1. Introdução
O foco do nosso tema aqui é o que acontece no nível da estrutura psíquica quando falamos de gozo. Assim, pretendo fazer uma breve visada de helicóptero pelos conceitos que se entrelaçam no campo das pulsões.
O gozo uma noção raramente encontrada em Freud e usada por ele num sentido mais coloquial. Lacan elevou o gozo ao estatuto de conceito e, com isso, lhe deu um lugar específico na economia psíquica.1
O conceito de gozo está ligado a uma intrincada relação entre três outros conceitos: real, repetição e pulsão. Os três conceitos habitam o mesmo campo, como já foi dito - o das pulsões. Quando digo pulsão, estou me referindo à pulsão de morte, única pulsão considerada por Lacan, que não reconhece a dualidade pulsão de vida/pulsão de morte. Para Lacan, só existe uma pulsão: a de morte, que se define como pura dispersão. Por isso mesmo, ele ofereceu um outro nome à pulsão de morte para evitar alguns equívocos que o termo “morte” evoca. Lacan propõe um outro nome para a pulsão de morte: deriva - aquilo que permanece à deriva ou disperso.
Entretanto, parece que esse nome não pegou muito. O termo “deriva” lhe parece mais apropriado porque distingue o instinto de morte da pulsão de morte. Enquanto o instinto se aplica à repetição de um ciclo de vida, o ciclo das necessidades, das satisfações e acarreta a desaparição da vida como tal, que é o retorno ao inanimado, a pulsão, por se situar entre o somático e o psíquico, puxa para o campo do Outro da linguagem e da cultura com todos os seus instrumentos para preservar ou destruir a vida. Portanto, na pulsão, há intervenção de um sujeito.
Ficar à mercê da pulsão de morte é se perder sem encontrar em si um ponto de ancoragem. Por isso, a linguagem é nosso fio, tecido, corda, trama, enfim, é aquilo em que podemos nos agarrar para tecer a rede que dará consistência ao nosso ser de falta. Temos, então, o inconsciente estruturado como uma linguagem.
A linguagem é a condição do inconsciente e, para Lacan, o inconsciente não é as chamadas formações do inconsciente, mas aquilo que escapa à linguagem sem, no entanto, prescindir dela. Temos, então, uma dimensão do inconsciente como furo, buraco, vazio, mas que, como o próprio buraco negro do Universo, é habitado por uma infinidade de elementos indecifráveis, inaudíveis e inomináveis. Nós, analistas, somos formados para escutar a voz do inconsciente e não só as narrativas dos analisantes.
O que escapa à linguagem insistirá por meio da repetição, outro conceito fundamental que rouba a cena na clínica de hoje, que se detém não tanto mais nas interpretações e sim em contabilizar o que se mostra por meio da repetição. Embora carregue sempre os mesmos traços, a repetição não se restringe a esses traços, repetindo também a mesma falta, a mesma perda. Isso se contabiliza como zero e Um.
Quero destacar aqui o zero e o Um porque é o que se encontra no nível da estrutura como o irredutível do gozo e que, não por acaso, está presente na base dessas máquinas milagrosas que funcionam como extensão de nós mesmos.
Não vou me estender no funcionamento das máquinas desde as de calcular aos computadores etc. Lacan (1954-1955/1985) introduz essa questão a partir de um jogo bem simples - o do par ou ímpar, no seu Seminário 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise, onde ele mostra como essas máquinas estão inscritas no funcionamento de uma certa estratégia e destaca que não se trata de sorte, e sim de cálculo. Quando dizemos cálculo, estamos destacando também o jogo com o inconsciente, que se estabelece numa análise e que Lacan (1945/1998) trabalha no texto O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Trata-se de uma lógica que inclui a repetição. A repetição é o gozo, diz Lacan.
Volto para a estrutura psíquica. Falei do zero e do Um.
Freud se encarregou do Um, ou seja, de encontrar a marca fundadora ou o pai fundador, e chegou, depois de um longo caminho pelos mitos e pela história, ao traço unário - núcleo do ideal do Eu, que organiza não só os grupos humanos por meio da figura de um líder, como também a subjetividade de cada um de nós. Lacan avançou, se encarregando mais do zero. Entrou pelo campo da matemática e fez uso da álgebra incluindo a letra para calcular o valor de gozo. Com isso, formulou seu conceito de objeto a.
Desse casamento entre Freud e Lacan produziu-se a base da estrutura psíquica: Um e o a, ou seja, traço unário e objeto a. Esses dois elementos irredutíveis constituem o que podemos chamar de suporte, de base que sustenta o edifício da psicanálise, frase que remete ao recalque. É isso mesmo: o recalque primário é um dos nomes dessa base de sustentação. Por isso, ele nunca será sabido e só temos acesso a ele por meio de representações.
Quando falamos do gozo, estamos abordando algo do indizível que se origina no corpo, que resiste e insiste em toda estruturação psíquica que advém da entrada do sujeito no campo da linguagem. Ao nos inserirmos na linguagem, algo do corpo não se escreve e permanece como um resto que irá insistir e se repetir infinitamente não parando de não se escrever. Isso que não se escreve é a própria definição do real em Lacan. É também um resto de corpo que escapou ao imaginário do espelho e ao simbólico do campo do Outro da linguagem. Portanto, objeto a é o que podemos dizer do que resta de corpo depois da inscrição simbólica.
A repetição é o gozo.
Se considerarmos o princípio do prazer como nada mais do que o princípio de menor tensão, da tensão mínima a se manter para que a vida subsista, admitimos que há algo que transborda e que o princípio do prazer vem exercer uma função de limite em relação ao gozo. Isso implica um sujeito dividido com relação ao seu gozo. Se ele sofre, é porque há divisão; se há conflito, é porque há divisão. O pior seria se ele não se dividisse com relação ao seu gozo. É sinal de que estaria totalmente a serviço desse gozo do Outro e em direção à destruição e à morte.
O trabalho analítico, usando uma expressão de Colette Soler (2019), opera “lavando o gozo com a água da linguagem”. Isso implica uma perda de gozo que vai sendo decantado até extrair o traço que mais nos aproxima da verdade: o traço unário. Isso pode ser realizado por um perito ou, como diz Lacan, por um analista que, como um caçador no deserto, vai colhendo os traços, as marcas e os rastros deixados pelo caminho.
A repetição de gozo deixa uma marca que será formulada como traço unário, que é a forma mais simples do que será a origem do significante. Lacan ressalta que é no traço unário que tem origem tudo o que nos interessa como saber, que funciona como filtros com os quais nós nos viramos para estabelecer nossos laços com o mundo externo.
O traço unário é algo daquilo que escapa, que consegue se articular como significante representando o sujeito para outro significante. Portanto, quando se começa a falar do gozo numa análise, o traço unário se inscreve no significante S1 (puro sem sentido) e precisará de um S2 para lhe dar sentido. Porém, o S2 não responderá totalmente e deixará uma sobra, um resto: objeto a que cairá; daí decorre uma perda de gozo.
Cada vez que o traço unário consegue se articular pelo significante, há uma perda de gozo, em termos de entropia - que é a referência que Lacan (1969-1970/1992) utiliza no seu Seminário 17: O avesso da psicanálise - tomada da termodinâmica. A perda de calor transforma o estado líquido em gasoso. Essa questão vai ser trabalhada por Lacan (1971/2003) em Lituraterra, quando ele fala de sua viagem ao Japão, e lá de cima, ao sobrevoar a Sibéria, vê os sulcos na terra causados pelas águas das chuvas que caem e formam trilhas.
Lacan trabalha isso também em termos de contabilidade, como já foi dito, já que falamos de repetição de um mesmo traço, estamos no campo dos números. O corpo é marcado, flagelado pelo significante. Assim se dá a via de entrada do gozo do Outro no corpo, conforme a leitura que Lacan faz do texto de Freud.
Se há perda de gozo com a inscrição significante, há um trabalho para se recuperar o gozo, daí a noção de mais-de-gozar. Esse mais-de-gozar, que aparece no discurso do mestre, no lugar da produção, pode levar o sujeito tanto ao fanatismo religioso, político quanto à apatia hedonista. Dimensão do gozo tão ambígua, na medida em que inclui uma positividade do UM do traço e uma negatividade da perda que se escreve como letra (a) e não como número. Embora se possa dizer que o a como letra de gozo, corresponde ao que se diz popularmente de “o número do sujeito no palco da vida”, cada um é causado por uma letra de gozo.
Assim começa o trabalho analítico, com um saber (S2) dando um sentido ao S1, que, por sua vez, porta um sentido obscuro de um traço que toca a verdade do sujeito. Uma verdade não-toda, a qual só se pode semidizer. É interessante pensar que a questão da verdade, para Lacan, diz respeito ao gozo de cada um. Como cada um goza. Chegar a esse saber sobre o gozo é abrir as portas para o desejo indestrutível de que Freud fala no final de sua Traumdeutung: o que é esse desejo que não muda? O desejo carrega em sua estrutura o vazio da perda de objeto e o traço do mesmo.
Tal como em A interpretação dos sonhos, o trabalho analítico vai lavar ou decantar o gozo. Assim como nos sonhos, chega-se também ao umbigo do sonho, a um ponto de insabido, que será justamente aquilo que nos move, que nos impõe um saber fazer com isso. Tomando o termo “isso” no sentido do reservatório pulsional.
Lavar o gozo com a água da linguagem indica que a sujeira vai embora, ou seja, que há perda de gozo e é isso que Lacan chamou de mais-de-gozar. Freud já simpatizava com a termodinâmica e Lacan resgata esse termo mais elegante que sujeira, que é o termo “entropia”.
Podemos imaginar que esqueci uma água fervendo na panela e, quando me lembro, ela já se transformou em vapor, e a panela está vazia. Assim também, o vapor que decorre do calor, se transforma em nuvens e adquire formas diversas, vai se acumular no céu e cair como chuva.
No trabalho analítico, o S2 que cai da fala do analisante na associação livre, ou seja, o sentido que ele deu a si mesmo e às suas coisas, que dão peso ou consistência ao seu ser, também vai caindo como as formas que as nuvens tomam. O peso que as nuvens carregam pode se acumular de tal forma que elas cairão como chuva produzindo sulcos na terra. O ciclo se repete, mas vai deixando seus rastros para quem se proponha segui-los. Essa metáfora foi usada de outra maneira por Lacan (1970-1971/2009) no seu Seminário 18: De um discurso que não fosse do semblante. Não podemos deixar de pensar novamente na formação dos sonhos.
Tudo isso para entendermos um pouco sobre o estatuto da verdade para a psicanálise: ela toma forma pela linguagem e, por vezes, é confundida com as proposições nas quais se inscrevem. Por isso, a lógica proposicional lhe acrescenta uma letra, designando-a como F ou V (falsa ou verdadeira). Considerar a verdade unicamente por esse viés nos leva ao risco de nos confundirmos e nos havermos o tempo todo com a necessidade de julgar, por exemplo, as fake news, ou seja, distinguir as proposições falsas das verdadeiras.
A própria descoberta do inconsciente revelou a “mentira verídica” ou a “verdade mentirosa” que habita as palavras. Foi preciso decantar as palavras para extrair o grão do ser de cada um. Porém, como podemos ser senão por meio dos ditos? Talvez por isso, Lacan tenha se ocupado em buscar não a existência do ser, pois toda existência é fálica, mas a sua ex-sistência. Talvez por isso ainda, Lacan foi dando ao seu ensino a direção do real, buscando outro ponto de ancoragem que não fosse unicamente na linguagem, mas além dela. No Seminário 7: A ética da psicanálise, ele já vinha apontando essa direção ao retomar o conceito freudiano de Das Ding.
Lacan destaca a intuição genial de Freud ao formular o conceito de Das Ding como um Outro Primordial, impossível de ser simbolizado e que persiste como a Coisa. É nesse lugar que Lacan situará o supereu como uma lei insensata que impõe objetos para que se goze e padeça.
No Seminário 7, ele destaca várias barreiras que se impõem nesse caminho, como as dos bens, do belo e da própria Lei, seja ela a da pólis, seja a simbólica, que promovem uma contenção do gozo. No sistema simbólico, no entanto, esse gozo não é simbolizado: ele é real. Ele está além da linguagem, além do princípio do prazer e impõe outras formas de contenção que estão fora do aparelho significante. Daí o termo “manejo” em vez de interpretação. Repetindo, o gozo, para Lacan, não se restringe nem ao imaginário, nem ao simbólico; é da ordem do real. O real é o gozo.
Ainda no seminário da ética, Lacan nos mostra que o tratamento analítico, que parecia estruturado pelo simbólico, se depara com um imperativo de gozo atribuído ao supereu e que presentifica o peso do real. Depois de muitos rodeios, conclui que o sujeito nasce de uma relação indecidível com o gozo, por tê-lo recebido a partir de sua inscrição na ordem simbólica.
Nesse caminho em direção ao real, Lacan (1974-1975) começa a privilegiar a lógica matemática, para tocar o que há de mais real: a estrutura. E aí vem uma definição firme de Lacan: o real é a estrutura.
Com isso, Lacan institui outra lógica - a do não-todo, constituindo uma estrutura dividida para o sujeito da psicanálise. Tal divisão funciona como báscula e não pela lógica proposicional pela qual estaríamos condenados a distinguir o tempo todo o que é falso e o que é verdadeiro. O método freudiano se fundamenta em confiar no relato, mesmo diante da decepção de Freud ao constatar que não acreditava mais em sua neurótica.
Como Freud resolve esse impasse? Admitindo que a verdade virá pelo ato, além da linguagem, ao que ele chamou de ato dos Eu, seja como acting out, seja como passagem ao ato, seja como ato de sujeito. O gozo é o que cai, o que excede, o que transborda. Isso se faz por meio de atos. Considerando que a própria palavra tem valor de ato.
Freud (1950 [1895]/1996) em seu Projeto para uma psicologia científica, já havia abordado a questão do excedente de excitação não assimilado pelo aparelho psíquico. Alguns, como Freud e Marx, conseguem tocar a questão do gozo de uma forma tão irredutível que suas teorias persistem até hoje. Assim também, em dimensões mais modestas e subjetivas, cada um de nós precisa decantar a besteira para fazer surgir o traço de irrupção de gozo. Temos aí: repetição, irrupção de gozo, traço unário.
O gozo é tratado por Lacan (1970-1971/2009) como um conceito operatório mediante os discursos, por meio dos quais estabelecemos laços sociais, mesmo que prescinda da palavra. Lembremos que ele falou de um discurso sem palavras em Um discurso que não fosse do semblante.
Considerar o relato dos analisantes implica uma escuta do que escapa à própria linguagem à qual estamos submetidos. Afinal, é possível entender o sujeito não saber o que diz, pois o saber do inconsciente não calcula, não julga, não pensa; ele rola e enrola o sujeito. Mas a pergunta é: quem diz? A resposta a essa pergunta nos conduzirá ao sujeito do inconsciente, constituído a partir dos restos colhidos do que vai caindo do transbordamento de gozo.
Quando conseguimos nos comunicar, há gozo, mas nunca conseguiremos uma satisfação plena, daí a repetição, mais ainda. Freud (1930/1996) tratou disso em termos de O mal-estar na civilização. Lacan, como iremos abordar aqui, se propõe pensar como a sociedade contemporânea lida com o gozo. O gozo visa o reencontro de uma primeira satisfação, levando à repetição de uma falha, de uma perda de gozo.
Com a evolução do tratamento psicanalítico, cada vez mais nosso foco foi se dirigindo para aquilo que escapa. Daí Lacan (1969-1970/1992) construir no Seminário 17: O avesso da psicanálise, uma teoria dos discursos para destacar o discurso do analista como o único capaz de abordar aquilo que escapa do campo da linguagem articulada, que não se articula na cadeia de significantes. No discurso, um significante representa o sujeito para outro significante, mas entre um significante e outro, algo cai: o objeto a, o mais-de-gozar.
Desde o início, Lacan insinua que o avesso da psicanálise é o discurso do mestre, mas o mestre, dependendo da sua posição no discurso, pode ser o mestre sintoma, o mestre universitário ou o mestre capitalista. De qualquer forma, o mestre é aquele que se serve da linguagem para formular um saber sobre a verdade.
Ora, a psicanálise também se utiliza da linguagem, mas para tocar uma verdade que escapa. A isso que escapa, Lacan definiu como objeto a, na medida em que isso se apresenta como o mais opaco dos efeitos de discurso.
O que é rechaçado é a castração, ou seja, a constatação de que o gozo total é impossível. Ao formular um quinto discurso - o do capitalista, Lacan fala de um sujeito que não deixa cair o objeto, acreditando-se completo, na medida em que passa a comandar a própria extração do mais-de-gozar, de maneira a absorvê-la na economia de gozo. Esse objeto mais-de-gozar passa a ser manipulado atendendo aos interesses do mercado.
Observa-se uma mudança na subjetividade contemporânea. Evidentemente, isso não se dá de maneira uniforme, mas cada vez mais surgem sujeitos para os quais se mostra mais estreita a barreira que os separa de seu gozo.
Lacan (1974/2003), em Televisão, busca alternativas para se lidar com a impossibilidade de cifrar o gozo, por meio da busca por cada um, de um bem dizer de seu gozo. O bem dizer adquire um estatuto ético, na medida em que o sujeito possa se fazer contar como mais um na coletividade.
Como se faz isso? O discurso do analista oferece ao sujeito a possibilidade de se apropriar de sua letra de gozo e, assim, se fazer um, e não massa. O gozo de cada um é UNO.
Até determinado tempo da história, o discurso do mestre encarnava um saber que ditava como se comportar numa sociedade. Esses saberes iam se articulando. Algumas ideias caíam, outras continuavam, e outras iam surgindo ressignificando o passado e avançando para o futuro. Isso porque nunca o saber se fazia completo, e a busca por novas formas de viver prosseguia.
Num determinado momento histórico, surge outro mestre: o capitalista, que passa a manipular o mais-de-gozar das pessoas.
Vou fazer uma brevíssima visada do que vem a ser o gozo no capitalismo.
2. O discurso do capitalista
Como vimos na introdução, o conceito de objeto a é retomado como mais-de-gozar e articulado ao conceito de mais-valia em Marx, ou seja, o mais-de-gozar no discurso do mestre, corresponde à mais-valia na doutrina marxista.
O que vem a ser? É o trabalho a mais que o sujeito faz para o senhor. Ou seja, no caso do neurótico, é o trabalho a mais que ele faz para o senhor seu sintoma.
A produção do mais-de-gozar no mundo de hoje toma forma no discurso do capitalista. O discurso do capitalista é o quinto discurso introduzido por Lacan em sua conferência em Milão, em 1972. É importante destacar que ele não segue a mesma vetorização dos outros quatro discursos. Trata-se de uma distorção do discurso do mestre.
Discurso do capitalista
↓ $ ↖ ↗ S2 ↓
↓ S1 ↗ // ↖ a ↓
Os discursos são formas de bordejar o real dando voltas em torno do vazio - movimento da pulsão - estrutura de borda. Já o discurso do capitalista é uma forma de elidir a castração e tampar o buraco. No lugar do objeto a como mais de gozar estão os gadgets, ou seja, objetos que não têm tanta utilidade e que acabam se tornando objetos de necessidade das pessoas que os consomem como se não pudessem viver sem eles.
No discurso do capitalista, o S1, que é o significante puro sem sentido e que, por isso, precisa sempre de um outro significante que lhe dê sentido (S2), funciona pela seguinte lógica: não tem sentido mesmo. Então goze! Compre! Gaste!
O sem sentido acaba dando sentido. Como o sem sentido tem a ver com a verdade, a manipulação das massas vai exatamente pegar nisso. A estrutura desse discurso é a mesma do fetiche. Percebe-se a falta, mas se fixa num ponto qualquer ao seu redor para desmenti-la, elidindo a parte faltosa. Assim também, no discurso capitalista, se percebe a falta de sentido de tudo isso, mas se apega a pequenos objetos adjacentes.
No campo da moda, por exemplo, a perda do objeto que cai de moda, que perde sua roupagem, é logo substituída por outra nova moda antes mesmo de a anterior cair. A ênfase está não na queda, mas na moda do ano seguinte. As pessoas se consomem para consumir. É uma cultura do gozo.
Existem muitas perspectivas para se analisar os rumos que esse discurso tomou. Um deles considera que esse discurso tomou força depois da Reforma Protestante. Até então, a Igreja Católica pregava e defendia a pobreza como um valor (para as massas e não para o Vaticano). Quanto maior o sofrimento, maior a possibilidade de gozar do reino dos Céus.
Com a Reforma e o Calvinismo, a riqueza passa a ser um valor, e não mais um pecado. Não é à toa que os países protestantes se tornaram, em sua maioria, mais desenvolvidos que os católicos. O trabalho adquiriu um lugar paradoxal na economia, não só social como também psíquica, ou seja, um lugar ao mesmo tempo de libertação e alienação.
Não me esqueço da frase escrita na entrada do campo de concentração em Munique, Dachau, um dos mais cínicos exemplos da propaganda nazista: Arbeitmacht frei [O trabalho liberta].
Freud (1930/1996) apontou duas saídas para O mal-estar na civilização e para o trabalho analítico: trabalhar e amar. A própria palavra “Arbeit” [trabalho] percorre a teoria psicanalítica:
O termo “Arbeit” [trabalho] está presente o tempo todo como um equivalente de gozo. Por isso, não se trata de eliminar o gozo, porque é impossível e de estrutura, mas elevá-lo à sua divisão estrutural: gozo fálico e gozo Outro ou feminino. Alienação e separação. Essa divisão possibilita a introdução do equívoco [L’insu] da dúvida, do intervalo que permite a escolha e não o automatismo do gozo.
Lembro-me de uma cliente que tinha compulsão de comprar e ela costumava brincar que a avó dela dizia: “Quando acontecer isso, minha filha, senta um pouquinho que a vontade passa”. Um pequeno e glorioso intervalo é o suficiente. Enfim, o que a psicanálise nos possibilita é um saber-fazer com o gozo.
Tudo isso nos mostra que o que acontece no coletivo acontece também no individual. O inconsciente é cultural. Cada sujeito mantém seu recalque particular graças às ficções que recebeu da cultura em que nasceu. Isso nos leva a uma pergunta provocativa: A geografia seria o destino?
Se tomarmos essa questão pela via da estrutura dos discursos, que é o que estou tentando focar aqui, diria que não, pois todos nós, seja lá qual for a origem, estaríamos destinados à mesma captura. No entanto, a cultura tem um peso muito grande e, dependendo da cultura ou da geografia, seremos mais ou menos estimulados e capturados pelos discursos que a rodeiam e predominam.
Por exemplo, muitas culturas exacerbam o discurso religioso, levando ao fanatismo e todas as consequências que vemos desfilar em nosso mundo (discurso do mestre). Outras sustentam o discurso capitalista com toda convicção. O que nos permite uma certa atopia com relação a essas capturas é o discurso do analista, o único que possibilita um giro capaz de operar a diminuição do gozo e reposicioná-lo, agora, na posição de causa de desejo.
Não se trata, para a psicanálise, de mudar o mundo numa utopia inoperante. Mas mudar a posição de cada um no mundo. Isso faz diferença, pois em vez de uma massa alienada e, como se diz, massa de manobra, possamos ser seres desejantes capazes de dizer: “Não, isso não!”. Contribuindo para uma economia em que o desejo, e não as ideologias joguem sua partida.
3. Marx e Lacan conversam entre si: da mais-valia ao mais de gozar
Lacan parte da noção de mais-valia em Marx para formular o conceito de mais-de-gozar. Parte da premissa de que a realidade capitalista não tem más relações com a ciência. Elas se dão bem. Constata-se isso por exemplos diversos como a tecnologia espacial e a internet. No entanto, alguma coisa nessa realidade gera conflitos, frustrações e questões políticas. Isso aponta para o campo de uma verdade obscura. Sondemos o que acontece com o tecido estrutural, para darmos nossa tesourada.
Trata-se do saber que não é conhecimento nem informação. O saber aqui acede ao estatuto de valor. O valor não se encarna somente no dinheiro. O saber também acaba encarnando o valor. Que saber é esse? Curiosamente, é o mesmo saber que a psicanálise foi formulando.
Lembro aqui uma referência que Lacan faz ao responsável pela propaganda nazista Joseph Göbels, ao dizer que ele teria usado os conhecimentos freudianos de Psicologia das massas para induzir e conduzir o povo alemão.
O saber não é o trabalho, e sim o que chamamos de valor. O saber acaba se tornando uma mercadoria. Não existe propriedade intelectual, o que não quer dizer que não haja roubo. Mas existe também um saber que é dado de graça: o mais-de-gozar. Não se sabe onde isso se esconde. De repente eclode um movimento, uma manifestação, uma greve. A verdade vem à tona! Quando a verdade vem à tona, todo o discurso cai, pois nenhum discurso diz toda a verdade, e o que advém é o sujeito dividido, por estrutura.
A pergunta é a seguinte: Como nos séculos XX e XXI, o poder do mestre continua tão imperativo?
A resposta é oferecida por Lacan por meio de um quinto discurso, o do capitalista que sobreviveu aos diversos nomes-do-pai que marcaram a história da humanidade. Porém, de uma forma que poderíamos denominar de père-version, uma outra versão do pai, variante do discurso do mestre, faz uma manobra, digamos, perversa.
Repetindo, com a inexorável e esperada queda dos nomes-do-pai, o sem sentido proveniente da queda dos S2, assume o S1 como puro sem sentido e vira o jogo. Como consequência, a própria força de trabalho se torna uma mercadoria e passa a ser manipulada pelo mercado.
4. A mais-valia
Trata-se da contribuição mais substancial de Marx à economia política, que nasceu com o sistema econômico que lhe deu origem: o capitalismo.
Para entender um pouco do que se trata, comecemos pelo conceito de valor em Marx. Numa primeira aproximação, podemos associar o conceito de mais-valia ao lucro, que é um valor. Valor, mais-valia e lucro são categorias econômicas. Como se processa isso?
Falando de uma maneira bem sintetizada, a passagem da economia feudal para a capitalista começou com a Revolução Industrial na Inglaterra e se estendeu pelos séculos XVIII e XIX.
Vejamos o processo segundo o artigo de Concessa Vaz (2010) intitulado A mais-valia em Marx:
Abre-se uma empresa ou uma fábrica.
Equipa-se para a produção daquela mercadoria com maquinários, móveis, enfim, toda a estrutura necessária.
Equipa-se também com a força de trabalho de operários assalariados.
Produz-se mercadorias para serem consumidas pela sociedade.
O esquema começa a girar. Tudo o que é comprado e vendido aparece como coisas ou objetos que possuem valor ou valia.
Esse valor termina por se expressar em dinheiro, em moeda que adquire um valor de mercado.
Todas as mercadorias passam a ser contabilizadas pela moeda. Um par de sapatos pode custar o mesmo preço de uma garrafa de vinho.
O lucro dessa produção é reinvestido para pagar as dívidas com a montagem da empresa e com os salários dos operários.
Daí pode ocorrer o lucro, que é o que o empresário ganha com o que sobra.
Uma parte vai para ele próprio, e o restante vai para alimentar o capital da empresa. Temos então:
O trabalho e o valor necessário. • O trabalho e o valor excedente.
Um, o primeiro, satisfaz a manutenção e sobrevivência da empresa e dos empregos, e o segundo é para alimentar o capital. Portanto, o valor excedente, o lucro ou a mais-valia vai para o capital, e este vai ser manejado pelo mercado. Assim, por essa via, o sistema capitalista se reproduz e se amplia.
Há uma engrenagem de trabalho de base que não pode parar. O aperfeiçoamento constante dos meios de produção e das máquinas serve não só para ampliar os lucros mas também para dispensar mão-de-obra.
A mais-valia é, portanto, o elemento compulsivo que move tanto o capital quanto o trabalho de base, de modo que a sorte do operário depende do capital.
Destacamos uma frase de Marx em O capital: “Se o bicho da seda tecesse para suprir sua exigência de lagarta, seria um perfeito assalariado”.
Bom, o que vamos tirar daí? Vamos a Freud. Uma vez perguntaram a ele o que era uma pessoa com boa saúde mental? A resposta dele foi a seguinte: “Trabalhar e amar”.
Amar e trabalhar exigem equilíbrio, bem-estar biológico, físico, social e psicológico. Trabalhar é, portanto, um fazer que tece o caminho de cada um pela vida afora. No entanto, é preciso que haja equilíbrio. O próprio Marx fala disso em seu Capital, ao contrapor ao trabalho alienado o trabalho autorrealizador, que é a atividade verdadeiramente humana de gozo e realização.
O sistema capitalista vai gerir o capital de gozo e, tal como na economia psíquica, o sujeito está elidido de seu gozo. O sujeito pode ficar alienado e submetido ao gozo do Outro, seja o Outro da cultura, da linguagem, da religião, enfim. Nesse caso, o trabalho deixa de ser uma realização a serviço do desejo e um automatismo e uma alienação em que o sujeito é foracluído do sistema.
Outro aspecto a ser destacado é o caráter de fetiche que as mercadorias adquirem.
Lacan as chamou de latusas, e o dinheiro, sua forma acabada.
Assim também nas análises não é tanto o conteúdo ou os objetos que importam, pois eles são o que há de mais variável. O que importa é o valor de gozo no mercado das pulsões.ϕ













