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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.62 Belo Horizonte  2024  Epub 07-Nov-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n62a13 

ARTIGOS

A que lugar se chega com uma análise?

What place do you reach through analysis?

¿A dónde llegas con un análisis?

Saulo Moraes de Assis1 

Professor de Filosofia. Psicanalista. Candidato em formação (5º ano) do Círculo Psicanalítico da Bahia (CPB). Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Especialista em Filosofia Moderna e Contemporânea pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutor em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Pós-doutor em Difusão do Conhecimento pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor efetivo e pesquisador do Instituto Federal da Bahia (IFBA).


http://orcid.org/0000-0001-8568-9836

1 Universidade Federal da Bahia (UFBA). Círculo Psicanalítico da Bahia (CPB). E-mail: saulomassis@gmail.com


Resumo

Este trabalho tem por objetivo explorar a questão sobre o processo analítico a partir de reflexões acerca do suposto lugar ou posição de onde se inicia uma análise e de onde ela termina. Discute como Freud tratava esta questão e como Lacan fornece importantes contribuições para pensar a circularidade e a repetição como elementos centrais no processo analítico. Desse modo, a análise é vista como um caminho ético e prático, no qual o desejo é revelado por meio da palavra, conectando o início e o fim do processo.

Palavras-chave: lugar; processo analítico; circularidade; análise

Abstract

This work aims to explore the question of the analytical process by reflecting on the supposed place or position from which an analysis begins and where it ends. It examines how Freud addressed this issue and how Lacan contributes significantly to understanding circularity and repetition as central elements of the analytical process. Thus, analysis is seen as an ethical and practical path in which desire is revealed through language, connecting the beginning and the end of the process.

Keywords: place; analytical process; circularity; analysis

Resumen

Este artículo busca explorar la cuestión del proceso analítico a través de reflexiones sobre el supuesto lugar o posición desde donde comienza y termina un análisis. Analiza cómo Freud abordó esta cuestión y cómo Lacan aporta importantes contribuciones para comprender la circularidad y la repetición como elementos centrales del proceso analítico. Así, el análisis se concibe como un camino ético y práctico en el que el deseo se revela a través de la palabra, conectando el inicio y el fin del proceso.

Palabras clave: lugar; proceso analítico; circularidad; análisis

“Não tenho a intenção de afirmar que a análise seja de todo um trabalho sem fim. Seja qual for a vertente teórica que se defenda a esse respeito, penso que o fim da análise seja uma questão da prática.”

Sigmund Freud - Análise terminável e interminável (1937a)

“Quer se pretenda agente de cura, de formação ou de sondagem, a psicanálise dispõe de apenas um meio: a fala do paciente.”

Jacques Lacan - Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953b)

Em um texto que versa sobre a natureza do conhecimento, Sócrates diz “Eu sou totalmente esquisito (átopos) e não faço senão criar aporias” (Platão, 1988). A palavra “átopos” era usada no grego para se referir a algo estranho, inusitado ou mesmo um paradoxo e, etimologicamente, pode ser compreendida como “sem lugar” ou “algo fora do lugar”. O estranho é aquele deslocado em relação a certo lugar. Haveria uma localização esperada e o estranho parece ocupar um lugar inusitado. Em conjunção com esta avaliação sobre si, vem junto uma deliberação sobre o que se produz a partir daí: aporias. A sensação de Sócrates é uma sensação familiar a qualquer um de nós. O conjunto da frase, inclusive, remete ao possível desdobramento advindo dessa “esquisitice”: “sou fora do lugar, estranho a mim mesmo e, talvez por isso, só viva nesse impasse, nessa hesitação, nessa permanente contradição comigo mesmo, neste estado no qual se produzem ambivalências”.

A disjunção sobre avançar em direção ao conhecimento de si e, com isso, tornar-se estranho para si mesmo é um elemento importante para o pensamento platônico-socrático e para toda uma tradição que se desdobra posteriormente. Os filósofos já sabiam desde muito tempo que o caminho que conduz a uma inspeção sobre quem se é, acaba nos conduzindo para uma sensação de estranheza em relação ao mundo e às nossas crenças. Freud, em uma célebre passagem, ao tratar sobre o Inconsciente, afirma que “o Eu […] não é nem mesmo senhor em sua própria casa” (1917/2014, p.302). Isto gera uma sensação de estranheza em relação ao que somos e desejamos. A descoberta do Inconsciente nos ajuda a entender a sensação de que algo não está no lugar, de que alguma coisa é diferente daquilo que me parece, diferente, estranho, porque o lugar no qual eu me identifico e me compreendo não é o mesmo lugar de onde provém aquilo que me qualifica e me torna quem eu sou.

Ao estudar Freud, rapidamente nos confrontamos com a nomenclatura de uma primeira e segunda tópicas. Esta separação serve para nos situarmos em relação ao surgimento das categorias inicialmente formuladas pelos estudos psicanalíticos, Consciente, Pré-consciente e Inconsciente, depois expandidas pelas categorias de Eu, Id e Supereu. Quando Freud afirma ser o objetivo da psicanálise trazer à consciência os conteúdos inconscientes ao ponto de “tanta resistência interior ser vencida que não é preciso temer a repetição daqueles processos patológicos” (1937a/2018, p.162) — em um processo laborioso mediado pela transferência —, está se referindo a uma questão topológica. Com seu olhar naturalista, Freud concebe um aparelho psíquico com certas dimensões espaciais, daí as metáforas volumétricas sobre a maior parcela do “conteúdo” psíquico estar no Inconsciente, sendo que apenas uma parte deste conteúdo ascende ao nível consciente. Posteriormente, com a Segunda Tópica, enriquece essa explicação com outros “lugares” que se entrecruzam em um emaranhado fronteiriço de sobreposições cartográficas. Assim, uma parte do Eu está presente nas três regiões definidas na Primeira Tópica, o Id segue completamente inconsciente e o Supereu, assim como o Eu, compartilha terreno com as três instâncias anteriores — isto é frequentemente representado pela imagem de um iceberg, embora, apesar de pedagógica, não tenha sido Freud quem introduziu esta imagem na explicação.

Os avanços da teoria ressignificam estas explicações. Em Freud, havia uma expectativa de que essa topologia tivesse, de alguma forma, em consonância com os melhores dados disponíveis sobre “o plano biológico”1 (1937a/2018, p.187) e que não fosse apenas uma figuração explicativa. Seja descrição, seja metáfora2, as explicações remetendo aos lugares de onde ou para onde os desejos, afetos e representações transitam, seguem sendo usadas. A explicação, repetida por Freud diversas vezes, de que a função da análise é trazer do Inconsciente ao Consciente o material reprimido, permance atual para se compreender seu pensamento. Algumas das categorias mais conhecidas no discurso psicanalítico fazem menção a noções espacializadas, como repressão/recalque (verdrängung) e deslocamento (verschiebung), termos em alemão que trazem no seu bojo o sentido espacial de sair de um “lugar” a outro3.

De que lugar é esse que se sai ou que se deixa algo sair? Ao fazê-la, a pergunta parece estranha. Na verdade, a resposta já está dada na elaboração da questão: o conteúdo sai do Inconsciente e, pela via da repetição e elaboração, pode permanecer no Consciente. Mas este trânsito de afetos e representações não produz mudanças simplesmente psíquicas; vale lembrar que os sintomas são uma manifestação direta desse movimento. O nexo deste trânsito dos afetos e representações será sempre incompleto, afinal, não é possível recordar de tudo que é inconsciente — o Inconsciente se resguarda na medida de sua própria natureza. O saber de si é um saber incompleto, porque o si mesmo, o Eu consciente, é o desenvolvimento possível desta instância psíquica que só aparece conscientemente de maneira cifrada pelo dito ou não dito.

Lacan nos ajudou a pensar de maneira mais esquemática o dilema por trás de uma análise, nos termos da pergunta anteriormente formulada sobre o lugar de que se sai em uma análise. Ele explica os momentos do processo analítico a partir de posições que o analisante vai ocupando — e, novamente, a aproximação se dá pelo termo espacializado “posição”. Segundo ele, uma análise se constitui por uma circularidade que linearmente pode ser representada assim (Lacan, 1953, p.39): “rS - rI - iR - iS - sS - SI - SR - rR - rS”.

Na sequência “r” significa “realização”, “i” imaginação e “s” simbolização. As letras maiúsculas dizem respeito aos registros, Simbólico, Imaginário e Real. Deste modo, a posição de partida, rS, é a posição na qual o analisante coloca o analista, enquanto personagem simbólico, como o detentor da verdade, o mestre, apesar de ser “completamente ilusória, [...] ela é a postura típica” (1953, p.39). Aqui já se vê a importância do percurso do próprio analista no processo de análise, pois se ele acredita que o lugar onde o analisante o coloca no ponto de partida é um lugar de fato, e que ele detém a verdade sobre este sujeito, o processo analítico não avançará. Em uma célebre passagem, Freud afirma que “cada psicanalista consegue ir apenas até onde permitem seus próprios complexos e resistências internas” (1910/2013, p.223), daí a importância fundamental de que o analista tenha passado por uma análise. Ele só conseguirá inspecionar um outro na medida da inspeção que promoveu em si. O exercício do analista é de uma responsabilidade dupla: primeiro, consigo mesmo e, depois, com seus analisantes — não é trivial pensar a psicanálise como uma ética, isto já estava inscrito na sua própria constituição.

É interessante perceber que a posição inicial sinalizada na esquematização lacaniana é também a final, ou seja, a posição onde se chega é justamente o ponto de onde se partiu. Obviamente, este “retorno” à posição inicial não é necessariamente um retorno ao lugar inicial, o que se justifica pelo que está entre os dois pontos — que em alguma medida são os mesmos, mas também são diferentes. Sem entrar nos meandros detalhados de cada “passo” nessa cadeia, pois extrapolaria os propósitos deste texto, Lacan explica esta trajetória da seguinte forma: há uma fase imaginária que compreende a posição inicial, realização do simbólico, rS, que “engloba aproximadamente rI - iI - iR - iS” (1953, p.40); é nesta fase que aparecem as resistências e se consolida a transferência para o sujeito poder suportar a interpretação do seu sintoma, que ocorre em “sS - SI”. O que se produz em “SR - rR - rS” é fazer o sujeito “reconhecer sua própria realidade, em outras palavras, seu próprio desejo” (1953, p.41), ou seja, é nesse momento que o analisante conseguiria perceber a falta constitutiva que mobiliza o seu desejo como um desejar, podendo, assim, retornar a uma nova realização do símbolo/simbólico que o mobilizou inicialmente. Em outro importante texto, denominado A direção do tratamento e os princípios do seu poder (1958), Lacan referenda este percurso de uma maneira menos esquemática, dizendo que o tratamento analítico se ordena seguindo “um processo que vai da retificação das relações do sujeito com o real, ao desenvolvimento da transferência, e depois, à interpretação.” (Lacan, 1958/1998, p.598)

Seguindo a recomendação de Lacan, poderíamos colocar esse encadeamento de posições “dentro de um círculo” (1953, p.40), nos fornecendo uma imagem sobre o ciclo partindo de rS — a realização do simbólico na figura de suposto saber do analista — e retornando ao simbólico ao final do ciclo. Abaixo segue uma esquematização circular, indicando o sentido em que as posições se sucedem:

Ao olhar este ouroboros esquemático, podemos nos perguntar: o que exatamente significa retornar à posição inicial em um processo analítico? Ou mesmo, como é possível avançar em análise se o ponto de chegada é o mesmo de partida? Muitas questões podem ser pensadas no sentido de buscar um caminho de solução a este enigma; uma possibilidade é novamente voltar a Freud. Em Construções em análise (1937b/2018), Freud vai nos dizer que o caminho de uma análise deveria terminar com a recordação do analisante do material reprimido, mas que nem sempre é possível levá-lo até lá; em vez disso, se a análise for bem conduzida, obtemos “uma firme convicção da verdade da construção, que tem o mesmo resultado terapêutico que uma lembrança reconquistada” (1937b/2018, p.196). A busca pela verdade do seu desejo leva o analisante à trama analítica, na busca de produzir uma simbolização daquilo que se mostra como sintoma e angústia, por sua vez, cabe ao analista a tarefa de promover um exercício de reconstrução. Em certo sentido, a posição em que se volta, ou seja, a circularidade cujo destino se alcança com o fim da análise, não é um ponto exatamente coincidente. Enquanto na posição de partida o analista é visto como o mestre, “é o senhor que tem minha verdade” (Lacan, 1953/1986, p.37), na posição de chegada, o caráter ilusório desta postura é alcançado enquanto se compreende o papel simbólico do analista, ou seja, o analista como uma função. Neste sentido, a análise se inicia com o papel simbólico conferido ao analista e com outro ao seu termo.

Cabe aqui uma pequena digressão. Outra forma de compreender esse deslocamento de posições promovido em um processo analítico é pela via da teoria dos quatro discursos, apresentado no Seminário XVII: o avesso da psicanálise. Neste caso, o ponto a se explorar seria o “giro” necessário para o sujeito retirar o analista do lugar de mestre e situar sua própria posição discursiva de uma maneira tal que a análise se torne possível, o discurso histérico, ideia normalmente apresentada pela frase-mote: é preciso “a histerização do discurso” (Lacan, 1969-1970/1992, p.31). Um texto inteiro poderia ser feito tendo em vista apenas este enfoque, abordando como o deslocamento discursivo do sujeito em análise permite perceber o “lugar” no qual ele se situa na trama analítica.

Voltemos à representação ilustrada na Figura 1. Penso haver duas observações importantes sobre o ciclo. Primeiro, a circularidade se deve à própria condição do analista e à natureza da tarefa analítica, ou seja, tem relação com até onde o analista conseguiu caminhar em seu próprio processo, com o limite de até onde ele pode conduzir alguém e, também, refere-se à natureza impossível do próprio fazer analítico4. Segundo, uma análise “pode compreender diversas vezes esse ciclo” (Lacan, 1953/1986, p.41), reforçando a repetição como uma característica constitutiva do processo que passa por diversos momentos de elaboração, reforçando a dificuldade em se demarcar o termo do processo.

Figura 1 Elaborada pelo autor 

Tendo estas questões sobre a isonomia de posição — a posição inicial rS, realização do Simbólico/Símbolo —, mas com a mudança do papel simbólico que o analista desempenha no começo e ao final de um trabalho analítico, poderíamos repensar o esquema anterior considerando a presença de diversos ciclos que se alternam em uma cadeia bastante dinâmica de repetições. Aquele ciclo apresentado por Lacan, por se repetir “diversas vezes”, deslocados no tempo, talvez seja melhor representado por uma cadeia espiralada, interligando os retornos à posição inicial-final ao longo do tempo.

Simplificando e colocando em destaque apenas a posição inicial-final da Figura 1, rS, poderíamos sugerir uma visualização deste ciclo de posições simbolicamente coincidentes, mas temporalmente divergentes, mediante uma espiral que se estende ao longo de diversas repetições das posições já anteriormente sinalizadas, rS - rI - iR - iS - sS - SI - SR - rR - rS, mas colocando em evidência apenas o ponto rS:

Figura 2 Elaborada pelo autor 

O que justificaria a “visão” em perspectiva do processo analítico, circularmente descrito por Lacan, tem relação com a repetição deste ciclo, pois não importa quantas vezes ele ocorra em uma análise, nunca se desconecta das ocorrências passadas da posição inicial. Além disso, ajuda a visualizar a ideia bastante discutida sobre o possível estatuto inacabado de uma análise, uma vez que ela se projeta em possíveis novos ciclos. Talvez este seja o motivo pelo qual a formulação de uma demanda de análise seja tão importante, afinal, se não houver uma demanda que possa ser direcionada ao analista na posição rS e para a qual, em algum momento, se formule uma interpretação, ou se faça uma construção, o processo analítico se torna potencialmente interminável — o que em certo sentido é verdade de uma perspectiva ampla, mas pouco proveitoso se tomamos a experiência analítica em sua singularidade.

Assim, poderíamos pensar que a pergunta sobre até onde se pode chegar com uma análise é uma pergunta que adquire um aspecto teórico-prático e outro aspecto estritamente prático. De um ponto de vista teórico-prático, pretende-se compreender os complexos que estruturam a personalidade, os afetos e os desejos, ao mesmo tempo que se visa fortalecer o Eu para vencer as resistências que se encontram nesse percurso - o esforço terapêutico está sempre oscilando entre “um pouco de análise do Id e um pouco de análise do Eu” (Freud, 1937b/2018, p.176). Chamo este aspecto de teórico-prático porque, ao mesmo tempo, se ancora nos mais sofisticados pressupostos metapsicológicos do entrelaçamento das tópicas, enquanto sinaliza para dois campos diferentes da clínica: a interpretação dos conteúdos inconscientes e o manejo dos mecanismos de defesa do Eu. Neste aspecto, haveria um claro afastamento entre as últimas formulações de Freud sobre os propósitos de uma análise e o pensamento lacaniano5.

Por outro lado, temos o aspecto estritamente prático sobre a pergunta de até onde se pode chegar com uma análise. Este aspecto, talvez, seja o mais difícil de precisar por depender da relação transferencial e do percurso do analista — percurso desconhecido pela maioria de nós, que pouco ou nada saberemos sobre a análise de nossos analistas. É o que Freud sinaliza, e Lacan referenda, quando diz que um analista pode ir apenas até onde foi sua análise pessoal, o que dito da perspectiva do analisante seria algo como: o analista só pode conduzir se ele mesmo já vivenciou na própria carne o percurso para “a declaração do desejo […], pois é para lá que o sujeito é dirigido e até canalizado” (Lacan, 1958/1998, p.641).

Isto ilumina duas ideias fundamentais. Primeiro, o estatuto ético da prática psicanalítica: o analista precisa ter antes de tudo uma honestidade consigo mesmo e com sua própria caminhada, e o analisante precisa confiar naquele que o conduz. Segundo, o término de uma análise coincide com um apontamento para um tipo de isonomia entre as partes, analista e analisante, que é também uma isonomia na posição - a posição que se inicia é a posição que se termina, a posição onde há a declaração do próprio desejo. Esta isonomia nada tem a ver com a identificação do sujeito com o percurso do analista, mas, sim, com a percepção da função deste outro, o analista, em um processo que se iniciou com a palavra e nela terminará, como este terceiro elemento da relação transferencial, pois “se a palavra é tomada como ela deve ser, […] é numa relação a três, e não numa relação a dois, que se deve formular, na sua completude, a experiência analítica.” (Lacan, 1953–1954/1986, p.20). Desta perspectiva, fica evidente como o lugar onde se chega com uma análise está inescapavelmente conectado com aquele de onde se sai: começa com a palavra e nela termina, mas a palavra, que antes omitia o desejo, agora o revela.

1Há uma profícua discussão sobre essa suposta oposição, metafórico/descritivo, que perpassa todo o campo das ciências humanas e naturais, gerando calorosos debates sobre o estatuto naturalista ou não naturalista de algumas áreas do conhecimento que se pretendem científicas. Este não é o tema deste texto, mas estamos com aqueles que acreditam ser a psicanálise um saber fronteiriço, dependente de uma teoria do corpo como dado linguístico e biológico.

2Freud afirma que o plano biológico “desempenha, em relação ao psíquico, o papel de rocha básica subjacente” (Freud,1937a/2018, p.187).

3Luiz Alberto Hanns detalha como o prefixo “ver” em verdrängung e verschiebung designam consequências de “ir muito adiante (seja prologar-se temporalmente, seja progredir geograficamente)” (Hanns, 1996, p.368).

4No Seminário 1: os escritos técnicos de Freud, Lacan formula a seguinte pergunta quando está dialogando criticamente com Michael Balint, psicanalista húngaro: “Será que a análise só tem a ver com o que se considera como um dado, isto é, o ego do sujeito, estrutura interna que se poderia aperfeiçoar pelo exercício? […] No que a análise - um jogo verbal - poderia servir ao que quer que seja no gênero dessa aprendizagem?” (Lacan, 1953–1954/1986, p.224). Alguns parágrafos adiante, respondera negativamente essa pergunta.

5Mireille Cifali apresenta a ideia dos “ofícios impossíveis” de Freud, presentes em “Análise terminável e interminável” (1937) como uma “piada inesgotável”, ao mesmo tempo que explora sua potência para compreender a psicanálise hoje. (Cifali, 2009) Com um enfoque mais amplo na formação do analista, Paulo Roberto Ceccarelli fornece interesses reflexões sobre o tema (Ceccarelli, 2021).

Referências

Ceccarelli, P. R. (2021) Tornar-se analista: a história de um percurso. Psicanálise na vida cotidiana 2. Andrade, E; Freitas, V; Ceccarelli, P. (orgs). Literatura em cena, 251-262. [ Links ]

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Hanns, L. A. (2019). Dicionário comentado do alemão de Freud. Imago. [ Links ]

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Recebido: 29 de Outubro de 2024; Aceito: 17 de Novembro de 2024

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