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versão impressa ISSN 0102-7395

Reverso vol.46 no.88 Belo Horizonte dez. 2024  Epub 19-Maio-2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v46n88.06 

TEORIA E CLÍNICA PSICANALÍTICAS

A pulsão de morte entre contingência e repetição1

THE DEATH DRIVE BETWEEN CONTINGENCY AND REPETITION

Bernardo Sollar Godoi1 

Psicólogo.

Psicanalista.

Mestre em Ciência da Religião pela UFJF. Doutor em Psicologia pela UFMG.

1UFMG


Resumo

Dificilmente se pode negar a íntima associação entre pulsão de morte e compulsão à repetição. Entretanto, isso não ocorre com um caráter acidental vinculado a tais conceitos, presente na argumentação de Freud em Além do princípio de prazer. Proponho neste artigo, resgatar a importância do caráter acidental para abordar a pulsão de morte. Porém, devido à vagueza com que a dimensão do acidente é tratada no ensaio freudiano, exploro-a por meio do conceito de contingência. Assim, sugiro que o conceito de pulsão de morte deve ser pensado na sua relação entre contingência e repetição.

Palavras-chave: Acidente; Contingência; Pulsão de morte; Repetição

Abstract

It is difficult to deny the close association between the death drive and the repetition compulsion. However, this does not seem to apply to the accidental nature linked to these concepts, as presented in Freud’s Beyond the Pleasure Principle. This text aims to recover the importance of this accidental nature in addressing the death drive. Yet, due to the vagueness with which the dimension of accident is treated in the essay, I explore it through the concept of contingency. Thus, I suggest that the concept of the death drive should be considered in its relation to both contingency and repetition.

Keywords: Accident; Contingency; Death Drive; Repetition

A introdução do conceito de pulsão de morte por Freud em 1920 é sinal de uma dupla perturbação: a primeira, uma perturbação teórica, que exige uma profunda reformulação da teoria pulsional e do princípio organizador do aparelho psíquico; a segunda, uma perturbação do ponto de vista subjetivo, isto é, uma desestabilização da homeostase psíquica.1

Não é inverossímil afirmar que ambas as perturbações ligadas à pulsão de morte estão fundamentalmente associadas à compulsão à repetição, que age de forma independente das experiências de prazer.2 A compulsão à repetição carrega uma função contraintuitiva: é definida por uma tendência regressiva de retornar a um estado anterior gerador de tensão, mas com a meta, geralmente fracassada, de se livrar das excitações angustiantes. Contudo, a origem de uma repetição coercitiva, na argumentação de Freud (1920/2020) em Além do princípio de prazer, é, no mínimo, obscura. Após o início do texto, em que relata a insuficiência do princípio de prazer, o autor lança mão de material empírico para introduzir seu além do princípio de prazer.

Inicialmente, Freud aborda (i) os casos de ex-combatentes de guerra com neurose traumática, que possuiriam dois componentes centrais: o trauma enquanto um “fator surpresa, do terror” (Freud, 1920/2020, p. 71, grifo nosso) - ou seja, um estado de perigo sem que se esteja preparado para ele - no contexto da experiência bélica; e o ferimento, que, curiosamente, age de maneira contrária à neurose. O que chama a atenção de Freud é a fixação da vivência traumática e a coercitiva recondução do sujeito à situação do “acidente”, não no estado de vigília, mas na vida onírica - o que contradiz fortemente a hipótese de que o sonho seria resultado da realização (disfarçada) de desejos.

Em seguida, ao tentar encontrar uma experiência de repetição coercitiva similar, mas recorrente na vida psíquica não patológica, Freud relata (ii) a brincadeira do Fort-Da, elaborada por seu neto na tenra infância. A brincadeira é desenvolvida após as saídas da mãe. Como não era indiferente à sua partida, a criança, em um primeiro momento, desconta sua frustração em seus brinquedos, lançando-os para longe, com raiva. Posteriormente, a criança encontra um carretel que permite encenar tanto o afastamento quanto o retorno, ao lançá-lo e puxá-lo de volta. De maneira concomitante, ela passa a emitir sons ainda pouco articulados para as palavras Fort-Da, que indicam o desaparecimento e o aparecimento do objeto. Essa brincadeira é interpretada por Freud como a apropriação ativa de uma experiência passiva que aconteceu de maneira não intencional e externa à criança.

Em síntese,

[...] vemos que as crianças repetem na brincadeira tudo aquilo que lhes causou forte impressão em sua vida, que ao fazê-lo ab-reagem à intensidade da impressão e tornam-se, por assim dizer, senhoras da situação (Freud, 1920/2020, p. 83, grifo nosso).

Aparentemente, o impulso imediato de uma “forte impressão” acarretada por um acontecimento é o de repetir a vivência, mas, agora, de modo que o próprio sujeito ativamente a mobilize.

Por fim, Freud (1920/2020) descreve (iii) as compulsões à repetição na experiência analítica; repetições que resistem às intervenções clínicas, mesmo provocando desprazer ao Eu. São experiências que escancaram ao sujeito seus próprios limites e fracassos, capazes de provocar um sofrimento persistente e que, mais tarde, em análise, são suscitadas por meio da associação e da transferência. Não raro essa persistência é assimilada à figura do destino. A dor das experiências passadas se torna um signo de uma profecia.

As repetições que se impõem a esses sujeitos aparecem curiosamente associadas a um caráter acidental e doloroso. A princípio, elas não são esperadas (até mesmo os limites com que o sujeito se defronta acontecem de maneira inesperada, uma vez que não são dados desde o início). Entre as três situações, a primeira é a que soa mais representativa dessa dinâmica. Embora seja a única que não pareça mesclada com potenciais experiências prazerosas (afinal, a brincadeira serve como alívio da excitação, e as compulsões à repetição em análise encontram suas satisfações acessórias), Freud não descarta que todas tenham surgido de maneira acidental, ou seja, por acidentes dolorosos que se instalam a partir de um além do princípio de prazer.

As páginas seguintes do ensaio (Freud, 1920/2020. p. 99-125) são dedicadas à metapsicologia dos movimentos da excitação no aparelho psíquico, com a intenção de elaborar o que acontece com os caminhos da pulsão nessas situações. Freud (1920/2020, p. 105) apoia-se na hipótese biológica da “vesícula indiferenciada de substância estimulável” para especular sobre o que ocorre com o impacto de uma quantidade de excitação (uma “forte impressão”, como menciona nos exemplos) capaz de fissurar a proteção do aparelho psíquico. Ele argumenta que, após essa ruptura, o princípio de prazer é inativado; isso mobiliza outra atividade de defesa, além do princípio de prazer (portanto, além do mecanismo de formação de compromisso para descarregar a excitação). Ocorre não um movimento de descarga, mas de dominação dos estímulos invasores. O foco está no efeito de ruptura da camada protetora contra estímulos. A ilustração mais representativa está nos sonhos dos neuróticos de guerra. A reação de reencenar a situação do acidente passa a ser vista por Freud como independente do princípio de prazer e mais primitiva do que o propósito de ganho de prazer e evitação de desprazer.

Observemos que a noção de acidente é importante para a argumentação de Freud. Por mais que, ao escutarmos a história de vida de um sujeito, identifiquemos que não é qualquer acidente que o faz sofrer, mas sim acidentes que, no interior de sua aparente aleatoriedade, remetem a experiências dolorosas anteriores, Freud, ainda assim, reserva a importância de certo caráter acidental invasivo e doloroso, sem significação, tanto nos momentos iniciais da vida quanto em situações extremas, em que o princípio de prazer não consegue lidar com a realidade.

Estranhamente, poucos foram os trabalhos em que identifiquei a importância de considerar esse caráter acidental na literatura psicanalítica.3 Para começar a explorar esse caráter acidental, examinemos sua etimologia. A palavra “acidente” define uma ocorrência (i) fortuita, isto é, que poderia ser diferente do que foi, uma vez que não é essencial, (ii) não intencional, uma vez que acontece por acaso e que (iii) normalmente possui um efeito infeliz (Moniz, 2001, p. 17-18).

Sendo esse o caso, Freud se esforça para justificar a introdução do conceito de pulsão de morte, que surge a partir do capítulo V (Freud, 1920/2020, p. 125-149), com base na apresentação de repetições coercitivas que possuem uma misteriosa vinculação com ocorrências acidentais traumáticas. Temos, assim, a seguinte disposição preliminar. De um lado, os acidentes são definidos pelo efeito de ruptura da proteção do aparelho psíquico em determinado sujeito. Ou seja, o acidente é irruptivo por ser, primariamente, inassimilável e, por consequência, traumático para o sujeito. Isso requer do aparelho psíquico um tempo, variável em cada situação e constituição psíquica, para que o acidente seja integrado às simbolizações do sujeito - o que, em alguns casos, pode nunca acontecer. De outro lado, uma compulsão à repetição, mobilizada pelo contrainvestimento reativo ao acidente, age de maneira independente das sensações potenciais de prazer. Em vez disso, essa repetição coercitiva mobiliza um excesso excitatório no aparelho psíquico, que pode nunca chegar ao termo. Isso parece impelir o sujeito a repetir, de maneira particular e por tempo indefinido, o acidente inassimilável, na tentativa, às vezes vã, de eliminar a tensão.

Contudo, a palavra “acidente” aparece de maneira vaga no texto freudiano. Para contornar a potencial vagueza desse termo, proponho utilizar o conceito de “contingência” como um modo de abordar esse caráter acidental. Entretanto, preciso ainda apresentar a definição que utilizo e em que sentido o uso desse conceito nos permite iluminar o problema clínico da compulsão à repetição.

Contingência

Há não muito tempo, a discussão acerca da contingência, mais especificamente sobre a necessidade ou a contingência das leis da natureza, foi reacendida no debate contemporâneo pelo filósofo francês Quentin Meillassoux, com a publicação do livro Après la finitude: essai sur la nécessité de la contingence, em 2006. Embora eu não aborde a maneira como ele desenvolve o problema da indução, as definições que o autor propõe para os termos “acaso” e “contingência” são úteis para reexaminar a noção de acidente aqui em andamento.

Ao recorrer à etimologia, Meillassoux (2006, p. 149) identifica nos vocábulos “acaso” [hasard] e “aleatoriedade” a referência a “dados”, “lance de dados”, “jogo de dados”. Nesse sentido, quando se fala em acaso, refere-se à aparente gratuidade do jogo e ao cálculo frio das frequências de resultados (como é o caso de um lance de dados). O acaso, então, é válido sob a condição de que o possível a priori seja pensável em termos de totalidade numérica. Em outras palavras, submete-se o pensável a uma hipótese matemática e assume-se um conjunto de mundos possíveis porque isso é considerado a priori legítimo para pensar o possível como um Todo.

No entanto, o que Meillassoux (2006) sublinha é que, desde Cantor, não há fundamento matemático que sustente o pensável como necessariamente totalizável. O número transfinito, que nos permite pensar a pluralidade de quantidades infinitas, impossibilita conceber um conjunto T de todas as quantidades infinitas. O autor traduz essa impossibilidade com a seguinte sentença: “o Todo [quantificável] do pensável é impensável” (Meillassoux, 2006, p. 144, tradução e grifos nossos).4

Esse é o fundamento para conceber o possível como não totalizável. É nesses termos que Meillassoux define a contingência: a contingência é a possibilidade infinita de uma coisa ser diferente do que é, sem razão de ser. Além disso, o vocábulo “contingência” remete ao latim contingere, que significa “chegar”, “acontecer”. Dessa forma, mais do que o acaso, que permanece no campo das probabilidades potenciais, a contingência abarca o que, de fato, acontece (Meillassoux, 2006, p. 149). Mas não apenas isso: a contingência é um acontecimento irredutível a toda possibilidade pré-registrada do acaso, ou seja, irredutível a um conjunto pensável de possíveis (Meillassoux, 2007).

Mais do que o acaso, portanto, “contingência” compartilha com “acidente” a qualidade de ser um acontecimento absolutamente indeterminável, por não se submeter à totalidade do pensável. Além disso, a contingência tem a vantagem de iluminar teoricamente temas que parecem implícitos ao tratar do caráter acidental das coisas, como causalidade, determinismo e probabilidade. Esses temas não estão distantes dos conceitos de pulsão de morte e compulsão à repetição. Pelo contrário! Por exemplo, identificar a presença de uma compulsão à repetição implica fazer considerações sobre um tipo de determinismo. Basta lembrar o vínculo que Freud estabelece entre compulsão à repetição e destino.

Compulsão à repetição e destino

A compulsão à repetição é distinta dos caminhos preferenciais que a pulsão percorre para se satisfazer. Ela possui um caráter muito mais coercitivo. Quando Freud vincula a compulsão à repetição à figura do Daimon em Além do princípio de prazer (Freud, 1920/2020, p. 95), ele a associa a uma ordem predeterminada sobre o rumo que a vida de um sujeito tomará. No entanto, evidentemente, não se trata de um destino concebido por uma entidade externa e superior. Trata-se, antes, das marcas do próprio passado que, no presente, servem como perspectiva para o futuro. Assim, o traço “daimoníaco” aparece sob a forma de ocorrências fortuitas, acidentais e contingentes, que logo se transformam em signos de um destino perseguidor.5

No último capítulo de Psicopatologia da vida cotidiana, Freud (1901/2023) aborda como as ocorrências psíquicas fortuitas não são exatamente produtos do acaso. Ao tentar mencionar um nome ou número “por acaso”, por exemplo, o autor argumenta que o trabalho de associação acaba por fagocitar o sem sentido inicial do acaso, vinculando-o a algum aspecto da história do sujeito, conferindo-lhe um sentido a posteriori. Tudo indica que as significações surgem como tentativas de “capturar” o acaso, tomando como referência à história do sujeito, por meio da rememoração. Há um movimento de retraçar as pistas que levaram a esse destino. Aquilo que seria arbitrário adquire um sentido por associação, repelindo a impressão de acaso. Dessa forma, uma ação aparentemente randômica nunca seria verdadeiramente randômica; a rememoração entra em jogo para capturar o acaso em sua rede. Mas não se trata de uma rede qualquer, e sim de uma rede bastante peculiar.

Quando falamos em associação livre, do que estamos falando? Lacan afirma que, ao convidarmos alguém a associar livremente, tentamos obter do sujeito seus pensamentos sem intenção, que fale o mais próximo possível do acaso (Lacan, 1954-1955/2010, p. 398). Mas, paradoxalmente, quando um sujeito se aproxima de uma fala dita ao acaso, ele nos revela, na verdade, as leis que determinam seu pensamento, isto é, a maneira específica como combina elementos significantes.

O mais curioso na associação livre é que ela revela a falta de liberdade que rege o sujeito. Quando sugerimos que o sujeito fale o que lhe ocorrer, o que ele mais faz? Apesar da abertura à contingência que fornecemos, a repetição se impõe de maneira aparentemente irremediável. Em outras palavras, o sujeito exibe sua maneira de instituir regras, formar seus sintomas e transformar o fortuito em lei, em suma, transformar as contingências em necessidades.

Pulsão de morte entre contingência e repetição

Quando Freud (1915/2019) define a pulsão em As pulsões e seus destinos, encontramos, no corpus teórico da psicanálise, um conceito que abriga, em seu interior, uma indeterminação no sujeito em relação à própria satisfação. O objeto no qual a pulsão se apoia para se satisfazer é absolutamente contingente.

Se um sujeito sente prazer por meio de um objeto e não por meio de outro, isso é contingente. Da mesma maneira, se sofre por meio de um objeto e não por meio de outro, isso também é contingente. Portanto, a forma de satisfação não pode ser definida a priori. O problema potencial surge quando o contingente adquire o estatuto de necessidade.

O que nos guia é justamente a reação do analisante à liberdade que lhe damos no nível da fala. Aos poucos, ele nos mostra como simboliza as contingências. Em outras palavras, a compulsão à repetição desempenha um papel central na condução de um caso. No entanto, quando um sujeito narra sua história, ele parece atribuir um certo caráter de necessidade à montagem enunciativa que apresenta. Dito de outro modo, ele insere uma razão de ser, implícita no tempo do a posteriori, que estabelece o fundamento para tornar necessárias as ligações entre contingências.

Contudo, seria a compulsão à repetição ou tais combinações realmente necessárias? A princípio, nada nos garante que algo que ocorreu vá se repetir ou não. Se algo se repente, nada garante que isso vá repetir no futuro. Talvez possamos considerar que a compulsão à repetição seja uma impressão subjetiva de necessidade; uma impressão de necessidade que se impõe ao sujeito na interpretação das contingências que lhe ocorrem. A compulsão à repetição fagocita a contingência enquanto contingência.

Reservamo-nos a prudência de atribuir a necessidade à compulsão à repetição, pois a estabilidade de fenômenos particulares não resulta necessariamente em sua necessidade. Não estou dizendo, com isso, que não possa haver estabilidade repetitiva na pulsão. Apenas estou apontando a iminente dificuldade em induzir a necessidade a partir dessa estabilidade.

Se há alguma passagem da contingência para a necessidade na compulsão à repetição, isso só pode ocorrer pela forma mítica do destino. O destino é a transformação da contingência em necessidade. Ele é a compulsão a repetir a história no futuro. O destino é a história do futuro, o mito subjetivo e individual do futuro. É a própria estrutura do a posteriori: o arranjo e o rearranjo no presente das contingências passadas em razão da suposta necessidade do porvir.

Lembremos que as noções de “surpresa”, “forte impressão” e “acidente” são vagas e usadas por Freud (1920/2020) em Além do princípio de prazer, para abordar o que extrapola o limiar da proteção psíquica e o que está fora da camada protetora. Essa ultrapassagem da barreira reserva algo incalculável para o sujeito. Em vez de tratar com essas noções as intensas excitações, que alcançam o caráter traumático, proponho compreendê-las através do conceito de contingência, por dois motivos: esse conceito preserva o caráter acidental, porque pode ser diferente do que é, portanto não ter razão de ser; além disso, ela se refere a uma ocorrência que ultrapassa o conjunto de acontecimentos pensáveis como possíveis. A contingência perturbadora, capaz de romper com a homeostase funcional do vivente, é uma irrupção incalculável. Assim como a “vesícula indiferenciada de substância estimulável” (Freud, 1920/2020, p. 105), que reúne suas defesas para conter a fissura gerada pelo excesso de estímulo que ultrapassa sua camada protetora, o aparelho psíquico realiza um processo similar: a compulsão à repetição é a reação diante da contingência traumática; é a tentativa de conter a dispersão provocada pela contingência.

A compulsão à repetição absorve a contingência para que seja esquecida como tal. Essa operação de esquecimento dá a impressão de que a repetição é necessária. A contingência traumática é o aspecto materialista não transcrito pela realidade psíquica e que exige ser mantido fora das associações: é a materialidade do real de um trauma contingente.

A pulsão de morte amalgama contingência e repetição. Essa é sua contradição interna: a compulsão à repetição parece necessária, mas é o efeito de uma contingência. A contingência traumática, enquanto ocorrência temporal-diacrônica, pode até não ser identificável no relato da história, devido à tendência da compulsão à repetição e do a posteriori de construir e reconstruir a história, apagando a contingência como contingência. Entretanto, a contingência é para sempre lembrada por seu encobrimento repetitivo, em torno do qual o sujeito circula.

Novamente, isso não exclui a possibilidade de que algumas repetições, que se impõem como obrigatórias para um sujeito, ou seja, como necessárias, sejam a razão de acentuado sofrimento. Com efeito, precisamos considerar que a meta de uma análise envolve certa degradação do caráter necessário das compulsões à repetição, de forma a exibir seu aspecto contingente. É acidental que as coisas tenham ocorrido assim, e não de outra forma: acidentes entrelaçados em um amontoado de outros acidentes, mas cujo caráter acidental é esvanecido pela compulsão à repetição e pelo sentido que a acompanha. O destino devora a contingência.

O resgate do fôlego especulativo freudiano em Além do princípio de prazer nos legou uma tentativa de mostrar como o sujeito transforma o que lhe acontece, às vezes de forma indiferente e mesmo independente, naquilo que mais lhe diz respeito. Dessa maneira, ambos se tornam indiscerníveis. A contingência é fugaz e vagamente percebida por seu acontecimento, mas sentida por seus efeitos. Por sua vez, a compulsão à repetição é acionada no esforço de abolir tais efeitos e de fazer esquecer que uma contingência operou ali, tornando-a parte supostamente necessária do sujeito.

Talvez seja importante reforçar que, ao refletir sobre a contingência associada à pulsão, não defendo a erradicação do sentido ou da razão dos acontecimentos para expor ao sujeito a natureza fortuita de todas as coisas. O que essa proposta mostra é a possibilidade de reconhecer a contingência onde antes havia somente necessidade. E, de maneira semelhante à poetisa polonesa Wisława Szymborska (2011, p. 50), que inicia o poema Sob uma estrela pequenina com o verso “Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade”, poderíamos dizer: “Me desculpe a contingência por chamá-la necessidade”.ϕ

1Este texto sintetiza algumas das principais questões discutidas pormenorizadamente na minha tese de doutorado (Godoi, 2024).

2Para uma detalhada discussão acerca da maneira como a pulsão de morte está intimamente associada à compulsão à repetição e como isso indica um retorno às hipóteses acerca da vivência de dor, presentes em Projeto de uma psicologia, ver Caropreso e Simanke (2011a, 2011b).

3Para mais detalhes sobre a literatura consultada, ver o primeiro capítulo da minha tese de doutorado (Godoi, 2024).

4le Tout (quantifiable) du pensable est impensable”.

5 Para mais detalhes, ver Iannini e Tavares (2020).

Referências

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Recebido: 12 de Setembro de 2024; Aceito: 07 de Outubro de 2024

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