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versão impressa ISSN 0102-7395

Reverso vol.46 no.88 Belo Horizonte dez. 2024  Epub 19-Maio-2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v46n88.05 

PSICANÁLISE E CULTURA

Tensões culturais e os impasses no setting analítico: contratransferência, transferência e identidades subalternizadas a partir da série BirBaskadir (8 em Istambul, 2020)

CULTURAL TENSIONS AND THE IMPASSES IN THE ANALYTICAL SETTING: COUNTERTRANSFERENCE, TRANSFERENCE, AND SUBALTERN IDENTITIES BASED ON THE SERIES BIRBASKADIR (8 IN ISTAMBUL, 2020)

Rogério Ferreira de Souza1 

Doutor em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO). Membro do Grupo Brasileiro De Pesquisa Sándor Ferenczi (GBPSF). Candidato em formação (3º ano) - Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção RJ.

Psicanalista (particular) e no CAP-CBP-RJ. Atua como professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Sociologia Política. (mestrado e doutorado) do IUPERJ-UCAM.

1Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO). Programa de Pós-graduação em Sociologia Política


Resumo

Este artigo tem como objetivo propor uma reflexão em torno do manejo da transferência e da contratransferência, que ocorre no setting analítico, tendo como enredo a relação ficcional protagonizada por três personagens: analista, analisanda e supervisora, que compõem parte da trama do universo ficcional da série 8 em Istambul (2020), no original, BirBaskadir, produzida pela Netflix. Busca-se provocar um diálogo entre o campo psicanalítico, as discussões do âmbito das relações culturais trazidas por Gayatri C. Spivak em seu livro Pode o subalterno falar? e o caminho clínico/teórico proposto pela via ferencziana através do conceito de “tato”.

Palavras-chave: Cultura; Subalterno; Transferência/contratransferência; Setting; Manejo

Abstract

This paper proposes a reflection on the matter of management of transference and countertransference that occurs in the analytical setting in the series “8 em Istambul” (2020) - originally titled Bir Baskadir and produced by Netflix. By analyzing the fictional relationship between three characters - the analyst, the analysand, and the supervisor - our intention is to engage in a dialogue that bridges the psychoanalytic topics and cultural discussions brought by Gayatri C. Spivak in her book “Can the Subaltern Speak?” as we also intend to reflect on theory of Sándor Ferenczi, through the concept of “tact”.

Keywords: Culture; Subaltern; Transference-countertransference; Setting; Management

1. BirBaskadir: singularidades culturais e psicanalíticas

Este artigo se centra na questão do manejo e dos impasses da transferência e da contratransferência no percurso da análise e da supervisão quando atravessadas pelas ideologias culturais e identitárias que permeiam as relações intersubjetivas na contemporaneidade. Se a cinematografia busca expressar/ desvendar os enigmas humanos, o setting analítico se mostra como caixa de ressonância desses enigmas, reverberando, em ato e fala, situações de subalternização cultural e identitária. Para dar conta desta premissa, este artigo traz como recurso empírico trechos da relação ficcional de três protagonistas - a analista Peri, a analisanda Meryem e a supervisora Gülbin - da série televisiva BirBaskadir (2020) - em português, 8 em Istambul - produção da Netflix, com roteiro e direção de Berkun Oya.

A trama se desenrola entre tensões culturais, religiosas, étnicas e de gênero frente aos dramas subjetivos e às histórias de vida apresentadas. Nela estão, frente a frente, através das personagens citadas, os agentes do saber psicanalítico/ psicológico e o sujeito interpretado historicamente como subalterno. Como G. C. Spivak (2010) aponta, a heterogeneidade do sujeito subalterno é recorrentemente homogeneizada, perdendo sua singularidade. Mesmo sendo sujeito falante, sua fala, a priori, se encontra desclassificada e analisada do ponto de vista de um saber que se postula universal. Além disso, a subalternidade vai para além da fala: é também percebida nos gestos, nas histórias de vida, nas formas de se vestir, nas crenças e nos costumes.

Especialmente sobre a relação saber/ poder presente no universo da clínica psicanalítica, vale citar Sándor Ferenczi (1927-1928/2021), que, em Elasticidade da técnica psicanalítica, tratou da postura professoral que o médico/psicanalista às vezes toma no processo terapêutico. Ferenczi (1927-1928/2021, p. 31) propôs um conceito clínico denominado “tato”, ou “sentir com”, para ampliar o sentido do afeto em detrimento do saber/poder no ambiente da clínica:

[...] como se pode reagir a uma reação inesperada ou desconcertante do paciente; quando se deve calar e aguardar outras associações; e em que momento o silêncio é uma tortura inútil para o paciente etc. [...]. Mas o que é tato? A resposta a esta pergunta não nos é difícil. O tato é a faculdade de “sentir com” [Einfühlung].

O autor propõe, segundo Barbosa (2013), uma mudança na perspectiva técnica na relação dos dois termos do par analítico. Para a autora, Ferenczi, a diferir de Freud, instaura “a possibilidade de o afeto guiar o tratamento, ainda que temporariamente, sem qualquer subordinação ao sentido” (Barbosa, 2013, p. 190). Cabe frisar que Ferenczi (1932/2021) endereçava a crítica a um tipo de comportamento e a uma prática psicanalítica vista como ortodoxa, por ele denominada “hipocrisia profissional”. Também Spivak (2010), mesmo partindo de outro prisma epistemológico, em seu livro Pode o subalterno falar?, trata da tensão entre saber e poder, problematizando o lugar de fala do sujeito subalterno frente a um discurso culturalmente ocidentalizado, patriarcal, branco e hétero, tradutor de experiências subjetivas e comportamentos a partir de uma tendência homogeneizante, sem espaço para as diferenças culturais, étnicas, sexuais e raciais.

2. Contextualizando BirBaskadir: cultura e psicanálise

BirBaskadir [8 em Istambul] se passa em Istambul, na Turquia, tendo como pano de fundo as transformações vindas do aprofundamento da globalização, que, desde os anos 1970, têm provocado mudanças econômicas, políticas, culturais e sociais expressivas nas relações entre os países centrais e os considerados periféricos da economia mundial. A série também trata da polarização enfrentada pela Turquia a partir de 2012, quando o partido do atual presidente Recep Tayyip Erdogan, o Justiça e Desenvolvimento (AKP), de viés conservador, chegou ao poder. Desde então, muitos grupos sectários surgiram, mas a polarização se deu, sobretudo, entre uma fração elitizada da população rica, intelectualizada, secular e identificada com valores ocidentais, e uma maioria da população pobre, religiosa e conservadora (Oliveira, 2021).

Dessa série, há personagens que este artigo enfoca. Há Meryem, a analisanda, uma jovem muçulmana e solteira, oriunda da classe trabalhadora, de baixa renda, que mora com o irmão, cunhada e sobrinhos em uma casa na periferia de Istambul, praticamente uma zona rural. Há Peri, mulher independente, psiquiatra e psicoterapeuta, com formação europeia, laica e pertencente à elite econômica e secular da sociedade turca. E há Gülbin, supervisora de Peri, também uma mulher independente, psiquiatra, psicoterapeuta e laica. Porém, diferentemente de Peri, Gülbin vem de uma família curda, de tradição e religião muçulmana, com uma irmã mais velha, Gülan, muito conservadora.

As três personagens vivem um conjunto de questões que acabam se embricando de modo tenso e complexo. Religiosidade, desemprego, dogmas, preconceitos, família, machismo, violência contra a mulher, depressão e luta de classes, as tensões que a trama desenvolve são exploradas de modo a proporcionar ao espectador um envolvimento afetivo com os dramas e os problemas vividos pelas personagens. Cada uma carrega, em sua trajetória, temas sensíveis, dramas pessoais em um cenário multiforme e não estereotipado entre bem e mal, entre certo e errado.

3. Tudo passa pelo setting: transferência e contratransferência

Em linha gerais, dado o panorama dos perfis das protagonistas, tem-se em Meryem, a analisanda, a imagem do arcaico e do tradicional: imersa nas questões religiosas, familiares e culturais, é representante de boa parte da população turca - trabalhadores com pouca escolaridade. Já Peri, a analista, representa o moderno e secular, o estilo ocidental de ser e ver o mundo. Por fim, Gülbin, a ambivalente, está situada entre dois mundos: um moderno e ocidental no ambiente de trabalho, e um tradicional e rodeado por questões étnicas e religiosas no âmbito familiar. Porém, vale frisar que aquilo que a série proporciona, nessa união das três personagens, borra interpretações precipitadas que localizam e fixam identidades e sujeitos. Como argumenta Homi K. Bhabha (1998, p. 106), essas formas de interpretar e fixar papéis são associadas ao discurso colonial, onde há, segundo o autor, uma relação de dependência ideológica na construção de uma alteridade estereotipada.1

Em BirBaskadir, a alteridade estereotipada e borrada se manifesta, sobretudo, a partir da imagem e do uso do significante “véu”. O véu, ou melhor, a mulher de véu,2 é ao mesmo tempo signo e sintoma, presente em grande parte dos diálogos e cenas entre as três personagens, por exemplo, em um encontro da analista com a sua supervisora após ter atendido a jovem muçulmana. Em 8 em Istambul (2020), a analista desabafa com sua supervisora:

Sempre que uma mulher com véu aparece e conversamos, eu digo para mim mesma: não seja ridícula, Peri. Você estudou todos esses anos. O que foi agora? É discriminação, nada além de discriminação. Você está marginalizando alguém. O que você está fazendo? Se você fizer isso... está louca? [...] Profissionalmente, é completamente errado. É errado em um nível pessoal. Você está discriminando, sendo imprudente, além de ser uma pessoa terrível, desprovida de empatia. Não pegue esse trabalho, então. Não pegue. Se você não pode resolver isso, vá embora. Não atenda mais ninguém.

Percebe-se que o véu assume o lugar de um significante mestre, ou, como afirma Bruce Fink (1998, p. 102), significante unitário - aquele que assujeita o sujeito: “Um S1 (significante mestre) pode ser, muitas vezes, reconhecido na análise pelo fato de que o analisando esbarra diversas vezes com o termo”. Tanto em imagem como em enunciado, o véu percorre sistematicamente cenas das três personagens. Além disso, é a presença de uma mulher com véu no setting que aciona na analista um conjunto de afetos contratransferenciais - e mesmo racionalizando-os para a sua supervisora, se mostram insuportáveis.

Já em outro extremo, a supervisora, divagando com seu namorado sobre o trabalho, após os queixumes da analista sobre o véu da analisanda, diz a seguinte frase: “como todo mundo. Ela cobre o cabelo, mas você cobre a mente. Pare de encenar e vamos conversar. Sua fascista” (8 em Istambul, 2020). Essa fala, em tom de desabafo, expressa uma vontade de devolutiva que gostaria de ter dado na sessão de supervisão. De lados opostos em relação ao véu, analista e supervisora são atravessadas pelas questões da cultura e da religiosidade, atravessamentos afetivos que inviabilizam uma “contratransferência primordial”, nos termos de Figueiredo (2018, p. 132), ou seja, “um deixar-se colocar diante do sofrimento antes mesmo de se saber do que e de quem se trata”.

Na sessão de supervisão, ao contar sobre sua vivência ocidentalizada, seus estudos no exterior e sua educação de elite, a analista expõe sua visão de mundo e o quanto a questão cultural é presente subjetivamente, expressando, assim, a tensão existente na visão das elites ocidentalizadas em relação à maioria da população religiosa.

Em 8 em Istambul (2020):

Uma mulher de véu era como um monstro para minha mãe. Ela até reclamava do cachecol que a nossa governanta usava. Eu entrei no colégio Robert [...] e depois na universidade, e nos EUA, e o que aconteceu? Eu voltei. Era um mundo diferente. E eles são poderosos. São maioria. Você e eu, em nosso país, vivemos num aquário. [...] Essas pessoas são loucas, com todos os seus hodjas3 e orações. É impossível entender. É como se vivêssemos em um país diferente dessas pessoas.

Percebe-se, na fala da analista, uma identificação com a sua supervisora sobre uma suposta visão de mundo. Uma visão ocidentalizada e elitizada em relação à cultura, à religiosidade e à tradição de seu país, tendo em vista que a sua supervisora não usa véu. No fim dessa sessão de supervisão, a analista se depara, na sala de espera do consultório, com uma mulher de véu e fica surpresa ao saber que se trata da irmã de sua supervisora.

Os exemplos acima acionam esta reflexão: enquanto, para a analisanda, o véu é signo e símbolo de sua religião e de sua cultura, para a analista e sua supervisora, o véu é sintoma intersubjetivamente compartilhado através de afetos díspares. Funciona como uma espécie de marcador social que indica e orienta, mesmo que estereotipando, formas de alteridades. O véu é mais do que um simples véu, mais do que uma vestimenta ou um simples adereço. Na série, o véu é identidade, posição política, singularidade e representatividade cultural e coletiva. Tanto marca como localiza intersubjetivamente o sujeito que o usa, assim como os que não usam.

É significativo que o véu - signo/ símbolo, sintoma e significante - não deixa de assujeitar. Esse objeto pode ser alegoria do contraste entre o moderno e o arcaico, entre o religioso e o secular, entre o saber médico/terapêutico e as tradições e os costumes. Na trama, somente a analisanda, a jovem muçulmana, usa o véu. Sua figuração nas cenas é marcadamente expressa pelo seu uso até mesmo quando ela o retira. Embora a analista e a supervisora não usem véus, ele está, consciente ou inconscientemente, modulando o grau de contratransferência de ambas.

A relação entre as personagens leva a abordar outro ponto da série: a questão do manejo no setting e como esse manejo está relacionado à contratransferência, questão ilustrada pelo primeiro encontro da analisanda com a sua analista. A jovem analisanda se coloca sentada de frente para a analista e se mantém calada por algum tempo. Essa cena apresenta a jovem tímida e aparentemente desconfortável por estar em um consultório na presença de uma mulher arrumada sem véu e com ar europeu. A analista se mantém impávida em silêncio, aguardando a primeira manifestação da jovem. Após quase vinte minutos, a analisanda resolve falar: “Tenho que fazer alguma coisa?” (8 em Istambul, 2020).

Evidentemente, a sessão teve início não nesse momento, mas no instante em que a jovem de religião muçulmana adentrou o consultório. Isso chama atenção para o modo como a analista maneja a primeira sessão: prefere deixar que analisanda inicie a conversa apontando a demanda e explicando a razão da sua procura pela terapia.

Apenas após o rompimento do silêncio por parte da analisanda, tem-se o desenrolar de uma conversa truncada sobre ônibus, horário da sessão, dificuldade de ir para casa, trabalho, desmaios, família, café e hodja. Essa cena destaca a angústia da analisanda com o horário da sessão, pois ainda teria que buscar sua sobrinha na escola e fazer o percurso de volta para casa, que ficava em região rural. Apesar desse foco, a analista, em sua busca do sentido e da interpretação, pressupõe um movimento de resistência da analisanda para não abordar o motivo da ida até o consultório.

Em 8 em Istambul (2020):

Analista: Ainda temos meia hora até o fim da sessão. Se quiser, podemos conversar um pouco.

Analisanda: Sobre o quê? Analista: Sobre qualquer coisa que você queira falar.

Analisanda: Tem a Nuray do PS, na policlínica. Ela me viu, doutora. Ela disse que meus exames estavam bons e que me mandaria para cá. Foi ela que me mandou para você e por isso que eu...

Analista: Meryem, bonito nome. Analisanda: A mãe de Jesus, que a paz esteja convosco. Significa “verdadeiro crente”. Analisanda: É claro. Na pior das hipóteses, posso pegar uma van na rua de baixo.

A analisanda, então, faz um corte no fluxo da narrativa, buscando retornar a sua preocupação inicial para o horário do ônibus, a busca da sobrinha e a volta para casa. Porém, em nenhum momento, a analista se ateve à preocupação da analisanda com o horário. Não perguntou se ela morava longe e quais eram as dificuldades.

Sobre isso, retoma-se Ferenczi para pensar o manejo aqui executado. O autor indicava que, mesmo achando que o atuar do analisando apontava como um movimento de resistência, o analista deveria agir como um “joão-teimoso” [Watschermann], em quem “o paciente exercita seus afetos de desprazer” (Ferenczi, 1927-1928/2021, p. 35). Além disso, caberia ao analista perceber que o “momento do silêncio é uma tortura inútil para o paciente” (Ferenczi, 1927-1928/2021, p. 35).

Assim, na atuação no setting e na sua busca de sentido e interpretação, a analista se volta para dois pontos na fala da jovem importantes para o diagnóstico. Primeiro, a presença de um hodja na comunidade da paciente; segundo, o trabalho da paciente na casa de um homem rico e solteiro. Os dois pontos em questão fazem com que a analista interprete sua futura analisanda a partir da submissão aos preceitos religiosos e à fantasia do casamento com o seu patrão. A partir desse ponto, a jovem analisanda, até então tímida, se volta para a futura analista e a censura sobre a insinuação de um possível “assunto” com o seu patrão. E mesmo tentando contornar o clima tenso, responde de forma incisiva às presunções aventadas, rompendo com a sessão.

Em 8 em Istambul (2020):

Analisanda: Não. Não tem assunto nenhum... você me entendeu mal. Quando você tomou o café eu lembrei e comentei. Não há nada para falar com hodja. Você me entendeu mal. Analista: Você conhece bem o Sr. Sinan, Meryem?

Analisanda: Claro que o conheço. Arrumo a cama dele. Passo as calças, as camisas dele... Desculpe, mas até lavo as cuecas dele. [...] Eu só fiz o primário. Sou ignorante. Viemos de uma área rural, não nos encaixamos aqui. Mas você é estudada e experiente. Eu sei o que contar e o que não contar ao hodja. Não se preocupe. Só porque mencionei o Sr. Sinan, você continuou perguntando, me deixou desconfortável. Eu disse que estou atrasada. Vou pegar a menina. Não fique perguntando a mesma coisa. Você fica insistindo no mesmo assunto. Eu vim aqui para melhorar, não fofocar.

A resposta final da analisanda, “vim aqui para melhorar, não para fofocar”, retoma Ferenczi em cena. O psicanalista afirma que “os pacientes percebem com muita sutiliza os desejos, as tendências, os humores, as simpatias e antipatias do analista, mesmo quando este está inteiramente inconsciente disso” (Ferenczi, 1932/2021, p. 113). Além disso, a resposta da analisanda produz um mal-estar, levando ao encerramento abrupto da sessão. Esse malestar é o tema da sessão de supervisão já visto alhures. Entretanto, apesar dele, a analista mantém a sua posição de saber/poder, buscando interpretar e diagnosticar o que ocorrera naquela sessão, como demonstra a seguinte fala de 8 em Istambul (2020):

Analista: Depois ela começou a falar aos poucos. Ela falou do cara. Ela vai à casa dele. Ela vai lá limpar. E esse é o problema. O que quer que ela faça, ela está apaixonada por ele. Conversão histriônica. Um caso típico.4 Ela desvia do tópico na hora. Ela evita qualquer pergunta sobre ele.

Já caminhando para o fim do artigo e buscando entender o afeto que levou a analista a um mal-estar após o desfecho da sessão, em sua supervisão, a sua supervisora pergunta o que a deixou perturbada. A resposta se refere à presença do hodja, da obediência que a jovem tinha ao guia espiritual muçulmano em sua comunidade.

Em 8 em Istambul (2020):

Analista: Acho que a parte sobre o hodja. Ela disse que ia embora e ia perguntar ao hojda. Incrível. O que vamos fazer? Ela é muito esperta. E fica falando de coisas insignificantes. Ela é muito bonita, jovem, com o rosto perfeito. Mas eu... Não posso. Eu não posso. Quero dizer... Eu a escuto. Mas dentro de mim, há algo do que não posso me libertar.

Supervisora: Algo? Analista: Raiva.

Supervisora: Você mencionou poder. Fiquei interessada. Você disse que eles eram poderosos. Que poder eles têm? Em que você pensa quando diz isso? Vamos explorar isso um pouco? Analista: Não vamos. É obvio. Estou experimentando contratransferência com ela. Talvez seja melhor parar de atendê-la. Ela não vai voltar mesmo.

Supervisora: Parece que não.

Analista: Ela pode ir falar com o hodja.

À guisa de conclusão

A irredutibilidade nas respostas da analista frente a sua supervisora leva a pensar sobre as dificuldades presentes no encontro entre histórias psíquicas dos membros do par analítico, analista e analisanda, e aqui também analista e supervisora. Podem comprometer deveras a continuidade de uma relação clínica psicanalítica, principalmente quando se estabelece uma relação desprovida dos dispositivos afetivos de “estar com”, do “tato”, que Ferenczi julga importantes para o desenvolvimento da relação analítica. Na série, a trama acaba por proporcionar outro desfecho para a analista e a analisanda: a relação é retomada, e os afetos, reconstituídos. O mesmo já não ocorre com analista e supervisora, mas não caberia espaço neste artigo para tratar desse ponto.

Para finalizar, retoma-se a premissa inicial deste artigo: as relações estabelecidas entre sujeitos tanto na vida ordinária e cotidiana, quanto nas que se inscrevem no par analítico, analista-analisando, são mediadas e atravessadas, cada vez mais, por processos culturais, sociais, políticos e econômicos, provocando, nos sujeitos, mesmo que inconscientemente, atos e concepções morais, racistas, preconceituosas, discriminatórias em relação ao outro.

Evidentemente, não se pretendeu, com este trabalho, reduzir as relações intersubjetivas, em especial, as relações ocorridas no setting analítico a partir da série BirBaskadir. Buscou-se apenas tratar, de forma ainda que epiderme, das nuances de questões culturais e de formas de pensamento que acabam por estruturar modos de ver e agir nas construções subjetivas e nas relações intersubjetivas, destacando, de modo propositivo, o pensar psicanalítico como instrumento de compreensão de questões pungentes na contemporaneidade. ϕ

1A partir de agora, serão utilizados os termos “analista”, “analisanda” e supervisora” a fim de evitar a confusão entre os nomes das personagens.

2Grifo nosso.

3Hodja é o nome utilizado para designar o guia espiritual, o ancião da comunidade, uma espécie de sacerdote de uma determinada comunidade ou aldeia muçulmana.

4Grifo nosso.

Referências

.8 EM ISTAMBUL. Criação: Berkun Oya; Ali Farkhonde. Turquia: Netflix, 2020. Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/81106900. Acesso em: 25 jul. 2024. [ Links ]

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SPIVAK, G. C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010. [ Links ]

Recebido: 29 de Julho de 2024; Aceito: 07 de Outubro de 2024

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