Um golpe de raio1 dura o instante de um relâmpago. Instante carregado de energia que tem como única finalidade se descarregar imediatamente, sem mediações. É um instante destruidor que queima o seu alvo e o reduz a cinzas. O relâmpago é uma luz ofuscante que solicita a vista e, por algum tempo, a torna cega. O relâmpago nos sidera e o raio nos traumatiza, porque a energia que cai do céu, com sua luz intensa, faz foco sobre um real próximo para nós. Ela nos faz vibrar, nos atravessa, nos toca intimamente. Essa experiência nos revela que há uma força, uma potência fora de nós que pode nos dilacerar, fulminar, destruir. É uma experiência traumática que nos sidera, ou seja, que nos torna cegos e insensíveis às nossas próprias percepções. Siderados, dependemos do astro [siddus], de sua luz, de sua força de atração. Somos prisioneiros do astro em torno do qual gravitamos. O golpe de raio é uma experiência traumática que nos torna dependentes. Nós sofremos essa experiência e ela nos fascina, nos subjuga. O golpe de raio é o retorno de um recalcado calcinante e siderante que se impõe por sua luminescência. Nosso olhar é atraído por um traço que brilha, por um rosto, por um caminhar que cremos reconhecer e que supomos vir ao nosso encontro. Somos arrebatados e, ao mesmo tempo, perturbados. Essa experiência nos inquieta porque ela é, ao mesmo tempo, estranha e familiar. O golpe de raio é uma fixação sobre uma imagem inteiramente interna ao eu narcísico que só vê aquilo que já viu, conhece somente o que ele pode reconhecer: a imagem de si mesmo. Nesse reconhecimento, o acento recai sobre a repetição, mais que sobre o conhecimento. O continuum da repetição, que o real produz necessariamente, não acha, no encontro com uma contingência, um sujeito apto a interrompê-la, cortá-la, fragmentá-la. Na proximidade com o real, só pode haver um Eu cego ou míope, capaz de ver somente a si mesmo. O golpe de raio é a manifestação de um real que produz sideração, que se situa na órbita de uma estrela luminosa [siddus] que impede aos planetas se emancipar, se de-siderar,2 e ao psiquismo se comover livremente seguindo sua própria trajetória no universo corporal das sensações. Tudo o que brilha seduz, fascina, aprisiona, atrai o olhar ao limitar seu alcance, sua mobilidade. A velocidade de expansão da luz, sua força ofuscante impede o olhar de ver bem o rosto do outro. O relâmpago ilumina e, ao mesmo tempo, produz as trevas. Ofuscado, o olhar perde sua força de percepção e se afasta do real e da realidade. Ele permanece fixado em um objeto imaginário.
À rapidez da luz se opõe a lentidão do trovão. Ele avança atravessando os céus. Ele nos faz vibrar intimamente, realizando por meio de vibrações sonoras o medo que está em nós. Nós o ouvimos, o escutamos. Ao se aproximar, ele nos faz ouvir um ritmo inesperado que discernimos em seus desdobramentos sucessivos. O trovão se manifesta na duração e, na sua linha de desdobramentos, podemos distinguir claramente a sucessão das tonalidades que dão forma a um concerto bem acentuado, tonal. O golpe de trovão é invisível, ainda que ele seja anunciado pela luz do relâmpago. Ele vem depois: é um a posteriori que dá sentido à cachoeira de luz que o precede. O sentido do trovão é o tom, palavra onomatopeica que designa um golpe, um bum. Os trovões são, então, sequências de bum que são diferentemente acentuadas e formam a gramática sonora de uma linguagem sonora a interpretar, a interrogar: o rap? o rock, a valsa: cada ritmo é uma dança nova que temos dificuldade de praticar. Essa linguagem está aí para ser inteiramente decifrada, interpretada. Viver é ouvir e interpretar os golpes de trovão, suas divisões rítmicas. O casal tenta ouvi-las e dançar em uma relação, a dois, tentando fazer laço social. A palavra “casal” [couple, em francês] indica em seu radical um corte [coupure] e ao mesmo tempo o elo entre os dois pedaços que dele resultam.
Trata-se de um corte seco, geométrico, que visa a evitar todo dilaceramento. É graças a esse corte que pode haver laço entre dois amantes. Trata-se de um laço social que só pode ser geométrico, guiado e medido pela razão. Não há laço entre dois elementos se não houver corte, se eles não estiverem separados, individuados, divididos. Essa separação não impede os amantes de ter sentimentos, de se relacionarem sensualmente, de se desejarem, e essa é mesmo a condição da sua relação. Os amantes se relacionam sem estar submetidos a uma autoridade fulminante, sem ser dependentes, sem padecer pela falta, sem sofrer pela ausência de um objeto de amor que seria impossível de abraçar. Não se trata, portanto, de ser fulminado para produzir um elo de amor no sofrimento, mas, ao contrário, de construir um elo pela palavra, pelo simbólico, que faça separação tonal, uma palavra submetida às leis da tonalidade. Assim podemos entender de outro modo o dizer de Georges Bataille (1973, p. 403) que atrela o amor à paixão: “Amantes ligados por uma paixão se encontram na condição de se dilacerarem. Um e o outro têm sede de sofrer. O desejo deve neles desejar o impossível. Se não, o desejo se saciaria, o desejo morreria”. A modalidade do casal, para Bataille, não parece ser o resultado de um laço produzido por um corte seco, mas o resultado de uma ferida produzida por um dilaceramento. Dilacerar significa separar com força, deixar em pedaços sem se servir de um instrumento cortante. O corte que produz um casal não pode se poupar de usar esse instrumento cortante que é a razão, o Logos que reduz o Um em dois pedaços que são distintos, diferentes e autônomos.
O filósofo Baruch Spinoza (1670/ 2020) insiste na necessidade de recusar uma resposta passional à constatação da impotência e da inconstância humana, e propõe uma “geometria das paixões”. Ele considera as ações e os desejos humanos “como se se tratasse de uma questão de linhas, superfícies e sólidos” (Spinoza, 1677/2010).
Na lógica de Bataille, o propósito do jogo de casal seria privilegiar, produzir uma frustração, visar ao impossível de satisfazer para aumentar o dilaceramento e o desejo. Esse ponto de vista tem em mira o real como tal, sem colocá-lo em relação com o simbólico. Um casal capaz de articular real e simbólico tem como propósito, ao contrário, satisfazer o desejo sem necessariamente dever sofrer, sem ser obrigado a incitar a besta pulsional, as paixões. Como ampliar então a falta que alimenta o desejo, sem necessariamente ceder a um sofrimento dilacerante? Como manter desperto o desejo, para poder satisfazê-lo em um bem-estar do casal? “O amor tem essa exigência”, afirma Bataille (1944): “ou seu objeto te escapa, ou tu escapas a ele. Se ele não fugisse de ti, tu fugirias do amor”. Poderíamos entender esse dizer de Bataille não ao pé da letra, mas no segundo grau. O objeto que escapa não seria o parceiro que fecharia a porta, em um gesto trágico, mas isso que escapa seria seu segredo íntimo. Um íntimo que atravessa seu corpo, as emoções e as sensualidades.
O casal como relação dual constitui o núcleo fundamental de toda sociedade, porque representa a relação que cria a articulação social do discurso através dos signos e da linguagem. Essa relação se cria com dificuldade, pois ela surge, em seu começo, pela relação de fusão originária e separação entre a mãe e a criança. O sentido do termo “casal” [couple, em francês] se encontra no radical da palavra. Para que haja casal, é preciso que o Um, a unidade, seja cortada em duas. Não há casal [couple] sem corte [coupure]. Sem corte, não há laço social. O trovão vem marcar esse corte que atravessa os céus e nos ensina a conceber esse corte e a escutálo por meio do seu ritmo.
O casal é cortado ao ritmo do trovão. Um ritmo que permite a criação de uma música, de um canto que faz vibrar o coração e o corpo. O coração bate um ritmo regular, o corpo pulsa em um continuum que demanda ser sacudido, reduzido, contingenciado. A pulsão do corpo é impossível de domar. E o desejo se nutre desse impossível. O erro do casal seria tomar esse impossível pela realidade. E fazer dele o propósito da sua dança, de sua diatribe trágica. O resultado não é o corte necessário ao casal para ir em direção ao futuro, para devir, e sim o dilaceramento que produz um casal que confunde a paixão com o amor, o sofrimento com o desejo. Um casal more geometrico, à maneira de Spinoza, não deseja o dilaceramento neurótico produzido pelo raio. O corte do casal não dilacera. Ele produz o ritmo do golpe de trovão. O desejo desses dois parceiros que formam um casal permanece, contudo, de uma certa maneira, o desejo do impossível, mas de um continuum que é, no entanto, fragmentado pela pulsação do coração, pelo amor. O amor é fragmentação do continuum, parada e pausa que vão contra o desejo de totalidade, de morte. O amor tem como função criar uma barreira contra um real invasivo e totalitário. É o coração que faz o trabalho civilizatório, mas que atravessa o território do selvagem sem querer necessariamente saneá-lo ou civilizá-lo. E, no entanto, o coração é razoável, civilizado. O amor cortês nos ensinou isso.
O tom, a tonalidade, produz como efeito subir e baixar a voz, estendê-la ou detê-la. O tom permite produzir um contraste, colocar o acento sobre uma sílaba, fragmentar o continuum vocal. É o símbolo que corta o real. Eis aqui a prioridade de um casal que não se dilacera, mesmo quando se divorcia.
Nessa relação difícil entre simbólico e real, o acento recai sobre o simbólico que serve para cortar, por meio da voz, aquilo que não cessa de não se escrever, isto é, um real que é impossível de reduzir ao simbólico, mas que o simbólico pode transformar por meio dos cortes inevitavelmente produzidos pelo casal que fala. Criar ritmo é colocar em ação a contingência, por meio do tom que produz uma colisão com os processos do real que permanecem inacessíveis.
Um casal que dança marca essa colisão que produz encontros pontuais por meio de um acordo rítmico que demanda a escuta. Assim, os dois parceiros se encontram às vezes. É preciso, pois, que sejam, de certo modo, músicos, para conduzir essa dança com o outro e para continuar a dançar. Para estar em casal, pode-se ser cego, mas não se pode ser surdo. É para isto que serve a psicanálise: para escutar bem. E para entender bem. j













