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Reverso

versión impresa ISSN 0102-7395

Reverso vol.46 no.87 Belo Horizonte jun. 2024  Epub 19-Mayo-2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v46n87.07 

CLÍNICA PSICANALÍTICA

A escrita – um imperativo ético

WRITING - AN ETHICAL IMPERATIVE

Gilda Vaz Rodrigues1 

Psicanalista.

1Dedica-se à transmissão da psicanálise em seu seminário O ensino de Jacques Lacan. É autora de livros e artigos publicados em revistas e livros de psicanálise Entre essas publicações se destacam as mais recentes: Cortes e suturas na operação psicanalítica, A psicanálise pelo avesso (Ophicina de Arte e Prosa); No princípio era o ato (Artesã); Da solidão; Da diferença; Que não se esmaguem com palavras as entrelinhas (Quixote + Do). E-mail: gildavaz@terra.com.br


Resumo

Se a neurose nos ensinou tanta coisa a respeito do campo do inconsciente e serviu de balizamento à teoria formulada por Freud, é a psicose que nos oferece hoje novos parâmetros para abordar a clínica, pois o que se vive, em certos momentos de destituição subjetiva, é também da ordem de uma certa loucura. São ocasiões em que a cadeia significante se rompe, e o real irrompe. O que fazer?

Palavras-chave: Psicose; Real; Escrita; Verwerfung

Abstract

If neurosis taught us so much about the field of the unconscious and served as a guide to the theory formulated by Freud, it is psychosis that offers us, today, new parameters to approach the clinic, because what is experienced, in certain moments of subjective destitution, is also of the order of a certain madness. These are occasions when the signifier chain is broken, and the real bursts out. What is to be done?

Keywords: Psychosis; Real; Writing; Verwerfung

Quem acompanhou os primórdios da psicanálise, por volta dos anos 1960/1970, deve se lembrar do atendimento dos primeiros psicanalistas. Eu, que me incluo entre aqueles que, bem cedo, ousaram se submeter à nova e ainda desconhecida experiência psicanalítica, me lembro de receber de meu analista, na ocasião, a recomendação de, após cada sessão, escrever o que quisesse a partir do que foi falado ali, acompanhado de um desenho. Essa prescrição aos poucos caiu em desuso e nunca mais se ouviu falar disso.

Até há um tempo atrás, eu não via muito sentido nessa demanda formulada ao analisante de uma forma tão concreta: escreva. Até que, às voltas com um caso de uma analisante, há muitos anos em tratamento, cujo diagnóstico foi se esclarecendo lentamente, à medida que sua análise avançava, esse recurso me ocorreu como um coelho que se tira da cartola. Pude, após tantos anos, ver algum sentido naquela demanda, principalmente, naquele momento em que lidava com um caso de psicose com patoplastia obsessiva, mais especificamente, uma esquizofrenia paranoide, na qual o delírio foi tomando forma com o tratamento psicanalítico.

Trata-se de um caso que reafirma o postulado de que aprendemos com a psicose. Não vou me estender no relato do caso ainda, porque são tantos anos de tratamento que dariam um livro, dada a riqueza de elementos e a variedade das vias de formalização teórica que poderiam ser tomadas na abordagem do caso.

Vou me deter num momento crucial do tratamento, quando, tocado por uma intervenção da analista, o demônio pulou no palco, ou seja, na cena analítica. É bem conhecida a frase com que Freud (1901/1996, p. 633) inaugura sua interpretação dos sonhos: Flectere si nequeo superos. Acheronta movebo [Se não posso dobrar os poderes supremos, moverei as regiões infernais].

É comum dizer que, no psicótico, o inconsciente está a céu aberto. Se alguns textos de Freud deixam a impressão de que o inconsciente se apresenta como uma linguagem a ser traduzida como se traduz uma língua estrangeira, para Lacan, a ênfase recai na estrutura de linguagem que virá a se constituir como efeito de sentido evocado pelas intervenções do analista, estrutura que é produzida numa análise e não é dada a priori.

O psicótico, entretanto, ignora a língua que fala, o que quer dizer que, para ele, o inconsciente permanece excluído como algo que fala nele. Remeto-me ao livro de Solal Rabinovitch (2001)A foraclusão – presos do lado de fora, em que ela faz um trabalho minucioso e primoroso sobre a Verwerfung.

Sabemos que Lacan utilizou esse termo para se referir à rejeição de um significante primordial para o sujeito, antes que ele seja defrontado com um momento dado de sua história. A noção de Verwerfung é tratada por Lacan como um operador e traduzida por forclusion, tornando-se um novo conceito inexistente em Freud, embora precedida pela Behajung- Ausstossung freudiana.

Voltemos ao caso clínico para destacar esse mecanismo da Verwerfung que instaura a marca de uma não existência. O Real é aqui definido pelo fora, pela exclusão do simbólico. O que vemos acontecer no trabalho com essa analisante é justamente isto: nada se escreve. A cada sessão, volta-se ao ponto de partida como se nada tivesse sido falado, e o inconsciente exposto em sua loucura começa a ameaçar não só o tratamento como também a própria pessoa da analista, com as atuações reinantes. Ela chega a dizer:

Você cutucou a onça com vara curta. E agora? Ao que eu retruco:

Se eu não cutucar, como vamos tratar dessa onça?

Essa resposta da analista teve um efeito apaziguador, talvez por transmitir a segurança de que haveria um tratamento ou um jeito de tratar dessa onça.

E foi aí que me ocorrreu a ideia do para casa:

Você vai me trazer da próxima vez alguma coisa escrita sobre isso.

Deu-se início a um trabalho que reúno num volume de mais de 200 folhas escritas, dois volumes de uns 300 desenhos, oito esculturas de mãos em várias posições, feitas em argila (e que eu, mais tarde, as fiz passar para a resina para que não se quebrassem) e, no final dessas produções, cadernos escritos só com números, chegando à cifra de 5.000, quando ela começou a espaçar suas sessões. Depois disso, ela passou a deixar mensagem: “É só para ouvir sua voz, estou com saudades”.

Esse trabalho, que vai das atuações e alucinações, passa pela fala e se faz acompanhar pela escrita por meio de palavras, desenhos, esculturas e números chega a um ponto em que o objeto se reduz à voz. Tudo isso exposto, ‘feito do lado de fora’, tal como o sujeito impossibilitado de se alienar no único lugar onde poderia fazê-lo, mas que exigiria uma operação simbólica, que, por algum motivo, não se dá.

O que ocorre, então, é um processo primordial de exclusão de um dentro primitivo, aquele de um primeiro corpo de significante, da ordem de uma escrita à qual o sujeito estaria irremediavelmente submetido e pelo qual pagaria sua dívida simbólica ao preço de sua divisão.

Usando, porém, a mesma frase com que Freud (1920/1976, p. 85) termina seu Além do princípio do prazer “[...] ao que não podemos chegar voando, temos de chegar mancando”, a escrita para o analista é um imperativo ético, ao qual temos que chegar até um ponto na estrutura em que é possível dizer: basta. Ponto que a psicose nos ensina, pois no psicótico, onde não há um ponto de ancoragem, a escrita se faz um imperativo ético, para que algo ali faça suplência.

“Ele não pode domar esse real, domesticá-lo, senão, sob a condição de enquadrá-lo na escrita e pela escrita. Esse gozo que o sobrecarrega empurra-o a escrever”, diz Jean-Luc Godin (2000, p. 96) em seu texto Notas acerca da leitura de um texto literário no discurso analítico, referindo-se a James Joyce.

O excesso pulsional funcionará como exigência de trabalho ao psíquico, como exigência de inscrições. Uma escrita em que o eu do psicótico se realiza no próprio ato de escrever, e não necessariamente no conteúdo da escrita, tanto que, no final, nossa analisante só precisa escrever números para se fazer contar como sujeito.

Se a foraclusão diz respeito a um processo que se opera entre o real e o simbólico, o recurso à escrita constitui uma forma de realizar alguma amarração do real ao simbólico, que, quando falha, o imaginário inunda a cena. O que constatamos nesse caso de psicose é que a contenção do real, do transbordamento de gozo só foi possível graças à escrita e pela escrita.

Quando digo “escrita” estou me restringindo não somente ao ato de escrever, mas também aos desenhos, às modelagens com a argila e outras atividades que funcionaram como contenção ao real, como se fizessem sulcos no real, deixando uma marca.

Nesse caso, vê-se como o imperativo ético da escrita do analista pode barrar o imperativo superegoico, imperativo de gozo do Outro, que toma forma fora do sujeito.

Se a neurose nos ensinou tanta coisa a respeito do campo do inconsciente e serviu de balizamento à teoria formulada por Freud, é a psicose que nos oferece hoje novos parâmetros para abordar a clínica, pois o que se vive, em certos momentos de destituição subjetiva é também da ordem de uma certa loucura. São ocasiões em que a cadeia significante se rompe, e o real irrompe. O que fazer?

O fazer aqui é da ordem de uma passagem pela figuração em ato, e é isso que configura a escrita, na medida em que se opera como efeito da queda, ou seja, do que cai no papel, no barro, por meio de suas produções. Não se trata de metaforizar a realidade psíquica, mas de criar um ponto de identidade que possa dar suporte ao sujeito, ponto construído por ele próprio por meio do trabalho ali realizado com suas mãos. É interessante destacar que as esculturas dessa analisante, que chamam a atenção pela sua qualidade artística: eram esculturas de mãos.

O que se constata na clínica vai ao encontro do que também se observa no percurso que o ensino de Lacan empreende em direção ao real. No final de seu ensino, Lacan não se contenta só em demonstrar o real, e sim em mostrar por meio da topologia. Convoca-nos a participar pelo olhar. Um olhar, que, incidindo nesse campo de perda, além da simbolização, estabelece o “ato de suportar o sujeito” como a estrutura a ser vista. Seja na neurose, com sua forma velada, seja na psicose, do jeito que der. φ

Referências

FREUD, S. Além do princípio de prazer (1920). In: ___. Além do princípio de prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos (1920-1922). Direção da tradução: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 17-75. (Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, 18). [ Links ]

FREUD, S. A interpretação dos sonhos (II) e Sobre os sonhos (1900-1901). Direção da tradução: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 5). [ Links ]

GODIN, J.-L. Notas acerca da leitura de um texto literário no discurso analítico. Tradução: Olga Maria Carlos de Souza. A prática da letra, Escola Letra Freudiana, Rio de Janeiro, ano XIX, n. 26, p. 93-100, 2000. [ Links ]

LACAN, J. O seminário, livro 16: De um Outro ao outro (1968-1969). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. (Campo Freudiano no Brasil). [ Links ]

LACAN, J. O seminário, livro 3: As psicoses (1955-1956). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Aluísio Menezes. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. (Campo Freudiano no Brasil). [ Links ]

LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma (1975-1976). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Sérgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. (Campo Freudiano no Brasil). [ Links ]

RABINOVITCH, S. A foraclusão: presos do lado de fora. Tradução: Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. [ Links ]

SOULEZ, A. Enodamento entre letra e lugar? Tradução: Paloma Vidal. A prática da letra, Escola Letra Freudiana, Rio de Janeiro, ano XIX, n. 26, p. 55-67, 2000. [ Links ]

Recebido: 14 de Abril de 2024; Aceito: 23 de Abril de 2024

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