“Órfãos” e “Eldorado”, dois importantes significantes que nomeiam a obra de Milton Hatoum (2008), marcam em definitivo o destino das personagens principais: o narrador, Arminto, e sua amada e inacessível, Dinaura. Ambos órfãos que buscam um Eldorado, lugar de acalanto para o desamparo, lugar desejado e inatingível, onde não existe dor, abandono, incompletude, injustiça. Encontrar este lugar, para viver com sua amada Dinaura, é o grande desejo de Arminto. Lacan não fala do Eldorado, mas nos fala do objeto a, como o objeto que não existiu e jamais existirá, mas que é suposto objeto o qual um dia proporcionou satisfação sem igual, completa, com o poder de traçar as coordenadas do desejo e ser a bússola da angústia. A vida de Arminto parece mudar quando, no enterro de seu pai, seu olhar é capturado pelo olhar da jovem Dinaura. O que seria seu passaporte para o Eldorado constituiu-se, na verdade, como a ratificação de sua orfandade e de seu desamparo. Arminto se depara com uma verdade irrefutável: o desejo está bem mais voltado para a errância, a busca e o desassossego do que para a quietude de um Eldorado.
O olhar ocupa um lugar privilegiado no romance, como elemento que sinaliza a angústia de Arminto e Dinaura, dando notícias de um enlaçamento a partir de algo que ambos não conseguiam representar em palavras. Dinaura não fala durante o romance, suas palavras são substituídas pelo olhar. No único momento em que pronuncia algo para Arminto, este não consegue ouvi-la, mas seu olhar é sempre referenciado como um olhar de feitiço:
“...quando Dinaura andava na cidade, os homens iam atrás. Nenhum falava com a mulher. Por quê? Medo. Alguma coisa no seu olhar inibia mais que uma voz ou um gesto. Com medo, eram machos vencidos”. (Hatoum, 2008, p. 37).
O primeiro contato entre Arminto e Dinaura se deu pelo olhar, e, de imediato, o narrador se viu refém de algo que lhe escapa à razão, ao sentido. Desejo e angústia formam uma trama que envolve as personagens principais e, na busca incansável pelo Eldorado (cidade de ouro onde a felicidade é plena), encontram uma trama de desejos inacessíveis, desamparo e sofrimento psíquico frente à angústia não nomeada e descolada de qualquer significante, ecos de encontros com o real, promovidos pelo olhar como objeto a. Assim, a partir da interlocução entre psicanálise e literatura, tecemos algumas pontuações sobre o olhar como uma das modalidades do objeto a, como causa do desejo e da angústia no romance Órfãos do Eldorado (2008), de Milton Hatoum.
Sobre o narrador tralhoto
Trabalhamos, por conseguinte, na perspectiva do olhar como avesso da consciência, invadindo o sujeito a partir do real, fazendo-o objeto a ser olhado, como nos ensina Lacan (1964/1998, p. 91): “...o sujeito que nos interessa é preso, manobrado, captado, no campo da visão”. Falamos do olhar enquanto o que captura o mais íntimo, que irrompe do real e coordena os caminhos da angústia e do desejo. Já Milton Hatoum, em uma entrevista a Birman (2005), apresenta-nos importantes contribuições sobre o olhar através de uma característica imprescindível de seus personagens/narradores: trata-se do olhar do tralhoto, peixe amazônico de olhar cindido, também chamado de “quatro-olhos”, embora tenha apenas dois, que possui a curiosa peculiaridade de ver, ao mesmo tempo, o que está na superfície e no ambiente aquático, submerso. Hatoum toma este peixinho de olhar cindido/duplo e o usa como metáfora para caracterizar o olhar de seus personagens e narradores - um olhar duplo que procura captar também o que não se nomeia, o não sentido, o que não se apresenta de forma direta e objetiva, percorrendo, ao mesmo tempo, o externo e o submerso. Nas palavras de Hatoum, em entrevista concedida a Birman (2005, p.6):
É como se fosse aquele peixe da Amazônia, o tralhoto, que fica na superfície da água olhando para dentro e para fora. Ele vive na superfície, tem um olhão e metade do olho fica para fora, metade para dentro. Vê o céu e vê a água, as profundezas. É esse olhar duplo, do interior e do exterior, que é importante para este tipo de narrador.
Hatoum faz, dessa característica do tralhoto, a condição imprescindível de seus narradores, em especial para Arminto: “...o olhar do narrador apreende a falta de sentido. É esse olhar que não conhece tudo e vai se surpreendendo com o que acontece. É uma espécie de construção dessa falta de sentido” (Birman, 2005, p. 6). Apostamos em uma analogia entre o olhar do “narrador-tralhoto” e o olhar que Lacan nos apresenta, pois ambos tentam, a partir do não sentido, bordear o real. Ou seja, o absurdo da falta de sentido com que o olhar de Arminto se depara, ao ser “capturado” por Dinaura, parece ser da ordem do encontro com o real.
O olhar como modalidade do objeto aLacan (1964/1998) nos mostra que o olhar denuncia a angústia inerente à falta constitutiva. Nele, algo sempre escapa; é onde claudicam as representações do eu, ao se furarem as identificações imaginárias, capturando o sujeito a partir do real. Diferenciando a função do olho e a do olhar, temos, na primeira, o reinado do imaginário, das identificações narcísicas do eu. Se a função do olho está para as aparências, a função do olhar está para além, interrogando o sujeito sobre a origem de seu desejo, e, diferentemente do eu, o qual é apaziguado pelo belo das aparências, o olhar expõe o sujeito ao inominável, à falta de significação, ao terror da morte. Do mesmo modo, o sujeito encontra no olhar a interrogação da causa do seu desejo. Eis o brilho do objeto a, com todo o seu caráter evanescente, fugaz e angustiante, pois o olhar é uma das modalidades deste objeto:
O olhar pode conter em si mesmo o objeto a da álgebra lacaniana, no qual o sujeito vem fracassar, e o que especifica o campo escópico e engendra a satisfação que lhe é própria, é que lá, por razões de estrutura, a queda do sujeito fica sempre despercebida, pois ela se reduz a zero... Na medida em que o olhar, enquanto objeto a, pode vir a simbolizar a falta central expressa no fenômeno da castração, e que ele é objeto a reduzido, por sua natureza, uma função puntiforme, evanescente - ele deixa o sujeito na ignorância do que há para além da aparência. (Lacan, 1964/1998, p. 77)
Para Quinet (2002), o olhar, conforme os ensinamentos de Lacan, descortina o horror que o gozo escópico suscita, trazendo para a primeira grandeza o olhar petrificante e fascinante de Medusa, pois a modalidade do olhar da pulsão escópica é fonte de angústia, portadora de gozo mortífero. Assim, a posição feminina é desvelada pelo olhar, verdadeiro furo na significação fálica: “O olhar como objeto a (no lugar do (- φ) da castração) vem substituir A Mulher que não existe” (Quinet, 2002, p. 12).
Arminto e seu olhar de tralhoto nos remetem, de forma análoga, a esta esquize entre o olho e o olhar, possibilitando-nos pensar o sujeito a partir da fita de Moebius (Lacan, 1964/1998), em que o inconsciente não constitui uma profundeza irracional, em que consciência e inconsciente são separados cartesianamente em partes definidas, pois se trata aqui de um avessamento, uma torção, redimensionando-se a relação interno/ externo. Como o olhar do tralhoto, que possui dois olhos, de modo a capturar, ao mesmo tempo, a superfície e o submerso, a fita de Moebius denuncia que o inconsciente não se apresenta como algo polarizado e fixo. O olhar do tralhoto, assim como a fita, mostra não ser possível estabelecer limite entre o dentro e o fora. É um mover que denuncia a estrutura do sujeito, em movimento de contínuo avessamento.
Assim, o olhar ilumina o objeto a, encarnado na pessoa amada, sendo ele a causa da torção na fita de Moebius, instrumento da matemática que serviu como metáfora para Lacan pensar a estrutura do sujeito. A fita de Moebius aponta a falta constitucional do sujeito, e sua relação com a angústia, quanto à modalidade do olhar, este nos aproxima do olhar que Hatoum propõe em seus narradores-tralhotos. Esta metáfora pensa a questão do sujeito como não constituído por uma consciência cartesianamente separada de seu inconsciente, sendo este o lugar do obscuro, do demoníaco, ou seja, o inconsciente romântico, como assevera Lacan (1964/1998). O narrador-tralhoto tem um olhar que contorna, ao mesmo tempo o que está na superfície e o que se encontra submerso, cujo limite é impossível precisar, em um movimento de dois olhos cindidos que capturam esse duplo registro em uma continuidade, não se tratando de registros separados radicalmente.
O olhar e a faixa de Moebius nos permitem, logo, pensar o sujeito em seu enlaçamento, em especial com o objeto a, e sua relação com a angústia. Lacan (1962-63/2005) nos mostra que a angústia não é sem objeto, pois só podemos aludir a esse sentimento que não engana com base na presença ou na ameaça da presença de a. Não se trata de um objeto representável, passível de ser apreendido pela sensibilidade, pois o objeto a é da ordem do inapreensível. No entanto, não podermos nos referir especificamente a um objeto da angústia, um próprio da angústia. Lacan alerta que a existência da angústia tem relação com o objeto. Justamente porque existe objeto é que ocorre a angústia, pois esta se dá como sinal da presença do objeto, embora não saibamos qual é esse objeto, quando surge a angústia. Neste sentido,
o objeto a é aquilo atrás do qual passamos a vida correndo. Procuramos aquele objeto que um dia nos deu uma suposta satisfação sem igual. É o objeto que viria no lugar do objeto perdido de uma primeira e suposta satisfação completa. Esse objeto pode tornar a forma de um rabo de saia, uma b..., um c..., um p..., uma x..., um quê. Mas nunca o reencontramos, a não ser tão somente em seus substitutos, transitórios e fugazes. Basta um olhar, às uma voz, e ei-lo. Não, ele não está de volta, é apenas o eco do que foi perdido sem nunca ter existido. (Quinet, 2012, p. 34)
Em Órfãos do Eldorado (Hatoum, 2008), o olhar de Dinaura captura Arminto, e este, sem sabê-lo, encontra-se agora enlaçado pelo gozo feminino, experimentando seus furos e angústias. O gozo feminino, encarnado no olhar de Dinaura, arrebata Arminto, e ele, já cego, sem saber o que olhou naquilo que viu, claudica em uma caminhada incansável, procurando apreender, domar, possuir Dinaura: seu Eldorado, que se torna cada vez mais inacessível. O que seria o encontro de seu pleno amor é, na verdade, um (re) encontro com o desamparo.
Arminto e o olhar de Dinaura
Órfão do Eldorado (Hatoum, 2008) conta a história de Arminto Cordovil e de sua paixão pela misteriosa Dinaura. Além de ser a personagem principal, Arminto também é o narrador de sua própria história, narrada para um viajante desconhecido, às margens do Rio Amazonas, às sombras de um imenso pé de Jatobá. Arminto teve seu nascimento marcado pela morte de sua mãe, a qual ocorre em decorrência de problemas na hora do parto. De uma só vez, Arminto fica órfão de mãe e, de certo modo, também de pai, pois este último, Amando Cordovil, rico empresário, que fez fortuna durante o ciclo da borracha na Amazônia, atribui ao recém-nascido a responsabilidade pela morte de sua amada. A relação entre pai e filho sempre foi marcada pelo desprezo, pelo silêncio e pela culpa. O filho arranca, em ato, a mulher dos braços do pai: “Entre nós dois havia a sombra de minha mãe: o sofrimento que ele suportava desde a morte dela. Para Amando, eu era o algoz de uma história de amor” (Hatoum, 2008, p. 27).
Já na vida adulta de Arminto, durante uma tentativa de reconciliação entre pai e filho, mediada por um advogado amigo da família chamado Estiliano, Amando sucumbe a um ataque cardíaco fulminante e morre nos braços de Arminto: “Deitado, ele me olhava, o rosto engelhado de dor. Fiquei atrapalhado, massageando seu peito. Depois, o único abraço, no pai morto. O homem que eu mais temia estava nos meus braços. Quieto” (Hatoum, 2008, p. 27).
A vida de Arminto se modifica no momento em que, durante o enterro do pai, encontra e é encontrado pelo olhar de Dinaura, uma das inúmeras órfãs do Colégio Sagrado Coração de Jesus, instituição que recebia ajuda financeira de Amando:
De repente o olhar me encontrou e o rosto anguloso sorriu. Eu não conhecia a moça. Olhei tanto que a diretora do colégio do Carmo se aproximou de mim. Madre Joana Carminal veio sozinha, me deu os pêsames e disse secamente: O senhor Amando Cordovil era o homem mais generoso desta cidade. Vamos rezar por sua alma. (Hatoum, 2008, p. 28)
Arminto é arrebatado por este olhar, colocando em movimento angústia e desejo. Algo que foge a representações conscientes foi capturado nesse olhar demorado e magnético: “em nossa relação às coisas, tal como constituída pela via da visão e ordenada nas figuras da representação, algo escorrega, passa, se transmite, de piso a piso, para sempre nisso em certo grau elidido - é isso que se chama olhar” (Lacan, 1964/1998, p. 74).
De acordo com Quinet (2012), para que alguém eleja um objeto de amor, o escolhido deve estar no lugar de objeto a, como desejo de retorno de algo que jamais existiu. É tal objeto que dará as coordenadas das escolhas objetais, é o que realmente causa o desejo, o verdadeiro parceiro na sexualidade. Arrebatado pelo olhar de Dinaura, Arminto, com a ajuda de Estiliano, consegue, após muito trabalho, autorização da madre superiora e diretora do orfanato para encontrar Dinaura aos sábados à tarde - um namoro breve, marcado pelo silêncio de Dinaura.
Havia algo sobre Dinaura que não podia ser falado; seu silêncio e sua esquiva aguçavam ainda mais o desejo de Arminto. É o que observamos no encontro amoroso onde tiveram a única relação sexual, sob uma forte tempestade amazônica. Quando os corpos ainda estavam entrelaçados, Dinaura balbucia algo:
Encostei o ouvido nos lábios de Dinaura, mas a chuva nos ensurdecia. E o que pude ler nos lábios: uma história. Qual? Ela se vestiu e fez um gesto: que a esperasse, voltava logo. Saiu correndo, como se fugisse de uma ameaça. (Hatoum, 2008, p. 51)
A partir deste encontro, Dinaura desaparece sem deixar vestígios. Ofuscado pelo olhar de sua amada, alheio à crise que a exportação da borracha sofria, ocasionando uma série de falências e miséria na Amazônia, Arminto observa passivamente a perda de toda a fortuna deixada de herança pelo pai: “Joguei fora a fortuna com a voracidade de um prazer cego” (Hatoum, 2008, p. 14). A única coisa que interessa agora é Dinaura: “Esqueci o barco no dia em que meu olhar encontrou a moça do enterro de Amando... Não lembrava com nitidez do rosto; dos olhos, sim, do olhar... o olhar vivo.... o olhar dela era só feitiço” (Hatoum, 2008, p. 30). Mais à frente, Arminto, entre o olhar e o desejo, sentencia: “O olhar de Dinaura era o que mais me atraía. Às vezes o olhar tem a força de um desejo. Depois o desejo cresce, quer penetrar na carne da pessoa amada” (Hatoum, 2008, p. 31).
Arminto passa anos buscando Dinaura, tentando entender seu sumiço, e, quando já se encontrava conformado com a separação, o advogado e amigo íntimo de Amando revela a chave do mistério: Dinaura era amante ou filha do pai de Arminto. Mais uma vez, uma mulher se instala entre pai e filho: meia-irmã ou madrasta? E, da mesma forma que Arminto ao nascer arranca dos braços de Amando a sua amada, agora é Amando quem priva o filho de viver sua história de amor. O segredo de Dinaura e seu caráter evanescente estão relacionados à barreira do incesto:
Disse que sustentava uma moça órfã. Por pura caridade. Depois disse que não era só caridade. E me pediu que não contasse para ninguém. Não me disse se era filha ou amante... tinha idade para ser as duas coisas. No começo pensei que fosse filha dele, depois mudei de ideia. E sempre fiquei na dúvida. Dinaura... Minha irmã?, eu disse, engasgado.
Meio-irmã, corrigiu Estiliano. Ou madrasta. Essa é a minha dúvida. Nós tivemos uma noite de amor, eu disse.
Por isso ela quis ir embora. (Hatoum, 2008, p. 98)
Estiliano relata que Dinaura, agora portadora de uma grave doença, se encontra na ilha denominada Eldorado. Esta ilha é conhecida por abrigar hansenianos. Seguindo as coordenadas dadas por Estiliano, Arminto sai em busca de sua amada. Encontra no Eldorado o seu Eldorado: Dinaura. Mas agora sofrendo de hanseníase e investida de uma grande dúvida para Arminto, que não sabe se Dinaura é sua meia-irmã ou madrasta: “Se Dinaura fosse filha de Amando ou se tivesse sido amante dele era uma história entre os dois. É uma dúvida para sempre. Mas eu também não fazia porte dessa história?” (Hatoum, 2008, p. 101).
Arminto, ao chegar à ilha onde se encontrava Dinaura, constata: “aquele lugar tão bonito, o Eldorado, era habitado pela solidão” (Hatoum, 2008, p. 102). O Eldorado é mito, mas aqui não tratamos o mito como algo que traz consigo o engodo, a falta da verdade, o falseamento da realidade. Entendemos o mito como uma narrativa através da qual o sujeito elabora e constrói, a partir de suas fantasias, sua história individual, uma tentativa de cada sujeito falar de suas verdades que não podem ser ditas. É isto que aproxima mito e psicanálise, pois, como nos ensina Lacan,
...o mito é o que dá uma formulação discursiva a algo que não pode ser transmitido na definição da verdade, porque a definição da verdade só pode se apoiar sobre si mesma, e é na medida em que a fala progride que ela a constitui. Nesse sentido é que se pode dizer que aquilo em que a teoria analítica concretiza a relação intersubjetiva, e que é o complexo de Édipo, tem valor de mito. (Lacan, 1953/2008, p. 13)
No mito individual de Arminto, o Eldorado (navio que herda do pai) afunda; o Eldorado (onde Arminto encontra Dinaura) é solitário; o Eldorado de Arminto (Dinaura) é interditado via incesto. O fato do Eldorado, cidade de ouro onde o prazer é absoluto, sempre ter se mostrado inacessível para Arminto, faz-nos pensar no fato de que também o objeto a, enquanto causa do desejo, é da ordem do inalcançável e, antes de mais nada, é um objeto que nunca existiu, mas que lança as coordenadas do desejo e da angústia. O olhar de Arminto, ao encontrar e ser encontrado pelo olhar de Dinaura, é causa de torção e o deixa cego, mobiliza seu desejo e o inunda de angústia. O encontro com o objeto primordial e de satisfação plena está para sempre perdido, até mesmo porque jamais existiu, tal como o Eldorado, a cidade encantada.
Considerações finais
A partir da interlocução entre literatura e psicanálise, tentamos mostrar como o texto literário coloca o saber psicanalítico em movimento, fazendo-o ser pensado para além dos divãs. Neste sentido, vimos que o olhar, como modalidade do objeto a, aponta para o real e que podemos supor existir uma analogia entre o olhar de Arminto e o narrador-tralhoto. Alinhavamos o olhar, na obra de Hatoum, com a angústia e o desejo do olhar em Lacan enquanto modalidade do objeto a. Segundo Wajcman (2012), este é o objeto principal que caracteriza a arte do século XX, uma vez que o objeto a possibilita tentar representar o irrepresentável, pensar o impensável, apreender a ausência na presença, o que significa colocar o objeto a como verdadeiro objeto da arte no século XX.
Assim, acreditamos que a história de Arminto e Dinaura seja uma literatura que caminha na direção de um possível encontro com o real. Um real que se desvela a partir do imaginário, que possa fazer bordas em função do olhar, que se apresente na torção entre imaginário e real, quando o objeto a ameaça se fazer notar. Objetivamos sustentar a esquize do sujeito, através da interface com a literatura, abordando questões clínicas centrais, como o olhar, a angústia, o objeto a. O que é, antes de tudo, sustentar o discurso psicanalítico na contemporaneidade marcada pelo imediatismo e pelo saber da ciência, que tenta costurar a fissura constitucional denunciada por Freud e expandida por Lacan. Ou seja, é no sentido de reafirmar a radicalidade da descoberta de Freud e o ensino de Lacan que nos movemos. Movimento este necessário não só para a formação do psicanalista, como também para todo aquele que se proponha, pelo viés do consultório ou da pesquisa e da docência universitária, tentar apreender a vida pelo olhar que desvela a outra cena.













