Introdução
Tanto a clínica do sujeito quanto a formação continuada de um psicanalista necessitam de reformulação e de ampliação de seus conhecimentos, porque a matéria e a realidade estão em constante movimento. A clínica ampliada, a clínica do sujeito ou a psicanálise ampliada são capazes de inventar, desvendar, descobrir “novos dispositivos de ação e de intervenção para além das atividades psicoterapêuticas stricto sensu”, referem Winograd e Vilhena (2014, p. 7). A práxis psicanalítica necessita da escuta qualificada aos sujeitos em sofrimento psíquico nos diferentes âmbitos de sua vida. Há que estarmos atentos ao sofrer que nos ameaça a partir de três fontes do sofrimento, às quais Freud (1930/2010), em O Mal-estar na Civilização, define como o declínio do corpo, as intempéries da natureza e as relações humanas, enfatizando ainda as tensões entre a cultura e a natureza. Então, diante de enchentes, desmoronamentos de encostas, tremores de terra e todas as catástrofes ambientais vividas recentemente no sul do Brasil e em outras partes do globo terrestre, encontramos na ecopsicanálise e no materialismo dialético contribuições para ampliar a nossa visão de mundo e de ciência referente à práxis psicanalítica.
A novidade e as tendências no pensar sobre o campo da formação psicanalítica, envolto nas garras do modo de produção capitalista, evidenciam marcas devastadoras desrespeitando as relações homem-natureza-sociedade nos variados aspectos: sociais, ambientais, econômicos, políticos, geopolíticos, culturais, teórico-ideológicos. Assim, deixam rastros e rasgos nos incansáveis panoramas de criação da miséria, da violência e da doença. “Vivemos em uma época em que existem poucas utopias que nos fazem continuar caminhando” (Manoel, 2022, p. 127). A humanidade necessita de palavras de bendição, de ambientes transicionais, democráticos, marcados por linguagem que possibilite uma relação saudável no agir comunicativo para atingir a saúde mental. “Agora daremos um passo ousado, procuraremos responder uma questão que volta e meia nos é colocada: se a psicanálise leva a uma determinada visão de mundo, e qual seria?”, pergunta Freud (1933/2010a, p. 321), em Novas conferências introdutórias à psicanálise. Toda investigação científica procura saber como os fenômenos, as coisas, as pessoas e o mundo estão organizados. Freud (1933/2010a, p. 322), ao definir Weltanschauung, expressa:
Entendo que uma visão de mundo é uma construção intelectual que, a partir de uma hipótese geral, soluciona de forma unitária todos os problemas de nossa existência, na qual, portanto, nenhuma questão fica aberta, e tudo que nos concerne tem seu lugar definido. É fácil compreender que a posse de uma visão de mundo se inclui entre os desejos ideais de um ser humano. Acreditando numa visão de mundo, podemos nos sentir seguros na vida, saber a que devemos aspirar e como alocar da maneira mais apropriada os nossos afetos e interesses. Se esta é a natureza de uma visão de mundo, a resposta é fácil, no que toca à psicanálise. Enquanto ciência específica, um ramo da psicologia. . .
Logo, o cenário atual, impregnado por cataclismas ambientais, aquecimento global, precariedades; incêndios; regimes totalitários; intolerâncias severas, transforma profundamente a clínica e o modus operandi dos seres humanos. O que fazer?
Conforme Bensaïd (1999, p. 339), “foi preciso um começo mutilado e unilateral, um começo abstrato e imperfeito, para encontrar o caminho do concreto. Foi preciso começar por um conhecimento sem conteúdo, por má compreensão, para encontrar o caminho da compreensão e do conteúdo”. Aqui a relação entre o todo e as partes é imediata, acompanha um esforço abstrativo, de constatação, de diálogo para manter e praticar uma psicanálise que se questiona e, sobretudo, que se autoquestiona no que concerne à diversidade e à pluralidade do campo para preservar a vitalidade na criação de espaços transicionais. A práxis psicanalista opera o devir como potência de criar, transformar e identificar o que sugere Reich (1977, p. 26), em sua obra Materialismo dialético e psicanálise: “a base materialista da teoria psicanalítica; a dialética na vida mental e a posição social da psicanálise”. São as experiências, as ações, o conhecimento, o sentir e perceber a natureza das coisas que fazem de nós o que somos. Os diversos modos de expressar a relação homem-natureza-sociedade estão em agonia (luta). Estamos vivendo tragédias ambientais. Por onde começar? A humanidade, construindo coletivamente uma relação de ajuda à natureza, transforma o aqui e agora em espaços de potência.
Ecopsicanálise
O espaço ecológico, a questão ambiental, é complexo e torna-se um grande desafio e um apelo para a psicanálise, em particular aos psicanalistas, porque precisam rever sua práxis, integrar aquilo que aprendem do caos, do desamparo quando diante de uma situação emergencial de cataclisma ambiental. A ecologia nos proporciona, salienta Löwy (2000), “tomar consciência dos perigos que ameaçam o planeta em consequência do atual modelo de produção e de consumo . . . que tornaria impossível toda vida orgânica do nosso planeta” (p. 232), configurando cenários de catástrofes que colocam em xeque-mate a própria sobrevivência da humanidade. O que percebemos? Ecopsicanálise com urgência!
Ecologia se refere à interconexão íntima entre nós e o mundo. Nossas vidas estão unidas em redes de solidariedade e consciência política de uma maneira tão ecológica, tão estreita e interpenetrada, que sentimos a dor dos outros em sua luta e sabemos que, ao tentar dominar e explorar os demais, sejam humanos, sejam outros seres sencientes, estamos apenas piorando este mundo. Essa consciência ecológica de nosso vínculo com os demais está no coração da psicanálise (Parker & Pavón-Cuéllar, 2022, p. 43).
É um todo entrelaçado que ocorre, e Freud reconhece, em Psicologia das massas e análise do eu (1921/2011, p. 14), que “a psicologia individual é também, desde o início, psicologia social, num sentido ampliado, . . . todas as relações que até agora foram objeto privilegiado da pesquisa psicanalítica podem reivindicar ser apreciadas como fenômenos sociais”. Há um processo com circunstâncias da história em jogo.
A percepção influencia as ações humanas. Perceber é captar aquilo que nos rodeia. A lógica do capital massacra e destrói a natureza; assim como encurta o tempo e a vida com toda a sua materialidade, também muda e transforma-se rapidamente (Colao, 2013, p. 70).
É fundamental dar-se conta de que a metáfora da Mãe Terra necessita ser escutada, preservada, para que possa acolher seus filhos que sofrem e enfrentam os impactos da crise climática vivenciada. Krutzen (2023), em Ecopsicanálise: para uma ética melancólica de uma ecologia escura, ao definir ecopsicanálise, aponta consequências da crise ecológica como ecoansiedade, ecoluto, desespero, culpa, vergonha, desamparo, a dimensão traumática nas patologias psíquicas encontradas em nossa clínica. Há pessoas que estão sem cuidados, sem condições de assistência. O que tem chegado na clínica hoje?
Chegam aos consultórios as inquietações sobre mudança de clima, incêndios florestais, chuvas exageradamente abundantes, secas e enchentes, desaparecimentos de animais, de plantas, poluição das águas, baixa qualidade dos alimentos, muitas vezes vinculadas ao aumento de doenças graves como o câncer ou o diabetes. Essas queixas não são frutos de versões contemporâneas da chamada hipocondria da época de Freud, ou de crises histéricas de atenção e/ou conversões corporais. Estamos aqui em presença de um fato novo da existência humana neste planeta, a ecoansiedade. Este é o corte a ser manejado na expressão moebiana Freudiana do “estado constante de expectativa angustiada” (Krutzen, 2023, p. 23).
Com enchentes, desmoronamentos e catástrofes, os seres humanos ficam desaparecidos e continuarão desaparecendo. “De um lado, a importância cada vez maior do trauma na psicopatologia, pensado no continuum indo do estresse até o trauma grave. E, de outro lado, a ecoansiedade, cuja presença clínica só está em crescimento”, declara Krutzen (2023, p. 23). A ecopsicanálise está para a psicanálise assim como o processo de mielinização2 está para o sistema nervoso.
A ecopsicanálise não se mieliniza apenas no
. . . plano das ideias e no da transmissão de informações, mas no plano da existência, em que o processo de conscientização se caracteriza pela ação com conhecimento, pela capacidade de fazermos opções, por se ter compromisso com o outro e com a vida (Loreiro, 2009, p. 28).
A nervura do real para compreender a ecopsicanálise está interligada com uma episteme de várias áreas, como, por exemplo, psicanálise, psicologia ambiental, educação ambiental, psicopatologia, ecossocialismo, materialismo dialético.
O sentido da ecopsicanálise para a formação de um psicanalista integra processos individuais e coletivos que contribuem com a “redefinição do ser humano como ser da natureza, sem que este perca o senso de identidade e pertencimento a uma espécie que possui especificidade histórica” (Loreiro, 2009, p. 153). A ecopsicanálise é plural, contribui para que sejam ratificadas mudanças simbólicas e constrói a simbolização onde houver um gap climático, ou um fenômeno sem nome, versando sobre “o relacionamento recíproco entre o comportamento e o ambiente físico, construído ou natural” (Colao, 2012, p. 158). A ecopsicanálise, assim como a natureza e a vida, é composta de diversidades. Neste momento, enfrentamos turbulências que se revelam como um impasse, em que fica evidente a parca saúde mental das pessoas, as quais denunciam injustiças, desamparo, pânico, horror e inibição intelectual. Não podemos esquecer que a agenda planetária emergente integra categorias como saúde e bem-estar, diversidade, democracia, erradicação da miséria, direitos humanos, inclusão, vida terrestre, desenvolvimento, entre outras. “Um pequeno passo em direção ao outro é sempre um passo na direção de nossas fronteiras ainda não exploradas. O colocar-se ou constituir-se como outro requer aprender sentimentos de alteridade”, conforme Colao (2021, p. 147), em Atributo da diversidade, o sofrimento humano tem sentido. Toda natureza de exclusão (teórica, racial, étnica, sexual, cultural, laboral, linguística, social, com ou sem deficiência), historicamente, provoca sofrimentos humanos.
Na concepção de Han (2017, p. 71), cada momento histórico contém seus sintomas, suas inibições, conhecimentos e enfermidades fundamentais, e estamos diante da sociedade do cansaço, do esgotamento, “um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando”. A ecopsicanálise considera que “o atributo da diversidade contém sofrimentos humanos, e nosso desafio está em resistir e buscar o sentido para os diferentes sintomas”, pensa Colao (2021, p. 148).
Em Inibição, sintoma e angústia, Freud (1926/2014, p. 14) deixa claro que, ao descrever fenômenos patológicos que a linguagem corrente diferencia entre sintoma e inibições, ambas não se originam do mesmo solo; “o sintoma indica a existência de um processo patológico. Portanto, também uma inibição pode ser um sintoma”. O desrespeito e o descrédito com a Mãe Terra são um perigo e colocam-nos em vulnerabilidade. As questões associadas a natureza ou ecologia e suas relações com a cultura causam-nos angústia. A angústia está para a libido proporcionalmente como o vinagre está para o vinho. “O fato de a angústia neurótica nascer da libido, representar um produto de sua transformação, ou seja, de relacionar-se com ela como o vinagre e o vinho, é um dos mais significativos resultados da pesquisa psicanalítica”, defende Freud (1905/2017, p. 146). Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, considera a angústia como um afeto experimentado pelo ego diante de um perigo, o qual tem sempre o significado do temor da separação e da perda do objeto.
A tese de Freud articula-se em torno de uma distinção entre diferentes tipos de angústia: a angústia diante de um perigo real [Realangst]; a angústia automática (automatiische Angst), desencadeada por uma situação traumática em que submerge o ego impotente; a angústia sinal [Signalangst], desencadeada por uma situação de perigo, na qual o ego do indivíduo se tornou capaz de prever a iminência do perigo (Quinodoz, 2007, p. 239).
Nosso modus operandi, nossa vida, tal como a paisagem do ecossistema, está mudando e vai mudar. E o trauma ecológico? Ele vai crescer e chegar cada vez mais aos consultórios, com aumento das populações flageladas, discriminadas e estigmatizadas. “Não existem mais soluções radicais para o problema planetário, temos que encontrar meios de adaptação, singularmente e coletivamente. Estamos todos traumatizados” (Krutzen, 2023, p. 204). A ecopsicanálise propõe uma visão integrada de totalidade do ser humano com o ambiente e propicia recurso de travessia para a escuta qualificada no enfrentamento das mudanças sistêmicas em curso. O que está em jogo é claro: “Toda natureza que nos é acessível constitui um sistema, um conjunto de corpos. E é necessário que admitamos como corpos todas as existências materiais, desde a estrela ao átomo e até mesmo partícula de éter, desde que admitamos sua existência” (Engels, 1985, p. 42). A psicanálise dialoga com a ciência, as artes e a literatura, e, por ser dialética móvel, declaram Fernandes e Lima (2019, p. 190), é “que ela se constrói e se reconstrói a cada urgência do contemporâneo, que exige explicações por meio do resgate de vozes ditas vencidas . . . . Dos discursos dos vencedores, estamos fartos: movemo-nos”. Dialogando com a ecologia, a psicanálise, é um movimento, uma investida que resulta na ecopsicanálise, fortalecendo-nos.
É importante, diante das preocupações ambientais, efetivar esforços terapêuticos psicanalíticos associados à totalidade da realidade concreta vivida pelo sujeito. Alega Freud (1933/2010b) que a “intenção é, realmente, fortalecer o Eu, torná-lo mais independente do Super-eu (sic), ampliar seu âmbito de percepção e melhorar sua organização, de maneira que possa apropriar-se de novas parcelas do Id. Onde era Id, há de ser Eu” (p. 223). Nessa perspectiva, Krutzen (2023) parafraseia o pai da psicanálise, propondo: “onde está a natureza, nós estaremos” (p. 205). Onde há vida, há movimento e contradições. Agora o panorama se abre diante de nossos olhos. O método dialético é uma alavanca para uma adequada compreensão do que se passa com os diferentes povos, sujeitos vítimas do domínio totalitário, o qual “carrega o germe da sua própria destruição” (Arendt, 2000, p. 530).
Materialismo dialético e psicanálise
Na experiência cotidiana, a dialética é uma palavra que soa como se fosse grego. “A dialética é estabelecida como instrumento adequado para o conhecimento do provável” (Moura, s/d, p. 35). Está carregada de significação no domínio do debate, da discussão. Não deixa de ser uma forma de dialogar. O materialismo dialético é arma teórica revolucionária. Fornece explicação, inteligibilidade, como também traz “uma problemática nova, possibilitada pela compreensão dialética das relações entre Natureza e História e do lugar e função da prática social em todo esse processo” (Moura, s/d, p. 71).
É fundamental reconhecer a dialética na práxis psicanalítica, porque a psicanálise é dialética, “lida com a matéria viva: o ser humano, com seus sentimentos, fantasias, desejos, significações, bem como com a sua inibição, sintoma e medo” (Colao & Siqueira, 2018, p. 125). Reich (1977) disserta sobre as ligações entre a psicanálise de Freud e o materialismo dialético de Marx. Sabemos que o objeto de estudo da psicanálise é o inconsciente. Reich (1977) defende que “o verdadeiro objeto da psicanálise é a vida psíquica do homem tornado ser social. . . . É por isso que Freud enquanto cientista, não tinha o dever de extrair da sua teoria as consequências sociais” (p. 19). E o objeto de estudo do materialismo histórico e dialético é a produção material humana e seus mecanismos de construção em cada época.
“A dialética é o pensamento crítico que se propõe a compreender a “coisa em si” e sistematicamente se pergunta como é possível chegar à compreensão da realidade” (Kosik, 2002, p. 20). O materialismo dialético, segundo Cheptulin (1982), “estuda as formas gerais do ser, os aspectos e os laços gerais da realidade, as leis do reflexo desta última na consciência dos homens” (p. 1). Nossa ação precisa de nossa prática efetiva para qualquer coisa; portanto, a aptidão das leis e das categorias da dialética desempenham funções epistemológicas, metodológicas e filosóficas.
Reconhecemos, aponta Althusser (1984), que “os fenômenos que Marx e Freud estudaram, os efeitos da luta de classes e os efeitos do inconsciente não eram desconhecidos antes deles” (p. 75), ou seja, o objeto cuja teoria cada um deles produziu existiu antes de seu descobrimento. Freud e Marx nos oferecem “um pensamento materialista e dialético” (p. 77).
Se a tese mínima que define o materialismo é a existência da realidade fora do pensamento ou da consciência, Freud é, desde o início, materialista, já que nega a primazia da consciência, não só no conhecimento, mas também na própria consciência, e nega, além disso, a primazia da consciência na Psicologia, para pensar o aparelho psíquico como um todo, em que o ego, ou o consciente, nada mais é senão uma instância, parte ou efeito (p. 77).
O materialismo concebe que todo descobrimento nada mais faz senão reproduzir a forma de conhecimento de um objeto já existente fora do pensamento. “Tanto o objeto de Freud quanto o de Marx, enquanto objetos teóricos, são objetos-de-conhecimento, e, como tais, irredutíveis ao objeto real”, explica Althusser (1984, p. 76). A ênfase recai na “ideia de que o conhecimento não é um dado, é um ato. O ato de conhecer transforma o conhecido e o sujeito que conhece” (Konder, 1967, p. 25).
É certo que não se pode desprezar impunemente a dialética. Por maior que seja o desdém que tenhamos por todo o pensamento teórico, não é possível estabelecer a relação entre dois fatos naturais, ou verificar a conexão entre eles existente, sem auxílio do pensamento teórico (Engels, 1985, p. 237).
“Tudo o que é realidade objetiva, tudo o que tem relação com o mundo exterior refere-se à matéria” (Cheptulin, 1982, p. 67). Em sentido mais amplo, crê o materialismo que tudo o que existe é apenas matéria ou, pelo menos, depende da matéria. A matéria é uma realidade objetiva, dada ao homem. A constituição do indivíduo como ser da falta é social, cultural, simbólica e histórica, isso é que o leva a se transformar constantemente.
Em Meu encontro com Marx e Freud, Fromm (1965) ratifica que, “quanto mais insano e desumanizado parece tornar-se este nosso mundo, mais sentimos a necessidade de nos aproximarmos e de trabalharmos junto dos homens e das mulheres que partilham de nossas preocupações humanas” (p. 15). O ser humano é uno, e as mesmas leis são sempre válidas para todos nós. A dialética é a ciência das leis da natureza.
Para o materialismo dialético, o movimento por sua natureza é próprio da matéria. “Forma fundamental de todo movimento é, portanto, a aproximação e o afastamento, a contenção e a expansão . . . Todo movimento consiste num jogo de intercâmbio entre atração e repulsão” (Engels, 1985 p. 43). A psicanálise é puro movimento, lida a todo instante com as leis da dialética. “As leis da dialética são universais e só se manifestam por meio de outras leis, que são particulares em relação a elas” (Cheptulin, 1982, p. 260). Por exemplo, a lei da passagem das mudanças quantitativas para as qualitativas; a lei da unidade e da luta dos contrários; a lei da negação da negação; a lei da passagem do inferior para o superior. As leis e as categorias estão presentes e interligadas aos fenômenos materiais. São as categorias do materialismo dialético que nos permitem descrever processos, imaginando seu desenvolvimento. As leis se formam no processo do desenvolvimento histórico do conhecimento e da prática social. As leis são ligações, relações.
Fromm (1965) registra que o objetivo de Freud onde houver Id haverá Ego “só pode ser efetivado pelo esforço racional de penetrar as ficções e chegar à consciência da realidade A consciência é a chave do tratamento social e individual” (p. 21). Assim, tanto Freud quanto Marx “desejavam libertar o homem das cadeias da ilusão, permitindo-lhe despertar e agir como homem livre. . . . que todo homem representa toda a humanidade, portanto, que não há nada humano que lhe possa ser estranho” (p. 21). A matéria, destaca Cheptulin (1982), “é uma realidade objetiva dada ao homem por suas sensações” (p. 68), é tudo o que existe fora da consciência, e este tudo integra também todas as relações, propriedades, aspectos e mudanças (energia), assim como a substância, o campo, as leis, as categorias, entre outras.
A matéria é capaz de reflexo. O reflexo é uma característica geral da matéria, uma propriedade sua. Por exemplo, o sentimento está dentro do sujeito, mas reflete algo que está fora.
Triviños (1987) propõe:
A consciência é uma propriedade da matéria, a mais altamente organizada que existe na natureza, a do cérebro humano. Essa peculiaridade surgiu como um longo processo de mudança da matéria. . . . A grande propriedade da consciência é a de refletir a realidade objetiva. Assim surgem as sensações, as percepções, representações, conceitos, juízos. Todas elas são imagens. Reflexões adequadas, verdadeiras, da realidade objetiva. Estas imagens são produtos ideais. . . . É fundamental estabelecer que o cérebro por si não pensa. A consciência está unida à realidade material. Esta influi sobre os órgãos dos sentidos que transmitem as mensagens aceitas pelos canais nervosos ao córtex dos grandes hemisférios cerebelares (p. 62).
O sujeito do conhecimento é o homem concreto, com cérebro, corpo, com suas adversidades, suas contingências, seu ambiente, sua totalidade, sua atividade prático-material. Para Freud (1933/2010b, p. 41), “o homem de ação não largará o mundo externo, no qual pode testar sua força”. Lembra Konder (1967) que “o homem não se afirma no mundo unicamente como ser pensante, mas através de sua práxis. Não só teórica como prático-sensorial” (p. 26).
Marx (1989) expressa que:
é através de todos os sentidos que o homem se afirma no mundo objetivo . . . . De fato, não são apenas os cinco sentidos, mas também os chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (vontade, amor etc.), uma palavra, a sensibilidade humana e o caráter humano dos sentidos, que vêm à existência do seu objeto, através da natureza humanada. . . . . O homem, esmagado pelas preocupações, necessidades, não tem qualquer sentido para o mais belo espetáculo (p. 199).
A vida, tal como nos coube, pensa Freud (1933/2010b), “é muito difícil para nós, traz demasiadas dores, decepções, tarefas insolúveis. Para suportá-la, não podemos dispensar paliativos. Quem tem pesares, tem também licores” (p. 28). Ele nos convida a “lançar mais longe o olhar” (p. 29). “O sofrer nos ameaça a partir de três lados: do próprio corpo . . . do mundo externo, que pode se abater sobre nós com forças poderosíssimas, inexoráveis, destruidoras; e, por fim, das relações com os outros seres humanos” (p. 31).
Como ciência, há um parentesco fraterno entre a psicanálise e a sociologia marxista; “uma trata dos fenômenos psíquicos, outra de fenômenos sociais, e se acontece ajudarem-se mutuamente, e apenas na medida em que o fato social deve ser explorado no psiquismo individual, ou inversamente, o fato psíquico no ser social”, defende Reich (1977, p. 21). O marxismo é um guia de ação, é uma maneira de escrever e ler a realidade “para atingir a essência dos fenômenos, analisar e desvendar as contradições reais do presente” (Eagleton, 1999, p. 35). A sociologia não poderia explicar uma neurose, a teoria das pulsões, uma perturbação da aptidão para o trabalho ou da atividade sexual. Contudo, tratando-se de materialismo dialético, a psicanálise “desenvolveu teorias correspondentes – inconscientemente, como tantas outras ciências naturais” (Reich, 1977, p. 22). Quanto à dialética, aponta Althusser (1984), Freud nos forneceu surpreendentes figuras dialéticas que nunca considerou como leis, por exemplo, as categorias de transferência, condensação, superdeterminação, resistência, entre outras, “e esta tese-limite de que o inconsciente não conhece a contradição, e que essa ausência de contradição é a contradição de toda contradição” (p. 77). É de grande valia que cada ciência funcione por sua conta, que enfrente com seu objeto próprio.
A psicanálise e o marxismo como ciências sociais são reflexivas, dialéticas. São teorias distintas, com seus objetos de conhecimento respectivos, com formas de interação social e modos de lidar com a realidade. Ambos os conceitos têm a ver com objetos reais e são, segundo Althusser (1984, p. 86), “ciências conflituosas”. “Nada há em Marx que antecipe o descobrimento de Freud.: nada há em Marx que possa fundamentar uma teoria do psiquismo” (p. 87). Porém, Marx e Freud se aproximam por meio do materialismo e da dialética. O processo de integração, de relações, faz-nos prestar atenção no que surge
. . . à luz do fim, na dialética do pôr e do pressupor, que o começo sai da sombra para iniciar, sem encontrar nunca o seu ponto de partida absoluto, um novo círculo dos círculos. Todo devir é um começo e um fim . . . na medida em que se afasta do começo, é também um retorno para ele (Bensaïd, 1999, p. 340).
A formação de psicanalistas é uma realidade social também elaborada necessariamente através de experiências de atores sociais, de atos humanos, que são, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos. Para tanto, é imperativa a formação permanente de psicanalistas, comprometida com a realidade que vive o ser humano. Para o tripé da formação do psicanalista, há que se construir um conjunto de significados com os quais seja possível enfrentar esta sociedade estratificada e dar conta das avalanches que a clínica traz por meio da ecopsicanálise.
No fabuloso texto Recordar, repetir e elaborar, Freud (1914/2010) trata dos embates da mente às voltas com o trauma, por não conseguir recordar o que se passou, do esforço para tentar não lembrar, enquanto a possibilidade de elaboração é representada pela inserção da história na cadeia psíquica. O desafio é o sujeito elaborar a própria história, é a possibilidade de ligar fatos que estavam desligados e, assim, efetuar avanços para seu desenvolvimento pessoal. A sacada do recordar é a possibilidade de dar outro destino à recordação, criar uma nova narrativa. O esperançar surge; outra realidade, outro mundo pode acontecer. Não é isso que a psicanálise deseja? Que as pessoas possam exercer a política de seus desejos, preservar seu espaço potencial, seu ambiente, cuidar melhor de si mesmas, que sejam felizes e tenham motivação para edificarem suas vidas.
Quais os elementos, as forças que fazem o homem agir de determinadas formas? Quais os impulsos que o levam a lutar em certas direções? “Para Freud, orienta Fromm (1965), “o homem é motivado pelas contradições; pela contradição entre seu desejo de prazer sexual e sua luta pela sobrevivência e domínio do ambiente” (p. 41). A contradição constitui-se dialeticamente como uma determinada luta de forças que se opõem. “No entanto, essa luta está destinada a conhecer um desfecho, uma resolução” (Moura, s/d, p. 155). A questãochave proposta por Parker e Pavón-Cuéllar (2022, p. 39) é o que fazemos com as contradições, os conflitos, “se vamos orientá-los para que funcionem a nosso favor ou contra nós. . . . Psicanálise não é reacionária em si”. Uma psicanálise no sentido de uma ciência viva se questiona, se reformula incessantemente. Tanto a psicanálise, que é dialética, quanto o materialismo dialético identificam contradições em tempos difíceis. Lembra Danto (2019): “Freud sempre acreditou que a psicanálise libertaria as habilidades de raciocínio nos indivíduos oprimidos e o insight pessoal (combinado com o pensamento crítico) conduziria naturalmente à independência psicológica” (pp. 386-387).
A complexa relação dialética entre a forma clínica e os aspectos ideológicos da teoria psicanalítica “pode ser esclarecida e transcendida constantemente na prática. É um processo contínuo, sempre inconcluso, de luta contra o poder, de crítica da ideologia e de resistência contra a psicologização” (Parker e Pavón-Cuéllar, 2022, p. 59). Considerar o materialismo dialético interligado à psicanálise é um passo importante para analisar, falar e agir, a fim de conseguir fazer história em nossa práxis psicanalítica.
Práxis psicanalítica frente ao desamparo
Freud, em toda a sua obra, mostrou-se um pesquisador revolucionário e, ao fundamentar uma clínica baseada na palavra, descobriu sua práxis. Seu legado pode nos ajudar a transformar nossas relações tanto com nossa realidade interna quanto com a realidade externa, “lidando de outra maneira com nossa pulsão ou abrindo novos espaços para nosso desejo. Tudo isso é crucial para os movimentos de libertação, que também devem mudar sua relação com o mundo que querem transformar” (Parker & Pavón-Cuéllar, 2022, p. 139). Práxis designa ação/reflexão, uma unidade da teoria e da prática. Quando tratamos da questão da prática, concomitantemente, surge a questão da teoria. Práxis psicanalítica guarda em si um jogo a ser montado de contexto para contexto, sustentando suas visões de mundo. Então, o que é psicanálise? Decifra-me ou devoro-te!
Pergunta de difícil resposta, está longe de ser definitivamente esclarecida. Mas já existem movimentos de enfrentamento ao desafio. A esse respeito, diz Mezan: “a existência de diferentes maneiras de praticá-la deixou de ser, já há algum tempo, considerada como fenômeno marginal no nosso campo. Ao contrário, tornou-se um tema que vem atraindo a atenção de diversos estudiosos, os quais, segundo suas perspectivas específicas, procuram abordá-lo evitando a saída mais fácil: a de negar que o problema exista, já que apenas uma tendência – a sua própria – seria a verdadeira psicanálise, todas as demais consistindo em deturpações ou desvios sem maior significado” (Wagner, 1996, p. 80).
A psicanálise faz interlocuções, não é linear, nem exata, tampouco monolítica. Há, na obra freudiana, diferentes modelos metapsicológicos idealizados a partir de diferentes momentos de sua clínica (Wagner, 1996).
Necessitamos nos apropriar e estar atentos ao novo da psicanálise. Para isso, enfatizam Parker e Pavón-Cuéllar (2022, p. 59), “precisamos compreender a relação entre seu trabalho clínico e seu contexto histórico em constante mudança”. Se não conhecemos os aportes teóricos de determinada prática, não compreenderemos a prática. A práxis, conforme Triviños (2006), “é consciente, em todos os momentos, especialmente no processo de produção” (p. 133). Realizamos práticas que constituem conhecimento.
Embora Freud não tenha textos voltados especificamente para os temas “ecopsicanálise”, “materialismo dialético” e “psicanálise ampliada”, é possível não apenas encontrá-los em seus pensamento, em sua formação cultural, em sua história, como também desenvolvê-los a partir de seus escritos sociais – por exemplo, Totem e tabu, O mal-estar na civilização, Moisés e o monoteísmo, O futuro de uma ilusão, entre outros textos –, em sua práxis e em seu testemunho clínico, historicizado no livro de Elizabeth Danto, As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social, 1918- 1938. Relata Danto (2019) que Freud apoiou, desenvolveu e defendeu as clínicas públicas, bem como “colocava o próprio corpo nos necessários contatos políticos com as autoridades sociais-democratas no debate e nas discussões públicas na cidade. “A práxis se apresenta como forma material, transformadora e adequada a fins”, elucida Vásquez (2011, p. 239). É preciso mover-se praticamente, não apenas pensar um fato, mas revolucioná-lo.
Para Freud apudBroid (2019),
uma inserção orgânica no campo social era fundamental para a sobrevivência da psicanálise. Assim, nossos antecessores, a começar pelo próprio Freud não tiveram medo de inventar os mais diferentes dispositivos que possibilitassem a operação psicanalítica nos mais diversos campos sociais, instituindo o que hoje denominamos “psicanálise nas situações sociais-críticas” . . . Ia-se ao campo e debatia-se com profundidade (p. xiv).
A práxis refere-se à ação sobre a reflexão como psicanálise social, ecopsicanálise e psicanálise ampliada, porque ambas cumprem atos de escuta à experiência humana na totalidade de sua natureza e de sua diversidade. Coparticipa, interatua com modelo de atenção psicossocial sustentada no conceito de saúde integral, atendo-se à promoção e à prevenção em saúde mental. Como a temática do sofrimento psíquico é recorrente nos mais variados espaços sociais, estamos, concomitantemente, testemunhando a destruição da natureza em nosso planeta, sentindo que uma pessoa vale menos do que uma tampinha de caneta, perdendo milhares de seres humanos, que sucumbem diante de intempéries, cataclismas e desrespeito à natureza, verificando que as guerras não cessam e que o desamparo coletivo é potencializado e denunciando experiências de paralização da continuidade do processo de vida. Ao decodificar o caos dessa dura realidade, surge a equação: “Amor + Morte = Loucura (quando morre o que amamos, sem poder aceitá-lo, não temos outra opção senão aluciná-lo)” (Moffatt, 1987, p. 18). Ratificamos: o que fazer?
Winnicott (2011), em sua obra Tudo começa em casa, sugere a criação e a manutenção de ambiente potencial, transicional, com espaços democráticos. “Se democracia é maturidade, maturidade é saúde, e se a saúde é desejável, então vamos procurar algo que possa promovê-la. Com toda certeza, não ajuda nada impor uma máquina democrática a um país” (p. 257).
Manejar clinicamente, compreender o estranho, perceber e sentir as convulsões sociais, os excessos do real, ver, ordenar, investigar e acolher o sujeito em seus mais diversos estados de sofrimento foi a prática de Freud. Escutar o outro na diferença em sua realidade. Em Inibição, sintoma e angústia, Freud (1926/2014) propõe como tarefa do psicanalista trazer à tona o que está em jogo para que o ego, em condições favoráveis (ofertadas pelo setting analítico), possa ter recursos no trato com o contexto em sua atualidade e responder a ele com plasticidade de forma mais adequada. Nessa práxis, o psicanalista não somente estará atento às particularidades do sujeito como também terá melhores lentes para identificar a dialética materialista tanto em suas categorias quanto em suas leis, as quais, segundo Cheptulin (1982), são seu movimento; seu particular e seu geral; a causa e o efeito; o necessário e o contingente; o conteúdo e a forma; a essência e o fenômeno; a possibilidade e a realidade; a contradição, a lei da unidade e da luta dos contrários; a negação da negação; e as relações das leis e das categorias da dialética.
Dessa forma, uma luz bem definida será lançada sobre o que subjaz ao crescente desamparo, ao processo histórico que vive o indivíduo. Quando o homem vive no vazio, esse estado assemelha-se ao indivíduo alienado, ou como se estivesse submetido a um campo de concentração do qual, urgentemente, necessita “despertar sua capacidade de reagir de maneira mais adequada e de tomar decisões” (Bettelheim, 1988, p. 222). O vazio remete ao estado de desamparo relacionado à prematuração do ser humano, à incapacidade de simbolizar. Diante da sensação de ter tudo e, de repente, ocorre um golpe, uma catástrofe, uma tragédia, o sujeito fica, na real, sem nada, perplexo, sem recursos egoicos e materiais, mergulhado no desamparo.
Desamparo [Hilflosigkeit], ressalta Menezes (2012), é
. . . a falta de sustento, de proteção, implica a necessidade de um outro: o indivíduo precisa de alguém ou de alguma coisa que o ajude. Entretanto, desamparo não exige, necessariamente, o “amparo” no sentido de antepare; mais que um elemento concreto na construção do desamparo o que falta é a ação. . . . ausência de ajuda, impossibilidade de ação (p. 26).
Na condição de desamparo, ilustra Pereira (1999), o aparelho psíquico fica como se vivesse em um lugar vazio, porque ali ocorreu um encontro traumático com o perigo, na ordem do abandono e do insuportável, mas também há uma abertura para a criatividade e para os riscos que ele comporta. Pessoas desamparadas carregam em si potência de ação, de agir politicamente. O desamparo é disposição de habitar-se para vir a ter uma produtividade com ato de mudança. Ao mesmo tempo em que o desamparo coloca o sujeito em estado de vulnerabilidade, fazendo-o viver a experiência de ser aniquilado, negado, engolido, ele também cria laços. E, nesse momento, a linguagem que demarca territórios é indispensável.
O desamparo corresponde à dimensão de fragilidade da linguagem, à sua precariedade fundamental, dado que esta nunca consegue fornecer de uma vez por todas as bases estáveis de um mundo simbolicamente organizado. A linguagem só é capaz de construir um mundo à condição de perpetuamente reconstruí-lo. E é justamente pelo ato da palavra que a linguagem expõe sua precariedade do modo mais agudo. Num certo sentido, falar constitui o maior de todos os perigos, dado que esse ato revela por si só o extremo desamparo de tudo o que é da ordem da enunciação (Pereira, 1999, p. 365).
Neste cipoal de relações com a práxis psicanalítica frente ao terrífico desamparo, vale mobilizar conteúdos, aprendizados acerca do complexo de vazio, cujas ligações estabelecem aportes para a escuta ecopsicanalítica. Bion (2000) alerta: é essencial descobrirmos a verdade sobre nós mesmos, observando as circunstâncias da realidade enfrentada. A opção correlacionada, segundo o autor, é pela necessidade de verdade e necessidade de reajustar constantemente os desajustes. Contudo, os procedimentos psicanalíticos “pressupõem que haja, para o bem-estar do paciente, um constante suprimento de verdade, tão essencial para sua sobrevivência quanto o alimento é essencial para a sobrevivência física” (Bion, 2000, p. 111). Outrossim, contribui Green (1990. p. 51), o psiquismo inteiro é como uma gigantesca “formação intermediária no diálogo entre o corpo e o mundo”.
Tecendo considerações finais
Este trabalho buscou aproximações da psicanálise com a ecopsicanálise, sugerindo que seja utilizada na formação do psicanalista e, concomitantemente, agregada a sua práxis a concepção epistemológica do materialismo dialético. As ideias aqui trabalhadas se entrelaçam ao que Freud (1933/2010a), na última das Novas conferências introdutórias à psicanálise, denominou de Weltanschauung [visão científica], visão de mundo decorrente da ciência, que demanda trabalho constante, porque o percurso na ciência é lento, hesitante, investigativo, semelhante ao percurso de uma análise. E acerca dos cataclismas ambientais surgem sofrimentos como ecoansiedade (manifestações relacionadas com a crise ecológica), ecoluto (tristeza pelas perdas causadas por processos de luto vindos das catástrofes ambientais) e desamparo ([Hilflosigkeit], vereda essencial da metamorfose psíquica).
A ecopsicanálise está relacionada, em primeiro lugar, à natureza, a qual é interpretada como “princípio de vida e de movimento de todas as coisas existentes . . . também pode ser matéria, e é a própria totalidade de todas as coisas” (Abbagnano, 2000, p. 699). Em segundo lugar, ecopsicanálise é irmã gêmea da psicanálise, porque segue toda a episteme, a metodologia e a práxis psicanalítica. O desamparo é observado tanto no cotidiano quanto clinicamente, devido à crueza das diferentes perdas que o indivíduo sofre em decorrência de catástrofes ambientais, intempéries da natureza e tragédias provocadas pelo próprio homem. “A natureza não esconde, revela. Goethe e Freud compartilham essa visão. Os sintomas, os sonhos não escondem – revelam a quem tem olhos para ver, ouvidos para ouvir” (Perestrello, 1996, p. 256-257). O que fazer?
As questões levantadas pela ecopsicanálise e pela problemática do vazio, a clínica do irrepresentável, do traumático, do ecoluto são produtos de conflitos impostos por destinos que transcendem qualquer possibilidade de escolha individual. O terreno da ecopsicanálise traz consigo a presença da clínica do vazio e a presença do desamparo. Diante de intensos excessos, perdas, há de vingar uma práxis que conceba, compreenda, analise, interprete todo esse sofrimento e desemparo como um fenômeno material social.
Freud apudMasson (1986), apreciador da natureza, em uma carta endereçada a Ida Bondy Fliess, em 05 de agosto de 1897, expressa o respeito que atribui à natureza e deixa explícito que algo precisa ser feito.
As tempestades deste verão, acima de tudo, à parte seus efeitos colaterais, interromperam nosso contato, deixaram-nos desorientados a respeito uns dos outros e exigem agora uma verdadeira renovação. Então: a certa altura, antes das enchentes . . . Então veio o dilúvio. . . . E agora que o Dachstein, em sua fabulosa brancura acinzentada, resplandece diante de nossas janelas. Ademais, devido às complicações que surgem tão facilmente na vida, estamos presos . . . (pp. 258-259).
Os percalços que podem ocorrer com as intempéries da natureza geram caos, contradições. Por exemplo, a falta de comunicação, transportes, rodovias e alimentação impacta tremendamente a vida de uma região, de uma população. Por outro lado, a saúde mental proporciona criar espaços transicionais, atravessando as dificuldades com recursos egoicos e materiais para poder viver no aqui e agora momentos de sobrevivência psíquica. Daí que Freud apudMasson (1986) escreve uma carta para Fliess em 8 de agosto de 1897: “Querido Wilhem. Notícias, enfim, e por isso também respondo de imediato. Estivemos isolados, mas com extremo conforto e imperturbavelmente. A propósito, foi de uma beleza empolgante. Agora os trens voltaram a correr por Bruck – linha sul . . .” (apudMasson, 1986, (p. 259). Também nós precisamos seguir o conselho de Freud apudMasson (1986) para Fliess, em 06 de setembro de 1897: “divirta-se com os sinais de vida [...], que não lhe fazem nenhuma exigência” (p. 264).
Freud (1916/2010), em seu texto A transitoriedade, traz a noção de raridade no tempo e, com esperança, anuncia:
Se existir uma flor que floresça apenas uma noite, ela não nos parecerá menos formosa por isso. Tampouco posso compreender por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam ser depreciadas por sua limitação no tempo. Talvez chegue o dia em que quadros e estátuas que hoje admiramos se reduzam a pó, ou que nos suceda uma raça de homens que não mais entenda as obras de nossos poetas e pensadores, ou que sobrevenha uma era geológica em que os seres vivos deixem de existir sobre a Terra; mas se o valor de tudo quanto é belo e perfeito é determinado somente por seu significado para nossa vida emocional, não precisa sobreviver a ela, e, portanto, independe da duração absoluto (p. 249).
Os sintomas que a ecopsicanálise acompanha apresentam semelhança estreita com um mix de sentimento de vazio, desumanização, desligamento com a vida, sentido como desamparo, angústia (reação a uma situação de perigo) e luto. Qualquer apologia referente ao vazio traz consigo o modus vivendi de cada época. No vazio de simbolização sentida, parece como sofrimento ou falta do necessário à vida. Embora o desamparo coloque o sujeito em estado de vulnerabilidade [Hilflosigkeit] de Freud, ao mesmo tempo, é uma alavanca de possibilidade de vida psíquica; ou seja, proporciona ao sujeito agir politicamente, motivar-se para criar espaço de potência e de laços. Assim sendo, reporta à construção do objeto, o próprio investimento pode tornar-se objeto. O sujeito pode recuperar vínculos sociais, aprimorar sua linguagem, simbolizar sua vereda, é o esperançar.
Precisamos de uma rede simbólica, uma rede de saberes que se cruzam na saúde mental, uma forma social global com políticas públicas. As concepções teóricas do materialismo dialético e da psicanálise apresentam significados terapêuticos distintos. Na primeira, “o homem só conhece a realidade na medida ele cria a realidade humana e se comporta antes de tudo como ser prático” (Kosik, 2002, p. 28). A totalidade materialisticamente compreendida promove um passo para a criação da produção social do homem. A história é feita pelos homens. “A realidade não é (autêntica) realidade sem o homem, assim como não é (somente) realidade do homem. É realidade da natureza como totalidade absoluta” (Kosik, 2002, p. 248). A segunda concepção, confirma Althusser (1984), a psicanálise elaborou com seu objeto de estudo o inconsciente, seus efeitos e seu funcionamento – ciência do inconsciente – uma teoria da subjetividade, a qual só pode ocorrer no sujeito. Psicanálise é uma forma de pensar politicamente o mundo para além dos muros da clínica. Ver o que é coletivo/clínico fazendo ecos com o mundo da vida.
Sobre ecopsicanálise, Krutzen (2023, p. 205) anuncia: “a proposta de onde está a natureza, nós estamos”. Referente à questão ambiental e a aspectos humanitários, Rilke (2007, p. 66) defende que é necessário viver a vida ao limite em sua profundidade, e indaga: “tudo o que nos acontece, quer ou não o desejamos ou solicitamos, não é sempre magnífico e da mais pura e mais clara justiça?”. Finalmente, não temos resposta para tudo. Contudo, Bloch (2006) é ainda mais profético, em O princípio da esperança, ao concluir que a humanidade socializada, em aliança com a natureza mediatizada, transforma o mundo em lar. Fica o apelo para que nossa práxis psicanalítica inspire ações possíveis para abrir cada vez mais espaços democráticos, mantendo vivo o princípio de esperançar.













