Oscilamos entre o mundo de fora e o mundo de dentro. O mundo externo é feito de estímulos e respostas, do movimento da vida prática; o mundo interno é habitado pela introspecção, pelo silêncio das memórias e pelo ritmo da reflexão. É fácil imaginar que, ao sair de mim para o mundo, sou mais ativa, vivo o instante, atuo, troco palavras. E, no entanto, ao voltar para dentro de mim, não estou apenas descansando. É nesse retorno que construo quem sou, ocupando todas as dimensões de mim mesma, mergulhando em conflitos, ambivalências, sonhos e pesadelos. Foi assim que iniciei esta escrita: do lado de dentro, em busca de ver sem julgar, de entender sem polarizar, com consciência e responsabilidade. Quero olhar para o que é e o que pode ser.
Essa dualidade é essencialmente humana, mas o momento histórico atual nos desafia a repensá-la. Estamos inseridos em um cenário digital que desloca a percepção dos limites entre o interno e o externo. Enxergar perspectivas, possibilidades; aceitar as ambivalências trazidas consigo - não é algo a ser evitado, mas é a essência do humano. Somos feitos de dúvidas, de desejos contrários, e assim é também a nossa relação com o que nos rodeia. Se somos uma criação do desejo, também criamos a partir desse mesmo desejo. E assim inventamos, moldamos o mundo ao redor, para que ele reflita um pouco da nossa própria complexidade.
É nessa relação entre criação e transformação que surge a inquietação trazida pelo avanço das tecnologias digitais, em especial pela Inteligência Artificial (IA). Eric Sadin (2020), filósofo crítico da era tecnológica, escreveu que a ia não se limita a ampliar nossas capacidades, mas emerge como uma instância autorizada a enunciar a verdade, deslocando a centralidade do humano na mediação do real. Ou seja, a tecnologia foi, por nós, dotada da capacidade de enunciar a verdade, como um órgão habilitado a avaliar o real, mais confiável do que nós mesmos. Esse poder constitui a primeira característica do que se chama “inteligência artificial”.
As empresas da área, como OpenAI (e o ChatGPT) e High-Flyer (com seu DeepSeek), vêm se tornando instâncias de orientação. Seu incomparável poder de armazenamento somado à capacidade de mimetizar a comunicação humana fazem com que esses sistemas sejam vendidos e utilizados como substitutos da produção humana. A cada dia que passa, programadores, designers, redatores, editores, jornalistas, artistas, entre tantos outros profissionais vêm sentindo o impacto da revolução, pois suas profissões parecem ter dias contados, perto do poder da tecnologia vigente supostamente capaz de entregar mais, melhor e mais rápido, com um custo provavelmente mais acessível.
Mas será mesmo que a tecnologia é capaz de ser esse oráculo? E será mesmo que o cenário que as empresas da área desenham é tão promissor?
Para compreender esse impacto, recorri a outro olhar, traçando paralelos históricos. Pensei na invenção da escrita, há cerca de 3500 anos, e no desenvolvimento da imprensa no século XV. Inovações como essas, que hoje nos parecem naturais, foram recebidas em seu tempo com admiração e medo. Afinal, o medo costuma eclodir das revoluções. Platão (2016), no diálogo de Fedro com Sócrates, conta uma história antiga sobre um faraó que, diante da invenção da escrita, demonstrou preocupação. Dizia ele que a escrita seria o começo do esquecimento, uma muleta para as mentes que deixariam de exercitar a memória, preferindo o registro concreto à prática de carregar consigo o conhecimento. “Esse sistema”, disse o faraó, “dará aos homens a aparência de sabedoria, não a verdadeira sabedoria”. Recordar é o que a escrita oferece. Memória é afeto, na experiência.
A tecnologia de impressão da escrita, inventada por Gutenberg no final do século XV, demorou séculos para se tornar acessível a todos, mas o seu impacto, ao longo do tempo, foi igualmente revolucionário. Era uma inovação que causava tanto fascínio quanto insegurança. De repente, as palavras estavam fixas, em vez de voarem entre nós por meio da voz e reproduzidas em uma escala nunca vista. Havia quem temesse que isso tornasse o humano mais frágil e manipulável. E que nossa individualidade pereceria. Será que isso de fato aconteceu?
Essas inquietações históricas ecoam no presente. Parece que perguntas parecidas podem ser formuladas agora em relação a esse novo campo da ia, que tem aparecido em todos os debates sobre o conhecimento. Será que a ia nos priva de um saber e de um processo de conhecimento, reduzindo a profundidade de nossas experiências, ao delegar à técnica a enunciação da verdade? Estaríamos repetindo o antigo temor de que algo externo - como a escrita ou o livro - nos afaste de nossa essência? Ou a ia realmente apresenta um risco mais profundo, capaz de alterar a própria estrutura de nossas subjetividades? Pois a diferença central é que a ia não se limita a ser ferramenta. Não se trata apenas de um suporte, é uma entidade que transforma a maneira como lidamos com o tempo, a memória e a introspecção.
Apesar da aparente euforia reinante, alguns filósofos de nossa época, como o já citado Eric Sadin (2020), enxergam com mais pessimismo a revolução que se desenrola cada dia mais intensamente. O autor destaca que, diferentemente do passado, com a invenção da escrita e da imprensa, por exemplo, hoje o caminho das tecnologias se tornou marcadamente antropomórfico, no sentido em que busca atribuir a processadores qualidades humanas, prioritariamente aquelas de avaliar situações e tirar conclusões a partir delas. A era antropomórfica da técnica busca ampliar as capacidades humanas, sendo um humanismo aumentado, no sentido em que se revela mais eficiente, rápido e confiável; fragmentado, pois lida com ideias específicas, em hiperfoco; e empreendedor, pois empreende ações de modo automatizado, a partir de conclusões limitadas. Com isso, a humanidade se dota de um órgão que a torna cada vez mais dispensável, buscando uma administração indefinidamente maximizada das coisas, de modo a ditar também o tempo de nossas existências. O tempo da compreensão e da reflexão, nesse ínterim, torna-se marginal, sendo derrocado pela velocidade do desenvolvimento e da análise tecnocientífica atual.
A psicanálise nos oferece lentes para entender essas transformações. A capacidade de criar e transformar o mundo aparece nas reflexões de Freud, Klein, Winnicott e Bion que nos ajudam a entender as fronteiras entre o mundo interno e o externo, avaliando como a mente humana lida com a realidade e a fantasia. Freud introduziu o conceito de realidade psíquica em 1900, segundo o qual a memória, mais do que uma verdade objetiva, é uma reconstrução contínua. Não guardamos lembranças fixas; cada memória é produzida quando é lembrada, sendo moldada pelo presente. Assim, nosso passado não é fixo; ele é fluido, uma interação constante entre o que somos e o que julgamos lembrar. Freud (1900/1996) sugere que a nossa identidade e o nosso sentido de realidade se constroem sobre memórias reconstruídas. O inconsciente não é um depósito de fatos, mas de representações, sonhos, narrativas. Poderíamos dizer, então, que a psique já contém um elemento de virtualidade.
Essa virtualidade interna ressoa na maneira como criamos extensões no mundo externo, como a ia. Assim como a escrita ou o livro, a ia reflete a complexidade humana e depende de nossa intervenção para existir e evoluir. Contudo, a dependência excessiva da ia pode alterar o equilíbrio entre introspecção e ação. Disso, surgiriam novas subjetividades. Segundo Marilena Chauí (apud Jordão, 2023), inspirada em Freud, essa nova subjetividade seria narcísica-depressiva: narcísica, pela dependência da validação nas “águas” virtuais; e depressiva, pois a garantia de satisfação vem de olhares externos e superficiais.
Se a ia pode funcionar como uma ponte, abrindo um campo de possibilidades, ela nos conduz de volta ao real. Contudo, se a ia se torna para nós um fim em si mesma, ela deixa de ser ponte e passa a ser refúgio, uma bolha que nos afasta da complexidade da vida, mas não das consequências e sofrimentos. O humano, com sua mente frágil, projeta e alucina, compartilhando dados muitas vezes confusos ou falsos, não discriminando o real e o imaginário, algo similar é mostrado em casos recentes de “alucinações” geradas por algoritmos, uma definição que já se tornou quase senso comum na área de tecnologia. Tais alucinações são provocadas por resultados incorretos ou imprecisos gerados pelos modelos de ia. A título de exemplo, basta oferecer uma correção incorreta para verificar esse efeito. Se você perguntar à ia se a capital da França é Paris, por certo receberá uma confirmação. Mas se você insistir que a capital é, na verdade, Marselha, há chances consideráveis de a ia dobrar-se à correção, por conta de sua excessiva sugestionabilidade. Portanto, a ia não apenas imita o humano, mas também reflete as suas limitações.
A ia opera em um tempo próprio, numa torrente ininterrupta de imagens, textos e sons, em velocidade vertiginosa, capaz de enunciar verdades aparentemente estáveis, antes que tenhamos o devido tempo de processá-las, antes que possamos duvidar, indagar, deixar-nos surpreender. Somos levados a uma espécie de cegueira branca. Em Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago (2017) escreveu sobre a cegueira branca, pois seus personagens viviam uma cegueira que não era escura, mas branca, causada por um excesso de luz que satura a visão. Nesse ambiente digital, cada vez mais somos levados a navegar, muitas vezes sem entender onde estamos, sem pausas.
Desnorteados e ávidos, relegamos à máquina as tarefas de escolha, criação, desenvolvimento. Nesse contexto, nos afugentamos de nossa vulnerabilidade, liberados de nossos afetos em prol de uma organização ideal das coisas. Se pudermos sobreviver à força dos desvios, habitaremos essa ambivalência, usando essa tecnologia que é, ao mesmo tempo, um reflexo de nossa humanidade e uma extensão de nossas limitações. Todo playground, parafraseando Winnicott, é um espaço de experimentação, onde o jogo e a fantasia se unem à realidade, ampliando as possibilidades do nosso ser para uma prática que nos ajuda a lidar com a complexidade da vida, ao invés de constituir uma fuga. A memória, a identidade e a realidade são construções dinâmicas, continuamente formadas e reformuladas. A identidade digital é um reflexo, um fragmento de criação.
Hanna Arendt disse: “A manifestação do vento do pensamento não é o conhecimento, é a aptidão de enunciar o que é justo e o que é injusto, o que é belo e o que é feio, e isso pode impedir catástrofes” (apud Sadin, 2020). Aprender a navegar nesse novo ambiente sem perder o contato com o vivo, a conexão com o eu, é tornar possível um retorno ao silêncio, à introspecção, a um espaço de criação interno, como uma dança entre o real e o imaginário, entre o dentro e o fora, entre o sonho e a coisa em si. A ia é uma ferramenta poderosa, cheia de camadas (metáfora da mente humana), com suas possibilidades e limites.
Ao olhar para a ia, não estamos apenas observando uma tecnologia; estamos olhando para as nossas ambições, os nossos medos. Miguel Nicolelis dizia que a ia reflete um desejo de prever um futuro, de todo imprevisível. O cinismo, levado ao seu ponto extremo, não está na tecnologia que usamos, mas naquele que está por trás da tela, manipulando quem se coloca à sua frente sem crítica. E para isso não é preciso ia, basta o exercício do fanatismo.
Concluo com uma visão que contemplei no início, em analogia com a escrita. A literatura, talvez, a parte mais fundante escrita, não nasceu no dia em que um menino chegou correndo ao seu povo e gritou “lobo, lobo”, vindo de um vale neandertal, com um grande lobo cinzento em seus calcanhares. A literatura nasceu quando um menino chegou correndo e gritou “lobo, lobo” e não havia nenhum lobo atrás dele. O importante é que, entre o lobo em meio a um capim alto e o lobo de uma história pouco crível, há um elo cintilante. Esse vínculo e esse espectro compõem a arte da vida, que é, ao mesmo tempo, crítica e esperança. Entre o real e o virtual, entre o interno e o externo, somos desafiados a preservar o que nos torna humanos: a capacidade de criar, refletir e sonhar. .













