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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.62 Belo Horizonte  2024  Epub 07-Nov-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n62a09 

ARTIGOS

Da falta constitutiva à causa do desejo

From constitutive lack to the cause of desire

De la falta constitutiva a la causa del deseo

Marcelo Barreto Marques Almeida1 

Psicanalista com formação pelo Círculo Psicanalítico da Bahia (CPB). Graduado em filosofia pela Claretiano - Centro Universitário de Batatais (SP).

1Círculo Psicanalítico da Bahia (CPB). E-mail: marcelombma@gmail.com


Resumo

Este ensaio busca revisitar a interpretação lacaniana do conceito freudiano de das Ding, que o traduz como o fora-do-significado e o relaciona com o desejo e com a angústia. Isto faz de das Ding uma espécie de prévia do conceito lacaniano de objeto a, o objeto perdido, representante da falta e causador do desejo, que impulsiona o sujeito em sua busca incessante por satisfação.

Palavras-chave: A Coisa; das Ding; complexo de Nebenmensch; objeto a

Abstract

This essay seeks to revisit Lacan’s interpretation of the Freudian concept of das Ding, which he translates as the “outside-of-meaning” and relates it to desire and anxiety. This position das Ding as a kind of precursor to the Lacanian concept of object a, the lost object, representative of lack and cause of desire, which propels the subject in their incessant search for satisfaction.

Keywords: The Thing; das Ding; Nebenmensch complex; object a

Resumen

Este ensayo busca revisar la interpretación lacaniana del concepto freudiano de das Ding, que lo traduce como el fuera de sentido y lo relaciona con el deseo y la angustia. Esto convierte a das Ding en una especie de anticipo del concepto lacaniano de objeto a, el objeto perdido, representante de la carencia y causa del deseo, que impulsa al sujeto en su incesante búsqueda de satisfacción.

Palabras clave: La Cosa; das Ding; complejo del Nebenmensch; objeto a

Um dos pontos mais essenciais da experiência analítica, e isso desde o começo, é a noção da falta de objeto. Jamais, em nossa experiência concreta da teoria analítica, podemos prescindir de uma noção da falta de objeto como central. Não é um negativo, mas a própria mola da relação do sujeito com o mundo.

(Lacan, 1956-1957/1995, p. 35)

Neste ensaio, buscamos delinear a trajetória que vai da falta constitutiva representada por das Ding à formulação do objeto a como causa do desejo. Para nos ajudar na elucidação da complexidade destes conceitos, revisitamos as contribuições de Freud e de Lacan, bem como de outros autores. Ao final, esperamos oferecer uma compreensão sobre a falta que opera na estruturação do sujeito e de como o desejo orienta a experiência humana em sua busca por sentido e completude. Tratando do objeto perdido do desejo, Jorge (2008) aponta que: “Toda a elaboração freudiana da sexualidade parte de uma premissa que foi resgatada por Lacan: no cerne da sexualidade humana figura uma falta de objeto” (p. 139).

Devido à precariedade do ser humano ao nascer, o bebê chega ao mundo em um estado de desamparo absoluto, dependente de outro para sua sobrevivência. Essa condição de desamparo gera uma angústia fundamental, que é a base da experiência humana. Neste sentido, a ausência de um objeto que possa satisfazer completamente suas necessidades é própria da constituição do ser humano. Algo lhe foi subtraído, ou resta de uma subtração, para que ele possa se constituir como sujeito. Miticamente, algo foi subtraído à espécie, quando de, e para, sua evolução.

Contudo, a partir desta falta, o sujeito inicia um processo de busca por algo que o preencha, um objeto que lhe proporcione uma sensação de completude. Mas a sensação de completude, ainda que encontrada, será sempre efêmera. A falta, que continuará a faltar, vai sempre impelir o sujeito a novas buscas em direção a uma completude que jamais será alcançada. Em outras palavras, a pulsão que move o sujeito a determinado objeto jamais será satisfeita totalmente, apenas parcialmente. Em seu movimento, a pulsão contornará o objeto sem encontrá-lo e seguirá em frente, pois aquele objeto que se mira, na verdade é uma miragem. E aquilo que se deseja nunca será encontrado, pois sempre será o desejo de outra coisa. É a falta impulsionando o sujeito na busca do reencontro de uma satisfação que na verdade nunca houve, mas que representa aquela completude mítica do ser, antes que viesse a ser no mundo, da qual só restam traços de algo que poderia ter sido.

A respeito desta falta constitutiva da espécie humana, Jorge (2008) nos conta que Lacan revisitou Freud (1895), em Projeto para uma psicologia científica, e ressaltou nela o complexo do Nebenmensch [próximo], que consiste na, ou advém da, relação entre a criança que chega ao mundo e o outro cuidador - o próximo semelhante, o Outro materno. O Nebenmensch é o semelhante que serve como espelho para o bebê, auxiliando-o na formação de sua imagem corporal e na distinção entre si e o mundo exterior.

A primeira experiência do bebê em relação a esse outro semelhante segue-se ao grito que comunica a angústia do real do desamparo que o acomete ao nascer, quando é expulso, arrancado da simbiose orgânica mantida com a mãe em uma espécie de completude biológica, e é tomado por uma necessidade difusa, associada à sua prematuridade e ao seu abandono no mundo. O desamparo sentido pelo bebê tem relação com o excesso dos estímulos endógenos que o acometem e não podem ser processados por um aparelho psíquico ainda a ser constituído, ou em vias de constituição, e também com a impossibilidade de sozinho dar conta da difícil tarefa de satisfazer suas necessidades no mundo.

Neste sentido, Santos e Fortes (2011) propõem:

A excitação proveniente do interior do corpo do bebê, justamente por sua incapacidade de pôr em ação os mecanismos que levam ao restabelecimento do equilíbrio, é sempre excessiva e atesta o estado de desamparo, de desajuda, a que o ser humano está entregue, necessitando de ajuda alheia. Esse estado originário, portanto, inscreve a alteridade no registro da dependência, como condição para o surgimento do sujeito psíquico (p. 750).

Essa primeira alteridade, esse outro semelhante, funciona como um primeiro objeto para o infans em seu desamparo. Os autores ressaltam que a dependência inicial do bebê em relação ao outro não é um mero acidente do desenvolvimento, mas uma condição estruturante. Em última instância, o desamparo originário é o que funda a necessidade humana de vínculos e de significação, elementos centrais para a constituição do sujeito. O bebê encontrará nesse outro semelhante tanto um corpo que aplacará sua angústia quanto a palavra, que o introduzirá no mundo da linguagem e possibilitará seu desenvolvimento psíquico. É quem virá prover os objetos que vão saciar suas necessidades, bem como interpretar suas demandas. Sobre esse encontro com o outro, Jorge (2008) afirma:

Freud dirá então que, “assim, o complexo do próximo [Nebenmensch] se separa em dois componentes, um dos quais se impõe por um aparelho constante, se mantém coeso como uma coisa [Ding] do mundo, ao passo que o outro é compreendido por um trabalho mnêmico”, referente a alguma informação do corpo próprio do sujeito (p. 141).

Santos e Fortes (2011) acrescentam: “A Coisa inassimilável marca um primeiro exterior, um estranho, situando-se fora do aparelho de memória. É um objeto perdido que não pode ser reencontrado, apenas seus traços – é o resto que escapa ao juízo” (p. 760). Se, por um lado, o outro vai amparar, prover e conter os excessos do bebê, por outro, também vai desamparar, faltar e violentar. O psiquismo se constitui, dessa forma, atrelado a uma dimensão de insegurança, de falta de garantias e de vulnerabilidade frente ao desejo do Outro, que vai perdurar, em alguma medida, na continuidade da vida do sujeito, e com maior intensidade, na do sujeito neurótico.

Esse é o das Ding freudiano em sua relação com o psiquismo do sujeito. A Coisa que não será compreendida na relação do ser com o Outro, inicialmente com o Outro materno. Aquilo que não se representará, que é um estranho/familiar e que se manterá a uma distância nem muito grande nem muito pequena do sujeito, ora atraindo-o e acolhendo-o, ora ameaçando-o e aterrorizando-o.

Entretanto, aquilo que é sentido no Outro como da ordem do estranhamento, são traços no real dos indivíduos de algo que nunca foi do ser humano, mas que foi perdido antes, quando o pulsional se impôs ao instintual. Esta falta radical, que provoca angústia no sujeito, também o mobiliza, às cegas, na tentativa de um “reencontro” com o que para sempre foi perdido. Nesse sentido, Jorge (2008) pontua:

Lacan sublinha que “a orientação do sujeito humano em direção ao objeto” é fundada pela “tendência a reencontrar”. Das Ding é o objeto perdido desde sempre, ou seja, trata-se de uma perda relativa à história da espécie e não à história dos indivíduos da espécie. A tendência ao reencontro é produzida estruturalmente pela perda originária, pela falta ôntica que é constitutiva do sujeito humano enquanto tal (p. 143).

Para Fink (1998), apesar de Lacan reconhecer uma dívida com alguns psicanalistas que o ajudaram no caminho em direção ao conceito de objeto a, há um reconhecimento especial em relação a Freud, devido à sua formulação da noção de “objeto perdido”. Porém, o “objeto perdido” de Lacan vai além do conceito freudiano. Inclusive, Freud nunca sustentou que os objetos estão irremediavelmente perdidos, ou que a redescoberta ou o desejo de um reencontro de um objeto implica um objeto que já está “perdido desde sempre”. O objeto “perdido desde sempre” é uma concepção de Lacan, que traduz das Ding como o fora-do-significado, e o relaciona com o desejo e com a angústia, o que faz de das Ding uma espécie de prévia do seu conceito de objeto a.

Segundo Viola e Vorcaro (2009), Lacan elabora o objeto a quando coteja sua concepção de desejo com a perspectiva de Hegel, em que o desejo do homem é desejo de desejo, na medida em que é desejo de reconhecimento por parte do Outro. Mas diferentemente de Hegel, para quem o sujeito a ser reconhecido pelo Outro é objeto como consciência, para Lacan, o objeto a é o objeto perdido, o resto irredutível do sujeito no campo do Outro.

Este objeto perdido é o resto inassimilável do processo de simbolização e está associado à perda mítica da simbiose mãe-bebê. Mas ele é parte do vazio mais radical e profundo do ser, a Coisa, relacionada à perda mítica da unidade natureza-espécie humana, e que se inscreverá na estrutura do sujeito como objeto a, quando de sua entrada na linguagem.

Sendo um vazio delimitado, a presença de uma ausência, o objeto a representa o objeto enquanto faltoso e, por isso mesmo, através do deslocamento (metonímia) pode ser representado por qualquer objeto. Em função da relação estrita entre falta e desejo, Lacan passará a chamar o objeto a de “objeto causa do desejo”.Sobre objeto a como causa do desejo, Viola e Vorcaro (2009) acrescentam:

Já no enfoque lacaniano, essa metonímia da perda de sucessivos objetos é entendida como a metonímia da presença do objeto a na forma dos objetos cedíveis. Se, para Freud, a angústia sinaliza a iminência dessas perdas, para Lacan (1963/2005), a angústia demarca o momento da aparição do a, “momento do desvelamento traumático em que a angústia se revela tal como é, como aquilo que não engana, momento em que o campo do Outro, por assim dizer, fende-se e se abre para seu fundo” (p. 339). E o que há nesse fundo? No fundo aberto pelo trauma do corte encontra-se o vazio irredutível, a Coisa. O objeto a faz parte desse vazio e é o elo de mediação entre a falta radical, que é a Coisa, e os outros objetos, capazes de se apresentar como objetos na cena do mundo. O objeto a é o vazio que dá início ao desejo. É um fundo de vácuo que origina e direciona o desejo – desejo que a partir dessa origem se lança indefinidamente em sua busca desenfreada de preenchimento. Nesse sentido, ele não é o objeto eleito pelo desejo, alvo da busca do desejo (p. 899).

As autoras estão refletindo sobre como, em Lacan, o objeto a é a causa do desejo, funcionando como um ponto de referência essencial para sustentar o movimento do desejo. Neste sentido que o objeto a orienta a metonímia do desejo, que desliza entre diversos atributos buscando encobrir o vazio representado pelo objeto a, em tentativas sempre infrutíferas, o que explica a constante insatisfação do desejo humano. O movimento desejante, em sua busca por preenchimento, tem por base o movimento pulsional, motor da atividade psíquica. Mas, se para Freud, há algo na natureza da pulsão que é desfavorável à sua plena satisfação, e o componente mais variável da pulsão é o objeto, Lacan vem precisar, segundo Jorge (2008), “[...] que o objeto da pulsão é o objeto a, falta que corresponde à inscrição, na estrutura, do objeto perdido” (p. 52).

Assim, Lacan parte de das Ding, a falta constitutiva da espécie humana, inerente ao real em sua ex-sistência, e chega ao objeto a. É na articulação entre os registros, quando “a palavra mata a coisa”, que restará algo não simbolizável, um vazio de significado. Esse é o objeto a, que a lei simbólica vai delimitar e posicionar no centro do nó borromeano, na interseção entre o Real, o Simbólico e o Imaginário, conforme a figura 1:

Fonte: Tfouni et.al (2017, p. 145)

Figura 1 nó borromeano 

Inscrito no centro da estrutura do ser, o objeto a mediará a falta radical aos tantos outros objetos do mundo, estes, sim, passíveis de ser encontrados. No entrelaçamento dos registros, o Real fornecerá a causa motriz; o Imaginário dará consistência a um objeto de desejo, ainda que efêmera e ilusória; e o Simbólico multiplicará as possibilidades de sentido, operando os deslizamentos necessários à continuidade do processo de busca por satisfação.

A estrutura, como um motor – ou uma mola, nas palavras de Lacan – fará o sujeito desejar, aliviando sua angústia, colocando-o em movimento. E não importa que a satisfação nunca seja total, pois cada não encontro ensejará uma nova tentativa de reencontro com o objeto perdido, que é uma marca do humano. O sujeito, então, nas voltas das pulsões, e sempre às voltas com escolhas, repetições, prazeres e desprazeres, trilhará o arco da vida, do real da falta radical ao real da morte, numa espiral de satisfações parciais que sustentará o seu percurso.

Referências

Fink, B. (1998). O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. (M. L. Sette Câmara, trad.). Zahar. [ Links ]

Jorge, M. A. C. (2008). Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan: as bases conceituais, vol. 1. Zahar. [ Links ]

Lacan, J. (1956/1995). O seminário, livro 4: A relação de objeto. (D. D. Estrada, trad.). Zahar. [ Links ]

Santos, N. T. G. & Fortes, I. (2011). Desamparo e alteridade: o sujeito e a dupla face do outro. Psicologia USP, (22)4, 747-770. [ Links ]

Tfouni, L. V., Prottis, M. M. M. L., & Bartijotto, J. (2017). ... lá onde o amor é tecido de desejo... Lalangue a irrupção do equívoco na língua. Cad. Psicanál. (CPRJ), v. 39, n. 36, 141-159. [ Links ]

Viola, D. T. D. & Vorcaro, Â. M. R. (2009). A formulação do objeto a partir da teorização lacaniana acerca da angústia. Revista Mal-Estar e Subjetividade, (9)3, 867-903. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482009000300006&lng=pt&nrm=iso.Links ]

Recebido: 03 de Setembro de 2024; Aceito: 28 de Novembro de 2024

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