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Ide

Print version ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.46 no.77 São Paulo  2024  Epub Sep 20, 2024

https://doi.org/10.5935/0101-3106.v46n77.14 

A odisseia do entardecer

BATIDAS NA PORTA DO TEMPO. DIÁLOGOS EXTEMPORÂNEOS

Knocks on the front door. Extemporaneous dialogues

João Baptista Novaes Ferreira França1 

Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP

1Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). São Paulo


Resumo

O autor comenta a canção Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos, vista como um inusitado diálogo entre o Tempo e o Ser humano, no qual se coloca também como personagem. Os temas abordados incluem a criança como pai do homem, a passagem do tempo, e o ciclo da vida.

Palavras-chave: Aldir Blanc e Cristóvão Bastos; resposta ao tempo; a criança é; o pai do homem; ciclo da vida

Abstract

The author comments the song Resposta aoTempo, by Aldir Blanc and Cristóvão Bastos, observed as an unusual dialogue between the Time and the Human Being, and includes himself as a character. The approached themes include The Child as father of Man, the life span and the Cycle of life.

Keywords: Aldir Blanc and Cristóvão Bastos; response to time; the child is the father of man; cycle of life

Meu coração bate mais forte quando contemplo no céu o arco-íris. Assim era quando minha vida começou. Assim é agora, que sou adulto. Ou senão, deixe-me morrer! A Criança é o pai do Homem; desejo que meus dias, se liguem,

cada um com o outro, com laços de piedade natural (Wordsworth,1807, sétimo verso)

A epígrafe com a qual inicio minha contribuição encerra a ideia de que a Criança é o pai do Homem, que Freud tirou de Wordsworth, poeta inglês que o antecedeu por um século e consta no seu poema The Rainbow, também conhecido como My heart leaps up. A citação contém a ideia da passagem do tempo, do ciclo da vida, como expõe Money-Kyrle (1968) ao falar dos fatos da vida. Minhas referências neste artigo são restritas e pontuais, pois as indagações, perguntas e exposições sobre o tempo e seu mistério são oceânicas, e têm desafiado psicanalistas, filósofos, escritores e poetas ao longo dos anos.

A canção Resposta ao Tempo de autoria de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos (1998), gravada em 1998 por Nana Caymmi e também por outros intérpretes, traz um diálogo inusitado entre o Homem e o Tempo. Ela inicia com uma frase perturbadora: Batidas na porta da frente. É o tempo…

Espero que a leitura que ouso fazer não perturbe o lirismo do poeta. Ela acompanha minhas indagações sobre o sentido da vida, a formação do psiquismo, a transitoriedade, o ciclo da vida.

Eis agora o texto da canção:

Batidas na porta da frente. É o tempo Eu bebo um pouquinho pra ter. Argumento.

Mas fico sem jeito calado, ele ri.

Ele zomba do quanto eu chorei

Porque sabe passar, e eu não sei

Num dia azul de verão. Sinto o vento

Há folhas no meu coração é o tempo

Recordo um amor que perdi. Ele ri

Diz que somos iguais. Se eu notei

Pois não sabe ficar e eu também não sei

E gira em volta de mim. Sussurra que apaga os caminhos

Que amores terminam no escuro. Sozinhos

Respondo que ele aprisiona. Eu liberto

Que ele adormece as paixões. Eu desperto

E o tempo se rói, com inveja de mim

Me vigia querendo aprender,

Como eu morro de amor, pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança, que não soube amadurecer Eu posso, ele não vai poder, me esquecer.

O que apresento a seguir, acompanha pari passu diversos lances, espanto, perguntas, respostas e contrarrespostas de atores tão diversos no tablado e tabuleiro da vida. Palco e contenda.

O texto se apresenta a mim, como leitor e ouvinte da canção, com um tema impactante, seguido do desenvolvimento decorrente e no finale parece conter uma inflexão nítida, na qual um olhar psicanalítico observa questões do esquecer, do lembrar e de elaboração.

Agora, o convido a participar de um múltiplo diálogo, pois como sói acontecer, envolverá também você, leitor.

Batidas na porta da frente. É o tempo

A frase Batidas na porta do tempo não encerra sujeito; mas porta da frente evoca nossa casa e nos impacta, fronteira que é com o outro, que não sabemos se amigável ou ameaçador.

Seria um Das unheimliche? (Freud,1919).

Mas, é o Tempo! Não o meteorológico, mais fácil de encarar. Trata- -se daquele acompanhante proteico, constante, continente, mas agora, com nuances de fantasma. Nosso visitante (presumo que é noite) parcialmente identificado, já nos perturba, pois é algo já entranhado dentro da gente, aquele que, às vezes, nos tira o sono!

Eu bebo um pouquinho pra ter. Argumento.

Eu apelo para minhas defesas contra o visitante que me impacta, em penumbra de quase invasão, inesperada. Defesa que utiliza o recurso de uma bebidinha, para gerar semi-anestesia.

A finalidade do dar um tempo é para encontrar um argumento de enfrentamento, já processo secundário, passado o susto do estranho à porta.

Mas fico sem jeito calado, ele ri.

Não adianta minha defesa ou timidez, pois fico mudo. Estático.

E ele, o Tempo, ele ri! Ele adquire agora uma dimensão pessoal, já é agente, vira gente. E ri de mim, pobre humano!

Ele zomba do quanto eu chorei

Zombar também é demais. O danado zomba, uma característica tão humana. Tornou-se uma voz de diálogo, um contendor agora mais identificado. E quer demonstrar superioridade em relação a fragilidade humana.

Porque sabe passar, e eu não sei

Como ele não é gente, simplesmente passa. Eu, por outro lado, tenho enorme dificuldade para passar e ultrapassar as diversas vicissitudes da vida: dores de crescimento, lutos, frustrações.

Num dia azul de verão. Sinto o vento

Passado o impacto inicial, parece que iniciamos uma segunda parte. Uma quase sonata, e mergulhamos em um desenvolvimento.

Tempo e vento, vento e tempo, são experiências de vida: o dia de cor azul - a experiência da cor - a sucessão das estações do ano, eis, agora o tema é centrado no humano. A atmosfera desanuviou-se, por ora.

Há folhas no meu coração. É o tempo

Folhas caídas ao vento. Usufruo da natureza, meu coração estremece de sensações prazerosas. E isso num dia azul? Estarei acompanhado? À beira de um lago?

Agora, temos o tempo nos dois sentidos da palavra. Uma aventura. E a vida palpita dentro do registro dor-prazer. Prenúncio de relação amorosa.

Recordo um amor que perdi. Ele ri

Lance de introspecção do ser humano e resposta totalmente humanoide do Tempo. Ele já se torna gente, pois mostra um riso diferente, compartilhado, irônico; já ri, amargamente, de mim e de si mesmo. Ocorre como na mitologia grega; os deuses - Cronos, Kairós, Aión (Moreno, 2010) - têm emoções, e das bravas. Só que os deuses do Olimpo estão todos na posição esquizoparanoide, e o Tempo de Aldir Blanc já apresentaria nuances depressivas!

Diz que somos iguais. Se eu notei

Com o diálogo agora bem estabelecido, um desenvolvimento se processa e nos encontramos em conversa mais íntima; ele - meu quase colega - o Tempo, pergunta, indaga, fornece explicações. Convida-me a pensar. Já é de igual para igual.

Pois não sabe ficar. E eu também não sei

Dois ficares diferentes. Ele é uma continuidade de sucessões, ele não para; e eu, quanto a mim, diria que sei, não sei; não sei, sei. Mas o Tempo observa que ao longo da vida, há mais divórcios que comunhão.

E gira em volta de mim. Sussurra que apaga os caminhos

O diálogo está posto. À noite, aos pés de um lampião, o Tempo gira como mariposa em volta da luz.

E quando se aproxima de mim, sussurra. Na vida, quantos sussurros escutamos no silêncio do Eu?

Sabe, ó, humano, o tempo resolve tudo; é ingrediente para lubrificar perdas. Caminho apagado, veredas podem se abrir.

Que amores terminam no escuro. Sozinhos

Olha bem, aconselha ele, eis o que acontece!

Respondo que ele aprisiona. Eu liberto

Diálogo francamente estabelecido, eu desafio o tempo. Falo de liberdade, bem precioso.

Que ele adormece as paixões. Eu desperto

No que se refere às paixões, na comparação, vejo vantagens no custo-benefício.

E o tempo se rói, com inveja de mim

Pobre Tempo! Situação invertida! Estou por cima, ele me inveja.

Pedra aguenta séculos, ferro adquire ferrugem, seres vivos, plantas e animais, como nós, os humanos, temos duração limitada. A cultura perdura e sustenta a alma; mas, no caminhar, sentimentos de ódio nos roem; não conseguimos digeri-los.

No filme Asas do desejo, (Wenders,1987) uma situação análoga. O anjo sobrevoa a cidade de Berlim e se apaixona, quer ser humano.

Me vigia querendo aprender, como eu morro de amor, pra tentar reviver

Nessa sequência final, em vez de anticlímax, parece que o Tempo já perdeu sua característica de ser eterno, morto-vivo. Quer aprender a qualidade humana de joão-teimoso. E aprender é prerrogativa do humano, Experiência - trabalhosa - de prazer e desprazer.

E quase que terminamos o diálogo propriamente dito. Tema e variações.

No fundo é uma eterna criança, que não soube amadurecer

Parece-me ter havido uma guinada no texto. Agora o letrista focaliza apenas o ser humano, em suas vicissitudes, um olhar longitudinal em relação ao ciclo da vida, quase aquele do psicanalista, sobre a criança como pai do homem.

Mas quem é que nos observa? Talvez o Tempo, que ressurge com sábia observação. Fala com seus botões. Ou então, falamos todos nós: Aldir, Cristóvão, o Tempo. Eu, lá e aqui, e você, leitor.

Eu posso, ele não vai poder, me esquecer

Um tanto hermética, em movimento circular, a frase final reinstala o diálogo, comparativo e competitivo, com esse último lance de duelo.

E o esquecer, ora falha, ora virtude, volta à tona.

Referências

Blanc, A. & Bastos, C. (1998). Resposta ao tempo In N. Caymmi, EMI Music.Links ]

Freud, S. (1976). O estranho. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 17). Imago. (Trabalho original publicado em 1919) [ Links ]

Money-Kyrle, R. (1996). Desenvolvimento cognitivo. In R. Money-Kyrle, Obra selecionada de Roger Money-Kyrle. Casa do Psicólogo. (Trabalho original publicado em 1968) [ Links ]

Moreno, J. (2010). Tiempo y trauma: continuidades rotas. Lugar editorial. [ Links ]

Wenders, W. (1987). Asas do desejo. Filme, produção franco-alemã. [ Links ]

Wordsworth, W. (1802). A criança é o pai do homem (tradução livre). In My heart leaps up [ Links ]

(The Rainbow). Poems (1807).https://www.wikipedia.org.wiki/My_Heart_Leaps_UpLinks ]

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