Caríssimos amigos e colegas aqui presentes, boa noite a todos. Inicio minha fala desta noite com uma pergunta: como começar a escrever sobre o que se finaliza? Escrever sobre o que se começa é como dar linha a uma pipa, é colocar o desejo à larga. Fechamos os olhos e colocamos no papel nossas melhores intenções. Falamos disso e daquilo, confiantes de que, com esforço e colaboração, o que está em andamento terá continuidade. E não tudo, mas muita coisa que será proposta terá seguimento, até que a próxima Diretoria decida o que fazer com o trabalho que recebe, levando-o em frente e dando a ele o toque que é seu.
Porém, e sempre há um porém, o caminho que parecia promissor, limpo, sem ofertar grande desassossego, começa a apresentar pedras, nos convocando ao drible. Situação esperada? Sim, contudo, quando em excesso, é indesejável porque nos rouba energia. Por outro lado, nos convoca a continuar apesar dela, à semelhança do trabalho de Freud na construção da sua teoria, que seguia insistindo apesar do obstáculo ou por sua causa mesmo. Qualquer um que assuma a função de presidir uma instituição, especialmente a psicanalítica, deve estar advertido do inesperado.
Fazer essa digressão me permitiu escolher retomar minha palavra desde dois anos e meio atrás e fazer um balanço. Somos remanescentes da diretoria passada, quando se desenvolveu um trabalho de reorganização desta casa tanto no aspecto físico, que precisava de reformas, quanto no aspecto financeiro, pois foram identificados vários pontos em que o nosso dinheiro escoava, e ele faltaria se medidas urgentes não fossem tomadas. Tarefa difícil de cumprir, mas inadiável para nossa sobrevivência. Problemas sanados, dando fôlego para empreender outras tarefas voltadas para pensar nossa formação, fomos surpreendidos pela pandemia que tirou nosso chão. Deixou-nos atordoados, mas nos impulsionou a buscar outro caminho nunca antes pensado, mas que naquele momento era o único possível para seguir na transmissão. Cedemos ao modo on-line. Foram três anos e seis meses de muito trabalho e discussões.
Findos os seis meses além do tempo previsto, por motivos que já conhecemos, esta diretoria, que agora sai, foi eleita mantendo seus integrantes e com mais dois novos colegas. Vivemos muitos reveses desde o início desta gestão. Recebemos muitos nãos desde a formação da chapa, lugar-comum, mas durante o seu exercício, também lugar incomum. Várias dificuldades internas e a vacância da Diretoria Científica, ficamos mancos. Mas como uma boa equipe que somos, pois o sentimento que nos une é o da amizade, continuamos trabalhando, pois tínhamos pela frente a condução do seminário Os outros casos clínicos de Freud com o Prof. Mário Eduardo Costa Pereira, atividade que promoveu a reunião dos colegas do grupo do Círculo Brasileiro de Psicanálise em torno dos preparativos para o XXV Congresso do CBP e a XLI Jornada do CPMG, que organizamos, embora a comissão responsável tenha sofrido com a saída de vários integrantes diante de um congresso nacional a se realizar. Redobramos nossas atividades e nosso tempo de dedicação ao CPMG, presencialmente, em conversas telefônicas ou em intermináveis conversas pelo WhatsApp, ou seja, a qualquer hora. Urgência e emergência não escolhem ocasião para acontecer. Ossos do ofício!
Contudo, ainda assim precisávamos de um substituto para realizar tarefas próprias à Diretoria Científica e, novamente, não conseguimos. Hoje fico a me perguntar por que, tanto para esse ocorrido quanto para alguns outros. Como a psicanálise nos ensina a ter a atenção flutuante sempre, me vali de pedacinhos de conversas e pensei num rearranjo interno. Convidei Eliana Mendes para assumir a Diretoria Científica e ela prontamente aceitou. Muito obrigada, Eliana Mendes! Isso feito, era hora de convidar alguém para ocupar a vaga da Diretoria de Secretaria deixada por ela. Convidei Marisa de Lima Rodrigues, a quem agradeço por ter aceitado.
Quero lembrar-lhes de que, antes desse arranjo, continuávamos lidando com a pandemia que, embora arrefecida, ainda se impunha como fator limitante ao retorno presencial das atividades de transmissão. Situação preocupante, pois havia candidatos que só se apresentaram pela telinha desde a entrevista inicial. Muito embora saibamos do valor do modo on-line, também sabemos que o presencial é insubstituível. O olhar, o tom da voz, o posicionar do corpo, nada disso se transmite pela telinha. E foi uma luta! Várias atividades da vida já haviam sido retomadas: viagens, festas, supermercados. Mas o perigo do contágio estava aqui, exatamente onde seriam poucos a se reunir e com todas as medidas de segurança tomadas. O retorno dos seminários ao presencial foi a conta-gotas. Alguns coordenadores voltaram no segundo semestre de 2022, mas foi no início deste ano que tudo foi restabelecido.
Retomando meu discurso de posse, falei sobre prosseguir na proposta de revisão da formação em seu segundo tempo. Para tanto, em fins de 2022, os colegas Scheherazade Paes de Abreu, Arlindo Pimenta, Angela Lucena e Eliana Vergara foram convidados para compor a comissão que seria responsável pelos trabalhos. E os convites não foram aleatórios, cada um deles tem um particular que motivou sua escolha. Porém, o trabalho só teve início recentemente. Poderíamos ter caminhado muito, mas o desejável se furta à realização, muitas vezes.
Agora quero falar do que foi realizado. Primeiramente cito, com alegria, a entrada de quatro novos sócios: Thiago Martins, Audrey de Castro, Marília Madureira e Walesca Faria, que chegaram com o entusiasmo dos trabalhadores decididos. Um pedido de entrada é coisa de grande importância, pois nos fala que a transmissão se deu. Continuamos com as entrevistas de acolhimento, feitas com o rigor necessário ao compromisso com a instituição e com aqueles que desejam entrar para a nossa formação. Demos continuidade ao trabalho realizado pelos referentes que, mesmo tímido, seguiu o proposto pelo grupo que o concebeu, tendo bons resultados. Porém, permanece carecendo de adoção por parte de uns poucos colegas, que fazem falta, saibam.
Sobre a Clínica de Psicanálise, o outro pé em que a formação se ampara, podemos dizer, com propriedade, que foi conduzida com enorme empenho e dedicação. Deu excelentes frutos, pois ali se plantou semente boa. Ali se fez ver muitas vezes o “desejo de analista”, “o desejo de exceção”, esse que não mais se pauta no desejo do Outro. Efeitos de análise. Obrigada, Guiomar Lage, Maria Helena Libório e Eliana Mendes.
Quero falar agora sobre a comissão que trabalhou, brilhantemente, para as comemorações dos nossos 60 anos. São registros da nossa história que ficaram marcados em nossa memória afetiva. Depoimentos que denotam o investimento de cada um, a sua libra de carne entregue num trabalho árduo por uma causa nobre. Obrigada, Yvonne Muzzi, Carlos Mello, Audrey de Castro, Walesca Faria e Guiomar Lage.
Agora é preciso falar da comissão que cuidou do Congresso. Assim mesmo: cuidou! Porque foi o que aconteceu. Um cuidado desde o momento em que pertencia ainda ao plano das ideias até a sua execução impecável em todas as esferas. Tarefa complexa que só quem já participou sabe mensurar o que é trabalhar com a probabilidade. Foi uma aposta que valeu cada centavo. Obrigada, Túlcia Poggiali, Marília Madureira, Mazzarello Cotta, Suzanne Drummond, Walesca Faria e Audrey de Castro. Obrigada aos colegas que ajudaram na leitura dos 52 trabalhos enviados, atividade à qual Eliana Mendes, já na função de diretora científica também se dedicou. O meu agradecimento à Ângela Lucena, Marília Kallas, Eliane Mussel e Carlos Mello pelo período em que também participaram da Comissão de Jornadas.
Trago agora a Diretoria de Comuni-cação, responsável por nossa imagem na mídia e por nossa rica, ativa e atualizada biblioteca, que foi além dos registros de livros e em livros, ao nos envolver nos sorteios, nas homenagens, atendendo-nos sempre. Obrigada, Juliana Caldeira e Yvonne Muzzi. Marta Almeida, nossa zelosa bibliotecária, obrigada pelo carinho dispensado aos livros e a cada um de nós.
Seguindo, temos a Comissão de Publicação da Reverso, revista que nos chega fielmente a cada semestre, com artigos de extrema qualidade porque escolhidos por leitores atentos e criteriosos, artigos colocados entre capas que ostentam imagens de obras de arte de artistas famosos e de alguns outros menos famosos, mas queridos entre nós. Obrigada, Ana Boczar, Carlos Mello, Eliana Mendes, Marília Kallas, Mazzarello Cotta e Paulo Roberto Ceccarelli.
De importância ímpar temos a Diretoria Administrativo-Financeira, que com seu trabalho criterioso nos manteve financeiramente sadios, aptos a realizar todas as melhorias que fizemos, inclusive a que nos possibilitou trabalhar de forma híbrida, alcançando o Brasil inteiro. Melhorias que ofereceram um ambiente funcional e acolhedor a todos nós. Obrigada, Otacílio Ribeiro.
Agradeço à vice-presidente Scheherazade Paes de Abreu pelo trabalho realizado e pertinentes ponderações. A Elga Rosalva Silva pelo tempo em que esteve na Diretoria Científica e a todos que compuseram nossa diretoria e que não foram citados aqui.
Agora é a hora de agradecer à nossa secretária Adriana, que “se vira nos trinta” para manter o Círculo funcionando. Conosco há muito tempo, é uma figura incansável, atenta a tudo e a todos, desempenhando seu trabalho com alegria e correção. Agradecer também à Esmeralda, que chegou recentemente e logo, logo mostrou toda a sua vivacidade, entusiasmo, simpatia e está aprendendo rapidamente o funcionamento da Secretaria. Muito obrigada a vocês pelo comprometimento, competência e carinho conosco. Também agradeço a Célia, nossa diligente, prestativa, e discreta faxineira, que nos oferece um ambiente limpo e saudável.
Finalizando, quero dizer àqueles que me convidaram a assumir a presidência, o quão grata me sinto, pois esta é uma experiência única da qual não saímos ilesos. Só depois que assumimos é que temos a real dimensão desta empreitada. Enfrentei muitos desafios, tive que contornar situações inesperadas. Houve momentos em que, tomada pela emoção, desejei sair. Mas que ótimo, não o fiz! Bendita análise! Benditos os anjos, que dizem, não existem, mas tenho cá minhas dúvidas, pois vários deles emprestaram-me seus ouvidos. Sou privilegiada pelos amigos que tenho, por ter presidido o Círculo no ano em que nos tornamos sexagenários e em que tivemos um Congresso presencial depois da reclusão forçada pela pandemia.
Relendo este relato à luz das propostas iniciais, penso que tivemos algum êxito. E ainda mais, relendo também outros textos que escrevi ao longo deste tempo, tendo a crer que algo das minhas falas produziu efeitos. Neles evidenciei um aspecto muito importante da nossa história atual, que transcrevo a seguir “Estamos envelhecidos e envelhecendo, constatação irrefutável. Diante disso, pergunto: continuamos vigorosos no exercício da psicanálise? No trabalho de sustentá-la e sustentar o CPMG? Por onde anda o desejo? Perdido? Dividido? Penso que o CPMG – que, segundo Eliana Mendes, tem nome e sobrenome, os nossos – está vivendo uma passagem: é hora de reflexão, de cada um revisitar sua entrada para o Círculo. O que o motivou? É preciso reler seu pedido de entrada, resgatar o desejo colocado em palavras e torná-lo pulsante novamente.
A psicanálise precisa de trabalhadores decididos, e nós precisamos cuidar daqueles que nos sucederão, que chegam ávidos por aprender sobre essa senhora tão idosa quanto jovem, a psicanálise... Provocar-lhes sair do “amor do saber” para o “desejo de saber “, pois, como nos diz Marco Antônio Coutinho Jorge:1 “A rigor, não há contradição entre o amor do saber e o desejo de não saber, pois o amor do saber é algo que consome o saber que está dado ali como imutável. Já o desejo de saber, próprio ao psicanalista, está ligado à produção, à invenção do saber, e não ao seu consumo”. Esse é o desejo que faz laço entre os analistas e nos convida a um passo adiante.
Uso dessa minha fala para me dirigir à nova diretoria que se autointitula “De volta para o futuro”. Penso que, da maneira como essa chapa foi composta, a história e o porvir foram contemplados. E isso é muito bom! Estamos envelhecidos e envelhecendo e ter gente jovem por perto revigora. Só é preciso ter cuidado! Mutatis mutandis, sim, mas sem perder de vista a história, o que foi construído no passado, pois nada foi aleatório. O meu, o nosso desejo é de que tenham uma profícua gestão. Termino com a última frase do meu discurso de posse, alterando o tempo verbal: de minha parte, espero ter estado à altura da tarefa que me foi confiada.
Obrigada!













