Quando se pensa na arqueologia da psicanálise, muitas vezes o que se destaca são os primeiros escritos de Freud, seus trabalhos neurológicos não incluídos nas obras psicológicas completas, seus manuscritos inéditos, ou os autores cujas ideias influenciaram ou foram incorporadas à psicanálise freudiana, em grande parte sem referência explícita, e que ainda não foram inteiramente mapeados. No entanto, o trabalho arqueológico na psicanálise é vasto, vai muito além do entorno de Freud, e está em sua maior parte por se fazer, pois novos dados, novos autores e novas histórias se multiplicam à medida que esse terreno é escavado. Esses novos dados, contudo, não colocam apenas a necessidade de se reescrever a história deste saber, mas também de repensar seu contexto e suas concepções presentes.
De acordo com uma concepção geoarqueológica da história que adotamos aqui, passado e presente se articulam. Um interesse ou configuração do presente pode se unir a algum documento que, como ruína, constitui-se num achado arqueológico que, por sua vez, constitui um campo de escavação onde surgem novas camadas de épocas passadas que transtornam as relações históricas habitualmente estabelecidas em compreensões únicas e hegemônicas, criando novas ligações. Esta concepção pensa na pulsação do magma pulsional singular e coletivo que faz irromper novas configurações de desejo, ressignificando, a posteriori, fragmentos e materiais teóricos ou conceituais já existentes, em novas relações de compreensão cada vez mais múltiplas, complexas, inclusivas e abertas, propiciando vários eixos organizadores (Cromberg, 2012).
Um campo que começou tardiamente a ser explorado é o das mulheres na história inicial da psicanálise. Durante boa parte da história dessa disciplina, as primeiras mulheres que ingressaram nesse campo e ajudaram a constituí-lo permaneceram na sombra de homens, em especial Freud, Jung e Lacan, mas também de outras mulheres que, por razões institucionais, pessoais, políticas ganharam proeminência no movimento psicanalítico. Sayers, por exemplo, em seu livro Mães da Psicanálise elegeu de forma arbitrária Melanie Klein, Anna Freud, Helene Deutsch e Karen Horney como as matriarcas dessa disciplina. No entanto, outras mulheres, décadas antes, tornaram-se psicanalistas, publicaram sobre psicanálise e participaram ativamente de associações psicanalíticas.
As pioneiras da psicanálise se inseriram em uma época, o início do século XX, em que as mulheres começavam a lutar pela inserção no mercado de trabalho, na universidade e na política. Elas questionaram premissas básicas, defendidas por Freud desde o início de sua teoria. Elas não apenas trouxeram um olhar diferente sobre a sexualidade e a psicanálise infantil, como também, construíram metapsicologias próprias e estenderam a abordagem psicanalítica a novos campos. A historiografia mais recente da psicanálise está progressivamente trazendo à luz várias dessas psicanalistas que permaneceram esquecidas, subestimadas ou que foram apenas lembradas devido a fatores biográficos e pessoais. Embora o artigo seja original, boa parte dele vem diretamente do material do livro Mulheres Pioneiras da Psicanálise: uma antologia (Caropreso & Cromberg, 2025). sendo um convite para o mesmo. Nele, nove psicanalistas pioneiras têm seus textos publicados. Escolhemos quatro delas para apresentar aqui1.
Emma Eckstein (1865-1924)
A primeira psicanalista de que se tem registro foi a vienense Emma Eckstein. Desde o fim do século xix, ela trabalhou por vários anos como psicanalista e publicou alguns textos, inclusive o pequeno livro A questão sexual na educação da criança, de 1904, que acabou de ser publicado em português. Em seu livro The Cut and the Building of Psychoanalysis, o psicanalista e historiador italiano Carlo Bonomi situou a relação entre Freud e Eckstein no centro de sua reinterpretação do processo de formação da psicanálise.
Eckstein foi diagnosticada como um caso de histeria e tratada por Freud a partir de 1892 por alguns anos. Ela é uma das persona-gens envolvidas no célebre “sonho da injeção de Irma”, que Freud elegeu como modelo de sua compreensão dos sonhos. Um dos episódios mais conhecido de sua vida foi a cirurgia de cornetos nasais, à qual ela foi submetida por Wilhelm Fliess, a partir do encaminhamento de Freud, que também era paciente de Fliess e compartilhava suas crenças excêntricas sobre a relação entre os órgãos reprodutores e o sistema respiratório. Essa cirurgia colocou-a em risco de vida e produziu uma desfiguração permanente de seu nariz, o que, no entanto, não a afastou de Freud. O seu é um dos casos clínicos em torno do qual Freud articulou a sua “teoria da sedução”. Na segunda parte do Projeto de uma Psicologia (1895), Freud utiliza o caso clínico de Emma para exemplificar sua teoria da sedução e sua concepção de que o trauma atua em dois tempos. Assim, ela é um dos exemplos mais claros de uma mulher cuja atuação na psicanálise foi ofuscada por seu histórico como paciente e outros fatores biográficos. Em 1897, mesmo sem formação universitária, Eckstein começou a tratar pacientes neuróticos usando as técnicas freudianas. Há evidências de que Freud a instruiu na teoria e na prática da psicanálise e lhe encaminhou pacientes, o que teria feito dela a primeira mulher psicanalista (Simanke, 2025) e, no entanto, durante grande parte da história dessa disciplina, apenas o papel por ela desempenhado como paciente e sua catastrófica cirurgia foram focados.
Desde jovem, Eckstein se juntou ao movimento feminista austríaco nascente e publicou sobre esse tema. Em outubro de 1900, ela publicou uma resenha do livro de Freud, A interpretação dos sonhos, no periódico socialista Arbeiter-Zeitung, editado por Victor Adler, criador do Partido Social-Democrata austríaco. Embora cautelosa com relação à universalidade da tese do sonho como realização de desejo, ela enfatiza a contribuição que a investigação propiciada pela análise do sonho traz à compreensão das partes obscuras da mente e à solução dos problemas de saúde mental (Simanke, 2025)
No livro A questão sexual da criança, Eckstein (1904/2025) une sua postura feminista ao conhecimento psicanalítico e a certas concepções pedagógicas próprias. Embora enfatize no livro os perigos da masturbação infantil e a necessidade de evitá-la, apresentando posicionamentos radicais em alguns pontos, ela discute, de forma muito interessante, como o esclarecimento da criança acerca de questões sexuais deve ser conduzido pelos pais, além de abordar outras questões ainda pertinentes. Nele, ela dialoga com a literatura médica e psicológica da época e defende, veementemente, que as mulheres devem ter acesso à educação. Simanke (2025) comenta que Freud guardou uma cópia desse livro em sua biblioteca, na qual se pode ler a dedicatória “Ao Prof. Sigmund Freud, meu venerado professor, com sincera gratidão”.
Hermine Hug-Hellmuth (1871-1924)
A psicanalista austríaca Hermine Hug-Hellmuth (1871-1924) foi a primeira a aplicar a psicanálise ao tratamento de crianças, a usar e desenvolver o brincar na terapia, e a fazer uso da observação sistemática de crianças do ponto de vista psicanalítico. Sua importância pioneira foi obscurecida por fatores biográficos e institucionais. Ela construiu os pilares da análise infantil em uma obra composta por três livros e cerca de trinta artigos. Seus trabalhos foram marcados pela influência de Freud, que sempre lhe demonstrou grande estima e respeito. No entanto, à medida que a psicanálise floresceu, sua memória e suas contribuições se apagaram.
Hermine Hug-Hellmuth (nome adotado, em 1910, por Hermine Hug von Hugenstein, nascida em 1871, em Viena) pertencia a uma família aristocrática. Ela foi uma das primeiras mulheres a ingressar na Universidade de Viena, em 1897, e uma das primeiras mulheres a obter o título de Doutora em Física, em 1909. Sua aproximação da psicanálise ocorreu a partir de leituras, palestras e de seu relacionamento com Isidor Sadger, um dos primeiros psicanalistas. Sadger era médico de sua família e, posteriormente, tornou-se seu analista. Já em 1912, Huh-Hellmuth publicou seis artigos psicanalíticos e, em 8 de outubro de 1913, tornou-se membro da Sociedade Psicanalítica de Viena. Ela foi uma das primeiras analistas leigas, assim como Eckstein.
Muitas das observações relatadas em seus artigos iniciais são do seu sobrinho Rudolph Otto Hug, nascido em 1906 e filho de sua meia irmã, Antoine Farmer. Hug-Hellmuth se envolveu na criação do sobrinho, contexto no qual observou seu desenvolvimento inicial, seu comportamento e seus sonhos. Em 1915, Antoine morreu de tuberculose e Rudolph, com nove anos de idade, foi viver com outra família. Ele se tornou delinquente e foi institucionalizado em 1922. Em 1924, logo após ser liberado, enforcou sua tia Hermine, em uma ocasião em que tentava obter dinheiro dela.
O assassinato de Hug-Helmuth pelo sobrinho foi utilizado, por William Stern, Alfred Adler, Wilhelm Stekel e outros, para atacar as aplicações terapêuticas da psicanálise com crianças, defendeu-se que a psicanálise não era um procedimento adequado para crianças pequenas, o que favoreceu o desmerecimento do trabalho de Hug-Hellmuth. O fato eu embasava essa atitude era o rumor de que Rudolph havia sido analisado por sua tia e de que essa análise levou aos seus problemas mentais e ao infeliz desfecho de suas histórias. No entanto, a sua contribuição para o conhecimento psicanalítico foi reconhecida explicitamente por Freud e por outros psicanalistas. Em 1911, Freud já conhecia Hug-Hellmuth, pois, em carta a Jung enviada nesse ano, ele recomendou para publicação um artigo de autoria dela. Em carta a Karl Abraham, Freud comentou sobre seu neto Ernst, filho de Sophie Freud e Max Halberstadt. Ele diz que a educação rígida de uma mãe inteligente, esclarecida pela Dra. Hermine Hug-Hellmuth, fez muito bem a Ernst.
“Em 1922, Hug-Hellmuth foi encarregada do programa de ensino do Ambulatorium da Sociedade Psicanalítica de Viena, o qual passou a incluir dezoito cursos diferentes. Pouco tempo depois, foi nomeada diretora do Centro de Aconselhamento Educacional ligado ao Ambulatorium. Todos esses fatos demonstram o reconhecimento de seu trabalho por parte de Freud” (Caropreso, 2025, p.190).
Seus manuscritos publicados em 1912, em especial, responderam ao pedido de Freud de exemplos que fornecessem suporte para a existência da sexualidade infantil. Nesse momento inicial da psicanálise, ela desenvolveu uma forma de tratamento psicanalítico que combinava terapia lúdica e educação, ajudando às crianças que iam ao seu consultório, a brincar e a falar. O uso do brincar em seu trabalho com crianças fica evidente nas suas descrições cuidadosas do brincar e na importância que atribui à fantasia e à comunicação em seus primeiros artigos.
“Em sua monografia “A vida mental da criança: um estudo psicanalítico”, publicada em 1913, a autora enfatiza a importância da observação de crianças na construção do conhecimento psicanalítico. Nesse texto, ela aponta também a importância da brincadeira para o desenvolvimento da cognição, da imaginação, do raciocínio, da fala e da emoção” (Caropreso, 2025, p.191).
Nas publicações que se seguiram a essa, ela contribuiu para a compreensão psicanalítica das crianças, publicando textos sobre a relação entre psicanálise e pedagogia, a neurose de guerra em crianças, a relação entre erotismo e matemática, a técnica psicanalítica infantil, entre outros temas. Hermine Hug-Hellmuth é a precursora de duas correntes divergentes da psicanálise de crianças.
“O aspecto educativo de sua proposta foi adotado por Anna Freud, principalmente por meio de sua postura pedagógica no tratamento e sua ênfase no ego, nos mecanismos de defesa e nas linhas prescritivas de desenvolvimento. Por outro lado, está presente também em sua obra uma corrente mais propriamente analítica, que inclui a conceituação da transferência e do papel do brincar, a qual foi adotada por Melanie Klein” (Caropreso, 2025, p. 191).
Houve uma negação deliberada por parte dessas duas psicanalistas da importância e da influência de Hug-Hellmuth sobre elas. A riqueza e a atualidade dessa psicanalista são inegáveis. Seus textos não possuem um valor apenas histórico, mas contêm insights fascinantes para orientar o trabalho psicanalítico com crianças.
Sabina Spielrein (1885-1942)
A psicanalista russa Sabina Spielrein foi uma pioneira cuja importância na história da psicanálise foi profundamente ofuscada por questões pessoais e por seu histórico como paciente. Ela foi internada, aos 19 anos, na Clínica Burgholzli, em Zurique, com um quadro de histeria. Seu tratamento durou 9 meses e foi conduzido por Jung, que, pela primeira vez, aplicou a técnica psicanalítica em um tratamento. Durante sua estadia na Burghölzli, ela começa a estudar, acompanhar discussões clínicas, auxiliar nos testes de associação aplicados aos pacientes e se envolver em discussões sobre diagnósticos. Após uma carta de recomendação de Bleuler, ela realizou os exames para ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de Zurique e foi aprovada, iniciando o curso em 1905. Após ingressar no curso de medicina, Spielrein continuou a trabalhar na Burgholzli e a ter encontros em um misto de terapia e amizade com Jung até que, em 1908, desenvolveram uma relação amorosa.
Uma visão de seu percurso como psiquiatra, médica e psicanalista e de seus escritos permite perceber a dimensão de suas realizações inéditas no seu tempo histórico. A sua dissertação para obtenção da graduação em psiquiatria, intitulada Sobre o conteúdo de um caso de esquizofrenia e publicada em 1911, não só foi a primeira tese de psicanálise defendida por uma mulher, mas consistiu no primeiro estudo psicanalítico do discurso esquizofrênico. Suas reflexões fazem parte da nova psiquiatria, movimento de implantação da psicanálise no coração da psiquiatria, que ocorreu na Burgholzli.
Entre outubro de 1911 e março de 1912, Spielrein frequentou a Sociedade Psicanalítica de Viena, tendo sido a segunda mulher a se tornar membro dessa Sociedade. Na reunião de 29 de novembro de 1911, ela proferiu a conferência “Sobre a transformação”, na qual apresentou uma parte do artigo Destruição como causa do devir, publicado em 1912. Nesta conferência e em seu artigo dela derivado, entre outras ideias inovadoras, ela introduziu a hipótese do “instinto de morte”. Embora haja várias diferenças entre a sua concepção e a de Freud, ela antecipou em 9 anos a ideia de que existe um instinto destrutivo autônomo no psiquismo, além de outras hipóteses como a da existência de um funcionamento mental que antecede aquele regido pelo princípio do prazer e de que existe uma instância observadora, similar ao que Freud viria a propor com o seu conceito de Superego.
Freud estava presente na conferência de Spielrein e criticou o uso que ela fez da mitologia. Nessa época, a relação entre Freud e Jung já havia se tornado bastante tensa devido às ideias divergentes sobre a teoria da libido. Freud estava esperando uma oportunidade para atacar as bases metodológicas de Jung e teria aproveitado, então, a apresentação de Sabina para fazer uma crítica a Jung. Em carta a Jung de 30 de novembro de 1911, Freud comenta sobre a palestra feita por Spielrein no dia anterior. Ele diz a Jung: “O que mais me incomoda é que Spielrein quer subordinar o material psicológico a considerações biológicas; tal dependência não é mais aceitável do que uma dependência da filoso fia, da fisiologia ou da anatomia cerebral.” (McGuire, 1993, p.476). Jung responde a Freud que Spielrein realmente opera demasiadamente com a biologia, e que essa característica é própria dela, não tendo sido aprendida com ele. Ele afirma ser a favor da psicanálise operar dentro de seus limites, mas diz considerar bom “fazer incursões ocasionais em outros territórios e olhar nosso objeto através de um par de óculos diferente”.” (McGuire, 1993, p.477)
Em carta de 10 de março de 1912, Jung pergunta se Freud já leu a versão preparada para publicação do artigo A destruição como causa do devir. Freud lhe responde que conhece apenas o capítulo lido por Sabina na Sociedade Psicanalítica de Viena e comenta: “Ela é muito brilhante; tudo o que diz tem significado; o seu impulso destrutivo não é muito do meu gosto porque creio ser pessoalmente condicionado.” (McGuire, 1993, p.499). Jung responde, em carta de primeiro de abril de 1912, que “o ensaio está sobrecarregado de seus próprios complexos” (McGuire, 1993, p.503)2. Assim, a opinião dos dois psicanalistas parece ser a de que o impulso destrutivo proposto por Spielrein tem a ver com seus próprios complexos, não podendo ser considerado uma característica universal do funcionamento mental. Como se sabe, passados oito anos, Freud publicou “Além do princípio do prazer” (Freud, 1920) e, nesse período, parece ter repensado duas de suas objeções a Spielrein mencionadas acima: a busca de apoio na biologia para a teoria das pulsões e a ideia de que não é possível universalizar a hipótese de um instinto de morte. Em seu texto de 1920, Freud justifica seu conceito de pulsão de morte, sobretudo, a partir do conhecimento biológico. No entanto, a referência ao pensamento de Spielrein é parcimoniosa, restringindo-se a uma nota, no sexto capítulo do texto, em que ele afirma: “Uma parte considerável dessas especulações foi antecipada por Sabina Spielrein (1912) em um artigo instrutivo e interessante, mas que, infelizmente, não é totalmente claro para mim. Nele, ela descreve os componentes sádicos do instinto sexual como “destrutivos”...” (Freud, 1920/2020, p. 55, nota 1).
Ainda em 1912, Spielrein publicou o texto Contribuições para o conhecimento da alma infantil, seu primeiro trabalho sobre psicanálise infantil — área à qual dedicou grande parte de suas atividades nos anos seguintes. Ela foi, assim, uma das pioneiras da psicanálise infantil, fato ainda pouco conhecido.
Em 1920, Spielrein apresentou, no Congresso de Haia, uma versão inicial da sua teoria sobre o desenvolvimento da linguagem e do pensamento. A plateia incluía Anna Freud e Melanie Klein. Dois anos depois, ela publicou sua teoria desenvolvida no texto A origem das palavras infantis papai e mamãe: algumas observações sobre os diferentes estágios do desenvolvimento da linguagem (1922). Nesse texto, ela explica como ocorre o processo de surgimento da linguagem verbal, assim como as características psicológicas das diferentes etapas do desenvolvimento da linguagem. Em seus textos subsequentes, Algumas analogias entre o pensamento infantil, o do afásico e o pensamento subconsciente (1923) e O tempo na vida psíquica subliminar (1923) a autora continua desenvolvendo sua teoria sobre a linguagem e o pensamento da criança.
Em 1920, Spielrein mudou-se para Genebra para atuar no Instituto Jean-Jacques Rousseau, onde conheceu Piaget, com quem teve uma rica interlocução teórica. Em 1923, retornou para a Rússia e se tornou membro da Sociedade Psicanalítica Russa, que havia sido recentemente criada por Alexander Luria e da qual fazia parte Lev Vygotsky. Na Rússia, publicou três textos, entre os quais o inovador Desenhos infantis de olhos abertos e fechados, onde aborda de que maneira o pensamento se origina a partir das imagens cinestésicas corporais. Após passar um ano em Moscou, Spielrein retornou para sua cidade natal, Rostov-sobre o-Don, onde viveu até sua morte nas mãos dos nazistas, em 1942.
Apesar da originalidade do pensamento de Spielrein e de seu pioneirismo em várias áreas, por um longo período, ela foi lembrada apenas pela nota de rodapé de Além do Princípio do Prazer. Ela começou a reemergir na história da psicanálise após a publicação por McGuire, em 1974, da correspondência entre Freud e Jung, em que é várias vezes mencionada. No entanto, o interesse por ela se intensificou principalmente após a publicação do livro Diário de uma secreta simetria: Sabina Spielrein entre Jung e Freud (Carotenuto, 1980/1984), o qual contém um comentário sobre a vida e o pensamento de Spielrein, assim como partes de um diário e algumas cartas que ela enviou a Jung e a Freud. Esse material tinha permanecido guardado na biblioteca do Instituto de Psicologia da Universidade de Genebra desde sua partida para a Rússia, em 1923, e foi descoberto, em 1977, por Carlo Trombetta, que os entregou a Aldo Carotenuto. O interesse por Spielrein despertado a partir da publicação de Carotenuto, no entanto, concentrou-se inicialmente, sobretudo, em sua biografia, em especial em sua relação amorosa com Jung, a qual foi explorada em filmes, peças teatrais e diversas publicações. Isso contribuiu para que sua contribuição teórica e clínica para a psicanálise e a psicologia permanecesse em segundo plano. Nos últimos anos, essa situação está sendo revertida com a publicação de trabalhos que enfocam, principalmente, sua produção teórica. A publicação das obras completas de Spielrein em português (Cromberg, 2021a e 2021b) é uma grande contribuição aos esforços de resgatar e fazer justiça ao trabalho teórico e clínico brilhante dessa autora.
Barbara Low (1874-1955)
Assim como, durante um longo período, Sabina Spielrein foi lembrada apenas pela nota de rodapé em Além do Princípio do Prazer, a psicanalista britânica Barbara Low (1877-1955) permaneceu vinculada, no imaginário psicanalítico, à noção de princípio de Nirvana, que Freud explicitamente lhe atribui nesse mesmo texto. Para além desse dado bibliográfico, quase nada é ordinariamente mencionado sobre ela na literatura psicanalítica. Mesmo a escassa informação biográfica disponível em obras de referência pode ser rastreada quase sempre no breve obituário publicado no International Journal of Psychoanalysis quando do falecimento de Low (Franklin, 1956).
Barbara Low, no entanto, foi um dos membros fundadores da Sociedade Psicanalítica Britânica. Como ela mesma relembraria ao final da vida, era então a única mulher e, durante certo período, a única judia. Ela permaneceu como um membro ativo da Sociedade durante a maior parte de sua vida, tendo atuado como bibliotecária do Instituto de Psicanálise e participado com destaque das reuniões e debates, inclusive das célebres controvérsias entre os partidários de Anna Freud e de Melanie Klein nos anos 1940.
Low se formou como educadora e atuou academicamente nessa área até abandonar a docência para se dedicar integralmente à psicanálise. Era proveniente de uma família judaica de origem húngara que, apesar de empobrecida, ofereceu uma sólida formação intelectual a ela e seus irmãos. Além do ensino — e, depois, a psicanálise — Low tinha um grande interesse pela literatura britânica e teve contatos próximos com auto-res como Bernard Shaw e H. G. Wells, membros como ela da Sociedade Fabiana, um dos principais baluartes do pensamento socialista vinculado ao Partido Trabalhista britânico.
A partir de sua formação como educadora, Low interessou-se, ao longo de sua carreira, pelas relações entre psicanálise e educação e pelas contribuições que a primeira pôde fazer à segunda, sendo essa a área em que se concentra a maior parte de sua produção psicanalítica. É na literatura que se ocupa da interface entre psicanálise e educação, aliás, que se encontra a maior parte das referências às suas contribuições. Ela também defendeu enfaticamente, ao lado de outros psicanalistas influentes, como John Rickman, a interdisciplinaridade e a atenção ao interesse social no trabalho psicanalítico, tendo atuado, por exemplo, junto ao Instituto para o Tratamento Científico da Delinquência (hoje Centro de Estudos em Criminalidade e Justiça), fundado por Marjorie Franklin, Edward Glover, Grace Pailthorpe e Melitta Schmideberg.
A sua preocupação em apresentar a psicanálise de forma acessível para um público não especializado estava em continuidade com sua ênfase sobre o interesse social da psicanálise, tal como evidenciado pelo livro Psychoanalysis: a brief account of the Freudian theory em 1920/23 em que a noção de princípio de Nirvana aparece, o qual tem o objetivo explícito de divulgação. No último capítulo, a autora aborda os impactos sociais e educacionais da psicanálise. Esse livro encontrou repercussão em várias áreas, da educação à criminologia, e foi um dos mais bem-sucedidos do seu gênero na época. A primeira publicação ocorreu em abril de 1920 e uma segunda tiragem apareceu já em outubro. Outra reimpressão chegou às livrarias em março de 1921 e uma edição revisada foi publicada em fevereiro de 1923. O livro foi amplamente resenhado, na maioria das vezes de forma favorável.
Low sempre participou ativamente nas reuniões e debates da BPS e atuou intensivamente como conferencista. Suas palestras e intervenções, em diversas ocasiões, tiveram consequências e repercussões significativas.
Uma apresentação detalhada feita por ela em 4 de maio de 1927 do livro recentemente publicado por Anna Freud, Introdução à técnica da análise se crianças (1927) deu origem a série histórica de debates publicados depois no International Journal of Psychoanalysis sob o título geral de Simpósio sobre Análise Infantil, que assinalou a crescente influência das visões kleinianas na psicanálise britânica (Simanke e Caropreso, 2025, p.151).
Foi um artigo de sua autoria que desencadeou as controvérsias entre Anna Freud e Klein da década de 1940. Ela falou perante a Sociedade em 5 de novembro de 1941 sobre o tema “A Sociedade Psicanalítica e o Público”, e sua fala gerou debates acalorados que ocuparam mais duas Reuniões Científicas subsequentes e se prolongaram nas controvérsias propriamente ditas nos anos seguintes, na qual interviu seguidamente em momentos cruciais e participou de quase todas as comissões especiais criadas para tratar das questões institucionais levantadas pelos debates (Simanke, 2024).
Todos esses aspectos da carreira e da atuação de Barbara Low como psicanalista acabaram fi cando em segundo plano, quando não inteiramente ignorados, devido à sua associação com o conceito de princípio de Nirvana e, através deste, com a segunda dualidade pulsional freudiana e a pulsão de morte em particular. Na verdade, Low sempre esteve mais próxima da perspectiva de Anna Freud, alinhando-se claramente com seu grupo nas controvérsias Freud-Klein e criticando, às vezes de forma dura, a perspectiva defendida por Melanie Klein. O grupo kleiniano foi quem acolheu de forma mais decidida a teoria da pulsão de morte. Essa opção é perfeitamente compreensível, quando se recorda a formação de Low como educadora e se leva em conta que a visão da psicanálise infantil proposta por Anna Freud tinha um viés mais pedagógico e se propunha mais a fortalecer as defesas do eu infantil do que a interpretar o inconsciente, como propunha Klein. Anna Freud também escreveu especificamente sobre a relação entre psicanálise e educação, tendo um de seus livros sido inclusive traduzido por Low. (Freud, 1931). É provável que a vinculação fortemente artificial de Low ao último quadro da teoria pulsional freudiana, através desse único ponto de contato representado pela noção de princípio de Nirvana tenha contribuído para lançar certa cortina de fumaça sobre sua adesão, de resto bastante inequívoca, à perspectiva annafreudiana.
A imagem de Low como um todo, enquanto psicanalista e autora, harmoniza-se bem com a de sua obra mais famosa, a saber, a de uma pessoa engajada na popularização da psicanálise e em suas aplicações sociais, bem como devotada à causa psicanalítica com inquebrantável “zelo missionário”, como John Bowlby a caracterizou em uma de suas entrevistas (Simanke e Caropreso, 2025, p.153).
Considerações Finais
Circunstâncias socioculturais, políticas e econômicas específicas possibilitaram a entrada das mulheres nos movimentos psicanalíticos em Zurique, Viena, Berlim e Budapeste. No início do século XX, a psicanálise era bastante receptiva às mulheres, em comparação com outros campos científicos. Essa abertura coincidiu com a primeira onda do movimento feminista na Europa, o que trouxe uma mudança nas expectativas sociais e nas representações culturais das mulheres. No entanto, a vida de várias dessas pioneiras, assim como de grande parte dos psicanalistas da primeira geração, foi interrompida ou alterada pela Primeira Guerra Mundial, pela ascensão do antissemitismo e do nazismo no período entre guerras, pela Segunda Guerra Mundial e, finalmente, pelo Holocausto (Naszkowska, 2025).
A morte trágica de várias das psicanalistas que abordamos neste artigo traz à tona a importância da reflexão sobre as forças históricas que atuaram no esquecimento de suas pessoas e obras. No método geoarqueológico com o qual pensamos, essas forças se relacionam àquilo que é marca simbólica da sua corporeidade como mulheres, russas, polonesas, vienenses, a maioria judia, e aos seus fantasmas pessoais. Também se compõem com as forças instituintes coletivas do movimento psicanalítico, em seus primórdios, que iam determinando os rumos dos ideais do novo campo de saber, o que também era perpassado não só pelas práticas psicanalíticas nascentes, mas também pela política institucional e pela política da teoria nascente.
Assim, as forças históricas que atuaram no esquecimento da pessoa e da obra dessas psicanalistas são forças políticas gerais, que fizeram intersecção com forças políticas institucionais específicas e com forças políticas culturais. Elas compõem camadas de compreensão da repressão ou supressão que está na base do processo de sua inicial marginalização histórica (Caropreso e Cromberg, 2025, p.8).
As primeiras psicanalistas entraram em espaços dominados por homens, destacando-se por seu brilhantismo e sofisticação teórica. Admitir a primazia e reconhecer o valor de suas contribuições poderia ser visto como um abalo nas estruturas de poder por parte de seus colegas homens. Graças ao trabalho de muitos pesquisadores e pesquisadoras a importância da obra dessas pioneiras vem sendo recuperada, estudada e integrada à reserva conceitual psicanalítica que se formou nos últimos 125 anos.













