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Ide

Print version ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.47 no.80 São Paulo  2025  Epub Feb 09, 2026

https://doi.org/10.5935/0101-3106.v47n80.07 

ARQUEOLOGIAS

Aproximações entre a Arquivologia e a Psicanálise: um convite à reflexão

Approaches between Archival Science and Psycho analysis: an invitation to reflection

Elisabete Marin Ribas

1Documentalista e educadora. Possui graduação em Letras, mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada, ambos pela FFLCH-USPe doutorado em Ciência da Informação pelo PPGCI-Unesp. Tem Especialização em Organização de Arquivos pelo Instituto de Estudos Brasileiros-USP, instituição em que atualmente trabalha, compondo a equipe técnica do Serviço de Arquivo. Presta consultorias na área de patrimônio documental, das quais se destacam os trabalhos junto ao Centro de Documentação e Memória da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (CDM-SBPSP).


Resumo

O presente texto é um convite à reflexão sobre aproximações entre a Psicanálise e a Arquivologia, duas áreas que estão mais próximas do que inicialmente se pode pensar. Reflexão que se dará a partir de teoria e prática, considerando que a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (sbpsp) é detentora de um acervo documental histórico-cultural que impressiona por sua qualidade e quantidade. De conceitos técnicos a ideias e metáforas, permearemos, especialmente à luz da Arquivologia, perguntas como: o que são arquivos? Por que guardá-los? Como usá-los? Além disso, nessa jornada, estaremos caminhando ao lado de áreas irmãs, como a História e a Memória, que nos parecem caras tanto para a Psicanálise quanto para a Arquivologia.

Palavras-chave: Arquivologia; Psicanálise; Arquivos; Memória; História da Psicanálise

Abstract

This article is an invitation to reflect on the intersections between Psychoanalysis and Archival Science, two fields that are closer than one might initially imagine. The reflection unfolds through both theory and practice, taking as a point of departure the historical and cultural documentary collection preserved by the Brazilian Psychoanalytical Society of São Paulo (sbpsp), remarkable for its scope and richness. From technical concepts to ideas and metaphors, and especially in the light of Archival Science we will consider questions such as: what are archives? Why preserve them? How should they be used? Along this path, we also walk alongside sister fields such as History and Memory, which prove to be equally significant to both Psychoanalysis and Archival Science.

Keywords: Archival Science; Psychoanalysis; Archives; Memory; History of Psychoanalysis

Para os estudiosos dedicados ao que podemos chamar de “a arte de organizar arquivos”, será da Arquivologia, — a ciência que se ocupa de tal objeto e de seus documentos —, de onde partem seus trabalhos e reflexões. Originalmente, irmã da Administração, do Direito e, em um segundo momento, da História, no presente texto, apresentamos um convite à aproximação entre a Arquivologia e a Psicanálise, no decorrer de nossas palavras, buscaremos demonstrar que, primeiramente, não se trata de uma proposta inédita e que o diálogo entre as duas áreas, amplia e fortalece ambas, pois se assemelham seja por seus objetos de estudo, seja por suas técnicas.

Para darmos início à nossa proposta, vale apontar que a autora partirá sempre da Arquivologia, sua área de especialidade, convidando ao diálogo a Psicanálise, seus autores e sobretudo, a partir de sua experiência prática junto ao Centro de Documentação e Memória Maria Ângela Gomes Moretzsohn da Sociedade Brasileiras de Psicanálise de São Paulo (CDM-sbpsp), espaço no qual, com muita honra, a autora compõe parte de sua equipe técnica.

De forma muito simplificada, podemos resumir que a Arquivologia, como disciplina, caminha junto à história humana, e se consolida como área no século xix, quando assume, por meio da ordenação de registros documentais e técnicas de tratamento de informações, o apoio à gestão das organizações sociais que passam a se estruturar nesse determinado recorte histórico. É tempo do estabelecimento de países nos moldes muito próximo do que ainda temos hoje e essa conformação geopolítica depende, por exemplo, da institucionalização de tratados e mapas, tipos documentais que fixam normas, territórios, sendo por meio da produção desses documentos oficiais que surge a necessidade de sua guarda. Assim, com a criação dos primeiros arquivos semelhantes ao que conhecemos hoje1, também emerge a necessidade de um método de preservá-los, organizá-los e acessá-los, tríade de ações basilares, que permanece até nossos dias. Um dos primeiros manuais de apresentação de conceitos arquivísticos modernos surge na Holanda, em 1898, e desde então há escolas consolidadas em todos os continentes, com destaque para amplas pesquisas em países como Canadá, Austrália, África do Sul, Japão, Argentina, Itália, Alemanha, França e Espanha. É deste último que escolhemos iniciar nossos trabalhos. A partir das palavras de José Ramon Cruz Mundet, importante estudioso dedicado à área:

[...] podemos conceituar a arquivística como uma ciência emergente. É ciência, porque tem um objeto, os arquivos, na sua dupla consideração: os acervos documentais e seu ambiente; possui também um método, composto por um conjunto de princípios teóricos e procedimentos práticos, cuja constante evolução o delineia com maior clareza dia a dia. E um objetivo: tornar a informação documental recuperável para seu uso (Cruz Mundet, 1994, p. 64, tradução da autora).

Das palavras de Cruz Mundet, verifica-se que a Arquivologia é uma ciência nova, que cresce, tal qual a Psicanálise2. Além disso, identifica-se uma das principais funções do trabalho de organização de arquivos: a recuperação das informações ali guardadas. Em outras palavras: deter um arquivo, não é trancá-lo em um depósito. É tratá-lo de modo a torná-lo acessível a interessados, pois por meio dos itens documentais ali depositados, ouvimos, lemos, conhecemos e revisitamos histórias. E que histórias são essas? Nesse sentido, vale lançarmos mão de conhecida frase de Jules Michelet, historiador francês, que relata sua experiência ao adentrar em um arquivo:

[q]uando penetrei pela primeira vez nessas catacumbas manuscritas, nessa necrópole de monumentos nacionais, teria dito de bom grado (...): “eis a morada que escolhi e o meu descanso eterno”. Não tardei, porém, a perceber, no silêncio aparente dessas galerias, que havia um movimento, um murmúrio, algo que não pertencia à morte. Esses papeis, esses pergaminhos deixados ali há muito tempo nada pediam a não ser a possibilidade de rever a luz do dia. Esses papéis não são papéis, e sim vidas de homens, de países, de povos (Michelet apud. Delmas, 2010, p. 11).

Dadas as devidas adequações ao nosso tempo — na qual os pergaminhos foram há muito substituídos e até mesmo os papeis guardados disputam espaços de guarda com documentos eletrônicos — fato é que os arquivos guardam histórias individuais e coletivas. Nesse sentido, não há como seguir, sem referenciar os estudos de Maurice Halbwachs, em especial seu livro A Memória Coletiva (1990), título incontornável para os interessados em História, Memória e arquivos. E essa relação, entre a memória de um e a memória de muitos, seja ela referente a uma história de vida, seja ela remontante à história de uma disciplina. A sbpsp, que ciente disso, desde os anos 2000, vem se dedicando a coletar, preservar e estruturar espaço especializado à sua história institucional, sendo essa registrada nos documentos oficiais da Sociedade, ou por meios de fundos e coleções que muitas vezes, ligados à trajetória dos pioneiros da sbpsp, refletem suas próprias histórias de vida, que se imiscuem à história da Psicanálise em São Paulo, no Brasil e no mundo. E essa informação não é um exagero. Nomes de peso da Psicanálise em âmbito global fazem parte do rico acervo, seja por meio de cartas autografadas de Sigmund Freud à Durval B. Marcondes, seja de Melanie Klein à Virgínia L. Bicudo. Há documentos que remetem aos primeiros estudos, cursos e atividades da jovem Sociedade, em coleções documentais de pioneiros como Adelheid L. Koch, Darcy de Mendonça Uchôa e Lygia Alcântara do Amaral, preservadas hoje no CDM-sbpsp3 . Dessa forma, um espaço de guarda de tal documentação valoriza o legado da sbpsp, ao mesmo tempo que contribui para o avanço nos estudos dedicados à História da Psicanálise, especialmente considerando o sul-global.

Essa especificidade, pode ser identificada, por exemplo, em documento presente no fundo Durval Bellegarde Marcondes, no qual o titular da documentação registra:

Tendo dirigido minha atenção para a psicanálise em 1919, quando iniciava “em São Paulo” meu curso médico, resolvi, após haver terminado o cur-so (1924), experimentá-lo na clínica, o que se deu por volta de 1925. Eu era um médico otimista e afortunado pois, apesar de agir sozinho, como auto-didata, os resultados foram muito bons. Em 1926, enviei minha primeira carta a Freud, acompanhada de um livrinho que “eu” acabara de publicar sobre a utilização da psicanálise nos estudos literários. Eu não esperava que Freud fosse ler esse meu modesto trabalho. Minha intenção era apenas dar a Freud, que, para mim, não poderia entender nada do meu idioma, a noção de que, num lugar tão distante da civilização europeia, cheio de índios e serpentes, havia alguém que “ousava” se interessar pela “nossa jovem ciência” (“Unsere junge Wissenschaft”, segundo a expressão de Freud em sua primeira carta) [CDM-sbpsp, Fundo Durval B. Marcondes, código de referência: DBM-C-1814.

Diante disso, podemos nos perguntar: assim como há linhas da Arquivologia, que trazem características de seus locais de atuação em várias partes do mundo, haveria um fazer próprio da Psicanálise no Brasil? Relembra-se que esta autora é apenas a mensageira, compondo a equipe técnica de especialistas dedicadas ao tratamento do acervo documental do CDM. Por isso, mais uma vez reforça-se o convite para que o leitor interessado busque pelo acervo e sobretudo, auxilie na busca de respostas a perguntas como essa e amplie as pesquisas na área da História da Psicanálise.

E por falarmos na História da Psicanálise, apesar de referencial significativo como História da Psicanálise na França, de Elizabeth Roudinesco, De volta aos textos de Freud: dando voz a documentos mudos, da alemã Ilse Grubrich-Simitis, O Tronco e os Ramos: estudos de história da Psicanálise (2014), de Renato Mezan no Brasil, para citarmos apenas alguns dos nomes de estudiosos, fato é que se faz necessário ampliar os trabalhos sobre o tema, seja em âmbito local, seja em âmbito global. E para isso, um espaço como o cultivado pela sbpsp torna-se um manancial de oportunidades para interessados em agregar trabalhos para a área, especialmente quando em diálogo com a História e a Memória. Novamente, não há como seguir nossa reflexão, sem referenciar Pierre Norá, que no ensaio “Entre Memória e História: a problemática dos lugares”, abordará o conceito daquilo que ele chama de “lugar de memória”. Segundo o autor francês:

A curiosidade pelos lugares onde a memória se cristaliza e se refugia está ligada a este momento particular da nossa história. Momento de articulação onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada, mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar o problema de sua encarnação. O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais [...] (Nora, 1993, p. 7).

Para Norá, estamos em um tempo em que a nossa relação com o passado e, consequentemente, com as memórias advindas desse passado, nunca foram tão fortemente vividas, como nossa geração experiencia. E essa constatação faz coro, com Andreas Huyssen, intelectual alemão de nossos dias, que refletirá sobre esse boom da memória:

Desde a década de 1970, pode-se observar, na Europa e nos Estados Unidos, a restauração historicizante de velhos centros urbanos, cidades-museus e paisagens inteiras, empreendimentos patrimoniais e heranças nacionais, a onda da nova arquitetura de museus (que não mostra sinais de esgotamento), o boom das modas retrô e dos utensílios retrô, a comercialização em massa da nostalgia, a obsessiva automusealização através da câmera de vídeo, a literatura memorialística e confessional, o crescimento dos romances autobiográficos pós-modernos (com suas difíceis negociações entre fato e fi cção), a difusão das práticas memorialísticas nas artes visuais, geralmente usando a fotografia como suporte, e o aumento de documentários na televisão, incluindo nos Estados Unidos, um canal totalmente voltado para a história: o History Channel (Huyssen, 2000, p. 14).

E complementa suas considerações:

Não há dúvida de que o mundo está sendo musealizado e que todos nós representamos os nossos papéis neste processo. É como se o objetivo fosse conseguir a recordação total. Trata-se então da fantasia de um arquivista maluco? Ou há, talvez, algo mais para ser discutido neste desejo de puxar todos esses vários passados para o presente? Algo que seja, de fato, específico à estruturação da memória e da temporalidade de hoje e que não tenha sido experimentado do mesmo modo nas épocas passadas (Huyssen, 2000, p. 15).

Parafraseando Huyssen, podemos dizer que a memória está na moda. Mas é importante destacar que, para além dos modismos apontados pelo professor alemão, ou das armadilhas que os “lugares de memória” de Norá podem nos trazer, no caso do CDM-sbpsp, identifica-se uma genuína preocupação em consolidá-lo com o rigor técnico e a função social que os arquivos devem desempenhar. Em outras palavras: guardar o passado exige rigor técnico, aliado ao conhecimento interdisciplinar em Química, para a preservação dos suportes documentais; em Física, para a climatização das reservas técnicas; e em História para a devida contextualização do conteúdo do acervo, de modo que aos olhos de hoje, se acesse o passado e se compreenda o desenvolvimento de ações que levaram pessoas a instituições a tomarem certas decisões5. E em um Centro dedicado à História da Psicanálise, é preciso salientar a importância da participação de psicanalistas, em especial, desenvolvendo pesquisas e atuando no trabalho curatorial de construção de políticas de acervo e demais protocolos de apoio ao gerenciamento cotidiano do CDM-sbpsp. Sua experiência junto à Psicanálise, seja em estudos e princípios éticos da área, seja nas práticas clínicas torna-se fundamental e é bem-vinda em espaços de guarda documental, especialmente quando aliada a práticas de pesquisa em História.

E aqui, ousamos apontar que a presença da Psicanálise junto aos estudos sobre acervos documentais e de áreas como a História e a Memória não é inédito. Exemplo disso está na essencial palestra de Jacques Derrida, publicada no Brasil sob o título Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Apresentada em 5 de junho de 1994, em Londres, no colóquio intitulado “Memória: a questão dos arquivos”, organizado pela já citada Elizabeth Roudinesco e por René Major. Apesar de ter sido escrito há mais de 30 anos, a atualidade das palavras de Derrida impressiona aos olhos do leitor de hoje, e o filósofo francês será um importante referencial que aproximará Freud à metáfora do arquivo:

Por que reelaborar hoje um conceito do arquivo? Numa única e mesma configuração, a um só tempo técnica e política, ética e jurídica?

[...] Não devemos começar distinguindo o arquivo daquilo a que o reduzimos frequentemente, em especial a experiência da memória e o retorno à origem, mas também o arcaico e o arqueológico, a lembrança ou a escavação, em suma, a busca do tempo perdido?

[...] Como o subtítulo indica (“Uma impressão freudiana”), a psicanálise deveria provocar uma revolução ao menos potencial à problemática do arquivo. [...] Instalando-se frequentemente na cena da escavação arqueológica, seu discurso aborda primeiramente a estocagem das “impressões” e a cifragem das inscrições, mas também a censura e o recalcamento, a repressão e a leitura dos registros (Derrida, 2001, p.7-9).

Para a Arquivologia, o conceito de arquivo será: "Conjunto de documentos que, independente da natureza ou do suporte, são reunidos por acumulação ao longo das atividades de pessoas físicas ou jurídicas, públicas ou privadas" (Bellotto & Camargo, 1996, p. 5).

Para os olhos do filósofo Derrida, o conceito técnico expande-se para a metáfora do resgatar aquilo que foi coletado, acumulado, colecionado, que vai para além da materialidade dos documentos, abarcando sentidos e sentimentos arraigados de memórias. Outro filósofo, Achille Mbembe, camaronês, também dialoga, de forma um pouco diferente, mas também cara à nossa linha de raciocínio:

A natureza material do arquivo — pelo menos antes da digitalização — significa que ele está inscrito no universo dos sentidos: um universo tátil porque o documento pode ser tocado, um universo visual porque pode ser visto, um universo cognitivo porque pode ser lido e decodificado (Mbembe, 2002, p.20).

E para a Psicanálise? Qual seria(m) o(s) “sentido(s)” do arquivo?

Além das imagens do passado, do relembrar e da memória, a partir das reflexões filosóficas de Derrida, surge outra importante metáfora para os arquivos e para a arte de guardar o passado: a escavação arqueológica. Com isso, lembramos das camadas presentes, por exemplo, nas rochas sedimentares, que quando cortadas, ajudam-nos a identificar eras temporais ou quando escovadas (lançando mão das ideias da linda epígrafe de Manoel de Barros que abre a carta convite desta edição), trazem à tona verdadeiros museus a céu aberto. Esse exercício de busca por objetos arqueológicos não é estranho a Freud, detentor de uma significativa coleção de artefatos. E da materialidade do fazer arqueológico, atrevemo-nos a dialogar com a técnica psicanalítica, da qual destacamos o texto “Recordar, repetir e elaborar”, de Freud. Em trechos como:

[o] ‘esquecer’ torna-se ainda mais restrito quando avaliamos em seu verdadeiro valor as lembranças encobridoras que tão geralmente se acham presentes. Em certos casos, tive a impressão de que a conhecida amnésia infantil, que teoricamente nos é tão importante, é completamente contrabalançada pelas lembranças encobridoras. Não apenas algo, mas a totalidade do que é essencial na infância foi retido nessas lembranças. Trata-se simplesmente de saber como extraí-lo delas pela análise (Freud, 1914/1969, p. 195, grifos do autor).

Parece-nos ser evidente estabelecer o paralelo entre a ação do arqueólogo, — que com cuidado retira do solo o artefato submerso pela poeira do tempo —, do psicanalista, que por meio da análise, resgata lembranças, mesmo aquelas que tinham sido encobertas por diferentes “poeiras” da mente humana e do documentalista, que ao organizar um arquivo, nada mais busca do que trazer luz ao conteúdo salvaguardado no acervo sob sua responsabilidade e torná-lo acessível.

Nosso ousado paralelo é fortalecido, quando, em nossos estudos, nos deparamos com Jeanne Marie Gagnebin. Em seu ensaio “O que significa elaborar o passado?” a autora cita Freud, em diálogo com Theodor W. Adorno e Paul Ricoeur quando faz uma longa revisão sobre os autores e algumas de suas obras. Das considerações finais de seu texto, selecionamos:

Gostaria, antes de concluir, de falar rapidamente de um texto de Freud que, como um palimpsesto, habita o ensaio de Adorno, mesmo que não explicitamente citado. É um pequeno escrito de 1914 intitulado “Erinnern, wiederholenunddurcharbeiten”[Lembrar, repetir, elaborar]. Palavras e conceitos freudianos são reencontrados no ensaio de Adorno — em particular os conceitos de Arbeit, Durcharbeitung e Aufarbeitung — respectivamente de trabalho; elaboração, perlaboração ou travessia; retomada do passado. O contexto freudiano é clínico; são observações ligadas à técnicas terapêuticas a partir de observações práticas. Mas essas preciosas observações foram, diversas vezes, usadas para pensar também, por analogia, processos coletivos: de memória, de esquecimento, de repetição. Aliás, os próprios textos freudianos de análise cultural permitem, se não justificam inteiramente, tal analogia. Assim, no seu último livro, La mémoire, l’histoire, l’oubli [A memória, a história, o esquecimento], Paul Ricoeur propõe apoiar-se nas “propostas terapêuticas” de Freud para melhor compreender os processos coletivos e políticos de elaboração do passado: políticas de anistia, de perdão, de graça, instauração de comissões de pesquisa ou de investigação sobre os acontecimentos passados; processos, igualmente, de não-elaboração, de recusa ou de recalque coletivo: “repetições”, denegações e volta(s) violenta(s) do recalcado (Gagnebin, 2006, p. 103-104).

Freud e a Psicanálise certamente inspiram, alimentam e fortalecem o trabalho com arquivos, de forma individual ou em estudos coletivos. No trecho citado, Gagnebin, especialista em Teoria Literária, ao falar de Adorno, reconhece a presença de Freud em seus escritos, em especial do ensaio “Recordar, repetir e elaborar”. A própria autora, utilizará o termo “elaborar” no título de seu próprio ensaio — “O que significa elaborar o passado?” — sendo que o texto compõe coletânea sob o título Lembrar escrever esquecer, que inevitavelmente também nos parece remeter novamente ao ensaio freudiano, composto pelas três palavras “Recordar, repetir e elaborar”. De maneira consciente, ou não, parece-nos que Jeanne Marie Gagnebin (assim como ela identifica em Adorno, que não cita diretamente Freud), ao intitular sua obra, remeterá ao “pequeno escrito de 1914” (Gagnebin, 2006, p. 103), da mesma forma que nossos estudos consideram o ensaio como obra primordial a ser lida pelos interessados em atuar com arquivos, analisar seus documentos e refletir sobre o passado.

Em suma: as aproximações entre a Arquivologia e a Psicanálise revelam-se férteis não apenas no campo conceitual, mas também na prática cotidiana de preservação, interpretação e transmissão da memória. Se a Arquivologia oferece métodos e técnicas para organizar, conservar e tornar acessíveis os documentos, a Psicanálise aporta reflexões sobre o valor simbólico, que se soma ao fazer arquivístico. Arquivologia e Psicanálise se encontram entre conceitos e práticas, e, de modo especial, no gesto de escavar camadas: uma, de papéis e registros; outra, de lembranças e sentimentos. Ambas sabem que nada do passado deve permanecer imóvel — cada documento, como cada recordação, pulsa à espera de ser acessada, relida, reinterpretada, ressignificada. Guardar é, ao mesmo tempo, preservar e oferecer a possibilidade de revisitar. Nesse sentido, arquivos não são depósitos inertes, mas espaços vivos, atravessados por vozes que insistem em dialogar com o presente. Talvez resida aí a maior beleza dessa aproximação: a certeza de que, ao elaborarmos os vestígios que herdamos, estamos também tecendo possibilidades de futuro, seja nos acervos, seja em nossa própria vida.

1Aqui vale apontar que para fins de nossos objetivos neste texto, optamos por uma abordagem simplificada sobre a História da Arquivologia. Entretanto, há de se considerar que desde a primeira mão humana fixada no interior de uma caverna, podemos identificar que ali já tínhamos um registro documental. Segundo Bruno Delmas, “(...) um documento de arquivo é aquele que, quaisquer que sejam sua data, sua forma e seu suporte, foi naturalmente criado ou recebido por uma pessoa física, ou jurídica, pública ou privada, num dado momento, no decorrer e para o exercício de suas atividades naturais” (Delmas, 2010, p.129). Esperamos, em outras oportunidades, poder ampliar a discussão sobre esse histórico.

2Exemplo disso, estará em citação adiante, no documento CDM-SBPSP, Fundo Durval B. Marcondes, código de referência: DBM-C-181, em trecho no qual Durval B. Marcondes, autor do registro manuscrito, remete a palavras de Freud, quando esse se refere à Psicanálise, como “nossa jovem ciência”.

3Inicialmente sob o nome de Divisão de Documentação e Pesquisa da História da Psicanálise, nos idos de 2020, o espaço foi renomeado para Centro de Documentação e Memória Maria Ângela Gomes Moretzsohn, recebendo em homenagem o nome de sua primeira coordenadora, responsável por colecionar grande parte da documentação, hoje, ali preservada.

4De significativo impacto devido à frase “num lugar tão distante da civilização europeia, cheio de índios e serpentes”. O documento e partes dele já foram publicados em diversas ocasiões, dentre elas: CDM-SBPSP, Fundo Durval B. Marcondes, código de referência: DBM-FCC-098e CDM-SBPSP, Fundo Durval B. Marcondes, código de referência: DBM-FCC-105.

5Infelizmente não há espaço para um longo desenvolvimento sobre práticas de pesquisa. Entretanto, é importante registrar em um texto introdutório como esse, que pesquisar o passado, não é julgá-lo. Quando isso ocorre, trata-se de um erro metodológico na pesquisa histórica, chamado de anacronismo. Segundo Tania Regina de Luca, ao abordar a análise documental: “[c]ertificada a procedência, estabelecida a datação e a autoria, graças às regras de erudição e crítica provenientes do século XIX que ainda são válidas, outros desafios se colocam. O que fazer com esses documentos? Como abordá-los? A resposta está longe de ser simples, mas um bom começo é ter em conta a chamada regra de ouro: não projetar sobre o passado visões, concepções, valores e expectativas do pesquisador. Ou seja, evitar o anacronismo”(Luca, 2020, p. 18, grifo nosso).

Referências

Bellotto, H. L., & Camargo, A. M. de A. (1996). Dicionário de terminologia arquivística. Associação dos Arquivistas Brasileiros — Núcleo Regional de São Paulo; Secretaria de Estado da Cultura. [ Links ]

Cruz Mundet, J. R. (1994). Manual de archivística. Fundación German Sanchez Ruipérez; Pirámide. [ Links ]

Delmas, B. (2010). Arquivos para quê? Textos escolhidos. Instituto Fernando Henrique Cardoso. [ Links ]

Derrida, J. (2001). Mal de arquivo: Uma impressão freudiana. Relume Dumará. [ Links ]

Freud, S. (1969). Recordar, repetir e elaborar. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 12, pp. 191–203). Imago. (Trabalho original publicado em 1914) [ Links ]

Gagnebin, J. M. (2006). Lembrar escrever esquecer. Editora 34. [ Links ]

Halbwachs, M. (1990). A memória coletiva. Edições Vértice; Editora Revista dos Tribunais. [ Links ]

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Luca, T. R. (2020). Práticas de pesquisa em história. Contexto. [ Links ]

Mbembe, A. (2002). The power of the archive and its limits. In Refiguring the archive (pp. 19–27). Springer. [ Links ]

Nora, P. (1993). Entre memória e história: A problemática dos lugares. Projeto Memória: Revista do Programa de Estudos Pós-graduados em História e do Departamento de História da PUC-SP, 10, 7–28. [ Links ]

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