Um dos pontos mais essenciais da experiência analítica, e isso desde o começo, é a noção da falta de objeto. Jamais, em nossa experiência concreta da teoria analítica, podemos prescindir de uma noção da falta de objeto como central. Não é um negativo, mas a própria mola da relação do sujeito com o mundo.
Neste ensaio, buscamos delinear a trajetória que vai da falta constitutiva representada por das Ding à formulação do objeto a como causa do desejo. Para nos ajudar na elucidação da complexidade destes conceitos, revisitamos as contribuições de Freud e de Lacan, bem como de outros autores. Ao final, esperamos oferecer uma compreensão sobre a falta que opera na estruturação do sujeito e de como o desejo orienta a experiência humana em sua busca por sentido e completude. Tratando do objeto perdido do desejo, Jorge (2008) aponta que: “Toda a elaboração freudiana da sexualidade parte de uma premissa que foi resgatada por Lacan: no cerne da sexualidade humana figura uma falta de objeto” (p. 139).
Devido à precariedade do ser humano ao nascer, o bebê chega ao mundo em um estado de desamparo absoluto, dependente de outro para sua sobrevivência. Essa condição de desamparo gera uma angústia fundamental, que é a base da experiência humana. Neste sentido, a ausência de um objeto que possa satisfazer completamente suas necessidades é própria da constituição do ser humano. Algo lhe foi subtraído, ou resta de uma subtração, para que ele possa se constituir como sujeito. Miticamente, algo foi subtraído à espécie, quando de, e para, sua evolução.
Contudo, a partir desta falta, o sujeito inicia um processo de busca por algo que o preencha, um objeto que lhe proporcione uma sensação de completude. Mas a sensação de completude, ainda que encontrada, será sempre efêmera. A falta, que continuará a faltar, vai sempre impelir o sujeito a novas buscas em direção a uma completude que jamais será alcançada. Em outras palavras, a pulsão que move o sujeito a determinado objeto jamais será satisfeita totalmente, apenas parcialmente. Em seu movimento, a pulsão contornará o objeto sem encontrá-lo e seguirá em frente, pois aquele objeto que se mira, na verdade é uma miragem. E aquilo que se deseja nunca será encontrado, pois sempre será o desejo de outra coisa. É a falta impulsionando o sujeito na busca do reencontro de uma satisfação que na verdade nunca houve, mas que representa aquela completude mítica do ser, antes que viesse a ser no mundo, da qual só restam traços de algo que poderia ter sido.
A respeito desta falta constitutiva da espécie humana, Jorge (2008) nos conta que Lacan revisitou Freud (1895), em Projeto para uma psicologia científica, e ressaltou nela o complexo do Nebenmensch [próximo], que consiste na, ou advém da, relação entre a criança que chega ao mundo e o outro cuidador - o próximo semelhante, o Outro materno. O Nebenmensch é o semelhante que serve como espelho para o bebê, auxiliando-o na formação de sua imagem corporal e na distinção entre si e o mundo exterior.
A primeira experiência do bebê em relação a esse outro semelhante segue-se ao grito que comunica a angústia do real do desamparo que o acomete ao nascer, quando é expulso, arrancado da simbiose orgânica mantida com a mãe em uma espécie de completude biológica, e é tomado por uma necessidade difusa, associada à sua prematuridade e ao seu abandono no mundo. O desamparo sentido pelo bebê tem relação com o excesso dos estímulos endógenos que o acometem e não podem ser processados por um aparelho psíquico ainda a ser constituído, ou em vias de constituição, e também com a impossibilidade de sozinho dar conta da difícil tarefa de satisfazer suas necessidades no mundo.
Neste sentido, Santos e Fortes (2011) propõem:
A excitação proveniente do interior do corpo do bebê, justamente por sua incapacidade de pôr em ação os mecanismos que levam ao restabelecimento do equilíbrio, é sempre excessiva e atesta o estado de desamparo, de desajuda, a que o ser humano está entregue, necessitando de ajuda alheia. Esse estado originário, portanto, inscreve a alteridade no registro da dependência, como condição para o surgimento do sujeito psíquico (p. 750).
Essa primeira alteridade, esse outro semelhante, funciona como um primeiro objeto para o infans em seu desamparo. Os autores ressaltam que a dependência inicial do bebê em relação ao outro não é um mero acidente do desenvolvimento, mas uma condição estruturante. Em última instância, o desamparo originário é o que funda a necessidade humana de vínculos e de significação, elementos centrais para a constituição do sujeito. O bebê encontrará nesse outro semelhante tanto um corpo que aplacará sua angústia quanto a palavra, que o introduzirá no mundo da linguagem e possibilitará seu desenvolvimento psíquico. É quem virá prover os objetos que vão saciar suas necessidades, bem como interpretar suas demandas. Sobre esse encontro com o outro, Jorge (2008) afirma:
Freud dirá então que, “assim, o complexo do próximo [Nebenmensch] se separa em dois componentes, um dos quais se impõe por um aparelho constante, se mantém coeso como uma coisa [Ding] do mundo, ao passo que o outro é compreendido por um trabalho mnêmico”, referente a alguma informação do corpo próprio do sujeito (p. 141).
Santos e Fortes (2011) acrescentam: “A Coisa inassimilável marca um primeiro exterior, um estranho, situando-se fora do aparelho de memória. É um objeto perdido que não pode ser reencontrado, apenas seus traços – é o resto que escapa ao juízo” (p. 760). Se, por um lado, o outro vai amparar, prover e conter os excessos do bebê, por outro, também vai desamparar, faltar e violentar. O psiquismo se constitui, dessa forma, atrelado a uma dimensão de insegurança, de falta de garantias e de vulnerabilidade frente ao desejo do Outro, que vai perdurar, em alguma medida, na continuidade da vida do sujeito, e com maior intensidade, na do sujeito neurótico.
Esse é o das Ding freudiano em sua relação com o psiquismo do sujeito. A Coisa que não será compreendida na relação do ser com o Outro, inicialmente com o Outro materno. Aquilo que não se representará, que é um estranho/familiar e que se manterá a uma distância nem muito grande nem muito pequena do sujeito, ora atraindo-o e acolhendo-o, ora ameaçando-o e aterrorizando-o.
Entretanto, aquilo que é sentido no Outro como da ordem do estranhamento, são traços no real dos indivíduos de algo que nunca foi do ser humano, mas que foi perdido antes, quando o pulsional se impôs ao instintual. Esta falta radical, que provoca angústia no sujeito, também o mobiliza, às cegas, na tentativa de um “reencontro” com o que para sempre foi perdido. Nesse sentido, Jorge (2008) pontua:
Lacan sublinha que “a orientação do sujeito humano em direção ao objeto” é fundada pela “tendência a reencontrar”. Das Ding é o objeto perdido desde sempre, ou seja, trata-se de uma perda relativa à história da espécie e não à história dos indivíduos da espécie. A tendência ao reencontro é produzida estruturalmente pela perda originária, pela falta ôntica que é constitutiva do sujeito humano enquanto tal (p. 143).
Para Fink (1998), apesar de Lacan reconhecer uma dívida com alguns psicanalistas que o ajudaram no caminho em direção ao conceito de objeto a, há um reconhecimento especial em relação a Freud, devido à sua formulação da noção de “objeto perdido”. Porém, o “objeto perdido” de Lacan vai além do conceito freudiano. Inclusive, Freud nunca sustentou que os objetos estão irremediavelmente perdidos, ou que a redescoberta ou o desejo de um reencontro de um objeto implica um objeto que já está “perdido desde sempre”. O objeto “perdido desde sempre” é uma concepção de Lacan, que traduz das Ding como o fora-do-significado, e o relaciona com o desejo e com a angústia, o que faz de das Ding uma espécie de prévia do seu conceito de objeto a.
Segundo Viola e Vorcaro (2009), Lacan elabora o objeto a quando coteja sua concepção de desejo com a perspectiva de Hegel, em que o desejo do homem é desejo de desejo, na medida em que é desejo de reconhecimento por parte do Outro. Mas diferentemente de Hegel, para quem o sujeito a ser reconhecido pelo Outro é objeto como consciência, para Lacan, o objeto a é o objeto perdido, o resto irredutível do sujeito no campo do Outro.
Este objeto perdido é o resto inassimilável do processo de simbolização e está associado à perda mítica da simbiose mãe-bebê. Mas ele é parte do vazio mais radical e profundo do ser, a Coisa, relacionada à perda mítica da unidade natureza-espécie humana, e que se inscreverá na estrutura do sujeito como objeto a, quando de sua entrada na linguagem.
Sendo um vazio delimitado, a presença de uma ausência, o objeto a representa o objeto enquanto faltoso e, por isso mesmo, através do deslocamento (metonímia) pode ser representado por qualquer objeto. Em função da relação estrita entre falta e desejo, Lacan passará a chamar o objeto a de “objeto causa do desejo”.Sobre objeto a como causa do desejo, Viola e Vorcaro (2009) acrescentam:
Já no enfoque lacaniano, essa metonímia da perda de sucessivos objetos é entendida como a metonímia da presença do objeto a na forma dos objetos cedíveis. Se, para Freud, a angústia sinaliza a iminência dessas perdas, para Lacan (1963/2005), a angústia demarca o momento da aparição do a, “momento do desvelamento traumático em que a angústia se revela tal como é, como aquilo que não engana, momento em que o campo do Outro, por assim dizer, fende-se e se abre para seu fundo” (p. 339). E o que há nesse fundo? No fundo aberto pelo trauma do corte encontra-se o vazio irredutível, a Coisa. O objeto a faz parte desse vazio e é o elo de mediação entre a falta radical, que é a Coisa, e os outros objetos, capazes de se apresentar como objetos na cena do mundo. O objeto a é o vazio que dá início ao desejo. É um fundo de vácuo que origina e direciona o desejo – desejo que a partir dessa origem se lança indefinidamente em sua busca desenfreada de preenchimento. Nesse sentido, ele não é o objeto eleito pelo desejo, alvo da busca do desejo (p. 899).
As autoras estão refletindo sobre como, em Lacan, o objeto a é a causa do desejo, funcionando como um ponto de referência essencial para sustentar o movimento do desejo. Neste sentido que o objeto a orienta a metonímia do desejo, que desliza entre diversos atributos buscando encobrir o vazio representado pelo objeto a, em tentativas sempre infrutíferas, o que explica a constante insatisfação do desejo humano. O movimento desejante, em sua busca por preenchimento, tem por base o movimento pulsional, motor da atividade psíquica. Mas, se para Freud, há algo na natureza da pulsão que é desfavorável à sua plena satisfação, e o componente mais variável da pulsão é o objeto, Lacan vem precisar, segundo Jorge (2008), “[...] que o objeto da pulsão é o objeto a, falta que corresponde à inscrição, na estrutura, do objeto perdido” (p. 52).
Assim, Lacan parte de das Ding, a falta constitutiva da espécie humana, inerente ao real em sua ex-sistência, e chega ao objeto a. É na articulação entre os registros, quando “a palavra mata a coisa”, que restará algo não simbolizável, um vazio de significado. Esse é o objeto a, que a lei simbólica vai delimitar e posicionar no centro do nó borromeano, na interseção entre o Real, o Simbólico e o Imaginário, conforme a figura 1:
Inscrito no centro da estrutura do ser, o objeto a mediará a falta radical aos tantos outros objetos do mundo, estes, sim, passíveis de ser encontrados. No entrelaçamento dos registros, o Real fornecerá a causa motriz; o Imaginário dará consistência a um objeto de desejo, ainda que efêmera e ilusória; e o Simbólico multiplicará as possibilidades de sentido, operando os deslizamentos necessários à continuidade do processo de busca por satisfação.
A estrutura, como um motor – ou uma mola, nas palavras de Lacan – fará o sujeito desejar, aliviando sua angústia, colocando-o em movimento. E não importa que a satisfação nunca seja total, pois cada não encontro ensejará uma nova tentativa de reencontro com o objeto perdido, que é uma marca do humano. O sujeito, então, nas voltas das pulsões, e sempre às voltas com escolhas, repetições, prazeres e desprazeres, trilhará o arco da vida, do real da falta radical ao real da morte, numa espiral de satisfações parciais que sustentará o seu percurso.














