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Reverso

Print version ISSN 0102-7395

Reverso vol.46 no.88 Belo Horizonte Dec. 2024  Epub May 19, 2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v46n88.01 

Editorial

Editorial

Carlos Antônio Andrade Mello


Eis aqui mais uma edição da revista Reverso, veículo do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, há muitas décadas cumprindo seu papel de acolhimento e transmissão da escrita da psicanálise.

O trabalho com o texto psicanalítico é não só se ater à palavra original da psicanálise mas também, a partir dela, percorrer suas consequências e resultantes na reflexão de todos os que a retomam como nós, numa permanente faina de construção e desconstrução.

Também assim é o trabalho do psicanalista, escritor de seu próprio texto e leitor de tantos outros em sua escuta na clínica. Portanto, uma revista como a Reverso pode ser mais uma carta de navegação, habitada pela letra do texto, escrita e leitura sem fim, pode ser nosso guia tanto nos mares instáveis da vida institucional como no porto nada seguro da clínica de cada um.

AUTOR CONVIDADO

Relação de casal entre paixão e amor: golpe de raio, golpe de trovão, do amor narcísico ao amor do futuro. É com esse título instigante que Paollo Lollo, psicanalista de origem italiana radicado na França, mais uma vez, vem nos prestigiar com um texto precioso, voltado a reflexões originais sobre o amor e a paixão na relação de casal. Para tal, lança mão de figuras de potência retórica como raio e trovão, disparadores dos golpes e dos cortes que, ao mesmo tempo, separam e unem o casal. A dança, o som, o ritmo são recursos utilizados pelo autor ao longo do jogo de união e separação, corte e sutura.

PSICANÁLISE E CULTURA

O permanente diálogo entre a psicanálise e a arte está bem ativo no texto de Alan Ricardo Floriano Bigeli - Implicações do cachimbo: a poética de Magritte entre o real e a realidade. A partir da consideração de que, ao se tratar de uma pintura só haveria ali a representação, e não a coisa real, Bigeli evoca a afirmação de Lacan no Seminário 17: O avesso da psicanálise, de que “a verdade tem estrutura de ficção”, e só seria alcançada por um semidizer.

Arte e loucura sempre foram temas provocativos, mesmo porque povoam nossa cultura em suas várias modalidades, permitindo reflexões singulares, como as de Felipe Barata Amaral em seu texto Hölderlin e a questão da loucura, a partir de um ensaio de Jean Laplanche, com o objetivo de “explorar no sentido estético o modo como a psicanálise irá entender um artista louco e estabelecer a relação loucura-linguagem”.

Desta vez é o cinema que vem se prestar a provocar considerações em torno de diferenças culturais, religiosas, étnicas e de gênero. Tensões culturais e os impasses no setting analítico: contratransferência, transferência e identidades subalternizadas a partir da série BirBaskadir [8 em Istambul, 2020]. Seu autor, Rogério Ferreira de Souza, prioriza os percalços da clínica psicanalítica através de três personagens mulheres: analista, analisanda e supervisora, representadas em uma série televisiva.

TEORIA E CLÍNICA PSICANALÍTICAS

Como bem assinala o autor, o conceito de pulsão de morte sempre esteve associado ao de compulsão à repetição. Bernardo Sollar Godoi, neste estudo cuidadosamente elaborado, propõe que o conceito de pulsão de morte seja pensado na sua relação entre contingência e repetição. O autor parte do texto freudiano Além do princípio do prazer, onde se aborda a neurose traumática até chegar à consideração de “acidente”, que Sollar Godoi propõe com sólida sustentação denominar contingência. É esse seu propósito no texto Pulsão de morte entre contingência e repetição.

Drogadições, anorexia, bulimia, compulsões, acting-out e passagem ao ato, automutilações, violência, segregação, crises de pânico, quadros de angústia, fenômenos psicossomáticos, queixas de desinteresse, indiferença, abulia e sentimento de vazio. Essas condições são descritas como muitas formas de sofrimento encontradas na clínica contemporânea, segundo o trabalho de Carla Caldeira Durzi, Eliane Mussel e Renan Levy Francisco. A partir delas, os autores ensaiam uma aproximação e um diferencial com sintomas descritos por Freud na esfera das neuroses atuais, a partir de sua denominada primeira tópica, tema amplamente explorado em Derivas pulsionais: das “neuroses atuais” freudianas às especificidades dos sintomas atuais.

A casuística clínica de Freud foi contribuinte como ponto de partida das considerações de Carolina Nassau Ribeiro em seu trabalho O traçado da pulsão na adolescência: autolesão e suicídio, a partir do qual a autora levanta esses atos de intervenções no corpo e na própria vida. Nos tempos atuais, a digitalização das relações sociais e amorosas também tem seu papel importante na estimulação e no desencadeamento de atuações dessa natureza.

Em Nos anais de nossa história, são trazidos os aspectos da dinâmica pulsional, com especial ênfase voltada para a pulsão anal. Seu autor Ederson Rodrigo de Andrade tece considerações sobre o papel do trabalho cultural de sublimação frente aos restos e dejetos, trabalho do qual até a arte participa.

Os conceitos fundamentais de pulsão e repetição são os pontos de partida de Gilda Vaz Rodrigues para alcançar e realçar o conceito de gozo em Lacan. Como a psicanálise contemporânea lida com o gozo? É isso que a autora interroga ao expandir suas considerações sobre esse outro e importante conceito, o gozo, até a função do mais-de-gozar. E encerra com uma frase que diz muito: “Assim também nas análises não é tanto o conteúdo ou os objetos que importam, pois eles são o que há de mais variável. O que importa é o valor de gozo no mercado das pulsões”.

O papel destacado do trajeto da histeria a partir da criação da psicanálise e ao longo de sua história é amplamente abordado no texto O que as histéricas contemporâneas nos ensinam sobre o gozo?, de autoria de Márcia Rosa. Ela destaca a função política e social da histeria, as diferenças entre as histéricas clássicas e as contemporâneas até chegar à abordagem da pulsão e gozo no caso de Dora, célebre na clínica de Freud e precursor dos incontáveis estudos teóricos e clínicos sobre a histeria em sua gama variada até os nossos dias.

Mais um texto condizente com os impasses da clínica psicanalítica dos nossos tempos é este: O tédio nos dias atuais. As autoras Fernanda Nunes Macedo, Renata Franco Leite e Sara Bezerra Costa Andrade iniciam suas considerações a partir de um filme voltado especialmente para o público infantojuvenil, mas partem para uma elaboração psicanalítica, através dos conceitos de desejo e pulsão e novas formas de subjetividade até o conceito de tédio, suas origens e modos de abordagem.

PSICANÁLISE E LAÇOS SOCIAIS

Perinatalidade, parentalidade e gênero. São esses o título e a proposta de reflexão de Paulo Roberto Ceccarelli, a partir desses conceitos que, cada vez mais, vêm ganhando força no contexto social e cultural hodierno. É abordada a organização familiar e como esses conceitos aí se instalam, apesar da resistência que encontram, uns mais, outros menos, no conservadorismo religioso, laico ou até biológico.

Todo esse acervo chega até aos caros leitores graças ao trabalho dedicado de nossa revisora Dila Bragança de Mendonça, à participação das secretárias Adriana Dias Bastos e Dayane Esmeralda Ribeiro, da bibliotecária Marta Aparecida de Almeida e Almeida, de nosso tradutor Bernardo Maranhão e do diagramador Sérgio Luz. A Diretoria do CPMG também merece nosso reconhecimento pelo apoio e incentivo destinados à Reverso.

A todos esses colegas e colaboradores, nossos agradecimentos por sua valiosa e indispensável participação.

Mais uma vez, reconhecemos nossa satisfação pelo trabalho em parceria com os colegas que compõem nossa Comissão de Publicação. Agradecemos a coordenação primorosa e dedicada de Maria Mazzarello Cotta Ribeiro, e o trabalho dos colegas Ana Boczar, Eliana Rodrigues Pereira Mendes, Marília Brandão Lemos de Morais Kallas, Paulo Roberto Ceccarelli e Suzanne Beaudette Drummond.

Por fim, e não menos importante, aos caros autores e leitores, nosso obrigado!

Carlos Antônio Andrade Mello

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.