Num cenário imaginário, coloque-se sentado em uma cafeteria em Viena, no ano 1901. A cena inclui uma xícara de café que esfria lentamente, enquanto você observa as pessoas passando. À sua frente, provavelmente, um jornal está pronto para ser lido, permitindo que você se detenha calmamente em cada reportagem.
Agora imagine-se sentado nesse mesmo café em 2023. Na mesa estaria, provavelmente, pelo menos um smartphone, com notificações ligadas continuamente, pedindo sua atenção com vibrações, toques e imagens. Ali você tem acesso literalmente ao mundo, se ele tiver conexão com a internet. Você está sentado observando o seu dispositivo e, provavelmente, as pessoas à sua volta também observam os seus respectivos.
No Projeto para uma psicologia científica,Freud (1950 [1895] 1996) desenvolve um modelo para o funcionamento psíquico como um todo, para além do estudo da memória enquanto atividade consciente, discorrendo sobre sua teoria das ligações dos processos mentais aos objetos. Ao falar sobre as energias psíquicas buscarem uma ligação a um objeto, Freud inicia a discussão da busca pelo objeto. Ele apresenta um referencial teórico que visa explicar os fenômenos psicológicos em termos do fluxo e da transformação da energia neural. E explora conceitos como processos excitatórios e inibitórios, o papel do recalque, além da ideia de acumulação e descarga de energia psíquica.
Na teoria freudiana, o conceito de “objeto-relação” ou “objeto-ligação” refere-se à maneira como os indivíduos formam conexões emocionais ou vínculos com outras pessoas ou objetos em sua vida. Freud acreditava que essas relações objetais desempenham um papel fundamental na formação do desenvolvimento psicológico de um indivíduo e na influência de seu comportamento e seus desejos (Freud, 1920/2020).
Segundo Freud, as relações objetais têm origem na primeira infância, especificamente durante as fases oral e anal do desenvolvimento psicossexual. Durante esses estágios, a criança forma vínculos significativos com seus cuidadores primários, geralmente a mãe ou outras figuras nutritivas. Esses primeiros relacionamentos de objeto servem como protótipos para relacionamentos futuros e podem afetar a capacidade de uma pessoa formar e manter conexões saudáveis mais tarde na vida (Freud, 1905/2016).
Freud sugeriu que as relações objetais envolvem tanto as pulsões libidinais (sexuais) quanto as pulsões agressivas. O componente libidinal refere-se aos laços afetivos da criança com o cuidador, enquanto o aspecto agressivo engloba sentimentos de frustração, raiva e rivalidade que podem surgir dentro da relação.
As relações objetais são ainda influenciadas pela presença de fantasias inconscientes, como as decorrentes do complexo de Édipo, que envolve o desejo inconsciente da criança por seu pai e/ou a rivalidade. Essas fantasias inconscientes podem moldar a dinâmica das relações objetais e impactar as escolhas, atrações e conflitos do indivíduo na vida adulta (Freud, 1905/2016).
Freud argumentou que rupturas ou conflitos não ultrapassados nas primeiras relações objetais podem levar a inibições psicológicas e dificuldades em formar relacionamentos saudáveis mais tarde na vida. Por exemplo, indivíduos que experimentaram separações ou rejeições traumáticas precoces podem desenvolver medo de abandono ou dificuldades com confiança e intimidade (Freud, 1926/2014). Como destaca Winnicott, a capacidade de estar só é antecedida pela possibilidade de estar só na presença de um outro, nomeadamente a mãe- ambiente. E que a capacidade de uma relação do “corpo de um” é precedida pela relação de dois corpos, através da introjeção do objeto (Abram; Hjulmand, 2018).
De modo geral, o conceito de relações objetais na teoria freudiana destaca a importância dos vínculos emocionais precoces e sua influência no desenvolvimento psicológico e relacional do indivíduo ao longo de sua vida.
Quando, em Inibição, sintoma e angústia, Freud desenvolve sua hipótese da angústia como um sinal frente ao perigo — ou como uma reação frente à ausência do objeto, o que vem a dar no mesmo — ele toma o nascimento como o protótipo do estado de perigo (Garcia-Roza, 1993, p. 56).
Mais à frente Freud falará sobre o dualismo pulsional (pulsão sexual e pulsão de autoconservação) e, mais adiante, um segundo dualismo: pulsão de vida e pulsão de morte. Nessa nova dicotomia, a noção de apoio perde importância dando lugar à afirmação mais radical da essencialidade do pulsional enquanto especifica a sexualidade humana, a saber, a falta do objeto (Jorge, 2010).
Isso será relido por vários autores, diversos teóricos, como Melanie Klein, Donald Winnicott e Jacques Lacan, refletindo os desenvolvimentos significativos na psicanálise ocorridos após a metade do século XX. O avanço teórico é particularmente evidente com a emergência da escola das relações objetais e a ampliação dos estudos sobre o ambiente nas obras de Klein e Winnicott. As contribuições de Klein, Winnicott e Lacan foram fundamentais para enriquecer nossa compreensão sobre a vinculação aos objetos através de fantasias precoces e a complexidade das dinâmicas objetais (Roudinesco; Plon, 1998, p. 552).
Essas análises foram expandidas para englobar todas as facetas do ambiente, incluindo componentes sociais e ocupacionais. Especificamente, Klein redirecionou a análise do “eu” para a clivagem objetai, enfatizando as representações internalizadas dos objetos e priorizando a noção de “posição” do objeto em detrimento da concepção de estágios de desenvolvimento delineada por Freud. Essa mudança reflete uma orientação teórica que coloca maior ênfase nas interações internas do indivíduo com representações de objetos, ou seja, as imagens mentais e emoções associadas a pessoas ou coisas que são significativas para o sujeito (Segal, 2002, p. 14-15).
Winnicott (1971/2019, p. 17-19), por sua vez, aprofundou a exploração dos objetos transicionais como elementos cruciais no desenvolvimento das relações entre o self e a objetalidade. Ele articulou que o objeto transicional representa a primeira experiência significativa do bebê com o mundo externo, servindo como um mediador entre o self e a realidade. Além disso, destacou o papel dual da mãe, que não só constitui o ambiente primário (mãe -ambiente), mas também introduz o bebê ao ambiente externo. Essas perspectivas oferecem uma visão mais integrada e dinâmica das interações psicológicas fundamentais, marcando uma evolução no entendimento psicanalítico da formação da identidade e das relações objetais.
O encontro com o objeto “realiza” o estar vivo e a necessidade não apenas no sentido da satisfação, mas no de tornar reais a própria necessidade, o impulso, o gesto que sai em “busca de...” e o algo é encontrado (Dias, 2016, p. 193).
Nesta discussão é Lacan (1964/2004, p. 11-12) quem busca retomar a visão da relação do objeto em termos freudianos. Ele aponta o objeto como desejoso porque é faltoso, logo passível de ser representado por todo e qualquer objeto. Não cabe aqui esgotar o tema, mas partir de uma concepção de objeto mais freudiano pré-psicanalítico do que lacaniano em sua elaboração mais ampla. Em sua leitura, Lacan instaura a geometria variável da objetalidade na qual intervinham três modalidades relacionadas à privação, à frustração e à castração hierarquizados conforme três ordens: o real, o imaginário e o simbólico (Roudinesco; Plon, 1998, p. 555).
Desse modo, o esquema da pulsão fornecido por Lacan representa o circuito pulsional realizando o tangenciamento do objeto, que é circundado enquanto elemento faltoso. Essas diferentes perspectivas fornecem insights valiosos sobre as complexidades da vinculação de objetos e seu significado no desenvolvimento humano e na psicanálise.
Como funcionam essas ligações? Segundo Freud, os atos de catexia, representações da libido (representação coisa e representação palavra), ligam-se aos resíduos de percepções com a representação coisa. A representação coisa se liga à representação palavra para se tornar consciente.
Atualmente os objetos da contemporaneidade são obsoletos por programação. Há um prazo para se tornarem decadentes, cada vez mais rápido, cada vez menos duráveis, e os ciclos de troca favorecem o consumo. O ciclo das coisas e dos objetos é cada vez mais veloz, como tem de ser o contemporâneo. Existe sempre algo novo a nos atrair e pedir nossa atenção. E isso tem consequências: “o estilo de vida digital dos canadenses está mudando o cérebro, diminuindo a capacidade de foco prolongado e aumentando seu apetite por mais estímulos” conforme pesquisa realizada pela Microsoft.
A pesquisa também sugere que o tempo de atenção dos seres humanos já é mais curto que o dos peixes dourados. A pesquisa foi feita no Canadá, em 2015 e envolveu 2 mil pessoas que responderam a perguntas e participaram de jogos online para avaliar sua capacidade de concentração. Os pesquisadores também realizaram exames de eletroencefalograma em outros 112 voluntários canadenses para monitorar sua atividade cerebral. Segundo a conclusão da pesquisa, a capacidade de concentração dos humanos está sendo reduzida por impacto dos dispositivos portáteis e das mídias digitais (Microsoft Canadá, 2015).
Qual seria o motivo dessa mudança? Segundo Bauman (2017), hoje, a principal tarefa da vida social consistiria em provocar (ou facilitar) a entrada no jogo das compras, bem como incrementar as oportunidades de permanecer no campo de jogo, evitando a ameaça da exclusão social.
Mas como isso pode acontecer em um mundo tão preocupado com a inclusão ou a libertação do opressor? Preocupado em retirar a submissão do proprietário e tornar todos empreendedores: empresas de si mesmos.
Como diz Byung-Chul Han (2015, p. 21),
[...] a queda da instância dominadora não leva à liberdade. Ao contrário, faz com que liberdade e coação coincidam. Assim, o sujeito de desempenho se entrega à liberdade coercitiva ou à livre coerção de maximizar o desempenho. O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorado.
Na mesma linha, Josh Cohen (2018) argumenta que estamos no meio de uma crise de trabalho que também se espalha para a vida em geral. Nossa cultura está nos levando a uma exaustão, um desespero e uma angústia, ao nos forçar a estar sempre “ligados”. Nós nos tornamos seres em trabalho: todos os dias, o tempo todo. Somos empreendedores. Depende de nós o sucesso. Basta trabalhar e dedicar-se que acontece o sucesso. Já não se vive apenas esperando a redenção do pós-vida. Agora é possível viver o paraíso hoje e depois, basta dedicar-se e obedecer aos preceitos religiosos: resiliência, resignação e obediência.
Mas não é só o trabalho que demonstra essa mudança e aceleração constante. O lazer também é prescrito. Até mesmo no momento de descanso você está obedecendo a um tipo de atividade predeterminada. Não é possível mais um descanso reflexivo, ou o descanso escolhido. Tempo é ouro, tempo é dinheiro, o tempo de lazer também é trabalho. Não se pode perder mais tempo. A todo momento é necessário estar em alguma atividade, buscando alguma ligação.
O conceito de lazer de Lafargue (2000) fala com escárnio sobre os direitos da preguiça, como o mais nobre dos Direitos do Homem, imposto pela revolução burguesa. O autor faz duras críticas ao capitalismo que explorava, desde seus primórdios, a força de trabalho. Os operários na civilização capitalista, assim o autor denomina, têm a loucura do amor ao trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho que leva ao esgotamento das forças vitais. Segundo o autor, os padres, os economistas, os moralistas sustentam essa aberração, santificando o trabalho. Para ele, o trabalho é causa de toda degenerescência intelectual, toda a deformação orgânica. No entanto, Lafargue considera a preguiça uma virtude, um elemento fortalecedor do corpo e do espírito dos operários, pois, diante da preguiça, poderão se preparar para a revolução. É no momento da preguiça que a transformação poderá acontecer. Aqui traz a ideia do direito à preguiça como algo transformador e revolucionário.
Em meio às indistinções entre lazer e trabalho na vida contemporânea, a existência se apresenta como um contínuo em que o sujeito é perpetuamente convocado a estar em função, um estado de vigilância constante por parte do analisando. Esse estado de estar sempre “a trabalho” inclui a observação de repetições, distorções e mecanismos de defesa. Se o analisando está continuamente consumindo, como então é possível que ele se dedique a explorar suas próprias questões pessoais? A modernidade induz o analisando a seduzir-se pela ordem de estratégias e estratagemas de marketing e publicidade que envolvem e deslocam o sujeito para uma identificação de massa, massificada e massificante, na tentativa de anular diferenças, o que gera insatisfação, frustração, angústia. Como o analisando pode “estar a trabalho”2 para mergulhar na sua intimidade com essa sedução? Como sustentar a ligação com o objeto nos tempos atuais?
O que sustenta essa ligação é o desejo. É a satisfação da procura levando ao suposto encontro do objeto. A falta da angústia, ou do tempo de se angustiar, leva a uma falta de elaboração do objeto perdido, da frustração do não encontro. Percebe-se, cada vez mais, que as associações mantidas são aquelas que remetem a cenas carregadas de afeto: prazer e desprazer.
Ao aplicar a teoria do pêndulo de Schopenhauer (2000, p. 36) ao contexto moderno, observamos que o sujeito contemporâneo oscila entre o sofrimento causado pelo desejo não realizado e o tédio que emerge após a satisfação do desejo. Schopenhauer (2000) descreve a existência humana como um movimento pendular constante entre a dor e o tédio, em que a busca por satisfação nos leva de um extremo a outro sem uma resolução definitiva. Essa dinâmica é exacerbada pelo ritmo acelerado de mudanças e pela contínua necessidade de consumo na sociedade atual.
Diante disso, emergem questionamentos cruciais: quais são os verdadeiros obstáculos para a realização do desejo? Quais complicações surgem da constante alteração dos objetos de ligação? A modernidade altera o ritmo dessas ligações, promovendo conexões efêmeras entre sujeitos e objetos. Essa/A rápida sucessão de mudanças impede que o indivíduo experiencie a falta, mantendo-o num estado de ocupação constante, em que tédio e angústia permanecem latentes, camuflados pela incessante oferta de novas satisfações. Assim, o indivíduo nunca está verdadeiramente vazio, tampouco satisfeito. A frequência com que as ligações com objetos mudam faz com que o trabalho e o lazer se confundam, tornando-se prescritivos e obrigatórios, refletindo a constante pressão para se adaptar a um ambiente que demanda perpétua atividade e resposta.
Mas qual seria então o problema em atualizar para a normativa social da contemporaneidade? Não seria o consumo a melhor forma de nos levar à completude do desejo?
O consumo na modernidade é a alteração do tempo do pêndulo. Ele é a exposição excessiva ao prazer fácil, rápido, fugaz e individual. O pêndulo muda tão rápido que parece ir do tédio ao tédio, pelas ofertas excessivas deste ambiente moderno, que também é invasivo e adoecedor.
[...] vivemos numa sociedade que substituiu a regulação normativa pela sedução e a manutenção da ordem pelos estratagemas das “relações públicas” (em termos mais simples, a publicidade), enquanto os desejos em expansão e o despertar de novas necessidades tornaram redundante a coerção manifesta; contudo, esses novos mecanismos de reprodução social só adquirem eficácia se forem dirigidos a homens e mulheres “capacitados para o desafio”. Em clara oposição à família ortodoxa, com sua estrita supervisão parental, essa frouxa estrutura familiar, que expande a autonomia infantil e deixa os jovens entregues à orientação de seus pares, ajusta-se bem aos requisitos impostos por nossa moderna sociedade líquida de consumo, individualizada em toda a sua extensão (Bauman; Dessal, 2017, s/p.).
Fica manco o princípio da realidade. Ficam infinitas as possibilidades. O objeto, não mais da satisfação, mas algo temporário, fugidio, é descartado em busca de algo novo. Os sintomas ficam desafiadoramente mais disfarçados, já que os objetos são infinitos.
A respeito disso, Freud afirma que a angústia surge da transformação da libido acumulada porque não houve descarga, logo o represamento desse excesso tem como consequência a neurose de angústia. Nesse sentido, Freud (1926/1996, p. 235-240) considerou fundamental entender como o aparato neuronal é capaz de transmitir e transformar a energia que circula pelos neurônios, ou seja, compreender economicamente as forças nervosas.
Fato é que a cada nova ligação, a cada busca pelo inalcançável, há um gasto de energia e uma irritação por não alcançar o objetivo final: a satisfação. Se a angústia causa recalque e não o recalque causa a angústia, a presença da angústia no encontro do objeto (raso e com obsolescência programada) pode levar a mais angústia. Logo, o que deveria ser uma liberdade plena torna-se uma prisão a céu aberto, sem guardas, apenas vigiada pela nossa frustração e gerenciada pela angústia.
A metapsicologia, antiga bruxa de Freud, mantém sua atualidade nos tempos atuais, demonstrando a robustez da teoria desde o seu começo. A redução da capacidade de concentração humana é uma prova de que as ligações agora são mais fragilizadas e friáveis do que antes. Mesmo quando trazemos os teóricos como Winnicott e Klein essa fragilidade torna-se ainda mais relevante, por termos aqui um ambiente (leia-se redes sociais) que também produz a falta. O sofrimento da angústia aparece mais nítido na presença de uma ligação a um objeto raso e com obsolescência programada. Nossa busca incessante pela solução rápida facilita a fuga do aprofundamento necessário para a existência do analista e do analisando. O aumento do número de diagnósticos de ansiedade, TDAH, comportamentos maníacos, compulsivos pode também ter influência da contemporaneidade. Desde que nascem, as crianças têm sua chupeta eletrônica e sofrem marcações [Bahnung] evoluindo para um adulto cujos processos mnêmicos o levam a recorrer ao objeto de repetição: o smartphone e o universo nele contido. φ













