Introdução
Guerras, genocídios, escravidão, nacionalismos exacerbados, medo, violência, desigualdades sociais, racismo, fanatismo, terrorismo estão cada vez mais presentes na paisagem social. Podemos acrescentar os desdobramentos de uma das três fontes de sofrimento citadas por Freud (1930/2010, p. 65) em O mal-estar na cultura: o mundo externo, que pode se abater sobre nós com forças prepotentes, implacáveis e destrutivas que, na atualidade, se traduzem nas mudanças climáticas, nos desastres ambientais, nas pandemias e em outros tantos acontecimentos que nos desorganizam psíquica e fisicamente. Sem dúvida, parece que estamos vivenciando tempos sombrios.
Ao mesmo tempo, a história nos mostra que todos esses acontecimentos têm estado presentes desde a aurora da humanidade, produzindo devastações sociais e psicológicas em escala assustadora. No que diz respeito às implacáveis forças da natureza, elas não cessam de nos remeter ao desamparo [Hilflosigkeit] antropológico fundamental, sempre pronto a emergir quando e onde menos se espera (Levy; Ceccarelli, 2020).
Concomitantemente testemunhamos, muitas vezes com indiferença e como algo banal, o aumento das desigualdades sociais e tantos outros fatores que contribuem para uma crescente tensão social. Ao mesmo tempo, em nome dos lucros sem limites que o sistema apresenta como “natural”, quase não nos causa espanto ler que, nos últimos anos, o que inclui a pandemia de covid-19, os que já eram ricos, sobretudo os bancos, ficaram ainda mais ricos elevando seus lucros a patamares inimagináveis para o comum dos mortais. A esses descalabros sociais, reagimos, na maioria das vezes, argumentando que as desigualdades e a violência nunca foram tão grandes como na atualidade. Porém, se temos a sensação de estar vivendo um momento sem precedentes, isso se deve a razões narcísicas: vivemos agora e nos sentimos ameaçados agora (Ceccarelli, 2007).
O eterno retorno
Embora os avanços tecnológicos, nas mais diversas áreas do conhecimento, sejam inegáveis e tenham produzido mudanças revolucionárias nas relações pessoais e sociais e, por conseguinte, na nossa relação tempo-espaço, eles apenas mascaram a repetição pulsional por caminhos aparentemente novos:
[...] os caminhos pulsionais estão fadados a dar uma aparência enganadora de serem forças tendentes à mudança e ao progresso, ao passo que, de fato, estão apenas buscando alcançar um antigo objetivo por caminhos tanto velhos quanto novos (Freud, 1920/1976, p. 161).
O progresso tecnológico não produz progresso psíquico: os conflitos sempre existiram, e continuarão a existir; as experiências pessoais não podem ser transmitidas: a história dos seres humanos é um eterno recomeçar (Andrade; Ceccarelli, 2018).
Pelas mesmas razões que afetaram nossos ancestrais desde que o estado de cultura se instaurou (Freud, 1913/1974), sofremos perdas e lutos insuportáveis, narcisismo ferido, dificuldades de renúncia e de aceitação dos limites e da Lei, e outros tantos “adestramentos pulsionais” (Freud, 1914/1974) que o trabalho de cultura [Kulturarbeit] nos impinge. Porém, ao estado de cultura devemos também “o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como boa parte daquilo de que padecemos” (Freud, 1932/1974, p. 158).
Embora, já o dissemos, o “progresso” psíquico não possa ser transmitido, Freud (1915/1974) não nega inteiramente: o “progresso” psíquico acontece caso as aquisições em análise sejam integradas pelo sujeito. Senão, o processo analítico servirá apenas para fazer barragem ao pulsional e, frente à menor frustração, o dique se rompe fazendo aparecer o infantil e o primitivo.
Ainda que teoricamente saibamos dos limites impostos pela castração, cujo expoente máximo é a finitude humana, nosso narcisismo resiste em aceitar essa evidência e agimos como se fôssemos imortais, pois a morte não faz parte de nossas representações psíquicas.
O limite imposto pela castração tomou proporção planetária no início da covid-19, sobretudo quando ela pareceu incontrolável. Para muitos, a realidade trazida pela covid-19 teria o “mérito” de aumentar a solidariedade entre as nações, sobrepujar as diferenças e, de alguma forma, unir os homens, pois o que estava em jogo era a sobrevivência de todos e todas. Ledo engano!
Infelizmente a realidade mostrou-nos o contrário: ainda que uma certa solidariedade tenha ocorrido, o que mais se evidenciou foram nações protegendo seus interesses. A História das epidemias (Ujvari, 2020) atesta que, ao longo da história, a reação humana frente ao perigo e ao temor foi sempre a mesma desde a primeira epidemia de que se tem registro na era helénica: negacionismo, crendices sobrepujando a ciência, protecionismo, isolamentos, descarte dos “culpados” potenciais, ignorância quanto à eficácia dos medicamentos disponíveis, recursos a soluções mágicas e outros tantos expedientes. Freud (1915/1974) chegou a uma constatação semelhante ao ter que admitir que a era científica, que sobrepujaria a religiosa, nunca foi efetivamente alcançada, pois o primitivo no homem resiste (Freud, 1915/1974).
As duas dimensões da “realidade”
As relações entre os processos primários e os secundários nos lembram que a psicanálise trabalha com duas “realidades. Por não existir uma passagem linear, contínua e discreta entre o processo primário e o secundário, a realidade é sempre uma construção. A realidade é sempre realidade psíquica (Ceccarelli, 2019).
O mito individual do neurótico, construído em análise, liga o primário ao secundário, balizando o caminho através da barra do recalque, posto que não temos acesso direto à matéria bruta que sustenta nossas construções (Ceccarelli, 2007b).
O recurso ao mito atravessa a psicanálise. Freud (1933/1996a, p. 119), ao falar da obscuridade de conceito de pulsão, a considera uma entidade abstrata e mítica:
A teoria dos instintos [pulsões] é, por assim dizer, nossa mitologia. Os instintos [pulsões] são entidades míticas, magníficas em sua imprecisão. Em nosso trabalho, não podemos desprezá-lo, nem por um só momento, de vez que nunca estamos seguros de os estarmos vendo claramente.
Processos primários e secundários têm leis próprias: as do primário, marcado por deslocamento, condensação, atemporalidade, etc. são imutáveis desde a origem da humanidade; são tributários, por um lado, das moções pulsionais em busca de satisfação e, por outro, às limitações impostas pelo trabalho de cultura [Kulturarbeit]. Esta parte invariável da alma humana “põe a nu o homem primevo que existe em cada um de nós” (Freud, 1915/1974, p. 338).
Os processos secundários traduzem as construções discursivas que utilizamos para nos deslocarmos no simbólico. Subordinadas a fatores sócio-históricos, essas construções apresentam leituras diferentes ao longo do tempo e variam segundo a época e a moral social. As mudanças discursivas, trazidas pelas novas leituras simbólicas que reorganizaram as representações dos afetos, não alteram a dinâmica dos processos primários.
Essas duas realidades se influenciam mutuamente e devem ser constantemente repensadas dialeticamente: elas marcam a condição humana. Se nos aferrarmos aos processos secundários e nos deixarmos influenciar pelos afetos que as mudanças sociais produzem, correremos o risco de criar um discurso normativo para que nada mude, ou um discurso que nos dá a impressão de que não há saída. Os psicanalistas que pensam assim apresentam visões pessimistas sobre o futuro.
Os representantes psíquicos oferecidos aos impulsos do primário sempre existiram. Na atualidade, os suportes dados pela cultura prometem cada vez mais objetos fálicos que propõem anular a falta através de soluções imediatistas e altamente descartáveis, levando a um recrudescimento do narcisismo como forma de suportar a intensidade das ofertas.
Caminhos e descaminhos do narcisismo
Como citado em epígrafe, qualquer ameaça ao Eu provoca um abalo psíquico, pois reconhecer a existência de algo diferente – a alteridade, o outro – é uma afronta direta ao narcisismo provocando crimen laesae majestatis. Ademais, “nunca há um acesso à alteridade que não passe por alterações no psiquismo” (Reino; Endo, 2011, p. 18).
Em Psicologia das massas e análise do Eu,Freud (1921/2016, p. 92) cita uma conhecida parábola de Schopenhauer que ilustra bem o conflito entre narcisismo e alteridade: num gelado dia de inverno, os membros de uma sociedade de porcos-espinhos, para se abrigar do frio, devem manter uma distância ideal que lhes permita se aquecer sem, contudo, se espetarem com os espinhos uns dos outros. Frio e espinhos são inconciliáveis: o frio traduz a impossibilidade de se sobreviver sozinho. Para não morrerem de frio, eles devem se aproximar do outro; o espinho indica a necessidade de separação para que os porcos-espinhos não se furem.
Quanto ao ser humano, ele pode permanecer sozinho fechando-se num narcisismo mortífero ou manter uma aproximação comedida, para que o convívio em sociedade seja possível, sem que se sinta narcisicamente ameaçado (o inferno é o outro). A solução instável e provisória situa-se a meio caminho: nem muito perto, nem muito longe. Temos que viver juntos, mas separados.
O recurso à noção do narcisismo das pequenas diferenças nos oferece instrumentos importantes para compreendermos as bases pulsionais dos conflitos entre narcisismo e alteridade.
Em O tabu da virgindade, (Freud, 1917/2013) a noção de narcisismo das pequenas diferenças aparece pela primeira vez. O tema é, posteriormente, retomado em Psicologia das massas e análise do Eu (1921/2016), e em O mal-estar na cultura (1930/2010).
O narcisismo das pequenas diferenças separa indivíduos que, em outros aspectos, se assemelham (Freud, 1914/1974). Encontramos aí a hostilidade que anula “o mandamento de amar o próximo” (Freud, 1914/1974, p. 164).
A ambivalência inerente às relações humanas, exceto na relação mãe-filho, se constrói a partir narcisismo das pequenas diferenças (Freud, 1914/1974). Contudo, quando os seres humanos se encontram “unidos pelas identificações”, a intolerância é suspensa:
[...] toda essa intolerância desaparece, temporariamente ou de maneira duradoura, por meio da formação da massa e dentro da massa. Enquanto perdura a formação de massa, ou até onde se estende, os indivíduos se conduzem como se fossem homogêneos, suportam a especificidade do outro, igualam-se a ele e não sentem repulsa por ele (Freud, 1921/2016, p. 58).
No interior da massa, nos grupos, nas gangues, nos partidos políticos e em outros tantos fenômenos sociais, o narcisismo das pequenas diferenças, que antes se restringia às ligações libidinais, fica suspenso (Freud, 1921/2016): o narcisismo transforma-se em guardião da coesão da massa, projetando no exterior (da massa) a hostilidade à alteridade e criando “uma heterogeneidade intergrupal e, ao mesmo tempo, uma homogeneidade intragrupal” (Reino; Endo, 2011, p. 25).
O narcisismo das pequenas diferenças é igualmente suspenso quando a satisfação pulsional está em jogo, refazendo-se assim que a satisfação pulsional seja restabelecida:
Faça-se passar fome, por igual, a um grupo composto por indivíduos mais diversos entre si. À medida que cresce a imperiosa necessidade de alimentar-se, se apagarão todas as diferenças individuais e emergirá, em seu lugar, as uniformes exteriorizações dessa única e não saciada pulsão (Freud, 1912/2013, p. 181).
Em O mal-estar na cultura (Freud, 1930/2010, p. 366), o narcisismo das pequenas diferenças toma contornos mais precisos: “sempre é possível ligar um grande número de pessoas pelo amor, desde que restem outras para que se exteriorize a agressividade”.
Essa constatação de Freud, extremante atual, se repete cotidianamente: sustentar uma diferença, que pode ser uma atitude ou um comportamento particular, pode induzir a uma revolta coletiva que transforma os agressores em alvo dessa revolta. Mais forte ainda ocorre quando as referências identificatórias são vistas como ameaçadoras, excêntricas, o que leva a uma cegueira que faz da alteridade um alvo de destruição: “coesão e satisfação da destrutividade acabam por formar os dois polos dessa noção” (Reino; Endo, 2011, p. 24).
O narcisismo e seus desdobramentos
Situações baseadas no narcisismo das pequenas diferenças são facilmente observáveis em nosso cotidiano: a “cultura do ódio”, que traduz um movimento de massa, desfaz o trabalho de cultura, que sustenta nossa civilização (Ceccarelli, 2020), aumentando exponencialmente a violência e, por extensão, a destrutividade e ativando, senão incentivando, aquilo que o ser humano tem de pior: o primitivo do homem, que torna “o homem o lobo do homem”. Interesses econômicos alinhados à intolerância política tendem a globalizar os países, ao substituir a singularidade de cada grupamento humano em um padrão único no qual a alteridade é ignorada, e o espaço para as diferenças anulado.
O narcisismo das pequenas diferenças se faz cada vez mais presente na clínica, muitas vezes disfarçado nas inúmeras versões do politicamente correto. A expressão imprecisa “lugar de fala” pode servir para sustentar discursos ideológicos e de poder, fazendo emergir o que pode ser chamado “cernes identitários”. Tais cernes, muitas vezes, impedem os sujeitos de participar em determinados eventos, por não terem nada a dizer, uma vez que não fazem parte do núcleo unido pelas identificações: reuniões dos professores, pais e alunos que ocorrem divididas por etnias; psicanalistas que não podem atender determinadas etnias, pois não pertencem a elas; mulheres que dizem que “só mulheres podem analisar mulheres”. Só as pessoas que sofreram assédio, em suas diferentes versões, podem entender, e atender, quem passou por situações semelhantes, e assim por diante.
Quando os processos secundários ganham o psiquismo, as particularidades do primário – a atemporalidade do inconsciente, a inexistência de negação, a diferença sexual e outros tantos outros – são anuladas, e as fantasias passam a ter existência concreta se transformando em verdade, e anulando o pulsional.
Uma passagem de O mal-estar na cultura mostra o quanto Freud (1930/2010, p. 367) estava atento aos desdobramentos narcísicos, quando faz uma consideração sobre a revolução russa:
[...] a tentativa de edificar uma nova cultura comunista na Rússia encontrou sua determinação psicológica na perseguição aos burgueses. Só nos perguntamos preocupados o que farão os soviéticos depois que tiverem exterminado os seus burgueses.
Conclusões provisórias
O narcisismo das pequenas diferenças está presente na construção subjetiva de cada um: exclui-se aquele(a) que nos mostra que não existe uma única leitura do real, expondo a fragilidade de nossa verdade.
Os grandes templos do consumo, os shopping centers, lidam constantemente com o narcisismo das pequenas diferenças, ao promover o descarte dos inaptos: pessoas julgadas incapazes de consumir são impedidas de adentrar o recinto.
O narcisismo das pequenas diferentes está na base da exclusão de sujeitos por posições políticas, crenças religiosas, cor da pele, orientação sexual, gênero, mitos fundadores, enfim, de todos e todas que impedem a existência de uma sociedade “normal”, onde o narcisismo seja soberano. Embora existam aqueles(as) que segregam e excluem por prazer, em uma vertente perversa, todos nós, em certa medida excluímos, pois o narcisismo das pequenas diferenças é parte constitutiva do psiquismo: por medo de ser também excluídos, refinamos nossos mecanismos de proteção contra a exclusão para que nossa vez não chegue.
Gostaria de concluir com uma citação de Elisabeth Roudinesco (2022, p. 69):
Se todo o mundo se parece, a humanidade dissolve-se no nada; se cada um deixa de respeitar a alteridade do outro afirmando sua diferença identitária, a humanidade mergulha no ódio perpétuo ao outro.
Devemos, pois, estar atentos para não nos dissolvermos em um modelo único da globalização tampouco nos fecharmos em torno do narcisismo das pequenas diferenças. Só o respeito à diferença pode exprimir o universalismo do gênero humano. φ













