem marca a história da saúde mental no Brasil. Com um misto entre curiosidade e medo, as pessoas consideradas loucas ainda são afastadas da sociedade, apesar das políticas de inserção social (Guerra, 2010).
Mas que loucura é esta? Lacan foi o teórico que melhor formulou a noção de psicose na Psicanálise, possibilitando intervenções que pudessem favorecer o acompanhamento dessas pessoas e, por meio da escuta dos delírios, compreender os processos inconscientes. No entanto, dada à particularidade desta estrutura, o manejo clínico deveria ser diferenciado.
Mas, como dizem os ingleses, first things first: antes de se pensar num manejo diferenciado, é preciso reconhecer o que torna cada novo paciente passível dessa diferença. Como mencionado acima, o analista precisa identificar a estrutura psíquica de cada um que se senta à sua frente. Freud já reconhecia a importância, ao falar em “sessões de treino”, de se conhecer melhor o paciente e sua demanda, ao passo que o treina na associação livre, técnica psicanalítica que favorece a emergência do sujeito do inconsciente, ainda que o autor não nomeasse dessa forma. Para se conhecer melhor o paciente, era necessário identificar a presença de uma neurose ou “parafrenia”, até mesmo como forma de reconhecer se o tratamento analítico seria, de fato, adequado ao paciente (Freud, 1911-1913/2010a).
A noção de adequação à análise pressupunha que pacientes “parafrênicos” não se beneficiariam deste tratamento, segundo Freud. No entanto, Lacan reconheceu a possibilidade de benefícios para estes, desde que se realizassem alterações na técnica. Convém destacar aqui que a clínica de Freud era de neuróticos, afinal, a própria Psicanálise surgiu da escuta das neuróticas histéricas, em que a noção de divisão subjetiva do sujeito por meio do recalque se tornou o paradigma a partir do qual todos os sintomas clínicos poderiam ser analisados. Já a experiência de Lacan com pacientes psiquiátricos, no Hospital Sainte-Anne, permitiu a reflexão sobre as possibilidades de tratamento para os psicóticos (Guerra, 2010; Santos & Oliveira, 2012).
Freud já estudava a psicose, inicialmente segundo o paradigma do recalque, para posteriormente entendê-la como frustração quanto à realidade externa. Em seu texto de 1917 sobre a teoria da libido e o narcisismo, Freud (1916-1917/2014) destaca que a libido do psicótico estaria direcionada ao Eu, já que algum evento a teria desligado dos objetos externos, aprofundando a noção da libido como pulsão que se alterna entre sexual e de autoconservação, como já demonstrado em sua introdução ao Narcisismo (Freud, 1914-1916/2010b). Neste sentindo, os delírios e alucinações seriam tentativas de reestabelecer o equilíbrio psíquico (Freud, 1914- 1916/2010b). Uma década depois, o autor ainda destaca a psicose como resultado do conflito entre o Eu e a realidade, em que há a retirada da libido do mundo exterior para se voltar a si mesmo, construindo um mundo interno que deixa de se referenciar na realidade. O mote do conflito seria justamente a frustração dos desejos infantis que levaria a esse rompimento, mas ele ainda não consegue definir que processo seria esse, análogo à repressão na neurose (Freud, 1923-1925/2011).
Assim, a ideia de que os psicóticos não seriam beneficiados pela Psicanálise seria justamente em decorrência desta retirada de libido do exterior, na medida em que isto inviabilizaria a transferência ao analista por não conseguirem investir em outra pessoa que não em si mesmo (Guerra, 2011). Foi Lacan quem nomeou esse processo como foraclusão, pegando emprestado o termo do juridiquês, mas não sem antes revisitar a teoria freudiana com base na Linguística (Santos & Oliveira, 2012). Entendendo que o inconsciente é estruturado como linguagem, Lacan aponta para a primazia do simbólico, em que o inconsciente se mostra pelo engano. Isto quer dizer que o inconsciente opera por meio de deslocamentos e condensações de palavras, através de significados e limites de sílabas, com palavras de diferentes significados, manifestados em fenômenos limítrofes: sonhos, chistes, atos falhos, lapsos e esquecimentos, como sintomas neuróticos, assim como alucinações, delírios psicóticos e perversões sexuais. Para Lacan, há uma falta instintual humana, no sentido de que a criança não possui o instinto, mas um inconsciente que toma o seu lugar. As ações que podem ser consideradas instintuais, para Lacan, são uma forma de saber que se comunica por significantes, não por instinto (Jorge, 2022).
Assim, o saber inconsciente se configura no simbólico (já que se comunica por significantes), mas se conecta com um tipo de não saber, que é real: a diferença sexual. Esta se recusa a saber. De tal modo, o simbólico é uma tentativa de preenchimento de uma falha instintual que não se efetiva completamente, restando a não inscrição da diferença sexual, ou seja, para Lacan, existe a falta do significante do Outro sexo. O sujeito se inscreve numa ordem simbólica antes mesmo de seu nascimento e assim permanece mesmo depois de sua morte. O Outro se refere a essa ordem simbólica, e nesse ponto que se deve compreender a assertiva de que o desejo do sujeito é o desejo do Outro. Tomando para a psicanálise o termo simbólico de Claude Lévi-Strauss, Lacan destaca o poder transformador da palavra e a possibilidade de cura pela fala. Desta forma, quando Lacan afirma que o inconsciente é estruturado como linguagem, ele não quer dizer que há um lugar, nem numa profundeza, mas simplesmente que o inconsciente se manifesta pelas palavras, pelo que é dito ou não dito (Jorge, 2022).
Neste sentido, Lacan entende o complexo de Édipo descrito por Freud como um mito, no sentido de uma construção imaginária que vem dar conta de um processo que é simbólico, ou seja, se inscreve em outro campo (Lacan, 1998b). Mas como se dá a entrada no simbólico e o que acontece quando isto não se efetiva? O sujeito se constitui, segundo Lacan, pela inscrição no simbólico, que ocorre por meio da alienação e da separação. A entrada do sujeito no simbólico ocorre por meio de uma castração, daí a noção de sujeito dividido. Desta forma, o sujeito lacaniano é efeito do significante, e não causa de si próprio, noção que funda os processos de alienação. Em outras palavras, no momento de sua constituição, o sujeito se insere no universo simbólico do Outro, no campo do sentido, da linguagem, uma escolha forçada que envolve uma perda de si mesmo, ou seja, do ser. Assim, o sujeito é dividido por causa da perda do ser. O primeiro momento do sujeito com o universo simbólico, que causa a identificação primordial, é radical, pois ele se sujeita à marca que recebe do Outro, mas é preciso se libertar dela para acessar o universo simbólico de forma dialética (Zanola & Lustoza, 2019).
Por outro lado, esse processo envolve a perda de uma parte de ser, que se torna inconsciente, barrada, alienada, mas que continua a agir. Esse processo é o que Lacan chama de afânise: a perda de ser se refere ao que é barrado quando este se inscreve no universo simbólico. Assim, a verdade do sujeito fica inconsciente, encoberta por uma “realidade de engodo”, qual seja como o sujeito se identifica e se define (Zanola & Lustoza, 2019).
Com relação à separação, Lacan afirma que se refere ao contato que o sujeito realiza em sua relação com o desejo do Outro. É na falta que se localiza o objeto a, ou seja, o que coloca dois sujeitos em relação é a falta comum a ambos, que não conhecem o desejo do Outro. Em suma, o bebê se aliena ao Outro por meio da união de dois significantes no campo do sentido, inserindo-se no universo simbólico por meio da identificação primordial. E se separa ao dar-se conta que não representa e não conhece o desejo do Outro, por meio da opacidade do discurso, se tornando sujeito desejante ao se interrogar sobre o desejo do Outro e instaurando uma relação dialética com o desejo próprio e do Outro. Assim, da mesma forma que há divisão no sujeito, também há uma divisão no campo do Outro, do simbólico (Zanola& Lustoza, 2019).
Esta inscrição no simbólico se inicia a partir do estádio do espelho, momento no qual, por meio da imagem especular, o bebê antecipa sua forma humana, formando uma imago que se encontra na base da matriz simbólica do sujeito na formação do Eu, antes mesmo de se inserir na dialética de identificação com o outro e na linguagem. Essa forma poderia ser chamada de Eu-ideal, no sentido de que é ela que dará origem às identificações secundárias, cujas funções são de normalização libidinal, ou seja, quando a identificação secundária (edipiana) permite superar a agressividade da identificação primária (Lacan, 1996).
Desta forma, o Édipo é o momento crucial para a inscrição no simbólico, ocorrendo em três tempos lógicos: no primeiro tempo, o bebê é um ser de necessidade, no sentido de que ainda deve se inserir no campo da linguagem para se produzir um sujeito. É a mãe quem dá sentido à necessidade do bebê e sua ausência é o que marca o primeiro corte, levando-o a experimentar uma angústia primordial de desamparo. Esta angústia pela ausência da mãe o leva a se perguntar sobre o desejo da mãe, localizando-o fora de si mesmo, alhures, inaugurando o segundo tempo do Édipo. Assim, percebe o pai como onipotente, no sentido de que é ele quem representa o falo que a mãe irá buscar quando se ausenta. Ao se tornar enigma, o desejo da mãe marca o primeiro significante para o bebê, que passa a percebê-la como castrada. O retorno da mãe marca o terceiro tempo do Édipo, mostrando que o pai também não é falo, ou seja, também não a completa. No entanto, guarda o que ela busca, fazendo com que o bebê perceba o pai como potente. Neste momento, o falo passa a circular entre os três: o pai também se torna significante, substituindo o desejo da mãe, produzindo como efeito o Nome-do-Pai, que internaliza a significação fálica (Faria, 2022).
Partindo da pronúncia francesa de Nom-du-Père, Lacan afirma que significa tanto o nome do pai de carne e osso, o papel de pai (quando recebe um lugar no discurso materno, ainda que ausente), e o substantivo pai, enquanto aparece no discurso da mãe. Além disso, dada à homofonia, também se refere ao Não-do-Pai, enquanto ente proibidor.
Como elemento do discurso materno, a função do pai pode ser completamente esvaziada quando a mãe o desrespeita (tanto na presença dele como em sua ausência), sendo impossível predizer as situações específicas em que isto ocorre. O que importa é que a autoridade do pai tenha lugar no discurso da mãe enquanto lei, assumindo a forma que houver (Fink, 2018).
Convém destacar que o pai, numa família nuclear tradicional, exerce a função de impedir que a criança seja completamente devorada pela mãe. Isto porque, por um lado, a criança em determinado momento percebe o desejo da mãe como ameaçador, refletindo a necessidade da criança em completar a mãe para que não seja aniquilada pela separação, por outro, a mãe tende a buscar obter do filho uma satisfação que não obteve em outros lugares. Assim, o pai atua em duas frentes: tanto impedindo que o bebê fique eternamente vinculado à mãe, como a proibindo de obter certas satisfações com ele. Agindo assim, o pai protege a criança do désir de la mère (tanto dela como do filho), assumindo o lugar de Lei ao proibir este desejo (Fink, 2018).
É preciso destacar que esta é uma visão estereotipada do pai, cada vez mais rara, como detentor da autoridade, mas cuja função pode ser exercida desde que a criança perceba que há um Outro do Outro, ou seja, que o desejo da mãe se localiza em Outro lugar que não a criança. A função paterna é simbólica, o que quer dizer que independe da pessoa em si. O pai é um nome associado a certos significantes e ideias inseridas no discurso da mãe, na medida em que ela se refere a ele como alguém que está além de si mesma, “um ideal que está além dos seus próprios desejos” (Fink, 2018, p. 93).
Todo esse processo de inserção na linguagem ocorre com angústia, pois representa uma perda de ser, cujo resto inconsciente busca simbolização. A angústia é um afeto universal, que não engana. A questão é como cada indivíduo lida com esta angústia, que irá originar as estruturas psíquicas (Faria, 2022). As estruturas psíquicas são formas de funcionamento psíquico organizadas por Lacan para embasar o diagnóstico psicanalítico, localizando-se por trás do fenômeno que se apresenta na clínica, que não se confunde com patologia (Dor, 1991; Faria, 2020). Faria (2022) afirma ser difícil distinguir a estrutura pelo fenômeno, sendo necessária a reflexão sobre os elementos que sustentam as estruturas. Dor (1991) fala em traços estruturais que se diferem de sintoma, podendo ser entendidos como estes elementos mencionados por Faria (2022).
O sintoma, para Lacan, é uma metáfora, ou seja, uma substituição significante. Como formação do inconsciente, é formado por inúmeras estratificações significantes, que lhe conferem o caráter aleatório e imprevisível, já que tais significantes não são escolhidos intencionalmente pelo sujeito, mas como resultado de processos metafóricos e metonímicos (Dor, 1991). Assim, podemos entender o sintoma como o fenômeno que se apresenta na clínica, mas nunca como o único elemento que irá embasar o diagnóstico psicanalítico.
Desta forma, o diagnóstico psicanalítico se difere do diagnóstico médico, uma vez que se baseia somente na fala do paciente e na escuta do analista, sendo eminentemente subjetivo, se inserindo, portanto, num campo diferente da investigação médica. Neste sentido, diferente da Medicina, o ato psicanalítico não deve se constituir a partir de uma identificação diagnóstica seguindo uma lógica causal, mas relegado a um devir. Isto porque os processos inconscientes não seguem uma lógica causal, ao contrário, são marcados por deslocamentos, condensações, metáforas e metonímias. Não há regularidades entre causa e efeito dos processos psíquicos, não existindo uma relação estável e geral entre as causas psíquicas e seus efeitos sintomáticos. Desta forma, o diagnóstico psicanalítico deve ser circunscrito de início como forma de orientar o tratamento, mas jamais ser cristalizado, visto que a associação livre e a escuta flutuante permitem perceber novas nuances que o reconfiguram ao longo do tempo de análise (Dor, 1991).
Lacan, no entanto, buscou formalizar uma lógica de pensamento que pudesse pensar nas estruturas como orientação do tratamento, por meio de certos elementos estruturantes do processo psíquico, ainda que seu diagnóstico não devesse ser definitivo. Assim, o que define a estrutura seria a forma com que o indivíduo lida com a angústia (Faria, 2022) ou, dito de outro modo, como ocorre a gestão do desejo, numa determinação que escapa ao sujeito (Dor, 1991).
É a castração que irá definir a estrutura, por possibilitar a significação fálica que, por sua vez, irá originar os mecanismos que a causam. Para Lacan (1995), a castração sempre ocorre por meio da privação que, por sua vez, se embasa na noção de que a mulher não possui pênis. Falar em privação, neste caso, é entender o pênis como objeto simbólico, não como ele é na realidade, o órgão sexual masculino. Assim, na castração, ele é experimentado, no início da neurose, como um objeto imaginário, ou seja, nenhuma castração ocorre de verdade, é sempre a ação sobre um objeto imaginário. A castração, portanto, se apodera deste objeto imaginário como que de seu instrumento, que simboliza uma dívida ou uma punição simbólica, e que se inscreve na cadeia simbólica”, no período pré-edipiano (Lacan, 1995).
A castração inaugura uma construção simbólica necessária ao sujeito, com mãe e pai simbólicos, no sentido de uma significação que irá permear toda a construção da cadeia simbólica. No entanto, é o pai real (aquele que a criança entrou em contato quando houve a necessidade da relação simbólica, que ninguém consegue apreender em sua plenitude e compõe o meio ambiente da criança) que dá destaque à castração, pois é ele quem intervém na castração e sua ausência requer sua substituição por outra coisa (Lacan, 1995).
Em outras palavras, o pai simbólico se constitui a partir da distância entre pai real e pai imaginário, sendo puro significante que resume a função paterna como tal. Neste sentido, a fase edípica nada mais é do que a entrada da função paterna na subjetividade da criança, mediante a relação que esta constitui com a função fálica (Dor, 1991).
Nesta direção, o essencial é captar como a economia do desejo permite induzir estruturas diferentes a partir da função fálica. É justamente pelos traços mnemônicos (para usar um termo freudiano) do amor dos pais na fase edípica que o sujeito estrutura sua relação com o falo ou, mais precisamente, como reúne desejo e falta: a partir da dialética entre ser o falo da mãe e o ter, deslocando-se para outra posição de identificação que aceite a castração simbólica, que inscreva no sujeito a função fálica. É a este processo de simbolização que Lacan nomeia como Nome-do-Pai, qual seja pelo desejo mobilizado entre mãe, pai e criança em relação ao objeto fálico que se favorece a definição de estruturas neuróticas, perversas ou psicóticas (Dor, 1991).
Assim, a função paterna intervém no registro da castração, dada sua função estruturante. O Édipo é uma formação imaginária na criança que a situa subjetivamente no enigma da diferença entre os sexos e que embasa sua economia do desejo, de acordo com sua vinculação com o pai imaginário ou simbólico. Por causa disso, o pai real é secundário, o que ajuda a explicar as ambiguidades com relação à presença paterna e carência paterna, pois o que conta é como tais significantes se relacionam com o pai imaginário ou pai simbólico. Na estruturação do sujeito, a presença que conta é a do pai imaginário e do pai simbólico, no sentido de que pai deve sempre ter significado para a criança, a partir do qual ela possa fantasmar um pai, e isso não ocorre necessariamente com a presença de um pai real. O pai, presente ou não, é significado em relação ao discurso materno como instância mediadora do desejo do Outro (Dor, 1991).
As categorias estruturais lacanianas são, portanto, herdeiras do Nome-do-Pai e se referem a mecanismos distintos: a neurose se refere ao mecanismo de recalcamento; a perversão, ao de desmentido; e a psicose, ao de foraclusão. Seguindo o que Freud ensinou, a ideia de pensar as estruturas diagnósticas é a de reconhecer as diferenças mais básicas e fundamentais entre as diferentes formas de funcionamento psíquico. Neste sentido, para além de uma busca em diferentes sintomatologias como os manuais psiquiátricos indicam, cabe ao analista buscar um mecanismo definidor, entendendo que tanto recalcamento como desmentido e foraclusão são constitutivos causais das estruturas (Fink, 2018).
Entendendo que as estruturas psíquicas emergem a partir da castração, como ocorre especificamente com sujeitos psicóticos? A presente pesquisa só fez destacar que, longe de representar a loucura, a psicose como estrutura é apenas um modo de funcionamento psíquico como qualquer outro, com especificidades que singularizam o sujeito. Como bem lembraram Faria (2022) e Guerra (2011), um dos avanços da noção de estrutura psíquica é a possibilidade de rompimento do preconceito que associa psicose à loucura, perversão à crueldade, e neurose à normalidade. Ademais, está mais do que claro que a loucura está presente em todas as estruturas, sendo efeito de eventos difíceis de simbolizar.
Nasio (2011) explica bem como essa loucura é possível independentemente da estrutura, ainda que alguns possam discordar. Para o autor, a loucura se refere a uma conduta excessiva e desproporcional em alguma dimensão da vida, como dinheiro, doença, divórcio. Tal reação ocorre a partir de uma fantasia tomada como verdade que torna alguém próximo ao sujeito o responsável pelo seu sofrimento, em que o afeto domina a razão, embora todas as outras dimensões da vida funcionem de forma absolutamente normal. Esta loucura, segundo ele, não é patológica, pois não exige cuidados específicos.
Mas a psicose, como estrutura, não equivale à loucura, sobretudo após percebemos a possibilidade de sua emergência em qualquer estrutura. Como já dito acima, a estrutura é resultado da operação da castração, em que a significação do Nome-do-Pai se inscreve no sujeito. No entanto, na psicose há uma mudança neste percurso, segundo a qual não ocorre a inscrição deste significante no período edípico. Daí a escolha do nome foraclusão, que indica que houve uma prescrição da castração, ou seja, a castração não ocorreu em tempo hábil, da mesma forma que ações jurídicas contra um crime fora do prazo não têm validade, sendo precluídas (Fink, 2018).
A foraclusão se refere à rejeição radical do significante Nome-do-Pai na ordem simbólica, ou seja, na linguagem. Por esta razão, o uso da linguagem ocorre de forma diferente na neurose e na psicose. Para Lacan, a função paterna simbólica é dada em termos unívocos, ocorreu ou não ocorreu em determinada idade. Por isso, não há trabalho analítico que possa alterar uma estrutura psicótica, embora uma boa psicanálise com crianças possa ajudar no estabelecimento da função paterna. O trabalho analítico com psicóticos pode possibilitar a regressão de alguns traços psicóticos, a evitação de novos sintomas, além de possibilitar uma vivência satisfatória no mundo, mas jamais a cura da psicose, até porque esta é estrutural. Assim, o desencadeamento de um surto psicótico indica que a estrutura psicótica sempre esteve lá, da mesma forma que poderia ter sido diagnosticada muito antes do surto (Fink, 2018).
Fink (2018) elenca características fundamentais na identificação das psicoses que podem ser muito úteis, sobretudo quando o analista não tem muita experiência clínica. São elas, conforme Fink (2028):
a) Alucinação - fenômeno que pode ocorrer também com neuróticos, daí a necessidade da escuta do paciente para melhor defini-la. Um ponto fundamental é pensar não em presença ou ausência da alucinação, mas no grau de certeza que ela gera no indivíduo.
b) Transtornos de linguagem - a linguagem é o que molda o sujeito, no sentido de que é por meio dela que as pessoas se relacionam com os outros, mas também que se forjam os pensamentos, demandas e desejos. A língua dos pais, ou discurso do Outro, é o que aliena o sujeito à linguagem. A questão é como os sujeitos se situam na linguagem e a adotam. Para o psicótico, a sensação é a de ser possuído por uma língua que vem de fora, muitas vezes não reconhecendo os pensamentos e as ideias como próprias, mas colocadas ali por algum ente externo. Daí a dificuldade de criar novas metáforas ou mesmo compreender as existentes, ainda que as utilizem de forma corrente num processo de imitação.
c) Predomínio de relações imaginárias - O psicótico tem um conflito com o semelhante, com alguém que estaria, de alguma forma, tentando lhe usurpar o lugar, sem referência a uma figura de autoridade. Sem o suporte do Outro simbólico, o psicótico se apoia no outro imaginário, que o persegue e o nega.
d) Invasão do gozo - as pulsões são hierarquizadas no corpo do neurótico, pois a socialização faz com que a libido seja contida e direcionada para as zonas erógenas. Como o corpo do psicótico não é simbolizado, mas imaginarizado, o gozo pode adentrar o corpo real e ser vivenciado como invasão quando a ordem imaginária se desorganiza.
e) Falta de controle das pulsões - na psicose, não há um Supereu gerador de culpa que contém os impulsos agressivos como na neurose, fazendo com que seja mais comum a ação direta do psicótico.
e) Feminização - Esta é uma característica da psicose em homens. Por não terem simbolizado a função paterna, não tendo o pai simbólico, se colocam na relação com o pai imaginário (geralmente percebido como feroz e autoritário) numa postura feminina mais apassivada, podendo passar desapercebido por conta de uma imitação do que ele percebe como ser homem. Mas essa posição vem à tona em momentos de surto, quando o imaginário que o segura se esfacela, ou mesmo em alguns casos de transexualidade. Posteriormente, essa noção foi atribuída à não-totalização em decorrência da falta do pai simbólico e o consequente gozo não-todo feminino.
f) Falta de pergunta - O desejo se inscreve na dialética própria da linguagem em forma de pergunta, sendo o que dá sua mobilidade que sempre o coloca em questão. Para o psicótico, não há questão, não há dúvida, os pensamentos simplesmente são o que são, fazendo com que muitas vezes se apresente como alguém sem desejos, funcionando em inércia, em que a repetição substitui a explicação.
Conclusão
Fink (2018) coloca os principais elementos identificáveis quando em observação e escuta de alguém para um diagnóstico. Em que medida o rapaz atendido poderia ser identificado como psicótico?
As suas frases interrompidas que quebram não só a capacidade de entendimento, mas também sua cadeia significante, numa recusa que o faz sempre responder com um “deixa pra lá” a cada vez em que era solicitado a se explicar melhor. Não há, de fato, explicação, pois não há linguagem suficientemente inscrita que dê conta de explicar nada, apenas repetições sobre os mesmos temas. Seu desejo, se é que pode ser chamado assim, é se tornar cantor de hip-hop rico e famoso para ter vários carros e mulheres, e mostrar a todos que o humilharam um dia que venceu. No entanto, se recusa a cantar quando solicitado, não só pela dificuldade de fala que o impede de articular certos fonemas, mas porque efetivamente não sabe o que escrever. O não saber escrever é total, não se refere apenas às músicas que quer compor, mas ele efetivamente não aprendeu a ler e a escrever, mais um elemento que denota a recusa radical à linguagem, mesmo sentindo muita vergonha pelo fato. E, ainda, refletindo sobre canções em geral, é possível pensar numa dificuldade de metaforizar, na medida que uma canção é uma forma de poema cantado. Como fazer poema sem atribuir novos significações às mesmas palavras? Isto faz lembrar Lacan (1998b), que afirmou que Schreber pode ser escritor, mas não conseguiria ser poeta. Uma vez a analista falou: “Vamos lá! Vou te ajudar! Me diz o que você está sentindo e eu escrevo para você!”. Ele perguntou se fazer música era isso, falar o que estava sentindo, para arrematar com um “melhor não hoje” quando soube que geralmente sim. Podia ser que ele estivesse sem vontade mesmo? Sim, mas parece agora, só-depois, ter sido muito mais uma forma de se proteger de uma exigência simbólica que talvez não se desse conta.
Mas, e o desejo? É só desejo ou uma vontade expressa por exigência social? Seria um desejo de poder, manifesto não somente com o hip-hop mas também com o tráfico? Além disso, cabe perguntar se é uma pergunta ou uma certeza para ele. Ou, quem sabe, a certeza de que ele só poderá escrever uma música quando aprender a escrever, coisa que ele tem sucessivamente falhado ao longo da vida, levando à certeza de que a fama e riqueza só se efetivarão como devaneio. Uma certeza angustiante de que permanecerá sempre no lugar de humilhado, mas haveria este deslocamento se ele fosse psicótico? Sem falar na vergonha que sente por não conseguir ler e escrever.
O rapaz foi encaminhado para uma avaliação psicológica para auxiliar na identificação do risco de algum transtorno psicótico, como os manuais de psiquiatria costumam falar, e orientar a conduta da psicóloga inexperiente e psicanalista em formação. O diagnóstico foi de Transtorno de Desenvolvimento Intelectual, que não se mostrou grande novidade para a profissional. Como diversos autores afirmam (Dor, 1991; Faria, 2022; Fink, 2018), o diagnóstico psicanalítico não é só diferente do médico, mas também do psicológico. Como poderia ser diferente? Um dos pontos em que se diferenciam é o tempo: para além do tempo cronológico, o diagnóstico psicanalítico se faz em um tempo lógico, com prudência e escuta.
Por outro lado, não se deve esquecer de que ele chegou ao consultório angustiado com imagens intrusivas de sexo com a mãe ou falas intrusivas em que xinga Deus, pedindo ajuda à analista para cessar tais pensamentos. A angústia é universal, o que se faz com ela é o que é singular. A analista perguntou de quem eram esses pensamentos, também com certa angústia de estar à frente do primeiro paciente delirante. São meus!, respondeu ele com certo estranhamento, como se a analista fosse louca. Seria uma neurose obsessiva, que o força continuamente a pensar em estratégias de afastar tais pensamentos, como forma de ser perdoado por Deus? Ora, se ele espera um perdão não será porque tem culpa? Pode ser que sim.
Pode ser e sempre poderá ser. A estrutura é única, não modificável, embora possa se apresentar de formas singulares. Mas o diagnóstico deve ser, pelo menos no início, um devir, como lembra Dor (1991). E ele só virá por meio da associação livre, como disse Faria (2022). É na escuta que é possível, pouco a pouco, perceber os elementos que estruturam este sujeito tão singular. Aliás, cabe a pergunta: é um sujeito, mesmo se recusando a se sujeitar à linguagem? Bem ou mal, isso não é bem uma escolha dele, a linguagem está aí por todo lado, incluindo suas metáforas com chifres.
Na dúvida, melhor atuar como se ele fosse psicótico, sem muita exigência simbólica que possa demandar demais de seu psiquismo. O tráfico é uma realidade e, infelizmente, se configura numa possibilidade para vários jovens pretos de periferia como Ideal de Eu. Entre a borda dada pelo pastor e a dada pelo traficante, a analista trabalha no campo imaginário com um o que aconteceria se você optasse por isso ou aquilo?, torcendo para ele abandonar a ideia de vingança que, estatisticamente, não lhe daria muito futuro.
Por falar em desejo, o caso só confirma a noção de que o desejo do analista é a escuta e, como não dizer, que a escuta seja sempre como a do primeiro paciente, pois cada um é único. Aliás, o paciente da história deve sempre ser a psicanalista, pois análise se faz com prudência, “com boca cosida e cara fechada” que coloca o psicanalista como parceiro do analisado, como bem diria Lacan (1998). Apesar do suposto saber, não se sabe de nada até que o inconsciente se mostre - só por meio da escuta paciente e cautelosa será possível à analista captar o que cada indivíduo traz consigo, ou seja, saber alguma coisa. Enquanto isso, a escuta e o estudo são os melhores aliados













