A técnica como um saber
Como entendemos o significante-técnica? O termo techné vem de outra palavra grega, texni, que alude a um trabalho artesanal que requer o conhecimento de princípios. Refere-se à execução de um procedimento que, na Antiguidade Clássica, se referia ao saber pragmático necessário às oito artes mecânicas, presumidamente inferiores, da arquitetura, agricultura, atividade militar (armatura), caça (venation), vestimenta (lanificium), e navegação, mas também à medicina e às artes teatrais (Kristeller, 1951, p. 507). Estas antigas “artes mecânicas”, nascidas da necessidade, visavam à criação ou à performance de uma atividade ou de um objeto, e se opunham às sete “artes liberais” percebidas como superiores, que eram a gramática, a retórica, a dialética, a aritmética, a geometria, a astronomia e a música (Kristeller, 1951, p. 508). Estas eram destinadas a libertar os seres humanos. As artes mecânicas requerem um savoir faire predominantemente pragmático (como na medicina ou na navegação), ao passo que as artes liberais enfatizam um sólido conhecimento de princípios fundamentais. A oposição entre esses extremos, entre o savoir fair da artesania, techné, versus o conhecimento de princípios teóricos, episteme, evoluiu ao longo do tempo e, no pensamento moderno, incluiu elementos no interior da polaridade entre teoria e prática (Stanford Encyclopedia, 2014).
De qual gênero de princípios fundamentais da teoria psicanalítica precisamos para estabelecer a condução de um tratamento? E qual é o savoir-faire do analista? Muita tinta se tem gastado para escrever sobre a técnica ao longo da história do movimento psicanalítico, e poderíamos dizer que nenhum ensaio psicanalítico sobre assuntos clínicos escapa de discutir aspectos técnicos, como, por exemplo, nos seis casos clínicos de Freud e em suas abundantes recomendações sobre a técnica psicanalítica ao longo de toda a sua obra. Em Lacan, que sempre reiterou que seu discurso era dirigido aos psicanalistas e estava centrado na experiência analítica (1967/68), encontramos discussões de técnica analítica, desde seu primeiro seminário sobre “regras práticas”, que delineia o método de intervenção terapêutica, até o condensado artigo sobre a “Direção do tratamento” nos Escritos, que lida com as nuances da condução de um tratamento. Há questões sobre a transmissão da psicanálise em “A psicanálise e seu ensino” e em “Situação do psicanalista e treinamento dos psicanalistas em 1956”. No Seminário XV, intitulado O ato psicanalítico, Lacan aborda a lógica em jogo na transição de analisante para analista. Seus entretiens são dirigidos aos psiquiatras no Hospital Saint-Anne em “O saber do psicanalista” e, em seu trabalho sobre a topologia nos seminários XX e XXIII, ele conceitua o real e intervenções possíveis.
Proponho que uma primeira distinção entre técnica e estilo se encontra na “Direção do tratamento”, em que Lacan estabelece a diferença entre tática (meios) e estratégia (fins). Lacan diz que “o analista é menos livre em sua estratégia que em sua prática” (1958/2006, p. 493), e menos livre ainda em sua política. A estratégia e a tática emergem daquela antiga arte mecânica da atividade militar: a estratégia se refere ao plano ou estratagema para alcançar determinados fins, enquanto a tática consiste em dispor de manobras ou procedimentos para atingir objetivos planejados. Poderíamos pensar na técnica como pertencente ao campo da tática, ao passo que o estilo do analista estaria do lado da estratégia. Mas estes dois elementos, nos diz Lacan, são dominados pela política do analista. O que entendemos sobre esse nome?
Lacan nos diz, inicialmente, que a política do analista no tratamento vai encontrar sua sustentação na falta-a-ser do analista, como uma falta de ser que se refere ao desejo de analista, e elabora que “sua ação no que concerne ao paciente vai escapar ao analista junto com a ideia que ele forma dessa ação, sempre que ele não considerar seu ponto de partida” (1958/2006, p. 493). O conhecimento dos princípios fundamentais se refere, pois, a um entendimento teórico acerca do inconsciente e de sua divisão, bem como sobre a posição do analista, seu “ponto de partida”, o qual é na forma radical da destituição subjetiva. Em outras palavras, a política do analista se refere ao seu desejo de não querer ser2 um sujeito durante uma análise, exceto como ocupante de uma função analítica. Isso significa que possíveis demandas (por exemplo, de ser reconhecido pelo analisante, ou querido ou amado) ou quaisquer outros desejos do lado do analista (por exemplo, de que o analisante fosse “isto” ou fizesse “aquilo”) vão consistir ou em uma resistência - já que “não existe resistência à análise senão a resistência do próprio analista” (Lacan, 1958/2006, p. 497) - ou, no extremo, vão constituir um flagrante exercício de poder.
O saber do analista como estilo
Poderíamos especular que o analista requer uma riqueza de conhecimento teórico para entender os mecanismos da estrutura clínica do analisante, de modo a evitar conduzir o tratamento a um impasse (Fernandez, 2014). Poderíamos também dizer que o analista precisa compreender as noções de demanda e transferência (Fernandez-Alvarez, 2017) ou a negatividade radical da causa, traumática por natureza e necessitando inscrição (Fernandez-Alvarez,2022 no prelo). O analista se engaja com a teoria como uma estratégia para localizar o horizonte que as suas intervenções têm em mira, mas esse conhecimento técnico nunca será suficiente para uma análise bem-sucedida. A análise, embora tenha uma dimensão racional, não fundamenta seus procedimentos mais potentes nas construções simbólico-imaginárias do pensamento, da representação ou do sentido, ainda que esses mecanismos sejam efetivos para aliviar o sofrimento. Lacan chega ao ponto de dizer que conceber nossas ações como motivadas pelo pensamento revela “uma necessidade de segurança” para o analista e que qualquer pretenso progresso de conhecimento por tais meios, tais como ocorre no teste pavloviano, é fútil, uma vez que não está concernido com as consequências no nível da verdade (Lacan, 1967/1968).
Alguns anos atrás argumentei que a teoria é uma necessidade ideológica que precisa ser, em certa medida, posta em suspenso quando se conduz uma análise (Fernandez, 2014) e, neste artigo, introduzo algumas nuances nesses argumentos ao abordar o saber do analista. Lacan delineou qual tipo de saber está efetivamente em jogo na psicanálise, quando sutilmente contestou a associação que alguns haviam feito com o não-saber de Bataille, um conceito que presume que uma finalidade epistêmica soberana nunca poderia ser antecipada e, consequentemente, “só o não-saber é soberano” (Bataille como citado em Minkkinen, 2016, p. 287). Lacan afirmou, ao invés, que “o discurso analítico se dá precisamente na fronteira palpável entre verdade e saber” (2017, p. 10). Para além da antinomia idealista e falaciosa que pretende que “a representação seja o fundamento de todo saber” (1967/1978), Lacan estabelece uma diferença crucial entre o saber, le savoir, e o conhecimento, la conaissance (1967/1968). Pertinente ao nosso tema, essa distinção epistêmica apresenta nossa segunda diferenciação: a técnica está do lado do conhecimento, uma acumulação de informação e de noções teóricas; o estilo está do lado do saber, um saber-fazer que tem a ver com o desejo e o gozo. Esse saber é o núcleo do estilo do analista.
No Seminário XI, Lacan aborda a função do desejo de analista e sua relação com a transferência: “Tão logo o sujeito que é suposto saber existe em algum lugar… S.s.S., há transferência (1964/1998, p. 232). O saber do analista, de partida, é constituído por uma suposição criada sob transferência, atribuída ao analista pelo analisante. É pela via do desejo do analista que a análise será de fato levada adiante até as suas últimas consequências lógicas; é pela via do seu estilo que o analista responde à transferência para sustentar atos éticos no interior de uma análise. A ética da psicanálise, Lacan o soletrou no Seminário VII, refere-se a um “julgamento da nossa ação” (1959-60/1992, p. 311) que sustenta a prática psicanalítica a serviço de nenhum bem, para permitir ao analisante suportar plenamente o seu desejo, “metonímia do nosso ser” (p. 321).
Se olhamos para as fórmulas dos matemas que Lacan apresenta ao descrever seus quatro discursos (1969-70/1999), o saber está no lugar da verdade no discurso analítico, mas essa verdade não é a do analista. O analista estruturalmente faz semblante dos significantes para lançar a demanda, mas o saber em jogo no discurso analítico pertence ao analisante e emerge como verdade mítica no processo da análise. Essa verdade é mítica porque refere-se a um saber fundado no aparente sem-sentido, contra as leis estruturais dos discursos da ciência e do mestre e, de fato, é um saber que “não diz asneiras” (Lacan,1969-70/1999, p. 91).
Se entendemos o objeto de estudo da psicanálise como um emergir do inconsciente que não diz asneiras, do qual resta um resíduo traumático que é causa de desejo e produz gozo, que tipo de saber precisamos para evocá-lo? Se o saber do analista é suposto na própria estrutura do discurso do analista, o que o analista “verdadeiramente” sabe para além do seu semblante de sujeito suposto saber? Aqui, ganha relevo o estilo do analista, aprendido em sua própria análise, um estilo que é produto de um “desejo experimentado” que visa a transmitir o saber sobre uma falta (1959-60/1992, p. 300).
O estilo do analista: desejo de pontuar e um saber fazer com o não gozar de seu ato
O estilo de Lacan é frequentemente discutido com referência à sua maneira barroca de escrever, percebida como preciosismo, carregada de metáforas à la Gongora e Quevedo. Como poderia esse estilo ser extrapolado para além da maneira como ele intervém no consultório? Ou, em outras palavras, há uma conexão entre sua letra e seu ato?
Jean Allouch menciona trezentas e vinte e uma ocorrências daquilo que ele denomina “mauvais bon mots” (1998, p. 19), “maldosos bons testemunhos”, reunidos em três diferentes livros acerca do estilo de Lacan em suas interações clínicas e não clínicas, conforme relatos daqueles que experimentaram estas ocorrências. Essa compilação, relata Allouch, teve que atravessar um processo de dez anos da sua própria censura, devido a preocupações com a reputação de Lacan, mas Allouch reflete sobre como essas ocorrências falam sobre o estilo de Lacan e a integridade da sua concepção do inconsciente freudiano.
Em seu recente livro, Catherine Millot (2018) revela sua análise com Lacan e seu simultâneo caso de amor, e então a alegação allouchiana quanto à “integridade” do estilo de Lacan é problematizada, em vista dos próprios princípios do ato analítico que havia proposto. Hernandez ficou incomodado com a recepção acrítica entre os psicanalistas franceses e levou adiante uma crítica clara, destacando a distinção entre a pessoa do clínico e a função do analista ao se perguntar: “tudo o que Lacan fez em sua via é qualificável como ato analítico? Não há uma dimensão de Lacan como uma pessoa? ” (Hernandez, 2017, p. 197).
Em vez de enveredarmos pelos detalhes do intensamente problemático caso Millot-Lacan, e suas implicações éticas para o trabalho analítico, gostaria de refletir sobre o que constitui o estilo do analista, o qual defendo que reside na fronteira que separa a função do analista, de um lado, e o seu ser ou a sua personalidade, de outro.
Bem na primeira linha de seus Escritos, Lacan diz que “o estilo é o próprio homem (1966/2006, p. 3), e, na linha final do texto “A psicanálise o seu ensino”, o autor é ainda mais claro:
Um retorno a Freud, que fornece o material para um ensino merecedor do seu nome, só pode ser produzido pelo caminho pelo qual a verdade mais oculta se manifesta nas revoluções da cultura. Esse caminho é o único treinamento que eu posso afirmar que transmito àqueles que me seguem. Isso se chama: um estilo (Lacan, 1956/2006, p. 383).
Será o estilo uma maneira distintiva, próxima do termo “personalidade”? Será “o jeito de viver a vida”? Ou será o estilo um modo prevalente, distinguível e reconhecível de se mover, falar, saudar, responder, vestir ou decorar? Sem dúvida, todos esses aspectos participam daquilo que habitualmente designamos como estilo. No que concerne ao analista, essas qualidades constituem elementos materiais da sua personalidade e do seu ser, os quais frequentemente contribuem de fato para objetos e gatilhos transferenciais, isto é, para pontos de partida no discurso do analisante. Quero propor, no entanto, o estilo do analista como algo suplementar a essas qualidades, e ainda mais crucial para aquilo que constitui o estilo do analista, no que se refere a dois aspectos: seu desejo de pontuar o discurso do analisante para alcançar a letra, e seu saber-fazer com respeito a não gozar da análise que ele está conduzindo.
No que concerne ao analista como um pontuador, comecemos com o fato de que o nome “estilo” se relaciona com o escrever, a par de sua derivação do termo em latim, stylus, uma ferramenta de escrita, “um instrumento de metal, osso ou similar, usado pelos antigos para escrever em tabletes de cera, tendo uma extremidade em ponta para fazer as letras com incisões e a outra extremidade arredondada para apagar o escrito e alisar o tablete” (Encyclopaedia Britannica, 1998). O estilo se refere, portanto, ao instrumento e à sua marca. Então o estilo do analista envolve a escrita? Não, esse é o trabalho do analisante em seus encontros com o real. O estilo do analista é o instrumento por meio do qual ele intervém fazendo furos, por assim dizer, no discurso do analisante. Isso serve para propiciar a emergência da letra que poderia permitir ao analisante novas e diferentes escrituras do já escrito (o necessário), e serve para propiciar que se alcance o limite do significado, o qual havia suportado até ali uma certa valência do gozo do sujeito. Mas o estilo do analista também intervém para propiciar a inscrição simbólica parcial daquilo que não se escreve (o impossível), que é o resíduo traumático3.
O estilo do analista advém de seu desejo radical de ocupar a função do analista, uma função que necessita que ele esteja ciente dos seus próprios modos de gozo, a fim de dar-se conta do que constitui uma resistência ao tratamento. O estilo do analista é sua ferramenta para abrir espaços na espessa textura do discurso do analisante, para além de qualquer perseguição paranoica da teoria que reifica as frases lacanianas como regras de ouro das quais derivariam proibições que resultam em uma emburrecida caricatura do que deveria ser uma neutralidade calculada. O estilo do analista só é obtido no fim de análise porque ele é o que rompe com o consenso teórico e o efeito massificador da teoria analítica. Nesse sentido, o estilo do analista se manifesta nas regras - tempo, duração e espaço do encontro, pagamento, férias, cancelamentos, ausências e mais - às quais Lacan concebeu como “desenhadas de modo a não interferir de modo algum em minha atividade de executor” (1958/2006, p.491). Essas condições, usualmente conhecidas como “enquadre”, “contrato terapêutico” ou “dispositivo analítico”, constituem uma articulação do acordo que ambos, analista e analisante, se comprometem a cumprir (1966-67), e também uma satisfação das preferências e das condições básicas do analista, uma forma básica de gozo material por meio da renda, dos horários de sua conveniência etc. Mas o estilo do analista constitui uma liberdade ética para singularizar radicalmente as regras em cada tratamento, com o único propósito de fazer avançar a análise. Talvez a maioria dos analistas concorde que duas regras são inflexíveis: associação livre e “não fode”. Quanto ao resto, defendo que o analista impõe, com o seu estilo, uma indagação ética em curso, a fim de saber se essas demais regras são significativas para análise ou se sua flexibilização ou rigidez está a serviço de qualquer forma de um mais-de-gozar do analista. O analista precisa ter alcançado o saber de sua própria cura, conforme apresentado por Dan Collins na fórmula G(CVJ), entendida como um gozo que é “crença verdadeira e justificada”4 (2019, p. 90).
Além disso, Lacan convida o analista a ser nada menos do que “um santo”, não no sentido da caridade (caritas), mas como aquele que recusa o gozo (1973/1987, p.16), o que não é o mesmo que renunciar ao prazer. Dulsster abordou a figura do santo correlacionando-a com a arte da prudência e suas três “artimanhas”: silêncio, ausência ou exílio, e aparência ou destreza (2018, p.222), para concluir que o santo/analista deve alcançar uma gargalhada prazerosa porque ele sabe lidar com o gozo.
Lacan afirmou que seria bastante incomum nunca experimentar afeição em relação ao analisante: amor, ansiedade ou ódio são emergências esperadas. Mas resta uma questão quanto a “como” o analista responde às suas próprias transferências, o que Freud denominou contratransferência, e ele precaveu os analistas para reconhecê-la devido ao fato de que “nenhum psicanalista vai além do que seus próprios complexos e resistências internas permitem” (Freud, 1910/1973, p.136). Lacan se arrepiava ante o conceito de contratransferência uma vez que, do seu ponto de vista, constitui um “desvio” que potencialmente conduz à “impostura” (1958/2006, p. 489) e a uma falha ao “conceituar a verdadeira natureza da transferência” (1958/2006, p. 492). Lacan punha ênfase no fato de que o analista carrega metade do sintoma, como em sua explanação sobre a pseudociese de Anna O. (Berta Pappenheim) e o desejo deslocado de Breuer (1964/1988, p. 158). O analista, conforme a leitura que faça do sintoma, não apenas o completa em seu sentido e significado ou em seus limites; o real da pessoa que funciona como analista também produz efeitos. Parafraseando Freud, nenhum psicanalista vai além da articulação do seu próprio gozo. O reconhecimento desse dado é vital, porque, se o analista goza de seu próprio ato, é a vida do analisante que pode estar em jogo.
Um exemplo disso é em encontrado em um artigo que chegou até mim alguns anos atrás publicado no New York Times, no qual uma “analista” reflete sobre o que ela descreve como “uma série de acidentes físicos que atingiram meus pacientes durante minhas férias” (Webster, 2014). Cinco de seus analisantes tinham sofrido acidentes significativos, como queda de escadas, de bicicleta e queimaduras severas. O fato de os analisantes sofrerem “acidentes” é um fato clínico que às vezes ocorre em psicanálise e pode ensejar uma pesquisa sobre a significação de tais parapraxias para o analisante. Mas a repetição de ocorrências similares em cinco analisantes da mesma analista é um sinal claro de que algo da responsabilidade da analista está em jogo e, evidentemente, não foi reconhecido. Em vez de escrever sobre o que dessa repetição é pertinente ao gozo do próprio analista - algo que, a meu ver, é uma urgência ética, devido à severidade do sintoma compartilhado, a analista explica a referida repetição por meio da transferência, por meio daquilo que ela descreve como “nosso amor-próprio que nos distingue dos demais”. Isso deixa a significação somente do lado do paciente, na vinheta por ela apresentada, e ela chega ao extremo de ponderar que, etimologicamente, “caso” significa simplesmente “acidente”. Embora ela pareça cogitar da presença do real como “algo poderoso e estranho, algo infamiliar”, e apesar de afirmar sua própria noção, bastante vaga, de intromissão subjetiva, “a linha demarcatória entre mim e você, aquilo que define duas pessoas em vez de uma”, ela, no entanto, não consegue escrever - eis aqui a importância da letra - o limite entre o gozo sintomático do próprio analista e o gozo do próprio analisante. Ela conclui, em franca negação, que não teme o que está acontecendo: “E isso tem muito pouco a ver comigo”. Fúria do público, evidentemente, despejada na seção de comentários.
Lalíngua advertida: em direção à letra No Seminário III, Lacan se referiu ao estilo na discussão do Grundsprache, do Dr. Schreber, uma língua fundamental ou langue du fond (1955-56/1997, p. 108), a qual podemos dizer que é a predecessora do conceito que Lacan desenvolveu algumas décadas mais tarde, conhecido como lalíngua. Esse conceito se relaciona às pulsões e é “o eco, no corpo, do fato de que há um dizer” (1975-76a). Lacan esclarece que lalíngua não é la langue saussureana, e, sim, um saber fundamental, primário, útil para os psicanalistas na medida em que representa a lógica da verdade como não saber (2017, p. 10).
Lalíngua é maneira como nos posicionamos no gozo através da qualidade de nonsense da linguagem e anterior à gramática ou à organização lexicográfica. De acordo com Simoney, lalíngua se refere à “língua mãe que, por meio de suas modulações e sua musicalidade (la la), nomeia os primeiros objetos do infante” (2012, p. 7). Lalíngua é, pois, o ritmo e a musicalidade que vem se alojar no corpo sem um significado específico - está parcialmente para além da linguagem e revela uma singularidade radical na maneira como o sujeito goza. Um exemplo de uma atualização de lalíngua se encontra na maneira como os pais falam com seus bebês, os donos com os seus bichos de estimação, os amantes um com o outro, nos neologismos e nos sons que eles criam, os quais são construções de uma forma privada, para além da linguagem, que sinaliza o gozo, mas não lhe dá significado.
Ao longo de um processo analítico, um analisante fala a história incorporada de uma escrita fantasmática do seu sintoma. Tais estórias das histórias vão proliferar, por livre associação, em construções simbólico-imaginárias que Lacan designa pelo neologismo varité, as variações da verdade (1976-77, sessão de 19 de abril de 1977), que são racionalizações que visam a repetir o significante/letra que originalmente escreveu o sintoma e estruturalmente construiu o sofrimento histórico do sujeito. O analista procede a escuta, quase sempre por meio do silêncio e do questionamento socrático, mas em algum ponto ela é convocada a responder (a responsa-habilidade do analista) de uma maneira que propicie o encontro com o impasse do sentido a fim de precipitar uma certa impossibilidade: o objeto a residual que não cessa de não se escrever. Os momentos em que o objeto a aparece em sua ausência, por assim dizer, apresentam uma oportunidade para intervir e, enquanto possibilidades cruciais podem então se abrir, é precisamente nesses pontos que a análise aparece em seu caráter mais precário, devido aos riscos da emergência de reações terapêuticas negativas ou de acting out. O analista, sem ter uma ideia clara do que está acontecendo, sabe de algo, no entanto: em sua própria análise o analista foi advertido quanto à sua própria lalíngua e está atento a como ela pode ter respondido à emergência do objeto a; esse saber permite ao analista dispor de seu saber fazer com o gozo para sustentar o espaço que possibilita levar adiante a busca.
Não há psicanálise no nível do intelecto, uma análise demanda um corpo e o seu gozo, e no processo de transformação do analisante em analista, o analista alcançou o limite do significado e abraçou o seu próprio estilo como uma lalíngua informada. Embora as emergências do real e o gozo nunca venham a ser apagadas ou preditas de nenhuma maneira, uma vez que elas não se vinculam a nenhuma lei, o analista sabe do gozo. Assim como Bataille, que sabe que “minha ferida é incurável”, o analista aprendeu, no final da sua análise, a melodia de sua própria lalíngua, uma forma de gozo cuja lógica se tornou parcialmente articulada. Tal aprendizagem avisa o analista quanto a sua resposta quando, sub-reptício ou estrondoso, o real aparece como uma contingência aberta em análise. Essa lalíngua informada também requer que o analista seja letrado segundo formas que escrevem algo do seu gozo.
Porque a letra tem relevância? Em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, Lacan designa a letra como “o meio material [support] que o discurso concreto toma emprestado da linguagem” (1957/2006, p. 413). Aqui, o autor destaca dois aspectos: como os significantes dão entrada ao significado sobre uma forma que é “não imaterial”; o point du capiton, que dá conta da dominância da letra. Duas décadas depois, no Seminário XVIII, Lacan usa a topologia do litoral para abordar o significante como letra que está situada no real. Com o conceito de litoral, baseado na metáfora do mar e da costa, Lacan estabelece que a letra não tem significado, e é uma indicação material de domínios heterogêneos. Assim, a letra, que é diferente do significante, não tem uma relação recíproca com a significação, mas marca uma separação e uma diferença no interior dos possíveis domínios significantes.
A letra assinala uma relação entre o gozo e o saber, e é, portanto, uma articulação escrita importante porque sustenta o acesso precário a algo da inscrição do real. Lacan afirma que o risco analítico emerge “na articulação escrita”, quando a emergência da letra insistente aparece. No entanto, quando escrevemos, diz Lacan, “podemos muito bem tocar no real, mas não na verdade” (1975-76b).
A letra reescreve significações por um processo de apagamento e ruptura do semblante e produz um agente, o sujeito, que sustenta o senso da letra insistente (Amir, 2016, p. 201). Diferentemente do significante, que está do lado do simbólico e do imaginário, a letra, embora pertença parcialmente a esses registros, está no real e não pode ser embaralhada. O significante está vivo e deslizando: a letra é sólida como a morte, demanda ser vista e está “na borda do furo no saber” (Lacan, 1970-71, sessão de 12 de maio de 1971). No exemplo dos “acidentes” mencionado acima, o real está escondido para cada um dos participantes e o que verdadeiramente importa não é tanto uma explicação de porque o acidente acontece (o que seria uma significação fútil para o analisando e um julgamento moral sobre essa analista). Diversamente, a importância desses eventos, diria Lacan, reside em “onde conseguiremos apreendê-los, onde seremos forçados a escrevê-los” (1966-67, sessão de 7 de dezembro de 1966). Quando o real aparece para o analista no esquecimento, em sonhos com analisantes, lapsos, acting out etc., possibilidades transformadoras emergem, mas um paradoxo é revelado pelo fato de que enquanto a letra é “a entrada daquilo que estrutura o discurso no ponto mais radical” (1966-1967), ela é simultaneamente excluída e necessita ser escrita. Isso, é claro, nos recorda que o analista escreve de seu gozo apenas como analisante, porque, uma vez que se dissolve a transferência, aí está o mundo.













