SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número62A etiologia da identificação entre a teoria psicanalítica e a psicologia políticaEcopsicanálise e materialismo dialético índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.62 Belo Horizonte  2024  Epub 07-Nov-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n62a07 

ARTIGOS

‘Felizes… mas nem tanto’: o mal estar ilustrado em um livro infantil

‘Happy…ish’ the uneasiness in civilization illustrated in a children’s book

«Feliz… pero no tanto»: El malestar ilustrado en un libro infantil

Juliana Baracat1 

Graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Londrina, com especialização em Teoria Psicanalítica pela Universidade Católica Dom Bosco. Mestre em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá. Doutora em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, (UNESP). Pós-doutorado pela UNESP Docente no curso de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina.

Maria Luiza Duarte de Matos2 

Graduanda em Psicologia pela Universidade Estadual de Londrina, atualmente no 4° ano.

Rafaela Valentini Ortega Ruiz3 

Graduanda em Psicologia pela Universidade Estadual de Londrina, atualmente no 4° ano.

1Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, (UNESP). E-mail: jbbaracat@uel.br

2Universidade Estadual de Londrina. E-mail: maria.luiza.duarte@uel.br

3Universidade Estadual de Londrina. E-mail: rafaela.valentini@uel.br


Resumo

Este artigo trata-se de uma análise teórica a respeito das contribuições da obra literária Lolo Barnabé para a compreensão psicanalítica do mal-estar contemporâneo. A pesquisa busca identificar e interpretar elementos narrativos presentes no conto infantil Lolo Barnabé que possam simbolizar o mal-estar atual, e relacioná-los com conceitos da teoria psicanalítica. O intuito é entender como a incessante busca pela eliminação do descontentamento influencia a experiência humana, com um foco particular no fenômeno do consumismo. Considera-se ainda que os contos infantis, enquanto manifestações da fantasia e da imaginação, desempenham um papel crucial no enfrentamento de medos e desejos, na resolução de conflitos e na construção da identidade. Este trabalho sustenta que a narrativa infantil desempenha um papel fundamental na simbolização dos efeitos decorrentes da busca incessante por eliminar todo o desprazer, revelando como essa busca, paradoxalmente, gera uma crescente insatisfação nos indivíduos.

Palavras-chave: psicanálise; mal-estar; literatura infantil; consumismo

Abstract

This article is a theoretical analysis of the contributions of the literary work Lolo Barnabé to the psychoanalytic understanding of the contemporary uneasiness. The research aims to identify and interpret narrative elements present in the children’s story Lolo Barnabé that may symbolize current uneasiness and relate them to concepts from psychoanalytic theory. The goal is to understand how the relentless pursuit of eliminating discontent influences human experience, with a particular focus on the phenomenon of consumerism. It is also considered that children’s stories, as manifestations of fantasy and imagination, play a crucial role in confronting fears and desires, resolving conflicts, and constructing identity. This work argues that children’s narratives play a fundamental role in symbolizing the effects resulting from the incessant quest to eliminate all discomfort, revealing how this pursuit, paradoxically, generates increasing dissatisfaction in individuals.

Keywords: psychoanalysis; uneasiness; children’s literature; consumerism

Resumen

Este artículo presenta un análisis teórico de las contribuciones de la obra literaria Lolo Barnabé a la comprensión psicoanalítica del malestar contemporáneo. La investigación busca identificar e interpretar los elementos narrativos presentes en el cuento infantil Lolo Barnabé que podrían simbolizar el malestar contemporáneo y relacionarlos con conceptos de la teoría psicoanalítica. El objetivo es comprender cómo la búsqueda incesante de la eliminación del descontento influye en la experiencia humana, con especial atención al fenómeno del consumismo. Asimismo, considera que los cuentos infantiles, como manifestaciones de la fantasía y la imaginación, desempeñan un papel crucial en la confrontación de miedos y deseos, la resolución de conflictos y la construcción de la identidad. Este trabajo argumenta que las narrativas infantiles desempeñan un papel fundamental al simbolizar los efectos de la búsqueda incesante de la eliminación del displacer, revelando cómo esta búsqueda, paradójicamente, genera una creciente insatisfacción en los individuos.

Palabras clave: psicoanálisis; malestar; literatura infantil; consumismo

Introdução

Lolo Barnabé é um conto infantil de 2010, escrito por Eva Furnari. Nele, conhecemos a história de uma família das cavernas que, por intermédio das invenções tecnológicas de Lolo, começa a experimentar as vantagens e desvantagens da modernidade. Dispostos a concentrar toda sua energia em tentar alcançar uma felicidade “completa”, eles acabam sacrificando as coisas que já os faziam felizes antes - uma situação comum que causa sofrimento a grande parte dos homens na atualidade. Os membros da família Barnabé, o tempo todo, são descritos como “Felizes, mas nem tanto”.

Ao estudarmos os escritos psicanalíticos, sabemos que esta situação também foi examinada por Sigmund Freud em seu livro O Mal- Estar na Civilização (1930/2010). Segundo o autor, o mal-estar acompanha o ser humano desde o início da civilização, é uma certeza inata e inevitável da condição humana que impacta o psiquismo de todos os membros de uma sociedade das mais variadas formas. Entre essas formas de sofrimento, destaca-se neste artigo o fenômeno do consumismo, observado através das ações dos membros da família Barnabé, que, ao longo da narrativa, depositam todas as suas esperanças de felicidade na expectativa de que a próxima invenção será capaz de resolver todos os seus problemas.

Ao examinar como os personagens do conto depositam suas esperanças de felicidade na aquisição de novas invenções, este artigo propõe uma reflexão quanto ao impacto que a busca incessante pelo fim do mal-estar tem na experiência humana, especialmente ao pensarmos o fenômeno do consumismo. Para isso, pretende-se encontrar, no conto infantil Lolo Barnabé, elementos narrativos que nos ajudem a simbolizar o mal-estar da atualidade, articulando tais elementos com a teoria psicanalítica em busca de expandir nossa compreensão quanto ao constante sentimento de insatisfação que aflige os homens na sociedade contemporânea. A proposta do presente artigo se justifica ao considerarmos que, como apontado por B**1 (2012), a psicanálise, mais do que uma prática fechada entre as paredes de um consultório clínico, tem a possibilidade de propor reflexões e contribuir com o debate acerca de temas cruciais para a sociedade - neste caso, o consumismo desenfreado que observamos na atualidade, principalmente ao constatarmos que seus efeitos impactam negativamente desde a esfera individual até todo o ecossistema do planeta. Pensar os conceitos psicanalíticos, para além do contexto clínico tradicional, é uma ideia denominada por Laplanche (1987) como psicanálise extramuros.

Este trabalho se trata de uma pesquisa teórica acerca das contribuições que a obra literária Lolo Barnabé pode oferecer para a compreensão psicanalítica do mal-estar contemporâneo. Sabe-se que a arte, enquanto produção criativa que ocorre através da sublimação, é uma manifestação do inconsciente que acompanha a civilização desde seus primórdios, e precede toda e qualquer teoria psicanalítica. É inevitável perceber pedaços de nossa própria realidade na ficção criada por Furnari, ou até mesmo nos vermos refletidos em alguns dos personagens.

Freud (1907) nos orienta a tomar os escritores como poderosos aliados em nossas investigações da condição humana, pois é através da arte que podemos tentar conhecer parte dos mistérios “com os quais nem sonha a nossa vã filosofia”. Ainda neste tema, Lacan também destaca o quão importante é para o psicanalista que este se coloque como um apreciador da arte, e não como um aplicador de teoria.

[...] a única vantagem que um psicanalista tem o direito de tirar de sua posição é de se lembrar, com Freud, que em sua matéria o artista sempre o precede, portanto, ele não tem que bancar o psicólogo quando o artista lhe desbrava o caminho (Lacan, 1965/2003, p. 200).

Kehl (2006) nos alerta sobre o perigo de ‘esgotar a magia’ de uma obra literária através da aplicação exaustiva da teoria psicanalítica. Desse modo, a análise proposta neste trabalho será feita a partir da noção de que é a psicanálise que tem muito a aprender com os artistas, e não o contrário. Tal ideia, inclusive, esteve presente em célebres obras de Freud como O Inquietante (1919/2010)

Sobre a escolha de uma história infantil para nos ajudar em nossa reflexão, levou-se em conta o poder que os contos infantis têm de oferecer possibilidades de representações para que a criança seja capaz de “simbolizar e resolver os conflitos psíquicos inconscientes” (Kehl, 2006, p.16) Tais histórias, por seu teor lúdico, tem o poder de conversar com o que há de infantil tanto nas crianças quanto nos adultos.

Assim, os contos infantis estimulam a fantasia, e por meio dela, os indivíduos podem experienciar seus medos e desejos, resolver seus conflitos e construir sua identidade. Esses espaços psíquicos criados pela fantasia são tão reais e potentes quanto a dita realidade da vida. Portanto, eles oferecem um terreno fértil tanto para a expressão quanto para a elaboração de conflitos inconscientes, transcendendo os limites da realidade autocentrada infantil:

O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. A linguagem preservou essa relação entre o brincar infantil e a criação poética (Freud, 1907/1980. p.135).

O livro que será analisado conta a história da família Barnabé, composta por Brisa, a mãe; Finfo, o filho; e Lolo, o pai. Todos viviam felizes em sua caverna e toda noite se reuniam em volta da fogueira para cantar, dançar e agradecer pela beleza da vida. Quando ele e Brisa decidem que seria melhor morar no alto de uma colina, em vez da caverna suja e molhada que habitavam, Lolo começa a criar suas invenções. Após a construção de sua nova casa, novas demandas são levantadas. Brisa sugere que seria mais confortável se começassem a usar roupas de tecido, ao invés de peles de animais que estavam acostumados a vestir, e que deveriam construir um tipo de móvel que guardasse estas roupas, evitando que ficassem espalhadas pelo chão. A família começa, então, a mobiliar a casa recém-construída, inventando tecnologias incríveis como o guarda roupa, a cama, o colchão, a lavadora, a mesa, o liquidificador, entre tantos outros objetos. Porém, para dar conta de produzir suas novas invenções, Lolo e Brisa precisavam trabalhar longe de casa o dia todo, ficando longe do filho Finfo, que sentia falta dos pais. Criaram o telefone, para que pudessem falar com o filho mesmo à distância.

A partir deste ponto, percebe-se que atividades simples, anteriormente praticadas pela família, como a contação de histórias e as canções ao redor da fogueira, se esmorecem, dando lugar a uma nova rotina. Essa, por sua vez, é pautada por atividades complexas relacionadas à produção e manutenção das invenções criadas pelos protagonistas. A casa passou a precisar de limpeza constante, as roupas necessitavam ser lavadas e passadas, os aparelhos disfuncionais tinham que ser consertados na oficina, ou seja, a tecnologia concebida para proporcionar conforto e praticidade, para além de seus benefícios, trouxe consigo novas tensões, provocando irritação, cansaço e brigas entre os familiares. Os pais chegavam em casa cansados: tudo que Lolo, Brisa e Finfo conseguiam fazer juntos era ficar em frente à sua nova criação, a televisão. Não se reuniam mais para cantar, comer e agradecer a beleza da vida ao redor da fogueira, não apreciavam os vínculos e se sentiam muito solitários. Os protagonistas, neste momento, percebem que a situação que estavam vivendo não os deixava mais felizes ou realizados, pelo contrário, estavam cada vez mais estressados e ansiosos. Foi apenas quando Lolo e sua família se lembraram do que realmente os fazia felizes e voltaram a se reunir em volta da fogueira para compartilhar histórias e afetos, é que perceberam que a felicidade que tanto buscavam estava lá o tempo todo.

A contínua insatisfação da família Barnabé pode ser interpretada como um retrato do inevitável mal-estar experienciado pela humanidade desde que decidimos viver em sociedade e, consequentemente, construir uma civilização. Antes de começarmos nossa análise, no entanto, é importante delimitar alguns dos principais conceitos que serão explorados neste artigo - civilização, mal-estar e consumismo.

Segundo Freud (1930/2010), para que se possa caracterizar uma união de indivíduos enquanto civilização, é preciso ser possível identificar sinais de limpeza, ordem e veneração da beleza. Curiosamente, a história da família progride justamente nesta ordem. Tudo começa quando Lolo e Brisa decidem sair do ambiente sujo e úmido da caverna. Depois, decidem organizar suas novas construções em móveis como o armário, a mesa de jantar e o guarda roupa, para evitar que suas roupas, pratos, lençóis, e demais itens, ficassem espalhados pela casa. Os protagonistas começam, então, a se dedicar ao caráter estético de suas vidas, criando tecnologias voltadas para além da mera utilidade, mas também ao cuidado com a beleza (Perfume, ferro de passar, hidratante, escova de cabelo, sapatos de salto alto etc.). A família Barnabé agora era chique, andavam sempre elegantes e arrumados. Neste momento, portanto, podemos afirmar com convicção que, de acordo com Freud, a comunidade retratada na história ganha caráter civilizado em suas manifestações culturais: “Se voltamos suficientemente atrás no tempo, os primeiros atos culturais foram o uso de instrumentos, o domínio sobre o fogo, a construção de moradias. ” (Freud, 1930/2010). No entanto, devido à ambientação lúdica da história, todos os personagens possuem laços sanguíneos, algo que, na vida real, deve ser superado para estabelecer o status civilizatório.

No entanto, somos lembrados por Freud (1913, 1974) que, para manutenção da ordem, da limpeza e da apreciação do belo, é necessário que haja uma repressão dos instintos violentos e “animalescos” inerentes ao homem. Após o assassinato do “pai tirano”, a primeira horda de hominídeos precisou fazer uma série de combinados, na tentativa de evitar que tal violência acontecesse novamente - o tabu do incesto foi o primeiro, mas desde então muitas regras foram estabelecidas: não matarás, não cometerás adultério, etc. Todos os benefícios de viver em uma sociedade limpa, bela e ordenada vêm com um preço equivalente: a renúncia das satisfações da pulsão. Da mesma forma, o prazer, em seu estado mais puro, ou seja, a descarga total de todas as pulsões, é inconciliável com a vida civilizada devido ao caráter destrutivo da pulsão de morte. Freud (1930/2010) destaca que esse “estado nirvânico”, cuja necessidade é regida pelo princípio de prazer, “(...) é irrealizável, mas não nos é permitido- ou melhor, não somos capazes de abandonar os esforços para de alguma maneira tornar menos distante a sua realização”.

Ao examinarmos as ações dos membros da família Barnabé, podemos ver como o consumismo é usado como uma fuga temporária do mal-estar, mas acaba perpetuando o ciclo de insatisfação. Vanier (2002) explica como a renúncia à descarga completa e total das pulsões está diretamente relacionada com a necessidade de consumir cada vez mais: “Todos renunciamos ao gozo, condição da entrada no laço social; mas somos todos apanhados na promessa, reafirmada com insistência, de uma possibilidade de recuperação desse gozo perdido oferecida pelo consumo (...)”. Dessa forma, podemos pensar que a falsa noção de que a felicidade está ligada à posse de produtos nos leva a buscar incessantemente por mais, perpetuando um ciclo de consumo sem fim. Os carros de luxo não são mais um simples meio de locomoção, e, sim, um símbolo de status e potência - não à toa o imaginário popular costuma relacioná-los à “compensação de algo”. Uma vez que os bens materiais adquirem um caráter muito mais simbólico do que material, chamamos de consumismo este estilo de vida que gira em torno da aquisição de produtos e serviços, mesmo que supérfluos e/ou desnecessários. É a prevalência do ter sobre o ser.

Lolo, um Deus protético

Ao longo de toda a história, a família Barnabé é atormentada por sua “felicidade incompleta”. A todo momento se sentem insatisfeitos, mesmo em momentos alegres. Felizes, sim. Mas, nem tanto. Esta insatisfação movimenta a narrativa e impele Lolo a inventar cada vez mais, o que não é inerentemente problemático: é a necessidade de escoar as pulsões de forma menos destrutiva que movimenta nossa criatividade e engenhosidade, a partir da via da sublimação (Tavares, 2020). Ao destinarem sua libido para produções artísticas/científicas, Loló e Brisa exercem sua subjetividade e criam possibilidades de lidar com seu mal-estar - “Em suma, é pela vicissitude do percurso sublimatório que o psiquismo se expande e produz formas possíveis de gozo”. (Tavares e Hashimoto, 2016, p.13)

Quando falamos das atividades de sublimação exercidas pela família Barnabé, falamos tanto da invenção de tecnologias que facilitam a vida da família, quanto da habilidade de seus membros de contar histórias e cantar/compor canções. Esta capacidade de encontrar satisfações pulsionais, através das produções culturais, além de uma proteção contra o gozo pleno, é uma qualidade inestimável que nutre tanto a sociedade quanto o próprio indivíduo (Tavares e Hashimoto, 2016).

Os conflitos da narrativa começam quando as invenções de Loló, mesmo que frutos do exercício de sua criatividade, são motivadas pela esperança de que eventualmente nosso protagonista irá criar alguma tecnologia que os possa garantir o prazer pleno e ilimitado. Tal expectativa, ao ser inevitavelmente frustrada, só gera mais insatisfação. Ironicamente, os instrumentos que possibilitam aos Barnabé a obtenção de prazer e diversão, ao mesmo tempo os deixam submissos às suas próprias criações. Lolo se torna, como sinalizado por Freud, um ‘deus protético’, capaz de realizar feitos inimagináveis através da tecnologia, ao passo que esta se torna quase que um órgão de seu próprio corpo: uma prótese sem a qual Lolo não tem poder algum. O inalcançável desejo de onipotência do homem alimenta suas falsas esperanças no desenvolvimento tecnológico, e ficamos cada vez mais cegos à nossa própria condição, crentes de que a próxima grande invenção será aquela que nos permitirá vencer a natureza. Criam-se, então, novas demandas e, consequentemente, novas fontes de desprazer. Assim sendo, Loló e Brisa passam o dia inteiro inventando instrumentos cada vez mais tecnológicos e avançados na esperança de que a próxima invenção seja aquela que finalmente os permitirá ser finalmente felizes.

Ao destacar o impacto que o desenvolvimento tecnológico teve em nossa sociedade, Freud aponta que o avanço da tecnologia, por mais impressionante e necessário que seja, não é garantia de satisfação para os homens:

Podemos objetar: não é um positivo ganho de prazer, um inequívoco aumento na sensação de felicidade, se sou capaz de ouvir a qualquer momento a voz do filho que mora a centenas de quilômetros de distância, se logo após o desembarque do amigo posso saber que ele suportou bem a longa e penosa viagem? (...). Não havendo estradas de ferro para vencer as distâncias, o filho jamais deixaria a cidade natal, não seria necessário o telefone para ouvir-lhe a voz. (Freud, 1930, 2010, p. 46)

Contudo, é importante salientar que a tecnologia em si não foi o que deixou a família Barnabé tão triste, assim como não é ela a causadora do mal-estar na civilização. Principalmente no cenário tecnológico atual, é impossível negar os inúmeros feitos que o desenvolvimento científico obteve, essenciais para a vida e para a sociedade. Porém, é preciso ter noção de que a garantia do fim do desprazer e felicidade absoluta não está entre a lista de vantagens e facilidades que a tecnologia oferece.

Nas últimas gerações a humanidade fez progressos extraordinários nas ciências naturais e em sua aplicação técnica, consolidando o domínio sobre a natureza de um modo antes inimaginável. (...) Os homens estão orgulhosos dessas realizações, e têm direito a isso. Mas eles parecem haver notado que esta recémadquirida disposição de espaço e de tempo, esta submissão das forças naturais, concretização de um anseio, não elevou o grau de satisfação prazerosa que esperam da vida, não os fez se sentirem mais felizes. (Freud, 1930, 2010, p. 46)

Assim, tanto Freud quanto Furnari destacam que a ideia de que a tecnologia resolveria todos os nossos problemas é ilusória, e que a felicidade humana não está atrelada ao progresso científico, mas a algo muito mais complexo, subjetivo e individual - as criações, expressões da subjetividade, afetos e relações humanas significativas. Freud (1930, 2010) nos lembra que é o amor (Eros) que assegura a coesão e manutenção do grupo, formando uma sociedade cujas delícias ainda conseguem superar as dores: “tudo aquilo com que nos protegemos da ameaça das fontes do sofrer é parte da civilização” (Freud, 1930, 2010, p. 30). Eis a importância das relações objetais em oposição ao narcisismo, bem como do amor fraterno em oposição ao sadismo da pulsão sexual.

Está claro, para nós, que Lolo, Brisa e Finfo se amam muito, mas sua recusa em reconhecer as limitações da condição humana, perante o vazio inerente à vida, os faz ignorar as satisfações parciais, os pequenos prazeres, em prol de um gozo pleno inatingível. A impossibilidade de indivíduos atingirem o gozo pleno nos obriga a nos contentarmos com satisfações parciais e substitutivas ao longo da vida - o que não é necessariamente ruim, mas que ainda atormenta profundamente a vivência humana: o sujeito precisa aceitar o fato de que nunca será inteiro. “Nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição” (Freud 1930, 2010. p. 84)

O vazio que consome

Sabemos que o mal-estar surge do fato de que, devido ao necessário sacrifício das descargas pulsionais para podermos viver em comunidade, o ser humano nunca estará plenamente satisfeito. Esta realidade inevitável é geradora de muita angústia para os seres humanos, e a forma como cada indivíduo lida com isto compõe toda a estruturação psíquica do sujeito. As incansáveis tentativas de se preencher totalmente o vazio existencial, mesmo que inevitavelmente falhas, ocupam um lugar especial e fundamental na teoria psicanalítica. O vazio representa um objeto primordial e inatingível que está perdido, mas ainda continua a influenciar o sujeito em sua busca por suprir essa falta.

A constante pressão para consumir e adquirir bens materiais, como meio de alcançar a felicidade, plena contribui para uma cultura de insatisfação constante, o que só agrava a necessidade humana de “dar fim” ao desprazer e, novamente, alimenta o ciclo de consumo. Vivemos em uma época onde a busca incessante pela chamada “felicidade completa” é cada vez mais incentivada - estamos constantemente expostos a uma enxurrada de mensagens publicitárias que nos prometem que o próximo produto que adquirirmos será a solução definitiva para todos os nossos problemas. O ideal de uma existência livre de qualquer tipo de desconforto ou desprazer é frequentemente promovido pelo modelo de vida capitalista predominante, que promete ao consumidor que a próxima aquisição irá garantir a satisfação plena:

Os atos de consumir e descartar ocorrem rápida e sucessivamente, pois sempre há algo mais novo, cuja posse, espera-se, finalmente trará a derradeira felicidade e bem-estar prometidos pela propaganda (Godecke et al, 2013. p. 1701).

Tal situação é muito bem representada no livro em questão, no qual acompanhamos a família acumulando cada vez mais coisas e dedicando todo seu tempo para a invenção e produção de novas tecnologias, que por mais que ofereçam conforto e praticidade para a família, não os poupa do vazio.

Constantemente nos deparamos com situações muito parecidas na clínica psicanalítica e em nossas próprias vidas. A busca pela eliminação total do desprazer, pela descarga completa das tensões, é regida pela pulsão de morte e orienta muitos aspectos da vida dos sujeitos: a drogadição, a violência e a destruição de si e dos outros, o consumismo desenfreado, etc. Em outras palavras, “A tendência de tentar preencher o vazio existencial com coisas, objetos, ações de perigo levam à busca frenética e inútil para superar a sensação de vazio presente no homem.” (Silva, Nogueira e Fraga, 2009)

Freud argumenta que o mal-estar é uma parte inevitável da vida humana em sociedade, resultante dos conflitos entre os desejos individuais e as restrições sociais. O consumismo, por sua vez, pode ser interpretado como uma tentativa contemporânea de aliviar o mal-estar, oferecendo uma ilusão de felicidade e satisfação por meio da aquisição de bens materiais. Segundo Moura et.al (2013), “A sociedade de consumo e suas ideologias dominantes promovem um distanciamento do homem consigo mesmo e com a sua natureza”. Assim, este curto livro infantil nos avisa que, mais do que nunca, é necessário relembrar que a tecnologia deve estar a serviço da humanidade, e não o contrário. Lolo, Brisa e Finfo, assim como nós, têm a possibilidade de assistir a filmes e séries na televisão, ouvir músicas no rádio e consumir qualquer mídia que desejarem, mas é apenas quando retomam o talento natural do homem para criar histórias, criar melodias e cantar que conseguem reencontrar sua felicidade, por mais que, para sempre, incompleta. Esta busca desenfreada pela felicidade, através do consumo, muitas vezes nos afasta das coisas que realmente importam, como relacionamentos significativos, conexão com a natureza e um senso de propósito mais profundo na vida.

Em suma, ao analisarmos a interseção entre a obra literária Lolo Barnabé e os princípios fundamentais da teoria psicanalítica, somos levados a uma reflexão sobre os paradigmas e valores que regem nossa existência na sociedade contemporânea. Através das lentes da psicanálise, somos instigados a examinar não apenas as narrativas e personagens presentes na obra, mas a repensar nossos modos de vida e a buscar novas formas de relacionamento conosco mesmo, com os outros e com o mundo que nos cerca. Neste contexto, a obra Lolo Barnabé pode ser interpretada como uma metáfora para a reação da humanidade frente ao mal-estar inerente à condição humana, quando nos recusamos a nos reconhecer enquanto seres eternamente faltantes. Porém, o livro, assim como a obra freudiana, não acaba em tom pessimista: uma vez que paramos de tentar “preencher” nosso vazio, nos vemos livres para aceitar e aproveitar a vida em sua completude - ou falta dela. Os membros da família Barnabé são muito criativos, e a capacidade de inventar novas ferramentas e maneiras de lidar com os problemas da vida é algo essencial para a subjetividade do homem. É esta mesma criatividade que os permite achar uma saída para a situação que os angustiava no final da história.

Considerações finais

Assim, pudemos perceber que tanto Freud quanto Furnari nos mostram o quão ilusória é a ideia de que a tecnologia resolveria todos os nossos problemas. Ambos afirmam que a verdadeira felicidade humana não está atrelada ao avanço científico ou à posse de bens materiais, mas sim às experiências humanas de afeto, à integração do homem com sua comunidade. A realidade é que a cultura e a satisfação dos instintos nunca serão completamente conciliadas: resta-nos aprender a apreciar as satisfações parciais que compõem a vida: “As gratificações substitutivas (...) são ilusões face à realidade, nem por isso menos eficazes psiquicamente, graças ao papel que tem a fantasia na vida mental” (Freud, 1930/2010, p.29).

Ademais, ao refletir sobre a mensagem transmitida em Lolo Barnabé, é inevitável pensar no papel crucial que a narração de histórias ocupa no desenvolvimento infantil. Na história, Lolo tem a capacidade de construir e transformar o mundo material à sua volta, mas a forma mais efetiva de diminuir sua angústia é o compartilhamento de histórias. Para Corso e Corso (2006), este ato de contar histórias vai além de um mero entretenimento, pois cumpre a função essencial de oferecer às crianças um modo de amparo para suas angústias e uma forma de nomear o que antes não podia ser dito. Ao contar histórias, os adultos não apenas proporcionam prazer às crianças, mas também ampliam o espaço da fantasia e do pensamento, oferecendo uma estrutura que as ajuda a compreender e lidar com suas próprias emoções e experiências.

Este fenômeno não se limita ao âmbito ficcional, podendo ser observado também na vida cotidiana. A prática de contar histórias não apenas fortalece os laços familiares, mas também desempenha um papel essencial na formação dos indivíduos. Kehl aponta que “contar histórias é ainda uma das melhores maneiras de ocupar o lugar geracional que cabe aos pais, junto a seus filhos — lugar que os adultos hoje relutam em ocupar, no afã de se conservar eternamente adolescentes” (Kehl, 2006, p. 18).

Deste modo, Lolo Barnabé não apenas nos oferece uma reflexão sobre os efeitos do consumismo na civilização moderna, mas também nos lembra da importância das histórias e do papel que os adultos desempenham ao compartilhá-las. Assim como na história de Lolo, é por meio das narrativas que construímos laços entre as gerações e nos tornamos capazes de enfrentar nossa própria realidade.

1Referência com indicação de autoria do presente artigo.

Referências

Baracat, J. (2012). O amor entre o enigma e a tradução: um estudo da obra de Carson McCullers sob a perspectiva da Teoria da Sedução Generalizada. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós- Graduação em Psicologia, Universidade Estadual de Maringá. [ Links ]

Corso, D. L, & Corso, M. (2006). Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre Artmed Ed. [ Links ]

Da Silva, M. M. L.et. al. (2009). Vazio Existencial: de Lacan à Contemporaneidade. Contemporânea - Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.07. [ Links ]

Freud, Sigmund. (1930/2010). O Mal-estar na Civilização. In O Mal-estar na Civilização, Novas Conferências Introdutórias e Outros Textos. Companhia das Letras, 2010. v. 18. 9-89. [ Links ]

Freud, Sigmund. (1917-1920/2010). O Inquietante. In História de uma neurose infantil: (“O homem dos lobos”): além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920),. 1º ed, 328-376. Companhia das Letras. [ Links ]

Freud, Sigmund. (1913/1974). Totem e tabu. In S. Freud. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 13. 11-191. Imago. [ Links ]

Freud, Sigmund. Escritores criativos e devaneios. (1907-1908/1974). In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 9, 1974, 132-143. Imago. [ Links ]

Furnari, Eva. (2010). Lolo Barnabé. Moderna, 2010. [ Links ]

Kehl, Maria Rita. (2006). A criança e seus narradores. In Cordo, D. L, CORSO, M. Fadas no divã: psicanlise nas histrias infantis, 15-19. Artmed Ed. [ Links ]

Lacan, Jacques. (1997). O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Jorge Zahar. [ Links ]

Laplanche, Jean, & Pontalis, Jean-Baptiste. (1987). Vocabulário da psicanálise. Tradução de Marcos de Moraes. Martins Fontes. [ Links ]

Moura, T. B. De et. al. (2013). Uma análise de concepções sobre a criança e a inserção da infância no consumismo. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 33, n. 2, 474–489. [ Links ]

Tavares, Leandro. (2020). Psicanálise e Musicalidades: sublimação, invocações, laço social. Ed. Unifesp. [ Links ]

Tavares, L. A. T., & Hashimoto, F. (2006/maio). Sublimation as a paradigm of the psyche constitution: Metapsychology and Theoretical-Clinical Developments. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 19, n. 2, 295–310. [ Links ]

Vanier, A. (2020/julho). O sintoma social. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 5, n. 2, 205–217. [ Links ]

Recebido: 20 de Agosto de 2024; Aceito: 29 de Setembro de 2024

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado