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Ide

versão impressa ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.47 no.79 São Paulo jan./jun. 2025  Epub 11-Jul-2025

https://doi.org/10.5935/0101-3106.v47n79.17 

RESENHA

Trauma: metapsicologia e clínica de Sigmund Freud

VANESSA CHREIM1 

1Doutoranda em Psicologia Clínica (PUC-SP), Membro do LIPSIC, Membro do GBPSF, Membro dos Departamentos Formação em Psicanálise e Psicanálise com Crianças do Instituto Sedes Sapientiae, onde é docente convidada.

SIQUEIRA, THAIS. BLUCHER, 2024.


O livro de Th ais Siqueira, Trauma: metapsicologia e clínica de Sigmund Freud (2024), publicado pela Blucher, pode ser considerado uma possível resposta à indispensável pergunta “Por que Freud, ainda?”. Mais do que reconhecer o pioneirismo do pai da Psicanálise, a autora desenvolve uma perspectiva crítica e investigativa que revela a atualidade da teoria freudiana para a clínica do trauma, sobretudo quando acompanhamos o pensamento de Sándor Ferenczi, Jean Laplanche, Donald Winnicott e André Green, tal como faz Th ais. Este é um dos principais méritos desse livro: reafi rmar a contribuição freudiana para a Psicanálise Contemporânea, que não se furta a escutar o intrapsíquico na sobreposição com o intersubjetivo, trazendo um frescor necessário ao campo psicanalítico.

Essa pesquisadora curiosa e profunda produziu um texto que não se restringe à exegese da obra de Freud, sendo o livro uma boa companhia para o leitor que queira se aventurar nas teorias sobre o trauma. A autora pergunta e interpela a partir dos olhos inquietos de quem procura e a partir da maturidade de quem tem uma práxis implicada com o sofrimento psíquico do paciente. Mais do que apresentar a evolução e o contexto dos conceitos freudianos e suas transformações, Th ais reafi rma o compromisso de fazer metapsicologia com clínica.

Um dos aspectos originais do livro é o uso que a autora faz dos casos clínicos de Freud: eles não são convocados como meros exemplos dos aportes teóricos, mas como um convite à reflexão sobre a ética psicanalítica. Por exemplo, quando aborda a passagem do método sugestivo para o método da associação livre e atenção flutuante, a autora destaca a mudança da posição subjetiva do analista em relação a seu paciente e em relação à própria Psicanálise como fonte de conhecimento ou de saber sobre a psique humana. Desse modo, Thais enfatiza que, por trás de cada construção metapsicológica, há uma concepção a respeito do sujeito que sofre e do papel do analista no tratamento - explicitando que teoria, ética e técnica psicanalíticas são indissociáveis.

Começando pela análise da relação de Breuer com Anna O, a autora demonstra a influência de um modelo em que era o médico quem sabia sobre o sofrimento do outro, quem descobria e simplesmente expunha a explicação do sintoma, mesmo que esse persistisse ou que o paciente discordasse. Embora a Psicanálise tenha dado voz às histéricas, nem sempre os analistas gostavam de ouvi-las questionar seus pressupostos e rejeitar suas interpretações, como também ocorreu na relação entre Freud e Dora. O livro explicita como, na prática, a chave do sonho ainda não estava com o sonhador, embora o autor assim o preconizasse.

A organização do livro de Thais é didática para o leitor, dividindo os capítulos conforme as décadas da obra freudiana: desde as primeiras hipóteses acerca da etiologia traumática da histeria e da formulação do recalque como mecanismo de defesa, até o modelo da vesícula e da cisão do Eu, do segundo dualismo pulsional e da diferença entre as diversas formas de repetição. Ciente de que a evolução dos conceitos não segue uma temporalidade formal, a autora faz ao leitor advertências importantes sobre o que será questionado ou resgatado por Freud na década seguinte. Na introdução do livro, Thais compara a obra de Freud a um edifício infinitamente inacabado e em constante alteração - e nos revela que cada evolução desta teoria sobre o trauma tem raízes e galhos emaranhados entre textos, entre casos clínicos, entre diferentes formas de funcionamento psíquico. Ela mostra como o tijolo retirado daqui é reutilizado ali, num movimento de furos, de encontros com o não-saber, de reformulação de hipóteses, numa montagem que tenta ser consistente, mas que está sempre aberta à revisão.

Outra virtude desse livro é o cuidado importante ao alinhavar as hipóteses freudianas a respeito das fontes endógenas e exógenas sobre o trauma e seus efeitos no psiquismo: com ponderação, Thais não faz afirmações apressadas e radicais acerca do abandono total de um ou de outro ponto de vista na obra de Freud. Nas palavras da autora: “Ao longo de toda construção psicanalítica, a sustentação desse movimento dialético entre externo e interno é fundamental e vital para a manutenção da complexidade epistemológica dessa teoria. (...) Os aspectos intersubjetivos e intrapsíquicos se encontram intimamente imbricados em toda construção metapsicológica.” (Siqueira, 2024, p. 40). O que Thais demonstra é que há momentos da teoria onde o “acento” recai sobre um dos polos, mas que Freud nunca abandona completamente uma esfera ou outra. Este é um mérito que poucos autores têm: a capacidade de ler no texto freudiano o contraste “fora-dentro” (p. 98) do intrapsíquico e do intersubjetivo, como formulações sobrepostas, numa relação de continuidade onde a fronteira envolve oscilação e complementaridade.

Thais também não deixa de lado o tema da sexualidade vital, constitutiva e traumática, onde encontramos sua fidelidade ao legado freudiano, inspirada também pelas ideias de Jean Laplanche. Ela destaca não apenas a inescapável turbulência da vida pulsional bem como o papel fundamental do objeto, que, ao mesmo tempo, em que traumatiza com sua alteridade, convoca o sujeito à vida e desempenha funções antitraumáticas para que esses encontros com o novo não se tornem paralisantes, e sim enriquecedores. Assim, quando explora as contribuições de “Além do Princípio do prazer” (Freud, 2010/1920) a autora faz um recorte muito interessante sobre a brincadeira do fort-da e a constituição das fronteiras do aparelho psíquico, brincando com as propostas de André Green sobre o duplo limite.

Passeando também pelo tema da relação entre princípio do prazer e princípio de realidade, a autora chama Sándor Ferenczi para enriquecer a metapsicologia freudiana. De forma ponderada, Thais nos recorda que Freud não ignora o papel fundamental da mãe ao promover essa transição do funcionamento psíquico infantil, mas revela que o psicanalista húngaro enriquece a compreensão sobre essa passagem ao esmiuçar as etapas desse processo.

O tema da realidade é caro para Thais: ela explora a noção de realidade psíquica, realizando uma leitura muito atenta do texto “Construções em análise” (Freud, 2018/1937), embrenhando-se na metapsicologia que vai além do inconsciente recalcado. Isso não é mero detalhe, e sim uma forma preciosa de abordar a dimensão do traumático, fazendo uma baliza entre o peso da fantasia e o risco do desmentido, numa conversa séria que a autora tem com Freud e Ferenczi.

Por todos esses motivos, considero que o livro de Thais abre caminhos inventivos e convida o leitor a desenvolver um pensamento vivo que inspira o diálogo entre modelos, teorias e técnicas. Isso também situa Thais como uma autora no campo da Psicanálise Contemporânea, que faz um potente diálogo entre autores, buscando desenvolver um complexo pensamento clínico e ético, implicado nas interrogações que a clínica do trauma nos provoca e atento aos desafios que nos apresenta.

Referências

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In: Obras completas, vol.14. Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920). [ Links ]

______. (2018). Construções em análise. In: Obras completas, vol.19. Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1937). [ Links ]

Siqueira, T. (2024). Trauma: metapsicologia e clínica de Sigmund Freud. Blucher. [ Links ]

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