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Reverso

versión impresa ISSN 0102-7395

Reverso vol.46 no.87 Belo Horizonte jun. 2024  Epub 19-Mayo-2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v46n87.01 

Editorial

Editorial

Marília Brandão Lemos de Morais Kallas1 

1Comissão de Publicação


Uma nova edição da Reverso, a de número 87, nos traz textos instigantes e convidativos à leitura. A revista foi criada em 1971 e, atualmente com duas tiragens anuais, cumpre seu compromisso ético de publicação e divulgação da psicanálise em si e sua interlocução com diversos campos da cultura e da ciência. A psicanálise hoje continua viva e a Reverso contribui para isso.

Abrimos este número com o autor convidado, o psicanalista francês Fabrice Bourlez, e seu artigo Nem “não toque!” nem “não-toda”: repensando o tato psicanalítico com Luce Irigaray. O artigo tece interessantes questionamentos sobre as palavras “criação” e “feminino” no plural, mostrando a multiplicidade das faces que esses dois termos podem assumir, colocando-os em perspectiva, sem reificá-los ou expropriá-los. O autor parte da hipótese de que o trabalho psicanalítico é semelhante à criação: para cada analisando, trata-se de inventar, encontrar e propor métodos de escuta que desloquem o sujeito de sua pequena história pessoal, que minem o sentido ordinário das palavras, “toquem” o mais íntimo, até chegar ao insuportável. Daí a famosa frase de Lacan, segundo a qual o artista precede o psicanalista. O autor se referenda na obra de Luce Irigaray, psicanalista belga, uma “menina rebelde”, que, diante dos pais da psicanálise, avança sempre crítica, mas buscando novas formas de dar continuidade ao trabalho freudiano. Seu trabalho é considerado um ato de criação feminino no campo da psicanálise.

Paulo Roberto Ceccarelli nos diz, em O narcisismo das pequenas diferenças e seus desdobramentos, que o narcisismo constitui um dos primeiros recursos para lidar com a castração e o narcisismo das pequenas diferenças está presente na construção subjetiva de cada um, aparecendo na base da exclusão de sujeitos por posições políticas, crenças religiosas, cor de pele, orientação sexual, gênero, mitos fundadores, entre outros. O autor faz reflexões sobre como o trabalho clínico tem sido, aos poucos, contaminado por posicionamentos ideológicos que segregam singularidades, fazendo aparecer o narcisismo de pequenas diferenças, que desconsidera o trajeto constitutivo de quem não responde a determinadas configurações narcísicas.

Trazemos O percurso do conceito de repetição em Freud, de Consuele Antunes, que apresenta o conceito de repetição, em Freud, central na clínica e na teoria psicanalíticas, refletindo sobre assuas implicações clínicas, sobre o caminho percorrido pelo pai da psicanálise desde as colocações anteriores ao status de conceito, até sua elaboração final.

Deixe seu like e compartilhe: a angústia contemporânea que resulta da busca incessante pela não angústia, de Ricardo Alexandre de Souza, nos fala que a angústia contemporânea aparece mais nítida na presença de uma ligação a um objeto raso e com obsolescência programada. O objeto, não mais da satisfação, mas algo temporário, fugidio e descartado, em busca do novo e com possibilidades infinitas. A metapsicologia freudiana mantém a sua robustez nos tempos contemporâneos, demonstrando a atualidade da teoria, desde o seu começo até os dias de agora, com as novas tecnologias digitais e com os novos diagnósticos psiquiátricos.

Em Lacaniana: a psicanálise da “praxis da teoria” ou A clínica de uma ética, a autora Bárbara Maria Brandão Guatimosim aborda os princípios da ética da clínica lacaniana, inaugurada por um desejo insólito: o desejo do psicanalista, desejo que é produzido no contexto de uma análise. A ética psicanalítica se orienta por um real que insiste, é distinta dos imperativos morais, filosóficos, de uma psicologia adaptativa, ou de uma ciência vendida ao capital.

Gilda Vaz Rodrigues nos traz A escrita - um imperativo ético, recorte clínico de uma paciente de estrutura psicótica, que se utiliza da escrita a pedido da analista. A forclusão diz respeito a um processo que opera entre o real e o simbólico, que, quando falha, o imaginário entra em cena. O recurso à escrita, neste caso, proporcionou a contenção do real, do transbordamento do gozo. Essa escrita diz respeito, não só ao ato de escrever mas também aos desenhos, à modelagem em argila e outras atividades que funcionam como contenção do real, fazem sulco no real, deixando uma marca.

Em A clínica do traumático na escuta psicanalítica de crianças e adolescentes migrantes e refugiados, Cristina Campolina Vilas Boas nos apresenta uma mirada sobre os fundamentos que orientam as experiências clínicas junto aos sujeitos migrantes e refugiados, especialmente crianças e adolescentes. Acredita-se que esses sujeitos possam reencontrar, através da clínica do traumático, os fios ocultos de sua própria história, fios rasurados, destruídos pelas intempéries de seu deslocamento forçado, criando laços com a pulsão de vida.

Os autores Fernanda Guerra Roman Náufel do Amaral e Juliano Moreira Lagoas nos trazem o artigo Do seio ao laço social: considerações sobre alimentação, identidade e trauma no Brasil, cujo objetivo é analisar o campo da alimentação na psicanálise em relação à questão da identidade, reconhecendo que os processos de laços sociais brasileiros contêm uma dimensão traumática. E o entendimento de que a reflexão sobre as práticas alimentares ajuda no entendimento de estruturas sociais e identitárias enraizadas na história sociopolítica brasileira.

Anderson de Souza Sant’Anna nos apresenta Além do essencialismo: linguagem, cultura, ambiente e a liderança relacional-habilitadora, dizendo que a psicanálise, desde seu início, tem influenciado saberes, inclusive os estudos sobre o comportamento organizacional. Seu artigo destaca como as transformações da sociedade e da tecnociência sinalizam para um novo paradigma de liderança. Orientado pelas contribuições de Lacan e Winnicott, o autor aponta novas perspectivas de análise de lideranças, orientada às dimensões de cultura, linguagem e ambiente, extrapolando abordagens hierárquicas e essencialistas centradas na figura do líder e a importância de propiciar práticas inovadoras de exercício e desenvolvimento da liderança, condizentes com a complexidade dos contextos sociais e organizacionais contemporâneos.

Finalizando, publicamos os discursos proferidos na mudança da Diretoria do CPMG, ocorrida no dia 1.º de dezembro de 2023: o Discurso de término da gestão 2021-2023 por Maria Auxiliadora Toledo Garcia Freire e o Discurso de posse do triênio 2023-2026 por Eliane Mussel da Silva.

Nossos agradecimentos à Comissão de Publicação da Reverso – Ana Boczar, Carlos Antônio Andrade Mello, Eliana Rodrigues Pereira Mendes, Paulo Roberto Ceccarelli, Suzanne Beaudette Drummond, em especial à coordenadora Maria Mazzarello Cotta Ribeiro -, às funcionárias da Secretaria Adriana Dias Bastos e Dayane Esmeralda Ribeiro, à bibliotecária Marta Aparecida de Almeida e Almeida, à Diretoria do CPMG, ao tradutor Bernardo Maranhão, à revisora Dila Bragança de Mendonça e ao diagramador Sérgio Luz.

Agradecemos a Marco Aurélio Guimarães por nos ter cedido, mais uma vez, sua bela e significativa escultura Torção reversa, que faz a capa de nossa revista. E ao fotógrafo Hamilton Silvester por ter adequado para nossa capa a foto dessa escultura.

Boa leitura!

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