Meu coração bate mais forte quando contemplo no céu o arco-íris. Assim era quando minha vida começou. Assim é agora, que sou adulto. Ou senão, deixe-me morrer! A Criança é o pai do Homem; desejo que meus dias, se liguem,
cada um com o outro, com laços de piedade natural (Wordsworth,1807, sétimo verso)
A epígrafe com a qual inicio minha contribuição encerra a ideia de que a Criança é o pai do Homem, que Freud tirou de Wordsworth, poeta inglês que o antecedeu por um século e consta no seu poema The Rainbow, também conhecido como My heart leaps up. A citação contém a ideia da passagem do tempo, do ciclo da vida, como expõe Money-Kyrle (1968) ao falar dos fatos da vida. Minhas referências neste artigo são restritas e pontuais, pois as indagações, perguntas e exposições sobre o tempo e seu mistério são oceânicas, e têm desafiado psicanalistas, filósofos, escritores e poetas ao longo dos anos.
A canção Resposta ao Tempo de autoria de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos (1998), gravada em 1998 por Nana Caymmi e também por outros intérpretes, traz um diálogo inusitado entre o Homem e o Tempo. Ela inicia com uma frase perturbadora: Batidas na porta da frente. É o tempo…
Espero que a leitura que ouso fazer não perturbe o lirismo do poeta. Ela acompanha minhas indagações sobre o sentido da vida, a formação do psiquismo, a transitoriedade, o ciclo da vida.
Eis agora o texto da canção:
Batidas na porta da frente. É o tempo Eu bebo um pouquinho pra ter. Argumento.
Mas fico sem jeito calado, ele ri.
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar, e eu não sei
Num dia azul de verão. Sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi. Ele ri
Diz que somos iguais. Se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei
E gira em volta de mim. Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro. Sozinhos
Respondo que ele aprisiona. Eu liberto
Que ele adormece as paixões. Eu desperto
E o tempo se rói, com inveja de mim
Me vigia querendo aprender,
Como eu morro de amor, pra tentar reviver
No fundo é uma eterna criança, que não soube amadurecer Eu posso, ele não vai poder, me esquecer.
O que apresento a seguir, acompanha pari passu diversos lances, espanto, perguntas, respostas e contrarrespostas de atores tão diversos no tablado e tabuleiro da vida. Palco e contenda.
O texto se apresenta a mim, como leitor e ouvinte da canção, com um tema impactante, seguido do desenvolvimento decorrente e no finale parece conter uma inflexão nítida, na qual um olhar psicanalítico observa questões do esquecer, do lembrar e de elaboração.
Agora, o convido a participar de um múltiplo diálogo, pois como sói acontecer, envolverá também você, leitor.
Batidas na porta da frente. É o tempo
A frase Batidas na porta do tempo não encerra sujeito; mas porta da frente evoca nossa casa e nos impacta, fronteira que é com o outro, que não sabemos se amigável ou ameaçador.
Seria um Das unheimliche? (Freud,1919).
Mas, é o Tempo! Não o meteorológico, mais fácil de encarar. Trata- -se daquele acompanhante proteico, constante, continente, mas agora, com nuances de fantasma. Nosso visitante (presumo que é noite) parcialmente identificado, já nos perturba, pois é algo já entranhado dentro da gente, aquele que, às vezes, nos tira o sono!
Eu bebo um pouquinho pra ter. Argumento.
Eu apelo para minhas defesas contra o visitante que me impacta, em penumbra de quase invasão, inesperada. Defesa que utiliza o recurso de uma bebidinha, para gerar semi-anestesia.
A finalidade do dar um tempo é para encontrar um argumento de enfrentamento, já processo secundário, passado o susto do estranho à porta.
Mas fico sem jeito calado, ele ri.
Não adianta minha defesa ou timidez, pois fico mudo. Estático.
E ele, o Tempo, ele ri! Ele adquire agora uma dimensão pessoal, já é agente, vira gente. E ri de mim, pobre humano!
Ele zomba do quanto eu chorei
Zombar também é demais. O danado zomba, uma característica tão humana. Tornou-se uma voz de diálogo, um contendor agora mais identificado. E quer demonstrar superioridade em relação a fragilidade humana.
Porque sabe passar, e eu não sei
Como ele não é gente, simplesmente passa. Eu, por outro lado, tenho enorme dificuldade para passar e ultrapassar as diversas vicissitudes da vida: dores de crescimento, lutos, frustrações.
Num dia azul de verão. Sinto o vento
Passado o impacto inicial, parece que iniciamos uma segunda parte. Uma quase sonata, e mergulhamos em um desenvolvimento.
Tempo e vento, vento e tempo, são experiências de vida: o dia de cor azul - a experiência da cor - a sucessão das estações do ano, eis, agora o tema é centrado no humano. A atmosfera desanuviou-se, por ora.
Há folhas no meu coração. É o tempo
Folhas caídas ao vento. Usufruo da natureza, meu coração estremece de sensações prazerosas. E isso num dia azul? Estarei acompanhado? À beira de um lago?
Agora, temos o tempo nos dois sentidos da palavra. Uma aventura. E a vida palpita dentro do registro dor-prazer. Prenúncio de relação amorosa.
Recordo um amor que perdi. Ele ri
Lance de introspecção do ser humano e resposta totalmente humanoide do Tempo. Ele já se torna gente, pois mostra um riso diferente, compartilhado, irônico; já ri, amargamente, de mim e de si mesmo. Ocorre como na mitologia grega; os deuses - Cronos, Kairós, Aión (Moreno, 2010) - têm emoções, e das bravas. Só que os deuses do Olimpo estão todos na posição esquizoparanoide, e o Tempo de Aldir Blanc já apresentaria nuances depressivas!
Diz que somos iguais. Se eu notei
Com o diálogo agora bem estabelecido, um desenvolvimento se processa e nos encontramos em conversa mais íntima; ele - meu quase colega - o Tempo, pergunta, indaga, fornece explicações. Convida-me a pensar. Já é de igual para igual.
Pois não sabe ficar. E eu também não sei
Dois ficares diferentes. Ele é uma continuidade de sucessões, ele não para; e eu, quanto a mim, diria que sei, não sei; não sei, sei. Mas o Tempo observa que ao longo da vida, há mais divórcios que comunhão.
E gira em volta de mim. Sussurra que apaga os caminhos
O diálogo está posto. À noite, aos pés de um lampião, o Tempo gira como mariposa em volta da luz.
E quando se aproxima de mim, sussurra. Na vida, quantos sussurros escutamos no silêncio do Eu?
Sabe, ó, humano, o tempo resolve tudo; é ingrediente para lubrificar perdas. Caminho apagado, veredas podem se abrir.
Que amores terminam no escuro. Sozinhos
Olha bem, aconselha ele, eis o que acontece!
Respondo que ele aprisiona. Eu liberto
Diálogo francamente estabelecido, eu desafio o tempo. Falo de liberdade, bem precioso.
Que ele adormece as paixões. Eu desperto
No que se refere às paixões, na comparação, vejo vantagens no custo-benefício.
E o tempo se rói, com inveja de mim
Pobre Tempo! Situação invertida! Estou por cima, ele me inveja.
Pedra aguenta séculos, ferro adquire ferrugem, seres vivos, plantas e animais, como nós, os humanos, temos duração limitada. A cultura perdura e sustenta a alma; mas, no caminhar, sentimentos de ódio nos roem; não conseguimos digeri-los.
No filme Asas do desejo, (Wenders,1987) uma situação análoga. O anjo sobrevoa a cidade de Berlim e se apaixona, quer ser humano.
Me vigia querendo aprender, como eu morro de amor, pra tentar reviver
Nessa sequência final, em vez de anticlímax, parece que o Tempo já perdeu sua característica de ser eterno, morto-vivo. Quer aprender a qualidade humana de joão-teimoso. E aprender é prerrogativa do humano, Experiência - trabalhosa - de prazer e desprazer.
E quase que terminamos o diálogo propriamente dito. Tema e variações.
No fundo é uma eterna criança, que não soube amadurecer
Parece-me ter havido uma guinada no texto. Agora o letrista focaliza apenas o ser humano, em suas vicissitudes, um olhar longitudinal em relação ao ciclo da vida, quase aquele do psicanalista, sobre a criança como pai do homem.
Mas quem é que nos observa? Talvez o Tempo, que ressurge com sábia observação. Fala com seus botões. Ou então, falamos todos nós: Aldir, Cristóvão, o Tempo. Eu, lá e aqui, e você, leitor.
Eu posso, ele não vai poder, me esquecer
Um tanto hermética, em movimento circular, a frase final reinstala o diálogo, comparativo e competitivo, com esse último lance de duelo.
E o esquecer, ora falha, ora virtude, volta à tona.













