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versão impressa ISSN 0102-7395

Reverso vol.46 no.88 Belo Horizonte dez. 2024  Epub 19-Maio-2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v46n88.11 

TEORIA E CLÍNICA PSICANALÍTICAS

O que as histéricas contemporâneas nos ensinam sobre o gozo?1

WHAT DO CONTEMPORARY HYSTERICAL TEACH US ABOUT JOUISSANCE?

Márcia Rosa1 

Psicóloga.

Psicanalista.

Membro da Escola Brasileira de Psicanálise - Seção MG e da Associação Mundial de Psicanálise.

Pós-doutora em Teoria Psicanalítica pela Université de Paris 8. Professora na Pós-Graduação em Psicologia (UFMG).

Autora de artigos e livros sobre psicanálise e literatura.

1Université de Paris 8.


Resumo

Este artigo investiga a função social e política da histeria, bem como as mudanças que ela sofre ao longo do tempo, para concluir retomando a análise de Dora com Freud e o que restou não

tratado ali.

Palavras-chave: Histeria; Freud; Lacan

Abstract

This paper investigates the social and political function of hysteria, as well as the changes it undergoes over time, to conclude by resuming Dora’s analysis with Freud and what remained untreated there.

Keywords: Hysteria; Freud; Lacan

Comecemos assinalando a dimensão paradoxal da pergunta que dá título a este trabalho. Se a histeria é conhecida no mais das vezes por sua esquiva do campo pulsional - e isso se aplica tanto às histéricas do tempo de Freud quanto às histéricas contemporâneas -, o que elas teriam a nos ensinar sobre o gozo?1

Sendo próprio da histeria se esquivar do gozo ao mesmo tempo que denuncia a sua presença no campo do Outro, é isso mesmo que nos conduz a uma primeira resposta à questão proposta: localizado no campo do Outro, o gozo se torna uma questão política e social. Para tratá-lo vamos à ilustre figura de Anna O, ou seja, Bertha Pappenheim.

Função política e social da histeria

Para sua biógrafa Melinda Guttmann (2001, p. 181), “a raiva reprimida que a adoeceu nos seus vinte anos transformou-se em uma raiva social nos seus quarenta anos, transformando-a em uma guerreira”. Para acompanhá-la e à sua transformação, lembramos que, em 1895, quando Freud e Breuer publicam os seus Estudos sobre a histeria, Bertha já tinha um trabalho notável. Em 1888, transcorridos alguns anos desde o fim de seu tratamento com Breuer, sob o pseudônimo Paul Berthold (o qual conserva suas iniciais, embora invertidas) Bertha publicou seu primeiro livro infantil de contos de fadas, traduzido para o inglês e publicado em 2008 com o título In the Junk Shop and Other Stories. Na mesma época, ela iniciou seus trabalhos sociais e políticos em um orfanato gerido pela Associação de Mulheres Israelitas.

Ainda em 1895, a Associação Geral das Mulheres Alemãs (ADF) colocou sob a sua responsabilidade um grupo local, a partir de cujos trabalhos ela começou a publicar artigos sobre os direitos das mulheres. Encarregada posteriormente de mapear a situação social das mulheres judias, Bertha e uma colega viajaram durante meses investigando o que na época foi denominado white slavery, escravidão branca, a qual implicava os próprios homens judeus no tráfico das mulheres judias. Como militante feminista, Bertha reivindicava direitos iguais entre homens e mulheres e afirmava que as mulheres judias eram vítimas da tradição judaica, essa mesma que as degradava, levando-as à prostituição.

Em 1904, a Associação das Mulheres Judias (ADF) criou a Liga das Mulheres Judias (JBF), que foi dirigida por Pappenheim durante vinte anos e que a teve como participante e colaboradora até 1936, ano da sua morte. Com quatro anos de funcionamento, a JBF contava com mais de 32 mil membros distribuídos em 82 associações, tornando-se, em pouco tempo, a maior organização judaica feminina, chegando a ter 50 mil participantes.

A luta contra a prostituição e a escravidão branca não era um assunto popular nem respeitável para ser levado adiante por uma mulher. Em vista disso, Pappenheim enfrentou muita oposição e teve pouco suporte. Essa militância chegou mesmo a lhe valer, em 1907, uma acusação de heresia por parte da tradição judaica, acusação à qual ela respondeu invocando seu orgulho por sua herança judia.

Em 1924, Pappenheim publicou seu livro mais conhecido, intitulado Trabalho de Sísifo, no qual aborda o tráfico e a prostituição das mulheres judias vindas da Europa Oriental para os Estados Unidos, América Latina e outros, incluindo-se aí o Brasil, onde essas mulheres receberam a alcunha de “polacas”. O livro é composto com as cartas que ela escreveu no decorrer da viagem de 1911 a 1912, cartas abertas nas quais denunciava a decadência de cidades como Jerusalém, Alexandria etc. Como foram publicadas sem terem sido editadas, as cartas deixam entrever a sua posição enquanto mulher. Isso se mostra no relato de um sonho. Nele, Bertha conta para a sua mãe que domesticara dois pequenos chacais. Sua mãe não acreditou, então Bertha os trouxe até ela. Embora estivesse certa de que eram chacais, ao apresentá-los, viu dois gatos nas rédeas e se irritou. Puxou as rédeas. Os dois gatos então se transformaram em dois homens, aos quais sua mãe, graciosamente, convidou a se assentarem na sala de jantar no apartamento em que elas moravam (Pappenheim, 1911/1986, p. 145).

Com esse sonho, ela respondeu ao convite recebido de um tripulante do navio na noite anterior para que ela descesse do navio com ele em Beirute, pois ele iria lhe mostrar a depravação. Junto ao convite ele lhe indagou se era casada e lhe sugeriu tingir os cabelos brancos de modo a parecer mais jovem. Nessa época ela contava com 52 anos, mas os cabelos brancos a acompanhavam desde os seus trinta anos. Sobre o convite e a propósito do sonho ela escreveu nas cartas-diário: “Bem, eu acho que, se eu não fosse tão totalmente sem prática e experiência e não tivesse insistido no meu certificado de nascimento, minha viagem poderia ter tido um final inesperado, romântico” (Pappenheim, 1911/1986, p. 143). “Eu tenho desperdiçado amor - não apenas este ano, mas por muitos anos” (Pappenheim apudFreeman, 1972, p. 242).

Sobre os homens, Bertha dizia esperar o dia em que as mulheres fariam as leis e eles iriam parir as crianças. No entanto, no sonho eles não se deixam domesticar tal como ela quisera crer e fazer crer o outro. Cabe lembrar aqui que o tema da domesticação, do amansamento não está ausente na teoria freudiana em sua relação com a pulsão ou com o campo fantasmático. Luiz Hanns (1996, p. 183-186) observa que o termo bändigen, usado com frequência a propósito de se colocar rédeas em um animal selvagem, designa, no texto de Freud, um tipo de controle que o eu tenta exercer sobre as pulsões, refreando-as. Freud se serve do termo também ao se referir a uma criança intratável [unbändig], ou que se comporta de forma indócil [unbändig] de modo a provocar um castigo.

Bertha morreu de um câncer em 1936, aos 77 anos, tendo se mantido solteira e implicada na defesa de suas causas até o final. Pode-se supor que a sua militância social e política foi o seu modo de ir mais além do pai e de sua ortodoxia. Nos seus Auto-obituários satíricos, ela escreveu (Pappenheim apud Gutmann, 2001, p. 311):

Por background e pelo modo como foi criada, uma mulher Ortodoxa que, no curso de décadas e sob a influência de ideias revolucionárias do Movimento Feminista, pensou se separar de suas raízes - frequentemente se conduzindo com hostilidade - embora sem denunciá-las. De acordo com a sua respeitável família - lembramos que seu pai foi um dos fundadores da “Schiffeschul” em Viena - ela deveria ter prestado à Ortodoxia um serviço melhor. Que vergonha!

Essa função social e política da histeria, fundada na denúncia do gozo no campo do Outro, nós a encontramos mais recentemente em um movimento que se autodenominou #Metoo. Este movimento nasceu em 2006 nos Estados Unidos com uma ativista negra de 33 anos que, tendo sofrido experiências de abuso, agressão e violência, criou o movimento para que as mulheres que tivessem passado por experiências semelhantes não se sentissem sozinhas. Uma dezena de anos depois, em 5 de outubro de 2017, o jornal americano The New York Times acusou um famoso produtor americano Harvey Weinstein de assédio e condutas sexualmente abusivas contra atrizes que haviam trabalhado com ele. Uma dessas atrizes americanas se serviu do Twitter convidando as mulheres que tivessem sofrido assédio sexual a se lançarem em uma luta global por reconhecimento. Em poucos dias, 40 mil pessoas responderam ao tuíte diretamente e mais de 12 milhões de pessoas usaram a hashtag nas redes sociais.

O movimento das mulheres gerado pela hashtag #Metoo (2017-2018) se disseminou como um tsunami, tomou os contornos de um gozo mais-além do falo, ou seja, de um gozo operando por ondas cujos efeitos ultrapassaram qualquer possibilidade de contabilização. Cabe anotar ainda o fato de que o movimento suscitou críticas e reações. Entre elas um manifesto assinado por uma centena de personalidades francesas, denominado Pela liberdade de importunar. Eles alegaram que o #Metoo operava uma generalização e desconhecia haver nas aproximações uma gradação; insistiam haver na abordagem de um homem a uma mulher uma diferença entre uma cantada, o assédio, a violência e a agressão.

Histéricas clássicas e contemporâneas

Se encontramos pontos de afinidade no movimento de defesa das mulheres puxado por Bertha Pappenheim e o movimento #Metoo, a saber, ambos partem de uma posição de denúncia do gozo localizado no campo do Outro, no entanto encontramos muitas diferenças entre as histéricas dos tempos de Freud e as histéricas contemporâneas. Como entendê-las?

Para tal me reporto a um comentário de Lacan (1971/2009, p. 144):

Não falo somente da histeria. Falo de algo que se exprime, vou lhes dizer como Freud, no mal-estar do teatro. Para que ele continue de pé, é preciso haver Brecht, não é?, que compreendeu que isso não podia sustentar-se sem uma certa distância, um certo esfriamento.

Posto isso, se lermos nos Estudos sobre a histeria casos como aqueles de Anna O. e de Emmy von N., por exemplo, constatamos que o teatro ali esquentava bastante. Observamos, então, que a entrada do psicanalista na encenação da histérica produzirá entre ela e seus sintomas uma certa distância, um certo esfriamento. “Bastou isso para que a histérica [...] renunciasse à clínica luxuriante com que mobiliava a hiância da relação sexual” (Lacan, 1971/2009, p. 144). Com isso, Lacan sugere que a exuberância sintomatológica histérica encobre um vazio, um furo, um impossível.

Enfim, frente à pergunta por que não existem mais histéricas como antigamente, diríamos, com Lacan, que isso ocorre porque existem os psicanalistas, os psiquiatras, os psicólogos e, com seus tratamentos, eles introduzem entre o sujeito histérico e seus sintomas uma distância, um esfriamento.

Freud deixa escapar o que as histéricas lhe entregavam de bandeja

A partir dos anos 1970, Lacan apresenta o Édipo como o sonho não interpretado de Freud e sugere que ele teria feito melhor se tivesse se servido do que as histéricas lhe davam de bandeja, a saber, a articulação da sexualidade às palavras. No avesso do Édipo, as histéricas ensinaram a Freud que o significante é causa do gozo.

Se a substituição dos sintomas histéricos pelo Édipo localiza o sujeito histérico no seu amor ao pai, mais além da armadura do amor ao pai Lacan se orientará pelo real. Isso fará vacilar a noção freudiana de inconsciente, construída por Freud a partir de seus Estudos sobre a histeria, e dará lugar a uma concepção de inconsciente articulada ao real e ao corpo falante, noção com a qual Lacan faz uma junção do inconsciente freudiano da primeira tópica com o Isso ou Id da segunda tópica, forjando a noção de falasser [parlêtre], de um ser que fala a partir daquilo que do gozo lhe ressoa no corpo.

Lacan nos adverte que ao nos orientarmos pelo amor ao pai, amor ao simbólico, posto que se trata de um amor ao pai em seu estatuto de pai morto, algo do gozo resta sem equacionamento. Em vista disso, a armadura edipiana do amor ao pai não daria passagem para a localização da dimensão de real do gozo, a qual permaneceria escondida, inclusive para o próprio sujeito. Isso nos ajuda a esclarecer a observação de Lacan de que o pai edipiano, tal como formulado por Freud, é um pai todo-amor e ele deixa na fundação da psicanálise a presença de algo religioso.

Na leitura de Lacan, o Édipo foi ditado a Freud pela insatisfação da histérica (Lacan, 1971/2009, p. 148) e, face a isso, o discurso analítico se instaura restituindo-lhe sua verdade. Ao lhe dissipar o teatro, ele lhe restituiria o saber sobre seu modo de gozo, o qual incide sobre os sintomas e sobre o modo como eles se manifestam. Se ela se vira bem com a castração e a falta no Outro (tal como vimos na sua posição de denúncia do gozo no campo do Outro), quando se trata de se haver com o campo pulsional, ela tende a se esquivar e a operar com o nada - nada de satisfação! - o que muitas vezes a leva em direção a um gozo da privação.

Com Lacan, em vez de operarmos apenas com um pai morto, um pai todo-amor, tratase de localizar o que sobra, o que resta fora do equacionamento da histeria feito pelo Édipo. Que o pai de Dora possa ser idealizado ou castrado não dá passagem para a entrada em jogo do pai enquanto gozo. Quando esse gozo entra, ele tem o estatuto de pecado. Como isso se manifesta no caso Dora? Temos aí um pai sifilítico e Dora diz que ele fez adoecer a sua mãe e a ela, doença manifesta por um catarro vaginal herdado das “paixões selvagens” do pai (Freud, 1901-1905/1972, p. 80). Portanto, essas paixões selvagens, que nos conduzem à pulsão, à (in)satisfação e ao gozo, entram como herança do pai, como herança maldita com o estatuto de pecado.

Pulsão e gozo no caso Dora

Em seu texto de 1951, Intervenção sobre a transferência, Lacan indica a matriz imaginária do fantasma de Dora, à qual Freud não teria chegado com a sua analisante. Ele a localiza em uma cena infantil na qual “Dora, provavelmente ainda infans, chupa seu polegar esquerdo, enquanto com a mão direita puxa a orelha do seu irmão, um ano e meio mais velho do que ela” (Freud apudLacan, 1951/1998, p. 220). A partir daí, ele localiza o modo de gozo de Dora, tributário da pulsão oral. Aqui interessa lembrar que ela foi uma menina que chupou dedo até os seus quatro anos, o que lhe valeu o apelido, dado por seu pai, ‘a pequena chupadora’. A satisfação oral foi marcante na sua história clínica; no caso, o objeto que divide o sujeito, inclusive enquanto homem e mulher, é o objeto oral. Lacan mostra como, apesar de rastrear a trilha dos significantes orais importantes no caso - a afonia na presença a sós com a Sra. K, a tosse como traço identificatório ao pai, o cunnilingus do pai na Sra. K, etc. -, Freud não lhes dá a devida importância.

Lacan observa que para Dora a mulher seria um objeto impossível de separar de um desejo oral primitivo, no qual teria sido preciso que ela aprendesse a reconhecer sua própria natureza genital. Ele mostra que ao não levar Dora até aí, Freud a deixa “com a solução que o cristianismo deu a esse impasse subjetivo, fazendo da mulher o objeto divino ou um objeto transcendental do desejo, o que dá no mesmo” (Lacan, 1951/1998, p. 220). Ele nos orienta, então, sobre o que restou não analisado na histeria de Dora. Para ele, “o problema de sua condição está, no fundo, em se aceitar como objeto do desejo do homem” (Lacan, 1951/1998, p. 221). O enigma da feminilidade aí é o mistério que a levou a ter adoração pela Sra.K, à sua longa meditação diante da Madona e ao seu recurso ao adorador distante. Na medida em que o adorador distante se tornou seu marido, tornando-se não apenas próximo quanto adquirindo direitos a partilhar uma vida sexual com ela, isso colocou em risco o mistério feminino a ser preservado; encontramos, então, a neurose de Dora na sua maturidade. Obviamente, ela teria se virado melhor se tivesse seguido com o sorriso da Monalisa (ou da Madona), objeto enigmático de adoração e contemplação à distância.

Em 1923 Felix Deutsch foi convocado para um atendimento domiciliar de uma paciente casada de 42 anos, acamada com sintomas graves de uma síndrome de Ménière, a qual lhe afetava o ouvido e produzia vertigens, perda de audição e zumbidos. Na consulta a paciente começou pelas queixas clínicas, mas desviou-se delas para se queixar da indiferença do marido ao seu sofrimento e da infelicidade de sua vida conjugal e de sua frigidez. O marido lhe era infiel, tal como o pai tinha sido infiel à mãe. Ele havia tido uma amante jovem e casada, amiga da família, de cujos filhos ela cuidava. Disse ainda que o marido dessa mulher lhe havia feito propostas sexuais. Na medida em que ela foi falando, Deutsch identificou estar diante da Dora apresentada por Freud, cujo nome verdadeiro era Ida Bauer. Sem tê-lo dito, ele ouviu dela própria a confissão de que ela era a Dora de Freud, confissão que ela fez depois de saber que Deutsch era analista.

Seu único filho, agora crescido, lhe dava pouca atenção posto que começara a se interessar pelas mulheres e, com isso, chegava tarde em casa. Ela o espreitava com o ouvido colado à porta. Na medida em que Deutsch interpretou os seus problemas de ouvido associando-os com essa vigilância noturna do filho, os seus sintomas desapareceram. Aqui o infantil ainda regia a cena, posto que Dora fora uma criança que vigiava os ruídos sexuais dos pais com o ouvido colado à porta deles. Concluímos, portanto, que algo da posição infantil, desse desejo de saber sobre a sexualidade do outro para lhe denunciar o gozo, ainda estava lá orientando o sintoma na vida adulta.

O efeito da interpretação de Deutsch sobre os sintomas auditivos, evidencia em Dora uma abertura ao Outro e ao inconsciente, embora isso não tenha sido suficiente para reorientála em relação ao seu próprio modo de gozo. Aqui é interessante ressaltar que o sintoma tem um envelope formal, sua face significante e uma face econômica a qual não se remaneja com uma simples interpretação; teria sido preciso um trabalho mais extenso. Assim é que encontramos na Dora da maturidade o mesmo asco e nojo frente ao sexual ao qual ela se referira na sua análise com Freud, aos 18 anos.

A relação de Dora com sua mãe, a qual tanto Freud quanto Lacan não deram importância, acabou se mostrando-se decisiva. A mãe de Dora casara-se com um homem sifilítico e, provavelmente pelo temor de ser contaminada, desenvolvera sintomas compulsivos de limpeza. Essa mãe deixou como herança para a filha preocupações excessivas com a limpeza, as quais se manifestaram como preocupação com a limpeza corporal. A queixa sobre os catarros vaginais a levou a fazer intervenções ginecológicas para limpar os fluxos vaginais, havia uma constante preocupação com a limpeza dos intestinos, pois padecia de uma constipação intestinal tal como a mãe. Algo no campo do gozo se transmitiu de mãe para filha, mas no caso da filha mostrou-se fatal: os sintomas de um câncer intestinal, tratados pela via das limpezas, fez com que o diagnóstico chegasse tarde demais. Dora morreu aos 63 anos, em Nova Iorque, onde morava com o filho.

Mais de trinta anos de teoria e clínica psicanalítica separam o Freud que atendeu Dora, nos últimos três meses do ano 1899, e o Freud de 1932 que, na sua Conferência XXXIII: Feminilidade, enfatizou a importância da vinculação libidinal pré-edipiana da menina à mãe na medida em que ela deixa atrás de si fixações e disposições fundamentais (Freud, 1932/1976, p. 147-148). No caso de Dora, esse elemento não tratado retornou, no real do corpo. ϕ

1As elaborações que fazem parte deste texto apresentado no evento CÍRCULO DE PORTAS ABERTAS, realizado no Círculo Psicanalítico de Minas Gerais em julho de 2024, surgem de uma pesquisa de pós-doutorado que realizei em 2018 na Université Paris 8, Vincennes-Saint Dennis em Paris, sob a supervisão do Prof. Dr. Fabian Fajnwaks. Esta pesquisa na sua íntegra foi publicada sob o título Por onde andarão as histéricas de outrora? Um estudo lacaniano sobre as histerias em Belo Horizonte, em 2019.

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Recebido: 06 de Setembro de 2024; Aceito: 07 de Outubro de 2024

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